A Vida de Brian: Pelos direitos humanos, contra a realidade

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No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absoluta.

Léa Maria Aarão Reis*

Brian Cohen nasceu no ano de 33, na província da Judéia, quando a Roma imperial ocupava a região através do seu preposto, o prefeito Pôncio Pilatos. Brian nasceu no canto de uma manjedoura, vizinho de outro bebê que também viera a este mundo na mesma hora: o menino chamado Jesus. Desde os primeiros momentos, a existência de Brian foi atribulada por sempre confundirem-no com o bebê do lado. Quando sua execrável mãe enxotou os três Reis Magos e deles tentou surrupiar o ouro que traziam destinado na verdade ao bebê vizinho, a cupidez humana se mostra entranhada na sua saga. Mais adiante, a ignorância, a alienação da massa histérica repetindo dogmas e mantras de forma cega e robotizada, e o cinismo do ambiente são a moldura da breve vida de Brian, morto crucificado aos 33 anos por ordem do juiz Pilatos sem qualquer culpa formada – exceto a de exalar carisma, motivar e mobilizar as massas, e entusiasmar os indivíduos humildes, aqueles que eram “o problema”, no dizer dos personagens dos burgueses ricos.

Uma sucessão inacreditável de mal entendidos e de lances do acaso, (o mesmo acaso do qual fala Woody Allen nos seus filmes), pontuam a vida de Brian. Esta sua trajetória é narrada no brilhante filme Life of Brian, de 1979, hoje um clássico do cinema  inglês, de autoria do cineasta Terry Jones, integrante do genial grupo Monty Python*. O mesmo grupo que sacudiu a forma de fazer humor, no mundo inteiro, nas décadas dos 70/80, inclusive no Brasil, inspirando o gênero batizado aqui de besteirol.

O filme de Jones, quando estreou, foi criticado ferozmente e dividiu opiniões apaixonadas. Houve e há ainda quem o veja como um filme antissemita. Os católicos viram nele uma blasfêmia. Mas outros o avaliam como uma genial e demolidora crítica à sociedade, até hoje atual; o que o filme na verdade é.

No ano 33, na Judéia, Brian vive uma vida paralela à de Jesus Cristo e sofre por ser confundido com ele. A confusão começa quando finge ser um pregador para fugir dos centuriões, mas tem suas pregações levadas a sério, arrastando atrás de si uma horda de seguidores. Para escapar da perseguição dos romanos, Brian se alia a uma coligação de grupo de oposição ao regime, a esquerda (ou a guerrilha) da época: a mais radical, a Frente do Povo Judeu; a Frente Judaica do Povo e a Frente Popular, esta representada por apenas um único homem velho, remanescente.

Por sua vez, pregam: “Jesus não percebe que abençoado é qualquer um bem vestido e à procura de status.”

As três organizações trabalham juntas “em defesa dos direitos humanos e contra a realidade”, em momentos específicos, por conveniência. Planejam sequestrar Pilatos. Na verdade, não se entendem e se detestam. Lutam por uma mesma causa, mas não conseguem conquistar uma vitória porque brigam e disputam todo o tempo entre si, nas intermináveis reuniões teóricas e até na violência física.

A farsa, para o Monty Python Terry Jones é permanente. Camelôs vendem pedras aos que se encaminham para assistir o espetáculo dos apedrejamentos. Algumas, pedras pontiagudas, outras achatadas, grandes ou pequenas, conforme o gosto do freguês. Alusão clara aos linchamentos da mídia e aos fetiches do consumo.

No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absolutas. O Outro nunca conta, é claro.

Em uma das intermináveis reuniões dos grupos ‘guerrilheiros’ discutem-se quais os benefícios trazidos pelos romanos para os judeus. Para além dos aquedutos, das estradas, saneamento, irrigação, cultura vinícola, educação, casas de banho, medicina. “Mas e para nós? O que fizeram por nós?” eles se perguntam.

“Eu não sou o Messias,” berra Brian, tentando, desesperadamente, esclarecer a confusão de identidades. O povo insiste: “É, sim!” “Então vocês vão se f…”, responde Brian, desanimado e entregando os pontos. Mas a massa/zumbi insiste e pergunta: “E como devemos  nos f..?”

“Pensem pela sua cabeça porque vocês são independentes! Vocês devem cuidar de vocês mesmos! Não deixem que os outros mandem em vocês!” vocifera Brian, procurando se desvencilhar da horda.

O velho leproso, curado por um “maldito milagre”, se lamuria, num canto. Antes, como um leproso, era mais fácil para ele ganhar a vida pedindo esmolas.

Duas sequências de A Vida de Brian são particularmente empolgantes. Diálogos que manejam o virtuosismo da inteligência em alta voltagem. Uma, no palácio, com Pilatos, que sofre de um distúrbio da fala, a dislalia, e troca ‘rs’ pelos ‘ls’. O juiz que condenará Brian sem culpa formada – quanta atualidade aí para o espectador brasileiro, neste momento – interroga Brian e, ao mesmo tempo, submete seus guardas à tortura ao proibir os acessos de risos deles diante do ridículo das suas falas. Se os centuriões não conseguirem reprimir o riso, serão presos e executados.

Outra sequência magistral é a do grand finale com a crucificação. Dezenas de prisioneiros são encaminhados por um burocrata romano ao Gólgota. A fila e o controle social são bem organizados. Já pregados e amarrados nas cruzes, os castigados acabam cantando, em coro, como num musical de Hollywood, a bonita composição que se tornou célebre no mundo inteiro e se transformou na marca musical do Monty Python: ”Dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida. (Always look on the bright side of life).

O autor da canção é Eric Idle, ator, escritor, cantor, compositor e guitarrista, hoje com 72 anos. Foi um ativo membro do grupo britânico. Com essa sua célebre composição, Idle provoca no espectador, nesse final da vida de Brian, não gargalhadas, mas  sorrisos amarelos.

É que conviver com néscios é dureza. Só é suportável sorrindo.


*Jornalista


**Alusão ao general Bernard Montgomery, herói britânico da Segunda Guerra Mundial.

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