João Saldanha completa 100 anos

Por Raul Milliet Filho

Afinal, estamos falando do maior jornalista da história do futebol brasileiro, tanto em rádio, jornal e TV, e do homem que tinha como frase basilar de sua autobiografia “Minhas ideias valem mais do que minha conta bancária”.

“A vida de João Saldanha só pode ser entendida quando pautada por contrapontos constantes, presentes em sua trajetória, da fronteira do Uruguai ao Posto 6, em Copacabana.

Da família Jobim Saldanha à sua formação de adolescente e adulto no Rio de Janeiro. Do futebol à política, paixão em tom maior (seu maior orgulho foram os trabalhos que teve oportunidade de executar no Partido Comunista).

Do Botafogo ao Partido Comunista.

Da Portela à Banda de Ipanema.

De sua admiração por Noel Rosa e Luiz Carlos Prestes.

Da altivez, bem ao estilo gaúcho ao enfrentar as derrotas mais contundentes de amarguras intermitentes.

Da busca obsessiva pela simplicidade em todos os quadrantes do retângulo de um campo de futebol, para ele metáfora maior do mundo em que vivemos.

Do gosto pelo craque, pelo grande estrategista político, pelo compositor genial, pelo escritor de pena privilegiada, pelo turfe, pelo bate-papo com os amigos, pela esquina da Miguel Lemos, em Copacabana, pela praia, em etapas entrelaçadas que, sem sofrerem rupturas, mudaram de perfil, na medida em que a vida seguia”. (Vida que segue, João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970, Nova Fronteira, 2006. Raul Milliet Filho – Org.).

Nestas seis edições até o dia 3 de julho, debateremos o perfil de João Saldanha, o “João sem medo, magro de tanto que as paixões o ralam”, como dizia Nelson Rodrigues, não deixando de criticar com firmeza algumas de suas biografias e documentário que, folclorizando seu perfil, deturpam sua trajetória no futebol e na política.

Um dia após o falecimento de João Saldanha, Villas-Bôas Corrêa, com seu talento de grande cronista, publica no Jornal do Brasil aquele que talvez seja o maior tributo jornalístico a Saldanha.

O futebol brasileiro fica devendo a João Saldanha a paixão de toda uma vida consumida no fogo de alma indomável, iluminada por uma das mais lúcidas e prontas inteligências que conheci, a bravura do exemplo e de um tipo de coragem que não media diferenças e invadia os espaços da temeridade. O futebol e o esporte, como o jornalismo especializado, nele tiveram um inovador a revolucionar o estilo de comunicação e crítica de jogo.

No ramo, era bom como cronista de linguagem despojada e a fantástica capacidade de escrever no mais puro coloquial. Segredo do João: falava a língua do povo para tratar de temas populares.

Ótimo na televisão, saltando do comentário do futebol para a crônica do cotidiano. Brilhou nas mesas redondas, com o jeito de topar brigas e dizer as coisas sem papas na língua. Enfrentou sempre duras paradas com o mesmo ímpeto desabusado de quem não media adversários.

Sempre sustentei, entretanto, que João Saldanha foi inigualável no rádio. Esse o seu espaço, onde realmente se espraiava num à vontade de quem está em casa. Durante anos, saltando de emissora, sustentou a posição indisputada de maior comentarista do rádio brasileiro em todos os tempos. O seu ibope podia ser aferido, nos tempos de Maracanã superlotado nas tardes de domingos e nas noites de qualquer dia, por constatação de ouvido: era só prestar atenção que era possível acompanhar, emendando o som dos rádios de pilha, o comentário do João seguindo o rastro de sua voz por todo o estádio, das cadeiras à geral.

Ninguém como ele empunhando microfone. Enxergava além do óbvio, antevia o desenvolvimento do jogo, descia à análise de táticas. O torcedor ouvia o João para entender o que estava vendo. E para concordar, sempre, até nos desencontros da paixão clubística.

Mas, como técnico da seleção de 1970, em trajetória tumultuada pelos impulsos do temperamento, João Saldanha deixou lições eternas e nunca aprendidas. Convidado, aceitou de pronto e no mesmo embalo anunciou a convocação dos 22. Com o gesto audacioso e exemplar de escalar a seleção titular e a reserva.

Foi o que se viu, apesar dos muitos pesares. A seleção de 1970 nasceu pronta, necessitou de retoques para os ajustamentos finais. Quer dizer que uma vez definida pôde começar treinando, buscando entrosamento, acertando táticas. Nunca esqueci o ensinamento: time só existe depois de escalado. O tempo que se gasta antes de definir a escalação é puro desperdício. E quantos títulos atiramos pela janela da indecisão e do tempo perdido nas famosas experiências que não levam a nada?

Há muitos anos que carregava o privilégio da amizade de João Saldanha, cultivada em convivência intercalada pelos compromissos profissionais, sempre preservada pela cordialidade das conversas e até no choque eventual de opiniões. João tinha suas arestas. Mas, o gosto da conversa, do papo saboroso, ponteado de casos recontados com a graça do pitoresco e em jorro inestancável da memória prodigiosa, detalhista, deixa em cada um dos que com ele privaram a saudade que mergulha na dura conformação com o irreparável.

A melhor homenagem que posso prestar ao amigo que morreu como sempre quis, cobrindo a Copa da sua despedida, se resume a esta singela constatação: desde que ficou doente, driblando a morte, surpreendi-me com a estima e o carinho dos humildes. Aqui no JB, na TV Manchete, todos se somavam no mutirão das angústias. Sem distinção. Porque eis um traço do João: não estabelecia diferença. Tratava igualmente a todos que para ele eram realmente iguais.

E isso não se finge nem mistifica. Era, talvez, o melhor do João.

Fonte: Carta Maior

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