Peça itinerante em Heliópolis traz histórias de mulheres da comunidade

Com o espetáculo ‘Utopia’, Grupo Arte Simples percorre ruas, becos e vielas de Heliópolis todos os sábados e domingos, apresentando histórias extraídas de relatos de moradoras do bairro de São Paulo.

por Xandra Stefanel

O espetáculo itinerante Utopia é uma espécie de cortejo feito pelo Grupo Arte Simples de Teatro pelas ruas, becos e vielas de Heliópolis, a maior favela de São Paulo. A inspiração para a peça veio dos livros As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, Mãe Coragem e seus Filhos eÓpera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, e de relatos reais que a companhia ouviu de moradoras da comunidade. O fio condutor da peça é busca pela vida e pelo lugar ideal, seja ele uma cidade, um bairro ou uma casa idealizada.Itinerante

Dirigido por Tatiana Rehder e Tatiana Eivazian, integrantes do grupo formado só por mulheres, o espetáculo nasceu das andanças das atrizes pela região, que permitiram uma “imersão na biografia da comunidade por meio das histórias de vida, dos relatos de memórias, da oralidade, da improvisação da arquitetura, das relações dos moradores com o poder público, a polícia e os problemas locais”.

Desde 2013, a companhia percorreu ruas, frequentou casas e reuniões de movimentos sociais locais em busca de uma realidade que afirmam ser pouco dramatizada. “Não queremos dar uma conotação poética e romântica para a comunidade, mas mostrar o abandono dessas mulheres, sua força e independência para, diante das dificuldades e tragédias, dar a volta por cima, tocar a vida e cuidar dos filhos”, declara a diretora Tatiana Rehder.

Paulo LuzO personagem que conduz a trama é Paulo Luz, um técnico da companhia de eletricidade que carrega os simbólicos fios que entrelaçam as histórias das mulheres do bairro. Ruth detesta morar em Heliópolis e pretende se mudar. Drica sonha em ser jogadora de futebol. Salete é analfabeta e quer ser cantora. Mãe Coragem ouviu da polícia que tinha duas escolhas: atirar ela mesma no filho infrator ou deixá-lo morrer cruelmente nas mãos deles. Rita conta como levou uma facada do marido durante a final da Copa do Mundo de 1994. Claudinha vende crianças e Artificial vende fama. Maria do Socorro teve nove filhos, mas somente três “vingaram”. Nise, que se casou pela primeira vez aos 13 anos, tem a vida marcada por sofrimento, mas sempre arrumou força para se levantar e seguir em frente.

Com exceção de Claudinha e Artificial, todas as personagens foram compostas a partir de histórias reais. Segundo Tatiana Eivazian, a escolha do tema não foi por acaso. “Primeiro, porque o grupo é composto só de mulheres. Segundo, porque as maiores lideranças comunitárias de lá são mulheres. E não só as lideranças, a comunidade parece se organizar matriarcalmente, as mulheres têm muita voz lá, independentemente da profissão ou posição que ocupam. Terceiro, porque – talvez por conta de tudo isso – há um grupo de mulheres da comunidade que se reúne todo sábado de manhã para dividir histórias de opressão e, juntas buscarem empoderamento e ajuda”, diz a diretora. “Uma parte do elenco frequentou essas reuniões, e esse ponto foi crucial não só pelas histórias que ouvíamos, mas pela convivência com essas mulheres, que nos levaram ao entendimento mais fidedigno de como aquele mulherio forte age, pensa, sente.”

O Grupo Arte Simples de Teatro faz residência artística em Heliópolis há sete anos, e para as integrantes era importante que a peça fosse encenada nos lugares onde as histórias realmente aconteceram. “Queríamos pesquisar algo que nunca tínhamos feito, que é uma peça/cortejo itinerante no meio do local da nossa residência artística, contando histórias que aconteceram exatamente no mesmo chão que as atrizes e a plateia pisam”, pontua.

“Queríamos transformar nosso objeto de pesquisa em palco, e também transformar em plateia cativa nossos ‘colaboradores dramatúrgicos’, já que eles generosamente abriram suas memórias e cederem suas histórias para o grupo. Nada mais justo e gratificante (pelo menos para nós do grupo) do que levar essas histórias para bem perto de seus ‘donos’, que podem revê-las ressignificadas ali, todo sábado e domingo, num teatro na própria esquina da sua rua, casa, beco, laje”, declara Tatiana.

Utopia tem apresentações gratuitas todos os sábados e domingos até 12 de junho, saindo do pátio do CEU Heliópolis, às 16h. Excepcionalmente, não haverá espetáculo nos dias 24 de abril e 5 de junho.

Utopia
Quando: até 12/06, aos sábados e domingos, às 16h
Peça itinerante, com saída do pátio do CEU Heliópolis
Avenida Estrada das Lágrimas, 2385, Heliópolis, São Paulo
Quanto: grátis
Duração: 100 minutos
Classificação: adulto (livre)
Capacidade: 20 pessoas
Gênero: drama
Mais informações: (11) 96848-6554
Transporte grátis: van disponível na Estação Sacomã do Metrô (Rua Silva Bueno) – até o local da apresentação. Reservas pelo telefone (11) 96848-6554 ou reserva@artesimples.com.br
Recomendação: usar sapatos confortáveis
Em caso de chuva não haverá apresentação
Não haverá espetáculo nos dias 24/04 e 05/06

Ficha técnica
Com: Grupo Arte Simples de Teatro
Direção: Tatiana Rehder e Tatiana Eivazian
Elenco: Andrea Serrano, Eugenia Cecchini, Isadora Petrin, Marcela Arce e Marília Miyazawa
Dramaturgia: Grupo Arte Simples de Teatro e Verônica Gentilin
Figurino: Kleber Montanheiro
Preparação corporal: Antonio Salvador
Supervisão musical: Adilson Rodrigues
Músicas originais: Adilson Rodrigues e Grupo Arte Simples de Teatro
Produtor articulador: Daniel Gaggini / MUK
Produção executiva: Andrea Serrano e Tatiana Rehder
Contrarregra/assistência de produção: Larissa Souza
Fotografia: Cacá Bernardes

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