Consuelo de Paula: produção independente valoriza a cultura popular

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“Precisamos de todas as expressões artísticas”, diz a cantora. Do pop, toada, do samba, “de outras que vêm do barro do chão, dos rios, das montanhas, do pólen, da pedra, do asfalto, outras do pó”
por Vitor Nuzzi, da RBA
São Paulo – “Canto como quem tenta apenas transmitir poesia enquanto baila entre a aparente imobilidade e o invisível voo”, diz Consuelo de Paula, nascida em 1962 na Rua 7 de Setembro, na pequena Pratápolis, sudoeste de Minas Gerais. Desde sempre, artista inquieta. “Queria loucamente fazer qualquer coisa que fosse próxima à vida que levo hoje: fazia canções, cantava, inventava peças de teatro, tocava instrumentos de percussão, tocava violão e dançava! Ouvia com paixão os congados, os moçambiques, as folias, o carnavais, as serenatas, os LPs da minha avó e dos meus pais…”, conta.

Antes que a música se tornasse o verdadeiro ofício, Consuelo foi estudar Farmácia na Universidade Federal de Ouro Preto. “Cantei na Casa da Ópera de lá e foi incrível” recorda. O primeiro violão, ela ganhou dos pais, aos 13 anos. “Nunca mais me separei dele. Nunca foi meu instrumento principal – minha voz é meu instrumento –, mas me ajudou muito a construir o meu universo de expressão.”

Da cidade histórica mineira, ela seguiu em 1988 para São Paulo, onde, como diz, começou a preparar a sua obra e a construir sua história, que hoje já tem seis CDs, um DVD e um livro (A Poesia dos Descuidos, 2011). “Eu me lembro que fiquei meio perdida quando saí de Ouro Preto e só voltei a me sentir bem em São Paulo”, diz. “Intuitivamente eu soube que aqui teria condições para desenvolver a minha arte.”

Cecília e Adoniran

O primeiro disco, Samba, Seresta & Baião, é de 1998, exatamente dez anos depois de chegar e se instalar em São Paulo. O trabalho mais recente é O Tempo e o Branco, lançado em 2015. Com muitas melodias de Rubens Nogueira, o Rubão (o parceiro mais constante de Consuelo morreu em 2012), arranjos de Toninho Ferragutti (acordeon) e de Neymar Dias (violão e viola caipira), o álbum tem a presença permanente de Cecília Meireles, que inspirou várias canções, como Revoada, que abre o CD (“Minha mão espera seus pássaros/ Uns pousam, outros passam”).

No show que lançou o disco, no ano passado, Consuelo surpreendeu ao apresentar uma “parceria” com Adoniran Barbosa. Era um melodia de 1934, dele e do músico Copinha. A cantora recebeu de um admirador um link com participação de Copinha no programa Ensaio, da TV Cultura. A melodia ganhou letra, escrita quase de imediato – e o nome de Valsa para Mathilde, nome da companheira de Adoniran por décadas. “Amor, quando eu partir, ouça a canção que eu lhe fiz/A flor que prometi, a minha mão, os bem-te-vis/Nossa paixão, a nossa casa, o céu do meu país/O som da valsa, a vida que eu quis/ Teu nome, o nosso tempo mais feliz (…)”

Consuelo ouve de tudo, a raiz, o profundo. “Se formos falar do que a grande mídia divulga, não estaremos falando da realidade. Claro que esta divulgação tendenciosa acaba influenciando a realidade, mas o que noto em minha experiência é que sabemos, sim, quais são os nossos sons. O Brasil sabe, o brasileiro sabe, principalmente em sua mais essencial emoção, em sua pele, em suas células. E na produção musical independente você percebe fortemente isso.”

O que não significa negar influências, das mais diversas. “Mesmo num som que sofre forte influência do mundo – e influências naturais são sempre bem-vindas, e as “influências naturais” não resultam de apenas um país ou de apenas um ritmo, pressupõe-se que podem vir de múltiplos povos, de infinitas convivências –, é o nosso som, é a forma de expressão daquele artista, com a história dele, com a alma dele, com o corpo dele. Isso se for uma expressão de arte.”

Arte e mercado

Mas é preciso ouvir e ouvir, pondera a cantora. “A música veiculada pela grande mídia tem outros objetivos e na maioria das vezes não vemos influências, mas sim imitações. Não estou dizendo que não pode haver música de arte sendo veiculada nos grandes meios de comunicação, mas geralmente as grandes gravadoras estragam o que poderia ser realmente verdadeiro, transformador e transcendente. Acho que existem motivos políticos e não só econômicos.”

Para ela, o objetivo do mercado não é a arte. “Estou no Brasil, seria natural ouvir nas rádios e televisões pelo menos mais de 50% de canções brasileiras de milhares de artistas, músicas distintas com suas organicidades e estranhezas. E cada artista com sua respiração particular, com seus silêncios e pausas, cada um com seu ritmo, com sua poesia. Quem precisa ouvir música, quem se alimenta com arte musical, tem que descobrir as produções independentes. Por isso é importante que a gente se preocupe com a possibilidade de continuar existindo a produção independente. O mundo não precisa de todas as espécies de aves? Quando alguma destas aves é ameaçada de extinção, choramos. Pois então, precisamos de todas as expressões artísticas: daquelas que vêm dos mistérios das toadas, de outras que vêm do universo do samba, das expressões que respiram como na música pop, de outras que vêm do barro do chão, outras dos rios, outras das montanhas, outras do pólen, outras da pedra, outras do asfalto, outras do pó, outras de tudo isso, outras do nada.”

Pesquisadora, Consuelo de Paula enfatiza a diversidade, “que demostra nossa criatividade em produzir canções contemporâneas e surpreendentes, quando nos inspiramos em nossas vivências ou quando sofremos influências naturais da música do mundo”. E a expressão poética, diz, só se dá por necessidade, quando precisa vir. “Se houver outro objetivo, essa senhora exigente chamada arte retira-se.”

Também é preciso ganhar estrada para ver e ouvir arte. “Cresci vendo congos e moçambiques passando nas ruas da minha cidade natal. Depois, assim que cheguei a São Paulo, fui assistir a muitas festas populares, participei do grupo Abaçaí, do grande Toninho Macedo (Antonio Teixeira de Macedo Neto, atual diretor cultural da organização social). E até hoje, pelo menos três vezes ao ano, vou a festas populares. Da mesma forma que amo frequentar rodas de samba, rodas de choro. Da mesma forma que frequento shows dos meus colegas de ofício. Enfim, amo música e naturalmente, amo a música brasileira.”

Esse amor se direciona tanto à cultura popular como àquela que nela se inspira. “A nossa música rural ou urbana, do interior ou dos grandes centros, tem sua essência em algum raminho da música de nossa cultura popular. Adoro a nossa música urbana que traz em sua alma os rastros e os perfumes da nossa paisagem, mesmo quando o resultado é totalmente contrastante”, diz Consuelo.

E é por isso que ela vive, canta, escreve e trabalha, afirma. “Faço parte de uma geração que produz mesmo quando o mundo diz não. Poderíamos ter feito mais e melhor, mas os dias eram e são assim. Continuaremos criando, pois é nosso ofício neste mundo. Ser artista hoje é como remar contra a maré, mas é também um ofício que nos dá muito prazer e força, um ofício que nos provoca a vontade de recomeçar a cada nova canção…”

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