AUGUSTO DINIZ: EM 2019 A MÚSICA DEVE BUSCAR CAMINHOS DA TRANSFORMAÇÃO

 29/12/2018.

Di Cavalcanti

Em 2019 a música deve buscar caminhos da transformação

por Augusto Diniz

Esses dois últimos anos foram marcados por uma queda acentuada de número de shows musicais no País. Instrumentistas que costumam acompanhar artistas de expressão em apresentações foram os que mais se queixaram dessa nova realidade – dou preferência a eles por que muitos são bastantes experientes (e ainda realizam trabalhos solos), conhecem a regularidade e a capacidade de shows de muitos intérpretes de ponta (por que já os acompanharam ou acompanham), e tem visão clara das demandas e ofertas do meio por serem exatamente os principais operários da indústria.

Em 2019, esse quadro não deve mudar muito. Embora se tenha otimismo – mais por vontade do que por real perspectiva, já que tudo depende das políticas econômicas a serem adotadas pelo novo governo e apoio do Congresso -, sabe-se que a recuperação será lenta e insuficiente para atender as necessidades visíveis a curto e médio prazos.

Deve-se contar também a dificuldade de governos estaduais e prefeituras em equilibrar as contas com arrecadação em baixa – assim, recursos para a cultura são impiedosamente cortados, empurrando projetos, festivais e atrações musicais em datas especiais para o fundo da gaveta.

O setor privado, já faz tempo, tem direcionado baixos investimentos para as suas áreas de marketing, apostando mais em ações diretas junto ao consumidor e cliente, e pouco em projetos institucionais e de imagem, onde abrigam as iniciativas com a participação da música e outras atividades alinhadas à cultura.

Sobram instituições e entidades independentes (como Sesc), extremamente importantes, mas com programações muito disputadas e sem espaço para todos. Além disso, não se sabe o futuro delas em meio às mudanças propostas pelo novo governo.

O que se verificou nesses últimos dois anos foram grandes artistas se apresentando até em locais acanhados – não necessariamente desqualificados -, que jamais tocariam em outros tempos. Mas não teve jeito. Tiveram que lutar pela sobrevivência ou manter alguma agenda musical, a senha do mercado para saber se o artista continua ou não conectado com seus fãs – ou em busca de novos.

Nesse final de ano teve o fechamento de mais uma casa de espetáculos da boa música brasileira. A Tupi or Not Tupi, na Vila Madalena (SP), depois de quase dois anos de funcionamento, encerrou suas atividades. O local nasceu e fechou no período de crise.

Mas há uma tendência clara nesse novo ciclo de espaços desse tipo – ao invés de grandes palcos. O problema são seus preços salgados por conta da capacidade de receber apenas pouco público, com shows intimistas – embora nem sempre o artista seja beneficiado no cachê por conta disso.

A música brasileira de qualidade não deve renascer em 2019. Teremos que aturar de novo o The Voice como falsa esperança, e as famigeradas listas dos “melhores” e “tops” da canção popular ligadas a esquemas de rádio e televisão e do que restou da indústria da música comandada pelas viciadas gravadoras.

Artistas e bandas nacionais seguem tentando abrir caminhos no exterior, notadamente na Europa, Estados Unidos e Japão, com o selo de word music ou de pop-rock universal. É conhecida a história de que parte dos músicos nas suas andanças fora do Brasil tem papel mais de apresentar trabalho – e valorizar agenda – do que ganhar grana, pois nem sempre se fatura tanto assim (só por que recebe em euro ou dólar americano…).

Apostas no lançamento gratuito de música na internet seguirão, com a cabeça de seu realizador focada em projetos físicos futuros com algum dinheiro. Relançamentos e discos especiais rememorando trabalhos anteriores já se esgotaram para o público.

O fato é que a música brasileira deve deixar de vez o culto a si e abraçar o engajamento para sobreviver – não necessariamente político, mas para atender anseios e demandas de um público não dominado em busca de transformações das anacrônicas ideias aí colocadas, contrapondo a essa realidade musical imposta, marcadamente de um pop de baixíssima qualidade cujo palco maior são as festas e exposições agropecuárias, agora ainda mais serelepe com os ventos ao seu favor.

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