Archive for Dezembro, 2017

ARTE E CULTURA COMO INSTRUMENTO DE MOBILIZAÇÃO NO SERTÃO PERNAMBUCANO

Dezembro 21, 2017

Brigada Maria Paraíba usa música, poesia e teatro para provocar reflexão e debate de temas do dia a dia

Vinicius Sobreira

Brasil de Fato | Petrolândia (PE)

Do grupo de 20 jovens que participou do curso, 13 são de Pernambuco e agora formam a Brigada Maria Paraíba. - Créditos: Vinícius Sobreira/Brasil de Fato
Do grupo de 20 jovens que participou do curso, 13 são de Pernambuco e agora formam a Brigada Maria Paraíba. / Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

Desde o último dia cinco um grupo de 20 jovens percorre o território do Sertão do Itaparica realizando apresentações teatrais, musicais e recitando poesias e cordéis nas comunidades e cidades por onde passam. É a Brigada Maria Paraíba de Agitação e Propaganda, que tem abordado com humor questões do mundo da política e que afetam o dia a dia dessa população, como a Reforma da Previdência, o preço do gás de cozinha e, principalmente, a privatização da Chesf e a defesa do Rio São Francisco.

Os jovens chegaram à cidade de Petrolândia na primeira semana de dezembro, vindos de Santa Cruz da Baixa Verde, Jatobá, Sertânia, Tupanatinga e do Recife. Na cidade, participaram de um curso sobre agitação e propaganda (ou apenas “agitprop”), forma de divulgar ideias através de elementos da arte e cultura populares, facilitando a compreensão por parte da população e massificando um projeto ou ideologia. Parte do curso foi facilitado por militantes de movimentos sociais e foi coordenado por Rafaela Alves, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). A formação também contou com os integrantes da Caravana Nacional de Luta Camponesa Clodomir Santos de Morais, formada por jovens militantes do MPA que estão há 8 meses na estrada, transitando por vários estados do Nordeste e usando elementos do agitprop para a elevação de consciência da população.

Do grupo de 20 jovens que participou do curso, 13 são de Pernambuco e agora formam a Brigada Maria Paraíba, para desenvolver o trabalho de agitprop dentro do estado. Ao fim do curso, os jovens se dividiram em duas equipes de trabalho: uma permaneceu em Petrolândia, circulando nos bairros e comunidades rurais do município para convocar a população para o Fórum Social das Águas e em defesa do rio São Francisco, evento que ocorre nesta sexta-feira (15), em Petrolândia. O outro grupo foi circular nas cidades da região com a Caravana Popular pela Democracia e em defesa das Águas e do São Francisco passando por Jatobá, Itacuruba, Ibimirim Inajá e Floresta, também mobilizando as cidades para defender o Velho Chico contra a privatização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), já planejada pelo governo Temer.

O nome do grupo foi escolhido em homenagem à cozinheira e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Maria Paraíba, falecida em 2009 e que atuava numa das agrovilas de Petrolândia.

Um dos jovens que fez o curso e agora compõe a brigada é Carlos Eduardo Madeira, o Cadu, de 24 anos, morador do Recife e militante do Levante Popular da Juventude. Ele conta que o desafio para os que estão começando tem sido grande. “Quando construímos as intervenções, percebemos – pela inexperiência do nosso grupo – que seria um trabalho difícil. Mas não baixamos a cabeça. Vestimos a camisa, temos um objetivo importante, então nos reunimos todos os dias após as apresentações, para avaliarmos ponto a ponto, trabalhando para melhorarmos”, afirma. Mariana Oliveira, 20, jovem agricultora de Sertânia avalia que o apoio de grupo foi fundamental para ela “se soltar”. “É tudo novo para mim, então foi difícil. Eu estava muito travada, mas consegui melhorar”, diz a militante da Pastoral da Juventude Rural. “Aprender as falas e depois falar na frente de todo mundo foi o mais difícil. Mas agora é tranqüilo”, comemora. Os dois afirmam que a presença do grupo do MPA, mais experientes nesse trabalho, foi importante para a formação do grupo de Pernambuco.

Sobre o aprendizado, os dois militantes afirmaram que a formação foi importante para que compreendessem melhor o que é agitprop e possam utilizar melhor essas ferramentas. “Cheguei aqui achando que agitação e propaganda era entretenimento”, diz Cadu. “Mas aprendi que essa ferramenta é o que de melhor a juventude tem para dialogar com a população e passar a informação que queremos”, completa. “Eu não entendia nada de agitprop. Mas aprendi bastante coisa. Com teatro, música, o povo se interessa mais”, afirma Mariana.

E o resultado das incursões do grupo foi motivadora. “Nós também aprendemos bastante sobre a população e certamente conseguimos transmitir a nossa mensagem”, comemora a jovem rural. “Ao longo desses dias percebemos que somos capazes de conversar com todos, das crianças aos idosos de 70 ou 80 anos. Todo mundo assistia, conversava conosco e se mostra empolgados para participar do Fórum das Águas”, completa Madeira. Ele conta de uma abordagem inesperada durante a passagem da Brigada na comunidade quilombola Borda do Lago. “Uma menina de quatro anos veio ao nosso alojamento, após a apresentação, e nos perguntou: ‘por que eles querem tirar o rio da gente? Por que eles querem fazer isso?’. Isso traduz um pouco o que é o agitprop. Até uma criança de 4 anos consegue absorver o que queremos transmitir”, avalia Cadu.

Após o Fórum Social em defesa das águas do rio São Francisco, que ocorre nesta sexta-feira (15), os jovens militantes retornam para suas cidades e comunidades rurais. Mas Mariana Oliveira avisa que trabalho não para. “Vou repassar esse aprendizado para todos os jovens da minha comunidade, que é Sítio Cuxi dos Cadetes, onde temos um grupo de base”, informa. E Madeira concorda. “A ideia é que cada militante que participou desse processo seja um multiplicador. Voltaremos para nossas bases, nossos movimentos, e vamos reproduzir o que aprendemos, ensinando para os outros”, diz Carlos Eduardo, que vislumbra o crescimento do agitprop no estado. “Se cada militante fizer isso, construiremos novas brigadas locais e conseguiremos chegar a bem mais gente”.

Edição: Monyse Ravena

EM ‘MUTUM’, JAIRO PEREIRA PREGA REVOLUÇÃO PELO AMOR: ‘RACISTAS NÃO PASSARÃO’

Dezembro 20, 2017

MÚSICA

Primeiro disco solo do vocalista do grupo Aláfia mistura críticas sociais com afeto e faz homenagem ao geógrafo Milton Santos
por Redação RBA.
 
                                                       MARIANA SER/DIVULGAÇÃO

Jairo

Jairo Pereira: ‘O mundo está uma loucura. Só que amar ainda é a única cura’

São Paulo – “Tá com medo, doutor? O pesadelo do sistema que encorpou o seu amor por aqui faz vala. O seu carinho em minha pele vara. Não passarão, não passarão. Racistas não passarão.” As estrofes de Tá com Medo, Doutor dizem muito sobre Mutum, primeiro disco solo de Jairo Pereira, vocalista do grupo Aláfia há sete anos. Lançado no início de dezembro, o álbum mistura hip hop, rock, reggae, jazz e poesia falada.

A faixa que abre o álbum começa com uma frase de Milton Santos, originalmente gravada em uma entrevista concedida pelo geógrafo em 1995: “A clarividência é uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo pelo estudo. É tentar ver a partir do presente o que se projeta no futuro”.

“Gosto demais dos caminhos que ele traçou para tentar encontrar soluções para a desigualdade social e racial que existe no Brasil. O trecho que escolhi, mesmo rápido, fala muito sobre o disco, sobre ‘focarmos’ no momento presente para que possamos ter um futuro digno”, afirma Jairo.

Mutum nasceu nos palcos e amadureceu durante dois anos antes de ser gravado no estúdio Medusa, em São Paulo. “Assim como o show, o disco trilha os caminhos do afeto como agente transformador para as prisões e embates diários, mas é diferente do que o público tem visto ao vivo. O nome do projeto e do álbum de estreia vêm de uma espécie imponente de pássaro, que vive na Amazônia e hoje encontra-se em extinção”, anunciam os produtores.

Com exceção do baterista Filipi Gomes, a banda Mutum é composta por membros da banda Aláfia: maestro e pianista Fábio Leandro, o gaitista Lucas Cirilo, o baixista Gabriel Catanzaro, o percussionista Pedro Bandeira e o guitarrista Dudu Tavares. “É um disco curto (é composto por sete faixas), feito com poucos recursos, mas também porque vai direto ao ponto de tudo que a gente quer abordar. É um abre-alas do Mutum”, declara Jairo.

A produção musical é de Gabriel Catanzaro, que uniu seu lado rock’n’roll com a pegada do rap de Jairo. “Quando o Jairo me pediu pra produzir o disco, meu desafio foi buscar fazer um recorte da figura artística dele fora do Aláfia. Ele tem dois lados muito fortes, um que aborda mais o ativismo racial e outro que discute o afeto, buscando falar abertamente sobre sexo. Para mim, as faixas que mais marcam esses dois extremos são Química, um reggae com piano, mais sensual, que aborda o sexo sem impôr gênero nem limitações, e Tá com Medo, Doutor?, rap com spoken word e uma pitada de rock, que fala sobre o genocídio da juventude negra e é muito forte”, afirma o produtor.

Os outros dois vocalistas do Aláfia, Xênia França e Eduardo Brechó, participam da faixa O Deserto Em Nós, sobre valores sociais em declínio. Candeeiro, primeira música do disco, tem participação do cantor e guitarrista Bernoldi em um rap que mistura bases e beats pesados com elementos tradicionais do rock, e Web Tribunais traz pitadas de funk e dub e participação da cantora Laylah Arruda, do coletivo Feminine Hi-Fi.

Ame é o poema que, apenas em vz e violão, fecha o álbum Mutum, cujo lema parece ser uma ode à revolução por meio do amor: “O mundo está uma loucura. Só que amar ainda é a única cura”, encerra o poema.

O álbum completo pode ser ouvido na íntegra no YouTube:

PR: ARTISTA DE LONDRINA RESSIGNIFICA RETRATOS DE NEGROS DO SÉCULO 19

Dezembro 19, 2017
Gabriel Ruiz

Brasil de Fato | Londrina (PR)

"Fiquei pensando como seria a vida dessas pessoas se elas não estivessem em estado de escravidão", Luiza Braga - Créditos: Arte/Luiza Braga
“Fiquei pensando como seria a vida dessas pessoas se elas não estivessem em estado de escravidão”, Luiza Braga / Arte/Luiza Braga

A musicista, artista e designer Luiza Braga é a autora do projeto (Re)Significa, lançado dia 9 de dezembro em Londrina, norte do Paraná. Trata-se de uma coleção de arte cujas peças são constituídas por intervenções coloridas e visuais em retratos de negros do século 19. Inicialmente, são 10 trabalhos lançados, com fotografias de jovens, idosos e mulheres.

“Me deparei com um catálogo fotográfico de domínio público sobre negros e negras, onde eram retratados como ‘tipos’, como ‘escrava da Bahia’, ‘escravo de Pernambuco’ ‘negra doméstica’, sem quaisquer outras informações. Claro que não eram pessoas conhecidas, mas essa falta de profundidade me incomodou muito”, conta Luiza.

Arte: Luiza Braga 

Refletindo sobre esse contexto histórico, a artista diz que sentiu a necessidade de transformar essas narrativas e valorizá-las. “Para desenvolver as peças, fiquei pensando como seria a vida dessas pessoas se elas não estivessem em estado de escravidão, quais seriam os seus interesses, profissões, alegrias, paixões, tristezas, a partir do que as fotos me transmitiam”, relata.

“Precisamos dar foco a essas histórias”

De acordo com a artista, o projeto fortalece a narrativa dos negros e das minorias em geral, na medida em que ressignifica e dá outro sentido para esses retratos. “Nós, como indivíduos negros, como povo, temos muito mais profundidade. Muito mais história do que contam. Precisamos dar foco a essas histórias que estão ao nosso redor, às narrativas das nossas comunidades, seus hábitos e vivências. Ressignificar para fora, mostrando toda a profundidade que vem de dentro”, completa Braga.

Edição: Ednubia Ghisi

DIREITO DE VOTO: FEMINISMO É O PROTAGONISTA DO FILME ‘MULHERES DIVINAS’

Dezembro 18, 2017

CINEMA

Longa-metragem de Petra Volpe resgata a história do sufrágio feminino na Suíça, ocorrido apenas em 1971. Baseada em fatos reais, ficção oscila entre drama e comédia
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
                               DIVULGAÇÃO

Luta

‘Até hoje, homens e mulheres são limitados por seus papéis de gênero prescritos’

Em 1971, a vida da campesina Nora (Marie Leuenberger) não havia sido em nada afetada pelas revoluções sociais ocorridas na Europa a partir de 1968. No interior da Suíça, a dona de casa vivia uma vida tranquila e “naturalmente” submissa ao lado do marido Hans (Max Simonischek) e de seus dois filhos. Mas quando a tranquilidade dentro de casa é ameaçada pela recusa do marido em deixar que ela volte ao trabalho, ela passa a se movimentar para lutar não apenas pelos direitos individuais, mas também pelos direitos de todas as mulheres. Esta é a história de Mulheres Divinas, da diretora Petra Volpe, que estreou nos cinemas brasileiros em 14 de dezembro.

O longa-metragem selecionado para representar a Suíça no Oscar 2018 aborda o sufrágio feminino na Suíça a partir de um microcosmo em uma cidadezinha do interior do país. Quando a sobrinha Hanna (Ella Rumpf) é presa injustamente, Nora percebe que não bastava ser favorável ao voto feminino de forma silenciosa. Era preciso exigir seus direitos em alto e bom som. Assim, com o apoio da viúva Vroni (Sibylle Brunner), ela começa a fazer campanha e organiza um evento informativo. É assim que ela encontra uma oponente – também mulher – à altura: Charlotte Wipf, integrante do Anti-politicization of Women Action Committee e chefe do marido.

Segundo a diretora, a história foi baseada em fatos reais, aos quais Petra – também roteirista da obra – teve acesso em suas pesquisas e nas entrevistas que fez com importantes exponentes da luta pelo voto feminino. “Os personagens foram inspirados pela pesquisa. Eu li uma dissertação completa sobre os anti-suffragettes – os oponentes do direito de voto na Suíça. A partir da perspectiva de hoje, é difícil entender exatamente por que inúmeras mulheres em 1971 lutaram tanto contra a votação. Muitas vezes, eram mulheres muito educadas, acadêmicas, rainhas da aldeia, que se estabeleceram muito bem e talvez simplesmente não quisessem que suas cozinheiras tivessem voz também. Quando você olha as entrevistas com eles, você pode ver o comportamento de submissão”, declara Petra Volpe. “Eu pensei que uma mulher como adversária seria mais emocionante, porque levanta mais perguntas. O antagonismo dos homens na história é um dado, reflete-se na mentalidade da época”.

O longa-metragem suíço traz de forma extremamente equilibrada doses de drama e de comédia, algo raro de se conseguir sem que o filme se transforme em um “dramalhão” piegas. O fato de ser acessível a um público bastante heterogêneo é apenas mais um dos pontos fortes de Mulheres Divinas. Afinal, em tempos de conservadorismo exacerbado, é preciso manter-se em estado de vigilância e continuar discutindo sobre a luta por direitos, sejam eles quais forem.

Mulheres Divinas é também sobre democracia e coragem civil, um assunto muito atual. Ser capaz de votar não é claro (sic), as mulheres lutaram por isso, e é uma prerrogativa valiosa que devemos nos lembrar nestes tempos realmente difíceis. Espero que o filme inspire as pessoas a fazer o que Nora faz: lutar, resistir, elevar a voz e se fazer ouvir”, declara Petra. “Até hoje, homens e mulheres são limitados por seus papéis de gênero prescritos. Há um sexismo internalizado profundamente enraizado em nossa sociedade. Isso prejudica nossas comunidades em níveis econômicos, sociais e políticos e não funciona em favor de ninguém. Quanto mais igual é uma sociedade, melhor ela é – isso é um fato estatístico”, completa.

CartazMulheres Divinas
Títulos originais: The Divine Order / Die göttliche Ordnung
Direção e roteiro: Petra Biondina Volpe
Elenco:Marie Leuenberger, Maximilian Simonischek, Rachel Braunschweig
Distribuição:Mares Filmes
Gênero: Drama
País: Suíça
Ano: 2017
Duração: 97 minutos

TEATRO DE VISNIEC TRAZ AS AGRIRAS DE IMIGRANTES ANTE O MASSACRE DE DIREITOS

Dezembro 17, 2017

BUSCA DE DIGNIDADE

Teatro de Contêiner Mungunzá estreia amanhã (18) em São Paulo peça ainda inédita do autor romeno Matéi Visniec, que contém relatos de casos reais de imigrantes e clandestinos fugindo de guerras, perseguições políticas e violações
por Redação RBA.
 
                                          REPRODUÇÃO YOU TUBE
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Visniec: transportar o público diretamente para as frágeis embarcações que carregam a esperança de cidadãos

São Paulo – O Teatro de Contêiner Mungunzá estreia amanhã (18) às 20h peça ainda inédita no país do autor romeno Matéi Visniec. Com o título de  Migrantes, a peça traz relatos de casos reais de imigrantes e clandestinos fugindo de guerras, perseguições políticas e violações de direitos civis na busca de conquistar um lugar na Europa.

“Ao dar voz aos ‘invisíveis sociais’, Visniec escancara esse mundo individualista, de naturalização das violências e de selvageria institucionalizada”, diz a página no Facebook, que anuncia a estreia da peça – uma montagem teatral de formatura da turma 4C2 da escola de teatro Célia Helena, com direção e adaptação de José Roberto Jardim.

Migrantes procura transportar o público diretamente para as frágeis embarcações que carregam a esperança de milhões de cidadãos provenientes de países como a Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia ou Somália e fá-lo também fisicamente no momento em que o traficante que lidera um dos botes se dirige diretamente à audiência”, escreveu a jornalista portuguesa Maria João Monteiro, quando a peça de Visniec estreou em Lisboa, em abril deste ano.

Ainda segundo a jornalista, o traficante afirma: “Têm que manter a calma, se alguém se puser de pé ou gritar é posto borda fora”, avisa, aconselhando todos os que estão a bordo a livrarem-se dos seus documentos e das suas identidades para se tornarem refugiados de guerra. “Não se vão pôr a dizer que viviam na merda e que os vossos filhos morriam de fome. Se se puserem com essa conversa, eles mandam-vos logo de volta”, diz, iniciando um discurso politicamente incorrecto que ataca, durante toda a peça, a hipocrisia da distinção entre os conceitos de “refugiado político” e “refugiado econômico”.

Um dos fatos para os quais a peça chama a atenção aconteceu neste domingo (17), quando a guarda costeira da Líbia resgatou 262 pessoas à deriva em um bote, tentando chegar à Europa.

Serviço

Local: Teatro de Contêiner Mungunzá
Endereço: R. dos Gusmões, 43 – Santa Ifigênia
Dias: 18, 19, 20 e 21 de dezembro
Horário: 20h
Entrada gratuita: Ingressos serão distribuídos 1h antes do início do espetáculo.

Texto: Matéi Visniec
Direção e Adaptação: José Roberto Jardim

Elenco:
Aline Casarin
Andrea Saba
Bettina Valentim
Cristiane Lima
Eric Luciano
Francielle Costa
Hugo Reina
Julia Terron
Júlia Bicaletto
Lays Lopes
Leôni Escobar
Letícia de Laurentis
Lígia Alonso
Luna Venarusso
Maíra Romero
Marília Palhares
Muriel Segovia
Rubia Casagrande
Simone White
Victor Arieta

MASP EXIBE ‘FAVELA GAY’ NO PROGRAMA HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE

Dezembro 16, 2017

DIVERSIDADE

Filme de Rodrigo Felha retrata a vida da comunidade LGBTQI+ em favelas cariocas. Longa-metragem é uma das 34 obras que estão sendo exibidas gratuitamente no museu aos sábados e terças-feiras
por Redação RBA.
 
REPRODUÇÃO

Favela

‘Nada mais diferente de um homossexual do que um outro homossexual’

São Paulo – Desde outubro até dia 13 de fevereiro de 2018, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) apresenta, aos sábados e terças-feiras, filmes e vídeos que dialogam com a exposição Histórias da Sexualidade. Ao todo, 34 obras serão exibidas em 14 sessões que discutem temas como a performatividade de gênero, jogos sexuais, voyeurismo, mercado do sexo, religiosidade e ativismo. O programa Histórias da Sexualidade: Filmes e Vídeos é resultado de uma parceria do museu com a Associação Cultural Videobrasil e a Cinemateca Brasileira.

Neste sábado (16) e na próxima terça (19), o programa traz o documentário Favela Gay, às 16h. Dirigido por Rodrigo Felha e produzido por Cacá Diegues, o longa-metragem traz uma série de entrevistas com pessoas da comunidade LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersex e outros) de várias favelas do Rio de Janeiro. Elas dividem com o espectador suas experiências, dificuldades no trabalho e junto com a família, os ataques homofóbicos dos quais frequentemente são vítimas e as violências físicas e simbólicas que sofrem no dia a dia.

Mas também há o outro lado da moeda, relatos de como essas pessoas se reiventam por meio da dança, da música, do ativismo e da política para assim se posicionarem frente à comunidade onde vivem. Rafael entrevistou personagens dos principais morros Rio de Janeiro: Andaraí, Cidade de Deus, Complexo do Alemão e da Maré, Rio das Pedras, Rocinha e Vidigal. Entre as histórias que o filme traz estão a de um bailarino que usa sua arte para ser aceito onde mora e a de Rafaella, mulher trans que frequenta a faculdade graças ao apoio da família.

A única entrevista com alguém de fora das comunidades é com o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ), que afirma que não há “nada mais diferente de um homossexual do que um outro homossexual”. No entanto, apesar de não haver uma enorme diversidade entre as trajetórias apresentadas, a obra acaba fazendo um retrato franco e poético sobre como é a vida dos homossexuais nas favelas.

Não é uma coincidência que o filme seja produzido pelo cineasta Cacá Diegues. Rodrigo foi um dos diretores do longa-metragem 5X Favela – Agora por Nós Mesmos, uma espécie de continuação do 5X Favela feito em 1961 por Cacá Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias e Miguel Borges, cineastas integrantes do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Favela Gay, no programa Histórias da Sexualidade
Quando: sábado (16) e terça (19) , às 16h
Onde: Masp
Avenida Paulista, 1.578, São Paulo
Quanto: grátis, com retirada de ingresso às 15h
Classificação: 18 anos

O SERTÃO, O MUNDO DAS CONTRADIÇÕES E A TRAVESSIA DO AMOR

Dezembro 15, 2017

Publicado em 1956, é um livro explosivo

Diva Braga

Brasil de Fato | Recife (PE)

Ouça a matéria:

O escritor desafinou e afinou esta grande obra, inicialmente pensada como parte da trilogia "Corpo de Baile" - Créditos: Divulgação
O escritor desafinou e afinou esta grande obra, inicialmente pensada como parte da trilogia “Corpo de Baile” / Divulgação

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”

Esse trecho, explica o sentido profundo de Grande Sertão Veredas, o sentido da travessia, das batalhas, da ação e reflexão, contradições e mudanças que movem, transformam e constroem a realidade do mundo. Guimarães Rosa desafinou e afinou esta grande obra, inicialmente pensada como parte da trilogia “Corpo de Baile”, mas seus personagens foram crescendo e se tornando obra única e própria.

Publicado em 1956, é um livro explosivo, a mistura de gêneros literários do modernismo com regionalidades e neologismos e forte influência barroca com a narrativa carregada de contradições e ambiguidades expressas no encontro dos personagens centrais, Riobaldo e Diadorim.

Segundo Antônio Cândido, Grande Sertão Veredas supera o regionalismo com o regionalismo, criando uma nova categoria literária surregionalismo para tratar de temas universais.

Riobaldo é Homem incomum, “fora do lugar”, Jagunço que pensa melhor do que luta, religioso que pactua com o diabo pela incerteza de sua própria coragem, e se apaixona por outro. Como narrador e não se preocupa com a ordem cronológica, mas com o rumo de suas memórias. Em conversa com o personagem ausente, o “moço”, “Senhor”, revolve suas lembranças, quando conhece Reinaldo/Diadorim, menino que segura sua mão na travessia do São Francisco.

Diadorim por sua vez é “guerreira donzela”, disfarçada de homem para existir, e depois lutar e vingar a morte de seu pai. Movida pelo ódio e determinação, no meio de jagunços, nem o amor de Riobaldo a faz quebrar o silêncio que esconde e denuncia o feminino.

O contraste entre a presença forte, determinada e rude e o silêncio lírico e poético de Diadorim, atravessa a vida de Riobaldo, que realiza seu plano ao mesmo tempo que perde seu amor. Diadorim é seu guia, o leito e a margem que o arrasta para toda a potencialidade transformadora que o leva ao único lugar de todas as suas buscas, a condição de ser.

*Diva Braga é mineira, publicitária e militante da Consulta Popular.

Edição: Monyse Ravenna

GOLPE FOI DADO POR “VELHOS ARISTOCRATAS”, DIZ FUNDADOR DO RATOS DE PORÃO

Dezembro 14, 2017

ENTREVISTA

João Carlos Molina Esteves, o Jão, falou sobre o movimento punk, política e projetos futuros

Júlio Carignano

Brasil de Fato | Curitiba (PR), via Porém.net

João é fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk - Créditos: Gibran Mendes
João é fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk / Gibran Mendes

“Foi um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobre tem que andar de ônibus, tem que se foder, engraxar o sapato deles e servir a comida deles. Rui Barbosa dizia não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

Com essa frase João Carlos Molina Esteves, 55 anos, ou simplesmente Jão, guitarrista do Ratos de Porão e do Periferia SA, resume o cenário político do Brasil após o golpe que colocou Michel Temer na presidência da república. Fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk no Brasil, Jão atendeu a reportagem do Porém.net horas antes de um show do RDP no Jokers Pub, em Curitiba.

A formação atual com Jão na guitarra, João Gordo no vocal, Boka na bateria e Juninho no baixo é a com mais longevidade ao longo dos 36 anos de carreira do Ratos. Depois de tantas mudanças de integrantes (13 no total), Jão diz que a tolerância e o respeito as individualidades de cada um tem sido a fórmula. “São três veganos e eu sou o açougueiro da banda”, brinca o guitarrista, que é um dos sócios do Underdog, um bar-restaurante em São Paulo especializado em carnes. O prato principal é a parrilla argentina.

Veia operária que permanece ativa no RDP, Jão falou da ascensão do fascismo, da extrema direita e personagens caricatos como Jair Bolsonaro, ao qual classifica como uma ‘toupeira’. “Tem um monte de filha da puta que tem orgulho de um cara deste. Devem se identificar pela toupeirice. Discuto nas redes sociais com esses babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. Os Bolsominions da vida, esses escrotos que seguem MBL. Tem até punk que gosta de Bolsonaro. Um cara deste não está entendendo porra nenhuma”.

Esse cenário político atual deve inspirar o próximo projeto do Ratos de Porão, como antecipa o guitarrista. “Estamos terminando de compor, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem”. O último álbum lançado pela banda foi Século Sinistro, em 2014.

Confira a entrevista na íntegra:

São 36 anos de carreira. Como manter a mesma pegada, atravessando gerações de fãs?

O Ratos de Porão nunca criou expectativa de sucesso, de exposição em mídia. A própria correria foi mantendo a coisa viva. Não somos uma banda popular nem dentro do rock, mas temos um público fiel no mundo inteiro. Isso é gratificante. É legal você ver um cara da Sérvia, por exemplo, que vai no seu show e diz: escuto sua banda faz tempo. Tem isso e tem o fato da gente gostar do que faz, isso é o que mantém a banda viva. A gente vê muita banda que pinta e depois de um ano some. Vamos pegar um exemplo daquela época das bandas emo, o Restart. Os caras fizeram sucesso, talvez ganharam em um ano mais do que eu ganhei na vida inteira, mas os caras não conseguem viver sem aquilo, sem grana e as facilidades que o sucesso traz. A gente já teve exposição em mídia, o Gordo já foi apresentador da MTV, mas isso para o Ratos nunca foi um retorno positivo. Somos uma banda que veio do punk, então o fato do vocalista trabalhar na TV não trouxe sucesso, pelo contrário, trouxe cobrança ideológica. A banda sempre tentou manter-se a parte disso, inclusive o Gordo.

O Ratos passou por mudanças de integrantes e do som da banda. Fale dessas transformações e cobranças que receberam.

O lance da cobrança do estilo musical já foi pior, pois às vezes é difícil para algumas pessoas assimilarem. Queira ou não, o Ratos deu a cara para bater, deu um passo a frente, ninguém estava misturando punk com metal quando a gente começou. Da parte do punk sempre teve aquele lance dos caras torcerem o bico. O Ratos sempre fez discos diferentes um dos outros, sempre mantendo o estilo da banda. Óbvio que teve outros ingredientes que foram somados a nossa música, influências diversas também. Tem banda como ACDC, Motorhead, Ramones, Cólera, que podem ficar tocando a mesma coisa a vida inteira e se sentir bem com isso. Não é meu caso. Gosto de fazer coisas que sejam relevantes para mim em primeiro lugar.

E o que tem escutado?

Tem uns estilos que meio que doem no saco, bandas nessa linha tipo Slipknot, tem umas guitarronas e tal, maior visual maneiro, mas eu não consigo parar para ouvir. Não sei se estou ficando um velho chato. Quando eu pego coisa nova para ouvir é banda tipo Slayer, que lança sempre disco bom, Napalm Death, Testament, Exodus. Não são bandas novas, são discos novos. Citei o new metal, que o cara vai cantando meio ‘amorosozinho’ e depois vai ficando ‘raivosão’. Sei lá, prefiro ouvir um Johnny Cash.

Como é a relação com os demais integrantes do RDP?

Bem boa, viajamos junto para caralho. Viajamos mais juntos entre nós do que com as nossas famílias. Respeitamos as individualidades. Sou o único que não sou vegano. A gente tem nossa vida fora da banda e ninguém fica andando junto para lá e para cá. Fora do lance do Ratos, cada um tem sua vida e é bem diferente a vida de cada um. Isso é bom, pois na época lá de atrás, quando a gente do Ratos andava toda hora junto, tinha mais treta. Na época do Jabá [ex-baixista e um dos fundadores 1981-1993], do Spaghetti [ex-baterista 1981 a 1991]. A gente era jovem, louco para caralho, a banda tinha mais exposição. Quando a gente fez o Brasil [álbum lançado em 1989], a gente estava em gravadora grande, saía em revista, éramos um bando de punk louco sem noção. Era mais complicado, pois isso acaba desgastando.

Foto: Gibran Mendes 

Seu pai tinha uma oficina de pintura de carros, você trabalhou de motoboy, com Kombi em transportadora. Podemos considerar o Jão, a veia operária do Ratos?

Pode se dizer que sim. Hoje eu tenho um bar, que a especialidade é carne, a parrilla argentina. Isso criou uma piada dentro da banda de que o Ratos criou um açougue. Três são veganos e eu sou o açougueiro da banda. Venho de família operária, o rock me deu muita coisa, mas nunca me deu luxo. Consegui criar minhas filhas, viver e criá-las honestamente. Criar filho com rock no Brasil é meio foda, ainda mais com um som do tipo do Ratos.

Qual a diferença dos projetos e dos públicos do Ratos de Porão e do Periferia SA.?

O público do Ratos é mais eclético. Vai desde o pessoal do punk, do hardcore, do metal, até uns perdidos que falam que é a banda do João Gordo. Já o Periferia é algo mais direcionado musicalmente, não é tão eclético. Fazemos um punk de protesto, hardcore old school. Essa é a nossa pegada. Muita gente que não vai no show do Periferia, vai no show do Ratos. E tem gente que vai no Periferia e não gosta do Ratos.

Vocês foram precursores do punk no Brasil e na época havia rivalidade entre os punks de São Paulo (capital) e do ABC. Fale desse período.

Era uma treta de gangue bairrista, uns se achavam mais punk que os outros. Quando entrei no punk eu nunca tinha ido para o ABC. Pelo fato do ABC ter as empresas multinacionais, as indústrias, tinha muito punk working class, mais tinha muito skinhead, aquele lance nacionalista. E isso também era motivo de briga. No fundo acho que todo mundo gostava de brigar e de ter uma treta. Eu particularmente, o Jão, nunca tive nada com os caras. Eu até achava que tinha umas bandas do ABC bem mais fodas que as de São Paulo, tipo o Áustria. Quando teve o Começo do Fim do Mundo [festival punk em 1982], no Sesc Pompéia, foi tenso, pois juntou todo mundo, juntou punks de São Paulo e do ABC pela primeira vez. O clima era de que iria dar merda. Os caras do ABC achavam que a gente era playboy, mas não tinha playboy, a gente era da periferia de São Paulo. Subúrbio e periferia é tudo a mesma coisa, gente excluída da sociedade. Hoje já tem o lance ideológico, do tipo: sou vegano e não ando com você, sou anarcopunk e não ando com você, sou crust e não ando contigo.

Foto: Gibran Mendes 

Quais as histórias mais bizarras que lembra nestes 36 anos?

Coisas bizarras acontecem sempre. Mas tem umas coisas que são bem loucas, se puxar no Youtube vai achar lá “Ratos: bolt of love”, a gente tocando em um barco do amor em um lago na Finlândia. A gente tocando e o barquinho chacoalhando. Esse ano fizemos uma turnê latino-americana em lugares que nunca tínhamos ido. Costa Rica, El Salvador. É louco ver que a gente tem público lá. Na Bolívia, por exemplo, teve um show com uns moleques que tinham umas camisetas escritas Ratos de Porão a mão, pois os moleques não tinham dinheiro para comprar e acho que nem chegava nosso material lá. Isso é louco, pois remete a minha adolescência. Tinha umas camisetas escritas “vida ruim”, “Ratos de Porão”. Me identifiquei para caralho. Hoje, mesmo com esse mundo globalizado, tem um monte de excluído. Se marcar está pior. A evolução é relativa.

Em 1989 vocês lançaram Brasil, com clássicos como Amazônia Nunca Mais, Farsa Nacionalista, Máquina Militar, Crianças Sem Futuro. Trace o Brasil de 1989 e o Brasil atual?

O momento atual do Brasil como sociedade está bem estranho. Não sei até que ponto as redes sociais influenciaram nisso. Hoje em dia tem um monte de filha da puta eleitor do Bolsonaro que tem orgulho disso, orgulho de um cara que é a maior toupeira. Se identificam pela toupeirice entre o candidato e o eleitor. Discuto nas redes sociais com uns babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. O mundo tem muita informação hoje, na minha época você tinha que correr atrás da informação. Era através de livros, livro te salvava. Hoje os idiotas compram ideias prontas. A política no Brasil está bizarra, a eleição do ano que vem é um negócio temeroso. As opções são brutas, até Luciano Huck tentaram lançar. Depois do golpe, pois isso foi um golpe, um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobres tem que andar de ônibus, tem que se foder,  engraxar o sapato deles, servir a comida deles. Olha o Temer, eu desejo muito mal para esse verme filho da puta. Onde está aquela galera que estava fazendo dancinha na Paulista pintado? Onde está essa gente? Essa galera não está se sentindo enganada? Não é possível, o preço da gasolina para mim é o mesmo que para eles. Olha esse lance trabalhista [reforma trabalhista], eu não sou empregado, mas no meu bar eu tenho várias pessoas registradas. Eu não concordo com isso ai e não vou fazer isso com os caras que trabalham para mim. O bagulho foi um crime, um roubo, uma exploração.

E o Dória?

Putz, o Doriana é triste hein malandro! Os caras pensaram que ele iria colocar todo mundo de camisa polo Ralph Lauren na escola, caviar na merenda, vai vendo. O cara é um patife, um marqueteiro. Nunca cuidou nem da conta corrente dele, não sabe administrar nada. É capaz de um bosta deste tentar ser candidato. Quem votou no cara lá em São Paulo não quer dar o braço a torcer, assim como a galera que apoiou o golpe. Os caras tem tipo orgulho, jamais vão admitir que estão errados. O cara burro não admite nunca, ele vê que a gasolina está mais de quatro contos, vê os direitos trabalhistas roubados, vê professor não ganhando salário, mas não admite a merda toda. Pega o Alckmin, outro patife da pior espécie. Já dizia Rui Barbosa, “não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

Foto: Gibran Mendes 

A repressão, a violência policial, sempre estiveram nas letras do Ratos. Diante do atual cenário, para onde podemos caminhar?

Acho preocupante todo esse lance de repressão. Eu sempre posto lá [Facebook], a polícia militar tem que acabar, porque esse formato aí é da ditadura. Estamos no mesmo nível daquela época, vai professor protestar porque não está ganhando salário e leva bala de borracha, spray de pimenta no olho. Quando eu posto isso sempre vem os Bolsominions dizer: “quem tem medo de polícia é bandido (sic)”. Essas frases prontas. Não sou bandido, mas sou cabreiro com a polícia sim.

Quando o Ratos estava prestes a completar 30 anos foi lançado o documentário Guidable. Recentemente vocês fizeram um show com outras bandas, como Resto de Nada, Mercenárias, AI-5, em comemoração aos 40 anos do punk rock. E para os 40 anos do RDP, o que vislumbrar?

Quando o Ratos fez 30 anos eu juntei quase todo mundo que tocou no Ratos, faltou só o Pica Pau [ex-baixista 1995 a 1999]. Era para ter saído um DVD disso ai. Contamos a história da banda através da discografia com as formações da época. Mas deu merda no áudio e desistimos de lançar. Sobre os 40 anos têm quatro anos para gente pensar, mas vamos comemorar de alguma forma sim.

Vocês estão no estúdio compondo?

Estamos terminando de compor, mas cada um tem sua vida, seus projetos paralelos, mas estamos querendo fazer disco novo por aí, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem. O Ratos sempre foi chato com a gente mesmo neste lance de composição. A gente vai gravar o disco na certeza que tem que estar legal. A gente prefere demorar um pouco mais para lançar um disco ao invés de fazer um bagulho nas coxas.

Nestes 36 anos de banda, se pudesse voltar no tempo, o que faria diferente?

Não fumaria crack. Isso atrasou meu lado, perdi amigos. Vida pessoal ficou na merda, devendo para traficante. Mandamos o Jabá embora da banda, que era o fundador junto comigo. Esse tipo de coisas. Essas cagadas se eu não pudesse fazer seria bem melhor. Foi uma fase bem crítica, não sei como a banda não acabou e até conseguiu produzir coisas.

Edição: Gibran Mendes

FILME ESPANHOL RETRATA O LUTO A PARTIR DO OLHAR DE UMA CRIANÇA

Dezembro 13, 2017

CINEMA

Autobiográfico, ‘Verão 1993’, da cineasta espanhola Carla Simón, conta a história de Frida, uma menina de 6 anos que vai morar com os tios depois da morte da mãe, vítima do vírus da Aids
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
                                                                   DIVULGAÇÃO
Infância

Longa autobiográfico traz um delicado retrato de uma criança que ainda não sabe como lidar com a ausência dos pais e com o luto

Um turbilhão atinge a vida da pequena Frida (Laia Artigas) naquele verão de 1993. Sozinha em um canto da casa, ela escuta os adultos cochicharem sobre seu futuro, a morte do pai e a recente morte da mãe, vítima de complicações ligadas ao vírus da Aids. Os tios e os avós desmontam a casa na capital, em Barcelona, e organizam a mudança da criança para a casa do tio, em um sítio no interior da Espanha. Aquele será o último dia em que ela passa no apartamento que viveu com os pais e o primeiro dia de um longo processo de aceitação da morte.

Esta é a história de Verão 1993, primeiro longa-metragem da cineasta catalã Carla Simón, também responsável pelo roteiro baseado em sua própria vida. O filme que estreou no Brasil na última quinta-feira (7), traz um delicado retrato de uma criança de seis anos perdida depois da morte dos pais, sem entender como lidar com a ausência e com o luto. Sem ser piegas nem sentimental, a ficção traz beleza e uma rara sutileza no roteiro e nas ótimas atuações.

RBAAnna e Frida
Todas as inseguranças e dúvidas estão presas dentro Frida (dir.) e apenas seu olhar e seu jeito arrogante dão suaves sinais de sua fragilidade

Quando Frida chega no sítio dos tios (Bruna Cusí e David Verdaguer), ela se sente completamente deslocada por não fazer parte da família e não estar habituada ao ambiente rural. Mas a doce Anna (Paula Robles), de 4 anos, aceita prontamente a prima como irmã e o casal faz de tudo para demonstrar, sem distinção, o amor pelas duas meninas.

No início, ciúmes e inveja são os sentimentos que ressaltam nas reações de Frida. Por que a família dela não é/foi como a da prima Anna, com os pais felizes, saudáveis, amorosos e divertidos? Como fazer para ser aceita pela nova família e pelos novos amigos? Frida não demonstra seus sentimentos nem chora a ausência dos pais: todas as inseguranças e dúvidas estão presas dentro dela e apenas seu olhar e seu jeito arrogante dão suaves sinais de sua fragilidade. Como chamar a atenção para uma dor tão profundamente escondida?

Sua revolta e falta de habilidade para lidar com sentimentos e situações tão novas acabam trazendo problemas sérios à nova família. E esta situação só vai mudar caso haja altas doses de compreensão, de aceitação e de amor. Só assim a solidão de Frida vai poder se transformar na paz interior que toda criança deve ter.

Verão 1993 foi duplamente premiado na última edição do Festival de Berlim (Melhor Primeiro Filme e Prêmio do Júri na mostra Generation) e no Bafici, além de ser sido selecionado como o representante espanhol ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018.

CartazVerão 1993
Direção e roteiro: Carla Simón

Elenco: Laia Artigas, Paula Robles, Bruna Cusí, David Verdaguer, Fermi Reixacha
Produção: Valérie Delpierre
Produção executiva: Valérie Delpierre, Maria Zamora
Distribuição: Supo Mungam Films
Gênero: drama
País: Espanha
Ano: 2017

 
 
 

LIBERDADE CONDICIONAL VIGIADA: QUANDO A PRISÃO É O PRÓPRIO CORPO

Dezembro 12, 2017

CINEMA

Documentário ‘Corpo Delito’, de Pedro Rocha, apresenta o drama de Ivan que, depois de oito anos preso, vai para o regime de liberdade condicional com uma tornozeleira que controla seus movimentos
por Xandra Stefanel, especial da RBA
 
FOTOS: DIVULGAÇÃO

Ivan

Ivan parece se sentir tão preso dentro de casa quanto se sentia dentro de uma cela. Mas agora, a prisão é seu corpo

Ivan Silva, de 30 anos, acaba de sair em liberdade condicional depois de passar oito anos encarcerado. Ele pode andar pela rua, mas apenas nos locais em que é autorizado pela justiça. Neste regime, começa a retomar sua rotina em casa, com a mulher Gleice e a filha Glenda, mas a convivência com os amigos, as festas e baladas estão proibidas. Ivan tem seus movimentos monitorados sistematicamente por uma tornozeleira que registra sua localização. É esta a história que o diretor Pedro Rocha acompanha no filme Corpo Delito, que estreiou nesta quinta-feira pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras em cinemas de 22 cidades.

Morador da Favela dos Índios, em Fortaleza, Ivan parece se sentir tão preso dentro de casa quanto se sentia dentro de uma cela. A prisão, agora, é seu próprio corpo, que não pode ir para onde quiser no momento que desejar. “A tornozeleira prende minha liberdade. Tem que ter muita paciência: tem a família, tem a pulseira, tem o trabalho… São três coisas e não pode errar com nenhuma das três. A família você não pode deixar, a pulseira você não pode quebrar e o trabalho você não pode abandonar. Aí fica difícil, né? Todo dia é essa mesma rotina: você acorda de manhã, toma banho, vem pra Fábrica Escola. Aí, chega em casa e vai dormir, não pode sair de casa. Eu sei que de um jeito ou de outro ela vai sair do meu pé. Não sei como, mas ela vai sair”, declara Ivan à psicóloga do organismo voltado à ressocialização de detentos que frequenta.

O fato de estar livre e preso ao mesmo tempo faz com que o rapaz vá se incomodando progressivamente. Seu contato com o mundo “lá de fora” é Neto, um amigo de 18 anos que tem o mesmo estilo de vida de Ivan antes de ser preso. São os olhos deste menino que levam o espectador para os lugares onde Ivan não pode mais ir: as festas, a praia, o futebol com os amigos…

RBAGeral
O que inspirou o diretor a fazer o documentário foi a vontade de investigar o que leva os jovens pobres e negros das periferias serem vistos como suspeitos

A fotografia do filme evidencia bem essa dicotomia ao apresentar Ivan com enquadramentos fechados e escuros. Mas apesar de Neto estar livre para curtir a vida, ele também não é completamente livre e o olhar que recebe do segurança em um shopping prova isso, assim como as revistas policiais nas quais sempre é “escolhido”. Aliás, foi desta constatação que o filme nasceu: da vontade de investigar o que leva os jovens pobres e negros das periferias serem quase sempre vistos como suspeitos.

O longa-metragem de quase 75 minutos foge do tradicional formato de documentário; nele não há entrevistas nem declarações feitas diretamente à câmera. “Corpo Delito é um filme híbrido, que se vale tanto de recursos do documentário observacional quanto do roteiro de ficção. O conflito e a tensão dramática do filme conduzem essa experiência aos moldes da ficção, enquanto a irregularidade de tal curva lembra ao espectador que ele está diante de uma matéria estranha, frequentemente aquém do que se espera de uma ficção propriamente dita”, explica Pedro Rocha. “A estética adotada tenta potencializar a experiência de encontro do espectador com o protagonista – um homem com um passado criminoso sobre quem todos formularão opiniões e julgamentos, ao mesmo tempo em que descobrirão que o desconhecem profundamente.”

Ao final, ficam no ar importantes questões que precisam ser debatidas: o uso da tornozeleira realmente favorece a reinserção dos ex-presos na sociedade ou ela é apenas mais uma forma de castigo que não traz benefício algum? A liberdade monitorada pode ser considerada de fato liberdade? O filme, no entanto, não traz respostas prontas apesar de deixar subentendido o ponto de vista do diretor. 

Corpo Delito está sendo exibido em cinemas de Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiania, João Pessoa, Maceió, Manaus, Niterói, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Luis, São Paulo, Teresina e Vitória.

CartazCorpo Delito
Direção: Pedro Rocha
Elenco: Ivan Silva, José Neto, Gleiciane Gomes e Jeferson do Nascimento
Produtores: Ton Martins e Leandro Alves
Roteiro: Diego Hoefel
Direção de fotografia: Juliane Peixoto e Guilherme Silva
Montagem: Frederico Benevides
Editor de som: Erico Paiva