O QUE TU INDICA?| A ROSA DO POVO, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Época de produção da obra também foi período em que Drummond se aproximava de Prestes e flertava com ideais comunistas

Marcelo Montanini*

Brasil de Fato | Recife (PE)

A Rosa do Povo é uma obra sensacional e merece ser lida - Créditos: Divulgação
                                 A Rosa do Povo é uma obra sensacional e merece ser lida / Divulgação

Aos amantes de poesia e política, indico “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade: uma coletânea de 55 poemas, que retratam a personalidade do poeta, o erotismo, o cotidiano e a História, com alta carga política. Com poemas escritos em meio à Segunda Guerra Mundial e à Era Vargas, publicada em 1945, a obra registra o momento histórico, mas transcende a época retratada e mostra-se atual.

Exemplo irônico de um poema que representa outrora, sem deixar de refletir a atualidade é “Nosso Tempo”, que é dividido em oito partes e começa falando da cisão ideológica daquela época – ou desta, como queiram: “Este é tempo de partido/ Tempo de homens partidos”. E finaliza: “O poeta/ declina de toda responsabilidade/ na marcha do mundo capitalista/ e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas/ promete ajudar/ a destruí-lo/ como uma pedreira, uma floresta,/ um verme.”

O poema “A Flor e a Náusea” é outro que merece atenção. “Preso à minha classe e a algumas roupas,/ vou de branco pela rua cinzenta./ Melancolias, mercadorias espreitam-me./ Devo seguir até o enjoo?/ Posso, sem armas, revoltar-me?”/ (…) “Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde/ e lentamente passo a mão nessa forma insegura./ Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se./ Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico./ É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” O autor narra um mundo em que tudo é igualado a mercadoria e provoca-o angústia ou náusea. E, apesar de tanto desencanto, o nascer de uma rosa reflete o desabrochar de um mundo novo.

A época de produção da obra também foi um período em que Drummond se aproximava de Luís Carlos Prestes e flertava com os ideais comunistas. O lirismo da guerra se faz presente, assim como os ideais de justiça e solidariedade, sem deixar de falar dos afetos e do passado familiar. Não raro ouço ou leio que esta é a melhor obra de Drummond, não discordo. A Rosa do Povo é uma obra sensacional e merece ser lida.

*Marcelo Montanini é jornalista e mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa.

Edição: Monyse Ravena

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