Livro reúne reflexões de intelectuais sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo

Um dos organizadores da obra “A crise das esquerdas”, que chega às livrarias em junho, Aldo Fornazieri diz que é preciso superar a “síndrome de Caim e Abel” e trabalhar pela unidade.

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Chega às livrarias em junho, pela editora Civilização Brasileira, A crise das esquerdas, livro que reúne textos e entrevistas de diversos intelectuais sobre a esquerda no mundo contemporâneo. Segundo Aldo Fornazieri, professor de filosofia política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) e um dos organizadores da obra, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, por exemplo, aborda a questão da necessidade de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

De acordo com Fornazieri, os militantes da nova geração não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. “Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda”, diz Fornazieri, em entrevista à RBA.

Para ele, os fatores que levam a esquerda atualmente a passar por dificuldades são múltiplos e complexos. “As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro.” Porém, há aspectos em comum.

Para o outro organizador do livro, o sociólogo Carlos Muanis, “há um abismo perigoso e crescente entre a sociedade e o mundo político”. Segundo ele, existe uma paralisia provocada “pela desconfiança da capacidade de os Estados cumprirem suas promessas básicas de serviços públicos”.

A crise das esquerdas reúne textos e entrevistas de Aldo Fornazieri, Tarso Genro, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Carlos Muanis,  Cícero Araújo, Moisés Marques, Rodrigo Estramanho de Almeida, Ruy Fausto e Sérgio Fausto.

Leia a seguir a entrevista do professor Aldo Fornazieri:

Como se poderia caracterizar a crise da esquerda?

As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro. Não dá para fazer uma caracterização geral. Mas se pode dizer que existe uma crise acerca do lugar onde a esquerda se coloca, na medida em que ela se aproximou muito dos liberais e do neoliberalismo.

Os partidos de esquerda vieram para o centro. Tem uma crise da ação política e programática. A esquerda ficava historicamente com a ideia da utopia, e nos últimos tempos ficou naquilo que o professor Renato Janine chama de redução de danos.

Uma atuação pragmática…

Pragmática, mas faz políticas orientadas para a redução dos danos causados pelo capitalismo. A esquerda teria se tornado uma espécie da cereja no bolo do capitalismo, na medida em que não existe mais um conflito sistêmico. Estamos dentro de um único sistema, que é o sistema capitalista, e não existiria mais uma alternativa socialista hoje no mundo, uma alternativa comunista.

O outro aspecto da crise é o que se chama da crise de pressupostos, que eu abordo. Os principais pressupostos: qual o significado da luta de classes hoje, na medida em que o proletariado clássico quase que desapareceu? Faz ainda sentido falar na ideia de um proletariado revolucionário? Parece que não.

O outro elemento dessa crise de pressupostos é que, historicamente, o marxismo entendeu a política subordinada à economia e com isso perdeu a capacidade de perceber a política na sua autonomia.

E uma terceira crise de pressupostos diz respeito aos próprios partidos, que hoje são estruturas verticalizadas, burocratizadas, e não conseguem absorver uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas etc. Eles não querem saber dessas estruturas organizadas verticalmente. Querem praticar uma política mais horizontal. No livro, Guilherme Boulos aborda isso. Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda.

Poderia traduzir isso, no Brasil, para algo como o PT voltar às bases ou ter abandonado as bases?

Em parte é um pouco isso. Antes de chegar ao poder o partido era de uma militância mais participativa, mais vinculada aos movimentos sociais. Hoje, de modo geral, tanto o PT como os demais partidos de esquerda não têm uma pedagogia capaz de atrair as novas formações militantes em torno de novas bandeiras e questões, e menos ainda a periferia, que cansou de ser massa de manobra dos partidos de esquerda.

Então hoje você vê uma forte influência das igrejas evangélicas na periferia, que adotam um tipo de prática que de certa forma tirou as esquerdas do trabalho de base, principalmente na periferia.

Quando o senhor fala da crise dos pressupostos, aborda mais a esquerda mundial?

Esses pressupostos, mesmo a questão das periferias, não é um problema só aqui no Brasil. Por exemplo, na França, o Partido Socialista, de centro-esquerda, foi reduzido drasticamente. Lá surgiu uma nova esquerda, mas se você for ver, tanto na França, quanto nos EUA, os operários tradicionais votaram na direita.

No mundo, uma crise da esquerda poderia se caracterizar pelo seguinte: em vários países a polarização é entre a direita e o centro, e a esquerda está fora dessa polarização.

No Brasil, depois do golpe que tirou Dilma do poder, a esquerda não ficou um pouco sem rumo, como alguns analistas observaram?

Em todo o processo do impeachment a esquerda ficou muito paralisada, com pouca capacidade de mobilização. Você percebe que agora mesmo, com um governo quase se decompondo no ar, a esquerda tem pouca capacidade de mobilização nas ruas para pôr um fim a esse governo.

Por que isso acontece?

Exatamente porque ela perdeu o trabalho de base. Isso por um lado. E por outro lado tem todo o desgaste que aqui no Brasil a ideia de esquerda sofreu por conta do fracasso do governo Dilma e por conta do fato de que o PT é visto como um partido que se corrompeu também. Isso provocou um enorme desgaste, não só no PT como na esquerda em geral.

Alguns analistas, como Roberto Amaral, defendem que a saída é a união das esquerdas. O senhor concorda?

Eu entendo que é correta essa proposição. Quanto mais a esquerda se divide, mais favorece a direita e o centro. Ela precisa olhar para a formações mais próximas da gente, que são mais exitosas, como a Frente Ampla do Uruguai. Entendo que talvez a esquerda latino-americana mais exitosa no momento seja a esquerda uruguaia, tanto nos resultados que produziu quanto como referência moral, que é o Pepe Mujica.

É viável essa união das esquerdas no Brasil?

Acho que ela é difícil, pelo tipo de cultura divisionista da esquerda. Embora a proposição seja correta, entendo que é difícil porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos.

É preciso superar essa cultura da divisão. As pessoas mais sensatas e que têm uma visão mais ampla do processo político em curso precisam trabalhar para a superação dessa síndrome histórica da divisão entre as esquerdas.

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