ARTISTAS DO RN CRIAM MOVIMENTO PARA DENUNCIAR FASCISMO

POLÍTICA

Apaf promove intervenções em shows, se posiciona politicamente e organiza diálogos com a população

Kennet Anderson

Brasil de Fato | Natal (RN)

20 de Agosto de 2019.

Banda Born to Freedom, integrante do Apaf - Créditos: Cedida
Banda Born to Freedom, integrante do Apaf / Cedida

Desde novembro de 2018, artistas do Rio Grande do Norte passaram a organizar um movimento de resistência e denúncia aos diversos ataques sociais que, na época, estavam por vir com o Governo Bolsonaro, após os resultados das eleições. São músicos, bandas, produtores, tatuadores, grafiteiros, escritores, ilustradores, entre outros artistas independentes, que compõem o movimento dos Artistas Potiguares Antifascismo (Apaf). 

O principal motivo de se criar tal movimento, segundo o vocalista da banda Born to Freedom e integrante do Apaf, Shilton Roque, foi a identificação de atitudes consideradas fascistas, por políticos e cidadãos, trazendo à tona a necessidade de artistas da cena “underground”, a alternativa que foge dos padrões comerciais, de se posicionarem politicamente, o que não ocorria com muita frequência.

“Já no período eleitoral, a gente conseguiu identificar algumas bandas que não estavam querendo se posicionar, ou se posicionavam de uma maneira muito contraditória. Ou então organizadores de eventos defendiam a candidatura do Bolsonaro e assumiam os discursos dele. Para nós, é uma contradição muito grande uma banda com discurso politizado, ou que vive num cenário que vive essa politização, fazer parte desses eventos ou gerar dinheiro para esses organizadores”, explica.

A partir de um evento a nível nacional, o “Hardcore contra o Fascismo”, integrantes de algumas bandas potiguares começaram a afinar diálogos em torno do assunto e, após a edição do evento em Natal, se formalizou o movimento. 

“Antes das eleições a gente já começou a perceber que estava rolando um conservadorismo muito grande no underground, por parte de produtores e bandas, com posturas conservadoras e de direita. Isso é uma tremenda contradição no underground, que é um recorte da música, que sofre com a degradação do trabalho e do investimento em cultura”, afirma Alex Duarte, produtor cultural e membro da banda Sun of a Witch.

Duarte explica que, embora haja eventos com a intenção de “denúncia” e “conscientização”, a existência da Apaf, por si só, já leva as bandas a provocarem, independentemente, intervenções nos shows que elas participam, através do discurso, diálogo, ou da bandeira do movimento. “A ideia é justamente essa: em todos os eventos, fazer algum tipo de intervenção, para mostrar que nós, como artistas, também estamos nessa luta para frear essa degradação do Governo Bolsonaro”.

Posicionamento e prática

Com reuniões realizadas quinzenalmente no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), a Apaf se propõe a atuar, além do posicionamento político, com a realização constante de eventos que possam esclarecer o porquê de os artistas estarem se organizando em volta de uma causa política. Além de formações como a de lambe político, marxismo, rima e teatro do oprimido, há também eventos que promovem o diálogo através de serviços básicos à população.

“Houve uma intervenção no Passo da Pátria [comunidade de Natal], que a Apaf levou o Cras [Centro de Referência de Assistência Social], justamente para conversar com o pessoal, explicar como vão ser as mudanças com a reforma da Previdência, com a reforma trabalhista, privatizações e cortes na educação. Isto é, causar uma conscientização através daquilo que liga mais eles: as pautas da classe trabalhadora”, explica Duarte.

Além disso, por ser um movimento de artistas, o Apaf se divide em comissões que tentam abranger diversos temas diferentes, como a questão feminina dentro do ambiente cultural. De acordo com a ilustradora potiguar Ana Clara Monteiro, por mais que o antifascismo seja uma luta que todos concordam, ainda existe, consciente ou não, uma dominância do homem na mulher.

“A indústria musical, principalmente, – já que o grupo é formado, em sua maioria, por músicos – ainda carrega muitos estigmas que precisam ser vendidos. O corpo e a imagem da mulher é algo rentável. Quando a gente fala de mulher no underground ainda existem barreiras a serem quebradas, porque até nesse espaço nós somos sexualizadas, fetichizadas e tratadas como objetos”, ressalta.

Ainda segundo ela, a intenção de se ter um movimento de mulheres dentro do Apaf é também promover uma maior participação feminina politicamente, seja por musicistas mulheres que, muitas vezes, são tratadas como se não fossem capazes de compor, cantar ou tocar; ou até por ilustradores, como ocorre em sua área, em que as mulheres têm sua arte questionada.

“Eu acho que a Apaf, e todos os grupos de política, deveria ter mais mulheres porque elas não são estimuladas a estarem e participaram da política. Muitas chegam hoje e pensam que política é partido e só, mas não, é algo muito mais abrangente. O meu apelo é que de fato a gente comece a pensar, a participar e, de fato, ver qual o nosso papel na sociedade, como a gente pode ter um papel ativo enquanto cidadã”, completa.

Edição: Marcos Barbosa

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