URARIANO MOTA: CEM ANOS DE PRIMO LEVI

Cem anos de Primo Levi

por Urariano Mota

O maior narrador que já houve sobre o Holocausto nasceu na Itália em 31 de julho de 1919. De lá até a sua morte em 1987, em circunstâncias até hoje não esclarecidas, pois não é certo se cometeu suicídio, se caiu por desmaio do terceiro andar do apartamento onde morava,  ou se foi morto por fascistas, Primo Levi muito escreveu. Mas de todos os seus livros e textos, o principal é mesmo “È isto um homem?”, que tenho ao meu lado agora. Nele, o escritor faz uma narração imortal pela capacidade de unir o particular da sua história em Auschwitz ao universal da espécie humana. 

Isso posto, observo de passagem que primeiro lemos um livro por necessidade irresistível de humanização. Depois, ao penetrar no humano que poderemos ser, lemos para apreender a vida de que apenas desconfiávamos existir. E mais adiante, lemos para aprender lições que nos iluminem em nossa própria caminhada. Começo então pelo fim, pelas lições aprendidas na leitura de Primo Levi. 

Na primeira delas, aprendemos que a memória é uma compreensão da realidade. E no escritor, em geral, a memória é a própria compreensão do mundo. Aquilo que vimos em “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos, quando o “paraíba”  nos revelou magistral a prisão política no Estado Novo e dessa narração fez a sua maior obra, em Primo Levi temos fortalecida a estranha descoberta, a saber, que escritores são melhores quando escrevem sem pretensiosa fantasia. E neste momento me acode a basilar referência do capítulo Massangana, de Minha Formação, de Joaquim Nabuco, o primeiro embaixador brasileiro em Washington. Mas não nos percamos.  

No mundo revelado, ou em processo de revelação, da memória para entender a vida, no que ela possui da desgraça para todos nós, ou da rara felicidade, menos vivida que sonhada, esse passo todos nós temos por experiência. Mas agora vem a segunda lição. É natural que não alcancemos a compreensão da vida que lembramos.  Isto é, a maioria não tem consciência da memória que reside no seu ser. Ou até mesmo nem deseja ter essa consciência, quando a memória é trauma, o que vale dizer, quando a memória atinge o limite da abjeção do que passamos. 

Então entro no “É isto um homem?” de Primo Levi.  Como é bem escrito! A dor trafica nas suas páginas com a melhor literatura como se fosse um tráfico sem troca e sem ênfase. Isso quer dizer: numa versão mais dura que a escolha de João Cabral de Melo Neto, quando o poeta fala que o verso  não deve perfumar o perfume da flor, Primo Levi escreve:

“O enfermeiro aponta as minhas costelas ao outro, como se eu fosse um cadáver na sala de anatomia; mostra as pálpebras, as faces inchadas, o pescoço fino; inclina-se, faz pressão com o dedo em minha canela, indicando a profunda cavidade que o dedo deixa na pálida carne, como se fosse cera. 

Desejaria não ter falado ao polonês; parece-me que nunca sofri, na minha vida toda, insulto pior. O enfermeiro acabou sua demonstração, em sua língua que não entendo e que soa terrível; dirige-se a mim e, em quase alemão, compassivamente, fornece-me uma síntese: – Tu judeu liquidado, tu em breve crematório, acabado”. 

Walter Benjamin em uma de suas iluminações escreveu que eram cada  vez mais raras as pessoas que sabiam narrar devidamente. Que ao se pedir num grupo que alguém narrasse alguma coisa, o embaraço se generalizava. Isso parecia que estávamos sem uma faculdade antes certa e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. A transmissão da experiência, notou  muito bem Walter Benjamin, não se realizava na imprensa, pois todas as manhãs recebemos notícias de todo o mundo, e, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão era que os fatos já nos chegavam acompanhados de explicações (e até mentiras e deformações, acrescentamos no Brasil de hoje). Em outras palavras: quase nada do que acontecia estava a serviço da narrativa, e quase tudo estava a serviço da informação. Péssima informação, fake news, acrescento, pois Walter Benjamin não viveu a imprensa brasileira destes dias.  

É claro, que já antes, mas agora mais que nunca, a experiência para ser transmitida a todos  precisa da literatura. No mesmo passo em que a literatura precisa de modo avassalador, bocarra insaciável, da experiência humana. Sob pena de perecer como a folha do jornal de ontem. A vida sofrida em campo de concentração – não fosse uma experiência monstruosa – carecia de ser narrada além das fotos inumanas dos corpos empilhados em Auschwitz. Se comparo mal, muito mal, a memória do escritor é um impresso sem pauta. Então, como poderia aparecer no jornal a página de Primo Levi que escreveu o que não saberia dizer a ninguém? Diria um editor: “Se ele próprio não sabe o que escreve, imagine o nosso leitor…”. 

A razão disso não é técnica, é avessa a oficinas de literatura. Está fora de qualquer manual de redação dos jornais. Trata-se de falar o que não é falável. Como assim?  No livro “É isto um homem?, são muitos os trechos que poderiam ilustrar o indizível. Com verdadeira violência, consigo retirar estes: 

“Pannwitz é alto, magro, loiro; tem olhos, cabelos, nariz como todos os alemães hão de tê-los, e está sentado, formidável, atrás de uma escrivaninha cheia de papéis. Eu, Häftling 174517, estou de pé em seu escritório, que é realmente um escritório, reluzente, limpo, bem-arrumado; tenho a sensação de que, se tocasse em qualquer coisa, deixaria uma marca de sujeira. 

O Dr. Pannwitz termina de escrever e olha para mim…. 

Quando tornei a ser um homem livre, desejei encontrá-lo outra vez, não por vingança, só por uma curiosidade minha quanto à alma humana. Porque esse olhar não foi cruzado entre dois homens. Se eu soubesse explicar a fundo a natureza desse olhar, trocado como através do vidro de um aquário entre dois seres que habitam dois meios diferentes, conseguiria explicar a essência da grande loucura o Terceiro Reich”. 

“Em termos concretos, essa história restringe-se a bem pouco: um operário italiano me trouxe um pedaço de pão e os restos de suas refeições, cada dia, durante seis meses; deu-me de presente uma camiseta cheia de remendos; escreveu por mim um cartão-postal à Itália e conseguiu resposta. Por tudo isso não pediu nem aceitou compensação alguma, porque ele era simples e bom e não pensava que se deve fazer o bem a fim de receber algo em troca”. 

“Evitar a seleção para a morte, para o gás, é bem difícil. Quem não pode, procura defender-se de outra maneira. Nas latrinas, nos lavatórios, mostramos um ao outro o peito, as nádegas, as coxas, e os companheiros nos animam: – Fica tranquilo, não vai ser a tua vez … Ninguém nega aos outros essa esmola; ninguém está tão seguro da sua própria sorte que possa animar-se a condenar os demais. Eu também menti descaradamente ao velho Wertheimer; disse-lhe que, se o interrogassem, respondesse ter 45 anos e que não deixasse de se barbear na noite anterior, ainda que isso lhe custasse um quarto da ração de pão”. 

“Agora, todo o mundo está raspando com a colher o fundo da gamela para aproveitar as últimas partículas de sopa; daí, uma barulheira metálica indicando que o dia acabou. Pouco a pouco faz-se silêncio. Do meu beliche, no terceiro andar, vejo e ouço o velho Kuhn rezando em voz alta, com o boné na mão, meneando o busto violentamente. Kuhn agradece a Deus porque não foi escolhido para a morte. Insensato! Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem 20 anos e depois de amanhã irá para o gás e bem sabe disso, e fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem falar, sem pensar? Não sabe, Kuhn, que da próxima vez será a sua vez? Não compreende que aconteceu, hoje, uma abominação que nenhuma reza propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação, nada que o homem possa fazer, chegará nunca a reparar? 

Se eu fosse Deus, cuspiria fora a reza de Kuhn”.       

Aqui, neste vídeo, Primo Levi retorna ao lugar que narrou para sempre em seu  livro 

 

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