‘Trago Comigo’ trata do esquecimento e da memória nos anos da ditadura

Diretora Tata Amaral destaca a importância de rememorar o período quando pessoas saem às ruas pedindo a volta dos militares.

por Tiago Pereira, da RBA

Lançado na última quinta-feira (16) nos cinemas, o filme Trago Comigo, da diretora Tata Amaral, trata das marcas deixados pela ditadura nas trajetórias pessoais daqueles que viveram o período sombrio, e de toda a sociedade brasileira, que ainda hoje convive com heranças dos anos de chumbo, como a tortura.

O filme conta a história do diretor de teatro aposentado Telmo Marinicov, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, que participou da resistência contra o regime civil-militar inaugurado com o golpe de 1964. Indagado sobre  sua companheira da luta armada Lia, Telmo busca resgatar a memória desse amor, apagada pelo trauma da tortura e violência.

Da busca por essas lembranças, duras e doces, Marinicov decide montar uma peça reconstituindo a ação de seu grupo nos idos de 1968, quando da decretação do AI-5, que marca a fase mais obscura da ditadura, com perdas de liberdades individuais e coletivas, prisões, torturas e mortes. “É a história de uma peça. É também a história de um homem que procura resgatar o seu amor de juventude, ao mesmo tempo em que busca resgatar seu sonho de liberdade e de mudança”, diz a diretora Tata Amaral à RBA.

Para a montagem da peça, Telmo dirige um grupo de jovens atores que, a partir desse recorte geracional e das dificuldades de entender o que movia a luta daquela época, surgem com uma série de embates e tensões de ordem moral e ideológica.

A história foi filmada em 2009. Tata afirma que o filme ganha ares de “urgência” no atual momento, principalmente quando pessoas saem às ruas pedindo pela volta da ditadura, por conta de uma “ideia-fantasia”, que deturpa o ocorrido naqueles 21 anos de arbítrio. “Essas pessoas não sabem que, numa ditadura, se você pede um outro tipo de regime, como a democracia, isso já significaria voz de prisão, tortura e morte”, frisa a cineasta.

tata

Tendo retratado o mesmo período no filme Hoje, Tata Amaral diz ser fundamental lembrar da ditadura enquanto práticas daquele período, como a tortura, seguem incomodando no presente. “A tortura é uma prática de Estado, no Brasil, e ela precisa acabar. Como sociedade, temos que dizer que a gente não quer mais saber de tortura. Nesse momento em que estou falando com você, alguém está sendo torturado em alguma prisão. Isso porque a gente nunca disse não”.

Além da história da montagem da peça, Trago Comigo apresenta ainda depoimentos reais de homens e mulheres que participaram da luta armada e viveram na pele os horrores da repressão. No entanto, os nomes dos algozes torturados foram silenciados no filme, pois seguem impunes, sem julgamento.

A diretora, que se declara favorável à revisão da Lei da Anistia (1979) para que os agentes de estado que cometeram crimes sejam punidos, lembra que a tortura é classificada pela ONU como crime de lesa-humanidade e que, portanto, esses crimes não prescreveram.

“As pessoas que contestaram o regime foram presas, acusadas, torturadas, exiladas, algumas foram mortas. Os torturadores nunca foram sequer importunados. Inclusive recebem pensão do Estado brasileiro, que premia a tortura”, lamenta a diretora.

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