MAS UM LEGADO DE ROBERT CAPA, POR THE OBSERVER, NA CARTA CAPITAL

Por Sam Jones, de Madri — publicado 22/07/2017 00h30.
Campanha pede a restauração de casa retratada pelo fotógrafo em 1936, um símbolo dos horrores da Guerra Civil
 
Robert Capa International Center of Photography

Edifício

No passado, a foto encorajou voluntários estrangeiros a aderir à luta contra Franco. Agora, pode ajudar os atuais morado

O número 10 da rua Peironcely já viveu tempos melhores. A tinta branca fresca que cobre um labirinto de longos quintais estreitos não esconde o fato de que suas paredes estão ruindo, nem que a tampa do poço e os bueiros enferrujados mantêm a distância ratos e moscas. Da mesma forma, já viu dias piores.

No inverno de 1936, o bairro de Vallecas, em Madri, habitado por trabalhadores, foi bombardeado pelos aviões que Hitler mandou para ajudar Francisco Franco a derrubar o governo republicano da Espanha, e ensaiar a tática de blitzkrieg usada mais tarde na Segunda Guerra Mundial.

Também ali, de Leica em punho, estava Robert Capa. Em uma das mais famosas imagens da guerra com que forjou sua reputação, o fotojornalista húngaro capturou as consequências civis do bombardeio. Na rua diante da casa térrea, em meio a detritos e na frente de uma fachada perfurada por estilhaços, estão três crianças sentadas, enquanto uma mulher olha do vão de uma porta.

A foto, tirada por Capa em novembro ou dezembro de 1936, saiu na imprensa americana, suíça e francesa. Não apenas ela revelou o ataque deliberado a civis, como também encorajou voluntários internacionais a viajar à Espanha para entrar na guerra civil contra as forças de Franco.

Destruída por bombardeios de forças nazistas há 80 anos, a precária edificação agora abriga 14 famílias, divididas em minúsculos apartamentos de até 28 metros quadrados (Foto: Reprodução Google Street View)

Hoje, mais de oito décadas depois, corre uma campanha para que o prédio deteriorado seja protegido e declarado parte do patrimônio cultural da capital espanhola. Segundo José María Uría, do sindicato Fundación Anastasio de Gracia, que está coordenando o esforço de conservação, a imagem de Capa adquiriu uma posição quase legendária, sobretudo porque foi proibida na Espanha durante a ditadura.

“É a primeira imagem na história que mostra os efeitos de um bombardeio sobre a parte mais frágil da sociedade: as crianças”, diz ele. “Não faz parte apenas da memória deste país. Embora tenha levado 40 anos para que as fotos fossem vistas aqui, faz parte da memória da Europa. Foi o impacto dessa foto que levou muitas pessoas a se envolverem (na guerra).”
Com apoio de uma coalizão de organizações internacionais que incluem o Instituto Goetheda Alemanha e o Centro Internacional Americano de Fotografia, criado pelo irmão mais novo de Capa, Cornell, em 1974, a fundação espera preservar o prédio. Mas, igualmente importante, ela também quer ajudar os que vivem hoje atrás das paredes do nº 10, ainda marcadas pelos fragmentos.

Exatamente como quando a foto foi feita, Vallecas continua sendo uma das áreas mais pobres, e ferozmente de esquerda, de Madri. Os 15 pequenos apartamentos do quarteirão, que variam de 17 a 28 metros quadrados, hoje abrigam 14 famílias. A maioria tem apenas dois quartos pequenos, obrigando os pais a dormir em sofás para que seus filhos possam descansar melhor à noite.

Sonia Suárez, que mora na casa com seu marido e dois filhos pequenos há cinco anos, paga mais de 300 euros por mês (cerca de 1.125 reais) para morar em uma construção cujas paredes desintegradas 

Redessociais.jpg
Pelas redes sociais, difunde-se a campanha #SalvaPeironcely10

são úmidas no inverno e ferventes no verão. O encanamento está furado e a porta da frente, de madeira fina, estala com as mudanças de temperatura. 

“As coisas vão mal”, diz ela, apontando a fiação elétrica exposta e descascando tiras de plástico para revelar a alvenaria apodrecida por baixo. “Não há janelas nos quartos, é impossível respirar. Queremos sair daqui e encontrar um lugar decente para morar.”

Suárez só soube da história do prédio depois que se mudou. Uma ex-inquilina, que morreu há dois anos, aos 90, era filha de um casal que vivia ali quando ele foi bombardeado.

É estranho, diz Suárez, pensar em seus filhos brincando no mesmo lugar que Capa fotografou. “Não tínhamos ideia de que todos esses buracos eram de bombas. Olhar as fotos hoje provoca calafrios.”

Como a família entende, e Uría salienta, algumas coisas em Vallecas não mudaram desde o dia de inverno em que Capa espiou pelo visor da câmera. “A situação da família de Sonia e de todos os moradores da Peironcely 10 é algo que nossa sociedade não pode permitir. Manter essas pessoas nesse estado de negligência nos arrasta de volta à Espanha de 90 anos atrás, quando o prédio foi construído e não havia proteção social do governo.”

 
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