Archive for Abril, 2017

Pitanga e o país que poderia ter sido

Abril 13, 2017

Documentário sobre o ator notável provoca ao dar ao personagem a condução da narrativa. E também por sugerir, em tempos sombrios, outro Brasil: dionisíaco, erótico, miscigenado e justo.

Antonio Pitanga é um ator intuitivo, vigoroso, desses aos quais se costuma conferir o epíteto de “força da natureza”. No caso dele, o clichê se justifica. Em mais de cem filmes, telenovelas e minisséries, ele encarnou, sempre com notável energia, escravos rebeldes, sambistas, bandidos, pescadores, feirantes, macumbeiros – e muito mais raramente profissionais liberais e cidadãos de classe média, o que não é de estranhar num país ainda tão dilacerado pela desigualdade racial.

Como retratar, num documentário, as várias dimensões desse singular artista baiano, que despontou no cinema novo e marcou presença em terrenos tão díspares como o teatro de vanguarda paulista, as escolas de samba cariocas, a militância política, as relações afro-brasileiras e as novelas de televisão?

Sujeito e objeto

O caminho escolhido pelos diretores Beto Brant e Camila Pitanga foi fazer um filme com Antonio Pitanga, mais do que sobre Antonio Pitanga. Em Pitanga, é o próprio ator que conduz a narrativa, revisitando os lugares onde viveu, reencontrando as pessoas com quem se relacionou profissional ou intimamente, rememorando passagens conhecidas ou obscuras de sua trajetória. Em vez de entrevistado, ele é entrevistador. Em vez de objeto, sujeito.

O resultado é um filme vívido, pulsante, que evita a frieza do registro documental, museológico, e também o tom de homenagem, quando não de hagiografia, que costuma permear os documentários alicerçados em depoimentos de “cabeças falantes” sobre o personagem retratado.

Entremeando as memórias evocadas por Pitanga e seus interlocutores, vemos cenas de seus filmes, peças de teatro, telenovelas, intervenções públicas, num tecido audiovisual tão envolvente que nem percebemos de imediato que essa exposição está organizada em blocos temáticos nem um pouco rígidos, antes novelos que se interpenetram do que propriamente blocos.

Amor e luta

Há, portanto, uma construção orgânica, que potencializa as várias facetas do protagonista em vez de aprisioná-las em compartimentos estanques. Da juventude em Salvador, com suas feiras, terreiros de candomblé e aulas de teatro, passamos sem perceber ao caudaloso capítulo das namoradas, companheiras e amantes, que vão de uma surpreendente Maria Bethânia até a militante comunitária e ex-governadora do Rio Benedita da Silva, passando pela atriz e modelo Vera Manhães, mãe de seus filhos Camila e Rocco.

Outro “novelo” dos mais densos é o da presença negra no cinema e na televisão, com Pitanga trocando ideias e relatos com seus colegas negros de várias gerações (Lea Garcia, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Lázaro Ramos). Sem ressentimentos, mas também sem condescendência, essas conversas amenas acabam por traçar uma história de luta constante contra a discriminação.

Com a mesma simpatia irresistível, o mesmo afeto e o mesmo humor, Pitanga conversa com grandes nomes da arte e da cultura (Zé Celso, Caetano Veloso, Paulinho da Viola etc.) e com anônimos feirantes, pescadores, mães de santo. É a encarnação viva de um sonho feliz de país, um país solar e dionisíaco, erótico e miscigenado, livre e justo. Assistir a Pitanga é viajar durante uma hora e meia por esse território imaginário que poderia ter sido – e quem sabe um dia ainda venha a ser – o Brasil.

Melhores do ano

Está em cartaz até 19 de abril no CineSesc, em São Paulo, o tradicional Festival Sesc Melhores Filmes, que exibe dezenas de produções que se destacaram no ano anterior, com base numa ampla votação da crítica e do público.

Nesta sua 43ª edição (é o festival mais antigo de São Paulo), o grande premiado nacional foi Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, o mais votado tanto pelos críticos como pelos espectadores nas categorias filme, direção, roteiro e atriz (Sonia Braga). Na seara internacional, houve uma fragmentação maior. A crítica escolheu O filho de Saul, do húngaro László Nemes, e o público optou por A garota dinamarquesa, do britânico Tom Hooper. O melhor diretor, segundo o público, foi Alejandro Iñárritu, por O regresso; para a crítica, foi Denis Villeneuve, por A chegada.

Mais importante do que a premiação, porém, é a nova oportunidade de ver, numa das melhores salas de exibição paulistanas, filmes notáveis que muita gente deixou de ver por um motivo ou por outro, como O cavalo de Turim, de Béla Tarr, O botão de pérola, de Patricio Guzmán, e Ela volta na quinta, de André Novais, entre muitos outros, ou rever clássicos absolutos como Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, O poderoso chefão, de Francis Coppola, e Lawrence da Arábia, de David Lean. São duas semanas de uma festa ininterrupta do cinema.

Fonte: blog do IMS

PEREIRA DA VIOLA É ENTREVISTADO PELO SITE BRASIL DE FATO

Abril 12, 2017

Aproveitem esse singular trabalho do Brasil de Fato com a singeleza do violeiro e cantador Pereira da Viola. Um corte na falsa palavra de ordem dos insensíveis e embrutecidos “sertanejos” urbanoides.

CHUVA, SOL E CHORO DIANTE DA PREFEITURA PARA DÓRIA “DESCONGELAR’

Abril 12, 2017

Músicos tocam e pedem recursos para manutenção do Clube do Choro. Gestão municipal bloqueou grande parte do orçamento destinado à cultura.

São Paulo – Os primeiros músicos chegaram pouco antes das 11h diante da sede da prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá, centro paulistano, nesta quarta-feira (12). Meia hora depois, eram dezenas, que começaram a roda de chorinho com Cochichando, de Pixinguinha. Era o início de um protesto musical pela liberação de orçamento para o Clube do Choro de São Paulo, que também perdeu sua sede, o Teatro Arthur Azevedo, na Mooca, zona leste.

Debaixo de sol e chuva, lembrando um choro de Chico Buarque (“uns dias chove, noutros dias bate sol”), em torno de 60 músicos, sendo boa parte bastante jovem, tocaram clássicos do gênero, enquanto pediam o “descongelamento” de recursos. Enquanto tocavam Na Glória (Raul de Barros/Ary Santos), o refrão tradicional que remete ao título da composição virou “ê, Doria”, uma reclamação com humor ao prefeito João Doria (PSDB), que contingenciou grande parte do orçamento destinado à cultura, acabando com os recursos para o Clube do Choro e “despejando” seus integrantes do teatro.

“É falta de visão dos governantes”, diz o percussionista Yves Finzetto, presidente do Clube, afirmando que a cultura proporciona também dá retorno financeiro. “São Paulo é uma capital cultural e movimenta muito a economia. Os administradores públicos poderiam ter uma visão do século 21”, critica. “O choro nunca dependeu de recursos públicos para sobreviver. Há uma profusão de grupos e rodas pela cidade. Mas um centro de excelência amplifica e se torna referência, um polo aglutinador do gênero. Sem a sede, a população perde um ponto de referência.”

Já juntando público, os chorões vão de Cheguei (Pixinguinha e Benedito Lacerda) e Doce de Coco (Jacob do Bandolim), passam por Sonoroso (K-Ximbinho), quando começa a chuva. Eles continuam, mas a água aumenta e todos correm para uma marquise, do outro lado da rua. Ao meio-dia, sob as badaladas dos sinos da Igreja de Santo Antônio, a mais antiga do centro, estão sob outra marquise, na Praça do Patriarca, encharcados e tocando. “Isso é Brasil!”, grita Sorriso do Bandolim.

Inaugurado em 1952, o Teatro Arthur Azevedo passou por quatro anos de reformas até ser reaberto pela prefeitura (na gestão anterior, de Fernando Haddad), em agosto de 2015, quando se tornou sede do Clube do Choro, com programação regular. Até este ano – não houve mais apresentações no local. “A população local, acostumada, com a programação semanal, achou estranho”, lembra Yves. Um jornal da região, a Gazeta da Vila Prudente, procurou a Secretaria da Cultura e foi informado que o teatro não abrigaria mais os músicos do Clube.

Ontem (11), a assessoria de comunicação da secretaria reafirmou que o Arthur Azevedo “não é mais sede” do Clube e que não havia previsão para a retomada das apresentações. Também informou que o orçamento está contingenciado. Desde o início do ano, os músicos fazem gestões e tentam convencer a prefeitura a liberar recursos.

Para Yves, falar em contenção de despesas chega a ser um “argumento perverso”, considerando que o orçamento para a área de cultura não atinge 1% do total do município, e que o Clube teria direito a 0,1% desse valor. Nas conversas com representantes da administração, segundo ele, a resposta é que “o processo de descongelamento tem outras prioridades”. Ele avalia que a prefeitura tenta apostar em uma divisão, mas acrescenta que “estamos juntos em uma Frente Única da Cultura”.

O sol reaparece, já perto das 13h, e as dezenas de músicos atravessam novamente a rua para se instalar outra vez diante da sede da prefeitura, onde alguns funcionários parecem gostar da apresentação. Tocam Tico-tico no Fubá (Zequinha de Abreu) e Noites Cariocas (também de Jacob). Parecem se divertir. Doria viajou segunda-feira para a Coreia do Sul.

Espetáculo de Estopô Balaio promove viagem poética ao Jardim Romano

Abril 9, 2017

No trem‘A Cidade dos Rios Invisíveis’ acompanha espectadores em trem rumo ao extremo leste de São Paulo. Rap, grafite, histórias de enchentes e um pôr do sol à beira do rio compõem a apresentação do coletivo.

por Xandra Stefanel

São Paulo – O Coletivo Estopô Balaio vai ao encontro do Nordeste escondido em São Paulo e leva junto espectadores dispostos a perceber a cidade com um olhar cheio de poesia. A Cidade dos Rios Invisíveis, em cartaz aos sábados e domingos até dia 30 de abril, é uma peça itinerante – encenada dentro do trem da CPTM – que sai da Estação Brás rumo ao Jardim Romano para apresentar histórias, anseios e vivências de quem atravessa a cidade.

O grupo define a peça como uma vivência poética e realista que proporciona uma reflexão sobre a cidade por meio dos olhares dos viajantes dos trens rumo ao extremo leste de São Paulo. O espetáculo gratuito tem 3h30 de duração e parte sempre do Espaço Cultural da Estação Brás, segue pelas ruas do bairro Jardim Romano e termina no córrego Três Pontes, que é um braço do Rio Tietê. No bairro, várias intervenções artísticas – dança de rua, rap e performances – se entrelaçam com o cenário cotidiano dos moradores.

Segundo João Júnior, diretor da montagem, a peça abre os olhos do espectador para uma relação diferente com a cidade: “Seguimos pela cidade nos deslocando entre trens, metrôs e ônibus em nossas solidões tentando passar o tempo através de aparelhos de mp3, celulares, livros, enquanto, a cidade passa desapercebida ao olhar do cidadão. Assim, pensamos em estruturar uma dramaturgia que ampliasse o olhar sobre a cidade a partir da forma de se relacionar com ela, que grande parte da população tem quando se desloca diariamente. Mas São Paulo é complexa e são tantas. Saímos da experiência urbana e feroz da Estação do Brás da CPTM em meio ao movimento ruidoso dos trens e pessoas e seguimos até o pôr do sol em um rio no Jardim Romano numa cena bucólica. Enfim, a cidade está aí cheia de ângulos para ser vista e praticada, basta coragem para deslocar-se. O nosso olhar sobre a cidade busca sempre descobrir novas possibilidades de cidade, e consequentemente, de sua beleza. Mas precisamos avançar o olhar para além de nossa circunferência de vida e urbana”.

Esta é a última parte da Trilogia das Águas, que desde 2012, com Daqui a Pouco o Peixe Pula e O que Sobrou do Rio, narra histórias de enchentes vividas pelos moradores desse bairro. “Quando percebemos, estávamos construindo uma jornada sobre a memória social do Jardim Romano pautada na migração nordestina e nas enchentes. Num primeiro momento, construímos um espetáculo apenas com jovens moradores do bairro que recontavam suas histórias e de seus vizinhos tendo a rua como espaço de fruição da obra. O espetáculo chamava-se Daqui a Pouco o Peixe Pula e se deu a partir do recolhimento de narrativas que diziam respeito a experiência com as enchentes na rua, no espaço público”, afirma João Júnior.

O segundo espetáculo, O que Sobrou do Rio, tratou sobre a casa, abrigo e proteção que perde suas funções estruturais e simbólicas quando é atingida por uma enchente. “O segundo projeto tinha como objetivo investigar a memória privada da enchente, ou seja, como era viver com água dentro de casa durante três meses.

O que Sobrou do Rio acontecia dentro de uma instalação cenográfica construída a partir das casas do bairro e dos locais destas casas onde recolhemos as narrativas. O espetáculo já contava com a presença de atores profissionais numa relação dialética com a representação destas narrativas juntamente com os atores moradores. Quando terminamos o segundo ano, nos perguntamos: e o corpo? Como se deu esta experiência no corpo?”, relembra o diretor.

É assim que nasceu a última parte da trilogia. “A Cidade dos Rios Invisíveis busca investigar esta memória no corpo, não no corpo do morador, mas no corpo social do bairro, no corpo do espectador, no corpo do usuário e morador do extremo leste que pega o trem todos os dias para trabalhar. Nos lançamos o desafio de trazer outros olhares para o Jardim Romano e durante todo o tempo de nossa residência buscávamos incessantemente mostrar o bairro. Mas, a dinâmica da cidade e a rapidez do dia a dia não permitia o deslocamento. Então, resolvemos montar um espetáculo que já fosse a viagem de trem até o bairro. Que narrasse os bairros do extremo leste e sua invisibilidade diante do olhar de outros públicos e cidadãos”, declara.

É uma peça que mostra a poesia, as belezas e a diversidade de São Paulo, daí a importância da migração nas obras do Coletivo Estopô Balaio. “Quem não é migrante nesta cidade? De uma certa forma migra-se diariamente nesta cidade. É preciso manter um olhar de estrangeiro para não acomodar-se e fazer a cidade se tornar sempre viva dentro da gente. São Paulo é um exercício diário.

DIVULGAÇÃOteatro
‘São Paulo é nordeste, agreste, urbana, rural, negra, índia, boliviana, haitiana, síria… É o mundo.’

Não podemos nos deixar abater ou ser cooptado pelo ritmo feroz dela. É preciso mergulhar nela. Sinto que olhar pelas bordas pode nos fazer enxergá-la com mais profundidade. São Paulo não é um cenário econômico ditado pela Avenida Paulista. São Paulo é mais. São Paulo é muito. São Paulo é nordeste, agreste, urbana, rural, negra, índia, boliviana, haitiana, síria… É o mundo. Nesse sentido, olhar para o Nordeste aqui é saber-se de si e de si no mundo”, opina João Júnior.

Os ingressos para A Cidade dos Rios Invisíveis são gratuitos, mas é necessário fazer uma reserva por e-mail (com nome completo, telefone e a data desejada), pagar o valor da passagem do trem e chegar com 30 minutos de antecedência. Como o espetáculo é itinerante, ele está sujeito a mudanças em caso de chuvas.

A Cidade dos Rios Invisíveis
Quando: aos sábados e domingos, até 30 de abril, às 14h
Ponto de encontro: Espaço Cultural da Estação Brás
Quanto: grátis, com reserva pelo e-mail reservas@coletivoestopobalaio.com.br
Duração: 3h30
Lotação: 60 pessoas
Classificação: a partir de 12 anos (crianças devem ser acompanhadas de um adulto)

Ficha técnica
Criação Coletiva
Ideia original, roteiro e direção geral: João Júnior
Dramaturgia: Estopô Balaio
Atores: Ana Carolina Marinho, Juão Nin, Johnny Salaberg, Amanda Preisig, Edson Lima, Adrielle Rezende, Bruno Fuziwara, Keli Andrade e Paulo Oliveira
Participação: Emerson Alcade e Seu Vital
Musicalização e percussão: Josué Bob
Trilha sonora: Marko Concá
Sonoplastas: Carol Guimaris, Geovane Fermac e Doutor Aeiuton
Poetas: Emerson Alcade, Jacira Flores e Rata Fiuza
Canções: Diane Oliveira, Dustin Mc e Matheus Farias (Família Nada Consta), Juão Nin e Marko Concá
Figurino: João Júnior
Artes visuais: Paula Mendes, Renato Caetano, Clayton Lima
Dança de rua: Bia Ferreira, Mell Reis, Luan Breezy e Kayque Silva
Produção: Wemerson Nunes, Keli Andrade, João Júnior e Ana Carolina Marinho
Contra-regras: Clayton Lima, Ana Maria Marinho, Lisa Ferreira e Ramilla Souza

Muitas mulheres habitam Cora Coralina, na arte e na liberdade

Abril 6, 2017

Espetáculo Cora Coralina

por Vitor Nuzzi

Espetáculo, com apresentação neste fim de semana em São Paulo, conta trajetória da escritora goiana.

São Paulo – Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas era o nome de batismo de Cora Coralina, “coração vermelho”, escritora, poetisa, doceira, engajada, solidária aos deserdados da sociedade, que morreu em 10 de abril de 1985, perto de completar 96 anos. No próximo sábado e no domingo (9), véspera dos 32 anos de sua morte, um espetáculo em São Paulo – estado onde ela viveu durante 45 anos – contará um pouco da história da mulher nascida em Cidade de Goiás (GO), buscando recriar o ambiente em que vivia, com direito a doce feito ao vivo e à presença de Vicência Bretas Tahan, filha caçula de Cora, no segundo dia. Vicência, única viva dos filhos, é educadora aposentada.

Cora Dentro de Mim – Plantando Roseiras & Fazendo Doces é o nome do espetáculo apresentado pela atriz e escritora maranhense Lília Diniz. Já são 17 anos de estrada, período em que foi visto por 10 mil pessoas. A história começa com o poema Todas as Vidas (leia ao final do texto), dado a Lília por uma amiga que havia visitado o museu de Cora na cidade goiana. Fascinada, andou com o texto durante três anos na bolsa, um dia musicou e recitou – e começou a entrar no universo lírico e literário de Cora, uma das criadoras, em 1907, do jornal A Rosa, dirigido apenas por mulheres.

“O que me aproximou da Cora foi a simplicidade dos versos, com a profundidade que tem, e da maneira apaixonada que ela fala da sua gente, das coisas simples da vida. Isso me apaixonou”, conta a atriz, que hoje mora no Distrito Federal. “Até então, eu não conhecia o lado guerreiro dela, o lado das lutas. Só depois de ler o livro da Vicência (Cora Coragem, Cora Poesia), aí me deparei com outra Cora, mudei a maneira de interpretar os poemas dela.”

Muitas mulheres são Cora, no enfrentamento do preconceito, na luta por sua independência. “Ao assumir a defesa da prostitutas, das lavadeiras, das mulheres obscuras, ela se coloca de igual para igual” diz Lília. “Ela serve de espelho para que outras mulheres possam enfrentar as demais formas de violência que a gente vem enfrentando ao longo da nossa existência. Essas mulheres habitam Cora, como essas mulheres habitam tantas outras mulheres que vão à luta, vão à frente desafiando o seu tempo.”

Cultura popular

Saída do interior do Maranhão, ela aprendeu a ler com a literatura de cordel. Também teve estímulo da avó professora. A distração das crianças era ouvir rádio. “Fui me envolvendo com questões artísticas desde pequenininha, com apresentações na igreja, na escola, movimento teatral no Rio Grande do Norte, paródias, textos de teatro”, lembra Lília, que nasceu em Tuntum e foi criada em Imperatriz. Já no estado potiguar se aproximou dos repentistas. ” Quando cheguei a Brasília, já tinha esse contato com a literatura e com a cultura popular.”

Ela fala com admiração de Cora, de sua postura ao enfrentar preconceitos, de envolvimento em movimentos políticos e artísticos, como a Semana de Arte Moderna de 1922, sua participação em causas sociais. “Aos 15 anos, já participava de reuniões, representando as mulheres silenciadas. Foge com o amor de sua vida, Cantídio (para o interior paulista; era um homem mais velho e separado, com quem se casaria em 1925). Ela serve de espelho para que outras mulheres possam enfrentar as demais formas de violência que a gente vem enfrentando ao longo da nossa existência. Essas mulheres habitam Cora, como essas mulheres habitam tantas outras mulheres que vão à luta, vão à frente desafiando o seu tempo.”

A montagem do espetáculo foi lenta, começou com Todas as Vidas e foi agregando fragmentos de poemas e contos. Manteve elementos como a cozinha, onde durante a apresentação será feito um doce de banana. “O espetáculo tem algumas mudanças, e provavelmente é por isso que ele vem me movimentando, que eu continuo apaixonada por ele”, diz Lília, que na atual montagem assina a direção. Em cena, ela é acompanhada por dois músicos, Léo Terra Oliveira e Maísa Arantes de Amorim.

“Tem muito a ver com a memória que eu tenho da minha própria mãe, com as mulheres que têm na cozinha o seu labor, as conversas na cozinha. As pessoas relatam muito que lembra da avó, da tia do interior…”, conta a atriz. Um aviso: o ar-condicionado fica desligado durante a apresentação.

Lília diz, rindo, que não chegou a experimentar doces feitos pela própria Cora, chamados de “sublimes e divinos” por Jorge Amado, em 1975. “Muitas pessoas que provaram disseram que os doces eram maravilhosos. Ela vendia o doce e aproveitava para falar uma poesia para vender o livro.” A autora observa que Cora disse ser mais doceira, cozinheira, do que escritora. Será? “Esses dois ofícios, juntinhos, tinham uma alquimia, a gente pode dizer que se complementam.”

Sem se entregar

Para a criadora do espetáculo, provavelmente por fazer uma “opção de classe”, Cora tenha sido desprezada pela elite goiana. Dificuldades na infância podem ter servido de estímulo ao seu engajamento social posterior, sua opção pelos marginalizados. “A opção talvez tenha a ver com seus próprios sofreres na busca de afirmação como mulher, escritora, pensadora”, acredita Lília, comentando, no entanto, que mesmo diante de dificuldades Cora sempre foi otimista e não reclamava. “Essa é uma das imagens mais fortes que eu tenho dela: a de quem não se entrega e vai para a ação”, afirma.

Ela também acredita que ainda falta conhecimento sobre a obra de Cora Coralina, inclusive por uma parte da academia. Lília conta episódio de alguns anos atrás, após fazer uma apresentação em uma universidade federal. Um diretor reclamou, posteriormente, dos gastos para realizar um sarau sobre uma “escritorazinha”. “Existe muito preconceito, muitas pessoas não se debruçam sobre a obra dela.”

Mas o tempo atual é ainda mais propício para isso, para a poesia. “Vivemos tempos duros, difíceis, de negação a uma série de direitos, de ataques à classe trabalhadora. A poesia tem essa capacidade de nos fazer refletir, de perceber a  beleza mesmo diante do caos, mesmo diante do medo. De perceber a poética da vida”, reflete. É possível buscar saídas. “Basta que a gente observe, perceba e vá fazer o que tem de ser feito, que é lutar sempre.”

Cora Dentro de Mim – Plantando Roseiras & Fazendo Doces
Monólogo, 70 minutos
Onde: Top Teatro (Rua Rui Barbosa, 201, Bela Vista, São Paulo – SP)
Quando: sábado (8) às 21h e domingo (9) às 19h
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia entrada)

ALICE MARIAPeça Cora Coralina
Cena da peça ‘Cora dentro de mim’

 

Todas as Vidas

(Cora Coralina)

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Livro infantil ‘Pode Pegar!’ quebra estereótipos de gênero

Abril 4, 2017

Obra da autora e ilustradora Janaina Tokitaka conta a história de dois coelhinhos que não se importam com ‘o que é para menino ou para menina’. O mais importante para eles é a liberdade para se divertir.

por Xandra Stefanel

Era uma vez dois coelhinhos. Um usava uma saia, batom e sapatinho de salto. Outro, botas, calça e gravata. Um era um menino e outro era uma menina. Mas quem era menino e quem era menina? A resposta não é – ou não deveria ser! – óbvia. É o que mostra o livro que acaba de ser publicado pela Coleção Boitatá (Boitempo Editorial), Pode Pegar!, da escritora e ilustradora paulistana Janaina Tokitaka.

Supercolorida e leve, a obra aborda de forma sutil e encantadora os costumes culturais relacionados à identidade de gênero. O livro é voltado para crianças em fase de alfabetização e tem como protagonistas um coelhinho e uma coelhinha que não veem problema em trocar de roupa um com o outro já que a menina pode querer usar botas pra atravessar um riacho, um menino pode usar salto se quiser ou precisar ficar mais alto e todos podem usar calças para saltar pelas montanhas…

IlustraçãoCom pouquíssimo texto, Janaina brinca com o tema, desconstroi os estereótipos de gênero e deixa no ar a pergunta: o que faz uma roupa ser “de menino” ou “de menina”? Para a autora, tratar de forma livre sobre as diferentes possibilidades que uma pessoa deve ter é fundamental para o desenvolvimento das crianças. “Acredito que os livros infantis possuem um papel muito importante na formação da identidade das crianças”, afirma Janaina

“Representatividade importa muito em qualquer fase da vida, mas na infância, esse momento construtivo e delicado, importa muito mais. É essencial que os livros libertem, apontem possibilidades para além das estabelecidas, como os estereótipos de gênero. Pode Pegar! diz que você têm direito de se apresentar como bem entender e para não ligar para quem diz o contrário. Escrevi esse livro com a esperança de que as crianças de hoje se tornem adultos mais livres, leves e felizes,”

A autora e ilustradora iniciou a carreira de escritora em 2010, aos 24 anos, e desde seu primeiro álbum ilustrado, Tem Um Monstro no Meu Jardim (Escrita Fina), publicou 40 outras obras para o público infantil e juvenil. Pode Pegar! já está à venda nas livrarias e no site da Boitempo Editorial, responsável pela Coleção Boitatá, selo infantil que tem o objetivo de promover reflexões sobre temas como política e de cidadania para crianças.

Pode Pegar!Pode Pegar!
Autora: Janaina Tokitaka
Coleção: 
Boitatá
Editora: Boitempo Editorial
Páginas:
36
Ano:
2017
Faixa etária: leitura compartilhada – 0 a 4 anos / Leitura autônoma – a partir de 5 anos
Preço sugerido: R$ 39