Filme resgata história de ex-preso político condenado à pena de morte

Theo‘Galeria F’, de Emília Silveira, refaz trajetória de Theodomiro Romeiro dos Santos rumo à sua liberdade, depois de sobreviver a nove anos de prisão e muita tortura durante a ditadura.

por Xandra Stefanel

Aos 14 anos de idade, Theodomiro Romeiro dos Santos começou sua luta no combate à ditadura. Aos 18, em 1970, foi preso, torturado e, depois de cumprir nove anos de prisão, decidiu fugir da penitenciária Lemos Brito, em Salvador. Quarenta anos depois, acompanhado do filho e da cineasta Emília Silveira, ele refaz boa parte do caminho que traçou durante sua fuga. É esta a história do documentário Galeria F, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 30 de março, às vésperas do aniversário do golpe de 1964.

O longa-metragem começa com uma reunião de família na qual Theo revê o álbum que resume sua história e a infância dos filhos. A partir de uma narrativa não-linear, a diretora vai apresentando aos poucos a trajetória do primeiro civil condenado à pena de morte no período da República brasileira.

Seu crime? Além da militância política no Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele reagiu à prisão e acabou matando um sargento da Aeronáutica que tentava atingir um companheiro. Condenado à morte por um tribunal militar, teve, três meses depois, sua pena alterada para prisão perpétua. Foi sequestrado e torturado por dias seguidos.

Enquanto muitos celebravam a anistia, Theo viu seus amigos, também presos políticos, serem soltos e soube que sua vida corria sério risco. Aos poucos, o espectador entende que, ainda muito jovem, nove anos depois de ser preso, o senhor que é hoje juiz do Trabalho não tinha outra opção, senão fugir do presídio, em agosto de 1979.

Sua fuga, notícia dentro e fora do país, só foi possível graças à solidariedade de companheiros do partido e de padres. Foi assim que Theo deixou a Bahia, passou pelo Rio de Janeiro e terminou parte desta aventura forçada em Brasília. E é exatamente este o caminho que ele refaz agora ao lado de Emília e de seu filho Guga, que até então conhecia bem pouco da história do pai.

É por isso que Galeria F é praticamente um road movie, com entrevistas feitas nos locais por onde Theo passou e dentro do carro, enquanto viajam. A câmera é uma espécie de passageiro no banco traseiro do veículo, uma testemunha das lembranças que vêm e vão ao longo do trajeto, acompanhadas de pontos de vista de amigos da época e do olhar atento de Guga.

É quando Theo visita os lugares onde foi torturado que o filme atinge o pico de tensão e emoção. Impossível não imaginar as dores físicas e psicológicas pelas quais ele passou. “Quando você começa a ser torturado, há um confronto seu com o inimigo. Você o chama de filho da p*ta, você o insulta, você entra num conflito com ele, num confronto. E isso é mais fácil de fazer. Outra coisa é você ficar amarrado aqui, sozinho, sentado, com os seus fantasmas e seus medos, com os olhos vendados. Você fica se enfrentando sozinho. Não tem ninguém te batendo, não tem ninguém fazendo nada. Mas daí você começa a enfrentar os seus medos: ‘será que eu vou aguentar dessa vez, será que eu não vou denunciar ninguém?’ Então, você fica com essas angústias todas, enfrentando sozinho. Pra mim, essa era a pior situação de todas”, relembra Theodomiro.

Uma das cenas mais perturbadoras do longa-metragem é quando, dentro de uma cela onde ficou preso, Theo anda, em silêncio, sem parar e declara: “É por isso que quando você vê no zoológico o bicho na jaula de um lado para o outro, você entende porque ele está fazendo aquilo. Porque as pessoas também fazem”, resume, em uma espécie de metáfora do que foi a ditadura civil-militar.

Assim como muitos filmes que retratam este período sombrio da história do Brasil, o longa de Emília Silveirapromove uma importante reflexão para que os males vividos naquela época não se repitam nunca mais. “Galeria F é um documentário no tempo presente. Ao reconstituir a história de um ex-preso político condenado à morte que escapou da ditadura, o filme, na verdade, fala do Brasil de hoje. De um Brasil que esqueceu fatos marcantes do seu passado e jogou pra debaixo do tapete boa parte do sofrimento e das marcas deixadas por 21 anos de ditadura militar”, anuncia o texto de divulgação do filme.

CartazGaleria F
Direção: Emília Silveira
Produção executiva: Rosane Hatab
Roteiro: Margarida Autra
Produção: 70 Filmes
Coprodução: GloboNews, Globo Filmes, Canal Brasil e Santo Guerreiro
Distribuição: Elo Company
Direção de fotografia: Vinicius Brum
Montagem: Joana Collier, edt
Trilha original: Fabio Mondego
Direção de arte: Rafael Denoni
Som direto: Aloysio Compasso
Figurino: Marcia Pitanga
Pesquisa: Margarida Autran, Marcelo Zelic
Ano: 2016
Duração: 87 minutos

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