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A Vida de Brian: Pelos direitos humanos, contra a realidade

Dezembro 28, 2015

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No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absoluta.

Léa Maria Aarão Reis*

Brian Cohen nasceu no ano de 33, na província da Judéia, quando a Roma imperial ocupava a região através do seu preposto, o prefeito Pôncio Pilatos. Brian nasceu no canto de uma manjedoura, vizinho de outro bebê que também viera a este mundo na mesma hora: o menino chamado Jesus. Desde os primeiros momentos, a existência de Brian foi atribulada por sempre confundirem-no com o bebê do lado. Quando sua execrável mãe enxotou os três Reis Magos e deles tentou surrupiar o ouro que traziam destinado na verdade ao bebê vizinho, a cupidez humana se mostra entranhada na sua saga. Mais adiante, a ignorância, a alienação da massa histérica repetindo dogmas e mantras de forma cega e robotizada, e o cinismo do ambiente são a moldura da breve vida de Brian, morto crucificado aos 33 anos por ordem do juiz Pilatos sem qualquer culpa formada – exceto a de exalar carisma, motivar e mobilizar as massas, e entusiasmar os indivíduos humildes, aqueles que eram “o problema”, no dizer dos personagens dos burgueses ricos.

Uma sucessão inacreditável de mal entendidos e de lances do acaso, (o mesmo acaso do qual fala Woody Allen nos seus filmes), pontuam a vida de Brian. Esta sua trajetória é narrada no brilhante filme Life of Brian, de 1979, hoje um clássico do cinema  inglês, de autoria do cineasta Terry Jones, integrante do genial grupo Monty Python*. O mesmo grupo que sacudiu a forma de fazer humor, no mundo inteiro, nas décadas dos 70/80, inclusive no Brasil, inspirando o gênero batizado aqui de besteirol.

O filme de Jones, quando estreou, foi criticado ferozmente e dividiu opiniões apaixonadas. Houve e há ainda quem o veja como um filme antissemita. Os católicos viram nele uma blasfêmia. Mas outros o avaliam como uma genial e demolidora crítica à sociedade, até hoje atual; o que o filme na verdade é.

No ano 33, na Judéia, Brian vive uma vida paralela à de Jesus Cristo e sofre por ser confundido com ele. A confusão começa quando finge ser um pregador para fugir dos centuriões, mas tem suas pregações levadas a sério, arrastando atrás de si uma horda de seguidores. Para escapar da perseguição dos romanos, Brian se alia a uma coligação de grupo de oposição ao regime, a esquerda (ou a guerrilha) da época: a mais radical, a Frente do Povo Judeu; a Frente Judaica do Povo e a Frente Popular, esta representada por apenas um único homem velho, remanescente.

Por sua vez, pregam: “Jesus não percebe que abençoado é qualquer um bem vestido e à procura de status.”

As três organizações trabalham juntas “em defesa dos direitos humanos e contra a realidade”, em momentos específicos, por conveniência. Planejam sequestrar Pilatos. Na verdade, não se entendem e se detestam. Lutam por uma mesma causa, mas não conseguem conquistar uma vitória porque brigam e disputam todo o tempo entre si, nas intermináveis reuniões teóricas e até na violência física.

A farsa, para o Monty Python Terry Jones é permanente. Camelôs vendem pedras aos que se encaminham para assistir o espetáculo dos apedrejamentos. Algumas, pedras pontiagudas, outras achatadas, grandes ou pequenas, conforme o gosto do freguês. Alusão clara aos linchamentos da mídia e aos fetiches do consumo.

No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absolutas. O Outro nunca conta, é claro.

Em uma das intermináveis reuniões dos grupos ‘guerrilheiros’ discutem-se quais os benefícios trazidos pelos romanos para os judeus. Para além dos aquedutos, das estradas, saneamento, irrigação, cultura vinícola, educação, casas de banho, medicina. “Mas e para nós? O que fizeram por nós?” eles se perguntam.

“Eu não sou o Messias,” berra Brian, tentando, desesperadamente, esclarecer a confusão de identidades. O povo insiste: “É, sim!” “Então vocês vão se f…”, responde Brian, desanimado e entregando os pontos. Mas a massa/zumbi insiste e pergunta: “E como devemos  nos f..?”

“Pensem pela sua cabeça porque vocês são independentes! Vocês devem cuidar de vocês mesmos! Não deixem que os outros mandem em vocês!” vocifera Brian, procurando se desvencilhar da horda.

O velho leproso, curado por um “maldito milagre”, se lamuria, num canto. Antes, como um leproso, era mais fácil para ele ganhar a vida pedindo esmolas.

Duas sequências de A Vida de Brian são particularmente empolgantes. Diálogos que manejam o virtuosismo da inteligência em alta voltagem. Uma, no palácio, com Pilatos, que sofre de um distúrbio da fala, a dislalia, e troca ‘rs’ pelos ‘ls’. O juiz que condenará Brian sem culpa formada – quanta atualidade aí para o espectador brasileiro, neste momento – interroga Brian e, ao mesmo tempo, submete seus guardas à tortura ao proibir os acessos de risos deles diante do ridículo das suas falas. Se os centuriões não conseguirem reprimir o riso, serão presos e executados.

Outra sequência magistral é a do grand finale com a crucificação. Dezenas de prisioneiros são encaminhados por um burocrata romano ao Gólgota. A fila e o controle social são bem organizados. Já pregados e amarrados nas cruzes, os castigados acabam cantando, em coro, como num musical de Hollywood, a bonita composição que se tornou célebre no mundo inteiro e se transformou na marca musical do Monty Python: ”Dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida. (Always look on the bright side of life).

O autor da canção é Eric Idle, ator, escritor, cantor, compositor e guitarrista, hoje com 72 anos. Foi um ativo membro do grupo britânico. Com essa sua célebre composição, Idle provoca no espectador, nesse final da vida de Brian, não gargalhadas, mas  sorrisos amarelos.

É que conviver com néscios é dureza. Só é suportável sorrindo.


*Jornalista


**Alusão ao general Bernard Montgomery, herói britânico da Segunda Guerra Mundial.

Michael Moore: o que roubar na próxima invasão?

Dezembro 18, 2015

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O objetivo desta nova invasão dos EUA não seria para se apossar do petróleo, mas das idéias e soluções político-sociais encontradas por outros países.

Rui Martins

O maior crítico e inimigo da estrutura político-militar americana, o cineasta documentarista e escritor Michael Moore, estará em fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, com seu novo filme Onde a Próxima Invasão ?,já exibido no Festival de Toronto e com estréia nos EUA na véspera do Natal.

Desta vez, o sistema americano quer limitar a penetração do filme entre os jovens, classificando-o como permitido apenas a maiores de 17 anos, alegando algumas cenas de drogas e uns nus naturistas, mas na verdade criando uma nova categoria – a da pornografia política.

Para Michael Moore, os EUA são um país belicoso em permanente estado de guerra, principal responsável pela situação atual no Oriente Médio, decorrente da invasão do Iraque, justificada com mentiras. Natural, por isso, se esperar uma nova invasão para acionar a indústria armamentista americana e se apropriar de alguma riqueza.

Entretanto, o objetivo desta nova invasão não seria para se apossar do petróleo de algum país, porém – e aqui entra a ironia do provocador Moore –  das idéias e soluções político-sociais encontradas por outros países e superiores às aplicadas pelo liberalismo capitalista dentro dos Estados Unidos.

Entre elas estão o sistema de saúde e previdenciário dos franceses ; a política de legalização de certas drogas pelos portugueses ; o comportamento natural de muitos europeus com relação aos seus corpos nos campos naturistas de nudismo ; as merendas escolares nas escolas francesas ; as longas férias concedidas aos operários italianos ; o melhor sistema educacional dos finlandeses ; e a maneira como foram processados e presos os banqueiros islandeses envolvidos na falência do país.

Por que não roubar tudo isso desses países e fincar uma bandeirinha americana no lugar ?

O sucesso de Onde a Próxima Invasão ? vai depender da dose de humor aplicada por Michael Moore, já premiado com Palma de Ouro em Cannes e com Oscars nos Estados.
Seus filmes mais conhecidos – Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11.

Rui Martins, correspondente em Genebra, estará em Berlim, do 10 ao 21 de fevereiro, convidado pelo 66. Festival Internacional de Cinema.

O verdadeiro monstro da primeira página dos jornais

Dezembro 9, 2015

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É impressionante como um dos grandes filmes políticos italianos, produzido em 1972, pode muito bem explicar como funciona a mídia brasileira de hoje.

 Léa Maria Aarão Reis*
Há pouco menos de meio século o cineasta italiano Marco Bellochio já dava uma aula cinematográfica incisiva, no seu filme Sbatti il mostro in prima pagina, de 1972, sobre o conluio criminoso e corrosivo criado, em tempos de crise e de decisões democráticas formais (época de eleições, por exemplo) pelos principais poderes reais que afinal regem a vida cotidiana, a sobrevivência dos cidadãos e a política: os grandes grupos econômicos, locais – hoje, também os globalizados -, a magistratura e a mídia corporativa.

Bellochio é autor de outra produção de grande repercussão no mundo inteiro, na sua época, e foi exibido no Brasil com alarde, dez anos antes, em 62, intitulado Pugni in Tasca. É um dos cem filmes italianos escolhidos para serem preservados pela Cinemateca de Bolonha, da qual ele é o presidente, e que antecipa os grandes movimentos dos estudantes, em 68. Este Sbatti il  mostro  teria, em tradução livre, o título de …o monstro na primeira página. É um espécime exemplar e corajoso do vigoroso cinema político italiano da época, um cinema direto até hoje incomparável, e ao qual se pode assistir na internet.

A produção é estrelada pelo brilhante ator Gian Maria Volonté vivendo o editor-chefe carreirista e manipulador de um poderoso jornal de Milão. Um cão de guarda, chien de garde conforme a feliz expressão cunhada pelos franceses, a propósito dos jornalistas que se transformam em meros porta-vozes dos interesses dos patrões.

Ela é marcante na sua semelhança com o difícil momento que o Brasil vive hoje, iniciado com a vitória do Partido dos Trabalhadores, pela quarta vez reeleito, há um ano, e com a campanha deflagrada pelo segundo lugar, para enfraquecê-lo, a qualquer custo, pelo conjunto dos poderes reais regentes inconformados com a derrota nas urnas: poder econômico, policial autoritário, poder midiático e magistratura – a política a reboque.

Aprende-se no filme, com toda clareza, como se procede à manipulação escandalosa da informação nos desdobramentos de eventos locais. As famosas suítes jornalísticas produzidas, quando se deseja, para induzir leitores e eleitores a determinadas reações e conduzi-los a posições políticas convenientes e coniventes com os tais interesses antes obscuros, hoje cada vez mais escancarados.

O filme é didático, segura um ritmo empolgante, e mistura a narrativa ficcional com sequências de documentários filmados nas ruas da Itália, nos anos 70, nas campanhas apaixonadas da coligação das esquerdas contra grupos fascistas, liberais e monarquistas que procuravam chegar ao poder.

A história é esta:  Rizanti é o editor-chefe-cão-de-guarda, fascista falsamente elegante, irônico, sempre vestido num paletó jaquetão/símbolo do novo rico. Dirige o dia-a-dia do Il Giornale (nome de um jornal milanês criado anos depois da estreia do filme), e decide explorar, politicamente, por determinação do engenheiro Morelli, financista que lidera grupos industriais de extrema direita, um fait divers policial – o assassinato com conotações sexuais (um fato verídico; crime que na realidade existiu), de uma garota estudante, filha da alta burguesia, Milena Sutter, ocorrido na mesma época das manifestações políticas. A vítima escolhida é um dos jovens líderes das passeatas. Preso, ele acaba vítima de uma campanha para desqualificar as esquerdas na qual é apresentado, durante semanas seguidas, na primeira página do jornal de Rizanti, como o monstro estuprador da menina. A campanha tem seu efeito e o rapaz é condenado nessa primeira página pela opinião pública. Uma condenação moral do monstro militante que vai desacreditar a candidatura das forças populares.

Mas o jovem repórter Roveda, o encarregado de produzir as suítes do caso, a certa altura de suas investigações, avisa Bizanti que o verdadeiro assassino é o zelador da escola da garota. Nada a ver com o líder militante. O jornalista e o financista, no entanto, decidem continuar a farsa até, pelo menos, o resultado das eleições, que estão próximas. Decidem manter o segredo sobre o assunto e depois ver o que fazer com o ‘monstro’ oficial, detido.


Há diálogos primorosos em Sbatti il mostro. Rizanti dizendo alegremente, por exemplo, nas reuniões de pauta com os editores:  ”Os protagonistas do estado de direito, afinal,  são a justiça, a magistratura, a mídia, a polícia. Os trabalhadores estão fora deste jogo. ” Ou, irritado, para a sua mulher, leitora e telespectadora contumaz: ”Quando as pessoas vão entender a diferença entre aquilo que se pensa e aquilo que se diz ?” E com ironia cínica :” Milão é a capital moral do país.”

E a sua mais importante tirada, na discussão com o repórter que procura convencê-lo a parar com a farsa do ‘monstro de esquerda’. Do alto da onipotência devastadora (ela poderia ser colocada na boca de qualquer personagem jornalístico, vendido, atual): “Nós, jornalistas, não somos mais observadores; somos protagonistas; entenda que hoje a luta de classes é uma guerra. Entenda também que as pessoas leem o jornal como se ele fosse o evangelho…”

Tristes trópicos, melancólicos tempos para uma profissão e para um país em que um filme como este, de Bellochio, cai como um manto em nós. O seu recado é este: o verdadeiro monstro é Rizanti. Imperturbável monstro agindo nas capas de revistas, nas primeiras páginas e nas chamadas e escaladas, nos telejornais, e produzindo-as, diariamente, sob a máscara de ‘normalidade’. É urgente, assistir este filme. Público e estudantes de comunicação.

*Jornalista

 

O tigre tâmil e o terror dentro da França

Novembro 26, 2015

divulgação

O filme, sobre a imigração ilegal e o asilo político, narra a fuga de três pessoas dos horrores da violentíssima guerra civil do Sri Lanka.

Léa Maria Aarão Reis*

O filme francês Deephan – O refúgio, ganhador da Palma de Ouro deste ano no Festival de Cannes, não é um filme excepcional embora original, digno – diria obrigatório – de assistir, neste momento em que acompanhamos, com pasmo, o horror do terrorismo que vai se generalizando sob as suas mais diversas formas, e o espetáculo dantesco dos refugiados rejeitados vindos de países devastados pelas guerras criadas por governos ocidentais. Deephan foi recebido cercado de polêmica pela crítica de Paris, meses atrás, embora a mídia tenha recomendado o filme de Jacques Audiard, cineasta de 63 anos, ex – roteirista, montador de cinema e detentor de vários prêmios Cesar, o maior troféu do cinema francês: “Este seu sétimo longa metragem é audacioso e possui todas as qualidades para ganhar a atenção do público,” comentaram os jornais.

Sem dúvida. No Brasil, Deephan estreou sem grande alarde. Abriu espaço para uma enxurrada de babaquices cinematográficas como Grace, princesa de Mônaco e mediocridades. Filmes assemelhados às telenovelas no objetivo de hipnotizar e descerebrar as sociedades – ou o chamado ‘grande público’, como gosta a crítica de cinema.

O filme, sobre a imigração ilegal e o asilo político, narra a fuga de três pessoas dos horrores da violentíssima guerra civil – guerrilha marxista contra governo -, no seu país, atual Sri Lanka, antigo Ceilão. Um guerrilheiro deserta do conflito e se torna um dos milhões de imigrantes sem passaporte. Imagens pungentes que o ‘grande público’ vai se acostumando a ver, todas as noites na tela do seu conforto, à medida que o tempo passa e os horrores se sucedem, cada vez mais se comovendo menos.

Estas pessoas são o tigre tâmil (aguerrida minoria étnica da ilha) chamado Deephan, que abandona a guerrilha dos tigres tâmeis depois de ter a família dizimada pelo exército do governo; outra, uma jovem desesperada, praticamente em estado de choque, Yalini. A terceira, a pequena Illayaal, de nove anos, órfã de pais mortos nas batalhas. Os três, desconhecidos uns dos outros, se fazem passar por uma família de modo a ter direito ao passaporte de refugiados que garantirá a entrada na França. Lá, são designados para morar em um projeto habitacional popular, um complexo do HLM (habitation à louer moyen**), nos arredores de Paris. A produção, falada em idioma tâmil, foi rodada por Audiard no conjunto Coudraie, em Poissy, a 20 quilômetros da capital, construído nos anos 60 para alojar funcionários da Simca.

Mesmo sem falar francês, Deephan consegue emprego de zelador de um dos prédios do conjunto. Yalini, o serviço de empregada doméstica no apartamento de um tio do chefe local do tráfico de drogas. A menina entra para a escola e é quem se adapta mais rápido e melhor à nova realidade. Mesmo mal se conhecendo, os três, juntos, tentam reconstruir suas vidas atingidas pela guerra em um país em paz. Vão descobrir que a nova realidade não é tão idílica como fantasiam e que o terror também existe dentro da Europa com as suas diversas faces.

O filme é protagonizado por Jesuthasan Antonythasan, ator, escritor e ativista político com trajetória semelhante à do seu personagem. Antonythasan também lutou com os tigres da Libertação da Pátria Tâmil (seu codinome era Maniyan) quando adolescente, antes de partir a França onde entrou há 22 anos.

Ainda garoto, porque era conhecido pela sua inteligência no lugarejo onde nasceu, escapou do destino das crianças de 11 anos: ir para Colombo, trabalhar. Anthonythasan foi mandado para a escola pública onde estudou.

Kalieaswari Srinivasan e Claudine Vinasithamby fazem a mulher e a menina. É a primeira vez que trabalham como atrizes. Naturais do Sri Lanka, são excelentes, de uma espontaneidade cheia de frescor. Em Cannes, os três levaram também os prêmios de interpretação.

Na maior parte da sua narrativa, Deephan é um filme realista com forte engajamento social; espécie de documentário com entradas da ficção. É mais um filme de Audiard com a marca do seu cinema: a insegurança ocasionada pelo medo, o terror, o amor e a vingança, mas com ênfase na força e na capacidade dos seus personagens, desventurados, marginalizados ou desassistidos de se reerguerem sempre, sempre e sempre.

Ao assistir este filme do diretor de dois outros festejados e premiados filmes, Ferrugem e osso (2012) e de  O profeta (2009,) é imperioso registrar outra produção, Made in France, de Nicholas Boukhrief, de 53 anos, nascido em Antibes, cuja estreia marcada para Paris, semana passada, foi cancelada por motivos óbvios. Conta a história de jornalista francês se infiltrando em uma organização fundamentalista que planeja um ataque em Paris para semear o terror no coração da cidade. Premonição de arrepiar. Além da estreia, prevista em 100 salas, também foram retirados da cidade os cartazes que substituía um rifle AK-47 pela Torre Eiffel.

Recentemente, o Cahiers de Cinéma publicou matéria sobre um suposto “vazio político” no cinema francês. Não é o que parece no cinema de Audiard – o recorte que ele faz no seu Deephan tem como fundo o pano político – nem em Made in France.

Na vida real, os tigres tâmeis, hoje, são um grupo que trabalha no Sri Lanka na esfera política mais que na da guerrilha. Mas a sua militância continua advogando uma política “anti-imperialista (…) contra os neocolonialistas, o sionismo, o racismo e outras forças reacionárias.”

*Jornalista

**Habitação social

Pasolini: 40 anos da morte misteriosa de um visionário

Novembro 12, 2015

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Um dos maiores artistas do século XX, o intelectual marxista era detestado pela burguesia. Para muitos, sua morte foi resultado de um complô político.

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Quem foi Pier Paolo Pasolini?

Em avanço sobre sua época, o poeta, romancista e cineasta, morto de forma violenta na praia de Ostia, perto de Roma, foi relembrado dia 2 de novembro em Paris por ocasião dos 40 anos de sua morte. Na última entrevista, dada na véspera de morrer ao jornalista Furio Colombo, do jornal La Stampa, ele constatava: “Estamos todos em perigo”.

Um dos maiores artistas do século XX, o intelectual marxista engajado era detestado pela sociedade burguesa. Para muitos, sua morte foi o resultado de um complô mafioso ou político para calar o incômodo crítico da política italiana, sobretudo na coluna Escritos corsários, publicada no Corriere della Sera, nos dois últimos anos de vida. A Democracia Cristã, severamente criticada por Pasolini por alimentar o clima de tensão da Itália dos « anos de chumbo », viu, três anos depois, seu líder Aldo Moro ser sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas.

O intelectual era a consciência crítica de uma sociedade profundamente dividida politicamente. Apaixonado pelo Cristo dos pobres, que levou às telas no que é considerado o mais belo perfil de Jesus de Nazaré (O evangelho segundo São Mateus), o poeta foi lembrado em um encontro de intelectuais e artistas em Paris, no Théâtre du Rond-Point, no dia exato dos 40 anos de sua morte.

Seu assassinato, em 1° de novembro de 1975, na praia de Ostia, perto de Roma, permanece até hoje um mistério. Seus inimigos preferiram acatar (ou fabricar ?) a tese de crime sexual, atribuindo à homossexualidade de Pasolini a responsabilidade de sua morte.

Na madrugada do dia 2 de novembro de 1975, Pasolini tinha apenas 53 anos e acabara de fazer o filme “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, baseado em texto do Marquês de Sade. Ao ver-se sozinho em seu carro num suposto encontro homossexual foi espancado até morrer. O seu próprio carro foi usado para passar por cima de seu corpo.

Pietà de Ernest Pignon-Ernest

A cerimônia foi uma iniciativa do artista plástico Ernest Pignon-Ernest, comunista como o italiano, e teve a presença de Claudia Cardinale, Alfredo Arias, Adriana Asti, Michel Fau, Françoise Fabian, entre muitos outros. Ernest Pignon-Ernest  fez um belíssimo retrato do artista como uma Pietà e lembrou que a representação do inferno para Pasolini poderia ser o capitalismo consumista desumanizante e destruidor de laços de fraternidade, que ele pressentiu.

Biógrafo e tradutor de Pasolini, René de Ceccatty ressaltou em artigo que o intelectual era intransigente em política e detestava a corrupção e o oportunismo. Ceccatty pergunta se sua morte não teria sido uma resposta dos serviços secretos italianos a um artista que chocava e incomodava, como os profetas do Antigo Testamento perturbavam os poderosos com sua pregação radical. Como um profeta, Pasolini previu o terror no qual o país iria mergulhar.

Ele lembra que Pasolini escreveu um romance, Petróleo, publicado depois de sua morte, no qual conta a corrupção na ENI, a empresa de petróleo estatal da Itália. Em 1962, o presidente da ENI Enrico Mattei tinha morrido num misterioso acidente de avião causado, provavelmente, por ter quebrado o monopólio das Sete Irmãs, as companhias de petróleo multinacionais que davam as cartas no Oriente Médio.

Sociedade doente que mata seus poetas

Pasolini incomodava com sua lucidez e sua coragem de pôr o dedo na ferida de uma sociedade italiana hipócrita e corrupta. Ele denunciou a corrupção da Democracia cristã, descreveu a ascensão vertiginosa do neocapitalismo triunfante que vemos hoje em dia totalmente vitorioso no Ocidente; previu a ascensão de um tipo de político ligado a negócios milionários, como Berlusconi. E foi um dos primeiros a denunciar a uniformização, e consequente destruição, das culturas nacionais e locais no processo que hoje chamamos de mundialização.

No enterro, seu grande amigo, o escritor Alberto Moravia, sugeriu um crime político : « Uma sociedade que mata seus poetas, é uma sociedade doente. »

Seu último filme, Saló, só foi lançado depois de sua morte. O filme provocou a ira dos espectadores ao pôr em cena cruamente histórias do Marquês de Sade adaptadas ao contexto da República fascista de Saló, controlada pelos nazistas. Nela, fascistas sequestram 16 jovens e os aprisionam numa mansão onde são usados como fonte de prazer e sadismo. Considerado o artista mais escandaloso da Itália do pós-guerra, Pasolini teve de responder a mais de 20 processos.

Apontado como autor da morte do poeta, Giuseppe Pelosi foi condenado em 1976 à pena de nove anos de prisão, mas muitas dúvidas a respeito da autoria única do crime permanecem até hoje. Uma das hipóteses é que o crime teria tido motivações políticas e foi cometido por membros do movimento neofascista italiano. Em uma entrevista à televisão italiana em 2005, Pelosi afirmou que fora coagido a confessar e que outras pessoas teriam assassinado Pier Paolo Pasolini.

No cinema, os clássicos da literatura universal

O ecletismo de Pasolini levou-o a visitar no cinema clássicos de diversas culturas : filmou As mil e uma noites, Édipo Rei e Medeia, mas também se interessou pelo escritor e poeta inglês do século XIV, Geoffrey Chaucer, de quem adaptou Os contos de Canterbury. Do poeta italiano Bocacio, também do século XIV, adaptou para o cinema O Decameron.

O leitor de Antonio Gramsci, poeta e teórico do marxismo morto nas prisões do fascismo, a quem dedicou seu livro de poemas As cinzas de Gamsci, também fez incursões pelo Novo Testamento. O Jesus de seu filme O Evangelho segundo Mateus, de 1964, é um líder revolucionário, um perfeito precursor do Jesus Cristo libertador dos teólogos da Libertação. Sem acrescentar uma vírgula ao texto original de Mateus, Pasolini reconciliou nessa obra-prima o cristianismo e o marxismo e fez um dos mais belos filmes do cinema italiano. É, sem dúvida, a mais despojada e fiel adaptação do Evangelho.

No seu último filme, Saló ou os Cento e vinte dias de Sodoma, o sexo não é um instrumento de libertação como na trilogia que o precede (Decameron, Contos de Canterbury e As mil e uma noites). Ele é servidão. Ambientado na república fascista de Saló, o filme mistura pornografia e tortura na reconstituição da obra do Marquês de Sade. O caráter escatológico do filme contribuiu para aumentar o ódio dos cristãos integristas por Pasolini, que sempre abordou a religião com uma visão pessoal e libertária e  nunca dissimulou sua homossexualidade.

Uma amiga do cineasta, a atriz Adriana Asti, observou que « tudo o que ele temia aconteceu : a globalização, o reinado da televisão, o consumismo ». Seu último livro, Petróleo, descreve, profeticamente, atentados terroristas em estações de trem. Cinco anos depois de sua morte, o primeiro atentado terrorista neofascista, na estação de Bolonha, matou 85 pessoas.

Um dos diretores italianos mais marcados por Pasolini, Marco Tullio Giordana, realizou, em 1995, um admirável filme sobre a morte do cineasta, chamado Pasolini, un delitto italiano. O filme mostra a complexidade do processo, que nunca chegou aos verdadeiros assassinos, contentando-se com a prisão de um jovem de 17 anos que confessou o crime e, anos depois, declarou haver mentido sob pressão dos verdadeiros autores do assassinato.

O mais festejado filme de Giordana, que conta a história dos últimos 40 anos do século XX na Itália, se chama La meglio gioventù, o nome do primeiro livro de poemas de Pasolini. Não é uma coincidência mas uma homenagem de um fã incondicional.

Outro fã, o cineasta Abel Ferrara, que pensa como muitos que Pasolini foi o « último grande intelectual italiano », realizou recentemente um filme no qual o ator Willem Dafoe vive o poeta em seu último dia de vida.

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido: “Vários outros mundos são possíveis”

Maio 9, 2014

O Teatro do Oprimido alia teatro e ação social, prepara o ator com esse viés e busca permanentemente a transformação da realidade através do diálogo.

Léa Maria Aarão Reis

reproduçãoAgora, com a publicação do segundo volume da coleção de trabalhos do célebre teatrólogo Augusto Boal, (1931-2009), criador do Teatro do Oprimido e colaborador frequente de Carta Maior, o Instituto Augusto Boal se volta para a montagem de uma grande exposição sobre seu trabalho, um dos intelectuais brasileiros mais conhecidos internacionalmente, projetada para se iniciar no dia 13 de janeiro de 2015. Nascido no bairro da Penha, no Rio de Janeiro, Boal escreveu a sua biografia intitulada Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas (Cosac Naif) lançada durante uma manifestação na calçada do prédio onde funcionou o Dops carioca, mês passado, por ocasião da descomemoração dos 50 anos do golpe que instaurou a ditadura civil-militar no país. Antes deste segundo volume da coleção que reúne suas obras, no ano passado foi lançado Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. 
 
Em seguida, outros três títulos virão, anuncia a psicanalista Cecilia Boal, viúva do teatrólogo e presidente do Instituto Augusto Boal. Ela comenta: ”Há o costume de sempre se falar mais do aspecto do Boal como teórico e homem político, o que de fato é muito importante. Mas seu texto é belo, pouco conhecido e valorizado. Espero que os livros estimulem a descoberta da qualidade dele de escritor, alguém que sentia prazer imenso em usar as palavras, que gostava de brincar com elas e substituí-las por outras quando burilava um texto.”  A ação, a militância política através da arte – no caso, o teatro – também era “importantíssima, na vida, na cena e nas intervenções que Boal realizava com as técnicas do Teatro do Oprimido,” observa Cecília.
 
Outra tarefa em que o Instituto está empenhado é a conservação do precioso acervo de Boal que se encontra na Faculdade de Letras da UFRJ. São quatro mil itens, textos, fotos, DVDs, programas e cartazes que ainda não estão catalogados, mas podem ser consultados mediante agendamento prévio com o Prof. Eduardo Coelho, de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 
“Concordo,” diz Cecília, “com aqueles que dizem que no Brasil não existem ainda políticas públicas preocupadas com a memória nacional.” Ela chama a atenção para a existência de grandes acervos, grandes coleções e com reservas técnicas adequadas e “também instituições que asseguram o cuidado e a guarda de muitos acervos e coleções. Portanto, seria injusto dizer que não existe nada. Mas é insuficiente. Deveríamos ter uma política pública sistemática de preservação que possa acompanhar essa grande produção nacional artística e intelectual.”
 
Conversando com Carta Maior sobre o assunto, comenta que há muitas famílias tentando cuidar desse tipo de patrimônio, que afinal pertence ao país. “Sozinhas e sem muitas condições. É o meu caso. A UFRJ tem tentado ajudar bastante. Mas ainda falta muito. Agora, através da mostra no CCBB, espero poder avançar um pouco mais no tratamento dos documentos. Através deste acervo se pode acompanhar todo um período da história do Brasil e da história de América Latina, da Revolução dos Cravos em Portugal. Um material que acompanha Boal no percurso do seu exílio.”  
 
Na opinião da presidente do Instituto Augusto Boal, para quem é importante que o acervo permaneça no Brasil (“ele gostaria que fosse assim”) apesar de inúmeros convites para ser enviado para instituições no exterior, já deveria estar disponibilizado na internet, para consulta de todos. “Como Boal era um homem de esquerda, marxista, engajado nos movimentos populares – preso, torturado e depois exilado no estrangeiro -, é difícil eu aceitar ajuda da iniciativa privada. Tenho o cuidado de respeitar a sua memória. O Banco do Brasil é o Banco do Brasil, como o seu nome indica. E o Ministério de Cultura é um ministério do Brasil. É justo e desejável que sejam eles a se ocupar deste acervo. É o dever e a missão deles. Do Banco do Brasil, da Funarte, do MINC e do MEC.”
 
Se os títulos dos livros escritos pelo teatrólogo estavam, até aqui, fora de catálogo no Brasil, o mesmo não ocorreu nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde estão constantemente disponíveis. “Ele está sendo publicado e republicado regularmente lá fora. Estou assinando novos contratos o tempo todo”, comenta Cecília. 
 
Há dois anos, entrevistada por Emir Sader, em Carta Maior, e já naquela época preocupada com o destino do precioso acervo do marido, ela falava sobre o interesse da New York University, onde Boal sempre trabalhou, de ter a guarda desse acervo, para “higienizá-lo, catalogá-lo e colocar uma cópia integral na internet, ou seja, à disposição de todos, em qualquer lugar do mundo e de forma inteiramente gratuita.” Cecília lembrava que nessa biblioteca há o setor Tamiment Library consagrado a autores da esquerda e à historia do sindicalismo no mundo. “Acho que o Boal estaria em excelente companhia neste espaço e seria muito bem tratado. Porém, também acho que as histórias que se originaram no contexto de uma determinada cultura pertencem a ela e é ali que devem continuar.”
 
Já Julián, o filho de Boal, jovem pesquisador do Teatro do Oprimido, se volta para a permanência das experiências do Teatro do Oprimido nos  tempos atuais de “Facebook, de reality shows, de democracias participativas esvaziadas”, como ele diz. “O que o Teatro do Oprimido tenha talvez a oferecer agora seja menos um palanque para os oprimidos, um lugar aonde eles possam se expressar, e mais uma prática com a qual se vê o mundo como um lugar transformável. Se no tempo das ditaduras havia um sentido de falar em participação popular, hoje isso não se dá do mesmo modo”, considera Julián. 
 
Mas a parceria, por exemplo, entre Teatro do Oprimido e o Movimento dos Sem Terra, que dura mais de dez anos, se mantém viva. Ele lembra: ”Foi uma delegação do MST que fez sua primeira formação junto do meu pai dentro do Centro do TO. Atualmente, mais de 30 grupos de TO se encontram dentro do movimento e os exercícios são regularmente utilizados nos encontros.” 
 
Julián fala também de uma cena do Teatro do Oprimido que mostra o confronto entre opressor e oprimido e onde o desfecho se mantém em aberto. “Em tempos de colapsos ecológicos programados é, talvez, um bom exercício tentar enxergar que, como dizia meu pai, ‘vários outros mundos são possíveis”. 
 
Com novas formas, o TO continua com os fundamentos criados por Boal e inspirado nas ideias de Berthold Brecht – arte – e de Paulo Freire – educação. Alia teatro e ação social, prepara o ator com esse viés e busca permanentemente a transformação da realidade através do diálogo.
 

Artistas e intelectuais promovem manifesto por Cinemateca Brasileira

Abril 29, 2013

“A Cinemateca Brasileira, fundada há mais de 60 anos por intelectuais e amantes do cinema, passou ao Governo Federal em 1984. Desde então vem desenvolvendo de forma regular sua vocação de preservar a memória audiovisual, tendo atingido um nível de excelência reconhecido em âmbito nacional e internacional.

Ao longo do tempo, a sua precariedade institucional foi compensada pelo apoio decisivo da SAC – Sociedade Amigos da Cinemateca, criada em 1962, configurando uma parceria público-privado, que se tornou uma das marcas valiosas de seu sucesso.

Nos últimos meses, a Cinemateca vem enfrentando dificuldades que colocam em risco sua missão institucional. A interrupção dos projetos apoiados pela Sociedade Amigos da Cinemateca acarretou a dispensa de mais de 50 trabalhadores, alguns deles com vínculos muito antigos com a Cinemateca. Essa mão de obra, treinada por mais de 20 anos é indispensável para a instituição, não pode ser simplesmente descartada, sob pena de não ser jamais reposta.

Em vista da urgência da situação, vimos apelar à Ministra da Cultura Marta Suplicy para que, independentemente de reformulações que venha a promover na instituição, determine o fim da intervenção da Secretaria do Audiovisual na Cinemateca Brasileira e restabeleça os canais de entendimento com a SAC, visando a retomada imediata dos trabalhos regulares, o reaproveitamento dos quadros qualificados e, em última instância, a preservação da própria integridade da memória audiovisual brasileira.

Abril de 2013.”

Já assinaram o Manifesto:
Antonio Candido – Lygia Fagundes Telles – Affonso Beato – Arrigo Barnabé Benjamim Taubkin – Betty Faria – Bob Stam – Bruno Barreto – Eduardo Escorel Fernando Moraes – Francisco Ramalho Jr. – Hector Babenco – Jean-Claude Bernardet – Jorge Bodansky – Jorge Peregrino – José de Abreu – José Roberto Aguillar – José Roberto Torero – Lauro Escorel – Luiz Carlos Barreto – Mariza Leão – Maureen Bissiliat – Moacir Amâncio – Moacyr Goes – Pedro Farkas – Sara Silveira – Sergio Muniz – Sergio Rezende – Sergio Santeiro – Suzana Amaral Walter Lima Jr – Yael Steiner – Zulmira Ribeiro Tavares

Através da lista do Fórum Nacional de Cineastas:

Alain Fresnot – Ana Maria Magalhães – André Klotzel – André Sturm – Aurélio Michiles – Beto Brant – Cao Hamburger – Carlos Riccelli – Claudio Kahns – David Kullok – Dodô Brandão – Eliana Fonseca – Eunice Gutman – Fernando Meirelles Guilherme de A. Prado – Gustavo Rosa de Moura – Gustavo Steinberg – Helena Solberg – Ícaro Martins – Isa Albuquerque – João Daniel Tikhomiroff – João Jardim – Jorge Alfredo – Jorge Duran – José Carone Júnior – José Joffily – Kiko Goifman – Lucia Murat – Luiz Carlos Lacerda – Luiz Dantas – Luiz Villaça – Mallu Moraes – Marcelo Machado – Marina Person – Matias Mariani – Maurice Capovilla Mauro Farias – Miguel Faria Jr. – Mirela Martinelli – Murilo Salles – Omar Fernandes Aly – Oswaldo Caldeira – Paulo Morelli – Philippe Barcinsky – Renato Ciasca – Ricardo Dias – Ricardo Pinto e Silva – Ricardo Van Steen – Roberto Gervitz – Rodolfo Nanni – Rossana Foglia – Sergio Bloch – Sergio Roizemblit Silvio Da-Rin – Tadeu Jungle – Tata Amaral – Tereza Trautman – Tete Moraes Vera de Figueiredo

E também:

Adrian Cooper, Adriana Rouanet, Aída Marques, Alba Liberato, Alberto Baumstein, Alex Magalhães Vieira, Alexandre Elauiy, Anderson Craveiro, André Carvalheira, Andrea Tonacci, Antonio Urano, Augusto Cezar, Atalia Haim, Bernardo Ferreira, Beth Sá Freire, Bettina Turner, Bruno Barrenha, Carlos Nascimbeni, Cássio Starling, Celina Becker, Cesar Charlone, Cezar Moraes, Chantal Marmor, Chica Mendonça, Chico Liberato, Christain Lessage, Christian Petermann, Claudio Leone, Cosmo Roncon, Cristhine Lucena, Diogo Costa, Eduardo dos Santos Mendes, Elisandro Dalcin, Fernanda Luz, Fernando Duarte, Fernando Fonini, Francisco Costa Júnior, Geraldo Ribeiro, Guido Araújo, Humberto Silva, Idê Lacreta, Ivan Hlebarov, Ivonete Pinto, Jailson Almeida, Jaime Prades, João Horta, João Paulo Maria, João Vargas, José Luiz Sasso, Juliana Motta, Júlio Wainer, Kiko Mollica, Leo Edde, Leonardo Crescente, Liloye Brigitte Boubli, Lito Mendes da Rocha, Louis Robin, Lucas Bettine, Lucila Avelar, Lúcio Kodato, Lúcio Vilar, Luiz Adelmo Manzano, Luiz Fernando Noel, Luiz Leitão de Carvalho, Marcela Lordy, Marcello Bartz, Marcelo Marques, Marcos Botelho Jr., Marcos Santilli, Maria Cristina Amaral, Maria Emília Bender, Maria Elisa Freire, Marilia Alvarez Melo, Marilia Santos, Mario Masetti, Matheus Parizi Carvalho, Natalia Piserni, Ninho Moraes, Patrícia Guimarães, Patrick Tristão Ludgero, Paulo Castilho, Paulo Klein, Paulo Rufino, Paulo Zero, Pedro Vieira, Pedro Gabriel Amadeu, Pedro Lacerda, Pedro Olivotto, Rita Maria Terra, Roberto Faissal Jr., Sergio Trabucco Ponce, Suzana Amado, Suzana Villas-Boas, Tico Utiyama, Umbelimo Brasil, Vânia Debs, Vânia Perazzo Barbosa, Vera Hamburger, Vera Arruda Esteves.

Apoios podem ser dados através do e-mail: assinaturascinemateca@gmail.com

A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto

Fevereiro 23, 2013

O filme palestino ‘5 Broken Cameras’ é um dos indicados ao Oscar de melhor documentário estrangeiro. Mas seu diretor, Emad Burnat, a esposa Soraya e o filho Gibril foram detidos na terça (19) ao desembarcarem no aeroporto de Los Angeles, onde participariam da premiação. Acabaram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório.

Baby Siqueira Abrão para Carta Maior

Emad Burnat, diretor de ‘5 Broken Cameras’ [5 câmeras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor documentário estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Califórnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos – que também participam do filme –, foram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório. Segundo as autoridades de imigração, Emad não tinha em seu poder o “convite apropriado para o Oscar”, seja lá o que isso for.

Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o polêmico documentarista de ‘Tiros em Colombine’, ‘Fahrenheit 11 de setembro’ (filme que questiona a versão oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a detenção a seus 1,4 milhão de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. “Pedi a Emad que repetisse meu nome várias vezes aos oficiais da imigração e que lhes desse meus números de telefone”, disse Moore. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, completou, irônico.

Moore também deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deportação que ameaçava a família Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. “Mas só poderão ficar em Los Angeles uma semana, até o Oscar”, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: “Bem-vindos aos Estados Unidos!”

Para Emad, a detenção não é nenhuma novidade. “Quando se vive sob ocupação militar, sem nenhum direito, esse é um acontecimento diário”, declarou. O filme ‘5 Broken Cameras’ é o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira câmera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil’in, na Cisjordânia sob ocupação militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resistência de Bil’in desde os primeiros dias, foi responsável pelo pós-roteiro de ‘5 Broken Cameras’ e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreensão, pelo público externo, do cotidiano palestino sob ocupação. O título do filme faz referência às cinco câmeras que o exército israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasiões o equipamento salvou a vida do diretor – a câmera deteve a bala atirada na direção da cabeça de Emad.

Cineasta por acaso – e por necessidade

Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupação – para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita violência diante das câmeras –, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, até poucos anos atrás oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o exército conta histórias implausíveis mas levadas a sério, que levaram Emad a filmar.

Ele comprou sua primeira câmera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em família. Mas era impossível limitar-se a temas domésticos numa vida sob ocupação militar. As incursões noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifestações não violentas, as prisões, as invasões dos colonos, a construção do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execução do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil’in e merecia ser registrado.

Essa opinião era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequência à vila palestina e chegou a morar lá por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupação. Guy produziu alguns curtas sobre Bil’in, onde filmou, entre 2005 e 2008, ‘Interrupted streams’ [‘Fluxos interrompidos’], sobre o confisco das fontes de água palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifestações, os ataques dos soldados, as detenções. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.

Foi ao longo desses anos que Emad começou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resistência em Bil’in. Estimulado pela família, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. Só não esperava o sucesso que se seguiu ao lançamento. Cineasta por intuição, Emad ganhou o respeito e a admiração de seus pares ao redor do mundo.

Referência ao Brasil e vários prêmios

Uma das cinco câmeras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, símbolo também presente na porta da casa da família Burnat, em Bil’in – um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso país. Soraya, esposa de Emad, é palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um português impecável e sem sotaque.

‘5 Broken Cameras’ é o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Além de muito elogiado pela crítica, vem tendo uma trajetória de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o ‘Asian Pacific Screen Award’ e ganhou o prêmio de melhor documentário no ‘Jerusalem Film Festival’; o de melhor diretor de documentário no Sundance (também foi indicado para o Grande Prêmio do Júri desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial do Público no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, crítico de ‘The New York Times’, considerou-o uma “comovente e rigorosa obra de arte”.

Ele tem razão. No documentário, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua família com a história da ocupação de Bil’in. É uma história comum à maioria dos milhões de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos – eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem à força, nos anos 1940 – que circundam as 11 cidades da Cisjordânia, compondo as regiões distritais daquela parte do Estado da Palestina.

Com texto de Guy Davidi, e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil’in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medição das terras que seriam confiscadas; as reuniões entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o traçado do muro e se uniu aos bilainenses para boicotá-lo; os primeiros enfrentamentos com o exército israelense; as prisões, a progressão dos desafios e da violência, a consolidação da resistência, o apoio internacional à luta não violenta de Bil’in.

Há cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avanço dos soldados na área urbana da vila com instrumentos de percussão improvisados, numa “bateria” ruidosa e criativa. Há também cenas difíceis, em que Emad se vê obrigado a filmar a prisão dos irmãos e de um vizinho, um menino, e cenas trágicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, até aquele momento um dos líderes da resistência e um dos protagonistas do filme. A sequência é dolorosa, embora o público seja poupado das tomadas mais dramáticas.

O documentário leva o público a participar do cotidiano de Bil’in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupação militar. Trata-se de documento histórico, denúncia viva dos abusos cometidos pelo exército sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses – que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito – surpreende e enternece. Num momento assim não há como deixar de questionar o mal que os sionistas têm feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. Não fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religiões teriam continuado a conviver em harmonia na Palestina histórica. Os inimigos e a discórdia vieram de fora. Será possível neutralizá-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidadãos de Israel, como propõem palestinos e israelenses que defendem a existência de um único Estado, democrático e secular, com direitos iguais para todos?

O impacto nos jovens de Israel

É difícil responder a essa indagação sem levar em conta as alianças do sionismo e seu papel decisivo nas finanças internacionais, na indústria bélica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estratégicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. É ele que cuida do caixa, do lucro, da produção e do roteiro do espetáculo. Por isso, o combate não se restringe à ação dos sionistas na Palestina. Eles se espalham cada vez mais, controlando governos, territórios e ramos de atividades nos cinco continentes.

Mas é em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. Lá, o sistema educacional garante apoio e submissão aos princípios sionistas nesta e nas futuras gerações. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a infância, que os palestinos são “árabes que vivem em território israelense” – e inimigos. A maior parte dos livros didáticos faz pouca referência à Palestina – nos mapas, por exemplo, Cisjordânia e Gaza são mostradas como território de Israel – e a sua história. A grande maioria dos jovens israelenses não sabe que seu país ocupa outro, e tem de seu exército uma visão heroica e romântica, fabricada pela propaganda sionista.

Contribui para essa ilusão um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde são expostos equipamentos de guerra, que as crianças podem experimentar, e veículos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da família e diante das explicações de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa indústria da violência funciona, assista ao vídeo produzido pelo israelense Itamar Rose: http://youtu.be/Qp67KehlVGU.

Não é de admirar, portanto, que as crianças de Israel desenvolvam a ideia de que a solução de seus problemas – ou daquilo que lhes é ensinado como “problema” – passa pela via militar. Foi para desfazer essa crença que Guy Davidi decidiu mostrar ‘5 Broken Cameras’ a um grupo de jovens em Israel e filmar suas reações. Suas expressões, durante a exibição do documentário, dizem muito sobre a revelação de como é a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consternação, revolta, compaixão.

Diante dessa experiência, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar ‘5 Broken Cameras’ ao público israelense em sessões que permitam reflexões e debates sobre a ocupação, a violência imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidadãos dos dois lados do muro, o próprio muro, o questionamento ao papel do exército e à ideologia dos soldados – que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, têm dos palestinos e dos árabes uma imagem deturpada, assimilada em uma existência inteira de educação dirigida e controlada. Conheça a surpreendente experiência de Guy Davidi com os jovens israelenses: http://youtu.be/i1wEszQYEzg.

Será que a arte pode promover compreensão e tolerância, aproximando duas populações separadas pela agenda bélica e expansionista das autoridades sionistas? Será que a mudança necessária pode começar da base de ambas as sociedades, as únicas instâncias portadoras de legitimidade para isso? É uma aposta ousada, a dos diretores de ‘5 Broken Cameras’. Aguardemos os resultados.

A violação dos direitos humanos nos filmes

Fevereiro 15, 2013

Existem normas de conduta, mesmo em conflitos armados, que devem ser respeitadas. É mais do que preocupante quando se fazem filmes nos quais se justificam essas violações dos códigos de conduta, que esses comportamentos não sejam denunciados. Filmes como o mais recente sobre Bin Laden são uma tentativa de idealizar a capacidade dos chamados serviços de segurança do establishment estadunidense para conseguir o que desejam, seja onde e como for. 

Vicenç Navarro* – Sistema Digital para Portal Carta Maior

A captura e morte do inimigo nº 1 dos Estados Unidos, Osama Bin Laden, deu origem a uma série de filmes sobre a tal operação militar que provavelmente terão um grande êxito de público não só nos EUA, como também em outros países que viveram atemorizados pelo terrorismo praticado pelas forças políticas lideradas por esse personagem. Esses filmes são uma tentativa de idealizar a capacidade dos chamados serviços de segurança do establishment estadunidense para conseguir o que desejam, seja onde e como for.

Independentemente das simpatias ou antipatias que alguém possa ter com esse tipo de filmes, todas as pessoas que respeitam os Direitos Humanos deveriam concordar com a necessidade de denunciar comportamentos – como a tortura – que aparecem em muitos desses filmes. Em um destes filmes de maior público sobre a captura e morte de Osama Bin Laden, se justifica e inclusive se aplaude a tortura daqueles elementos da força terrorista que, segundo filme, deram informação valiosíssima para sua localização.

Esta promoção da tortura gerou um protesto que foi mais além dos círculos intelectuais de base acadêmica que tendem a monopolizar a temática dos Direitos Humanos. Mesmo vozes conservadoras dentro do Congresso dos EUA, como o senador John McCain, candidato à presidência do país nas eleições de 2008 pelo Partido Republicano, denunciaram esse elogio à tortura que alguns destes filmes representam. Na verdade, nenhuma das informações da campanha de captura de Bin Laden consideradas válidas foi obtida por meio de tortura. Muito pelo contrário. Esse tipo de informação – falsa em sua maioria – criou uma grande confusão, atrasando a operação. Especialistas em temas de informação e comunicação do próprio governo dos EUA atestaram isso.

Mas o que provocou maior protesto entre a comunidade científica e acadêmica, e que não teve visibilidade nos meios de maior difusão espanhóis, foi a utilização das campanhas de saúde pública para obter informações (que ocorreu na busca e captura de Bin Laden). A partir da publicação de alguns dos detalhes dessa operação, se descobriu que as agências responsáveis por ela utilizaram supostas campanhas de vacinação da população para obter dados sobre o DNA de crianças e jovens em áreas onde se suspeitava que Bin Laden vivia, a fim de localizar sua casa, onde residia com familiares.

A obtenção de dados para fins militares ou policiais, utilizando como instrumentos campanhas de saúde pública, compromete todas essas campanhas, que passam a ser percebidas como objetivos militares pelo inimigo. O conhecimento de tais práticas teve um impacto negativo imediato, incluindo o assassinato de oito trabalhadores dos serviços de vacinação das Nações Unidas no Paquistão, que estavam realizando programas de vacinação reais e não fictícios como os realizados no mesmo país por aquelas agências dos EUA. Várias associações e ONGs de ajuda humanitária, que incluíam programas de saúde pública, tiveram que abandonar aquele país, temerosos que as forças próximas à Al Qaeda as considerassem instrumentos dos serviços de inteligência do governo dos EUA.

Os decanos das doze escolas de saúde pública mais importantes dos EUA escreveram uma carta de protesto ao presidente Obama por utilizar os serviços sanitários e de saúde pública como instrumentos das agências de inteligência do governo. Tal como indicam esses cientistas, os serviços de saúde pública devem ser considerados como instrumentos única e exclusivamente orientados para a saúde e devem não apenas sê-lo, mas também serem percebidos como tais. Qualquer variação disso provoca um dano imenso a todos os serviços de saúde. Existem normas de conduta, mesmo em conflitos armados, que devem ser respeitadas. É mais do que preocupante quando se fazem filmes nos quais se justificam essas violações dos códigos de conduta, que esses comportamentos não sejam denunciados.

*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer