Archive for Agosto, 2018

BRASIL DE FATO: CÁTIA DE FRANÇA, A FILHA DE UMA NEGRA QUE DEU AULA QUANDO NENHUMA PODIA ABRIR A BOCA

Agosto 30, 2018

ENTREVISTA

A compositora, que leva no canto a voracidade da mãe, fala do boicote da mídia e do papel político da arte

Andreia Roseno e Raíssa Lopes

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Cátia nasceu na Paraíba e, como ela mesma diz, tem “acidentalmente” 71 anos - Créditos: Foto: Etic Gomes/Divulgação
Cátia nasceu na Paraíba e, como ela mesma diz, tem “acidentalmente” 71 anos / Foto: Etic Gomes/Divulgação

“Eu tenho dois pés / dor dos meus olhos / vai pros meus pés / e dos meus pés / pra dentro da terra / da terra para a morte”

Diz a cantora e compositora Cátia de França nos versos da música “Kukukaya”. Como ela mesma define, a canção é um arrebatamento. Arrebatamento que vem de um povo perseguido, de quem tem no sangue a dor dos índios, negros, ciganos. Nesta entrevista, ela, que nasceu na Paraíba e tem “acidentalmente” 71 anos, mas lá dentro continua menina, fala para o Brasil de Fato do papel da arte e do seu posicionamento político. Cátia também conta de sua morte – a mídia –, e de sua ressurreição – a internet.

Brasil de Fato – Como você classifica a sua música e por que ela não está tocando nos grandes meios de comunicação?

Cátia de França – O que é a minha música… Ela é uma soma daquilo que foi. Começa tudo na família, sobre quem foi minha mãe, Adélia de França, a primeira negra a lecionar na Paraíba. Ela se foi na década de 1980. A âncora da minha música não está apoiada em algo que não tem consistência. Tudo começa e deságua na minha mãe. Tenho uma argamassa que vem de Adélia de França. Eu não sou tocada na rádio por ser filha de Adélia, a negra que lecionou, quando nenhuma negra podia abrir a boca. 

Minha música também vem dos livros, do que eu leio. Eu digo que quando eu leio um livro, eu engravido. A minha música é o que eu leio, uma frase que me é dita, que eu ouço. Saber ouvir me sacode. É o constante pipocado. Dentro do ônibus, as coisas que as pessoas dizem… Minha música é isso. É o que os livros me concedem. Manoel de Barros tá impregnado, Zé Lins do Rego… É tudo minucioso. Eu bebo nessa fonte e me torno eterna. E a mídia me esnoba, mas a internet me foi a ressurreição. A minha música incomoda.  

Como é sua relação com a mídia?

Quando a música não vem embrulhada em beleza física… Porque eu não tenho as pernas lindas de uma Elba Ramalho, eu não tenho a insinuação de uma Tânia Alves. Então, eu tenho que vencer pelo que eu defendo. O meu trabalho não tem preço e me violenta só discutir dinheiro. 

De repente, a internet me coloca na linha de frente. É uma responsabilidade grande, mas eu não tenho medo, porque os 71 anos que eu carrego me dão consistência de repousar com a consciência tranquila porque eu nunca me vendi. E a direita me acenou para eu entrar nessa porta larga da pouca vergonha. Mas minha mãe tinha como livro de cabeceira o “Geografia da Fome” [do Josué de Castro], os pôsteres da minha casa eram Dom Helder e Che Guevara. Eu andei por essas vias e não posso nunca passar por cima disso pra ter uma tranquilidade financeira. 

Minha mãe não era de religião nenhuma, sabia podre de cada uma, mas ela viu que se deixasse a única filha negra sem religião, eu não seria aceita em colégio nenhum. Com 12 anos fiz minha primeira comunhão, foi quando eu ganhei o meu primeiro piano. Depois ela me botou num colégio evangélico, onde fui de um jeito e voltei de outro. É que eu fui pega no corredor cantando Elvis Presley, imitando o que eles chamam de música do demônio. Depois disso me doutrinaram, voltei doutrinada, e minha mãe me botou pra estudar música. Ela disse “minha filha toca música desde os quatro anos de idade, mas foi pra um colégio e voltou assim”. E é por aí que eu começo na música popular.

Quando eu chego pra cantar, quase sempre esperam a artista loura, linda, a mais gostosa, insinuante. Eles se decepcionam. Depois que eu me apresento, todo mundo é meu conterrâneo. Todo mundo chega perto depois que eu matei o leão. Eu venço por isso, e fico com três metros de altura porque tô defendendo o meu feijão.

Como você vê as mulheres no mundo da arte? Tanto na forma como elas são representadas e como elas atuam.

Eu me lembro de 1979. Quais eram as mulheres que estavam fazendo música na época? São dois eixos. Tem o que transita livremente pela mídia, que era a Gal, Bethânia, e tinha também as que incomodavam, que era a Marli Miranda, Sueli Costa… Várias. A Elza [Soares] anda nos dois caminhos e não se contamina, principalmente a Elza de hoje. Mas o que fazer e como representar? O grande divisor de águas é a sobrevivência. É fazer sucesso, ter um retorno rápido, ser reconhecida. Mas é muito fácil se deixar levar e se inebriar, por isso a responsabilidade é enorme. Eu acho que cada vez que eu subo no palco é um ato político, por causa de todas as coisas que eu defendo. Minha música “Kukukaya” é um arrebatamento que vem de um povo perseguido. Eu tenho no meu sangue descendência cigana, negra e índia. Então, eu luto por isso. E isso não termina nunca.

No atual contexto político e social do Brasil, qual seria a contribuição do setor cultural, o que essa área tem a oferecer para o povo brasileiro?

Ô xente! Começa é com a gente. Veja só, Lula tá preso e nas pesquisas de opinião ele tá na frente. Então, somos nós que criamos esse tsunami pra não haver acomodamento. Essa Copa do Mundo foi muito boa pra eles. Na calada da noite aberrações políticas foram decididas porque tava todo mundo botando as esperanças nos ombros de Neymar e ouvindo os doutrinamentos de Galvão Bueno. Então, somos nós e tem que ser veementes, porque os jornais sempre mentem. Por que eles não colocam o MST marchando feliz na estrada? Porque não interessa, porque existe um monopólio jornalístico que continua dando as cartas nesse jogo sórdido.

Nós precisamos desarrumar isso, não com apitaço e nem panelaço, tem que sacudir. E nós temos uma coisa muito a favor, porque antes dependíamos do mimeógrafo. Hoje não, você aciona uma tecla no celular, pede ajuda da tal da Siri, uma mulher insinuante que tem dentro do Iphone. Essa danada dessa Siri… O que eu digo é que a gente tem isso na mão. A Copa se foi e outubro está chegando. Menina, e tem um programa que pergunta “o que a gente quer do Brasil”! É incrível isso, né, como eles dão uma mão e pegam a outra e confundem toda a gente. É uma areia movediça tremenda. Ou seja, não podemos cansar de ficar em cima, porque acabou o ópio. O momento é esse, tem uma ameaça perene aí. Não tem pra onde correr. Não é só o sapato brasileiro que tá apertando, existe uma tendência de direita terrível pelo mundo afora. O presidente dos EUA [Donald Trump] tem aquela coisa de um menino que o pai alisou muito a cabeça e virou essa incongruência aí. É isso, nós temos que ir. Convocou, tem que ir. Não tem como esperar que a roupa enxugue sozinha.

A juventude canta muito as suas músicas. O que você acha disso e qual mensagem você deixa para os jovens? 

Ah, isso foi a maior alegria. Eu cantei no Circo Voador em 1984, e cantei lá agora porque estava lançando um disco com respaldo financeiro da Natura. E de repente, a plateia cantando a letra comigo. Eu chorei por dentro. Isso foi um soco no estômago, um haraquiri. Foi a minha ressurreição na mídia burra.  O recado pra juventude é que que não cochile, não se engane.

É isso: sacudam. É vocês que vão mexer. Nada é impossível, e isso não é uma pieguice religiosa. Deus é brasileiro. É um golpe dentro do outro, e não fiquem achando que passou, porque todo dia tá aprovado um retrocesso. A gente perdeu muito terreno por inércia. Mas não é só os jovens, tá na mão de todos nós. Eu tenho responsabilidade, todos nós que fazemos teatro, música, tudo. Acidentalmente, tenho 71 anos, mas continuo uma menina lá dentro.

Edição: Joana Tavares

PORTAL FÓRUM: EM ATIVIDADE HÁ 45 ANOS, O GRUPO TARANCÓN LANÇA PRIMEIRO DVD

Agosto 29, 2018

O lendário Grupo Tarancón, especializado em música folclórica latino-americana e em atividade há 45 anos, lança neste final de semana, nos dias 1 e 2 de setembro, no SESC Belenzinho, em São Paulo, o DVD “Tarancón ao Vivo em São Luís do Paraitinga”. O trabalho registra canções da carreira do grupo, inclusive do antológico disco “3 Lugares Diferentes”, lançado em 1987.

A banda, com nove discos lançados, cria uma ponte cultural entre a música brasileira e nossos povos irmãos, derrubando as fronteiras físicas e culturais pela diversidade musical. A música do grupo explora os sons das matas amazônicas, dos pampas argentinos, dos altiplanos andinos e até do mar caribenho, grandes centros urbanos e pequenos povoados, com seus personagens e dramas, suas tradições e alegrias.

“Tarancón em São Luiz do Paraitinga” (selo Atração) é o primeiro registro para DVD do grupo. A gravação foi realizada na praça da cidade, numa madrugada fria do dia 14 de maio de 2016, durante a Festa do Divino. O repertório traz obras de Violeta Parra, Victor Herédia, Denise Emmer, Milton Nascimento, Chico César e outros, e músicas como Promessas de Sol, Boquita de Cereza, Canción y Huayno, Czanto Lunar, Mira Ira, Caldera e temas folclóricos da Bolívia, Chile e Argentina estão no repertorio. São canções que se tornaram clássicos pelas vozes e instrumentos musicais dos primeiros brasileiros latino-americanos.

No Sesc Belenzinho, o Tarancón se apresenta com a seguinte formação: Emílio de Angeles (flautas andinas, percussão e voz), Ademar Farinha (flautas andinas, violão, charango e voz), Maetê Gonçalves (voz), Jorge Miranda (baixo, charango e voz), Jonathan Andreoli (bombo leguero e percussão), Natália Gularte (cajón, efeitos percussivos e voz) e Jica Thomé (percussão e voz).

Serviço

 Show: Tarancón

Dias: 01 e 02 de setembro. Sábado, às 21h. Domingo, às 18h

Local: Teatro (392 pessoas)

Não recomendado para menores de 12. Duração: 1h30.

Ingressos: R$ 20,00 (inteira); 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante) e R$ 6,00 (credencial plena do Sesc: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes). Venda pelo Portal e unidades do Sesc.

Limite de venda de 4 ingressos por pessoa.

Sesc Belenzinho

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000

Belenzinho – São Paulo (SP). Telefone: (11) 2076-9700

www.sescsp.org.br/belenzinho

‘HISTÓRIAS QUE O NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA’ TRAZ O BRASIL DA PORNOCHANCHADA

Agosto 28, 2018

SUCESSO DE PÚBLICO
Documentário de Fernanda Pessoa resgata o gênero que atraía mais público aos cinemas na década de 1970, em plena ditadura, e reconstrói parte da história do país
por Redação RBA.
REPRODUÇÃO

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava

“Sempre digo que ninguém gostava da pornochanchada, só o público”, conta a diretora Fernanda Pessoa

São Paulo – Após passar por vários festivais no Brasil e no exterior, o filme Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava estreou na quinta-feira (23) no circuito comercial. O documentário da cineasta Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada brasileira, gênero renegado pela crítica nos anos 1970 mas responsável por boa parte das maiores bilheterias na década.

“Tinha um conhecimento muito grande de pornochanchada, filmes brasileiros dos anos 1970, por um trabalho que tinha feito na filmoteca da Faap, onde sou formada em cinema, e me intrigava muita essa questão: durante uma ditadura militar, super de direta, moralista, tradicional, os filmes mais vistos terem sido pornochanchadas”, conta Fernanda Pessoa, em entrevista a Fabiana Ferraz, na Rádio Brasil Atual. “Fui fazer um mestrado na França e lá tive essa ideia de fazer um recorte histórico, assistir os filmes e ver o que me ensinavam sobre a ditadura.”

Na entrevista, Fernanda explica como surgiu o termo ‘pornochanchada’. “Quem inventou esse termo foram os críticos, os próprios diretores nunca gostaram muito do nome. Foi inventado por volta de 1973 para falar de filmes eróticos que estavam começando em 1969, como Os PaquerasAdultério à brasileira, e passaram a usar o termo para denominar uma série muito heterogênea de filmes”,conta. “Vários que não eram nem comédia  porque a pornochanchada nasce como referência às chanchadas dos anos 1950, seria comédia ou musical  e começam a chamar filmes que têm conteúdo erótico ou social como ‘pornô social’, ‘pornô drama’, ‘pornô político’… Se tem mulher pelada, vira ‘pornô,’ e tem que lembrar que não é pornô, não é sexo explícito, é só erótico.”

A diretora destaca ainda que a crítica era severa com os filmes do gênero. “Sempre digo que ninguém gostava da pornochanchada, só o público. A crítica de esquerda não gostava porque achava que eles eram alienantes, achava inclusive que (os filmes) estavam ajudando a ditadura a se manter no poder, pois as pessoas iam assistir às pornochanchadas e ficavam alienadas em relação ao que acontecia no país. E muita gente achava que a ditadura gostava desses filmes, o que não é verdade. Se você for olhar os arquivos da censura, vê que esses filmes não davam essa dimensão de ‘Brasil grande’ que a ditadura tentava mostrar”, aponta. “Nem esquerda nem direita gostava dos filmes, só o público. E muita gente assistia e falava mal.”

Entre as curiosidades das produções do gênero estavam os títulos dúbios, que representavam, na verdade, uma estratégia comercial. “Uma das formas de tentar vender o filme para os exibidores, mesmo antes de ele estar pronto, era através do título. Às vezes, o título não tem nada a ver com o filme e tem sempre um duplo sentido. A gente tem As Aventuras amorosas de um padeiro, que não é sobre as aventuras amorosas de um padeiro, mas sobre uma personagem carioca que casa virgem e decide que não é aquilo que ela quer.”

“Tem filmes muito bons, e dentro dos ruins têm coisas boas. Acho que é um gênero que temos que olhar, principalmente porque foi o mais assistido nos anos 1970. Isso diz muito sobre a gente.”

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

PORTAL FÓRUM: FESTIVAL CaRIOca ProgFest, 30 DIAS DE ROCK PROGRESSIVO NO RIO DE JANEIRO

Agosto 27, 2018

Só pra provar que certos gêneros não morrem, vai acontecer no Rio de Janeiro, entre 28 de agosto e 27 de setembro, o CaRIOca ProgFest levará ao Centro Cultural Justiça Federal (Centro), Centro da Música Carioca (Tijuca) e Casa da Pedra (Ipanema) o melhor do rock progressivo. O mais curioso é que a maioria das bandas, a despeito do gênero ter feito sucesso na década de 70, é composta por uma nova geração de músicos.

Abrindo o festival, o Caravela Escarlate se apresenta na terça-feira, dia 28 de agosto, às 19h, no Centro Cultural Justiça Federal, lançando seu CD homônimo. O grupo é uma concepção do multi-instrumentista e compositor David Caravelle, formado no Rio de Janeiro no início da década de 1990.  A base do som do grupo é a confluência da musicalidade do rock progressivo europeu com o lirismo da música brasileira. Com formações inconstantes em seus primeiros anos, a banda surge de forma fixa a partir da parceria com o tecladista Ronaldo Rodrigues (ex-Massahara, ex-Módulo 1000, atual Arcpelago), em 2011. Com o veterano baterista Élcio Cáfaro (já tocou com Cássia Eller, Chico Buarque, MPB-4, Boca Livre, Edu Lobo e muitos outros), a banda apresenta músicas do novo CD, que contou com a parceria na produção executiva da produtora carioca Vértice Cultural. O disco vem ganhando fortes elogios da crítica especializada no Brasil e no exterior, lançado internacionalmente pelo selo europeu Karisma Records, da Noruega. Uma das poucas bandas brasileiras com um importante selo europeu dando suporte ao trabalho da banda.

O Centro da Música Carioca, na Tijuca, receberá grande parte da programação do festival, em todas as quintas-feiras de setembro, às 20h. No dia 06, será a vez do consagrado guitarrista Victor Biglione realizar seu aclamado Tributo a Jimi Hendrix, acompanhado por Jorge Pescara (baixo) e Fábio Cezanne (bateria). Biglione apresentará sua releitura peculiar da obra do icônico guitarrista, agora arranjadas com o extremo virtuosismo, complexidade e riqueza rítmica do trio. Além das clássicas “Little Wing”, “Foxy Lady” e “Voodoo Child”, fazem parte ainda as soturnas “Pali gap”, “Jam back at the house” e “We Gotta live Together”. Composições do próprio Biglione e de Billly Cobham fazem também parte do repertório. Arranjador, compositor e virtuose das “seis cordas”, Victor Biglione é um dos músicos com a maior número de participações em gravações e shows, na MPB. O curriculum internacional é invejável, com dois Grammys – Manhattan Transfer, em 1989, e com Milton Nascimento, em 2000. Dois CDs, com o guitarrista do The Police, Andy Summers, além da participação em álbuns de Stanley Jordan, Lee Konitz, John Patittucci, Sergio Mendes, Steve Hackett (Genesis), John Hiseman (Colosseum) entre outros.

No dia 13, a banda de Niterói, Sleepwalker Sun, com forte influência do rock progressivo setentista e contemporâneo, vai apresentar seu segundo álbum, após o bem sucedido CD de estreia, que recebeu diversos prêmios de crítica e público – em 2005, foi premiado pelo site Rock Progressivo Brasil nas categorias melhor banda brasileira, melhor arte, melhor músico, melhor baterista, melhor guitarrista, melhor vocalista, melhor novidade. Na época, também foi indicada para o prêmio dos melhores do ano na revista Rock Brigade e recentemente ficou em 3° lugar no Prêmio Toddy de Música Independente, atrás apenas de Sepultura e Angra, e com cerca de 50% de votos a mais do que o 4º colocado. Neste show, o grupo vai apresentar também músicas do novo CD, com forte presença de pianos e instrumentos analógicos como mellotron, hammond, mini moog, solos de guitarras dignos dos medalhões do rock progressivo, e os vocais preciosos de Giana Araújo.

O Únitri sobe ao palco do Centro da Música Carioca no dia 20 de setembro, mostrando suas influências que passam por Rush, Genesis, Pink Floyd, Yes, Jethro Tull, The Flower Kings e deságuam no Clube da Esquina, Sagrado Coração da Terra, O Terço, entre outros. Seus líderes, o baixista Rômulo Lima e o guitarrista André Zichtel, são oriundos da formação original da banda, que vem transcendendo ao longo do tempo, chegando ao segundo álbum da banda, “Libertas”, que faz parte do repertório do show, assim como o anterior “Minas, Cantos e Canções”, primeiro CD e apresentado, inclusive, no Centro da Música Carioca em novembro de 2014. Com o tecladista Raphael Montechiari e o baterista Michel Melo, o grupo retrata uma sonoridade que contempla o virtuosismo e o psicodelismo harmônico e melódico dos anos 70, sem abandonar, no entanto, as suas raízes musicais fincadas no Brasil.

Já no dia 22, sábado, a Casa de Pedra, em Ipanema, vai receber o Laranja Boreal, formado pelo músico e pesquisador musical Jorge Pescara e pela musicista Renata Puntel. O duo tem como proposta fazer releituras em arranjos acústicos, sem deixar de ser contemporâneos, através do resgate de obras consagradas. O show “FALA, Tributo aos Secos & Molhados” promove um diálogo nada convencional: viola luso-brasileira de 15 cordas (cordas triplas), acordeon, kantele (mini-harpa de 15 cordas) e vocais. Revisitando a música brasileira, com a experimentação artística durante as performances ao vivo, o duo tem a proposta de quebrar paradigmas culturais e estéticos. Os músicos residiram alguns anos em Lisboa/Portugal, dedicando-se a pesquisas musicais e folclóricas. A viagem os levou ao fundador e compositor dos Secos & Molhados, João Ricardo, português que chegou no Brasil aos 11 anos de idade para trazer sua musicalidade lusófona e criar o grupo mais icônico da música brasileira. A instrumentação utilizada pelo Laranja Boreal neste espetáculo sugere diversas ligações mais profundas com o grupo de João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad. A começar pela viola brasileira (conhecida erroneamente como ‘caipira’) este instrumento teve suas origens em ancestrais lusitanos, como é o caso da Viola Braguesa (com a mesma configuração de cordas e afinações da brasileira), porém ao mesmo tempo, tão adotada pelo povo do Centro Oeste brasileiro, donde coincidentemente nasceu Ney Matogrosso.

O grupo Arcpelago encerra o CaRIOca Prog Fest no dia 27 de setembro, no Centro da Música Carioca. Formada em 2011 por Ronaldo Rodrigues (teclados e vocais / ex membro da “Massahara”, “Módulo 1000”, e atual membro da “Caravela Escarlate” e “O Terço lado B”), porém com o nome de Aurah, o grupo traz hoje em sua formação o baterista Renato Navega, o baixista Jorge Carvalho e o guitarrista Diogo Albano. A banda busca uma inspiração holística do som setentista, com uma ampla musicalidade. Tendo o rock progressivo como base, o grupo recheia sua música com peso e energia, a alternância entre a introspecção e a intensidade e excitantes variações de climas e texturas. As referências vão dos recortes mais eruditos aos mais simples, trazendo uma caleidoscópica mistura da estética do rock dos anos 1970, privilegiando arranjos fortes que favorecem a presença de todos os instrumentos, a sonoridade analógica e composições autorais exploratórias.

Programação

 

28/08 (terça-feira) – Caravela Escarlate

Local: Centro Cultural Justiça Federal

Horário: 19h

Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia-entrada)

Av. Rio Branco, 241 – Centro

Tel. (21) 3261-2550

 

06/09 (quinta-feira) – Victor Biglione Trio

Local: Centro da Música Carioca

Horário: 20h

Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia-entrada)

Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca – Rio de Janeiro – RJ (21) 3238-3831

 

13/09 (quinta-feira) – Sleepwalker Sun

Local: Centro da Música Carioca

Horário: 20h

Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia-entrada)

Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca – Rio de Janeiro – RJ (21) 3238-3831

 

20/09 (quinta-feira) –  Únitri

Local: Centro da Música Carioca

Horário: 20h

Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia-entrada)

Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca – Rio de Janeiro – RJ (21) 3238-3831

 

22/09 (sábado) – Laranja Boreal

Local: Casa da Pedra

Horário: 20h

Ingressos: R$20,00 – inteira / R$10,00 meia-entrada

Endereço: Rua Redentor, 64 – Ipanema

 

27/09 (quinta-feira) – Arcpelago

Local: Centro da Música Carioca

Horário: 20h

Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia-entrada)

Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca – Rio de Janeiro – RJ (21) 3238-3831

BRASIL DE FATO: O EXEMPLO DE JOÃO DAS NEVES PARA A ARTE DE RESISTÊNCIA

Agosto 26, 2018

CULTURA

Dramaturgo, diretor e escritor faleceu nesta sexta-feira, em Minas Gerais

Wallace Oliveira

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

João das Neves tinha 84 anos - Créditos: Foto: Divulgação/Itaú Cultural
João das Neves tinha 84 anos / Foto: Divulgação/Itaú Cultural

O teatro brasileiro se despede de uma de suas mais expressivas figuras. Aos 84 anos, faleceu o diretor, dramaturgo, ator e escritor João das Neves. Rodeado de amigos e familiares, ele partiu nesta sexta-feira (24) em sua casa, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O velório acontece a partir das 12 horas, no crematório Parque da Colina. Ele deixa um vasto legado na arte brasileira, com escritos, peças de teatro e uma longa caminhada de educação popular e lutas sociais.

Um pouco da trajetória

O primeiro contato com o palco se deu ainda na adolescência, há mais de 60 anos, em sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Depois, ele se formaria ator e diretor, na década de 50, pela Fundação Brasileira de Teatro (FBT). Desde cedo, João das Neves fez do teatro um foco de resistência.

Em 1960, fundou Os Duendes, grupo perseguido pelo governo de Carlos Lacerda. Logo após o golpe militar, ajudou a criar e dirigir o Grupo Opinião, articulando protesto, estudos e difusão da dramaturgia nacional. Por ele passaram Zé Kéti, João do Vale, Maria Bethânia, Paulo Autran, Nara Leão e os diretores Augusto Boal e Flávio Rangel, entre outros. Nessa época, João dirigiu “O Ultimo Carro”, peça desenvolvida em torno do público que, deslocado ao centro da cena, era posto em ação. O espetáculo foi visto por mais de 200 mil pessoas. 

Em 1980, João das Neves mudou-se para o Acre, onde desenvolveu trabalhos comprometidos com as causas indígenas e ambientais. São desse período, entre outras, as montagens “Tributo a Chico Mendes” (1988) e a peça não encenada “Yuraiá – o rio do nosso corpo” (1990), fundamentada na pesquisa que fez sobre a Nação Kaxinawá.

“Ele descobriu nessa convivência do Acre um trabalho muito próximo aos indígenas. Ele tinha uma sensibilidade com os povos que são outro modelo de civilização, outro olhar do mundo, e tentava traduzir isso no teatro e fazer uma confluência das lutas urbanas com as lutas desses povos”, comenta a atriz Tainá Rosa, do movimento Muitxs.

Nos anos 90, João das Neves foi viver em Minas Gerais, onde, ao lado de sua companheira, a cantora Titane, trabalhou em vários espetáculos, entre os quais “Titane e o Campo das Vertentes” (2006), “Madade Satã” (2015) e, mais recentemente, “Lazarillo de Tormes” (2016), que marcou seu retorno ao palco como ator, após 25 anos.

Em seu aniversário de 84 anos, em janeiro, lançou seu livro “Diálogo com Emily Dickinson”, uma interlocução lírica em haikais, aforismos e sonetos com a poetisa feminista do século XIX, cuja obra foi quase integralmente conhecida somente após a morte, em 1886.

Arte e política

 “O João conseguia fazer uma relação em que a arte não era só instrumento para a política, mas elas se fundiam de forma perfeita. A arte podia cumprir um papel emancipador, libertador. Foi uma das pessoas mais lúcidas que eu conheci, de fazer essa relação sem perder a capacidade criadora”, recorda Guê Oliveira, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

João das Neves ajudou a construir o Partido Comunista e o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes UNE. Recentemente, manteve uma profícua colaboração com movimentos populares. Participou, em 2016, da ocupação da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em BH, em protesto contra a extinção do Ministério da Cultura pelo governo golpista de Temer (MDB).

“A resposta imediata das pessoas da cultura foi importante para dizer que estamos alertas. A própria ocupação em si foi uma experiência boa, se vivia uma horizontalidade de decisões. Tudo era decidido com todo mundo”, disse, na época, em entrevista ao Brasil de Fato.

Educador popular

Em abril, João das Neves e Titane contribuíram com a UNE e o MST em oficinas das quais surgiram materiais que seriam usados na divulgação do Congresso do Povo. Dessa experiência brotaram intervenções do Levante Popular da Juventude na Marcha para Brasília, realizada na primeira quinzena de agosto, pelo registro da candidatura de Lula à Presidência.

“O processo foi fenomenal, muito intenso. O João era atual, conseguia ser a história desse teatro de resistência, mas, ainda assim, ser muito ativo na produção da história. Ele e a Titane traziam a diversidade da luta, da arte e da resistência. Não tinha jargões, mas como o congado, a arte do Jequitinhonha, os povos indígenas são resistência hoje, vivos, ativos”, recorda a estudante Ana Júlia Guedes Bonifácio, do Levante Popular da Juventude.  

Edição: Joana Tavares

BRASIL DE FATO – CAMPO MINADO: JOÃO PESSOA SEDIA O PRIMEIRO FESTIVAL FEMININO DE HIP HOP

Agosto 25, 2018

Evento acontece pela primeira vez na capital paraibana tendo como protagonistas as mulheres

Cida Alves

João Pessoa (PB)

Festival conta com larga programação, que vai desde oficinas até shows, que integram o Hip Hop Delas - Créditos: Divulgação
Festival conta com larga programação, que vai desde oficinas até shows, que integram o Hip Hop Delas / Divulgação

O festival Campo Minado é promovido pelo grupo Sinta A Liga Crew e a Campo Minado Produções, desde o dia 20 de agosto vem desenvolvendo uma programação bastante extensa com oficinas de estêncil, rap, danças urbanas, fotografia, produção audiovisual com dispositivos Móveis, e outras, sempre voltadas para a produção artística.  

A programação, que vai até o dia 07/09, também conta com feira de exposição, workshop de produção musical, mesas redondas, mutirão “Graffiti Delas”, campeonato de break woman front e shows de rap. São mais de 16 atrações musicais que estarão no palco, dentre elas: Rap Plus Size (SP), Atitude Feminina (DF), Sinta a Liga Crew (PB), Cintia Savoli (BA) e Carolina Rebouças (CE). Haverá, também, discotecagem com a DJ Iza Queiroz (PB) e atrações do graffiti como a Witch (PB), DedoVerde (PB), Ellen Rodrigues (RN) e Nathê (PE).

Segundo Kalyne Lima, uma das organizadoras do evento e integrante do Sinta a Liga Crew, o Festival busca fazer uma crítica ao papel de coadjuvante que as mulheres ocupam na produção artística, porque, muitas vezes, os detentores da técnica e dos equipamentos, principalmente no hip hop, são os homens. “O objetivo do festival é visibilizar a produção feminina, fortalecer o que já se avançou até aqui, e promover e estimular mais mulheres para que se sintam num processo de empoderamento e de autogestão, a ponto de estabelecer carreiras frutíferas, ocupando todos os espaços”.

Atrações como Sinta a Liga Crew (JP), Rap Plus Size (SP) e Lady Laay (PE), entre outras, se apresentam dia 6 e 7 de setembro no Centro Cultural de Mangabeira, em JP. / Divulgação.

Segue a programação, lembrando que as oficinas acontecem de 20 a 31 de agosto, espalhadas pela cidade, e são voltadas para o público feminino oriundo de áreas de vulnerabilidade social. 

20 a 31/08 – Oficinas diversas em diversos pontos da cidade

03/09 – Mesa Redonda: Campo Minado – Anexo Casa Da Pólvora – das 14h00 às 17h00

04/09 – Mesa Redonda: Feminismo no Hip Hop – Anexo Casa Da Pólvora – das 14h00 às 17h00

05/09 – Mesa Redonda: Reto – Gordofobia, Homofobia e Machismo no Hip Hop – Anexo Casa Da Pólvora – das14h00 às 17h00

06/09 – Mesa Redonda: Empreendedorismo das Manas – Centro Cultural de Mangabeira – das 14h00 às 17h00

Campo Minado Festival Hip Hop Delas

Hora: 18h00 as 23h00

Dias: 06 e 07/09 – 

Local: Centro Cultural de Mangabeira 

08h00 – Feira e exposição

14h00 – Campeonato Woman Front

14h00 – Mutirão Graffiti Delas

18h00 – Campo Minado Festival Hip Hop Delas

Informações:

83 9 8814-5528 (Campo Minado Produções)

Instagram: https://www.instagram.com/campominado_festival/ 

Facebook: https://www.facebook.com/events/527292717688744/

 

Edição: Heloisa de Sousa

NO SEU 2° CD NEGO ALVARO CANTA SAMBAS DE MOACYR LUZ E SERENA, POR AUGUSTO DINIZ

Agosto 24, 2018

por Augusto Diniz

Talento amadurecido nas rodas de samba do Rio, Nego Alvaro lança nas plataformas digitais de música nesta sexta (24/8) seu segundo CD.

O trabalho é voltado às composições de Moacyr Luz, o Moa, e Sereno, do Fundo de Quintal. São 10 faixas compostas por ambos.

Dois anos atrás, o cantor, compositor e percussionista (originário do repique de mão) havia lançado o seu primeiro registro fonográfico, o bom “Cria do samba”, com algumas composições suas e regravações, e que teve participação do próprio Moa e do Sereno.

Agora, nesse disco “Nego Alvaro canta Sereno & Moa” (Biscoito Fino), o sambista se entrega somente ao papel de intérprete. O músico conhece os meandros do samba e pode a partir desse disco consolidar sua carreira já com compromissos frequentes.

Nascido em Bangu, na Zona Oeste do Rio, Nego Alvaro, depois de tocar em várias rodas da cidade, começou a se destacar no Samba do Trabalhador – do qual faz parte até hoje.

Moacyr Luz, que comanda a roda e possui enorme capacidade de pôr em prática suas ideias musicais, tratou de estimulá-lo para um projeto solo. Daí, veio o primeiro trabalho de Nego Alvaro, com a gravação de CD com músicos de excelência do samba.

Agora, surge este segundo álbum, que Moacyr Luz idealizou e produziu, e teve arranjos de Leandro Pereira, Carlinhos Sete Cordas e Thiaguinho da Serrinha.

São sete inéditas e três regravações de autoria de Sereno e Moacyr Luz. Nego Alvaro destaca entre as inéditas do CD a música “Mariazinha”. Segundo ele, fica na linha da música de ritmo latino – e o faz lembrar de sua filha.

A música mais conhecida da dupla Moacyr Luz e Sereno é “Vida da minha vida”, gravada por Zeca Pagodinho no seu disco de mesmo nome, de 2010 – esta composição também faz parte do CD de Nego Alvaro. Oficialmente, a música foi lançada em 2008, no disco “Batucando”, de Moacyr Luz, com a própria participação do Zeca.

Outra regravação de Nego Alvaro é “Som Brasil”, que integrou o disco “Só felicidade” (2014), do Fundo de Quintal, e abre esse novo CD do cantor e compositor. “Amor, o dono do meu caminho” também já foi gravada, mas recebeu nova roupagem – ela foi registrada no CD de 2015 do Samba do Trabalhador. Nego Alvaro conta que essas duas composições ele fez questão de regravar.

“Que batuque é esse?” foi a primeira composição lançada de Moa e Sereno, mas não faz parte do CD de Nego Alvaro – ela foi gravada pelo Moacyr Luz no disco “Sem Compromisso” (2007), que Moa fez com o percussionista Armando Marçal.

Senero participou das gravações do disco em sua homenagem na percussão, assim como Ubirany, parceiro do Fundo de Quintal. Ainda na percussão, Jorge Alexandre e Jorge Quininho – Nego Alvaro também tocou percussão em algumas faixas.  

Acompanhe o cantor e compositor Nego Alvaro nas redes sociais aqui.

Imagens

NINGUÉM FAZ CINEMA SOZINHO, DIZ FONTOURA, POR SOFIA PASCHOAL

Agosto 23, 2018

no Medium

por Sofia Paschoal

Em entrevista, o diretor e roteirista conversa sobre família, inspirações, paixões, angústias, principais influências e próximos projetos. Comemorando 50 anos da estreia de seu primeiro longa-metragem, o cineasta fala, também, sobre a sua relação com o cinema e diz que não pretende parar de trabalhar enquanto a idade permitir

Numa casa bucólica localizada no Rio Comprido, bairro histórico do Rio de Janeiro, vive o cineasta Antonio Carlos Fontoura. Muitos livros, plantas por todos os lugares, cartazes dos seus próprios filmes e quadros que dão vida às paredes, como A Bela Lindonéia, de Antônio Amaral, e o famoso cachorro Rex, de Angelo de Aquino, ambos seus amigos. Em uma estante, uma Coca-Cola zero grafada com “Antonio” e uma garrafa de Biotônico Fontoura fazem referência ao nome do diretor. Assim é a moradia que divide com Letícia, sua esposa há 30 anos, e com Glorinha, um filhote de Podengo Português que mais parece gente. A casa ao lado é ocupada pela sua produtora, Canto Claro, provando que, para Fontoura, a linha entre trabalho e descanso é, de fato, muito tênue. Aos 78 anos, diz que os 80 são os novos 50 e que não pretende parar de trabalhar tão cedo. Atualmente, comemora meio século do lançamento de seu primeiro longa e se prepara para realizar seu novo projeto, o filme de ficção Alma.

“Glorinha, temos visita!”- acena com a cachorrinha no colo e conta que, desde que seu filho mais novo se mudou para Portugal, encontraram em Glorinha a fonte de energia da casa. A família é uma das coisas mais importantes para Fontoura, que já foi casado outras duas vezes e tem três filhos — dois do segundo casamento e um do atual — e cinco netos, com idades que variam entre dois e 20 anos.

Antônio Carlos Fontoura estreou sua carreira com o curta Heitor dos Prazeres(1965), sobre a vida do compositor e artista plástico. Seu primeiro longa, Copacabana me engana, foi lançado em 1968 e obteve um público muito acima do esperado: mais de um milhão de espectadores. Hoje, com uma carreira composta por cerca de oito longas, 16 curtas-metragens e diversas minisséries e programas de TV, Antônio se divide entre a casa no Rio Comprido e o seu refúgio particular: um pequeno sítio em Friburgo, interior do Rio, onde exerce sua profissão nas horas vagas: comercializa as verduras e frutas orgânicas ali cultivadas.

Acorda cedo, toma café na varanda, lê o jornal — “o jornal é uma fonte interminável de ideias para roteiros”, diz Fontoura –, passeia com a cachorrinha, trabalha muito nos vários projetos que pretende tirar do papel e, nas horas vagas, vai ao cinema. Essa é sua rotina. Quando pode, vai para o mato. A natureza é a sua inspiração.

Sobre a coisa mais inesperada que já fez na vida, a resposta não vem assim tão fácil. “São muitas. Até porque o artista recebe tantas coisas do inconsciente coletivo, dos seus antepassados e até mesmo do seu próprio DNA que fica difícil citar uma só situação”, conta. “Mas, entre tudo o que eu vivi, me tornar Ogã de Candomblé por seis anos foi uma coisa que nunca imaginei que pudesse acontecer comigo. Foi lá que me ensinaram uma lição muito importante: aprendi a dar passagem. Tudo o que vier pra você, você deixa vir, não rebate. É isso que o artista precisa fazer”, completa.

Formado em Engenharia Geológica para agradar seus pais, se tornou cineasta por acaso: “eu sempre fui apaixonado por jazz, então quis ser músico. Sempre amei artes plásticas e também quis ser pintor. Por fim, como leitor voraz que sou, quis me tornar romancista. Como não tinha talento para nenhuma das três coisas, fui parar no cinema, a única coisa no mundo que reúne tudo isso”, diz. No entanto, a faculdade de engenharia não se perdeu por completo: “eu tenho uma coisa muito forte que é herança da minha formação acadêmica: assim como os engenheiros, eu gosto mesmo é das coisas simples, cotidianas. O pão sobre a mesa, o cheiro do café. O meu cinema, por exemplo, não é um cinema complexo. Eu tento sempre ter uma linguagem simples e direta”. Para completar, Fontoura diz que é uma frase do Picasso que melhor o define: “eu não procuro, eu acho”.

Antes do cinema, sua primeira participação no mundo das artes foi no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o CPC da UNE. Por meio da UNE volante, viajou todas as principais cidades do país. Era ator e roteirista de peças comunistas que eram apresentadas em teatros de arena e no meio das ruas. Quanto ao cinema, sua primeira experiência foi ao participar das filmagens de Cabra Marcado Para Morrer, uma das obras cinematográficas mais importantes da história do cinema brasileiro, dirigido por Eduardo Coutinho em 1964.

Das pessoas que mais o inspiraram na vida, estão Sidarta Gautama (o Buda), o cineasta italiano Luchino Visconti, os escritores estadunidenses John Steinbeck e Norman Mailer e, por fim, os poetas brasileiros João Cabral de Mello Netto e Carlos Drummond de Andrade. Se pudesse jantar com qualquer pessoa do mundo, atualmente convidaria o escritor japonês Haruki Murakami. “Embora eu não goste de tudo o que ele faz, é uma pessoa que eu admiro muito, sou fã de carteirinha. Ele é de uma criatividade descontrolada, chega a ser impressionante”, explica.

De todos os seus filmes, o que mais gosta é Rainha Diaba, de 1974. Quando questionado sobre a intencionalidade da representação de minorias em plena década de 70, diz que é uma questão natural. “Sempre fui muito aberto quanto à sexualidade, classes sociais, enfim, quanto a tudo. Naquela época, a galera do cinema fumava muita maconha. Um dia, pensei: ‘quais são as mortes que estão por trás desse barato?’ e resolvi fazer um filme sobre a guerra da maconha. Conversando sobre o assunto com Plínio Marcos, ele me contou a história da Rainha Diaba, uma traficante travesti que comandava o tráfico em Santos. Eu apenas dei passagem e aceitei a sugestão”, completa.

Entre o roteiro e a direção, sempre preferiu escrever. Hoje em dia, mudou de ideia: prefere dirigir. “Talvez porque seja mais difícil”, explica. “Escrever é uma coisa que a gente controla. Tendo um tema legal, eu faço um bom roteiro sozinho. Aliás, a escrita é um trabalho muito solitário. Dirigir, por outro lado, é um desafio. O que me estimula na direção é a obrigação de lidar com todos os tipos de pessoas. Do diretor do banco ao carregador do refletor, todo mundo é importante. Ninguém faz cinema sozinho”, reflete. Além disso, diz que o diretor é apenas um padeiro que faz filmes, uma profissão normal, que não deveria ser romantizada. Por fim, critica um hábito muito frequente entre os brasileiros: o endeusamento do diretor simplesmente pela posição que ele ocupa.

Quanto à coisa que mais lhe incomoda no mundo, Fontoura diz, sem pensar duas vezes, que a pior de todas é a desigualdade social. “É vergonhoso, é criminoso, que um grupo tão pequeno de pessoas detenha a maior parte do dinheiro do mundo”, diz. Sobre a crescente tendência entre a população brasileira de pedir pela volta da ditadura, se indigna: “Eu sofri muito com a ditadura, mesmo não tendo sido censurado. Nunca fui militante, só participei da Passeata dos Cem Mil, mas muitos amigos foram presos, outros morreram. É muito irresponsável querer isso de novo, a ditadura não tem e nunca vai ter nada de bom”.

Sobre os próximos planos, Fontoura está lutando contra as dificuldades de financiamento do audiovisual para realizar seu próximo filme, Alma, adaptado de um livro que escreveu há mais de 20 anos. O enredo conta a história de uma personagem que nasceu menino, mas foi criado desde sempre como menina e vira ícone de feminilidade ao se tornar garota propaganda de uma marca de cosméticos. “A história, como tudo, veio por acaso: vi na TV um comercial da Roberta Close para a Denorex e acabei tendo essa ideia. Curiosamente, o restante da história veio do bandido Cara de Cavalo, criado desde criança como menina pelos pais”, finaliza.

Sofia Paschoal – fotógrafa e estudante de jornalismo que trabalha com cinema

NO RIO, PEÇA TRAZ HISTÓRIAS DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA

Agosto 22, 2018

TEATRO

A peça fica em cartaz até o dia 16 de dezembro e tem entrada gratuita

Redação

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

A obra é assinada pelo advogado e dramaturgo Ricardo Leite Lopes e pela diretora teatral Sílvia Monte - servidora do TJRJ  - Créditos: Vini Couto/Divulgação
A obra é assinada pelo advogado e dramaturgo Ricardo Leite Lopes e pela diretora teatral Sílvia Monte – servidora do TJRJ / Vini Couto/Divulgação

Inspirada em fatos reais, a peça “POR ELAS” apresenta um grupo de mulheres desconhecidas entre si, de idades variadas, de diferentes classes sociais, credos e visões de mundo, que, em comum, têm a violência na sua vida amorosa. Elas estão reunidas numa sala para falar sobre suas histórias, conforme os relatos vão acontecendo, os conflitos, preconceitos, a dor e a própria violência surgem no grupo.

A obra é assinada pelo advogado e dramaturgo Ricardo Leite Lopes e pela diretora teatral Sílvia Monte – servidora do TJRJ e idealizadora do “Teatro na Justiça”. A peça nasce de pesquisas em fontes diversas: casos encontrados nos processos judiciais, notícias veiculadas nas mídias, encontros com profissionais das áreas da Saúde e do Direito que trabalham com mulheres vítimas de violência doméstica, e de relatos de mulheres – desconhecidas, colegas, amigas e familiares.

A peça estreou no início do mês e vai até dia 16 de dezembro, de quarta a sábado, às 19h, na Sala Multiuso do CCMJ, no Antigo Palácio da Justiça do Rio de Janeiro, na Rua Dom Manuel 29, Centro (atrás do Fórum). A entrada é gratuita, com distribuição de senhas a partir das 18h30min. O espetáculo faz parte da Agenda Cultural do Museu da Justiça – Centro Cultural do Poder Judiciário (CCMJ).

Edição: Jaqueline Deister

PORTAL REÚNE VÍDEOS, FOTOS, AGENDA E HISTÓRIAS DO SAMBA MINEIRO

Agosto 21, 2018

Almanaque do Samba também tem programa de rádio semanal

Redação

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Reportagens sobre a vida de quem faz samba também estão no almanaque - Créditos: Luis Evo
Reportagens sobre a vida de quem faz samba também estão no almanaque / Luis Evo

Com o propósito de divulgar artistas e grupos mineiros de samba, valorizar a Velha Guarda e as novas gerações, além de reverenciar os que já viraram estrela, está no ar o site Almanaque do Samba – A Casa do Samba em Minas Gerais, um portal de informações e um programa de rádio dedicado ao gênero.

 “É a primeira vez que temos aqui um programa totalmente dedicado ao samba de Minas Gerais. Outra novidade é que os sambistas convidados para as entrevistas recebem cachê”, explica Zu Moreira, um dos idealizadores do projeto.

Com apresentação de Alexandre Rezende e Zu Moreira e programação musical de Bobô da Cuíca, o programa vai ao ar todos os sábados, às 21 horas, pela Rádio Inconfidência AM 880.

Portal

No site, é possível assistir a vídeos, acessar conteúdos exclusivos, acompanhar a agenda semanal e a localização das rodas de samba de Belo Horizonte e região. Além disso, é um local para conhecer a vida e obra de personagens que há décadas alimentam a cultura do samba: da passista ao dono do bar, do sambista à produtora de eventos, do ritmista ao segurança que controla a entrada nas rodas, da fã ao artista, por meio de reportagens especiais.

“Temos mais de 100 perfis de sambistas cadastrados, vídeos gravados no Quintal do Almanaque, um espaço que estamos criando para dar oportunidade às pessoas de conhecerem o samba autoral”, conta Moreira.

Quintal do Almanaque

O Quintal do Almanaque fica localizado na região da Pampulha e recebe mensalmente um evento ligado ao propósito do projeto. Em outubro, o espaço abrigará uma das rodas do Circuito dos Quintais do Samba na Roda da Saia, projeto que visa o empoderamento feminino no samba.

Geraldo Pereira

A cada ano, o Almanaque pretende homenagear uma figura ou acontecimento ligado ao samba de Minas Gerais. Em 2018, a obra em destaque será do sambista Geraldo Pereira, mineiro de Juiz de Fora, cujo centenário de nascimento foi em 23 de abril. 

 

Edição: Joana Tavares