Archive for Dezembro, 2018

RBA: GAME DE PRODUÇÃO NACIONAL COLOCA MULHER NEGRA E NORDESTINA COMO HEROÍNA

Dezembro 23, 2018
DIVERSÃO E AULA
Baseado no sertão nordestino durante o século 19, o game ‘Árida’ é uma aventura que desconstrói estereótipos e valoriza identidades de personagens em meio à seca e à Guerra de Canudos
por Felipe Mascari, da RBA.
REPRODUÇÃO/AOCA
Árida

No jogo com elementos de exploração e sobrevivência, a personagem Cícera auxilia os sertanejos a superarem a seca

São Paulo – “Qual o botão que atira?”, essa é a pergunta mais frequente dos jogadores que buscam novas experiências por meio de jogos eletrônicos. Na contramão do padrão dessa indústria, gamebaiano Árida surge com o objetivo de divertir, mas ao mesmo tempo educar, desconstruir estereótipos e ser uma plataforma de reconhecimento identitário.

Inserido no contexto do sertão nordestino durante o século 19, o jogo é uma aventura com elementos de exploração e sobrevivência. Ele traz a história da jovem Cícera, que auxilia os sertanejos a superar a seca. O protagonismo da mulher negra e nordestina é considerado uma “ocupação” dentro do universo do jogo. 

De acordo com Filipe Pereira, game designer e diretor geral da Aoca – produtora responsável pelo jogo –, é difícil sair do clichê dos jogos desenvolvidos no Brasil e no mundo. “Todos os componentes que estão no nosso jogo colocam a gente num percentual bastante diminuído pela indústria, não só pelo local do sertão, mas também pelo viés mais social. Sem falar do protagonismo de uma personagem mulher, negra e nordestina, o que não vemos nos outros jogos”, afirma à RBA.

Inicialmente, o jogo seria ambientado na região de Canudos, interior da Bahia, durante o confronto entre o Exército e os integrantes do histórico movimento popular liderado por Antônio Conselheiro, no fim do século 19. Entretanto, após iniciarem as pesquisas, os desenvolvedores decidiram agregar questões simbólicas de outras regiões do sertão baiano. Para isso, o grupo recebeu a colaboração de historiadores e especialistas na Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

“A gente fez a pesquisa em campo após seis meses de projeto, em Canudos e região, o que foi muito bom. Nós validamos caminhos que já tínhamos traçado. Uma coisa curiosa é que lá encontramos personagens como retratávamos já no game. É algo que vai de encontro com vários paradigmas que a gente tem na nossa história, como não conseguir se organizar socialmente, com um viés de resistência e utopia. Canudos, guardados as devidas proporções, é o socialismo na prática”, explica Filipe.

Identidade visual

As visitas ao sertão e o próprio desenvolvimento do projeto permitiram a ampliação de repertório da linguagem visual. Contrastes entre as texturas, a contemplação do horizonte como um elemento de reforço à imensidão do ambiente foram características estratégica adotadas, com o objetivo de oferecer alternância e antecipação à experiência de jogo.

Victor Cardozo, diretor de arte do projeto, explica que há um cuidado especial para o público que não conhece o nordeste, mas que possui uma imagem estereotipada. “A gente contempla o horizonte porque lá é um ambiente muito único. Desde o solo até a flora local, então queríamos passar outra visão, mostrando que há um ambiente duro, mas também bonito.”

A franquia será dividida em quatro episódios. A data de lançamento do primeiro episódio do game está prevista para o primeiro trimestre de 2019, com o computador como plataforma inicial. Victor explica que haverá um amadurecimento e uma dramatização do ambiente, na qual a arte será transformada ao decorrer da história. “As mecânicas vão evoluir também. Hoje, tem diversos aspectos universais e uma paleta de cores diversa; já no capitulo dois vamos explorar mais os detalhes, terá mais textura. O capitulo três será menos saturado, com mais aspectos de dramas e cores mais frias”, conta.

Em 2017, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) selecionou o jogo em seu edital de games. De acordo com o programa, é previsto que Árida receba R$ 250 mil para investir no projeto. O valor deverá ser usado para a elaboração do terceiro e quarto episódio. 

“A gente foi o único da Bahia a ganhar. Ao mesmo tempo que estamos orgulhosos, estamos tristes por saber que há outros talentos que poderiam ser contemplados. O fato da Ancine elogiar nosso projeto é um alento, ao mesmo tempo que produzimos socialmente algo forte, também é interessante para o mercado”, comemora Victor.

O universo do jogo mistura o cartoon com o realismo. A arte nordestina também faz bastante parte da ambientação do jogo, com a música e o cordel, sendo utilizados para a história. “Dentro da pesquisa nas artes conceituais, pegamos um novo olhar e trouxemos o grafite para dentro do jogo e chamamos o Bigode (Josivaldo Santos Silva), de Salvador, que atua há 20 anos aqui”, acrescenta Cardozo.

Reconhecimento identitário

Com o mercado gamer escorado no eixo Rio-São Paulo, os desenvolvedores acreditam que Árida, carregando a identidade nordestina, pode mudar esse cenário. Ao participar de diversos eventos do gênero pelo país, eles enfrentam a xenofobia e o rótulo de “jogo nordestino”.

“Porém, ao estarmos nesses ambientes, é uma intervenção não só para consumidores, mas para os desenvolvedores também. Muitas pessoas de São Paulo, por exemplo, são filhos de nordestinos, então tem uma identificação com essa raiz. É uma forma de reconhecimento identitário que as pessoas terão”, conta Filipe.

A experiência do jogo pode rever os olhares que tinham para o nordeste, acredita Victor. “Nós vamos levar a informação e cultura para o público, mas de uma forma divertida. Ensinar o que é cacimba ou um caçuá são coisas que fazem parte do Brasil que muitas pessoas não têm contato”, explica o diretor de arte.

A ideia é levar a franquia para o mundo dos quadrinhos. Apesar da equipe que conta com sete pessoas, hoje, eles buscam ampliar os colaboradores para tornar o projeto ainda maior, conta o diretor geral. “O jogo tem um universo que permite expandir a narrativa em outras plataformas e até com maior qualidade.”

BRASIL DE FATO: LIVRO BIOGRÁFICO “CAFÉ” CONTA “SONHOS INDISCIPLINADOS” DE DONA JACIRA

Dezembro 22, 2018

ENTREVISTA

Mãe dos rappers Emicida e Fióti a artista plástica lança seu primeiro livro de memórias e resistência

Norma Odara

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

Livro Café foi lançado pelas editoras LiteraRUA e Laboratório Fantasma  - Créditos: Reprodução
Livro Café foi lançado pelas editoras LiteraRUA e Laboratório Fantasma / Reprodução

Jacira Roque de Oliveira, mãe de Catia, Catiane, do produtor Evandro, o Fióti e de Leandro, o Emicida, é uma mulher forte, sonhadora, sensível e batalhadora, que aprendeu desde cedo a lidar com dificuldades. 

Autodidata, lia e escrevia, mas ouvia que seu destino não era o de sonhar e contar histórias, mas sim servir os outros como empregada doméstica.

A infância difícil, a educação no convento e suas experiências viraram livro, que apesar de triste, por narrar o amadurecimento precoce de uma criança que teve que ser mãe muito cedo e passou por desafios diversos, conseguiu transformar a dor em arte.

Aos 54 anos de idade a também artista plástica lança seu primeiro livro biográfico “Café”, das editoras LiteraRUA e Laboratório fantasma. Dona Jacira convida os leitores a se servirem de um bom café de coador, enquanto embarcam com ela em uma viagem de memórias, dor e resistência.

Confira o bate-papo:

Brasil de Fato – Jacira, pra começar o nosso bate-papo eu já lanço a pergunta “como é olhar sua trajetória e contrariar uma sociedade patriarcal, classista, racista? 

Dona Jacira – Eu me sinto como uma pessoa portadora de sonhos indisciplinados. E sou persistente, uma pessoa perseverante. Então estou realizando agora o que sempre quis fazer. Tive que fazer várias coisas, dar várias voltas pelo mundo, mas a cada vez que vinha essa angústia de estar em um lugar em que eu queria estar e não podia eu tinha uma esperança dentro de mim. Sempre tive uma entidade dentro de mim que me forçava a acreditar, mesmo quando não queria acreditar ela me forçava e muitas vezes eu brigava comigo falando sozinha “não vai dar certo, não vai dar certo. Ninguém aceita”. E hoje eu sou muito agradecida por essa voz, da minha intuição que não me deixou desistir. 

 

Brasil de Fato – Você poderia contar como é escrever um livro biográfico, com tantas memórias e como você ressignificou a dor, de vários percalços da sua vida.

Dona Jacira – Na minha infância, na infância de pessoas de um tempo atrás, ninguém nos pegava e levava para lugares onde tinham contadores de história. Os contadores de história do nosso tempo são aonde a gente está, são as mulheres, os fazedores de coisa, os vendedores. Nós somos um Brasil real, e no Brasil real as histórias estão postas. Nós não somos como este Brasil caricato que precisa sair de si, sair do seu universo para buscar essas histórias. 

No princípio eu quis morrer, depois eu tive muito ódio. Depois eu achei que tinha que abandonar as pessoas que não me ajudaram. Foi uma desconstrução de mim mesma, uma destruição. Mas quando eu tive os meus filhos eu tive uma esperança. Eu não conhecia a força deste amor que é de ter pessoas que saíram de mim e que dependiam de mim. E quando eu fui lutando para criar os meus filhos da melhor forma possível eu fui entendendo algumas razões. Não a razão do convento, mas as razões da minha mãe que teve que me deixar lá, a razão dessas mulheres que não têm apoio dos homens, das famílias. E é estranho, porque aquelas freiras, aqueles diabos eram estranhos. E não é porque a pessoa está ornamentada de roupas que dizem que é de quem tem fé, que elas têm fé. Elas não eram, eram outras mulheres magoadas, doentes que estavam enfiadas naquelas saias. E como elas não podiam descontar em quem as colocou ali naquele inferno, quem que elas tinham pra descontar? Eu! 

Então foi tardiamente, depois que eu voltei pra escola, quando a situação econômica melhorou, aí eu começo a contar com a sensibilidade desse caminho que eu passei e ao mesmo tempo de me quebrar, porque eu virei uma pedra pra resolver as minhas questões. Então, depois com o passar dos anos eu vou entrando em uma necessidade de sensibilizar, porque eu estava ficando uma pessoa muito amarga. Os ciclos vão se fechando e a gente vai entendo as razões das razões. Eu não me via negra, eu não entendia a viuvez da minha mãe. Eu também fiquei viúva muito cedo e eu fui entendendo. O ódio foi saindo de mim e foi entrando essa vontade de realmente buscar este sonho indisciplinado que eu te falei. 

Brasil de Fato – E o livro Café tem esse nome, que já faz alusão ao café que a gente gosta tanto e ele é um bate-papo, Dona Jacira? É a senhora contando as suas experiências, se abrindo, recebendo os leitores para contar um pouquinho da sua história de vida?

Dona Jacira – Ele é um bate-papo. Sou muito ligada nos cheiros. Não só do meu tempo, mas nós mulheres temos uma vida muito silenciosa e como a minha fala não tinha importância e a minha escrita era desacreditada, restou em mim um gosto pelo cheiro, o cheiro da terra, da chuva, o cheiro da comida e o cheiro da cozinha da minha mãe. Então este café, que a fumaça me levava a programa do Zé Béttio, me levou a conhecer o Luiz Gonzaga. 

Enquanto a minha mãe fazia o café e essa fumaça passeava pela casa. Então até hoje, quando eu sinto um cheiro de café, não é qualquer café, é o café que é de coador, que remete a essas memórias. E eu vou passando, voltando nas coisas que ficaram em mim, na minha infância, que às vezes eu acho, quando fico chateada, que foi uma infância que não aconteceu. Fiquei adulta muito cedo por conta dessas coisas que eu passei. 

 

Brasil de Fato – Queria falar um pouquinho sobre a música mãe, que seu filho Emicida escreveu pra você e que é bem forte e traz nos versos uma frase que me chama muito atenção que é “Vi Deus e ele é uma mulher preta”. Aí eu queria que você falasse um pouquinho de como você vê esse amor e esse reconhecimento 

Dona Jacira – Quando o Leandro fez essa música ele pediu pra que eu escrevesse alguma coisa eu narrei exatamente o dia que ele nasceu. E assim, eu acredito muito nessa história de que Deus é uma mulher preta, mas Deus pode ser uma mulher preta, Deus pode ser um índio. E na verdade eu acredito nos muitos deuses, uma variação de deuses e eu também tenho plena consciência de que esse Deus único, que o catolicismo trouxe também é um avatar maravilhoso, mas que por conta de histórias, de querer apagar a história das pessoas que construíram o Brasil ele foi sendo embranquecido e transformado. Então eu acho, eu acho não, eu tenho certeza que Deus pode ser sim uma mulher negra, como tantas deusas que nós temos, que são negras. Então quando eu pensei nessa música foi uma narração realmente disso, do nascimento do Leandro, do que as pessoas disseram, das coisas que aconteceram com ele .Ele andou muito cedo, falou muito cedo e ele sempre me chamava a atenção pelas coisas que ele dizia, desde muito cedo. Então eu acho que estou devolvendo isso a ele. 

Tem uma frase nessa música que as pessoas também comentam muito, quando eu falo que “filho pode ser pro mundo, mas o meu é meu” . E eu sempre respondo que meu filho roda o mundo, mas se ele tiver uma dor de barriga, uma tristeza, uma agonia, não é para os fãs que ele liga, é pra mim. Então meu filho é meu sim. 

Brasil de Fato – Como a gente tem o costume aqui No Jardim da Política, de pedir para os entrevistados e entrevistadas pedirem uma música, que seja significativa pra eles, que tenha marcado. Aí a gente queria que você pedisse uma música e explicasse brevemente o porque dessa escolha. 

Dona Jacira – Como você mexeu comigo com essa música, eu gostaria de pedir essa música mãe. Que até eu choro quando ouço. Eu gostaria, por toda a emoção que ela me dá, porque eu já havia de alguma forma abortado meus sonhos e quando meus filhos se elevam economicamente eles voltam, me ajudam a realizar o meu sonho. Não é toda mãe que consegue contar essa história, eu sou privilegiada. 

Serviço:

O livro biográfico café pode ser encontrado no site da Laboratório Fantasmae da editora LiteraRUA 

 

Edição: Guilherme Henrique

GGN: NENÊ LANÇA VERÃO E PANTANAL COMEMORANDO 50 ANOS DE CARREIRA

Dezembro 21, 2018

 

SEX, 21/12/2018 

Jornal GGN – Baterista e compositor Nenê comemora 50 anos de carreira. E para abrilhantar a comemoração lança dois novos discos autorais: Verão e Pantanal, disponíveis nas plataformas digitais. Realcino Lima Filho, o Nenê, participou de discos históricos de artistas como Hermeto Pascoal, Elis Regina e Egberto Gismonti, agora nos brinda com duas pérolas.

Verão, 14º álbum de carreira solo, é um projeto com seu trio, e Pantanal é um trabalho feito com seu novo grupo Nenê Kinteto. 

No álbum Verão, o baterista e compositor gaúcho está acompanhado pelos músicos Irio Jr. (piano) e Alberto Luccas (contrabaixo). Produzido por Carlos Ezequiel, “Verão” é o terceiro disco da quadrilogia iniciada com “Outono” (2009) e “Inverno” (2013). Alternando entre momentos intimistas e improvisos de intensa energia, o repertório do disco explora o equilíbrio entre a composição refinada e a criação coletiva instantânea que se tornou a marca do grupo. 

Em Pantanal, além de Nenê (bateria), formam o grupo Rodolfo Guilherme (trompete), Gustavo Benedetti (sax), Fabio Leandro (piano), Jakson Silva (contrabaixo). Com uma formação tradicional dos grupos de jazz mas com uma sonoridade completamente particular das composições de Nenê, o músico afirma que “Ao compor uma música mais sofisticada, harmônica e melodicamente, utilizando os ritmos brasileiros, você inova, com relação ao que se faz no restante do mundo”. Esse álbum também é produzido por Carlos Ezequiel e lançado pelo selo Engrenagens. 

Natural de Porto Alegre, Nenê mudou-se para São Paulo em 1966, e logo entrou para o histórico Quarteto Novo. Em seguida, tocou com Elis Regina no disco “Falso Brilhante”, com Milton Nascimento em seu “Clube da Esquina 2”, e com Hermeto Pascoal em seus discos “Zabumbê-Bum-A”, “Ao Vivo em Montreux”, participando também do Festival Live Under The Sky (Japão). Em 1980, entrou para o grupo de Egberto Gismonti, atuando nas turnês mundiais dos discos “Em Família” e “Sanfona”. Em 1982, muda-se para Paris. Lança o primeiro disco da carreira solo, “Bugre”, considerado pela crítica francesa um dos 10 melhores lançamentos do ano. Continua atuando com Egberto Gismonti e com jazzistas como Kenny Wheeler, Charlie Haden e Steve Lacy, entre outros. Retorna ao Brasil em 1995. Após liderar grupos em formações diferentes, começa o Nenê Trio em 2001. Desde então, o grupo foi destaque em eventos como o Projeto Pixinguinha, o Amazonas Jazz Festival, Festival Choro Jazz de Jericoacoara, Festival de Itajaí, Festival de Curitiba, Goyaz Jazz Festival, entre outros. 

Para conhecer, acesse:  

VERÃO 

 

PANTANAL

CARTA CAPITAL: CULTURA EM TEMPOS DE CÓLERA: O CINEMA NEGRO E FEMININO NO FRONT

Dezembro 20, 2018

Nos primeiros anos da ditadura, diversas instituições desarticuladas pela repressão iniciaram um processo de resistência e oposição ao governo.

A resistência cultural foi uma das formas consagradas de oposição exercidas por intelectuais, artistas, professores e produtores culturais, e produziu por si só um fenômeno político e cultural.

As formas de intervenção social aconteceram, muitas vezes, no terreno das produções culturais, onde os opositores constituíram um espaço de contestação e engajamento.

Na roda da história, cultura e política são grandes aliadas.

Logo após as eleições deste ano, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos pregou: “Os movimentos sociais são os territórios físicos, sociais e culturais onde as esquerdas se podem curar tanto do sectarismo como do entreguismo.”

No entreato de 2018 e 2019 – derradeiro de um ano marcado por intensas disputas no campo da diversidade, movimentos sociais e  das liberdades individuais, CartaCapital inaugura a série ‘Cultura em tempos de cólera’, parafraseando o escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Conversamos com cineastas, músicos e escritores que produzem perto e dentro das (diversas) bordas sociais. Na estreia da série, conversamos com Rosa Miranda, cineasta, negra, ativista, carioca, “e sem medo do futuro”.

“O desconforto é importante para que a gente se mova”

O incomodo logo bateu. Rosa Miranda, 28 anos, negra, moradora de São Domingos, em Niterói, procurou em 2010 uma universidade – particular – para estudar cinema. O vídeo apareceu na vida de Rosa sem querer. Dedica, ela logo procurou uma maneira de se profissionalizar. Mas algo não rolava bem. Ela então descobriu um curso de licenciatura em cinema na Universidade Federal Fluminense. Rolou. Única negra na sala, na época a moça não dava bola para o que (não) estava à volta.

Foi na moradia estudantil que Rosa começou a entender o que era diversidade: de pensamentos, de cores, de realidades. “Meus amigos da moradia me salvaram. Foi com eles que comecei a descobrir o que a minha presença ali, enquanto mulher negra, representava. Foi com eles que passei a fazer os meus primeiros trabalhos e entender o sentido de coletividade, de brigar pela nossa existência”, conta.

E foi com eles que Rosa formou o coletivo Kbeça D’ Nêga , passando a filmar a realidade de dentro para fora.

Filmaram o longa ‘Na Minha Pele’, sobre um colega (também negro) da moradia assassinado no campus. “Na época isso foi muito falado, mas caiu no esquecimento. Para esses casos a Justiça nunca dá um resposta, né?”

A produção era intensa. Dois longas por ano, exibições, festivais. Para um cinema sem recurso, era muito mais do que o previsível. O tecitura do cinema independente é bastante larga. Uma produtora com funcionários, equipamentos e acesso aos editais pode ser considerada independente, assim como amigos que se juntam para filmar com os recursos que têm no bolso.

Cinema ziquizira

Rosa se criou no que chama de cinema de aquilombamento, ou de agrupamento. São produtores com objetivos em comum e que resistem a um pensamento hegemônico e à produção de cultura de massa. “Neste momento, mais do que nunca, temos que continuar o que estamos fazendo. Muitas vezes fazemos na gambiarra. Não tem que ser assim, mas se tiver que ser na gambiarra, vai ser na gambiarra. Não vamos parar.”

Especialista no assunto, ela explica que a representação da mulher negra no cinema atravessa seu terceiro momento. Primeiro veio o cinema de denúncia (das opressões e mazelas). No segundo momento, “um cinema raivoso, que expõe o racismo e quem não se coloca nesse lugar”, e agora o terceiro, que ela considera ser “o cinema de afeto, que fala dos negros se amarem, de questionar as relações heteronormativas, de abordar o amor das mães solteiras e suas filhas.”

Entre uma gambiarra e outra, de tão focada nesse corpo de produção coletiva, Rosa mal se deu conta da fronteira que atravessava. No dia da colação grau, seguia a única negra da turma. “Minha mãe me disse “peraí, se o seu curso era o único (a UFF abriu em um curso inédito em todo País para a formação de teóricos e professores em cinema) –então você é a primeira negra formada em teoria em cinema. Ali a ficha caiu, por fim.”

Outras virão

Empoderada, a cineasta tem orgulho de sua trajetória, o que não diminui a tristeza por pensar “quantas ficaram para trás.” Agora, saber-se única negra em qualquer coisa é algo impossível de ser naturalizado. “É preciso sentir incomodo para que não se repita”, completa.

Rosa ingressou no mestrado na UFF. Sua pesquisa foca as diretoras negras brasileiras. Neste ano, Rosa foi para Lisboa apresentar o documentário ‘Privilégios’ no Avanca Film Festival. Para os colonizadores, Rosa exibiu um filme sobre gênero, raça e classe social. O documentário também questiona a política de ação afirmativa de cotas raciais e sociais, política pública reparatória totalmente desconhecida dos portugueses.

Assim como atrás das câmera, na acadêmica a acolhida nem sempre é boa. “Quando começo a falar da falta das negras, muita gente se incomoda, e ai passo a ser a mulher raivosa, chata. Mas eu incorporei aquilo que me fez chegar até ali. Sei que algumas não estão disponíveis para ouvir, mas eu vou falar. Agora é a nossa vez de falar, e juntas vamos falar tudo que precisa ser dito e ouvido.”

AUGUSTO DINIZ: MÚSICO CESAR MOCARZEL AUTOGRAFA EM SÃO PAULO NOVO CD

Dezembro 19, 2018

AUGUSTO DINIZ

 

por Augusto Diniz

Nesta quinta-feira (20/12), a partir das 19h, no bar Capitão Barley – Rua Cotoxó, 516, Vila Pompeia -, em São Paulo (SP), o músico Cesar Mocarzel realiza noite de autógrafo de seu segundo disco.

Com o título de “As canções que fiz pra você”, o novo trabalho de Cesar Mocarzel explora vários estilos, desde valsa, passando por bossa nova e samba, até um pouco de pop.

“Esse disco é difícil classificar. O primeiro era de bossa e samba”, afirma ele. O registro de estreia “Amigo é pra essas coisas” (2010), teve uma concepção de produção peculiar. Cesar Mocarzel só canto uma faixa, que é exatamente a que intitula o álbum, parceria famosa de Aldir Blanc com Silvio da Silva Jr – o músico faz até um dueto nessa faixa com o saudoso Ruy Faria (ex-MPB4).

Com exceção da faixa-título, nesse primeiro disco de Cesar Mocarzel, todas as músicas são autorais e inéditas com convidados de peso da música brasileira interpretando. Já o segundo trabalho, o músico apresenta 13 faixas autorais inéditas (sete solos e seis parcerias) e canta todas em duetos – com exceção da primeira. “Essa intenção de dar uma interpretação ‘dupla’ às canções me encanta”, diz.

Gravou em dueto com Cesar Mocarzel, pela ordem, Roberto Menescal, Maurício Detoni, Filipe Cirne, Isadora Morais, Chico Alves, Chico Faria, Fernando Brandão, Maria Thalita de Paula, Thaís Motta, Quarteto em Cy, Charles Gavin e Leo Russo.

“Esse segundo álbum nasceu de um momento pessoal difícil do qual a música me resgatou. Toda a concepção dele tem um motivo. Do nome à arte do encarte, a sequência das músicas”, revela.

O CD “As canções que fiz pra você” foi produzido por Cesar Mocarzel junto com Fernando Brandão – este fez ainda os arranjos de todas as canções.

O músico niteroiense, que também é jornalista, conta que o projeto do segundo disco foi concebido para ser digital. “Mas com o trabalho pronto e com a intenção de me reinserir no mercado como compositor da nova geração, eu senti a necessidade de tê-lo físico”, diz.

O novo trabalho de Cesar Mocarzel está disponível nas plataformas digitais e mostra boas composições e uma produção musical bem acabada – Fernanda Brandão pertence a nova safra de talentosos produtores da música brasileira.

BRASIL DE FATO: CUSCUZEIRIAS VALORIZAM CULTURA NORDESTINA NO VALE DO SÃO FRANCISCO

Dezembro 19, 2018

CULINÁRIA

Por dia, são mais de 300 pratos de cuscuz acompanhados de ingredientes regionais e combinações de vários vários sabores

Vanessa Gonzaga

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

19 de Dezembro de 2018.

Os pratos podem vir acompanhados de ingredientes regionais, como a carne de bode ou ovos, ou até mesmo bacon e catupiry - Créditos: Andréa Lenni Luz
Os pratos podem vir acompanhados de ingredientes regionais, como a carne de bode ou ovos, ou até mesmo bacon e catupiry / Andréa Lenni Luz

Uma das bases da alimentação do povo nordestino é, sem dúvidas, o cuscuz. O prato, já tradicional na cultura africana, ganhou novos elementos na vinda ao brasil e se tornou figura habitual nas refeições, acompanhado de ovos, carne de charque, leite ou manteiga.

Se no Brasil o surgimento do cuscuz está ligado às camadas mais pobres da população, como famílias de escravizados que fugiam ou de bandeirantes, hoje o prato é um símbolo do nordeste, o que fica evidente nas camisas, canecas, quadros e memes na internet sobre o prato. No Vale do São Francisco, um dos ramos da culinária local que impressiona quem vem de fora, e até mesmo aos que nasceram às margens do Rio São Francisco, são as cuscuzerias.

A proposta é valorizar o cuscuz, servido em porções individuais, chamadas de “peitinho”, devido á forma da cuscuzeira, e cheio de acompanhamentos como bode, frango, diversos queijos e até banana da terra. Em cada estabelecimento, a média é de 300 pratos por dia e cerca de 300kg de cuscuz por mês. Yeslândia Sampaio há quatro anos começou a vender cuscuz e pastéis junto com seus pais e o irmão em um trailer. “Começou aquela coisa familiar mesmo, só nós quatro e a gente percebeu que apesar de sair pastel, teve o boom do cuscuz, todo mundo só queria saber do cuscuz recheado. E começou no boca a boca, todo mundo chegava falando”. Hoje, a cuscuzeria batizada de Lampião Aceso, funciona num ponto fixo na cidade, com capacidade para quase 100 pessoas.

O mesmo aconteceu com Jamerson Costa, o Lozão, como é conhecido pelos amigos e família. A ideia de servir o cuscuz veio na casa de amigos, quando viu a cuscuzeira que serve porções individuais. No início, Jamerson conciliava a jornada de trabalho do comércio com a produção dos pratos. Com a demissão no trabalho, a saída foi investir na Lozão Cuscuzeria, que hoje faz até delivery. “Inicialmente nós não fazíamos entrega, mas o espaço foi ficando tão pequeno que a gente acabou expandindo, já que fisicamente não dá pra crescer ainda, a gente expandiu para que o nosso cuscuz chegasse à casa dos clientes, das pessoas que não conseguiam ir até lá”.

O que levaria alguém a sair de casa para comer algo que ela mesma pode preparar? O diferencial das cuscuzerias é a variedade de sabores. Além dos acompanhamentos tradicionais, alimentos como o queijo do reino e até o camarão fazem parte dos cardápios, que têm preços baixos e garantem a fidelização dos clientes, como Yeslância explica “A gente tem cliente que janta aqui de segunda á sábado, tem outros que vêm três vezes na semana. Cuscuz não enjoa, é uma maravilha”. Já em Lozão, o cardápio batiza cada prato com uma rua, monumento, bairros da cidade e as ilhas do são Francisco, o que vira um atrativo “A gente apresenta ao turista, eu faço isso pessoalmente, dizer o que a gente tem, o que é [a ilha do] rodeadouro, de onde vem [a ilha] do massangano, lá tem o samba de véio. Essa é uma forma de regionalizar e mostrar o que tem, tanto para o turista de casa, como os que vem de fora”.

A valorização da cultura e da culinária nordestina é presente em cada aspecto das cuzcuzerias, que agregam na decoração as chitas, candeeiros, cordéis e outros elementos que garantem que a visita seja uma imersão de sabores e sentidos do que é ser nordestino. Mesmo com o crescimento de fast foods, food trucks e franquias de multinacionais na região, as cuscuzerias fazem parte de um nicho específico da culinária, que relembra as origens do povo que aqui vive e as belezas da região, como enfatiza Lozão “A gente nordestino tem que dar esse valor porque somos muito ricos nisso, nossa culinária é deliciosa, de custo baixíssimo. O Nordeste nada mais é do que um cuscuz recheado bem bonito!”.

Edição: Marcos Barbosa

CARTA CAPITAL: ADILSON MOREIRA – “HUMOR RACISTA É UM TIPO DE DISCURSO DE ÓDIO”

Dezembro 18, 2018

Professor Doutor pela Universidade de Harvard em Direito Antidiscriminatório e colunista da editoria de Justiça da CartaCapital, Adilson Moreira chegou ao Brasil há pouco mais de dois anos e promoveu intenso trabalho pela descolonização de práticas racistas naturalizadas, como, por exemplo, a realização do primeiro grande curso aberto da história do país sobre o tema; produção de obras manuais de direito antidiscriminatório para serem adotadas em universidades e, ainda, obra e consultoria sobre compliance para empresas incorporarem práticas inclusivas corporativas, dentre outras iniciativas que significaram anos de intenso trabalho pelo pesquisador.

Sua mais recente produção é o livro “O que é Racismo Recreativo?”, sexto título da coleção Feminismos Plurais, organizada pela filósofa de produção vasta na CartaCapital, Djamila Ribeiro. A preço acessível e linguagem didática, a obra se propõe a discutir o humor enquanto política de hostilidade a minorias raciais, seja nas redes sociais, seja nos veículos de comunicação, passando pelo posicionamento do Judiciário brasileiro sobre o tema.

Em entrevista à CartaCapital sobre seu mais novo título, Moreira afirma que “o humor racista é um tipo de discurso de ódio, é um tipo de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência por minorias raciais”. O jurista também discute o conceito de microagressões, de personagens da televisão símbolos de racismo recreativo, como também afirma ver como comum humoristas que se escondem por trás do argumento “é só uma piada” toda vez que são hostis a minorias raciais.

Confira na íntegra:

CartaCapital: Muitas pessoas têm dúvidas sobre o que seria racismo recreativo. Você poderia explicar o conceito?

Adilson Moreira: O conceito de racismo recreativo designa uma política cultural que utiliza o humor para expressar hostilidade em relação a minorias raciais. O humor racista opera como um mecanismo cultural que propaga o racismo, mas que ao mesmo tempo permite que pessoas brancas possam manter uma imagem positiva de si mesmas. Elas conseguem então propagar a ideia de que o racismo não tem relevância social. Não podemos esquecer que o humor é uma forma de discurso que expressa valores sociais presentes em uma dada sociedade.

O racismo recreativo existe dentro de uma nação altamente hierárquica e profundamente racista que formulou uma narrativa cultural de cordialidade racial. Ele reproduz estigmas raciais que legitimam uma estrutura social discriminatória, ao mesmo tempo que encobre o papel essencial da raça na construção das disparidades entre negros e brancos.

CC: A obra “O que é racismo recreativo?” é a primeira que parte desse conceito. Como foi o processo de conceituação.

AM: Eu cunhei essa expressão há quatro anos em uma entrevista na qual discutia episódios de racismo nos campos de futebol brasileiros. É comum vermos torcedores agredindo verbalmente jogadores negros, comportamento que é sempre justificado como humor ou recreação. Meses depois eu me deparei com uma decisão judicial na qual uma mulher branca foi processada por ter dito a uma mulher negra que estava comprando bananas que ela deveria ter muitos macaquinhos em casa porque estava comprando uma grande quantidade dessa fruta. O Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu essa mulher sob o argumento de que ela quis apenas interagir com a vítima de forma amistosa. Isso me motivou a fazer uma pesquisa jurisprudencial e encontrei centenas de casos semelhantes na justiça criminal e na justiça trabalhista. O ambiente de trabalho é o lugar no qual o racismo recreativo mais se manifesta.

Encontrei centenas de decisões judiciais nas quais empregadores e colegas de trabalho faziam uso constante de piadas racistas para constranger funcionários negros.

CC: No livro você traz o conceito de microagressões. O que seria isso?

AM: O conceito de microagressões designa uma série de atos e falas que expressam desprezo ou condescendência por membros de grupos minoritários. Eles diferem de formas tradicionais de discriminação baseadas na intenção aberta de ofender e marginalizar porque podem ser conscientes ou inconscientes, podem ocorrer sem violar normas jurídicas, podem ser produto da ausência de visibilidade de grupos minoritários. Uma mulher branca que atravessa a rua porque vê um homem negro está praticando uma microagressão. Microagressões podem tomar a forma até mesmo de atos que aparentemente expressam polidez. Um segurança de shopping que pergunta a homens negros se eles precisam de ajuda pode estar na verdade motivado pela imagem da periculosidade do homem negro. Uma piada sobre asiáticos pode parecer uma forma de criar uma oportunidade de aproximação, mas ela reproduz estereótipos que afetam a dignidade e a saúde mental dessas pessoas.

Acesse o link para adquirir a obra “O que é racismo estrutural?”, mais novo título do Professor Adilson Moreira

CC: Na obra você analisa alguns personagens da televisão. Gostaria de falar de algum?

VERA VERÃO, PERSONAGEM QUE FOI INTERPRETADO POR JORGE LAFOND, EXEMPLO DE COMO O HUMOR RACISTA REPRODUZ ESTEREÓTIPOS NEGATIVOS SOBRE MINORIAS RACIAIS (FOTO: REPRODUÇÃO).

AM: Penso que Vera Verão é um exemplo perfeito de como o humor racista reproduz estereótipos negativos sobre minorias raciais de todas as maneiras possíveis. Primeiro, a degradação sexual de minorias sexuais. Toda a sua personalidade girava em torno da sua sexualidade. Encontrar parceiros sexuais era o único propósito de sua vida. Sempre fazia questão de enfatizar suas habilidades sexuais. Segundo, o personagem reproduzia a ideia do homem branco como único parceiro sexual socialmente aceitável porque ela só se interessava por homens brancos. Terceiro, ela também expressava a noção de que todos homossexuais são efeminados e que todos os homens negros homossexuais estão à procura de homens brancos. Quarto, ela também reproduzia a imagem hipersexualizada da mulher negra porque ela se apresentava como uma mulher.

CC: É comum humoristas dizerem “é apenas uma piada” quando são confrontados politicamente por comentários depreciativos a grupos oprimidos. Como você vê a questão?

AM: Essa é a reação comum de todas as pessoas que contam piadas racistas. Todas elas utilizam essa estratégia para preservar uma imagem social positiva. Todas elas falam que tem “amigos” negros, que não tiveram a intenção de ofender ninguém, que o humor não traz consequências negativas para as pessoas. Veja, as palavras sempre expressam muito mais do que o sentido objetivo delas. Quando eu desejo bom dia a alguém eu não estou apenas desejando que ela tenha uma dia agradável. Eu também estou expressando respeito, cordialidade, civilidade. Piadas sobre a potência sexual de homens asiáticos também expressam a noção de que eles não são assertivos, de que não são agressivos. Consequentemente, eles não têm capacidade de comando.

Piadas racistas procuram então afirmar a ideia de que apenas pessoas brancas são agentes sociais competentes.

“O HUMOR RACISTA É UM TIPO DE DISCURSO DE ÓDIO, É UM TIPO DE MENSAGEM QUE COMUNICA DESPREZO, QUE COMUNICA CONDESCENDÊNCIA POR MINORIAS RACIAIS”, AFIRMA ADILSON MOREIRA (FOTO: TWEET DO HUMORISTA DANILO GENTILI/REPRDOUÇÃO).

CC: O humor faz muito uso de estereótipos. Você poderia explicar para o público leitor o que seria isso?

AM: O humor tem sido estudado por especialistas desde a antiguidade. Havia um consenso até o início do século passado de que o humor produzia prazer nas pessoas porque ele sempre retratava pessoas consideradas como inferiores. Freud dizia que ele pode ser um tipo de expressão de animosidade em relação a grupos minoritários. Há vários estudos demonstrando que o humor tem sido utilizado ao longo tempo como um meio de manipulação política. Isso se torna possível em função da articulação dos estereótipos raciais presentes nas representações de minorias. Não podemos esquecer que o racismo recreativo tem um caráter estratégico: o uso de piadas não ocorre apenas para entreter pessoas brancas, mas sim para perpetuar a ideia de que apenas membros do grupo racial dominante podem ocupar posições de poder e prestígio. As crenças precisam persistir para que as hierarquias raciais sejam legitimadas. Pessoas brancas vão perder oportunidades quando vivermos em uma realidade na qual não existam estereótipos raciais. Elas terão que justificar a presença delas nos lugares. É por isso que elas estão tão empenhadas na degradação moral de minorias. Elas querem preservar suas vantagens injustas a qualquer custo.

“O QUE É RACISMO RECREATIVO?”, POR ADILSON MOREIRA, É O SEXTO TÍTULO DA COLEÇÃO FEMINISMOS PLURAIS, COORDENADA PELA FILÓSOFA DJAMILA RIBEIRO.

CC: É correto censurar o humor racista?

AM: Eu penso que sim. O humor racista é um tipo de discurso de ódio, é um tipo de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência por minorias raciais. Mais do que isso, ele reforça a noção de que minorias raciais não são atores sociais competentes, o que compromete a possibilidade delas conseguirem ter acesso a oportunidades profissionais. Não estou falando aqui apenas de um problema de sensibilidade moral. Negros ganham 50% a menos do que brancos em função dos estereótipos negativos que circulam na nossa sociedade sobre os membros desse grupo.

CC: Qual é a posição do Poder Judiciário frente ao racismo recreativo?

AM: Bem, o nosso judiciário tem uma posição ambígua. Muitos juízes de varas criminais exigem a comprovação de dolo específico para o crime de injúria racial, o que os leva a desconsiderar a natureza nociva do racismo recreativo. Como quase todos os membros do judiciário brasileiro são brancos, são pessoas criadas dentro de uma cultura baseada na narrativa da democracia racial, o fenômeno que chamo de racismo recreativo não é reconhecido. A situação é diferente na justiça do trabalho. Ali vemos inúmeros juízes reconhecendo que piadas racistas no ambiente do trabalho são forma de assédio moral porque são injúrias raciais.

CC: Quando será o lançamento de seu livro “O que é Racismo Recreativo”?

AM: O lançamento do obra ocorrerá em fevereiro. Será uma festa e tanto!

BRASIL DE FATO: TODY ONE: O GRAFFITI COMO FERRAMENTA DE TRANSFORMAÇÃO PERIFÉRICA E EXPRESSÃO NEGRA

Dezembro 18, 2018

COR NAS RUAS

Grafiteiro há 17 anos, ele conta sobre seu trabalho e os desafios enfrentados por artistas na maior cidade do país

Mayara Paixão

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

Ouça a matéria:

Artista visual Tody One renovou a fachada do Instituto Lula, em São Paulo, no início de 2018 - Créditos: Ricardo Stuckert
Artista visual Tody One renovou a fachada do Instituto Lula, em São Paulo, no início de 2018 / Ricardo Stuckert

Dos 30 anos de idade do pernambucano João Belmonte, ele passou ao menos 13 tendo o graffiti como protagonista do seu dia a dia. Com a arte, aprendeu a importância de se posicionar politicamente, os desafios de obter respostas do poder público e as diferenças que separam artistas pela cor da pele. A partir daí continuou usando o graffiti como instrumento para provocar as pessoas e as instituições.

Hoje, o artista visual é conhecido pela maioria como Tody One e tem como campo de atuação principal o bairro de Guaianases, no extremo da zona leste de São Paulo (SP). Uma de suas obras mais conhecidas é o Gigante da Escadaria, que deu novo visual e ressignificou uma viela da região para os moradores.

Em julho de 2017, também participou da criação de mais um ponto de difusão de cultura na cidade: o Ateliê Griot Urbano, estimulando a representatividade de pensadores, artistas e escritores negros.

Em conversa com a Rádio Brasil de Fato, Tody One compartilhou as dificuldades enfrentadas enquanto artista da periferia, a relação que vê entre arte e política e o papel do graffiti nos centros urbanos.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Nos conte um pouco como surge e o objetivo do Ateliê Griot, por favor…

Tody One: O Ateliê Griot urbano teve início em 2016 junto com meu amigo Nômade Griot. Nós temos algumas atividades de trabalho com arte-educação e arte urbana e vimos a necessidade de diálogo no nosso próprio bairro [Guaianases], que não tinha. A gente era educador na Cidade Tiradentes, em Itaquera e em outros bairros, mas onde morávamos nunca tínhamos atuado.

Tivemos essa iniciativa de fazer algumas atividades com as crianças e um diálogo de arte negra e política. Fazemos alguns encontros e trazemos alguns artistas para trocar uma ideia, falar sobre política nesses tempos atuais.

(Foto: Isaías Dalle)

O Ateliê fica próximo da escadaria e ela, depois do graffiti, virou um ponto turístico, e a gente conseguiu que um vereador fosse lá visitar o espaço e ouvisse os moradores. Essa escadaria é bem antiga, tem mais de 60 anos, mas não tinha corrimão, e os degraus eram todos irregulares. A partir do graffiti, conseguimos essa proximidade com o poder público, que já iniciou algumas obras para revitalizar a escada.

É legal que a gente, como arte e militância de periferia, fez com que chegasse uma melhoria para um lugar que antes não era olhado.

Vocês também trazem uma proposta, de preocupação grande, com o incentivo à leitura, em especial de autores negros, certo?

Exatamente. Um dos poetas que mais escrevo nas ruas é o Sérgio Vaz. Tem uma galera do meu bairro que o conhece sem saber quem é ele por conta das poesias que escrevo nos muros.

A proposta é exatamente essa: dar essa autonomia aos artistas negros e fazer com que eles tenham voz. Temos um projeto chamado Geloteca, no qual a gente pega geladeiras velhas, grafita elas e coloca em lugares ociosos e escolas.

Em Guaianases, temos cinco geladeiras espalhadas e um total de 17 geladeiras espalhadas pela cidade com essa proposta de fazer pontos independentes de leitura além das bibliotecas públicas. A galera tem livro para doar, coloca na geladeira e a própria população faz essa troca de livros.

O graffiti é uma arte que ocupa o espaço urbano e público, mas por fazer as pessoas não compreendem isso. Como você entende essa discussão e quais desafios já enfrentou?

Enfrento vários. Nessa atualidade de conjuntura política, quem se posicionou são poucos grafiteiros de São Paulo, que bateram de frente. Os graffiti sofrem ataques, mas a gente que é da rua sabe que é uma arte efêmera. Fazemos, tiramos foto e acabamos esperando que isso aconteça mesmo, como alguns ataques com tinta.

A gente que é artista urbano está propício a receber essas críticas. Conseguimos atingir algumas pessoas e provocar outras. O ideal da arte é essa provocação. Quando as pessoas se sentem provocadas, acho que atingiu a intenção, que era essa mesmo.

No seu trabalho, a arte desde sempre foi uma forma de expressão política?

Foi uma construção. Faço graffiti desde os 13 anos, mas não tinha uma ideologia a seguir naquele tempo. Eu, como homem negro, tentava saber a minha posição na rua. A gente sabe que existem pichadores de classe média que, em sua maioria, têm advogados e pessoas que podem tirar eles da cadeia assim como eles entram. Para um artista preto de periferia, isso já não acontece. Você está propício a ser morto.

A gente sofre algumas coisas na periferia por ser homem negro. Tenho um amigo que é pichador e é negro e tem um problema crônico no ombro porque o policial jogou ele de cima de um muro há cinco anos. Ele não consegue levantar o braço. Então algumas coisas que acontecem com artistas e pichadores de periferia são diferentes dos que acontecem com uma galera que tem um poder aquisitivo maior e tem acesso a advogados, por exemplo, para tirar eles da prisão caso precise.

Minha mãe, quando eu saia de casa, sempre me dizia para ser educado com autoridades e sempre andar com documento e não fazer nada de errado porque só falta ‘um pezinho’ para a gente poder ser agredido. Artista de periferia é bem diferente do ‘artista Vila Madalena’.

Ao longo destes 17 anos produzindo graffiti, o que a arte representa na sua vida?

Uma incógnita. A arte existe para eu poder viver. Se não fosse por ela, talvez eu estaria como um zumbi, trabalhando em uma empresa fechada e não estaria vivendo. Eu consigo atingir algumas pessoas e elas são gratas por isso e tenho o graffiti como arte-educação, como poesia para ser vivida.

Edição: Brasil de Fato

OUTRAS PALAVRAS: O GRANDE CINEMA ITALIANO VOLTOU?

Dezembro 17, 2018

Provavelmente, ainda não. Mas “Feliz como Lázaro”, que não passa em tela grande, retorna à Itália profunda, com notas do Neo-realismo e de Pasolini

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Feliz como Lázaro (Lazzaro felice) é o que se poderia chamar de uma parábola cristã contemporânea. O filme de Alice Rohrwacher, que está em cartaz na Netflix sem ter passado pelo circuito exibidor, conta a história de um rapaz, o Lázaro do título (Adriano Tardiolo), e do povo de sua aldeia, que tem o sugestivo nome Inviolata e fica numa Itália profunda, perdida no tempo.

Tão perdida no tempo que ali se pratica ainda uma exploração de tipo feudal do trabalho camponês: todos se submetem cegamente à marquesa Alfonsina De Luna (Nicholetta Braschi), a “rainha do tabaco”. São analfabetos, tementes a Deus e à marquesa, não sabem que agora existem leis trabalhistas, salários, direitos.

Entre esses miseráveis está Lázaro, trabalhador dedicado, sempre disposto a ajudar os outros. Ele faz parte da linhagem dos puros de coração, cuja figura icônica é São Francisco de Assis, e que no cinema gerou criaturas memoráveis como o louco Johannes, de A palavra (Dreyer, 1955), e a Gelsomina de A estrada (Fellini, 1954). São personagens que iluminam, por contraste, as maldades do mundo.

Uma maneira fecunda de ver Lazzaro é situá-lo na longa tradição de diálogo crítico do cinema italiano com o cristianismo – não com o catolicismo institucional, do Vaticano, nem com a carolice das beatas, mas com valores mais essenciais e profundos de um certo “cristianismo de raiz”: a fraternidade, a compaixão, o amor ao próximo.

De Rossellini a Nanni Moretti, passando evidentemente pelos Taviani e por Pasolini, a melhor cinematografia italiana foi atravessada por essa interlocução, às vezes mais harmoniosa, outras vezes mais áspera.

Realismo e alegoria

Em sua primeira parte, Lazzaro felice, em sua descrição do dia a dia e das relações de poder na aldeia, aproxima-se do neorrealismo e de uma espécie de antropologia das relações humanas pré-capitalistas, à maneira de certos filmes de Ermanno Olmi.

Mas, a partir da improvável amizade que se estabelece entre Lázaro e Tancredi (Luca Chikovani), o filho entediado da marquesa, o filme se afasta do verismo e se aproxima da alegoria, ou melhor, da parábola, passando de Olmi a Pasolini, por assim dizer. Lembra, nesse aspecto, os fioretti medievais: relatos da vida e dos milagres de santos, em especial de São Francisco de Assis.

A queda brusca e literal de Lázaro, no meio da narrativa, leva a um salto no tempo e a uma mudança de patamar dramatúrgico e estético. Não vou estragar aqui o prazer das surpresas e descobertas. Só digo que, na passagem, entrechocam-se passado e presente, iluminando o que muda e o que permanece no desconcerto do mundo: o desemprego, a migração em massa, a moradia precária, a violência, o medo.

Um filme comovente e animador, em suma, por mostrar que, para além do realismo cru e um tanto sensacionalista de Matteo Garrone, do esteticismo afetado de Paolo Sorrentino e do sentimentalismo lacrimoso de Giuseppe Tornatore, ainda existe vitalidade e inteligência no cinema italiano. Um alento e um consolo num ano que viu morrerem os mestres Ermanno Olmi, Vittorio Taviani e Bernardo Bertolucci.

Em tempo: Lazzaro felice ganhou uma porção de prêmios em festivais internacionais, o principal deles o de melhor roteiro em Cannes. É uma pena que não seja exibido onde merece, as telas grandes das salas de cinema.

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VÍDEO: DAÍRA CANTA BELCHIOR: CORAÇÃO SELVAGEM

Dezembro 16, 2018