Documentário resgata raízes e dilemas da Estação Primeira de Mangueira

Mangueira

‘Memória em Verde e Rosa’ passeia pela trajetória da escola de samba e problematiza a descaracterização trazida pelos interesses econômicos a um ícone de uma das importantes manifestações populares do Brasil.

por Xandra Stefanel

Patrimônio do samba carioca e nacional, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira é a grande vedete do documentário Memória em Verde e Rosa, e seu palco é o bairro de mesmo nome na zona norte do Rio de Janeiro.

Dirigido por Pedro von Krüger, o filme que estreou nesta quinta-feira nos cinemas tem como “mestre de cerimônias” o compositor Tantinho e outros sambistas da campeã do carnaval carioca de 2016. As memórias e reflexões sobre os rumos da escola são embaladas por canções marcantes como Linguagem do Morro e Exaltação à Mangueira, além de outras pérolas do samba nacional criadas naquela área que ainda hoje é uma importante referência para a história do ritmo.

É como se Tantinho tomasse o espectador pelas mãos e dissesse: “Abra seu coração para uma viagem musical ao âmago desta que é uma das maiores paixões nacionais”. O passeio é embalado pela música, pelos passos apertados e ritmados dos sambistas e por vozes em off que contam anedotas cheias malandragem, carisma e simpatia. Impossível não se emocionar com histórias tão genuínas de pessoas que dedicaram toda vida e amor ao samba e o carnaval quando o ritmo ainda não era produto mercadológico. Ao contrário.

Segundo um dos baluartes da escola, Raymundo de Castro, levou tempo para que eles conquistassem o respeito na comunidade. “O samba cresceu e se sustentou graças ao terreiro de macumba porque o sambista era considerado um criminoso. Basta ver o próprio Arengueiro. Fizeram o Arengueiro por quê? Porque os blocos no morro, que eram blocos ‘de família’, não aceitavam a turma deles, do Carlos Cachaça, Cartola, porque eles eram arruaceiros. Se você fizesse uma roda de samba, todo mundo era preso, e o terreiro de macumba disfarçava como se tivesse fazendo macumba, mas era samba que tinha lá”, lembra.

As histórias que vêm à tona vão desde a ocupação da favela com a importante atuação do irmão do compositor Geraldo Pereira como “empreendedor imobiliário”, a dificuldade em encontrar couro para tamborim (pobres gatos!), o papel fundamental das pastoras e outras mulheres na comunidade, a criação do Zicartola, até o momento em que os ensaios da escola de samba viram uma coqueluche, quando a zona sul do Rio de Janeiro sobe o morro e muda a alma do lugar.

Um dos sambistas resume: “O samba de terreiro acabou quando a classe média invadiu a escola. Quando você quer acabar com uma coisa qualquer, você não persegue, não proíbe. Você entra no meio e vai minando”. Outro declara: “O negócio da gente era a Mangueira, era colocar a Mangueira num pedestal cada vez mais alto. Nós nunca esperamos que a Mangueira fosse ser o que é hoje, não! Ela hoje já não é mais tão nossa quanto ela era. Nós é que continuamos a ser Mangueira.”

Memória em Verde e Rosa é uma espécie de panorâmica de mais de 100 anos de amor ao samba, um resgate de um patrimônio imaterial que tem riqueza de origem humilde e um sabor brasileiro que só nossa música tem. Apesar da justa crítica sobre aos efeitos da mercantilização e ao conglomerado do carnaval, é reconfortante saber que a Mangueira terá para sempre Cartola, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Tantinho, Hélio Turco, Padeirinho e tantos outros cujas músicas eternizadas nunca deixarão o samba de verdade morrer.

“Essas pessoas têm dentro delas como se fossem florestas. É como se cada um fosse um baobá, com muita folhagem, com muita história, muita raiz e com muita chuva caindo em cima para ela se manter viva. Enquanto a indústria vem com seus massaricos, seus tratores, derrubando tudo isso e não deixando nada para a memória, aparaceram sambas que estariam sepultados se não fossem essas vozes, se não fossem essas pessoas com essa memória, com esse apego a coisa patrimonial da escola, do samba”, entoa um sambista sobre imagens de um galpão repleto de adereços de carnaval.

Durante todo o filme, as vozes em off acabam ficando sem dono, o que causa certa estranheza no início, mas ao final fica claro que todas aquelas declarações vêm de um só corpo, de uma comunidade apaixonada e orgulhosa pela sua história e pela música espalhou pelo país e pelo mundo.

Memória em Verde e Rosa
Direção: Pedro von Krüger
Produção: Alípio Carmo, André Horta, José Constant e Pedro von Krüger
Produção executiva: José Constant e Bruno Arthur
Roteiro: Alípio Carmo e Felipe Bibian
Pesquisa: Alípio Carmo
Direção de fotografia e câmera: Lula Cerri e Pedro von Krüger
Assistente de direção: Gabriel Medeiros
Pesquisa iconográfica: Vicente Oliveira e Gabriel Bernardo
Fotografia adicional e câmera: Bacco Andrade, Cris Conceição, Daniel Bustamante
Edição: Marilia Morais, edt
Produção: Com Domínio Filmes e Formiga Produções Culturais
Distribuição: Com Domínio Filmes

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