Archive for the ‘Agência Brasil’ Category

Ministro interino da Cultura volta atrás em demissões atrapalhadas

Agosto 1, 2016

Tiso e Olga

Depois de não achar nos “quadro de carreiras” pessoas em condições de substituir servidores como Olga Futemma, da Cinemateca (32 anos de Minc), e o músico Wagner Tiso, do Museu Villa Lobos, ele recuou.

por Felipe Pontes, da Agência Brasil

Brasília – O Ministério da Cultura voltou atrás e não vai mais exonerar a presidenta da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, nem outros quatro técnicos da instituição cujas demissões haviam sido publicadas no Diário Oficial da União.

Na última terça-feira (26), foram publicadas as exonerações de 81 ocupantes de cargos comissionados no Minc, entres eles Olga Futemma e o diretor do Museu Villa-Lobos, o maestro Wagner Tiso Veiga, que também integra o Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O ministro da Cultura, Marcelo Calero, negou que as baixas tiveram motivação política, alegando que estava atendendo a uma “reivindicação da sociedade” de substituir os ocupantes dos cargos por servidores de carreira.

Hoje (30), o ministério informou, por meio de nota, que tornará sem efeito a exoneração de Olga Futemma por ela ter “se destacado na gestão deste imprescindível órgão de preservação da memória de nosso audiovisual”. Ela é servidora de carreira aposentada do ministério, no qual ingressou em 1984. A Cinemateca Brasileira é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira.

Segundo o ministério, os outros quatro técnicos também serão reconduzidos a seus postos por possuírem competências técnicas dificilmente encontradas em outros integrantes do corpo funcional do ministério.

Em substituição a Olga, Calero havia nomeado Oswaldo Massaini Filho para a diretoria da Cinemateca Brasileira. Ele é acusado de crime de estelionato, e sua indicação recebeu fortes críticas de pessoas ligadas à área da Cultura.

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Polícia retira alunos que ocupavam Fábrica de Cultura em São Paulo

Julho 17, 2016

por Agência Brasil

São Paulo – A Polícia Militar realizou na madrugada de hoje (16) a reintegração de posse da Fábrica de Cultura do Capão Redondo, na zona Sul da capital. O prédio estava ocupado desde o final de maio, por aprendizes que protestavam contra demissões de educadores e o sucateamento do programa pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

De acordo com a polícia, que foi ao local fortemente armada, apesar do caráter pa´cifico da ocupação desde que teve início, a reintegração teve início por volta das 5h30, sem confronto e sem feridos. Os alunos bloquearam o acesso ao prédio com cadeiras, mas após negociações, deixaram o local. Um ônibus da polícia conduziu os estudantes a uma delegacia não informada pela PM. Pelas redes sociais, os alunos disseram que foram levados para o 47º Distrito Policial, em Capão Redondo.

As Fábricas de Cultura são espaços de acesso gratuito a atividades artísticas vinculadas à Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo. Capão Redondo é uma das cinco unidades gerenciadas pela Organização Social (OS) Poiesis – Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura, que administra também as unidades de Brasilândia, Jaçanã, Jardim São Luís, e Vila Nova Cachoeirinha.

De acordo com os estudantes, a Poiesis está sucateando as atividades na fábrica de cultura, reduzindo ateliês, diminuindo o horário de funcionamento de bibliotecas, e demitindo funcionários.

Na última nota divulgada pela Poiesis, a administradora das fábricas disse que não havia sucateamento das atividades das unidades, mas uma “readequação”.

“Há uma readequação de orçamento por conta da crise econômica que passa o país, com reflexos na cultura. Quando se toma medidas assim, não se está considerando apenas o passado recente e o presente, mas expectativas futuras. Por isso, a Poiesis realizou o desligamento de 12 colaboradores, de um total de 114”.

Mulheres querem ampliar participação feminina no audiovisual

Julho 8, 2016

Mulheres que fazem cinema – diretoras, roteiristas, produtoras e montadoras – discutem, no Recife, o que vem sendo feito por elas e os caminhos para ampliar a participação feminina no audiovisual. Esse é o objetivo do Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar), aberto nesta quarta-feira (6) à noite.

O evento vai até sábado (9) no histórico Cinema São Luiz, no Paço do Frevo, e na sede da Aliança Francesa. O festival, que está em sua primeira edição, mostra a diversidade do audiovisual produzido por mulheres. A curadoria selecionou 30 obras de 19 países, entre curtas, médias e longas-metragens. Há ficção e documentário, estéticas e temas amplos. No primeiro dia do festival foram exibidas produções com protagonistas femininas variadas.

The Arcadian Girl (Canadá), de Gabirelle Provost, retrata uma garota que vende algodão doce; The Internacional (Argentina), de Tatiana Mazú, mostra a irmã da cineasta em sua militância política e no relacionamento com a família. Já Outside (Brasil), de Letícia Bina, dá voz a uma ex-presidiária; e Kbela (Brasil), de Yasmin Thayná, usa uma narrativa repleta de simbolismos para contar o processo de libertação do cabelo crespo.

O único longa da noite, Retratos de Identificação (Brasil), de Anita Leandro, tem como protagonista Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, que lutou contra a ditadura, foi torturada e exilada em vários países, até cometer suicídio na Alemanha. A história é mostrada com narrativas de sobreviventes a partir dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), além de entrevistas históricas da própria militante. A convidada para debater o filme foi Clarice Hoffmann, idealizadora e coordenadora do projeto Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos, que também lidou com as fichas do Dops para fazer o seu trabalho.

Hoffmann destaca que os temas dos filmes são tão variados quanto os assuntos que interessam à parcela feminina da sociedade. “As mulheres falam sobre tudo. Imaginar que mulher só fala de mulher é um pouco restrito. Na verdade, o que se quer mostrar aqui é produção feita por mulheres. Os assuntos, as temáticas vão ser as mais diversas. E o pensamento dessas mulheres sobre a produção também”

Maria Cardozo, diretora artística e curadora do Fincar, reforça o caráter de reflexão do espaço – questões como representatividade, formação de público, estímulo ao surgimento de novas realizadoras. “Acreditamos também que exibindo os filmes, a gente possa trazer referências para estudantes de cinema que estão começando a lutar pelo seu protagonismo na realização cinematográfica”, diz.

Na abertura de cada sessão, um dado é apresentado pelo festival: menos de 20% dos filmes lançados nos últimos 20 anos foram feitos por mulheres. Levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), divulgado em março deste ano, mostra que 41% das obras brasileiras tiveram produção executiva exclusivamente feminina. Nas funções de roteirista e de direção, no entanto, a participação feminina é de 23% e 19%, respectivamente.

Na avaliação de Maria Cardozo, é possível encontrar semelhança entre o papel reservado à mulher na sociedade e o reflexo disso no mercado audiovisual. “No entendimento de uma sociedade machista, a mulher vem para organizar, cuidar do grupo. É como se a relação de produção, que é uma gestora de equipe, tivesse relação com uma gestora de família, como um papel que cabe à mulher, e não como autora e protagonista. Os números revelam de fato o que eu consigo visualizar no meio em que eu trabalho. E é uma questão mundial”.

Apesar dos dados, as realizadoras existem em grande número. As inscrições de filmes para o festival demonstram: foram 2.349 obras de 11 países recebidas pela curadoria. A diretora artística do Fincar acredita que o evento contribui para ampliar ainda mais essa produção. “A partir do momento em que você reúne mulheres que produzem, realizam, elas estão se conhecendo, fazem uma teia de conexões e isso, com certeza, estimula novas produções”.

A mulher na tela

O Festival Internacional de Cinema de Realizadoras também abre espaços para a discussão sobre como a mulher é representada no cinema, debate que pode ser expresso em números. O Instittuto Geena Davis, que estuda a presença do gênero feminino no audiovisual no mundo, divulgou em março deste ano uma pesquisa que revela que cerca de 73% dos brasileiros dizem que filmes e programas televisivos mostram as mulheres de maneira exageradamente sexualizadas.

Rodas de diálogos se encarregam de temas como o cinema negro no feminino, que será debatido hoje (7), às 14h, no Paço do Frevo. A discussão será conduzida pelo Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), projeto que leva produções do gênero a novos públicos e discute essa representação. Janaína Oliveira, coordenadora do Ficine e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez a curadoria dos filmes africanos do Fincar, exibidos na sexta-feira. Todos os títulos são dirigidos por mulheres de diferentes nacionalidades.

Janaína fala de um estereótipo comum vinculado à mulher negra. “Historicamente, não só no cinema brasileiro mas no mundial, a mulher negra é representada de forma negativa – como unicamente um corpo, um objeto com atributos negativos, que corrompe, que seduz. É um corpo, digamos assim, para o mal”, critica. “Eu acho que essa representatividade vem mudando. Muito recentemente e numa escala que ainda precisamos expandir. Mas já vejo uma transformação e, sobretudo, porque você começa a ter atrás das telas um universo de pessoas refletindo sobre esses estereótipos e querendo transformar essas personagens negras de forma mais complexa”.

Ter não só a mulher negra representada na tela, mas atrás dela, como realizadora, garante que esses estereótipos sejam quebrados e que o imaginário dessas personagens seja construído não por um olhar estrangeiro, mas pela pessoa que vive e se identifica diretamente com elas. É o que explica Yasmin Thayná, cineasta que apresentou seu curta Kbela na noite de estreia.

“Acho que essa questão da representatividade e representação de quem fala e quem olha é muito diferente. A realizadora negra, quando retrata algo da sua cultura, da sua história, fala de um lugar dela. Quando é uma mulher, um realizador não negro, ela fala de um olhar sobre alguém. Isso faz total diferença, porque um código de pertencimento, para uma pessoa não negra, não vai fazer tanta diferença como para uma pessoa negra. Aquilo significa a humanização da prática, às vezes, pequena”, afirma a cineasta, de Nova Iguaçu (RJ).

O filme Kbela, feito por ela, usa uma linguagem poética para mostrar o processo de fortalecimento da identidade da mulher negra a partir da libertação do cabelo crespo de todas as regras e alisamentos impostos na convivência social. O cabelo é o ponto de partida para uma afirmação política do empoderamento dessa população. E o detalhe a que se refere Yasmin é percebido nos debates sobre o filme.

“Uma vez, a gente estreou Kbela em Salvador e uma menina negra, depois da exibição, na hora do debate, pegou o microfone e disse que nunca esperou ir ao cinema e ouvir o som de um cabelo crespo sendo penteado. Talvez uma pessoa não negra nunca tenha pensado sobre isso, enquanto para uma pessoa negra faz total sentido, é parte fundamental”, observa.

No Cinema São Luiz, no Recife, relatos semelhantes surgiam na plateia. Muitas mulheres pediam o microfone não para fazer perguntas, mas para dizer ao público que se identificavam com o filme. Lembravam da infância, dos sacrifícios para adotar um cabelo liso, de outras pessoas tentarem diminuir a identidade e a estética negras em importância e beleza.

Uma das participantes do público aproveitou o espaço para fazer uma crítica ao festival. A atriz Isabel Freitas reclamou do cartaz do evento, em que uma das mulheres representadas, que está abaixo das outras, tem o cabelo crespo. Para ela, é preciso tomar cuidado com o simbolismo do material. A diretora artísita do Fincar respondeu que a intenção não foi essa, mas que pedia desculpas e que a equipe levava em conta a crítica e que faria a reflexão necessária.

Isabel Freitas foi ao cinema acompanhada de adolescentes integrantes do Maracatu Encanto do Pina. “Nos mobilizamos para assistir ao Kbela porque elas estão nessa fase de afirmação da identidade”, disse. Depois da sessão, o grupo de jovens tirava fotos e mexia nos cabelos cheios e encaracolados em frente ao espelho do hall principal.

Movimentos populares fazem ato “Fora, Temer” na feira literária de Paraty (RJ)

Julho 4, 2016

Chamado de Ocupa Flip, o protesto denunciou violações de direitos das comunidades tradicionais e se posicionou contra o governo interino de Michel Temer - Créditos: Tomaz Silva/ABr

Direitos dos povos tradicionais, de LGBTs, de mulheres e dos negros também pautaram o ato na famosa feira internacional.

Por Vinicius Lisboa, da Agência Brasil

Movimentos sociais fizeram, na tarde desse sábado (2), manifestação durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O ato reúne pautas de povos tradicionais, feministas, ativistas pela educação, por direitos LGBT e do movimento negro e posiciona-se contra o governo do presidente interino Michel Temer.

Chamado de Ocupa Flip, o protesto tem como um dos principais objetivos denunciar violações de direitos dos povos e das comunidades tradicionais da região. A manifestação se concentrou na Praça da Matriz, no centro histórico, e percorreu as ruas da cidade divulgando as revindicações com cartazes e palavras de ordem.

Desde o início da festa, o movimento Trindade Vive espalhou cartazes nos postes de Paraty com mensagens contra a especulação imobiliária e o turismo predatório na região. Em 2 de junho, a localidade de Trindade testemunhou o assassinato do jovem caiçara Jaison Caique Sampaio, de 23 anos. O crime causou indignação e está em investigação pela polícia.

A comunidade afirma que o jovem foi morto por seguranças contratados pela empresa privada Trindade Desenvolvimento Territorial. A Agência Brasil não conseguiu entrar em contato com a empresa.

“Esse problema causou grande mobilização na comunidade na luta por justiça, até pelo histórico de Trindade, que desde a década de 1970 já sofreu com diversos atos de violência”, diz o representante caiçara Davi Paiva na tenda montada pela comunidade no centro histórico de Paraty para divulgar a cultura e as reivindicações da população de Trindade. “A gente acredita que a mobilização tem de ser não só da comunidade, mas de toda a sociedade, que tem de olhar para o que está acontecendo em Paraty.”

Davi acredita que o caiçara talvez seja o mais afetado pela descrença da sociedade em relação aos povos tradicionais. “Por ser uma mistura dos portugueses, dos índios e negros, ele [o caiçara] é um pouco a cara do Brasil, que é a cara de todos nós”, conta. “Não preciso estar com um chapéu de palha e um matinho canto da boca mastigando, e usando roupas típicas para poder ter minha identidade reforçada. A cultura é algo que está em constante mudança. O índio não deixa de ser índio porque usa um celular.”

Os caiçaras são povos tradicionais que vivem entre a costa do Paraná e a do Sul do Rio de Janeiro. Historicamente, suas principais atividades eram a pesca e a lavoura e, em muitos casos, eles foram expulsos do litoral pela especulação imobiliária. Atualmente, esses povos muitas vezes se dedicam ao ecoturismo, como ocorre em Trindade.

Contra a especulação

Além do protesto, duas mesas na programação alternativa à tenda principal da Flip trazem hoje a pauta caiçara para o debate. Pela manhã, no Instituto Silo Cultural, representantes de povos caiçara e quilombola e pesquisadores se reuniram para discutir as ameaças aos territórios.

Entre as preocupações mencionadas, a privatização de áreas de conservação, onde a maior parte desses povos vive, foi destaque. O antropólogo e professor da Universidade de São Paulo Antônio Carlos Diegues defendeu que a autonomia é fundamental para os povos tradicionais. Para ele, a organização caiçara só se tornou possível quando os quilombolas ganharam espaço. “Em vez de reconhecer os direitos das comunidades como autônomas, o que o governo propõe [com concessões de áreas de preservação] vai impedir que exerçam autonomia”, diz o pesquisador. Ele estima que 90% das comunidades tradicionais vivam em áreas de preservação.

Quilombola e membro do Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba, Ronaldo dos Santos lembra que não é coincidência esses povos viverem em áreas preservadas. “Não sou incompatível com a Mata Atlântica, tanto é que a Mata Atlântica que resta está onde eu vivo”, diz o ativista. Ele manifestou preocupação com as garantias de direitos dos povos tradicionais nos próximos anos. “Tem muita gente engasgada com o avanço das pautas progressistas.”

Do ponto de vista cultural, o músico caiçara Luiz Perequê ressaltou que, sem a garantia do território, sobra uma angústia aos povos tradicionais. “Tem uma cultura que só acontece aqui. Se não tem esse espaço, não tem como acontecer”, disse. Perequê também criticou a transformação das manifestações culturais apenas em produtos culturais pela indústria turística. “Não se pode deixar transformar tudo em entretenimento para o turista.”

Luta por direitos

No sábado, o jornalista e advogado Paulo Stanich Neto participou de uma mesa na Flip Mais e lança o livro Direito das Comunidades Tradicionais Caiçaras, em que apresentou pareceres jurídicos que fundamentam a luta dos caiçaras pela terra.

“Nossa mensagem é que temos fundamentos jurídicos e que eles [os caiçaras] não deleguem essa representatividade. O caiçara é um sujeito, não o objeto. Ele tem condições de lutar pelos direitos dele”, disse o organizador do livro. Segundo ele, os caiçaras são ameaçados por grileiros, por governos e por organizações não-governamentais que tentam tomar seu protagonismo.

Coreógrafa é homenageada com exposição e série de espetáculos em São Paulo

Junho 6, 2016

Daniel Mello

Uma exposição interativa e uma série de espetáculos homenageiam a coreógrafa Maria Duschenes. De origem húngara, a artista foi uma das responsáveis por difundir os conceitos de Rudolf Laban no Brasil entre 1960 e 1990. A programação pode ser vista no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC), no Parque do Ibirapuera, até 10 de julho.

As ideias de Laban, que influenciaram decididamente o trabalho de Duschenes, estão baseadas no estudos dos movimentos do corpo e a relação deles com o espaço. “Você trabalha o corpo, além do exercício de repetição do movimento, uma consciência de como o corpo funciona”, explica a idealizadora da mostra, Maria Mommensohn. Ela era uma das alunas de Duschenes, morta em 2014.

“Essa perspectiva é muito aplicada hoje em qualquer técnica. Você vai ter bailarinos clássicos que não se machucam mais tanto, como antigamente. Porque eles têm essa consciência de como você vai além do seu limite sem uma lesão. A lesão vem de um desconhecimento de como o seu corpo trabalha”, acrescenta a idealizadora sobre a importância dos estudos desenvolvidos por Laban.

Essas teorias poderão ser experimentadas pelo público em instalações interativas. “A gente procurou criar alguns objetos em que as pessoas pudessem experimentar o conceito”, enfatiza Maria sobre as técnicas que não são um modelo estruturado, mas uma forma de enxergar a movimentação corporal. “Aquilo não era da teoria para a prática. Era uma correspondência entre o movimento que acontece e uma ideia que ele tinha de como enxergar esse movimento.”

Em outra parte da exposição, com vídeos e fotografias contam a história de Maria Duschenes que estudou com Laban na Inglaterra, após ele ter deixado a Alemanha, antes da Segunda Guerra. De acordo com Maria, Laban foi perseguido pelos nazistas após o ministro da Propaganda do regime, Joseph Goebbels, assistir a uma de suas peças.

Espetáculos

A partir do dia 3 de junho, cinco espetáculos de artistas influenciados pelas ideias de Laban e em diálogo com o trabalho de Duschenes entram em cartaz no MAC. Os trabalhos misturam performances, com instalações e exibições de vídeos. Cada um fruto de uma pesquisa específica de cada grupo. Foram convidadas para as apresentações as artistas Ciane Fernandes, da Bahia, Marcia Milhazes, do Rio de Janeiro, além de Andreia Yonashiro e Juliana Morais, de São Paulo. A própria Maria Mommensohn também fará uma apresentação.­

Os traços que unem os espetáculos não são, segundo Maria, óbvios, uma vez que as ideias de Laban são mais um método de construção do que modelos estéticos acabados. “Você pode olhar o trabalho dessas pessoas e nem cogitar qual é a fundação, o fundamento. Porque na obra de arte você dificilmente reconhece o lastro da pessoa, você vê o resultado e a proposta do artista”, ressalta.

A programação, com datas e horários, está disponível na página na seguinte página: http://www.mac.usp.br/mac/expos/2016/vesica/programa.htm

Ato contra o impeachment reúne músicos de orquestras no Rio

Maio 6, 2016

Akemi Nitahara

Integrantes de diversas orquestras do Rio de Janeiro, como Sinfônica, Petrobras, OSB, Escola de Música, UFF e UFRJ, se uniram para fazer o ato Concerto Pela Democracia, na Praça São Salvador, em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro.

No repertório, Halleluja, de Händel, com um tenor cantando “Fora Cunha”, O Trenzinho do Caipira, de Villa-Lobos, Roda Viva e Apesar de Você, de Chico Buarque, Para Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, Cio da Terra, de Milton Nascimento, e o Hino Nacional.

Um dos organizadores do evento, Cláudio Alves, contrabaixista da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro, diz que a ideia de fazer um concerto contra o impeachment surgiu nos bastidores dos ensaios, com muitos músicos insatisfeitos com a situação política do Brasil e querendo demonstrar isso em público.

Ato contra o impeachment reúne músicos de orquestras no Rio
Concerto Pela Democracia reuniu 40 músicos e teve repertório com músicas eruditas e popularesAkemi Nitahara/Agência Brasil

“A gente já tinha concordado que precisava tocar, então nessa semana eu dei a ideia, data e local e corremos para organizar, conseguimos os arranjos com o maestro Sérgio Barbosa, do projeto Villa-Lobos, e as crianças. Ia ser um quinteto de cordas amplificado, com discurso dos professores das universidades, mas a movimentação foi tão grande e inesperada, a gente não fez nada para divulgar ou convocar, mas as pessoas vinham falar com a gente e eu nem sei mais a dimensão que esse ato tomou”, disse.

A orquestra reuniu cerca de 40 músicos e o público encheu a praça. “É o que a gente sabe fazer e onde a gente atua. A gente não serve só para tocar para a classe alta no Theatro Municipal, ser aplaudido, sair pela porta dos fundos e voltar para casa. A gente também tem voz, quer ser ouvido e está na rua”, diz Alves, dizendo que todas as orquestras do Rio estavam representadas no ato, além de músicos populares e que tocam na noite.

Para o contrabaixista, a acusação de movimentos favoráveis ao impeachment de que artistas que são contrários ao impedimento se posicionam dessa forma porque recebem incentivos da Lei Rouanet é uma posição “fascista”.

“A gente tem que sempre bater nessa posição fascista que desqualifica a posição política do artista de esquerda com o discurso de que ele está se dando bem, mamando no governo. Não tem ninguém mamando no governo, a Lei Rouanet é do governo Itamar Franco. Ninguém pega dinheiro da lei, ela é uma autorização para o produtor que faz o projeto e usa o artista para captar dinheiro. O Chico Buarque não senta e escreve um projeto, é um produtor que escreve se apropriando da grande obra do Chico Buarque”.

O ato começou por volta de 20h30 e durou cerca de uma hora, com música e algumas falas políticas.

Procissão cultural encena lendas do folclore popular nas ruas de Mariana

Março 27, 2016

Mariana (MG) - Uma das atrações da Semana Santa de Mariana é a Procissão das Almas, manifestação cultural que ocorre na madrugada da sexta-feira para o sábado (Léo Rodrigues/Agência Brasil)

Leo Rodrigues – Correspondente da Agência Brasil

Nem só de religiosidade se faz a Semana Santa em Mariana (MG). Na noite de ontem (25), quando se celebrou a Sexta-Feira da Paixão, um grupo de 60 pessoas saiu às ruas para encenar lendas do folclore popular da cidade. Acompanhada sempre por olhares de uma centena de curiosos, a Procissão das Almas carrega uma tradição de aproximadamente 35 anos.

O cortejo é organizado pelo Movimento Renovador, uma iniciativa sociocultural independente cujo objetivo é contribuir para a preservação do patrimônio material e imaterial da Mariana. “Nós realizamos pesquisas sobre os elementos tradicionais e folclóricos da sabedoria popular”, explica a integrante do movimento e uma das coordenadoras Procissão das Almas, Hebe Maria Rola Santos.

Mariana (MG) - Uma das atrações da Semana Santa de Mariana é a Procissão das Almas, manifestação cultural que ocorre na madrugada da sexta-feira para o sábado (Léo Rodrigues/Agência Brasil)
Na Procissão das Almas, as pessoas se vestem todas de branco, escondendo seus rostos sob um capuz. Elas carregam um osso e uma velaLéo Rodrigues/Agência Brasil

Aos 84 anos, Hebe é também professora de literatura emérita da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Fascinada por histórias e contos populares, ela conta casos curiosas como a de um homem com dificuldades de locomoção que, após sete anos participando da Procissão das Almas, apareceu sem muletas na penúltima edição. “Ele jura que foi curado pelo nosso cortejo. Vou dizer o que para ele?”.

Duas lendas

Na Procissão das Almas, as pessoas se vestem todas de branco, escondendo seus rostos sob um capuz. Elas carregam um osso e uma vela e param em frente às igrejas que possuem cemitério para entoar uma canção. No meio do grupo, um participante fantasiado de morte segue carregando uma foice, enquanto Hebe Rola incorpora um personagem que carrega um cesto cheio de penas, que são jogadas para o alto de tempos em tempos. Esses três elementos, ossos, penas e cemitérios, se remetem a duas lendas populares da cidade e uma história real.

Diz a primeira lenda que uma senhora chamada Maricota passava seus dias na janela, fiscalizando a vida alheia. Era uma fofoqueira, na linguagem popular. Como já estava com má fama devido ao seu comportamento, decidiu mudar de bairro e também alterou seus hábitos: em vez de ficar na janela durante o dia, Maricota passou a ser vigilante noturna. Como Mariana tinha toque de recolher às 21h, o objetivo dela era delatar os infratores.

Uma noite de sexta-feira santa, viu uma procissão se aproximar, mas as pessoas escondiam o rosto dentro do capuz. Ela ouvia lamúrias, som de bumbo, correntes arrastando e uma canção: “Reza mais, reza mais, reza mais uma oração; reza mais, reza mais, pra alma que morreu sem confissão”. Como ela não conseguia identificar quem estava ali, começou a ficar intrigada sobre o cortejo que até então desconhecia.

Mariana (MG) - Uma das atrações da Semana Santa de Mariana é a Procissão das Almas, manifestação cultural que ocorre na madrugada da sexta-feira para o sábado (Léo Rodrigues/Agência Brasil)
 O cortejo é organizado pelo Movimento Renovador, uma iniciativa sociocultural independente cujo objetivo é contribuir para a preservação do patrimônio material e imaterial da MarianaLéo Rodrigues/Agência Brasil

De repente, um dos integrantes veio em sua direção dizendo que a noite é dos mortos e pediu para que ela guardasse a sua vela que mais tarde voltaria para buscar. Maricota ficou feliz por ver que finalmente alguém lhe tinha confiança. Quando a procissão voltou, a mesma figura novamente lhe procurou. Ela então foi buscar a vela, que surpreendentemente havia se transformado em um osso de perna de defunto. “O final possui mais de uma versão, sendo que em uma delas a fofoqueira morre de susto e passa a integrar anualmente a procissão dos mortos”, conta Hebe.

A segunda lenda se remete a uma senhora classificada como “barata de igreja” que é, na linguagem local, a mulher que está sempre bajulando o padre. Com a contratação de uma jovem moça para ajudar nas escrituras da paróquia, essa senhora fica muito enciumada. Ela, então, começou a espalhar o boato de que a nova funcionária era namorada do padre e, para conferir credibilidade à sua história, colocou sapatos do sacerdote sob a cama da moça.

Com o escândalo, a jovem perdeu o noivo, foi expulsa de casa pelos pais e virou andarilha. Um dia, ela retornou bem maltrapilha e bateu à porta de uma casa solicitando água. Enquanto a moradora atendia ao seu pedido, a moça caiu morta. O enterro foi organizado e toda a cidade, curiosa, compareceu para ver a falecida. Quando a “barata de igreja” chegou, o defunto sentou no caixão e disse “está aqui quem me caluniou”.

Mariana (MG) - Uma das atrações da Semana Santa de Mariana é a Procissão das Almas, manifestação cultural que ocorre na madrugada da sexta-feira para o sábado (Léo Rodrigues/Agência Brasil)
A Procissão das Almas, em Mariana, carrega uma tradição de aproximadamente 35 anosLéo Rodrigues/Agência Brasil

Desesperada, a senhora correu atrás do padre, que lhe repreendeu e lhe deu um castigo inusitado: recolher penas de aves em todas as casas onde há abatedouros no quintal, organizá-las em balaios, deixá-las no alto do morro e esperar que um vento forte espalhe-as por toda a cidade. Ao fim, conforme Hebe Rola, ela deveria recolher até a última pena. “Segundo a lenda, em toda sexta-feira da paixão, ela transita pelas ruas de Mariana coletando as penas”.

A Procissão das Almas faz ainda referência a uma história real, cujo personagem central é um maestro de Mariana. Ele criou o hábito, em todo o Sábado de Aleluia, de se dirigir aos cemitérios onde haviam músicos enterrados para tocar uma canção em homenagem a eles.

Morte

Embora tenha um viés cultural, a Procissão das Almas é também uma reza pelos que já se foram. Há pessoas na cidade que, pela referência aos mortos, têm medo do cortejo. É o caso do taxista Antônio Silva. “Na dúvida, prefiro evitar”, disse.

Aos 23 anos, o estudante de arquitetura Felipe D’ângelo superou o medo. Natural de Mariana, ele se vestiu de branco e integrou o cortejo pela primeira vez. “Sempre tive vontade de participar, mas desde criança eu tinha medo. Há uma mística na cidade em torno dessa procissão. Acho legal a interação que existe com as praças e as igrejas da cidade”.

Já o psicólogo Fábio Maia, de Belo Horizonte, escolheu Mariana para passar o feriado e ficou fascinado com o cortejo. “Estou achando fantástico porque ela foge do lugar-comum. Eu tenho 56 anos e nunca vi uma procissão igual na minha vida. Aliás, eu não sou religioso, então essa é a única procissão que eu seguiria”.

OS TAMBORES DE NANÁ VASCONCELOS

Março 10, 2016

Recife - Velório do compositor Naná Vasconcelos (Sumaia Villela/Agência Brasil)

Por: Sumaia Villela

“Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra”. Essa frase foi atribuída a Naná Vasconcelos pelo mestre Chacon Viana, da Nação do Maracatus Porto Rico, do bairro do Pina, Recife, que ouviu a brincadeira em uma reunião preparativa para o carnaval deste ano – o último de Naná. E assim foi atendido o desejo do artista: o tambor tocou e a saia rodou em frente à Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde o corpo está sendo velado desde o início da tarde.

Naná jaz no centro do plenário da Assembleia, ladeado, todo o tempo, pela esposa e produtora Patrícia Vasconcelos e a filha Luz Morena, de 16 anos. Sobre o caixão, uma bandeira de Pernambuco – o músico nasceu no Recife – e uma do Santa Cruz, time de futebol pernambucano. Mais de uma dezena de coroas de flores colorem o espaço, e um estandarte do bloco de rua Galo da Madrugada guarda, do segundo andar, o velório do percussionista.

A família e os amigos usaram écharpes para homenagear Naná, uma peça que sempre fez parte de seu figurino. O próprio Naná vestia uma azul que trouxera de Israel. Patrícia Vasconcelos e a filha permaneceram serenas, apesar da tristeza. “A gente foi muito feliz e vai ser muito difícil, mas a gente sabe que muita gente vai dividir essa dor. O mundo está triste pela partida material, mas a música vai ficar”, se consola a esposa Patrícia.

Siga os sonhos
Luz Morena disse guardar as melhores lembranças do pai. E os melhores conselhos. O homem que seguiu seu sonho mundo afora, ao fazer música em vários países e com muitos parceiros de peso, não poderia desejar diferente ao destino de Luz. “Ele me chamou na UTI e disse para eu seguir meus sonhos”, lembra a jovem, que pretende estudar design de moda no exterior. A outra filha, Jasmim Azul, mora nos Estados Unidos. A família não sabia se ela conseguiria chegar a tempo.

Além da écharpe, outra coisa que todos usavam era a palavra “humildade” para se referir ao artista. “Ele deixava claro que não tinha mestre ou melhor. O mestre estava no céu. E fez com que todas as nações tivessem uma só voz”, recorda Chacon. O maracatu do Pina, como dezenas de outros, tocava há 15 anos na abertura do carnaval do Recife, comandando por Naná Vasconcelos.

Recife - Velório do compositor Naná Vasconcelos (Sumaia Villela/Agência Brasil)Humildade

Vestido todo de preto e com o capacete da moto preso à cintura, Edelvan Barreto, que trabalhou por 20 anos com Naná, contou que a característica mais marcante de Naná, além da humildade, era a generosidade em repassar seus conhecimentos. “Ele queria ensinar para as pessoas o que ele aprendeu sozinho, que é a música”, explicou, citando um dos ensinamentos do percussionista: “o primeiro instrumento é a voz, o segundo é o corpo. O resto é consequência”.

Naná Vasconcelos deixou conhecimento e também músicas inéditas, que vão compor um novo álbum que o músico pretendia lançar ainda este ano. Edelvan se lembra de uma delas. “A música Amém Amém, essa mensagem que ele deixou para essas pessoas que estão vivendo essa guerra, a peleja do dia a dia. O amor supera tudo”. O artista pernambucano compôs mesmo internado, até os últimos dias de vida. Ele também faria uma turnê, em abril, na China, Japão, e Coréia do Sul.

Últimas homenagens
A Assembleia Legislativa de Pernambuco está aberta para quem quiser prestar as últimas homenagens a Naná Vasconcelos. Como fez a professora de culinária Zezé Melo, de 73 anos, moradora do Recife. “Ele sempre prestigiou muito o estado, representou Pernambuco muito bem. Espero que venham todos se despedir dele”, pediu.

A família estuda limitar a entrada durante a noite, a partir das 20h, para que as pessoas mais íntimas e os parentes possam ter mais privacidade. Amanhã, às 8h, a previsão é que a Assembleia seja reaberta ao povo. Uma missa de corpo presente será celebrada no local por volta das 9 h. Depois, o corpo de Naná Vasconcelos segue em cortejo para o Cemitério de Santo Amaro. Grupos de maracatu anunciaram que vão acompanhar o cortejo fazendo o que Naná sabia de melhor: a música.

Morre percussionista Naná Vasconcelos Melhor percussionista

Juvenal de Holanda Vasconcelos, ou Naná Vasconcelos, nasceu no Recife em 2 de agosto de 1944. O pai, músico, lhe passou o gosto pela arte – e o filho começou cedo. Aos 12 anos já se apresentava em bares e participava de grupos de maracatu locais. Aprendeu primeiro a tocar bateria. Depois, berimbau. E não parou mais: ao longo da carreira, uma das características da sua percussão era usar qualquer objeto que produzisse um som interessante para compor seus trabalhos.

Naná começou a ser conhecido nacionalmente ao mudar para o Rio de Janeiro, na década de 1960, e tocar com o mineiro Milton Nascimento e o também pernambucano Geraldo Azevedo. Quando morou nos Estados Unidos e na França fez diversos trabalhos, inclusive trilhas sonoras para filmes, o que lhe rendeu, por oito vezes, o Grammy, um dos maiores prêmios de música do mundo. Entre as parceiras ao longo da carreira estão B.B. King e Ella Fitzgerald.

Fruto do aprendizado informal da música, sem nunca ter cursado nível superior, em dezembro de 2015, o artista recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

A FLORESTA AMAZÔNICA COM SEUS HABITANTES NATURAIS, O HOMEM, E SEUS ENTES ESTARÃO VÍDEO GAME

Março 1, 2016

Game indígena

Flávia Villela – Repórter da Agência Brasil

A partir de abril, fãs de vídeo game poderão conhecer um jogo bem diferente dos convencionais e genuinamente brasileiro. Em vez de armas de fogo, serão índios e flechas. No lugar dos monstros e inimigos armados, jiboias, antas, pacas e outros elementos visíveis e invisíveis da Floresta Amazônica.

O projeto foi elaborado por antropólogos, programadores visuais e integrantes do povo Kaxinawá – ou huni kuin, como eles se autodenominam, e que significa “pessoa verdadeira”. O som de tiros e músicas eletrônicas, comuns na maioria dos jogos, é substituído pelos da mata e dos cantos dos povos da floresta.

Os heróis do game Huni Kuin: os Caminhos da Jiboia tem como protagonistas dois irmãos gêmeos: um caçador e uma artesã. Concebidos pela jiboia Yube em sonhos, eles herdam poderes especiais. Se conseguirem vencer todos os obstáculos, o jovem se tornará pajé e a moça, mestra dos desenhos. O jogador ainda tem a oportunidade de ouvir o idioma hatxã kuin.

Games indígenas/Índios cineastas

Antropólogo da Universidade de São Paulo (Usp) e idealizador do projeto, Guilherme Meneses esclareceu que o conhecimento dos rituais ancestrais, dos animais, das plantas e dos espíritos é fundamental para o sucesso no jogo. A equipe do projeto conta com programador, artista digital, game designer e antropólogos, mas participaram da produção cerca de 45 Kaxinawás de algumas das 32 aldeias existentes no Acre.

“Decidimos com eles [indígenas] o roteiro e as histórias. Eles desenharam os protótipos, gravaram as músicas e os efeitos sonoros. Os pajés narraram as histórias”, informou Meneses, que viu no projeto uma ferramenta contemporânea para explorar e divulgar a cultura dos Kaxinawá.

“Minha ideia original era que gamers e outros interessados tivessem uma visão de como é uma aldeia, o mundo indígena, os mitos e que isso ajudasse a derrubar certos preconceitos que até hoje existem por falta de informação da população sobre os indígenas”, acrescentou o antropólogo.

O jogo tem cinco fases, cada uma abordando um mito tradicional da etnia. Em cada fase, o jogador ganha conhecimentos guiados pela história do pajé. Nesse processo, o usuário mergulha nos rituais e nos grafismos dos Kaxinawá. Além do português e do hatxã kuin, há legendas disponíveis em inglês e espanhol. “A jiboia é um animal encantado dentro do universo Kaxinawá e dentro da primeira história é o personagem principal”, destacou Meneses.

Foram seis meses de pesquisa e quase três anos para concluir o jogo. A experiência na aldeia São Joaquim/Centro de Memórias durou cerca de quatro meses intervalados, período em que foram feitas oficinas de audiovisual e produção de conteúdo. Segundo o antropólogo, o contato com os indígenas evidenciou o potencial do game também como elemento de fortalecimento interno do povo, conta.

“A própria questão da tecnologia é uma transformação na aldeia. É uma demanda deles entrar em contato com nossas cidades, de conseguir trabalho, projetos e visibilidade dentro do cenário nacional”, informou Guilherme Meneses, destacando o grande fascínio que a tecnologia exerce sobre muitos indígenas, sobretudo os mais jovens.

De acordo com um dos coordenadores do trabalho na aldeia Isaka Kaxinawá, o processo de produção do vídeo e a experiência com o jogo aproximou a juventude dos mais velhos e da cultura Kaxinawá. “Fortaleceu a sabedoria dos nossos velhos, porque o velho sabe muito da tradição e temos de aproveitá-los. Eles nos ajudam a pensar nosso futuro, o do nosso filho e do nosso neto.”

Games indígenas/Índios cineastas

Conforme o coordenador, a experiência com a produção do jogo semeou novas ideias e projetos. “Estamos agora produzindo um documentário sobre o ritual txirin, que é a cerimônia do Gavião Real.”

O patrocínio dos parceiros institucionais, como Itaú Cultural e Universidade de São Paulo (USP), serviu para ajudar as aldeias participantes com instalação de painéis solares e cursos de áudio visual que continuam em curso. “Não teria sentido eles ficarem fora dos recursos, uma vez que o vídeo é sobre eles e feito também por eles. É reivindicação dos indígenas ter acesso à energia e à internet nas aldeias. Hoje muito poucas aldeias têm energia e internet”, disse Meneses.

O Caminho da Jiboia será lançado primeiro nas comunidades indígenas que participaram do projeto, na primeira semana de abril. O lançamento mundial ocorrerá logo depois pela internet, quando poderá ser baixado gratuitamente.

Meneses e a equipe sonham com a adaptação do jogo para o celular no futuro. “Estamos sem recursos, mas estamos buscando com os parceiros acadêmicos”, adiantou. Ele não descartou a ferramenta do Crowdfunding, como recurso.

Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, o país tem mais de 7,5 mil integrantes dos Kaxinawá. Destes, mais de 3 mil estão no Acre.

O DIA DO FREVO É COMEMORADO EM PERNAMBUCO

Fevereiro 9, 2016

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Os pernambucanos comemoram nesta terça-feira (9) o Dia do Frevo. Declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o ritmo comanda as festas de carnaval nas ladeiras de Olinda e também pelas ruas do Recife.

A data foi escolhida porque há 109 anos o jornalista Oswaldo Oliveira, que trabalhava no Jornal Pequeno, do Recife, se referiu pela primeira vez à dança chamando-a de frevo.

Origem

Segundo historiadores, a palavra frevo quer dizer ferver. E resultou da maneira incorreta como as pessoas mais humildes flexionavam o verbo ferver trocando a ordem das letras “e” e “r”, ou seja, “frever”. O ritmo é derivado da marcha e do maxixe, e surgiu no Recife no final do século 19 para dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval. O ritmo é extremamente acelerado e a música animada. Nas suas origens, sofreu várias influências ao longo do tempo.

Apesar de Pernambuco comemorar hoje o Dia do Frevo, um decreto assinado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2009, instituiu o Dia Nacional do Frevo em 14 de setembro.

Os símbolos

Passista de frevo (divulgação)

Sombrinha – No começo, era usada para proteger do sol e até como arma, em caso de conflito. Com o passar do tempo, foi ficando menor e mais colorida e se tornando uma tradição e símbolo do frevo

Estandartes – É a bandeira, com um emblema, que vai na frente dos cortejos. Ela caracteriza a agremiação, identifica aquele grupo que vai passando. A tradição vem da época das Cruzadas, na Idade Média, quando as missões com fins militares e religiosos ostentavam bandeiras com símbolos alegóricos como cruzes e brasões.

Sombrinha de frevo (Divulgação)