CINEMA CARTA MAIOR: GÊMEAS EM CORRENTE ALTERNADA

De volta, agora no streaming, o belíssimo ‘O meu século XX’ troca a linearidade por uma construção onírica, na qual é impossível prever o próximo lance

Por Carlos Alberto Mattos 07/2021.

'O meu século XX' (Reprodução)

Créditos da foto: ‘O meu século XX’ (Reprodução)

 
Um dos filmes mais belos e inventivos da década de 1980 volta ao cartaz na plataforma Supo Mungam Plus. O Meu Século XX(Az én XX. századom) ganhou a Cámera d’Or em Cannes 1989 com uma narrativa delirante que marcou a estreia no longa-metragem da diretora húngara Ildikó EnyediA ousadia da moça, então com 34 anos, se revela numa história que abandona a linearidade a todo momento, oferecendo em troca uma construção onírica, na qual é impossível prever o próximo lance.

Tudo se passa nos primeiros anos do século passado, quando o mundo vivia uma reviravolta com as invenções quase simultâneas da luz elétrica, da corrente alternada e do cinema. No mesmo dia em que Thomas Edison apresenta publicamente a lâmpada incandescente, uma mãe dá à luz as gêmeas Dóra e Lili numa casa paupérrima da Hungria. As meninas serão separadas na infância e seguirão caminhos diferentes. Dóra será uma arrivista em ambientes de luxo do Império Austro-húngaro, enquanto Lili vai militar num grupo anarquista.

De tão idênticas que são (ambas e mais a mãe interpretadas pela atriz Dorotha Segda), as moças serão confundidas como uma só pelo misterioso Sr. Z (Oleg Yankovski, dos tarkovskianos O Espelho Nostalgia). A trama em si não vai muito além desse flerte equivocado entre os três personagens, mas o que conta de verdade é a avalanche de ideias visuais e ousadias estilísticas. Ildikó usa recursos dos primórdios do cinema e do filme mudo, assim como incorpora entretenimentos típicos da época – o salão de espelhos, as diversões luminosas.

‘O meu século XX’ (Reprodução)

Um livro que aparece em algumas cenas alude às teorias do russo Piotr Kropotkin sobre Mutualismo, que se opunham ao darwinismo social, sustentando que a ajuda mútua foi mais importante do que a competição pela sobrevivência na evolução das espécies. Daí a presença recorrente de animais, alguns dos quais protagonizam cenas impagáveis. Um cachorro, por exemplo, é exposto a uma diversidade de cenas de filmes. Um gorila narra como foi capturado na África. Estrelas também falam no filme, ajudando a mover a história entre risinhos e observações picantes.

Cada foco de luz que se acende é uma epifania. Cada encontro transborda sensualidade. Cada sequência traz uma surpresa, um disparate ou uma transição para alguma parte do planeta. É difícil encontrar coerência para tantas extravagâncias, mas é nisso mesmo que reside o encanto desse filme. Como num parque de diversões, ninguém pensa em estabelecer relações entre cada brinquedo. O que importa é o prazer que cada um deles proporciona.

>> O Meu Século XX está na plataforma Supo Mungam Plus.

Trailer legendado em inglês:

https://www.youtube.com/embed/ppHws_0OnrI

***


Na mesma plataforma estreou outro filme húngaro muito admirado pelos húngaros. Não compartilhei do mesmo entusiasmo, mas reconheço que Praça Moscou(Moszkva tér) faz uma crônica vivaz, embora um tanto ingênua, da juventude de Budapeste no ano fatídico de 1989. Petya (Gábor Karalyos) e seus colegas de classe estão concluindo o ensino médio no momento em que o país também passa por uma grande transição, com o fim do regime soviético. Mas nem isso, nem a morte do sempiterno líder comunista Janos Kádar parece afetar a consciência daqueles jovens bagunceiros, mais preocupados em se safar das garras da polícia e da escola.

Festinhas, vídeos pornôs, um Lada vermelho (o carro popular soviético), pequenos roubos, passagens de trem falsificadas, gabaritos de prova fraudados e hambúrgueres na antiga Praça Moscou – eis o que os ocupa ao longo das poucas semanas em que se passa o filme de Ferenc Töröc. Esse diretor parece obcecado por datas, haja vista seu documentário de protesto Hungria 2011 e o superestimado 1945). A agilidade de sua câmera e o frescor dos personagens não disfarçam, porém, uma sensação de vazio para quem assiste de fora àquele 1989 em Budapeste.

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