Preta Rara e a geração de mulheres negras protagonistas

“O que é ser mulher preta e gorda nesta sociedade?” perguntou-se em 2003 a rapper Preta Rara, hoje com 31 anos, ex-empregada doméstica que se tornou professora de história e ativista feminista rompendo com o padrão imposto à maioria esmagadora das mulheres negras e pobres. Joyce, nome de nascimento de Preta, faz parte de uma geração protagonista de negras que vivenciou políticas públicas inclusivas no período de 2003 a meados de 2016.

Por Railídia Carvalho

“Graças a essa política de Lula e Dilma é que existem hoje várias mulheres negras nas universidades sem precisar mais de favor de patrão. Foi um governo que deu dignidade para gente resistir e existir nesse país que agora é nosso”, declarou por telefone Preta ao portal Vermelho.

Ela enumerou como marcos dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva a Secretaria da Promoção da Igualdade Racial, a obrigatoriedade da lei 10.639, que instituiu o ensino da história da África na rede pública de ensino, e a atenção à saúde da população negra. Na opinião de Preta hoje o cenário com o governo Temer é de retrocesso.
“Vivemos um momento triste atualmente de uma bomba que vai explodir a qualquer momento. Estava vendo com uma amiga a reforma da Previdência e eu vou me aposentar com 119 anos. Espero chegar aos 130 pra gozar da aposentadoria”, ironizou Preta. Ela afirmou ter iniciado a campanha Lula presidente em 2018. “É preciso desmistificar o que passa no jornal nacional”.
Trajetória
A história de Preta é o enredo de vida da maioria das meninas e mulheres negras. Como diz Preta, só muda o nome e o endereço. De origem humilde, a menina nascida em Santos é neta e filha de empregada doméstica. Por oito anos também exerceu a profissão. No meio de 2016 relato feito por ela em uma página criada no facebook chamada “Eu, empregada doméstica” viralizou agregando relatos de milhares de mulheres sobre abusos e humilhações de patrões.
“Quando eu expus a minha realidade sempre falava no passado. Deixei de ser doméstica em 2009. Achei que de lá muitas coisas tinham evoluído que o comportamento e o pensamento do brasileiro tinham mudado. Não mudou. Os escravos do século XVIII são as empregadas domésticas”.
Os relatos fazem parte do projeto de um livro que será lançado neste ano e terá campanha de financiamento coletivo. “Preciso dar voz a essas mulheres que ficaram tanto tempo silenciadas”, explicou. Os relatos dão conta de agressões físicas, humilhações e privações no ambiente de trabalho como não poder ir ao banheiro ou se alimentar na casa em que trabalham.
Trincheiras
O histórico de preconceitos fez nascer inúmeros projetos de resistência e denúncia social. Preta acumula compromissos entre eles palestras em universidades, movimentos, associações e empresas. Além do verbo tem a música (em 2015 lançou o cd Audácia) que é o “meio que rompe barreira”. Preta faz militância pela música. Nas mãos dela, o rap entrou nas escolas da baixada como ferramenta pedagógica:“Para trazer uma nova perspectiva de cultura para os alunos”.
Ela mantêm ações que promovem a auto-estima das mulheres negras e gordas. É modelo plus size e promete para este ano o lançamento de uma linha de roupas Preta Rara Plus Size. Está no cinema no documentário Mulheres Negras – projeto de Mundo, de Day Rodrigues, lançado em 2016 com depoimentos de 9 feministas negras.
Geração incômodo
Preta passou uma parte da vida observando o incômodo que gerava nas pessoas. “Trabalhei em um museu e era a responsável por apresentar o espaço. Quando as pessoas me viam pediam pra eu chamar o educador, E eu dizia sou eu e as pessoas diziam não tem outro”, relembrou.
O incômodo agora é provocado por Preta. “Ano passado criei o termo que se chama geração incômodo. Percebi isso claramente quando falei no TEDxSão Paulo, que foi na Sala São Paulo (foto), que as pessoas pagaram caro pra estar ali. Pagaram pra eu poder falar sobre o privilégio delas.  Eu vi um certo desconforto, as pessoas se revirando na cadeira e ao final todo mundo ficou megablaster emocionado. Através do incomodo você gera a mudança”.
A rede de movimentos e iniciativas pela igualdade de gênero e igualdade racial tem crescido. “O racismo não dá folga, o machismo não dá folga por isso são muitas as iniciativas para dialogar e mudar esse cenário. Acredito que é difícil de deixar de existir mas que pelo menos diminua e que as crianças que estão nascendo agora e os adolescentes cresçam com esse conhecimento.
A virada de Preta coincide com o início da virada nas políticas públicas brasileiras. “Fui fazer um cursinho na Uneafro e lá tinha uma aula de cidadania e nessa aula falava sobre direitos e deveres. Lá foi apresentado o feminismo que não era o contrário do machismo como pensava. Comecei a me interessar pelos meus direitos e pelos direitos das pessoas que não sabem que tem direitos”.
“Se a população resistiu à escravidão vamos resistir a isso também”, concluiu Preta.

Assista composições do cd Audácia, de Preta Rara

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