Archive for the ‘Musica Popular Brasileira’ Category

Chico Buarque aos 73 anos.

Junho 20, 2017

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BLOGS AFINSOPHIA E ESQUIZOFIA ENTREVISTAM BELCHIOR JÁ QUE “SEMPRE É DIA DE IRONIA NO MEU CORAÇÃO”

Maio 2, 2017

Os Blogs Afinsophia e Esquizofia, da Associação Filosofia Itinerante (AFIN), publicam a entrevista, alegria como aumento de potência de agir, com o Rapaz Latino-Americano Belchior.

BREVE APRESENTAÇÃO

Antônio Carlos Gomes Belchior Fonteneles Fernandes – cearense da simpática cidade de Sobral -, gostaríamos de fazer um acordo com você nessa entrevista trans-histórica, na névoa inassinalável, ou hecceidade. O acordo é o seguinte: como nós vamos recorrer as nossas faculdades memorativas, além de informações extraídas de nossa arqueologia do saber-Belchior, é possível que venhamos cometer alguns equívocos em relação a fatos aqui apresentados por nós atribuídos a personagens em relação a você. Se por acaso você perceber que algumas enunciações nossas são lendas ou mitos, queira nos corrigir. Certo?

Belchior você é da geração que “por força desse destino um tango argentino” pegava “bem melhor” que “uns blues”. A ditadura civil-militar que dominou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Você, como muitos brasileiros, por força da ditadura, não teve adolescência, e se quer pode vivenciar as fragrâncias de maio de 68. Enquanto a França, e grande parte da Europa explodia, produzindo linhas de cortes, fissuras através das potências dos trabalhadores e estudantes. Ao contrário, em 68, o Brasil era submetido à força do AI5, implantado pelos militares da repressão-nacional. Foi o ano que começou para valer as perseguições, prisões, sequestros, torturas e mortes.

Todavia, arigó Belchior, você já havia sido traspassado pelas enunciações políticas, estéticas, filosóficas, antropológicas, históricas, psiquiátricas, etc., e podia com clareza entender as notas desterritorializadas de Sartre, Marcuse, Foucault, Deleuze, Guattari, Simone Beauvoir, entre outros que se movimentavam em latitudes e longitudes capazes de lhe afetar spinozianamente: aumentar sua potência de agir. Já havia sido afetado pela potência da comunalidade em forma de erudição. Erudição que levou certa vez Caetano chamar de cultura inútil. Sem falar que você já havia encontrado Marx, Cristo, aliás, o Homem de Nazaré foi quem primeiro lhe encontrou, daí sua vida de noviço, depois rebelde (Gargalhadas), quem sabe a influência a posteriori para criar o projeto de tradução do latim A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Musicólogo roqueiro, corpo que lhe moveu com “os pés cansados e feridos de andar léguas tiranas, a ponto de lhe deixar “com lágrimas nos olhos de ler o Pessoa, e ver o verde da cana”, compôs com as baladas de Bob Dylan, composição que levou o compositor do Maracatu Atômico, George Mautner, a afirmar que entre o original e a cópia preferia o original. Declaração que confirmava que sua entrada no mercado musical brasileiro já estava incomodando. Claro, você como sobralense nunca negou que ouvira muito as baladas de Dylan. E, aliás, quem daquela época, não ouviu? Quem, preocupado com a Napalm lançada pelos Estados Unidos no Vietnã, não ouviu Dylan? E não só Dylan, como também Neil Young, entre outros cantores e compositores de opunham a ferocidade genocida do império. Você sempre foi um homem engajado. Mas um cara que não fazia gênero de rebelde sendo um puta burguês, como seu conterrâneo Fagner. Poucas sabem, mas você participou, convidado pela talentosíssima atriz de teatro Lélia Abramo, no lançamento do primeiro manifesto do Partido dos Trabalhadores, em 1981. O que confirma que suas baladas são politizadas não por dependência de Dylan. Como invejavam seus detratores. E para piorar – para eles, é claro -, você foi parceiro do companheiro Lula na luta pela redemocratização do Brasil. ão do Brasil.

Mesmo só com a adolescência biológica, já havia traçado o compromisso, com Bertolt Brecht, de não deixar seu “charuto apagar-se por causa da amargura”, mostrado na canção Não Leve Flores. Daí que sua obra, apesar de manter alguns elementos regionais, melhor dizendo, nordestinos, foi na “Selva das Cidades”, empurrado pelo teatrólogo da Exceção e a Regrar, que você fez movimentar sua arte como forma de afetar o corpus da urbe atomizada. Como você mesmo diz: “se não for para balançar o coreto, não adiante fazer arte”.

E balança. Belchior, você instituiu no país a música urbana inspirada e alocada no concreto das cidades como corpo da poesia concreta. Você verseja concretamente. A poesia concreta é seu território de práxis e poieses. “Vamos andar, pelas ruas de São Paulo, por entre os carros de São Paulo, meu amor vamos andar e passear. Vamos sair pela rua da consolação, dormir no parque em plena quarta-feira. Sonhar com o domingo em nosso coração. Meu amor, meu amor, meu: a eletricidade dessa cidade me dá vontade de gritar que apaixonado eu sou. Nesse cimento, o meu pensamento e meu sentimento espera o momento de fugir no disco voador. Meu amor, meu amor”, nada de sentimentalidade compassiva, do tipo Roberto Carlos, nesse Passeio do seu primeiro LP, Mote Glose, pela gravadora Chantecler, com a regência do talentoso músico pernambucano Marcus Vinícius, do PCBão, um disco profundamente experimental, onde salta livre a poesia concreta.

Dizem que você canta a liberdade, claro que é uma afirmação abstrata, já que a liberdade não se canta se vive, mas nos diga: nessa tão concreta e cruel realidade produzida pelo capitalismo paranoico com sua dogmática opressora, você é um “passarinho urbano”, ou um “Robô Goliardo” (Gargalhada geral)?

A ENTREVISTA

AFINSOPHIA E ESQUIZOFIA – Começando pelo meio. O que é melhor? Viver, sonhar ou um canto?

Belchior (Sorrindo cúmplice) – “Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa, mas sei também que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa”.

AE – Nesse momento em o Brasil encontra-se sob o cutelo de um perverso golpe contra a democracia, você tem alguma paixão?

B – “Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantado com uma nova invenção, eu vou ficar nessa cidade, não vou voltar pro sertão, pois vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação”.

AE – Verdade? Maravilha! Belchior, você é uma cara que viveu as décadas de 60, 70, não teve adolescência no sentido ontologicamente-social, por força da ditadura, mesmo assim conseguiu construir uma das mais inquietantes estéticas do Brasil, todavia, muitas pessoas não conhecem essa obra. E entre essas pessoas têm os nazifascistas. Se por um acaso algumas dessas pessoas, como uma variável-política, perguntasse de você, por onde você andava nesse tempo, o que você responderia?

B (Pensativo) – “Amigo, eu me desesperava!”.

AE – Você tem estilo. Não estilo no conceito burguês, mas como diz o filósofo Deleuze, você cria em sua singularidade como ninguém poderia criar de forma igual. Por isso você faz corte no estado de coisa petrificado. Você libera potências. Como você responderia se alguém pedisse para você compor de outra forma?

B – “Não me peça que eu lhe face uma canção como se deve correta, branca, suave, muito limpa, muito leve, sons palavras são navalhas, e eu não posso falar como convém sem querer ferir ninguém”.

AE (Vibrando) – Cacete! Esse cara é foda, moçada. Ainda nessa linha. Não precisa nem dizer, mas você tem Nietsche e Spinoza na veia: você é exaltação da “vida que ativa o pensamento e o pensamento que afirma a vida”. Até quando se encontra “mais angustiado que um goleiro na hora do gol”. A onda é essa: se um pessimista, um compassivo, uma baixa potência de agir, lhe dissesse que queria lhe ajudar, o que você diria para ele?

B (Gargalhando) – “Saia do meu caminho! Eu prefiro andar sozinho! Deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”.

AE (Explodindo de emoção) – Coisa de louco, moçada! “Você pode até dizer que eu estou por fora e que até estou inventando”, mas para o nosso entendimento, há uma confissão aí nesse “não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”. O sol nasce no Leste, até Galileu já sabia. E o Leste europeu tem Marx, mano. Não precisa responder.

B (Interferindo) – “É claro que eu quero o clarão da lua! É claro que eu quero o branco no preto! Preciso, precisamos da verdade nua e crua, mas não vou remendar vosso soneto. Batuco um canto concreto pra balançar o coreto…”.

AE (Tentando uns movimentos afros) – Grande saída, hein cara? Ok, baby! Diz uma coisa cara. Já viu que há muita gente pessimista diante do desgoverno golpista acreditando que ele será eterno. O que você diz para essa gente?

B – “Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer meu amigo, que uma nova mudança, em breve vai acontecer”.

AE (Palmas) – É o devir-povo! Dando uma deslocada. O que você quer agora?

B (Sorrindo) – “Quero uma balada nova, falando de broto, de coisas assim: de money, de lua de ti e de mim, um cara tão sentimental…”.

AE – Você estudou medicina até o quarto ano, lógico que deve ter entrado em contato com algumas noções freudianas. Freud diz que é muito difícil uma geração se libertar da anterior. Há sempre fantasmas. Vendo o mundo como se encontra, qual a sua maior dor?

B – “Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo, tudo, o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

AE – Bel, aproveitando essa questão de continuar o mesmo, tem também aquela questão dos que pousaram como revolucionários, e hoje são tremendos reaças, inclusive muitos operando como golpistas, como é o caso do senador do PSDB, Aloysio Nunes que foi motorista do Marighella. Você poderia descrever para nossos seguidores quem são esses simuladores e nos dizer quem são eles?

B (Dando uma boa baforada no cachimbo) – “Os filhos de Bob Dylan, clientes da Coca-Cola: os que fugimos da escola, voltamos todos pra casa. Um queria mandar brasa; outro ser pedra que rola… Daí o money entra em cena e arrasa e adeus caras bons de bola”.

AE – Esse cara vai na ferida dos caras, mas não confundir com “a ferida viva do meu coração”, não é? O quê? Ainda tem mais? Então, manda brasa.

B (Continuando) – “Donde estás los estudiantes? Os rapazes latino-americanos? Os aventureiros, os anarquistas, os artistas, os sem-destino, os rebeldes experimentadores, os benditos malditos – os renegados – os sonhadores? Esperávamos os alquimistas…  E lá vem os arrivistas, consumistas, mercadores. Minas, homens não há mais? Entre o céu e a terra não há mais que sex, drugs and rock ‘n’roll? Por que o adeus às armas? Não perguntes por quem os sinos sobram… Eles dobram por ti! O último a sair apague a luz azul do aeroporto. E ainda que mal pergunte: a saída será mesmo o aeroporto?”.

AE (Vibrando) – Loucura, moçada! O quê? Ainda tem mais? Manda brasa, arigó!

B – “Onde anda o tipo afoito que em 1-9-6-8 queria tomar o poder? Hoje, rei da vaselina, correu de carrão pra China, só toma mesmo aspirina e já não quer nem saber”.

AE –Loucura, loucura, loucura! Ainda agora você disse que “uma nova mudança vai acontecer”. Qual a forma para essa mudança?

B – “A única forma que pode ser nova é nenhuma regra ter; é nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer. Nunca reverenciar”.

AE – A noite tem para você um signo profundo?

B – “Anoite fria me ensinou a amar mais o meu dia. E, pela dor eu descobri o poder da alegria e a certeza de que tenho coisas novas pra dizer”.

AE – Você é nordestino, e como você sabe, há hoje no Brasil uma consciência nazifascista que discrimina violentamente o povo do Nordeste. Como você concebe esse comportamento genocida contra o Nordeste?

 B (Sorrindo) – “Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve! Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: conheço o meu lugar”.

AE – E o medo de avião?

B (Balançando a cabeça sorrindo) – “Agora ficou fácil. Todo mundo compreende aquele toque Beatles: – “I WANNA HOLD YOUR HAND!”.

AE – E aquela namorada e aquele teu melhor amigo?

B – “Minha namorada voltou para o norte, ficou quase louca e arranjou um emprego muito bom, meu melhor amigo foi atropelado voltando pra casa. Caso comum de trânsito”.

AE – Os filósofos Epicuro, Spinoza, Nietzsche dizem quase o mesmo sobre falar sobre a morte. É claro que ninguém pode falar sobre a morte, porque é a última experiência e a única que não se pode contar nada sobre ela. Eles dizem que falar sobre a morte enquanto se está vivo é imundo. Mas vamos conceder uma cortesia sobre esse tema. Como você cogita sua morte?

B (Sorrindo) – “Talvez eu morra jovem: alguma curva do caminho, algum punhal de amor traído completará o meu destino”.

AE – Belchior você é uma cara corajoso. Sua obra e sua existência comprovam sua coragem. Mas nos responda: você tem Medo?

B – “Eu tenho medo. E medo anda por fora, medo anda por dentro do meu coração. Eu tenho medo em que chegue a hora em que eu precise entrar no avião. Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão. Apertar o botão: cidade morta. Placa torta indicando a contramão”.

AE – O que você pode nos dizer sobre a sorte na vida?

B – “Coisa muito complicada o amigo tem ou não tem. Quem não tem sucesso ou grana tem que ter sorte bastante para escapar salvo e são das balas de quem lhe quer bem”.

AE – Temer, o golpista-mor junto com sua escória, vem desmontando as leis democráticas do país. Porém, ele tem, com ajuda da mídia capitalista também golpista, feito pronunciamentos como se tudo estivesse às mil maravilhas. Como você concebe o presente e estes pronunciamentos?

B – Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca. Não há motivo para festa: ora esta! Eu não sei rir à toa!”.

AE – Você como pintor e desenhista pode nos apresentar um quadro da família-nuclear-burguesa-patriarcal?

B – “No centro da sala, diante da mesa no fundo do prato, comida e tristeza, a gente se olha se toca e se cala e se desentende no instante em que fala. Medo, medo, medo, medo. Cada um guarda mais o seu segredo a sua mão fechada, a sua boca aberta, o seu peito deserto, a sua mão parada, lacrada e selada e molhada de medo. Pai na cabeceira…”.

AE – Essa família lhe concedeu um prêmio no começo de 70, certo? Contam que na noite que você recebeu o prêmio os canas deram uma chegada em você, certo (Belchior sorrir)? Se alguém tentasse lhe obrigar a parar de cantar, o que você diria?

B – “E eu vos direi, no entanto”: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer Não! Eu canto”.

AE – O que você diz sobre a vida?

B (Com ar apaixonado) – “Eu escolhi a vida como minha namorada com quem vou brincar de amor a noite inteira. Vida, eu quero me queimar no teu fogo sincero. Espero que a aurora chegue logo. Vida, eu não aceito não a tua paz, porque meu coração é delinquente e juvenil, suicida, sensível demais. Vida, minha adolescente companheira, a vertigem, o abismo me atrai: é esta minha brincadeira”.

AE – Observando sua temporalidade ontológica como você concebe sua existência?

B (Pensativo) – “Até parece que foi ontem minha mocidade, meu diploma de sofrer de outra universidade, minha fala nordestina, quero esquecer o francês. E vou viver as novas que também são boas o amor/humor das praças cheias de pessoas, agora eu quero tudo, tudo outra vez”.   

AE (Afetados de alegria) – Chegado a esse platô, você gostaria de desejar algo às pessoas?

B (Muito contente) – “Quero desejar, antes do fim, pra mim e os meus amigos, muito amor e tudo mais: que fiquem sempre jovens e tenham as mãos limpas e aprendam o delírio com coisas reais”.

AE – Belchior, nós trouxemos alguns instrumentos, você aceitaria terminar a entrevista cantando uma de suas músicas que tocam diretamente ao momento atual do golpe que estanca o Brasil. Como somos seus fãs de carteirinhas, nós até poderíamos fazer o backing vocal. Mote e Glosa? Vamos nessa! Aí, moçada, acessante do Afinsophia e Esquizofia, um abração e beijos. Logo, logo estaremos novamente com Belchior “balançando o coreto”. Não é. Belchior (Ele balança a cabeça gargalhando)?

“é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo

é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo

é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo

é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo é o novo

passarim no ninho

(tudo envelheceu)

cobra no buraco

(palavra morreu)

você que é muito vivo

me diga qual é o novo

me diga qual é o novo

me diga qual é o novo

                            novo

                            novo

                            novo

me diga qual é o novo

me diga qual é

me diga qual é o novo

me diga qual é

me diga qual é o novo

me diga qual é”.

Obs: Embora Belchior tenha musicalizado várias letras de outros companheiros seus,  como por exemplo, Jorge Melo, Fausto Nilo, Francisco Casaverde, Gracco, até com o reacionário coxinha Fagner, entretanto, a maioria das letras aqui expostas são de sua autoria.

A BELEZA DE GONZAGUINHA, ETERNO APRENDIZ

Outubro 14, 2015

image_largeOlha, esquizofílico! Uma matéria estética/musical/jornalística em intensidade revolucionária: A Beleza de Gonzaguinha, Eterno Aprendiz. Um trabalho do jornalista Danilo Di Giorgi com exclusividade para a Rede Brasil Atual.

Um trabalho que mostra a pulsão-desejo em forma de compositor, cantor, companheiro e coletivo. Gonzaguinha é expressão e o conteúdo da música como estética da liberdade. O desejo que fazia a ditadura tremer e acionar todos os seus tacões repressores, visto que a função básica de toda ditadura é vedar todas as fendas por onde podem vasar linhas de fuga de desejos construtores de liberdades.

Uma frustração para o poder organizado como repressor, já que Gonzaguinha é moleque. O moleque que todo tirano-escravo tem pavor. O moleque, vida ativa, oposto  do reativo. O que diz não a vida.

Leiamos a matéria estética/musical/jornalística

Cantor e compositor carioca, de personalidade enigmática, ficou conhecido pela originalidade, autenticidade e por não fazer questão de agradar nem público nem crítica.

por Danilo Di Giorgi

Zangado, divertido. Amargo, amoroso. Mal-humorado, brincalhão, fechado, delicado, antipático. Adjetivos tão díspares ainda hoje são citados para definir uma das mais enigmáticas personalidades da MPB: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, que teria completado 70 anos em setembro. O cantor e compositor carioca criou canções poderosas que marcaram os anos 1970 e 1980, daquelas que todo mundo sabe cantar quando lembradas em uma roda de violão. Algumas celebrizadas em vozes como as de Maria Bethânia (Grito de Alerta, Explode Coração), outras imortalizadas por ele próprio (É, Com a Perna no Mundo, Sangrando, O Que é, O Que é, Começaria Tudo Outra Vez).

Mas, afinal, quem era aquela figura mirrada, com seus 56 quilos distribuídos em 1,76 metro de altura, morta prematuramente em um acidente automobilístico aos 45 anos? Ainda que fosse autor de canções ásperas, comoPiada Infeliz e Erva, como imaginar “azedo” o autor de odes à alegria, como A Felicidade Bate à sua Porta eFeijão Maravilha, sucessos em versões dançantes de As Frenéticas?

“Para saber do Gonzaga você precisa ouvir seus amigos mais próximos. Esses vão falar da pessoa maravilhosa que ele era, brincalhão, bem-humorado, uma pessoa boníssima, que sempre ajudava os outros”, defende a viúva Louise Margarete Martins, a Lelete, casada com o artista de 1980 até o acidente fatídico.

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“Era uma mala sem alça e sem rodinha”, brinca, carinhoso, o filho Daniel Gonzaga. O compositor e cantor Daniel e a cantora Fernanda Gonzaga são seus filhos mais velhos, do primeiro casamento. “Ele era muito autêntico, verdadeiro e transparente. É engraçado que as pessoas sempre buscam clareza e autenticidade, mas quando encontram se assustam”, diz Fernanda, prestes a finalizar a gravação de uma série de inéditas do pai. Lelete concorda: “As pessoas têm medo de conviver com a verdade, e ele era muito verdadeiro, não criava situações folclóricas pelo fato de ser famoso. Hoje ele se daria melhor com aquele jeitão dele”, afirma. “O ser artista compreende muitas vezes estar do lado oposto do público. Mas meu pai sempre teve uma política diferente. Ele não se distanciava do povo, ele gostava de estar perto do povo. Isso fazia ele estar em qualquer lugar e ser a pessoa Gonzaguinha”, diz Daniel.

A jornalista Regina Echeverria conheceu o músico em 1979, ano em que o artista se consolidava sucesso nacional. Regina havia sido escalada para fazer uma reportagem para uma revista semanal. E nasceu uma amizade que resultou na biografia Gonzaguinha e Gonzagão – Uma História Brasileira, publicada somente em 2012. “Cheguei na casa de shows para a entrevista e pediram para esperar. Vi uma pessoa que parecia ser ele no meio dos trabalhadores carregando caixas, e fiquei em dúvida se aquela pessoa simples era mesmo a grande estrela da MPB”, relata a jornalista. “Era uma figura única, detestava dar autógrafo, achava um absurdo a pessoa querer levar um papel assinado. Mas não negava simplesmente o autógrafo, ficava ali conversando com o fã, explicando que valia mais a pena conversar um pouco e levar um pouco da pessoa dele. Ele era meio doutrinador”, conta, aos risos.

Paternidade

É certo que Luiz Gonzaga Júnior nasceu em 1945 no Rio de Janeiro. E que sua mãe se chamava Odaléia Guedes dos Santos, cantora da boate Dancing Brasil. E que ela e Gonzagão, este ainda em início de carreira, apaixonaram-se e tiveram um relacionamento amoroso. É de conhecimento também que Odaléia morreu de tuberculose quando o menino tinha 2 anos. A partir desse ponto, as versões divergem. Muitos afirmam que Odaléia já estava grávida quando conheceu aquele que viria a ser o Rei do Baião; outros sustentam que o filho é de Gonzagão. “Sempre houve desconfiança em relação à paternidade biológica. E eu não tinha nenhuma prova concreta, já que os dois, em vida, não quiseram fazer o teste de DNA”, afirma a biógrafa.

Gonzagão separou-se de Odaléia logo depois do nascimento do menino. Depois viveu com Helena Cavalcanti até o final de seus dias e não teve com ela filhos biológicos. Lelete acredita que a infertilidade não seria problema de Gonzagão e sim de Helena, que nunca aceitou Gonzaguinha. A madrasta teria inventado ou estimulado a versão que ficou para a história para prejudicar a relação entre pai e filho.

lado_esquerdo_peito_foto_Jorge_Gontijo_EM_D_A_Press“Seria estranho que um nordestino tradicional e conservador como meu sogro colocasse seu nome em um filho que não era seu, você não acha? Eu tenho certeza de que o Gonzaga era filho biológico do Gonzagão”, afirma Lelete, lembrando que sua filha Mariana é a cara do avô. “Ele fez uma música para a neta, e sempre falava que a boca dela tinha o mesmo formato e a mesma cor da boca dele”, diz. O fato é que Gonzaguinha cresceu longe do pai – por conta da morte da mãe, da rejeição da madrasta e das turnês em que Gonzagão passava longos períodos longe. “Imagina a situação dele, crescendo no morro, por vezes com restrições materiais e longe do pai. Ninguém acreditava quando ele falava que era filho do Rei do Baião. Ele teve motivos para colocar uma parede entre ele o mundo. Mas por trás dessa parede havia essa pessoa maravilhosa e muito sensível”, diz Regina Echeverria.

Com seus pais adotivos Leopoldina de Castro Xavier e Henrique Xavier (o Baiano do Violão), o menino cresceu no Morro de São Carlos, uma das mais antigas favelas cariocas e um dos berços do samba, onde foi fundada a primeira escola de samba da cidade, a Deixa Falar. Nomes como Luiz Melodia, Ângela Maria, Grande Otelo, Madame Satã e Aldir Blanc têm sua história ligada ao morro. Baiano do Violão tocava na Rádio Tamoio e foi quem ensinou ao filho adotivo os primeiros acordes.

Gonzagão era pouco presente. “De tempos em tempos ele vinha me visitar, ia me levar pra comprar uma roupa. Geralmente aparecia e eu não estava em casa”, disse Gonzaguinha em uma entrevista de 1979. Quando tinha 16 anos, apesar dos desentendimentos com a madrasta, resolveu mudar para a casa do pai, na Ilha do Governador. “Ele não acreditava em mim pela minha formação, não tinha domínio sobre mim, temia que eu não virasse boa coisa.” O filho vivia trancado no quarto com o violão, não respeitava a rotina da casa nem interagia com a família. Discussões eram comuns e o rapaz não tinha medo de se expressar. O pai acabou levando o jovem para um colégio interno.

Não se sabe ao certo por que Gonzaguinha resolveu estudar Economia, se por desejo pessoal ou insistência do pai, que fazia questão que o filho tivesse “anel no dedo”. Ingressou em 1967 na Faculdade Cândido Mendes e nessa época a divergência entre ele e o pai chegou ao campo da política. Ele se engajou em movimentos estudantis contra o golpe de 1964, mas Gonzagão tinha visão conservadora. “Meu sogro tinha fotos do Geisel e do Médici na parede de casa. Era a referência que ele tinha de política do sertão, onde as coisas eram diferentes”, afirma Lelete.

As diferenças só vieram a ser resolvidas no início dos anos 1980, com a turnê Vida de Viajante, que percorreu o Brasil por quase um ano com os dois lado a lado no palco. “Esse reencontro com o pai foi maravilhoso para ele. Ele se tornou uma pessoa menos zangada, mais alegre, mais feliz, perdeu aquele hermetismo, se abriu para o mundo. O pai finalmente o reconheceu como um grande músico. Era o que ele queria”, conta o amigo íntimo, o cantor e compositor Ivan Lins. “Compusemos Debruçado nas escadas da casa da Rua Jaceguai. Aliás, eu fui o único com quem ele fez parceria. Isso era em parte pelo jeito dele, mais reservado, mas também porque ele era muito bom tanto na composição quanto nas letras, escrevia extraordinariamente bem”, diz Ivan, padrinho de Daniel.

Do MAU

A casa da Rua Jaceguai era a residência do psiquiatra Aluízio Porto Carrero, na Tijuca, berço do Movimento Artístico Universitário (MAU). Aluízio fora instrumentista do Cassino da Urca e gostava de reunir amigos para conversas, jogos de cartas e rodas de violão. Entre os presentes sempre estavam Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio e César Costa Filho. Servia-se durante os encontros, com concha de sopa, uma lendária batida de maracujá preparada dentro de uma grande panela. Os violões passavam de mão em mão e as pessoas cantavam em coro. Foi lá que Gonzaguinha conheceu Ângela, sua primeira mulher e filha de Aluízio.

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“Éramos um grupo com pretensões de romper as barreiras do mercado de trabalho, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém”, diz Ivan Lins. O MAU acabaria sugado pela TV Globo, que em 1971 lançava o programa Som Livre Exportação, o que provocou desentendimentos entre os membros do grupo. Em 1973, Gonzaguinha participou do programa de Flávio Cavalcanti, apresentando a músicaComportamento Geral. Os jurados ficaram apavorados com a letra: “Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado/ São palavras que ainda te deixam dizer por ser homem bem disciplinado/ Deve pois só fazer pelo bem da Nação tudo aquilo o que for ordenado”.

O evento o projetou e chamou atenção da censura. Das 72 canções apresentadas aos censores antes de gravar seu primeiro disco, 54 foram barradas. Sua postura pouco dócil aos olhos dos meios de comunicação custaram-lhe naquele início de carreira o apelido de “cantor rancor”. Com a abertura política na segunda metade dos anos 1970, começou a modificar o discurso e a compor canções mais profundas e menos políticas. Em 1975, dispensou empresários e se tornou artista independente. Em 1986 criou o selo Moleque, pelo qual chegou a lançar dois discos.

Gonzaguinha passou os últimos 12 anos de vida colecionando sucessos e vivendo de forma tranquila com a família em Belo Horizonte. O músico dedicava-se a pesquisar novos sons e raramente passava longos períodos longe de casa. O acidente que tirou sua vida aconteceu na manhã do dia 29 de abril de 1991. Gonzaguinha seguia a Foz do Iguaçu (PR), de onde tomaria um avião com destino a Florianópolis. Um ano e meio antes, em agosto de 1989, havia partido Gonzagão, aos 76 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

“Eu acho que estou aprendendo aos poucos. Eu espero que agora eu agrida menos as pessoas do que há alguns anos. Quanto menos eu agredir as pessoas no futuro, para mim é melhor. Eu ainda tenho muita coisa pra aprender, devagar e tal. Mas um dia, quem sabe, eu chego lá. Eu tenho paciência pra aprender.” Essa declaração, feita pelo artista em dezembro de 1990, talvez responda à questão apresentada no início deste texto: Gonzaguinha era apenas autêntico e verdadeiro, em busca permanente e sincera de se tornar um homem e um artista melhor a cada dia. Como a vida devia ser.

MY NAME IS NOW, DOCUMENTÁRIO SOBRE A VIDA E CARREIRA DA CANTORA ELZA SOARES

Julho 23, 2015

images_cms-image-000447093Homenageada na edição do Latinidades – Festival da Mulher Afro-Americana e Caribenha, a cantora Elza Sores tem sua vida e carreira artística mostrada no documentário My Name Is Now, Meu Nome É Agora no momento em que inicia apresentação de seu novo show A Voz da Máquina.

Para falar de sua vida e carreira a talentosa respeitada cantora, ex-companheira do craque internacional, Garrincha, concedeu entrevista as jornalistas Juliana Cézar Nunes e Mara Régia da Rádio Nacional que faz parte da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).

“Percebi o racismo com porta batendo na minha cara. Não tinha rede social. Aí você se pergunta: mas por que bateram a porta na minha cara? Não fiz nada. Fez sim. Você nasceu negra. E é assim”, testemunhou a prática da discriminação racial que no Brasil é secular.

EBC – O que representa pra você cantar em Brasília e ser homenageada pelo Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha? Elza Soares – Agradeço muito por estar em Brasília, parece que estou vivendo aqui. Comecei a vir a Brasília desde o início da cidade. Tenho muito a ver com essa terra. E ser homenageada pelo festival de mulheres negras é um coroamento. Ainda mais para quem veio do planeta fome em um país tão rico. Quando a gente participa de uma coisa tão importante, uma coisa que é você, sua cara, sua vida, realmente coroa você. Me sinto orgulhosa de participar e estar presente.

EBC – Como tem sido a sua busca por novos ritmos e sonoridades expressas nos seus shows? Elza – Tem sido muito fácil. Como my name is now, eu sou o agora, eu estou por dentro e gosto muito de fazer esse trabalho. É uma maneira também de levar compositores para essa juventude que não conhece a música brasileira. Até outubro teremos CD novo, feito por compositores de São Paulo, com o título Mulher do Fim do Mundo. Gosto desses desafios.

EBC – O festival também exibe um documentário sobre a sua vida. Como foi essa experiência? Elza – Foi uma experiência muito boa. Fui buscar uma diretora mulher – a Elizabete Martins Campos. Muito melhor falar de mulher para mulher. Ela te entende melhor. O cinema brasileiro precisa de mais arte e menos tapete brasileiro.

EBC – Você acha que a televisão brasileira retrata de forma adequada as mulheres negras? Elza – Quase não tem negro no país, né? Na televisão não aparece. Tá faltando mulher negra na televisão, programa de mulheres negras, mais mulheres negras falando. Mulher negra quando entra na novela vai fazer novela de época pra chamar nhá, nhó, sinhozinho. Não vejo mulher negra na televisão. É brabo isso.

EBC – Como você vê a situação da mulher negra hoje no país? Elza – Temos avanços muito lentos ainda. O dia-a-dia ainda é nosso maior desafio. É de uma ignorância tão grande, uma estupidez ter que desafiar a cor. Dizem que tem política pública de combate ao racismo e a gente tenta acreditar nisso. Mas na sociedade vejo tudo muito encubado, por trás da cortina, por debaixo da mesa.

EBC – O caso da jornalista Maria Júlia Coutinho – a Maju, da TV Globo, que sofreu racismo nas redes sociais – é revelador desse preconceito? Elza – Sim. É uma coisa que conheço demais. Não precisava ter redes sociais, internet. Percebi o racismo com porta batendo na minha cara. Não tinha rede social. Aí você se pergunta, mas por que bateram a porta na minha cara? Não fiz nada. Fez, sim. Você nasceu negra. E é assim.

EBC – Como você busca enfrentar esse preconceito no cenário da música, das gravadoras? Elza – Hoje eu me articulo bem porque eu me imponho, e quando você se impõe você é bem recebida. Tem que saber onde pisa, a hora que pisa, como fala, com quem fala, é por aí. A vida foi feita nesse sentido. Se impondo, se posicionando, aí você chega bem.

EBC – O que te motiva a subir nos palcos e qual a música do seu ‘agora’? Elza – A vida dá motivação pra tudo. O que me motiva é ela, meus filhos, meus amigos e as pessoas que acreditam em mim. São muitas as músicas da minha vida. Mas a música do meu ‘agora’ é A Carne. A carne mais barata do mercado é a carne negra. Que vai de graça pro presídio. E para debaixo do plástico. Que vai de graça pro subemprego. E pros hospitais psiquiátricos. A carne mais barata do mercado é a carne negra. Que fez e faz história. Segurando esse país no braço.

INEZITA BARROSO ELEVA SUA VIOLA À CAOSMOSE SONORA

Março 10, 2015

2ab2309e-97c9-46d5-870c-8506f4737f64Sábado passado esse blog Afinsophia.com publicou um texto em homenagem sincera a compositora, cantora, atriz e apresentadora de televisão Inezita Barroso, por seus ilustríssimos 90 anos de insignes criações. Hoje, o blog se permite encadear movimentações outras com Inezita. Só que em sua elevação sonora na dimensão-estética da caosmose-poieticamente sonora.

Para encadear mais corpos no processo caosmótico-sonoro Inezita, vamos publicar esse vídeo que você poderá compor com ela.

Bons movimentos! O que importa é que continua valendo Inezita Barroso!

INEZITA BARROSO AOS 90 ANOS NÃO COLOCA A “VIOLA MINHA VIOLA” NO SACO

Março 6, 2015

e468bbe0-520b-4d7e-94c5-a14d5342f165Há alguns meses passados, Ignês Magdalena Aranha de Lima, para todos Inezita Barroso, foi “imortalizada” pela Academia Paulista de Letras. Não necessitava. Ela já é imortal enquanto viva sem precisar de qualquer entidade promotora de vaidades e bocejos. Ela, por si só, é simplesmente a simplicidade-ativa que não se espreguiça nos louros-mofentos do reconhecimento vazio.

Inezita Barroso, no dia 4, completou 90 anos. Alguns dirão: ‘Puxa vida, não sei se chegarei lá!’ Atrás vem a interrogativa ontológica: “De que adianta chegar ‘lá’ descompromissado com a existência, apenas completando tabela por ter sido parido?” Inezita Barroso não tem 90 anos, porque a arte não é tempo divisível, pesado e contado. Arte é devir-contínuo. Arte, em questão de tempo, é intempestiva.

Por tal, Inezita não guardou a “Viola Minha Viola” no saco e se recolheu aos aposentos das lembranças-imagens nostálgicas, refúgio dos que trapacearam com a existência. Infelizmente a maioria que muito antes dos 90 fica esperando o desfecho final da corporeidade.

Sua verve natural revelada como música caipira, não produção alienante como sertanejo universiotário, tem os elementos vibráteis responsáveis por sua disposição ao encontro-estético de sua música. Nela a terra respira, transpira e inspira a alegria da vida.

A não aceitação de instrumentos ditos modernos, como guitarra e órgão-elétrico, em seu programa é uma demonstração e afirmação de sua vocação-caipira. Para ela a lógica é: caipira é caipira, urbano é urbano. Ainda mais quando o urbano é urbanoide do tipo que transborda nos programas de televisão-brutalidade. Ou, propagadores da ‘brutitude’.

Não há como não perceber que se Inezita é essa realidade radiante de viver é porque teve uma infância livre, criativa e solidária, como já foi afirmado algumas vezes por ela. Foi essa infância que a fez pisar no chão e mantê-los até os dias de hoje comprometido com o cheiro da terra, da terra molhada pela chuva, o cheiro das frutas, frutos. E porque não dizer, o cheiro do estrume dos animais. A ambiência caipira que cria e inspira o a gente da terra.

Ai, Inezita! Seu canto flui no canto dos cantos que se movimentam na terra.

Veja e ouça o vídeo com a música Marvada Pinga.

PARA A TV GLOBO “VALE O QUE VIER” E NÃO TIM MAIA VALE TUDO

Janeiro 6, 2015

375022A TV Globo sempre foi uma emissora de massa que soube explorar os afetos tristes de alguns expectadores inativos. Ou cativos. Ou sem fala. Não se satisfazendo com o crime de ser uma emissora criada com capital estrangeiro e ainda ter apoiado a ditadura civil-militar que tomou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985, fatores ignóbeis para uma moral social, prima pela manutenção da dor como seu drive antecomunicacional. Daí manter uma grade de programação voltada para a manutenção e estímulo aos afetos tristes.

Roberto Carlos é um daqueles personagens que caiu muito bem nos planos-tristes da emissora dos Marinhos. Não é por acaso que ele há mais de quarenta anos embala o peru do espectador deprimido. Apesar de que cada ano que passa, o peru vá perdendo suas últimas pregas com audiência sofrível, como ocorreu com o triste Roberto Carlos do último Natal.

Como Roberto Carlos é um produto de massa-produtiva da TV Globo, ela recorre a todos expedientes para defendê-lo, visto que sua derrocada é, para ela, sua própria derrocada. Daí, Roberto Carlos ser guardado pela emissora que apoiou a ditadura.  

Ocorre, porém, que o cineasta Mauro Lima produziu o filme Tim Maia – Vale Tudo, um dos grandes sucessos da filmografia brasileira no ano de 2014. Baseado no livro Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Mais. O filme se aproxima da pessoa de Tim de forma clara e honesta, mostrando sua inigualável capacidade criadora e social. Um trabalho em que Mauro Lima mostrou sua honestidade com o personagem que escolheu para homenagear por sua obra e sua condição existencial.

Já é do conhecimento até das pedras que não rolam, por isso criam limo, que no início da carreira de Roberto Carlos ele precisou muito de Tim, mas que depois que se tornou rei da juventude alienada passou a desprezar o bom, e alegre Tim. Rola uma onda que certa vez quando Tim se encontrava na pior, foi procurar Roberto Carlos, acreditando que iria rolar uma força. Qual o quê! A força que o rei da juventude, ídolo dos e éramos todos mortos, deu foi um par de botas surradas, com números diferentes. Tim sorriu e entendeu qual era –é – a do apaniguado da RV Globo.

Agora, a televisão dos Marinhos iniciou a exibição de uma minissérie Tim Maia – Vale o Que Vier, sobre o bom Tim, baseada no filme de Mauro Lima. E como era de se esperar, a emissora que apoiou a ditadura e conspira contra os governos populares de Lula e Dilma, excluiu a parte do filme que mostra o alegre Tim expondo a figura real do rei da depressão. Tim conta o quanto o rei do éramos todos mortos lhe sacaneou. Um quadro que os Marinhos não iam de forma nenhuma exibir. Seria como ser iconoclasta de seu próprio ídolo.

6369803414e013b672f925653f625e738a31212dMauro Lima não compactuou com a sabotagem de sua obra e pediu que o público não assista a engabelação. Ou melhor: a produção mendaz. Mentirosa e falsa.    

“Sugiro que não assistam essa versão na Globo. Trata-se de um subproduto que não escrevi daquele modo, não dirigi ou editei”, afirmou Mauro Lima.

Tomando a enunciação do bom, Tim, no contexto em que ele se mostrou artista  apesar da homofobia expressada no começo da música que oferece o nome ao filme quando Tim canta “só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher”, para a TV Globo sempre foi assim: “Vale o que vier”.    

PARA QUEM ACREDITA QUE PREMIAÇÃO CONFIRMA TALENTO E IMPORTÂNCIA, VEJAM ALGUMAS DAS PREMIAÇÕES DE MARCUS PEREIRA

Agosto 7, 2014

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Como já é notório, Marcus Pereira, é uma personagem de ilustríssima importância na subjetividade criativa da estética musical brasileira. Por tal, ele teve seu trabalho de produtor musical e lançador de inegáveis talentos no Brasil que prescindia de reconhecimento, como premiações por sua obra engajada.capa 003

Entretanto, já que foi reconhecida pela crítica, não há nada de péssimo em aceitá-la. Como diz o dito popular, o popular tão abençoado por ele, os prêmios não tiram pedaços, assim como, também, não põem. Talvez, ponham em alguns que se tomam por críticos sem sê-los e ao avaliar seu trabalho sejam tomados como sensíveis e de inteligência acima da doxa. A opinião comum.capa 004

O certo mesmo, é que esse Viva o Vinil, apresenta algumas das premiações de Marcus Pereira durante alguns anos. A relação dessas bolachas crioulas premiadas foi distribuída, na década de 70, como encartes de alguns discos lançados pela Marcus Pereira. Observem, vinilesquizofílicos, a quantidade, mas não fiquem pasmos, pois trata-se de um trabalho de alguém comprometido politicamente com a cultura brasileira.capa 005

Aproveitem o passeio-esquizo! É joia-raríssima! Relíquia de causar inveja em quem é invejoso. Um paradoxo: quem vibra com o Viva o Vinil, não tem inveja. Aprecia o que os outros gostam e cultuam com amor e ternura. Que é o caso de todo vinilesquizofílico.

LECI BRANDÃO SEMPRE BRILHANTE: “NÃO SOMOS TODOS MACACOS. SOMOS NEGROS”

Maio 3, 2014

A compositora, cantora, ativista e deputada do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Leci Brandão, completou, na comemoração do 1° de Maio, seus 30 anos de participação. Em meio à alegria promovida pelas centrais sindicais – com exceção à Força Sindical que fez campanha para os direitistas Aécio e Eduardo Campos -, Leci, entre um “Zé do Caroço” e outros cantos, pode conceber um exame sobre a estupidez propagada pelo marketing do dublê de jogador de futebol, Neimar, e figuras congêneres do alcunhado mundo das celebridades anêmicas dos meios de comunicação de massa alienada.

Dona Leci se mostrou racionalmente contrária ao marketing dos reduzidos cognitivo, genético, antropológico e, principalmente, político-social que aproveitaram a banana comida pelo jogador de futebol Daniel Alves, para proferirem o disparate, “Somos Todos Macacos”. Dona Leci, do horizonte de sua inteligência, mandou sua palavra de ordem-política: “Não Somos Todos Macacos. Somo Negros”. E ainda contestou a falsa preocupação, dos propagadores da moral burguesa, com a agressão aos negros lembrando que não viu ninguém com camisas com referências aos assassinatos de jovens negros das periferias. Filosoficamente politizou o tema nazifascista que está sendo tratado imbecilmente. Ou melhor, fez o passeio transmutante do esquizo ante a imobilidade paranoica.

Fala, Dona Leci!

“A gente quer que as secretarias de segurança pública, especialmente a de São Paulo, entendam que a policia é para defender o cidadão, para nos proteger da insegurança. Não é cor da pele, a etnia, que dá o carimbo de bandidagem.

Foi um momento no campo, correto. Mas outras pessoas se aproveitaram. Não somos todos macacos. Somos negros. Não vi ninguém com uma camisa dizendo que é contra o genocídio da juventude, que somos todos Cláudia*, MC Daleste**, somos todos Sabotage***.

É fundamental incentivar as pessoas a entender a importância das centrais sindicais. As conquistas só acontecem porque existem os sindicatos.

Foram muitos anos de exclusão. A gente está conseguindo mudanças significativas. Eu quero muito que continue. Eles já tiveram todo o tempo. Agora é a nossa vez”, disse politicamente a artista-engajada, Leci Brandão.

*A trabalhadora, moradora da favela, que foi morta arrastada pelo carro da polícia do Rio de Janeiro.

**Compositor e cantor assassinado em 2013.

***Cantor assassinado em 2003.

AGNALDO TIMÓTEO ENFRENTA A DITADURA COM AS FERAS DA MPB – VIVA O VINIL!

Abril 3, 2014

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“Desde de 15 anos, continuo buscando a fórmula mágica para me identificar com as pessoas românticas e sensíveis.

Neste novo L.P. acredito que tenha dado mais um passo a frente na minha carreira, pois consegui reunir mais alguns ilustres Companheiros”.

O cantor e compositor Agnaldo Timóteo é daqueles artistas em que a crítica estabelecida tem dificuldade de indicar qual é o seu público-particular. Alguns dizem que ele canta para os sentimentais – todos nós somos sentimentais porque temos sentimentos -, outros dizem que ele canta para os românticos – todos nós somos românticos, temos herança romancista -, mais outros dizem que ele canta para os recalcados-nostálgicos – todos nós, segundo Freud, somos recalcados -, e mais, mais outros dizem que ele canta para os desiludidos – todos nós somos desiludidos, exemplo simples, quando o time que torcemos perde -. O certo mesmo é que os críticos estabelecidos são impotentes para indicar seu público-particular.

ÂNGELA SAPOTI E TIMÓTEO

Um dia sua madrinha, Ângela Maria, ele era motorista da Sapoti, disse: “Menino, que voz tu tens! Por que tu não te tornas cantor?” Não deu outra: lá foi Timóteo gravar. Gravou música nacional, versões italianas, francesas, inglesas, o escambau. Se apresentou em shows, em clubes, arraiais, feiras, em TVs, “galeria do amor”, o cacete. Mas durante a década de 70, a década de maior repressão imposta pela ditadura civil-militar, não se teve notícia de qual era a posição de Timóteo. Os ‘patrulhadores’ ficavam putos por não saberem qual era a do crioulo-mineiro. Só sabiam que ele embalava, com suas músicas, como Roberto Carlos, os sonhos e bocejos matinais, vespertinos e noturnos da classe média alienada. Nada mais. Timóteo era um alienado-cantor do frisson-glamouriouso, diziam.

TIMÓTEO E AS FERAS

Mas eis que em 1980, Timóteo, surpreende todos caluniadores com uma guinada de quase 360 graus: enfrenta a ditadura com as feras da MPB e grava pela EMI-ODEON, o L.P. Companheiros. A crítica estabelecida e a dita intelectual não entendeu nada. “Como que um cantor-cafona grava Gonzaguinha, César Camargo Marinho. É o fim do mundo, meu! Ou o fim da ditadura!”. Bradou a crítica recalcada, como diz o teatrólogo Zé Celso. Pode ser o fim de tudo, meu, mas o certo é que Timóteo não gravou só Gonzaguinha, gravou também Taiguara, Carlos Dafé, Abel Silva, Fagner – hoje personagem triste do decadente frenesi da TV GLOBO e um dos amigos dileto do conservador, Aécio Neves – entre outros, acompanhado por nada menos do que os ilustres músicos Pareschi, Paschoal Perrota, Nathércia, José Alves Pissarenko.

Penteado, Maria Léa Ana Maria Stephany, Jaime Araujo, Heraldo, Paulo César, Jamil, Luiz Avellar, Cleudir, Picolé, entre outras feras.

P1000300Hoje, quando se comemora 50 anos de ditadura – Comemorar ditadura? É um horror! Comemoração pelas lutas libertárias que não morreram diante da opressão, seu otário! -, observando o L.P. Companheiros, do cantor com público heterogêneo, pode-se afirmar que essa é uma obra com expressão antiditadura. Depois Timóteo encontrou Brizola, brizolou, foi um dos grandes entusiasta da eleição de Lula, tornou-se vereador. E depois…

Bom, é isso aí, Companheiros! Viva o Vinil!