Espetáculo de Estopô Balaio promove viagem poética ao Jardim Romano

No trem‘A Cidade dos Rios Invisíveis’ acompanha espectadores em trem rumo ao extremo leste de São Paulo. Rap, grafite, histórias de enchentes e um pôr do sol à beira do rio compõem a apresentação do coletivo.

por Xandra Stefanel

São Paulo – O Coletivo Estopô Balaio vai ao encontro do Nordeste escondido em São Paulo e leva junto espectadores dispostos a perceber a cidade com um olhar cheio de poesia. A Cidade dos Rios Invisíveis, em cartaz aos sábados e domingos até dia 30 de abril, é uma peça itinerante – encenada dentro do trem da CPTM – que sai da Estação Brás rumo ao Jardim Romano para apresentar histórias, anseios e vivências de quem atravessa a cidade.

O grupo define a peça como uma vivência poética e realista que proporciona uma reflexão sobre a cidade por meio dos olhares dos viajantes dos trens rumo ao extremo leste de São Paulo. O espetáculo gratuito tem 3h30 de duração e parte sempre do Espaço Cultural da Estação Brás, segue pelas ruas do bairro Jardim Romano e termina no córrego Três Pontes, que é um braço do Rio Tietê. No bairro, várias intervenções artísticas – dança de rua, rap e performances – se entrelaçam com o cenário cotidiano dos moradores.

Segundo João Júnior, diretor da montagem, a peça abre os olhos do espectador para uma relação diferente com a cidade: “Seguimos pela cidade nos deslocando entre trens, metrôs e ônibus em nossas solidões tentando passar o tempo através de aparelhos de mp3, celulares, livros, enquanto, a cidade passa desapercebida ao olhar do cidadão. Assim, pensamos em estruturar uma dramaturgia que ampliasse o olhar sobre a cidade a partir da forma de se relacionar com ela, que grande parte da população tem quando se desloca diariamente. Mas São Paulo é complexa e são tantas. Saímos da experiência urbana e feroz da Estação do Brás da CPTM em meio ao movimento ruidoso dos trens e pessoas e seguimos até o pôr do sol em um rio no Jardim Romano numa cena bucólica. Enfim, a cidade está aí cheia de ângulos para ser vista e praticada, basta coragem para deslocar-se. O nosso olhar sobre a cidade busca sempre descobrir novas possibilidades de cidade, e consequentemente, de sua beleza. Mas precisamos avançar o olhar para além de nossa circunferência de vida e urbana”.

Esta é a última parte da Trilogia das Águas, que desde 2012, com Daqui a Pouco o Peixe Pula e O que Sobrou do Rio, narra histórias de enchentes vividas pelos moradores desse bairro. “Quando percebemos, estávamos construindo uma jornada sobre a memória social do Jardim Romano pautada na migração nordestina e nas enchentes. Num primeiro momento, construímos um espetáculo apenas com jovens moradores do bairro que recontavam suas histórias e de seus vizinhos tendo a rua como espaço de fruição da obra. O espetáculo chamava-se Daqui a Pouco o Peixe Pula e se deu a partir do recolhimento de narrativas que diziam respeito a experiência com as enchentes na rua, no espaço público”, afirma João Júnior.

O segundo espetáculo, O que Sobrou do Rio, tratou sobre a casa, abrigo e proteção que perde suas funções estruturais e simbólicas quando é atingida por uma enchente. “O segundo projeto tinha como objetivo investigar a memória privada da enchente, ou seja, como era viver com água dentro de casa durante três meses.

O que Sobrou do Rio acontecia dentro de uma instalação cenográfica construída a partir das casas do bairro e dos locais destas casas onde recolhemos as narrativas. O espetáculo já contava com a presença de atores profissionais numa relação dialética com a representação destas narrativas juntamente com os atores moradores. Quando terminamos o segundo ano, nos perguntamos: e o corpo? Como se deu esta experiência no corpo?”, relembra o diretor.

É assim que nasceu a última parte da trilogia. “A Cidade dos Rios Invisíveis busca investigar esta memória no corpo, não no corpo do morador, mas no corpo social do bairro, no corpo do espectador, no corpo do usuário e morador do extremo leste que pega o trem todos os dias para trabalhar. Nos lançamos o desafio de trazer outros olhares para o Jardim Romano e durante todo o tempo de nossa residência buscávamos incessantemente mostrar o bairro. Mas, a dinâmica da cidade e a rapidez do dia a dia não permitia o deslocamento. Então, resolvemos montar um espetáculo que já fosse a viagem de trem até o bairro. Que narrasse os bairros do extremo leste e sua invisibilidade diante do olhar de outros públicos e cidadãos”, declara.

É uma peça que mostra a poesia, as belezas e a diversidade de São Paulo, daí a importância da migração nas obras do Coletivo Estopô Balaio. “Quem não é migrante nesta cidade? De uma certa forma migra-se diariamente nesta cidade. É preciso manter um olhar de estrangeiro para não acomodar-se e fazer a cidade se tornar sempre viva dentro da gente. São Paulo é um exercício diário.

DIVULGAÇÃOteatro
‘São Paulo é nordeste, agreste, urbana, rural, negra, índia, boliviana, haitiana, síria… É o mundo.’

Não podemos nos deixar abater ou ser cooptado pelo ritmo feroz dela. É preciso mergulhar nela. Sinto que olhar pelas bordas pode nos fazer enxergá-la com mais profundidade. São Paulo não é um cenário econômico ditado pela Avenida Paulista. São Paulo é mais. São Paulo é muito. São Paulo é nordeste, agreste, urbana, rural, negra, índia, boliviana, haitiana, síria… É o mundo. Nesse sentido, olhar para o Nordeste aqui é saber-se de si e de si no mundo”, opina João Júnior.

Os ingressos para A Cidade dos Rios Invisíveis são gratuitos, mas é necessário fazer uma reserva por e-mail (com nome completo, telefone e a data desejada), pagar o valor da passagem do trem e chegar com 30 minutos de antecedência. Como o espetáculo é itinerante, ele está sujeito a mudanças em caso de chuvas.

A Cidade dos Rios Invisíveis
Quando: aos sábados e domingos, até 30 de abril, às 14h
Ponto de encontro: Espaço Cultural da Estação Brás
Quanto: grátis, com reserva pelo e-mail reservas@coletivoestopobalaio.com.br
Duração: 3h30
Lotação: 60 pessoas
Classificação: a partir de 12 anos (crianças devem ser acompanhadas de um adulto)

Ficha técnica
Criação Coletiva
Ideia original, roteiro e direção geral: João Júnior
Dramaturgia: Estopô Balaio
Atores: Ana Carolina Marinho, Juão Nin, Johnny Salaberg, Amanda Preisig, Edson Lima, Adrielle Rezende, Bruno Fuziwara, Keli Andrade e Paulo Oliveira
Participação: Emerson Alcade e Seu Vital
Musicalização e percussão: Josué Bob
Trilha sonora: Marko Concá
Sonoplastas: Carol Guimaris, Geovane Fermac e Doutor Aeiuton
Poetas: Emerson Alcade, Jacira Flores e Rata Fiuza
Canções: Diane Oliveira, Dustin Mc e Matheus Farias (Família Nada Consta), Juão Nin e Marko Concá
Figurino: João Júnior
Artes visuais: Paula Mendes, Renato Caetano, Clayton Lima
Dança de rua: Bia Ferreira, Mell Reis, Luan Breezy e Kayque Silva
Produção: Wemerson Nunes, Keli Andrade, João Júnior e Ana Carolina Marinho
Contra-regras: Clayton Lima, Ana Maria Marinho, Lisa Ferreira e Ramilla Souza

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