O mundo da infância, pela diretora de “O começo da vida”

Jornal GGN – No Instituto Alana, a cineasta Estela Renner concedeu entrevista a Luis Nassif, falando, principalmente, sobre seu último filme. “O Começo da Vida”, filme que é um documentário inspiracional sobre primeira infância, muito circulou e circula nas redes sociais, estimulando o debate.

Estela assina também, como diretora, os filmes “Muito Além do Peso” e “Criança, a alma do negócio”, entre outros, e ressalta que o audiovisual, como ferramenta de engajamento social, é capaz de transformar famílias e mover agendas políticas.

Ao longo da entrevista, ela contou experiências da equipe de filmagem em viagem a China, Quênia, Índia, Itália, Canadá, Estados Unidos. Logo após conhecer Reggio Emilia, cidade exemplo que investiu na primeira infância para se recuperar do pós-guerra, a equipe se assustou com os centros de educação extracurricular para bebês na China.

O documentário demonstra um potente trabalho de distribuição nacional e internacional. Pelo Brasil, está sendo exibido em dezenas de capitais via redes comerciais de salas de cinema. Em São Paulo, foi exibido em nove CEUs (Centro Educacional Unificado) integrando a programação do Circuito SPCine numa parceria com a São Paulo Carinhosa (leia aqui e aqui). Na plataforma VideoCamp, o filme alcançou um público de 66 mil pessoas com uma estratégia de estímulo à exibição local. Junte cinco pessoas e faça o download do filme aqui. A seguir a entrevista com Estela Renner.

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Luis Nassif: De que maneira se convive a estabilidade emocional com o conceito de autoridade materna e paterna?

Estela Renner: É curioso isso. O novo saber que a neurociência traz, os pedagogos, os psicólogos, é que criança é competente. Ela não pode ser vista como uma incompetente que não é capaz de entender o que o pai fala, é uma pessoa. Quando ela brinca, não está só brincando, fazendo arte, desobediência, não! Ela está descobrindo o mundo, ela é uma cientista. Já é provado que a criança muito pequena, ela experimenta o mundo fazendo estatísticas, vai uma vez, de novo, testa, ela é criativa nesse saber. Então, não dá pra dar uma bronca na criança sem enxergá-la, e sem ouvi-la de volta. Na questão da autoridade, ela aprende muito vendo os pais se relacionando. Não é igual um cachorro que tem que ser direto! Se existe uma relação de submissão entre o marido e a mulher, ela está aprendendo questão de gênero ali. Não é quando tiver um namorado, uma namorada, que ela vai entender o que é ser autoritário ou não.

Luis Nassif: Acaba se refletindo lá?

Estela Renner: Se reflete lá. Então tudo acontece na infância. É por isso que na psicologia, quando a gente vai fazer terapia, eles falam: “E aí como foi sua infância?”. Como entrar e resignificar esses exemplos? É como se fosse a base de uma casa, ela fica estruturando ali. E depois se está no último andar e quer atingir essa base frágil, tem que percorrer todos os outros andares pra chegar ali. É um percurso difícil né, passou-se uma vida inteira. Então, o lugar mais eficiente de investir numa sociedade é na primeira infância.

Luis Nassif: Você aborda no filme um exemplo italiano de uma cidade que acabou virando, nos anos 80 e 90, o símbolo do trabalho colaborativo na nova Itália. O que você viu lá em termos de política para as crianças?

Estela Renner: Bom, a gente esteve em Reggio Emilia graças à conexão que a Red Solare Brasil fez com a gente. Eles têm bastante propriedade pra se aprofundar nessa questão. Eu pude observar, com as pesquisas e com minha estadia de uma semana em Reggio Emilia, que é colaborativo e social desde o começo. Enquanto nos Estados Unidos, morei lá sete anos, as crianças estão nos seus cadeirões com suas comidinhas e ambientes particulares. Em Reggio Emilia, desde a primeira infância, bebês, eles sentam na mesa e se olham no olho, eles compartilham o alimento. O que você está dizendo com isso? Que eles são seres sociai e não seres egocêntricos. Caiu essa história que são egocêntricos e não se importam com o mundo. Eles são empáticos, sociais, criativos, nascem livres, tem muito interesse no outro. Na hora de durmir, não se dorme em berços, eles dormem em colchões, um pode acessar o outro.

Luis Nassif: Isso aí é creche?

Estela Renner: Creche! É uma cidade que depois do pós-guerra estava em ruínas. Foi feita uma votação na cidade e eles resolveram se reconstruir a partir da infância. Então, se eu não me engano, 22% da prefeitura é direcionado à primeira infância, à educação infantil.

Luis Nassif: A cultura mais competitiva norte-americana e essa cultura cooperativa nessa parte da Itália, vocês pegaram pontos em comum também?

Estela Renner: A gente procurou trazer para o filme o que a gente espera que seja o mundo no futuro, ele é muito inspiracional. A gente acabou filmando alguns pedaços que a gente não colocou no filme e vai fazer algum audiovisual com eles. Por exemplo, na China, tem creches que querem ensinar as crianças a sentir. Sinta raiva, sinta tristeza! É ultra padronizado, eles criaram mil escolinhas onde tem que aprender linguas, a lidar com sentimentos. Você não pode imaginar o horror! Eu chorei de ver as crianças serem tratadas daquela forma, eu tinha acabado de chegar do Reggia Emilia. É muito caro, e os pais que não colocam as crianças de seis meses nesses centros (centros de educação extra curricular), se sentem culpados por não estarem colocando conteúdo que o filho precisa pra sobreviver nesse mundo competitivo.

Luis Nassif: Tem algum padrão se firmando para atender a esse potencial que está sendo liberado para as crianças pequenas?

Estela Renner: Não através desse filme. Não através da pesquisa desse filme. Mas, através de outros filmes que eu assisti como Território do Brincar, Educação Proibida, está se questionando cada vez mais essa noção de pegar as crianças no momento que elas têm mais energia e falar: “agora fica sentada e me ouve”. Está bem complexo lidar com isso. Como que tudo avança e a escola continua o mesmo modelo de cem anos atrás. Agora, não é pra dar pra criança a informação através de um tablet! Cadê o afeto? Cadê a interatividade e as experiências significativas que o coletivo pode trazer?

Luis Nassif: No ponto de vista de internet, qual foi o modelo que vocês montaram pra disseminação do filme?

Estela Renner: Desde o filme “Muito Além do Peso”, que a gente fez sobre a obesidade infantil, e até no “Criança, a alma do negócio”, nosso objetivo é ferramentar a sociedade com obras audiovisuais para que as pessoas possam seguir nas suas agendas. Que essas obras ajudem as pessoas. Então, sempre colocamos da forma mais democrática possível. No caso do “O Começo da Vida”, estamos colocando numa plataforma que o Instituto Alana criou em conjunto com Maria Farinha Filmes que chama Videocamp. Lá existem filmes do mundo inteiro, não só nosso. Se tiver um número mínimo de cinco pessoas pode baixar o filme e fazer sua própria exibição. Na sua casa, escola, cidade, no seu computador, qualquer lugar vira sala de cinema. Porque existem poucas salas de cinema no Brasil, só 10% tem sala de cinema. Fica bem pouco democrático.

Luis Nassif: E quem tem acessado esses filmes?

Estela Renner: A gente colocou “O Começo da Vida” nessa plataforma ontem! E de ontem pra hoje já tem setenta e seis exibições agendadas. Estamos vendo o filme já como ferramenta de advocacy porque está em Câmaras Municipais, Secretarias, Prefeituras.

Luis Nassif: São cinco pessoas mínimas para a exibição?

Estela Renner: Sim, pode acompanhar isso pelo site. Qualquer um pode ir nessas exibição, é pública e gratuita. Pra baixar o filme tem que falar o lugar da exibição, tem que ser pública e tem que ser gratuita.

Luis Nassif: E essas pessoas dão retorno?

Estela Renner: Como retorno elas precisam dar o número de pessoas que foi na exibição e uma foto. Se elas quiserem dar mais elas podem, e isso é muito bem vindo. A gente estimula o debate e oferece ferramentas pra debate. É muito legal saber se houve debate, o que foi descoberto, as conclusões… Muitas pessoas querem dividir. A gente já colocou um outro filme nessa plataforma que chama “Território do Brincar” e a gente recebe fotos de exibições feitas em ocas de índio e em Brasília. Hoje o filme está sendo distribuído para cinco mil prefeituras com um kit de trabalho. Porque o filme tem muitas pautas, fala de empatia, de gênero, de parentalidade, de afeto, de brincar, de cultura de paz, de negligência. A Fundação Maria Cecilia preparou um kit com materiais pra professores, gestores, lideres, poderem se aprofundar nos assuntos.

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