CENTENÁRIO DE INGMAR BERGMAN

por Walnice Nogueira Galvão

Um dos maiores diretores de cinema que já houve:  e para muitos o maior, assim superlativamente, como declara Woody Allen no prefácio a Lanterna mágica, a autobiografia de Bergman. Os fãs preferem esquecer as constrangedoras tentativas do prefaciador, que pretendeu imitá-lo, e o desastre em que redundaram.

Guarda parentesco com Strindberg e Ibsen, dramaturgos escandinavos do fim do século XIX, com seus mundos decadentes, dilacerados, sem misericórdia nem redenção. Uma visão sobrecarregada, cruel anatomia da sociedade burguesa  sobre a qual paira a sombra de Kierkegaard, cujas concepções deixaram rastros. Interroga-se a morte, a culpa, a ausência de Deus, o torvelinho da alma humana, a maldade, a fé, a loucura, raramente irrompendo uma nota mais leve.

Conhecidas são suas divas, no cinema e na vida real: as irmãs Harriet e Bibi Andersson, Eva Dahlbeck, Ingrid Thulin, Liv Ullman. No total, deixou 9 filhos, de diferentes mães. Sua tumultuada vida amorosa está candidamente contada por ele próprio na autobiografia e em documentários alheios.

Atrizes e protagonistas são tremendas mulheres marcantes. Uns acham que Bergman é um inigualável pintor de retratos de mulheres, manifestando seu fascínio por elas, que ocupariam um lugar sublime em seu altar pessoal. Outros o acusam de sádico, pois leva a verrumação da alma delas até ao ponto de machucá-las e humilhá-las, inclusive fisicamente (v. Gritos e sussurros, Persona). Seria uma maneira de se vingar do desejo avassalador que sente por elas – e de que elas são, evidentemente, “culpadas” – levando-o a detonar sua própria vida com frequência. É conhecido fenômeno, responsável por muita misoginia. É bem verdade que poucos cineastas levaram ao paroxismo, como ele, o estudo do dilaceramento mútuo que pode ser a relação de um casal, que ele disseca com bisturi implacável.

Filho de um pastor protestante luterano, vem de uma criação estrita e severa, coalhada de castigos corporais, num cotidiano em que perpassam o diabo, o inferno, a culpa, e assim por diante. Ele confessa que odiava o pai e almejava a morte dos irmãos. Uma tal criação, moldando-lhe e deformando-lhe a personalidade, seria exorcizada na obra do artista. Fala muito de demônios, espíritos e seres inomináveis que o atormentam. É de notar o contraste entre, de um lado, a vida pessoal desordenada e, de outro, a vida profissional disciplinada e produtiva.

Tão cedo quanto possível escolheria viver como um recluso na ilha de Farö, onde morreu e foi enterrado.

Este ano, que assinala seu centenário de nascimento, está tomado por celebrações mundo afora. Seu país, a Suécia, decretou 2018 como o “Ano Bergman”. O restante do mundo segue seus passos. No Brasil, aqui em São Paulo, brindam-nos com o Festival Cinesesc, esta casa de projeções na rua Augusta que resiste heroicamente à destruição de todas as maiores salas, sempre pronta a acolher eventos de arte que não visem nem ao lucro nem à moda. Ali se apresenta este mês uma mostra dos filmes mais representativos do cineasta. A não perder tão rara oportunidade.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP 

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