Livro “A hora do teatro épico do Brasil” é relançado após 20 anos

Da esquerda para direita, Helena Albergaria, Iná Camargo Costa e Sérgio de Carvalho - Créditos: Nadine Nascimento/Brasil de Fato

Iná Camargo Costa traz nova edição da obra em debate sobre arte e resistência em São Paulo (SP).

Nadine Nascimento
 
O teatro político foi tema do debate de relançamento do livro A hora do teatro épico do Brasil, de Iná Camargo Costa, realizado nesta quarta-feira (26), no estúdio Latão, zona oeste de São Paulo (SP). Reunindo atores, dramaturgos, pesquisadores acadêmicos e militantes, o encontro comemorava os 20 anos da primeira edição da obra.
O ciclo de debates A hora do teatro épico no Brasil e o trabalho crítico de Iná Camargo Costa teve em sua mesa de abertura, além da própria autora, os intelectuais Rafael Villas Boas, professor da Universidade de Brasília (UNB), e Sérgio de Carvalho, da Companhia Latão e professor da Universidade de São Paulo (USP). A mediação ficou sob a responsabilidade de Helena Albergaria, também da Companhia Latão.

Os debatedores relembraram a trajetória de vida e de militância política de Iná até chegar ao seu objeto de estudo do doutorado, o teatro épico. A pesquisadora foi vítima da perseguição política aos grupos de teatro durante a ditadura militar.

“A minha pergunta era: o que tem de tão grave que a ditadura precisa perseguir estudantes fazendo teatro? Isso foi o que me levou a integrar de forma muito empenhada um grupo de pesquisa, criado no fim dos anos de 1970 na USP, que se dedicou a fazer o levantamento mais exaustivo possível de materiais relativos à produção da arte política dos anos 1960”, lembrou Iná.

A autora foi influenciada, principalmente, pelas ideias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, um dos maiores nomes do teatro épico. Segundo ela, esse tipo de teatro deve “partir de um problema e não de um tema”; portanto, deve fazer uma análise crítica da sociedade, levando o espectador a reagir e a tomar posição.

20 anos depois

O livro, que tem sua reedição publicada pela Expressão Popular, foi disponibilizado originalmente em 1996. Questionada por Carvalho sobre a recepção da obra na época, Iná lembrou sobre a grande procura por grupos de teatro.

“Quando o livro foi publicado veio a pergunta: ‘Estamos no início dos anos 1990. Quem se interessa por esse tipo de livro? Para minha surpresa, o primeiro sinal de recepção foi de um grupo de teatro gaúcho. E, assim, eu descobri que o que eu escrevi como uma tese de doutorado era legível para grupos de teatro. Eles sofriam aquela mesma repressão que eu sofria na ditadura. O livro gerava uma interlocução que eu sonhava sem saber”, afirmou.

Para ela, essa reedição “é um aviso aos novos grupos sobre a importância de não desistir da luta”.

Teatro e resistência

A certa altura, o debate relacionou o relançamento do livro com a atual situação política do Brasil e os ataques aos direitos dos trabalhadores. Para Iná, a política de conciliação de classes dos últimos anos é um dos principais motivos da crise.

“Hoje no Brasil podemos dizer que a política de reformas ‘pavimenta avenidas’ para o fascismo. A política da social-democracia de alianças, que paralisa a luta dos trabalhadores, também caminha para o fascismo. Assim que Temer assumiu, passamos a ter um governo oficialmente fascista. Eles mobilizaram a classe média, que é a grande massa fascista. A gente viu isso desde 2013 até agora. E é o capital financeiro que patrocina tudo isso”, analisa Iná.

Segundo ela, o teatro e a cultura têm importância “secundária” em relação à intervenção política. Iná acredita que o mais importante é “a formação política e teórica, bem como a organização da militância para a a luta propriamente dita”. Quando estas questões estiverem devidamente contempladas, o próximo passo seria “cuidar da cultura em geral e da cultura específica da luta”.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

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