Archive for Março, 2019

PORTAL FÓRUM: CAETANO VELOSO FAZ MANIFESTAÇÃO NA ARGENTINA CONTRA DITADURA E É OVACIONADO

Março 31, 2019

MARÇO DE 2019

Ao final da apresentação, o artista estendeu dois cartazes com os dizeres “Ditadura Nunca Mais”. O publicou aplaudiu e gritou palavras de ordem

Foto: Reprodução

Durante seu show no Lollapalooza Argentina, em Buenos Aires, o cantor e compositor Caetano Veloso, fez manifestação de repúdio às menções a favor da ditadura e do golpe militar de 1964.

Ao final da apresentação, o artista estendeu dois cartazes com os dizeres “Ditadura Nunca Mais”. O publicou aplaudiu e gritou palavras de ordem.

Neste domingo (31), o golpe militar completa 55 anos. O regime resultou em mais de 434 mortos e desaparecidos políticos.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ), determinou ao Ministério da Defesa, durante a semana, que faça as “comemorações devidas” pelos 55 anos do golpe que deu início a uma ditadura militar no país.

O Palácio do Planalto distribuiu neste domingo um vídeo em defesa do golpe de 1964. De acordo com o material, a derrubada de João Goulart do poder, foi apenas um movimento para conter o avanço do comunismo no País. “O Exército nos salvou. O Exército nos salvou. Não há como negar. E tudo isso aconteceu num dia comum de hoje, um 31 de março. Não dá para mudar a história”, diz o apresentador.

BLOG DO CINEMA: EU É UM OUTRO, POR GERALDO COUTO

Março 31, 2019
MARÇO DE 2019

A frase de Rimbaud que serve de título a este texto poderia ser uma das chaves de leitura de Nós. O que faz do filme de Jordan Peele um dos mais fortes e inquietantes da temporada, entretanto, é justamente o fato de não se deixar enquadrar numa única interpretação, mas deixar uma porção de possibilidades em aberto. Não é uma alegoria de sentido unívoco, é um formidável pesadelo.

Tudo começa quando uma família negra de classe média vai a um parque de diversões à beira-mar, em Santa Cruz, Califórnia. A filha pequena do casal, Adelaide (Madison Curry) se desgarra dos pais e, para se proteger da chuva, entra na sala de espelhos do parque. Ali se defronta com seu próprio duplo. Há então uma elipse brusca e vemos Adelaide (Lupita Nyong’o) já adulta, partindo para férias de verão com o marido (Winston Duke) e dois filhos, uma pré-adolescente e um menino de uns oito anos.

É difícil falar sobre o que acontece então sem cometer alguns spoilers, mas vamos tentar. Basta dizer que entram em cena duplos dos personagens – não só da família de Adelaide, mas também de seus amigos brancos, os Tyler, que estão um degrau acima na escala socioeconômica. São versões incultas e malvadas de cada um deles, o que suscitou a inevitável leitura da “personalidade perversa que trazemos dentro de nós”, como reedições da eterna polarização Jeckyll e Hyde.

Através do espelho

Mas o filme de Peele permite pensar em outras referências, em outras possibilidades. Descobrimos, a certa altura, que existe todo um outro mundo do lado de lá do espelho, um mundo subterrâneo e de pouca luz em que tudo parece um rascunho bruto, grosseiro, do que se passa aqui na superfície da terra. Nesse lugar vivem seres que são como versões não lapidadas de nós mesmos.

Lembremos de alguns antecedentes. No conto “The Jolly Corner”, de Henry James, traduzido no Brasil como “A bela esquina” ou “A esquina encantada”, um homem que passou toda a sua vida adulta na Europa retorna, na meia-idade, ao sobrado de sua infância, em Nova York. Aos poucos, na casa semivazia, se depara com um fantasma, que acaba por se revelar seu “outro eu”, ou melhor, o “eu” ressentido e violento que ele teria se tornado caso tivesse ficado na América.

Em Through the Looking-Glass, de Lewis Carroll, Alice rompe a superfície do espelho e encontra do outro lado um universo em que tudo ocorre ao contrário, ou de modo paródico e ensandecido. Desde a antiguidade, nas mais diversas culturas, o espelho é um signo potente e virtualmente inesgotável – e o cinema soube tirar partido de suas possibilidades plásticas, psíquicas e simbólicas.

O que há de mais perturbador no filme de Jordan Peele, a meu ver, é que as breves cenas que vislumbramos desse mundo especular se assemelham ao que ocorre nas franjas mais pobres e deterioradas do mundo real, da sociedade globalizada atual.

Juntem-se a isso as imagens, bem no início, de um anúncio televisivo de campanha da fraternidade (todos de mãos dadas, “ninguém solta a mão de ninguém”), mais o alerta de “Jeremias 11:11” reiterado ao longo da narrativa, e chegamos talvez ao seguinte: nós, que temos todos os dentes (ou quase), uma educação básica, roupas decentes e um teto a nos abrigar, tomamos isso por garantido e esquecemos de onde provimos, desse magma humano, desse barro informe que pode se desenvolver de uma maneira ou de outra, de acordo com as condições objetivas e subjetivas de cada um.

Profecia punitiva

Soltamos a mão desse nosso “outro eu” que poderia ter sido, mas que ficou para trás, no subsolo da vida, num território ínfero tão parecido com o inferno. Essa leitura, digamos, social não exclui – na verdade, reforça – uma intepretação moral, religiosa, judaico-cristã, que chama o indivíduo à responsabilidade pelo seu irmão do “lado sem luz”.

O tal versículo recorrente do profeta Jeremias afirma: “Por isso diz o Senhor: Eis que farei vir sobre eles calamidades, das quais não poderão sair; clamarão a mim, e eu não os ouvirei”. É uma profecia punitiva, um flagelo coletivo impingido aos que não seguiram a palavra divina.

Tal flagelo vem com um ataque repentino, silencioso e inexplicado dos “duplos”. A maneira como eles se comportam e como são filmados remete aos filmes de mortos-vivos de George Romero, cujo sentido político-social se explicita sobretudo em Terra dos mortos (2005), em que os zumbis tentam invadir a cidade-redoma onde vivem confortavelmente os privilegiados. Só que aqui há uma inversão: em Romero os monstros são gente que já viveu e morreu; em Nós é como se eles não tivessem chegado a viver, tal como concebemos a ideia de “vida”.

O fato é que eles vêm se vingar por causa de tudo o que lhes foi negado, como o protagonista do conto “O cobrador”, de Rubem Fonseca, que diz: “Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol”. Estamos devendo. E eles (ou “nós”) vêm cobrar.

A vertiginosa virada narrativa, perto do final (à maneira de O sexto sentido, de M. Night Shyamalan), obrigando-nos a repensar tudo o que vimos antes, mostra que Jordan Peele, diretor do também extraordinário Corra!, domina como poucos os códigos e recursos convencionais para criar um universo próprio, onírico, desconcertante, que nos lança violentamente para dentro de nós mesmos.

RBA: LIVRO-LANÇAMENTO: CATIVEIRO SEM FIM, DE EDUARDO REINA

Março 30, 2019
CATIVEIRO SEM FIM

Sequestro de bebês, outra perversidade da ditadura

Livro-reportagem conta a história em que 19 filhos de militantes políticos foram dados a outras famílias, com a cumplicidade de militares, servidores públicos e funcionários de cartório
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 30/03/2019.
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livrocati-reportagem

Reina entrevista José Vieira, de Anapu (PA), um dos personagens de seu livro, que será lançado nesta terça-feira

São Paulo – Tortura, desaparecimentos, assassinatos, censura, exílio são características menos ou mais comuns às ditaduras, que alguns preferem chamar de “movimento” e outros mandam comemorar. Uma face até então desconhecida do regime ditatorial brasileiro, talvez ainda mais sombria, começa a ser revelada com a publicação de um livro que narra 19 histórias sobre bebês, crianças e adolescentes sequestrados e entregues a famílias de militares e pessoas ligadas à repressão. 

Cativeiro sem Fim, do jornalista paulista Eduardo Reina, de 55 anos, será lançado nesta terça-feira (2), em São Paulo, com debate entre o autor, o também jornalista Caco Barcellos – que ajudou a desvendar o episódio das ossadas de Perus – e a procuradora regional da República Eugênia Gonzaga, presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos.

Dos 19 casos documentados por Reina, 11 estão ligados à Guerrilha do Araguaia, na primeira metade do anos 1970. O caso rendeu uma condenação ao Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2010, entre outras que o país recebeu por não apurar e nem punir crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura iniciada há 55 anos.

Os outros oito casos estão espalhados entre Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraná e Mato Grosso. Uma rede formada por militares, servidores públicos e funcionários de cartórios cuidava da operação, para levar filhos de militantes políticos a outras famílias. Alguns deles ainda procuram pelos pais biológicos. Um dos pais adotivos era próximo de um dos figurões do regime.

A questão sempre atormentou Reina, que nasceu seis meses antes do golpe de 1964, e já dera um primeiro passo com a publicação de Depois da Rua Tutoia (2016), referência ao endereço do tristemente célebre DOI-Codi, em São Paulo, que hoje abriga uma delegacia policial, mas que ativistas e familiares de vítimas querem transformar em centro de memória. Países vizinhos, cada qual com sua ditadura, tiveram como rotina o sequestro de filhos de militantes políticos. Na Argentina, por exemplo, até hoje são “descobertos” casos, graças em grande parte ao esforço de mães e avós, que ainda no período da repressão passaram a se reunir na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do governo. Por que não no Brasil?

Ao conhecer a história da filha do guerrilheiro Antônio Teodoro de Castro – o Raul, que atuou no Araguaia e que foi assassinado pelos militares – contada pela filha em depoimento na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo,  Reina passou a puxar o fio. Viajou para Belém e começou um extenso trabalho de pesquisa, que incluiu idas ao Araguaia, para, como diz, montar um quebra-cabeça. E, com isso, trazer à luz histórias “invisibilizadas”.

“Várias vítimas ou seus familiares choraram muito, expressaram terror contando a crueldade a que foram submetidos e passaram”, conta Reina. Ao acrescentar um capítulo à memória daqueles dias, ele completa um ciclo perverso de vida: a ditadura negou a muitas famílias o direito de enterrar seus mortos. Agora, sabe-se que negou também a outras o direito de criar seus filhos.

São as histórias de Antônio, Giovani, Iracema, de Josés, Juracy, Lia, Miracy, Osniel, Rosângela, Sebastião, Yeda. De cinco índios Marãiwatsédé sequestrados. E de uma mulher que prefere não ser identificada. Brasileiros que tiveram alterados os cursos de suas vidas, em um país de rota novamente alterada.

O lançamento será realizado a partir das 19h no Centro Universitário Maria Antônia, da Universidade de São Paulo, na rua Maria Antônia, 258/294. Cada exemplar, com 310 páginas, custa R$ 56. Com patrocínio da Caixa Econômica Federal, Cativeiro sem Fim é resultado de parceria entre o Instituto Vladimir Herzog e a Alameda Casa Editorial. A apresentação é do ex-secretário de Direitos Humanos Rogério Sottili, atual diretor do IVH, e o prefácio foi escrito por Caco Barcellos.

Eduardo Reina falou à RBA.

Sabe-se que temas relacionados à ditadura são de seu interesse, mas por que este especificamente?

É uma questão que sempre me atormentou: como há tantos registros de sequestros de filhos de militantes políticos na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e aqui no Brasil, onde houve um período tão cruento de ditadura, por que não se fala a respeito?

Era um projeto há muito tempo parado na gaveta. Até que em 2015 resolvi colocar o bloco na rua.

Primeiro foi o lançamento do romance Depois da rua Tutoia, que conta a história de uma bebê, filha de militante política, sequestrada ao nascer e entregue pelos agentes da repressão a um empresário que financiava a ditadura. O objetivo era jogar luz sobre este tema invisibilizado nos livros de História e cujos personagens ficaram escondidos até da mídia.

Qual foi o “fio da meada” para desenrolar a história? Em outras palavras, qual foi a primeira história que chegou a seus ouvidos e como ela se desenvolveu?

O fio da meada foram dois. O primeiro foi conhecer a história da filha do guerrilheiro Antonio Teodoro de Castro, o Raul, que atuou no Araguaia e que foi assassinado pelos militares. Ela prestou um depoimento na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo e contou parte da sua história. Ela foi levada, ainda bebê, para uma casa de acolhimento em Belém do Pará. Fui para lá, pesquisei, entrevistei muitas pessoas. Conheci outras que me indicaram outras ainda para conversar. Fui montando este quebra-cabeça. Até ir ao Araguaia. Tive contato com pessoas que viveram a guerrilha. E o arco foi se fortalecendo. 

Consegui ganhar a confiança de vítimas. Ainda hoje é muito medo entre a população local, uma autocensura que impede que falem. Há também muita pressão do Exército ao povo simples de lá. E os casos começaram a ser contados. As peças foram aparecendo. Numa avalanche inimaginável.

No meio de todo esse processo de pesquisa no Araguaia, outras pessoas, em outros estados brasileiros, também me procuraram com informações. O bolo foi crescendo. A pesquisa se estruturava cada vez mais.

Aprendi a enxergar informações sobre o tema nas entrelinhas de livros, nos comentários de militares, nas entrevistas com as pessoas. Fiz um jornalismo de reconstrução da história.

Como tratar de um tema tão delicado, não só do ponto de vista político, mas principalmente humano? Qual foi a abordagem? Como as “ex-crianças” reagiam?

É uma situação hiper delicada. Tomei e tomo cuidado para não expor as vítimas.

Várias vítimas ou seus familiares choraram muito, expressaram terror contando a crueldade a que foram submetidos e passaram. Houve momentos em que precisei demonstrar ter uma alma gélida para não desmoronar na frente da pessoas, que contava sua história.

Teve pessoa, por exemplo, que numa entrevista realizada numa tarde calorenta, sentiu frio a ponto de precisar colocar uma blusa. Depois chorou, riu, caiu na minha frente. Eu precisei manter a linha, escutar, consolar, e seguir a entrevista. Um processo que nem eu imaginei que suportaria. Mas confesso que depois fiquei muito mal.

Há muita crueldade envolvendo todos os casos relatados no livro.

Na Argentina, tornaram-se famosas as atividades das mães e avós de maio, à procura de filhos e netos desaparecidos, o que acontece até hoje. Por que não existiu algo parecido no Brasil?

Penso que porque aqui no Brasil esses casos de sequestro de filhos de militantes políticos pelos militares ficaram escondidos até hoje. Costumo chamar isso de o segredo do segredo do que ocorreu na ditadura brasileira. Tomara que o livro consiga despertar as pessoas e coloque o assunto às claras, para que muita gente possa criar coragem e falar. E que outros jornalistas, historiadores, possam descobrir mais coisas que estão escondidas, invisibilizadas.

São 19 casos relatados. Tem alguma ideia de quantos semelhantes podem ter acontecido e estão ainda por serem descobertos?

É uma resposta que não existe. Pode haver outros casos mais, o que suponho. Mas é uma situação delicada. É preciso investigar, obter documentos etc.

Existiam por aqui, como em outros locais, maternidades clandestinas?

Até hoje não consegui comprovar a existência de maternidades clandestinas de onde eram retirados os bebês. Mas há casos de bebês nascidos em alguns hospitais públicos que foram levados e entregues aos pais apropriadores. Isso aconteceu no Paraná, por exemplo. Com a cumplicidade de entidades religiosas.

Você tentou conversar com militares sobre esse tema? Se sim, qual foi a reação? 

Como dever de ofício, escrevo isso no livro, é preciso ouvir o outro lado. O Exército informou que não comentaria a denúncia. A Aeronáutica informou que cerca de 50 mil documentos relativos a período  da ditadura estão à disposição pública num arquivo em Brasília. E sugeriram fazer uma pesquisa lá. O Ministério da Defesa não se pronunciou, disse para procurar as forças  militares.

Existe receio de alguma represália pela publicação da obra? Houve alguma manifestação nesse sentido?

Não posso ter receio de um trabalho jornalístico investigativo com tantos documentos, entrevistas, depoimentos etc. Estou preparado para debater com qualquer pessoas sobre o tema. Mas destaco que algumas das vítimas que estão no livro chegaram a ser procuradas por pessoas estranhas, para tentar descontextualizar o trabalho que estava sendo desenvolvido, para criticar a minha pessoa como jornalista, para dizer que não era para acreditar no que eu estava fazendo. Chegaram a dizer a essas pessoas que meu objetivo era apenas pegar dinheiro delas. Muita pressão psicológica.

Como escrever sobre a memória em um período político com governantes defensores da narrativa de que não houve golpe no Brasil, que frequentemente contestam as conclusões das comissões da verdade e se manifestam a favor da violência?

É um trabalho jornalístico. Um trabalho histórico. Contra argumentos e fatos não há como contestar. Não é fake news. É puro jornalismo.

BRASIL DE FATO: MARÇO DAS MULHERES | NOS BASTIDORES, ELAS FAZEM ACONTECER O RAP E O HIP HOP EM SP

Março 30, 2019

RECONHECIMENTO

Maioria das carreiras de artistas homens é gerida por mulheres, que precisam enfrentar o machismo diário na cena

Luciana Console

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

 Março de 2019.

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Protagonismo nos bastidores não blinda as mulheres de enfrentar situações de machismo - Créditos: Montagem: Lucas Milagres Severo/Divulgação
Protagonismo nos bastidores não blinda as mulheres de enfrentar situações de machismo / Montagem: Lucas Milagres Severo/Divulgação

Nascido na periferia e ligado desde sua origem à questões sociais e de protesto, o rap sempre foi uma arte dominada pelos homens. No entanto, com o crescimento do gênero musical e alcance de públicos que vão além das regiões periféricas, outro protagonismo chama atenção nessa ascensão artística: as mulheres na produção. 

“Todos os artistas do mainstream da cultura hip hop hoje são geridos por mulheres. Se não na produção, na assessoria de imprensa”. A afirmação é de Nerie Bento, empresária, produtora cultural e integrante da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. Ela, que nasceu na periferia da zona Leste de São Paulo, conta que o contanto com o rap vem de berço, mas que a aproximação pela área profissional se deu na faculdade, onde conheceu a Frente durante uma pesquisa sobre o apagamento das mulheres no hip hop. 

A partir daí Nerie começou a atuar com produção de artistas do gênero, sempre levando consigo a pauta feminista e de inclusão. Atualmente, a empresária é dona da Krush Assessoria de Imprensa e Marketing Digital, voltada para artistas negros e LGBTs, e participa do coletivo Black Pipe, no qual ela é a única mulher. 

Pensar na imagem, na produção e nos detalhes burocráticos são alguns dos elementos da profissionalização do rap, que devem muito ao trabalho das mulheres. Nerie acredita que isso tem a ver com uma busca cada vez maior por estudo e qualificação. 

“As mulheres, nessa questão de se profissionalizar, estão muito mais avançadas do que os homens, só que elas fazem isso para se tornarem profissionais que ascendem carreira de homens, então é muito louco porque o mérito acaba sendo do artista em si. Mas ninguém sabe que ali atrás [há, em geral, mulheres]. A gente pode pegar como exemplo os Racionais mesmo”. 

Desde 2012, Eliane Dias é empresária  da carreira dos Racionais Mc’s, o maior ícone do rap no Brasil, através da produtora Boogie Naipe. Ela é advogada e também já atuou como coordenadora da SOS Racismo na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP). 

Foi também em 2012 que Daniela Rodrigues assumiu oficialmente o gerenciamento da carreira artística de Rashid, rapper em ascensão na época e também seu companheiro. Daniela conta que a parceria profissional já vem de antes, em 2008, quando Rashid ainda estava no começo da trajetória artística. Hoje eles são sócios da produtora Foco na Missão. Ela, que nunca havia trabalhado com produção artística, aprendeu pela necessidade e “na raça” como funcionava o mercado musical.

“E também pelo lance da burocracia. Vai fazer um show, é legal fazer um contrato, deixar tudo pontuado o que vai ser feito. Vai lançar uma música, tem que registrar. São coisas que ele, enquanto artista, também não sabia fazer. Ele faz a música e quer colocar na rua”. 

A diretora da Boia Fria Produções, Mari Bergel, que já trabalhou com artistas como a Banda Black Rio, Mano Brown, Dexter e Rincon Sapiência, conta que anos atrás o rap não era bem visto e as relações no mercado musical refletiam isso, com cachês não pagos e muitas vezes shows sem contrato e organização. Segundo ela, a situação muda exatamente quando as mulheres entram na profissionalização das carreiras. Porém, a diretora faz um paralelo dessa relação com a estrutura tradicional familiar, onde é transferida à mulher a responsabilidade de “pôr ordem na casa”. 

“As mulheres sempre estiveram presentes na organização do hip hop. Como não existia a profissionalização, nem que seja nesse equilíbrio da casa, em tocar mesmo as coisas em casa e no apoio aos companheiros. Então, mesmo quando não era profissionalizado eu vejo as mulheres com esse papel importante aí, nesse equilíbrio para, por exemplo, não entrarem no crime”. 

Enfrentamentos diários

O protagonismo nos bastidores não blinda as mulheres do machismo diário e muitas coisas precisam ser enfrentadas “no grito”, conta Mari. 

“Existe muito isso do cara te desrespeitar, como aconteceu mais de uma vez comigo. Porque eu não tenho um homem do lado pra pegar o telefone, ou virar e falar ‘filho, o que você tá falando? espera um pouquinho’. Então eu resolvi muita coisa no grito mesmo”. 

Já Daniela relata que o fato de ser a companheira do Rashid chegou a gerar comentários negativos até mesmo entre pessoas próximas ao casal. Ela conta que seu trabalho não era levado a sério no início. Outra situação comum era a intimidação por contratantes, a ponto de ela optar por contratar um homem para acompanhá-la nas reuniões. O machismo presente na cena acabou moldando a Daniela atual.

“Eu sempre fui uma pessoa muito sorridente, sempre falo com todo mundo numa boa e eu tive que aprender a mudar isso no meu jeito pra impor respeito. Pras pessoas me levarem a sério, então me tornar uma pessoa um pouco mais dura. É um saco que você só é respeitada se você colocar essa chapa”.

Além de “embrutecer” a personalidade, Mari conta que optou por se policiar em alguns comportamentos, como evitar colocar roupas que marcassem o corpo. A decisão é um indicativo de que a liberdade das mulheres ainda é julgada em ambientes predominantemente masculinos, como o rap. A vida íntima das mulheres também entra neste ponto, conta Mari. 

“Eu acho que isso também uma situação muito machista. Infelizmente, se é um homem ali no meio pegando um monte de gente, tá tudo certo, se é uma mulher, o primeiro que você pegar você já virou piranha, vagabunda”, lamenta Bergel. 

Nesse caminho de enfrentamento e resistência dentro do rap e hip hop, Nerie também procura combater o machismo por meio da educação e do empoderamento de outras mulheres, realizando cursos gratuitos de comunicação destinados ao público feminino. Além disso, a produtora faz com que sua posição na cena seja uma porta de entrada para outras mulheres. Um exemplo citado por ela é se fazer presente em curadorias de eventos e assim garantir a contemplação de minorias sociais. 

Ela ressalta que, hoje em dia, as mulheres do hip hop estão mais conscientes politicamente e não compram mais qualquer discurso. Apesar disso, Nerie afirma que a luta tem que ser de todos, pois os “marcadores [sociais] estão aí”, finaliza. 

Edição: Aline Carrijo

RBA: JORNALISTAS MARIA INÊS E LUIS NASSIF PROMOVEM ‘NASSIFADA’ NO ARMAZÉM DO CAMPO

Março 29, 2019
NO FINAL DE SEMANA
Encontro gastronômico-musical será realizado neste sábado (30), a partir das 13h
por Redação RBA publicado 29/03/2019.
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Nassifada

Pratos mineiros serão preparados pela também cozinheira Maria Inês. Luis Nassif fará apresentação de bandolim

São Paulo – O Armazém do Campo, loja de alimentos oriundos da agricultura familiar, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realiza em São Paulo neste sábado (30), das 13h até as 18h, a Nassifada, um encontro gastronômico-musical com os jornalistas Maria Inês Nassif e Luis Nassif. À frente da organização, a também cozinheira Maria Inês vai preparar um cardápio mineiro, com os pratos de canjiquinha de costelinha de porco e linguiça, também com opção vegana, além de feijão tropeiro e um pernil de pileque. Já o editor do site Jornal GGN fará uma apresentação musical acompanhado de diversos artistas. O encontro também vai destinar verba arrecadada para o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, de acordo com Maria Inês.

A conjuntura política terá espaço de debate durante o evento, sobretudo diante da “reforma” da Previdência proposta pelo presidente Jair Bolsonaro que, na análise da jornalista, tem sido apresentada pelo governo e pela mídia tradicional de forma distorcida. “O que eles fizeram no debate da Previdência foi colocar o INSS como o grande problema do orçamento público e isso para não pegar essas chamadas categorias de carreira do Estado que ganham aposentadoria integral “, contesta Maria Inês, em entrevista à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

Luis Nassif, que vê com descrença o governo Bolsonaro e acredita que ele não se sustenta até o final do mandato, aponta ainda que a “reforma” perde sua capacidade pela forma e interesses que representa.  “A Previdência nos estados é um problema que tem que ser trabalhado, (assim como) essa questão da melhoria da expectativa de vida, mas tudo dentro de um processo de negociação que precisa ter interlocutores com visão de país”, avalia.

A Nassifada ocorre no Armazém do Campo, que fica na Alameda Eduardo Prado, 499, Campos Elíseos.

Ouça a entrevista 

 

CARLOS MOTTA: ALFREDO DIAS GOMES VAI DO JAZZ AO BAIÃO EM NOVO CD

Março 28, 2019

Por

Alfredo Dias Gomes é um músico realizado e inquieto. O filho baterista de Janete Clair e Dias Gomes alcança a marca de 11 discos solos, lançando agora o CD “Solar”, gravado em seu próprio estúdio, na Lagoa, Rio de Janeiro, nas plataformas digitais – download e streaming no iTunes, Spotify, Napster e CD Baby – e em CD físico. 

Desta vez, o baterista carioca surpreende reunindo oito faixas autorais e inéditas, revelando-se um exímio compositor também nas harmonias mais brasileiras, regionais. “Solar” é justamente o oposto do que Alfredo Dias Gomes apresentou em “Jam” – lançado no ano passado e muito bem recebido pelo público – um disco agressivo, com o característico volume do jazz rock. Ainda em 2018 o baterista lançou, também nas plataformas digitais, o CD “Ecos”, um resgate de gravações realizadas no ano 2000.

Tendo iniciado sua carreira com Hermeto Pascoal, com quem gravou o icônico “Cérebro Magnético”, e, posteriormente, acompanhando e gravando com Sérgio Dias, Lulu Santos, Kid Abelha, dentre muitos outros, foi a partir de 1993, ao se desligar da banda de Ivan Lins, que o baterista decidiu se dedicar aos próprios projetos e realizar-se também enquanto compositor e entusiasmado virtuose das baquetas. 

O CD “Solar” não apenas ressalta tais motivações embrionárias, assim como revela um lado mais “brasileiro”: “Quando comecei a compor esse novo trabalho, pensei numa proposta diferente – decidi tocar, além da bateria, os teclados e os baixos do disco, dando ênfase à forma como crio minhas composições. Adicionei somente um solista, meu grande amigo e superinstrumentista Widor Santiago, no sax tenor, sax soprano e flauta. “Solar” é um disco autoral e nele misturo ritmos e melodias brasileiras com jazz e jazz-fusion”, afirma o músico.

A jornada começa com “Viajante”, composta em 1980 a pedido da própria mãe, Janete Clair: “Minha mãe me pediu uma música para um personagem de uma novela – ‘Coração Alado’ (1980/81), sobre um nordestino que vinha ganhar a vida no Rio de Janeiro, interpretado por Tarcísio Meira. Nessa época, eu tocava na banda do Hermeto Pascoal e estava ‘respirando’ música brasileira, então compus para a trilha sonora da novela o baião “Viajante”, gravado pelo Dominguinhos, e agora, gravado em versão instrumental inédita”,diz o baterista. 

Música que dá nome ao disco, “Solar” foi composta em 7/4, com pegada pesada de bateria e melodia abrasileirada. Já “Trilhando” traz o andamento rápido do jazz, o característico “walking bass”. Em “Corais”, o baterista apresenta seu lado mais doce e suave, com uma balada de melodia bem brasileira. Em “Smoky”, um jazz climático traz a bateria participando da melodia, dobrando juntamente com o sax. 

Outro grande momento do disco, a faixa “El Toreador” – composta por Alfredo Dias Gomes em 1993 para a trilha sonora da peça teatral de mesmo nome, escrita por sua mãe – traz tinturas ibéricas, fortemente espanholada. Já “Alta Tensão” é fusion inédito, com clima tenso e destaque, no final, para a bateria bem solta e improvisada. De nome sugestivo, a última faixa “Finale” continua na atmosfera fusion, terminando com duo de bateria e sax em ritmo de samba.

Completam a discografia de Alfredo Dias Gomes os CDs Ecos (2018), JamM (2018), Tributo a Don Alias (2017), Pulse (2016), Looking Back (2015), Corona Borealis (2010), Groove (2005), Atmosfera (1996, com participações de Frank Gambale e Dominic Miller), Alfredo Dias Gomes (1991, com a participação especial de Ivan Lins) e o single Serviço Secreto, de 1985.

Links para download ou streaming

https://open.spotify.com/album/1pPImAQLFf6gYBjbwPGTXJ?si=TPWipv0zQJGJhbOt-ECAkw

https://alfredodiasgomes.hearnow.com/solar

RBA: NILMÁRIO LANÇA LIVRO DE MEMÓRIAS E DEFENDE COMPROMISSO COM A VERDADE

Março 28, 2019
NESTA QUINTA-FEIRA
“Histórias que vivi na História”, livro do ex-ministro dos Direitos Humanos, será lançado nesta quinta-feira (28) em São Paulo
por Redação RBA publicado 28/03/2019.
ARQUIVO/EBC
Nilmário Miranda livro memórias

‘Na véspera do dia 31 de março, é importante que quem teve essa vivência, a conte sem mentira’, diz Nilmário

São Paulo — Enquanto o presidente Jair Bolsonaro(PSL) determina às Forças Armadas celebrarem o dia 31 de março, data que marca o golpe de 1964, o ex-ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, lança seu livro de memórias, que passa justamente pelos 21 anos de ditadura civil-militar (1964-1985). Histórias que vivi na História será lançado em São Paulo nesta quinta-feira (28), no bar Sabiá, localizado na Rua Purpurina, 370, no bairro de Pinheiros, a partir das 19h. 

Com 71 anos de idade, sendo 56 anos de memórias de militância política, o autor dividiu o livro em nove períodos, relembrando sua participação em cada um dos momentos políticos escolhidos, começando por sua atuação na cidade mineira de Teófilo Otoni e entrando nos golpes dos anos de 1960. 

“Eu comparo o golpe de 1961 com uma reação popular forte, liderada pelo (Leonel) Brizola, quando tentaram impedir a posse constitucional do João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros, e o golpe de 1964. Toda vez que os trabalhadores e o pessoal do campo, os jovens, se rebelam e lutam por direitos, há um golpe no país”, afirma Nilmário Miranda, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual. 

Nascido em Teófilo Otoni, interior de Minas Gerais, Nilmário recorda no livro sua mudança para Belo Horizonte, os tempos na universidade, conta como foi o enfrentamento da ditadura, período em que foi preso duas vezes — a primeira em 1968 e a segunda, em 1972, já sob “a égide da tortura”, em São Paulo. Para ele, o pior período foi a época do Ato Institucional n˚ 5 (o AI-5), que define como “terror de Estado”.  

“Estamos na véspera do dia 31 de março. Então, é importante que quem teve essa vivência possa contá-la de uma forma bem transparente, sem mentira. Temos que ter um compromisso com a verdade, com a memória, porque sem isso não tem como mudar. E quem está no poder e se beneficia dele para manter um sistema de desigualdade, não quer a verdade nunca, ou conta a história deturpada ou quer esquecer o passado”, analisa o ex-ministro.

Ouça a entrevista na íntegra

RBA: CINEB LANÇA ‘BIENVENIDOS A BOA VISTA’ SOBRE MIGRANTES VENEZUELANOS

Março 28, 2019

NESTA QUINTA

Documentário conta a história das mulheres que tiveram que deixar seu país e das brasileiras que trabalham para atenuar esse drama
por Redação RBA publicado 28/03/2019.
DIVULGAÇÃO
Bienvenidos a Boa Vista

Após a exibição do filme, cineasta e especialista em Relações Internacionais discutem a crise na Venezuela

São Paulo – O documentário Bienvenido a Boa Vista, que conta a história de mulheres venezuelanasque migraram para o Brasil, mais especificamente para a capital de Roraima, será lançado nesta quinta-feira (28) em sessão do CineB, projeto do Sindicato dos Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, em parceria com a Brazucah Produções. A cineasta e jornalista Elisângela Cordeiro esteve em Boa Vista entre abril e maio de 2018, ainda quando a crise política e social no país vizinho começava a se agravar. Em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria na Rádio Brasil Atual, também nesta quinta, ela conta por que escolheu dar destaque ao olhar feminino. 

Entre os cerca de 700 imigrantes que chegavam a cada dia, segundo Elisângela, a maioria era de mulheres, contrariando o imaginário popular no qual os homens seriam os primeiros a chegar a um país estrangeiro. “Muitas mulheres vinham primeiro, vinham sozinha. Tentavam se estabelecer, e voltavam para buscar filhos e maridos. Chegam sem lugar para ficar, precisando de apoio. Percebi a coragem dessas mulheres. Entrevistei mulheres muito fortes”, conta.

Com 30 minutos de duração, o documentário também retrata as mulheres que auxiliam na acolhida dos imigrantes, trabalhando junto a organizações da sociedade civil e também da Igreja Católica. Elisângela prefere não opinar sobre os rumos políticos da Venezuela, destaca os interesses econômicos ligados ao petróleo por trás da crise no país vizinho, e contesta uma eventual intervenção militarcosturada pelos governos brasileiro e dos Estados Unidos. 

O filme será exibido às 19h, no Auditório Amarelo do Sindicato dos Bancários, que fica na Rua São Bento, 413, no centro de São Paulo. Após a exibição, haverá um bate-papo com as presenças da diretora e do professor de Relações Internacionais Moisés Marques, diretor da Faculdade 28 de Agosto. A sessão é gratuita. Para participar, basta fazer inscrição pelo e-mail producaocineb@brazucah.com.br.

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BRASIL DE FATO: O QUE TU INDICA? | BOI DA MATA

Março 27, 2019

CONSCIENTIZAÇÃO

Projeto da Várzea busca reunir comunidade, natureza e cultura

Laila Costa

Brasil de Fato | Recife (PE)

27 de Março de 2019.

No mês de abril a brincadeira vai acontecer, excepcionalmente, no segundo sábado do mês (13) - Créditos: Reprodução
No mês de abril a brincadeira vai acontecer, excepcionalmente, no segundo sábado do mês (13) / Reprodução

O Boi da Mata é um Coletivo Artístico Ecopedagógico que nasceu no bairro da UR-7 (Várzea), no ano de 2010, e tem como principal atividade a “brincadeira” mensal que reúne vivências saudáveis de integração com a Natureza, com a Cultura e a Comunidade. Participam das atividades todos os públicos (crianças, idosos, jovens e adultos), moradores do bairro e simpatizantes.

Divertido, dançante e engajado, o Boi da Mata tem a missão de divulgar a mensagem ecológica verdadeira e autêntica de uma comunidade que convive com a mata, o olho d’água, o rio, a cachoeira e também com a busca de uma relação consciente no que se refere ao lixo e ao esgoto que vêm sendo despejados na mata e nas águas do Rio Capibaribe.

Em parceria com o coletivo Kapi’wara -Agroecologia Urbana, Sítio Ágata, Tabacaria Zona Oeste, Quintal Capibaribe, Rádio Comunitária Atlântida, e a Bar República Independente da Várzea (RIV), a “brincadeira” acontece aos terceiros sábados de cada mês, a partir das 09h, com trilhas ecopedagógicas, roda de capoeira angola, oficinas, feirinha de artesanato, brechó, cine, e se encerra com o esperado cortejo que segue embalado na pisada do coco e a sambada da mata.

No mês de abril a brincadeira vai acontecer, excepcionalmente, no segundo sábado do mês (13). Pra quem vai passar o dia todo, não tem com o que se aperrear! É oferecido um almoço com opção vegana, e a contribuição é colaborativa! Essa contribuição é revertida para a manutenção das atividades do coletivo, bem como o valor mínimo de R$ 5,00 sugerido para a trilha.

Para entrar em contato e obter informações como local de saída para a trilha e do cortejo basta acessar a página do Boi da Mata do facebook @oboidamata ou através do telefone (81) 99257-6052. Também tem a opção de correio eletrônico boidamata@gmail.com e o blog http://oboidamata.blogspot.com .

Laila Costa é militante da Consulta Popular de Pernambuco

Edição: Monyse Ravenna

RBA: NA PEQUENA CAIEIRAS, ARTE URBANA PODE GANHAR STATUS DE POLÍTICA PÚBLICA

Março 27, 2019
VIDA E ARTE
Cidade na região metropolitana de São Paulo discutirá projeto que propõe estimular o turismo social e a educação por meio do graffiti e da arte de rua
por Luciano Velleda, da RBA publicado 27/03/2019.
TAMIRES SANTANA
Grafite Caieiras

A obra dos artistas Bonga Mac e Dário Gordon é uma das tantas que colorem a cidade de Caieiras

São Paulo – Dois anos depois do ex-prefeito João Doria iniciar seu mandato na capital paulista apagando grafites de uma famosa avenida da cidade, o município de Caieiras, na região metropolitana de São Paulo, pode dar o exemplo inverso. Nesta quarta-feira (27) será votado um projeto de lei, de autoria do vereador Fabrício Calandrini (PMDB), que visa incentivar e regularizar o uso do espaço público pela arte urbana. Em 2018, a cidade foi sede de um Festival Internacional de grafite.

Segundo o parlamentar, a ideia é dar legitimidade a um movimento de “bastante expressão social”. O projeto propõe incluir o grafite e outras formas de arte urbana no calendário oficial de eventos de Caieiras, além de regulamentar a utilização de muros, viadutos e equipamentos públicos para a expressão da arte urbana de interesse artístico-social.

“Além da liberação de murais e equipamentos públicos para a expressão de artes visuais, o poder público tem como objetivo orientar, fomentar e fazer acompanhamento urbanístico, ambiental e social da cidade que também irão contribuir com o desenvolvimento turístico e social. É de grande importância o poder público promover a mudança da realidade visual da cidade, das pessoas que frequentam e das que aqui vivem, gerando medidas de sensibilização e conscientização, estimulando ações educativas através de oficinas e das expressões artísticas nos murais”, explica o vereador Fabrício Calandrini. “Acredito na cultura e na promoção dos artistas dentro da arte urbana como transformadores, tanto de pessoas como de apropriação de espaços públicos.”

DIVULGAÇÃO/PREFEITURA DE CAIEIRASBonga Mac graffiti
Tamires Santana e Bonga Mac, na abertura do Festival Internacional de Graffiti, em Caieiras, em 2018

Reconhecimento

Morador da cidade, o educador e renomado grafiteiro Bonga Mac já atuou em oficinas e projetos de grafite em Caieiras quando Calandrini foi secretário de Cultura do município. A relação entre os dois e a visão de transformar o espaço urbano por meio da arte está por trás do projeto elaborado.

“É um caminho para mostrar que esse segmento, antes discriminado, também pode gerar emprego e renda, e turismo cultural. Caieiras tem tudo para ser um polo neste sentido”, afirma Bonga Mac. Para ele, a cidade tem uma cena artística ainda pequena, embrionária, mas com grande potencial de crescimento. Com as devidas proporções, o artista cita o exemplo de Miami, nos Estados Unidos, onde uma determinada região da cidade que era abandonada e degradada transformou-se, com apoio do governo local e de empresários, num grande museu de arte urbana a céu aberto, hoje referência internacional.

No Brasil, os ventos atualmente são favoráveis. Seguindo um movimento que acontece em outros países e cidades, como o de Miami e o que consagrou o famoso grafiteiro inglês Banks, artistas brasileiros passaram a obter, nos últimos anos, fama e reconhecimento por seus grafites. Nomes como os dos irmãos Os Gêmeos e Cobra, apenas para citar dois, hoje rodam o mundo para deixar seus desenhos em locais públicos ou privados. Das ruas, o grafite também chegou nas galerias de arte dos Estados Unidos e da Europa, e no Brasil segue a mesma tendência. Para Bonga Mac, a arte urbana conquistou esse espaço.

“O grafite é um processo efêmero. Apoiando ou não, legal ou ilegal, ele continua sendo feito. Hoje há uma super expansão dele pelo processo natural e maturidade dos artistas”, pondera. Sem pestanejar, Bonga diz que o Brasil se tornou “uma meca” da arte de rua, embora isto não signifique ausência de questionamentos.

“Antes tinham pessoas perseguidas, obras apagadas e isso vai continuar acontecendo. Há entendimentos diferentes do que é bonito. A arte não nasceu para ser agradável, ela está ali para se expressar. A gente conquistou esse espaço, nada foi ganho, foi mostrado profissionalmente e isso ganhou respeito, não veio de graça”, afirma Bonga Mac.

TAMIRES SANTANABonga
O projeto de lei propõe usar o graffiti e a arte de rua como valor cultural e ferramenta de educação

Pessoas

Jornalista e design, Tamires Santana auxiliou a equipe do vereador Fabrício Calandrini a formatar o projeto, participando principalmente das questões envolvendo a arte urbana como estímulo à educação e ao turismo social. Entusiasta do tema, ela conta que a linguagem da arte urbana já flui na cidade há algum tempo e o objetivo agora é propiciar um ambiente mais acolhedor para seu desenvolvimento.

Enquanto reconhece o caráter inovador da proposta, Tamires também destaca que não basta o projeto ser aprovado na Câmara: ele só dará certo se as pessoas “comprarem” a ideia. “Uma lei é sempre um papel. Quem tira do papel é a população e o poder público. Só vai dar certo se as pessoas aderirem, os artistas e os educadores culturais irem atrás e fazerem acontecer. As pessoas precisam se apropriar. A gente trabalha com vida, emoções, é uma conquista coletiva”, enfatiza a jornalista.

Entre os diferenciais da proposta, Tamires Santana enfatiza o modelo de acolhimento do artista por parte do poder público, com acompanhamento, auxílio para a destinação correta dos materiais e a orientação para a não propagação de mensagens violentas ou preconceituosas. Ela ainda destaca o olhar de respeito com a arte e o estímulo a participação popular, incluindo até mesmo o ensino artístico nas escolas.   

“Claro que o grafite tem uma validade, mas o mais interessante é o estímulo a esse olhar. É uma nova geração e não podemos ficar para trás…vamos tratar essa arte como um bem cultural”, afirma Tamires, que se diz confiante na aprovação do projeto que irá à votação nesta quarta-feira (27), às 19h, na Câmara Municipal de Caieiras.