Com origem na ditadura, pichação nasceu como forma de protesto

Pixo_Link Roots

Para Link Roots, a pichação não surgiu querendo agradar. Alvo de João Doria, morador da zona leste acredita que prefeito deveria enfrentar os problemas mais sérios. “É bem precária a situação aqui”.

por Luciano Velleda, para a RBA

 São Paulo – “Eu nunca vou pichar um muro branquinho. Pra um bom pichador, o maior prazer é chegar num muro todo pichado e procurar um espaço, nem que seja de um palmo, porque sabe que ali é tudo coisa antiga e que o picho vai ficar por muito tempo. O muro branco, no outro dia, a gente sabe que o dono vai ficar bravo e vai gastar dinheiro pra pintar e apagar”, explica Link Roots, grafiteiro e pichador há 16 anos.

Por outro lado, Link reconheça haver aqueles que picham muros lisos, sem qualquer desenho. “Isso é coisa de novato”, define.

Morador do extremo leste da cidade de São Paulo, na divisa dos bairros de Itaquera, Guaianazes e Cidade Tiradentes, ele critica a postura do prefeito João Doria (PSDB) em declarar guerra contra os pichadores em vez de iniciar seu governo enfrentando os problemas mais sérios da cidade. “O cara dá prioridade a apagar grafite enquanto a UBS (Unidade Básica de Saúde) é uma porcaria e as ruas estão todas esburacadas. É bem precária a situação aqui.”

Link Roots explica que a pichação nasceu durante a ditadura, como forma de protesto, não surgiu querendo agradar. Depois, segundo ele, evoluiu do discurso exclusivo contra os governos para uma contestação mais ampla. “Você pode rodar o planeta e vai ver que grafite é mundial, enquanto a pichação é um estilo próprio do Brasil, principalmente em São Paulo.” Nesse estilo particular, há também o que ele chama de “grapixo”, a escrita de letras com técnicas do grafite, com cor, volume, perspectiva, sombras e degradê.

Pintor profissional durante o dia, quando atende pelo nome de Diego, fala com satisfação dos encontros de grafite que ajudou a organizar no extremo-leste da cidade a partir de 2007. Atualmente, toda terça-feira à noite a comunidade faz luau e, às vezes, um sarau. “Muitos veem a pichação, mas não sabem quem está por trás. O cara picha, mas tem visão do que acontece ao redor. A sociedade não tá ligada, acha que somos todos uns sem ter o que fazer, e não é assim, tem muito pai de família, tem cara que usa droga, tem cara que não bebe uma gota de álcool, é nisso que a sociedade não tá ligada.”

Link Root participou das pinturas na Avenida 23 de Maio, promovidas pela gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). Lembra que os grafiteiros tiveram a oportunidade de trabalhar em áreas grandes e para a pichação foram reservados espaços menores. Para ele, isso não importou e diz ter ficado feliz com a experiência. “O Haddad quis interagir, colocar grafiteiro e pichador junto, ele teve a intenção de unir todo mundo.”

Link não tem dúvida de que haverá reação à declaração de guerra de João Doria contra os pichadores. “Nossa voz tem que ser ouvida, seja no muro ou nos meios de comunicação”, afirma.

Já para Mundano, “artivista” do grafite e da reciclagem, o caminho para São Paulo ser uma “cidade linda”, nome batizado por Doria para seu programa de zeladoria, não deve ser baseado em um discurso de negação à liberdade de expressão, incitação ao ódio entre seus próprios cidadãos e com “referências estéticas e conceituais de uma cidade tão dispare como Miami”.

“Acredito que a missão da arte não é decorativa, e sim reflexiva. Busco no meu artivismo transformar essa cidade opressora e monocromática, que substituiu nossas áreas verdes por estruturas cinzas, que enterrou nossos rios vivos com ruas e paredões cinzas que refletem o porque do nosso céu e ar que respiramos estarem cinzas”, disse Mundano, para quem a censura é “o maior dos elogios e o maior desafio”.

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