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Beijos Sem Lábios

Março 23, 2010

ÉDIPO TARDIO

Quando criança, toda vez que seu pai lhe surrava, ele dizia para si, em meio às dores físicas e morais, que um dia o mataria. Em cada surra aumentava a vontade patricida de destruir seu algoz. Anos de sentimento de vingança.

O tempo rolou por seus percursos incertos, improváveis, e ele se descobriu adulto. A ideia de matar o pai, que lhe atormentou durante toda sua infância e adolescência, desaparecera.
Chegando à velhice, o pai foi acometido de uma enfermidade letal que vinha lhe causando fortes dores. Desesperado, querendo por um fim ao imenso sofrimento que o afligia, chamou o filho que há anos não o via.

O filho chegou, entrou no quarto sombrio que por tantas vezes gritou por socorro sob violento espancamento, olhou o pai inerte, indefeso e respirando com dificuldade. Percebendo o filho, por uma réstia de luz de seus olhos combalidos, pediu para que ele se aproxima-se. O filho se aproximou, e o pai pediu que ele colocasse seu ouvido próximo à sua boca, pois tinha um pedido à lhe fazer.

O filho curvou-se sobre o pai, e ouviu uma voz fraca dizendo que ele não suportava mais tanta dor e queria por fim ao sofrimento. E como sabia que ele o odiava pelas violências lhe infligidas, ele poderia aproveitar o momento para se vingar matando-o, que ele, como pai, lhe perdoaria pelo bem que lhe causaria naquele momento.

O filho ficou ereto e desabou a chorar. O pai tossiu se contorcendo em dores. Depois o filho pegou um lenço, enxugou o rosto, ficou pensativo e, pausadamente, saiu do quarto.

O pai, pela primeira vez chorou. Chorando, ele balbuciou: “Eu não consegui lhe fazer um homem”.

Do livro de contos do Esquizofia Beijos Sem Lábios.

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