Archive for the ‘Poesia’ Category

TRÊS POEMINHAS DE PROUST TOCANDO DE LEVE EM TRÊS MÚSICOS

Dezembro 12, 2015

em-busca-do-tempo-perdidoNão somos nós deste Esquizofia quem comenta a originalidade e singularidade do romancista, poeta, contista e crítico, autor do revolucionário Em Busca do Tempo Perdido, que afetou filósofos como Sartre, Deleuze, Guattari entre outros, Marcel Proust, mas ninguém menos que outro eminente poeta e escritor André Gide.

Escreve André Gide sobre o “desconcertante” Proust.

“A escrita de Proust é… a mais genial que conheço. Procuro suas qualidades predominantes e não consigo encontra-las; ela não tem esta ou aquela qualidade: tem todas… Tão desconcertante é a sua destreza que todo e qualquer outro estilo perto do seu parece afetado, desbotado, impreciso, sumário, inanimado”.

Marcel_Proust_1900

                                            MOZART

Italiana de braço com um Príncipe da Baviera

Cujo olhar tristonho e frio se encanta com seu langor

Em seus jardins friorentos aperta ao coração

Os duros seios na sombra, a apalpar a luz.

 

Sua terna alma alemã – suspiro tão profundo! –

Goza enfim a ardente preguiça de ser amada,

Ele confia às mãos frágeis demais para retê-la

A luzente esperança de sua fronte encantada.

 

Querubim, Don Juan! Longe do ouvido que fana,

De pé entre os aromas, tanto pisa as flores

Que o vento dispersou sem lhes secar o pranto

Dos jardins andaluzes às tumbas da Toscana!

 

No parque alemão onde o tédio bruma,

A italiana ainda é rainha da noite.

Seu hálito faz o ar suave e espiritual

E sua Flauta mágica escoa, amorosa,

Na sombra ainda quente dos deuses de um dia,

O frescor dos sorvetes, dos beijos e do céu.

Marcel Proust

                               CHOPIN

Chopin, mar de suspiros, lágrimas, soluços

Que um vôo de borboletas cruza sem pousar

Brincando com a tristeza ou dançando sobre as ondas.

Ama, sonha, sofre, grita, acalma, encanta ou embala,

Fazes sempre escorrer entre cada dor

O olvido vertiginoso e doce do teu capricho

Como as borboletas voam de flor em flor;

E então de tua mágoa é cúmplice a alegria:

O ardor do turbilhão aumenta a sede de prantos.

Pálido, suave companheiro da lua e das águas,

Príncipe do desespero ou fidalgo traído,

Tu te exaltas ainda, mais belo em seres pálidos,

Com o sol que inunda o teu quarto de doente

Que lhe chora a sorrir e sofre de o ver

Sorrir de pena e das lágrimas da Esperança!

Photo-by-Otto

                                 SCHUMANN

Do velho jardim, cuja amizade te embalou,

Ouves rapazes e ninhos que assobiam nas sebes,

Namorados exaustos de tantas chagas e etapas.

Schumann, soldado sonhador que a guerra desiludiu,

 

A brisa feliz, onde passam pombos, impregna

do aroma do jasmim a sombra da grande nogueira,

a criança lê o futuro na chama da lareira,

nuvem ou vento falam-te ao coração das tumbas.

 

Outrora teu pranto corria ao grito de carnaval

Ou sua doçura à vitória amarga se mesclava

Cujo ímpeto louco freme-te ainda na memória;

Podes chorar sem fim: ela pertence a teu rival.

 

Em Colônia o Reno rola as águas sagradas.

Ah! Como te cantavam alegremente os dias

De festa nas margens! – Mas, cheio de mágoa,

                                                        (dormes…

Chovem prantos nas trevas iluminadas.

 

Sonha onde a morte vive, onde a ingrata possui tua fé,

Tuas esperanças florescem, o crime dela é pó…

Depois o clarão pungente do acordar, onde o raio

Te fere de novo pela primeira vez.

Corre, perfuma, desfila com tambores ou bela

Sejas! Schumann, ó confidente de almas e flores,

Rio santo de dores invade o teu cais alegre,

Pensativo jardim amigo, viçoso e fiel

Onde se beijam lírios, lua e andorinha,

Exército em marcha, criança que sonha, mulher em

                                                                      (pranto!

Esses três poeminhas foram extraídos da obra de Marcel Proust Os Prazeres e os Dias, publicada com a novela inédita, O Indiferente, em 1983, pela Editora Nova Fronteira.

TRÊS POEMINHAS DE RIMBAUD TOCANDO DE LEVE NAS INQUITAÇÕES DO AMOR

Dezembro 5, 2015

RimbaudEm 1879 Delahaide perguntou a Rimbaud: “E a literatura?” E ele respondeu: ”Não penso mais nisso”. Analisando o breve diálogo revelador, o poeta Manuela Bandeira disse: “Era um homem de ação, de aventura. A poesia foi um simples momento de ação e aventura em sua vida, enquanto não se atirou à grande aventura da vida”.

Nascido a 20 de outubro de 1854, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, em Charleville, nas Ardenas, ele foi realmente um homem que escapou dos moldes do poeta comportado, mesmo com verve apolínea breve. Criou pouca poesia, comparado com sua prosa. Ateu, traficante de armas, preocupado com as aventuras comerciais, enviscou-se pelos meandros da lírica revolucionário. O seu drive criador do verso livre.

Leitor de Rabelais, Saint-Simon, Badeuf, Rousseau, Helvetius, Vitor Hugo em 1872 lançou a obra Uma Temporada no Inferno para em 1874 produzir, na Inglaterra, os poemas em prosa, Iluminações, ambos publicados juntos agora.

Desta forma, os três poeminhas em prosa aqui publicado são da obra Iluminações.

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                                     UMA RAZÃO

Um toque de teu dedo no tambor desencadeia todos

Os sons e dá início à nova harmonia.

      Um passo teu recruta os novos homens, e os põe em

marcha.

       Tua cabeça avança: o novo amor! Tua cabeça recua,

– o novo amor!

         “Muda nossos destinos, passa ao crivo as calamidades, a começar pelo tempo”, cantam estas crianças,

diante de ti. “Semeia não importa onde a substância de nossas fortunas e desejos, pedem-te”.

            Chegada de sempre, que irás por toda parte.

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                                    PARTIDA

     Visto demais. A visão foi reencontrada em todos os

ares.

      Possuído demais. Rumores das cidades, à noite, e

ao sol, e sempre.

       Conhecido demais. As paradas da vida.

 – Ó Rumore e Visões!

     Partida na afeição e no ruído novos!

Rimbaud1871

                             DEMOCRACIA

     “A bandeira tremula na paisagem imunda, e nossa

gíria abafa o tambor.

     “Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição.

Massacraremos as revoltas lógicas.

      “Aos países inundados e que cheiram a pimenta!

– a serviço das mais monstruosas explorações industriais

ou militares.

      “Adeus aqui, não importa onde, Recrutas da boa

vontade, teremos a filosofia feroz; ignorantes para com

a ciência, extenuados para o conforto; e que este mundo

rebente! É a verdadeira marcha. Para a frente, a caminho!”

Estes três poeminhas foram extraídos da obra de Rimbaud, Uma Temporada no Inferno e Iluminações; publicado em 1982 pela Editora Francisco Alves que teve a tradução singular do poeta Lêdo Ivo, com direito a orelha escrita pelo não menos magnífico poeta Manuel Bandeira.

TRÊS POEMINHAS DO FILÓSOFO HEIDEGGER TOCANDO DE LEVE NAS QUESTÕES DO SER

Novembro 28, 2015

martin-heidegger-2O filósofo alemão Martin Heidegger autor de várias obras filosóficas, entre elas o bem conceituado Ser e Tempo, que serviu de base de estudo de outros filósofos, faz parte do contexto de filósofos conhecidos como existencialistas ou filósofos das existências.

A questão fundamental de seu pensamento é a busca da revelação do Ser resumido no sentido do Dasein, o Ser-Aí, experiência como Verdade do Ser. Ou ainda o Mit-Dasein: o Ser-Aí-Com. Mas a perscrutação de sua filosofia como método é a fenomenologia. Daí que é fenomenologicamente re-vigorado o sentido de Alétheia – o velado e o não-revelado, o que aparece e o que se oculta.

Na tentativa da revelação do Ser, Heidegger, perscruta a linguagem pela linguagem. Fazer o Ser falar ou se mostrar pela linguagem. O que significa ir além da linguagem. Rachar as palavras para que elas revelem o que tem de essencial como princípio ontológico do Ser.

Assim, é a linguagem como método ontológico, que leva Heidegger ao tratado metafísico do poetizar.

Os poemas aqui apresentados não têm títulos. Os títulos aparecem apenas como indicação topológica escolhida por esse Esquizofia.

 Martin-Heidegger-2 (1)                                 CANTAR E PENSAR…

Cantar e pensar são os troncos

                         vizinhos do pensar

Eles crescem do Ser e alcançam sua

                                          verdade.

A sua relação dá a pensar o que

                                          Hölderlin

Canta das árvores da floresta:

“E desconhecidos uns aos outros eles

                                                  Ficam,

o tempo que eles permanecem em pé,

                          os troncos vizinhos.”

 Martin Heidegger                  PENSAR PROFUNDAMENTE

Toda coragem do coração é a

              Ressonância ao apelo do Ser,

que reúne nosso pensar no jogo do mundo.

No pensar cada coisa torna-se

                               Solitária e lenta.

Na paciência prospera a

                                 magnitude.

Quem pensa profundamente, deve

                     Profundamente errar.

 heidegger6               TOPOLOGIA DO SER

O caráter poiético do pensar é ainda

                                               oculto.

Onde ele se mostra, assemelha-se por

                                                   Muito

tempo à utopia de um meio-poético

                                  entendimento.

Mas o poetar pensante é na verdade

                           a topologia do Ser.

Ela diz a este o lugar de sua essência.

Os três poeminhas foram extraídos da obra Da Experiência do Pensar, publicado em 1969 pela Editora Globo.

TRÊS POEMINHAS DE DOM PEDRO CASALDÁLIGA TOCANDO DE LEVE NO COMPROMISSO DO HOMEM

Novembro 14, 2015

casaldliga_640Então, fica combinado, esquizopoetafílico: Dom Pedro Casaldáliga se apresenta para os esquizóficos. Ele sabe mais dele do que nós. Apesar de que seus princípios também nos afetam como mulheres, homens, crianças, jovens e idosos, porque somos Vida poetizante da liberdade de Ser.

“Este livro nasceu retirante. Como a maior parte dos moradores deste meu norte do Mato Grosso, onde eu, retirante também de muitas supostas pátrias, sou bispo; onde escrevi – às vezes gritando – quase todos estes poemas.

O feixe dessas canções, agitado como tarrafa viva, só poderia ser uma Antologia Retirante”. 

dom_pedro_casaldaliga_ana_helena_tavares1_qtmd_0                           POBREZA EVANGÉLICA

Não ter nada.

Não levar nada.

Não poder nada.

Não pedir nada. E, de passagem,

não matar nada;

não calar nada.

Somente o Evangelho como uma faca afiada.

E o pranto e o riso no olhar.

E a mão estendida e apertada.

E a vida, a cavalo, dada.

 

E este sol e estes rios e esta terra comprada.

como testemunha da Revolução já estalada.

 

E mais nada.
DOM-PEDRO-CASALDÁLAGA-e1354026973695                               DESCOBERTA

E chegarei de noite,

com o feliz espanto

de ver

por fim

que andei,

dia após dia,

 sobre a própria palma de Tua Mão.

hqdefault                       EQUÍVOCOS

Onde tu dizes lei,

eu digo Deus.

Onde tu dizes justiça, paz, amor,

eu digo Deus!

 

Onde tu dizes Deus,

eu digo liberdade,

justiça,

amor!

“Todo homem é um ser-em-terra-estranha-ainda, e por isso retirante”.

Estes três poeminhas foram extraídos do livro Antologia Retirante, publicado pela Editora Civilização Brasileira, no ano de 1978.

TRÊS POEMINHAS DE MARCUS PEREIRA TOCANDO DE LEVE NAS “INCONFIDÊNCIAS”

Novembro 7, 2015

2014-768310060-79-2497-03.jpg_20141219É sabido até pelas pedras que não rolam, por isso criam limos, que Marcus Pereira é um insigne produtor musical e que lançou, através de seu selo-musical Discos Marcus Pereira, talentosos compositores e cantores como Chico Maranhão, Cartola, Marcus Vinicius, entre outros. Mas o que é pouco sabido é que ele também é poeta.

Marcus Pereira, o poeta, é que vai, por esse talento, nos apresentar três poeminhas de sua poética “Inconfidências”, publicada no ano de 1977 pela Editora Hucitec. Trata-se de uma obra histórica no universo dionisíaco e apolíneo brasileiro.

Se na produção dos discos de compositores e cantores revelados por si, Marcus Pereira recorreu à sofreguidão criativa de Dionísio, na criação de seus poemas é visível à formalidade-estética de Apolo. Porém, há em cada poema seu, o misto dionisíaco e apolíneo. Em alguns momentos, é Dionísio quem transpira. Em outros é Apolo quem inspira.

Leiamos os três poeminha!

  SENHA

Tome da brisa a parte mais perfeita

– a que ondula a penugem dos pássaros.

Tome do amor a breve circunstância

em que, da coragem de ousar, se guarda o frêmito.

Tome da lágrima o silêncio que ela quebra.

Tome do medo a paz que vem depois.

Tome do riso o que ele tem por trás.

E o que faltar agora,

Você já pode achar.

             (São Paulo, 1971)

marcus_pereira

                                          ADEUS

O mar, debruçado no horizonte,

Entregou o navio em que eu parti

Ao nada que fica dele adiante

E engole a ele, a mim e a ti.

 

Depois – é só lembrança da partida,

Agora – é só olhar e não ver nada

E a lágrima de há pouco é esquecida

Porque o adeus não espera a madrugada.

               (São Paulo, 1967)

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                                CONVALESCENTE

Minha durabilidade comprometida

Eis-me.

Tornei-me de repente, precário

Como um punhado de espuma.

Por isso o vento me dispersa.

Não tenho nenhuma energia:

Nem a que produz os movimentos

Nem a que produz brados ou apelos.

Restam-me os gemidos

Porque condoem.

Resta-me também a certeza

De que me tornei

Solúvel.  

                         (São Paulo, 1975)

“Pois Marcus Pereira é um desses híbridos, ou mestiços, às vezes perfeito, às vezes negligente, mas cheio de sensibilidade, de lirismo e quase sempre com grande talento”.

Escreveu seu amigo, Paulo Duarte, no prefácio de sua obra poética.

POETA QUE COMBATE O RACISMO, GUSTAVO GOMES, DE 11 ANOS, É PREMIADO E LANÇA SEU LIVRO

Novembro 5, 2015

78171ddc-0bf6-4156-801d-50d7e4309b5fToda criança como devir-criança se expande no mundo de forma poiética. Movimenta-se sempre em um contínuo criativo. É sua ludicidade-dionisíaca-apolínea em atuação formando o novo. O não visto, o revelador. É a criança-devir estética-filosófica.

Entretanto, logo seus percursos singulares e originais são obstruídos, molarizados pelas intervenções paranoicas dos adultos. Quase sempre seus pais, que não fizeram a crítica de suas existências e como sujeitos-sujeitados aceitam ser nada mais do um objeto-ecolálico da subjetividade dominante saída da imagem dogmátoica do Estado opressor.

Pronto! A criança-devir capturada é empurrada para ser mais um marcador de poder reverberando uma linguagem que é mais para obedecer e ser obedecido do que se comunicar. O discurso indireto da subjetividade dominadora.

Pronto! Não tão pronto! Há crianças que inventam percursos que lhes colocam salvas da laminação paranoica. Algumas delas auxiliadas pelos pais, vizinhos, educadores que realizaram a crítica da subjetividade dominante e não aceitaram seus pressupostos. Outras, de certa foram, escapam por sua própria vontade de saber, diriam os filósofos Foucault/Nietzsche.

Gustavo Gomes, de 11 anos, escapou da laminação perversa, em aliança com seus pais. Gustavo Gomes, como um poetizante, aquele que observa o movimento do mundo e usa a linguagem liberada para falar além das palavras estabelecida, viu os enunciados e as práticas nocivas à convivência democrática como a prática do racismo e denunciou. Assim, como outras práticas nocivas à democracia.

Como poetizante, Gustavo Gomes, escreveu um livro de poesia Meu Universo e recebeu o Prêmio Cidadão São Paulo, “Catraca Livre”, categoria infantil.

“Eu era um garoto negro, baixinho, com cabelo duro. Era muito zoado e sofria com apelidos.

É como se homem tivesse decidido parar de evoluir. Porque a humanidade foi descobrindo várias coisas, diversas tecnologias, descobriu como é que se faz o avião, como se faz uma televisão, como se faz praticamente tudo, como se cura doenças, e ainda não consegue entender que as pessoas são iguais por dentro. Então, não tem porque discriminar”, comentou Gustavo Gomes em entrevista a repórter Caroline Campos, da TVT.

Como alguém que faz a crítica do mundo em que se encontra Gustavo Gomes, afirma o seu ser político de menino. Ou criança-devir.  

UMA CELEBRAÇÃO POÉTICA DO DIA QUE TRANSCORRE: “UM CADÁVER DE POETA”, ÁLVARES DE AZEVEDO

Novembro 2, 2015

163729-050-67471CEAParque serve a poesia? Ela não serve. Ela não funcionalista ou pragmática. A poesia não serve, porque ela flui como indicação desterritorializante. Vejamos o poema Um Cadáver de Poeta, Álvares de Azevedo que pega muito bem nesse dia em que se celebra o dia dos mortos.

A morte celebrada se desterritorializa muito mais quando se trata da morte de um poeta celebrada por outro poeta. Álvares de Azevedo, o Byron do romantismo brasileiro, autor do conhecidíssimo “Se Eu Morresse Amanhã”, teve 21 anos para se movimento no fluxo do Parnaso entre o néctar e as brumas da poiese.

Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver!

Tu não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!

L. UHLAND

I

De tanta inspiração e tanta vida,
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto…
O que resta? — uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava…
— Resta um poeta morto!
 
Morrer! E resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões! no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome… sem um leito!
Em treva e solidão!
 
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita…
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
 
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou…
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!…
 

II

Morreu um trovador! morreu de fome…
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso;
E o morto parecia adormecido.
 
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele… No seu peito
Não havia colar nem bolsa d’oiro:
Tinha até seu punhal um férreo punho…
Pobretão! não valia a sepultura…
 
Todos o viram e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!… nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa…
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta?… um pobre louco
Que leva os dias a sonhar?… insano
Amante de utopias e virtudes
E, num templo sem Deus, ainda crente?
 
A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro… Que doUdos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes — bravo! à inspiração divina…
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos…
Quando é gelada a fronte sonhadora
Por que há de o vivo, que despreza rimas,
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvaziar por um misérrimo,
Quando a emprega melhor em lodo e vício? …
E que venham aí falar-me em Tasso!
Culpar Afonso d’Est — um soberano,
Por não lhe dar a mão da irmã fidalga!
Um poeta é um poeta: apenas isso…
Procure para amar as poetisas.
Se na França a princesa Margarida,
De Francisco primeiro irmã formosa,
Ao poeta Alain Chartier adormecido
Deu nos lábios um beijo… é que esta moça,
Apesar de princesa, era uma douda…
E a prova é que também rondós fazia.
Se Riccio, o trovador, teve os amores
— Novela até bastante duvidosa –
Dessa Maria Stuart formosíssima,
É que ela — sabe-o Deus! — fez tanta asneira…
Que não admira que a um poeta amasse!
 
Por isso adoro o libertino Horácio:
Namorou algum dia uma parenta
Do patrono Mecenas? Parasita…
Só pedia dinheiro, no triclínio
Bebia vinho bom… e não vivia
Fazendo versos às irmãs de Augusto.
 
E quem era Camões? Por ter perdido
Um olho na batalha e ser valente,
Às esmolas valeu. Mas quanto ao resto,
Por fazer umas trovas de vadio,
Deveriam lhe dar, além de glória,
— E essa deram-lhe à farta! — algum bispado?
Alguma dessas gordas sinecuras
Que se davam a idiotas fidalguias?
 
Deixem-se de visões, queimem-se os versos:
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poema não val meia princesa.
 
Um poema, contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido, fumando…
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.
 
Mas não passe dali do vate a mente.
Tudo o mais são orgulhos, são loucuras…
Faublas tem mais leitores do que Homero.
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola…
É prazer de um momento, é mero luxo.
Contente-se em traçar nas folhas brancas
De algum Álbum da moda umas quadrinhas:
Nem faça apelações para o futuro.
O homem é sempre o homem. Tem juízo.
Desde que o mundo é mundo assim cogita.
 
Nem há negá-lo: não há doce lira,
Nem sangue de poeta ou alma virgem
Que valha o talismã que no oiro vibra!
Nem músicas nem santas harmonias
Igualam o condão, esse eletrismo,
A ardente vibração do som metálico…

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Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?
Ó poeta, silêncio! — é este o homem?
A feitura de Deus! a imagem dele!
O rei da criação!…
Que verme infame!
Não Deus, porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te — o egoísmo!
Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!
 

III

Passou El-Rei ali com seus fidalgos:
Iam a degolar uns insolentes
Que ousaram murmurar da infâmia régia,
Das nódoas de uma vida libertina!
Iam em grande gala. O Rei cismava
Na glória de espetar no pelourinho
A cabeça de um pobre degolado.
Era um Rei bon-vivant e Rei devoto;
E, como Luís XI, ao lado tinha
O bobo, o capelão… e seu carrasco.
O cavalo do Rei, sentindo o morto,
Tremente de terror parou nitrindo,
Deu d’esporas leviano o cavaleiro
E disse ao capelão:
 
“E não enterram
Esse homem que apodrece, e no caminho
Assusta-me o corcel?”
 
Depois voltou-se
E disse ao camarista de semana:
“Conheces o defunto? Era inda moço,
Daria certamente um bom soldado.
A figura é esbelta! Forte pena!
Podia bem servir para um lacaio.”
 
Descoberto, o faceiro fidalgote
Responde-lhe fazendo a cortesia:
“Pelas tripas do Papa! eu não me engano,
Leve-me Satanás se este defunto
Ontem não era o trovador Tancredo!”
 
“Tancredo!” murmurou erguendo os óculos
Um anfíbio, um barbaças truanesco,
Alma de Triboulet, que além de bobo
Era o vate da corte! bem nutrido,
Farto de sangue, mas de veia pobre,
Caidos beiços, volumoso abdoômen,
Grisalha cabeleira esparramada,
Tremendo narigão, mas testa curta,
Em suma um glosador de sobremesas.
 
“Tancredo! — repetiu imaginando –
Um asno! só cantava para o povo!
Uma língua de fel, um insolente!
Orgulho desmedido… e quanto aos versos
Morava como um sapo n’água doce!
Não sabia fazer um trocadilho…”
 
O rei passou — com ele a companhia!
Só ficou ressupino e macilento
Da estrada em meio o trovador defunto!
 

IV

Ia caindo o sol. Bem reclinado
No vagaroso coche madornado
Depois de bem jantar fazendo a sesta,
Roncava um nédio, um barrigudo frade…
Bochechas e nariz, em cima uns óculos
Vermelho solidéu… enfim um bispo,
E um bispo, senhor Deus! da idade média,
Em que os bispos — como hoje e mais ainda –
Sob o peso da cruz bem rubicundos,
Dormindo bem, e a regalar bebendo,
Sabiam engordar na sinecura!
Papudos santarrões, depois da missa,
Lançando ao povo a bênção — por dinheiro!
 
O cocheiro ia bêbado por certo:
Os cavalos tocou p’lo bom caminho
Mesmo em cima das pernas do cadáver…
Refugou a parelha, mas o sota
— Que ao sol da glória episcopal enchia
De orgulho e de insolência o couro inerte,
Cuspindo o poviléu, como um fidalgo
Que em falta de miolo tinha vinho
Na cabeça devassa — deu de esporas…
Como passara sobre a vil carniça
Raléu de corvos negros, foi por cima…
Mas desgraça! maldito aquele morto!
Desgraça!… não porque pisasse o coche
Aqueles magros ossos, mas a roda
Na humana resistência abalroando…
E acorda o fradalhão…
 
“O que sucede?
— Pergunta bocejando, é algum bêbado?
Em que bicho pisaram?”
 
“Senhor bispo,
— Triunfante responde o bom cocheiro
Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolom
Rebento da fidalga raça nova
Que não anda de pé como S. Pedro,
Nem estafa os corcéis de S. Francisco –
“Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima,
É um pobre diabo de poeta…
Um homem sem miolo e sem barriga
Que lembrou-se de vir morrer na estrada!”
 
“Abrenúncio! rouqueja o santo bispo,
Leve o Diabo essa tribo de boêmios!
Não há tanto lugar onde se morra?
Maldita gente! inda persegue os Santos
Depois que o Diabo a leva!…”
 
E foi caminho.
 
Leve-te Deus! Apóstolo da crença,
Da esperança e da santa caridade!
Tu, sim, és religioso e nos altares
Vem cada sacristão, e cada monge
Agita a teus pés o seu turíbulo!
E o sangue do Senhor no cálix d’oiro
Da turba na oração te banha os lábios…
 
Leve-te Deus, Apóstolo da crença!
Sem padres como tu que fora o mundo?
É por ti que o altar apóia o trono!
É teu olhar que fertiliza os vales,
Fecunda a vinha santa do Messias!
 
Leve-te Deus… ou leve-te o Demônio!
 

V

Caiu a noite do azulado manto,
Como gotas de orvalho, sacudindo
Estrelas cintilantes. Veio a lua,
Banhando de tristeza o céu profundo,
Trazer aos corações melancolia,
E no éter cheiroso derramar
Cerúlea chama! — Dia incerto e pálido
Que ao lado da floresta as sombras junta
E golfa pelas águas das campinas
Alvacentos clarões que as flores bebem!
A galope, de volta do noivado,
Passa o Conde Solfier e a noiva Elfrida:
Seguem fidalgos que o sarau reclama.
 
Elfrida
— Não vês, Solfier, ali da estrada em meio
Um defunto estendido?
 
Solfier
— Ó minha Elfrida,
Voltemos desse lado: outro caminho
Se dirige ao castelo. É mau agouro
Por um morto passar em noites destas.
 
Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.
 
Elfrida
“Tancredo!… Vede!?… é o trovador Tancredo!
Coitado! assim morrer! um pobre moço…
Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?
Neste mundo não teve um só amigo!
 
“Ninguém, senhora! respondeu da sombra
Uma dorida voz. Eu vim, há pouco,
Ao saber que do povo no abandono
Jazia como um cão, eu vim… e eu mesmo
Cavei junto do lago a cova dele.”
 
Elfrida
“Tendes um coração: tomai, mancebo,
Tomai essa pulseira… Em ouro e jóias
Tem bastante pra erguer-lhe um monumento
E para longas missas lhe dizerem
Pelo repouso d’alma…”
 
O moço riu-se.
 
O Desconhecido
“Obrigado: guardai as vossas jóias.
Tancredo o trovador morreu de fome!
Passaram-lhe no corpo frio e morto,
Salpicaram de lodo a face dele,
Talvez cuspissem nesta fronte santa,
Cheia outrora de eternas fantasias,
De idéias a valer um mundo inteiro!…
Por que lançar esmolas ao cadáver?
Leva-as, fidalga, tuas jóias belas:
O orgulho do plebeu as vê sorrindo…
Missas?… bem sabe Deus se neste mundo
Gemeu alma tão pura como a dele!
Foi um anjo! e murchou-se como as flores
Morreu sorrindo, como as virgens morrem…
Alma doce que os homens enjeitaram,
Lírio, que a turba imunda profanou
Oh! não te mancharei, nem a lembrança
Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,
És o templo deserto, onde habitava
O Deus que em ti sofreu por um momento!
Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:
Na cova negra dormirás tranqüilo…

Tu repousas ao menos!”

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No entanto sofreando a custo a raiva,
Mordendo os lábios de soberba e fúria,
Solfier da bainha arranca a espada,
 
Avança ao moço e brada-lhe:
 
“Insolente!,
Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!
Não vês quem te falou? Curva o joelho,
Tira o gorro, vilão…”
 
O Desconhecido
“Tu vês: não tremo!
Tu não vales o vento que salpica
Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,
Não sabes que um punhal vale uma espada
Dentro do coração?”
 
Mas logo Elfrida:
“Acalma-te, Solfier! O triste moço
Desespera, blasfema e não me insulta.
Perdoa-me também, mancebo triste!
Não pensei ofender tamanho orgulho:
Tua mágoa respeito. Só te imploro
Que sobre a fronte ao trovador desfolhes
Essas flores, as flores do noivado
De uma triste mulher… E quanto às jóias,
Lança-as no lago… Mas quem és? teu nome?”
 
O Desconhecido
“Quem sou? um doudo, uma alma de insensato
Que Deus maldisse e que Satã devora!
Um corpo moribundo em que se nutre
Uma centelha de pungente fogo!
Um raio divinal que dói e mata,
Que doira as nuvens e amortalha a terra!…
Uma alma como o pó em que se pisa!
Um bastardo de Deus! um vagabundo
A que o gênio gravou na fronte — anátema!
Desses que a turba com o seu dedo aponta…
Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n’alma,
Pela caveira, pelas negras cinzas
De minha mãe o juro!… Agora há pouco,
Junto de um morto reneguei do gênio,
Quebrei a lira à pedra de um sepulcro…
— Eu era um trovador, sou um mendigo…”
 
Ergueu do chão a dádiva d’Elfrida,
Roçou as flores aos trementes lábios,
Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo
Pousou-as lentamente…
 
“Em nome dele,
Agradeço estas flores do teu seio,
Anjo que sobre um túmulo desfolhas
Tuas últimas flores de donzela!”
 
Depois vibrou na lira estranhas mágoas,
Carpiu à longa noite escuras nênias,
Cantou: banhou de lágrimas o morto.
De repente parou: vibrou a lira
Co’as mãos iradas, trêmulas… e as cordas
Uma por uma rebentou cantando…
Tinha fogo no crânio, e sufocava:
Passou a fria mão nas fontes úmidas,
Abriu a medo os lábios convulsivos,
Sorriu de desespero; e sempre rindo
Quebrou as jóias e as lançou no abismo…
 

VI

No outro dia na borda do caminho,
Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,
Viu-se um mancebo loiro que morria…
Semblante feminil, e formas débeis,
Mas nos palores da espaçosa fronte
Uma sombria dor cavara sulcos.
Corria sobre os lábios alvacentos
Uma leve umidez, um ló d’escuma,
E seus dentes a raiva constringira…
Tinha os punhos cerrados… Sobre o peito
Acharam letras de uma língua estranha…
E um vidro sem licor — fora veneno!…
 
Ninguém o conheceu: mas conta o povo
Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro
Quis roubar-lhe o gibão, despiu o moço…
E viu… talvez é falso… níveos seios…
Um corpo de mulher de formas puras…
 

VII

Na tumba dormem os mistérios d’ambos:
Da morte o negro véu não há erguê-lo!
Romance obscuro de paixões ignotas,
Poema d’esperança e desventura,
Quando a aurora mais bela os encantava,
Talvez rompeu-se no sepulcro deles!
Não pode o bardo revelar segredos
Que levaram ao céu as ternas sombras:
— Desfolha apenas nessas frontes puras
Da extrema inspiração as flores murchas…

TRÊS POEMINHAS DE MOACYR FÉLIX TOCANDO DE LEVE NA POÉTICA DA MORTE

Outubro 31, 2015

moacyr1Como todo poeta Moacyr Félix é um poeta intempestivo. Um poeta que permite ao homem o contínuo-transcendente da história. O aquém e o além ontológico do existir.

Mas o que estamos fazendo, esquizofílicos? Querendo comentar Moacyr Félix? Sem essa pretensão! Deixemos o comentário para seu amigo Antônio Cândido.

“Como fator de unificação, há um certo instinto, que no plano dos conceitos vira convicção e parece consistir na certeza de que a rajada poética é uma em si. Por outras palavras: na certeza de que o poeta é sempre o mesmo na sua integridade, seja transmitindo as emoções do amor, seja fixando a impressão das, seja soltando a indignação da denúncia.

Nesse nível, portanto, não poderia haver um poeta ‘puro’, escrevendo em estado de indiferença quanto ao tema; nem um poeta ‘interessado’, para quem a presença do tema basta como garantia e justificativa de performance. Mas simplesmente um poeta – que não estatui prioridade entre emoção, percepção e convicção, desede que elas possuam a intensidade transformadora da experiência vivida. Um poeta, por conseguinte, que pode reversivelmente se ver no mundo e ver no mundo em si, a cada compasso do seu trabalho”.

Apresentação de Antônio Cândido do livro de Moacyr Félix, Em Nome da Vida, publicado em 1981.

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E se eu, por uma espécie de brincadeira amarga,

afirmasse que o verdadeiro beco sem saída só começa

depois do silêncio que fica atrás do silêncio que rodeia a

vida conversando com a morte dentro da poesia.

moacyr2

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Se eu posso fazer a minha morte, por que não adubo

a criação de um novo dia com a cinza desses códigos e

dessas filosofias e dessas éticas que ainda não incendiei?

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                              20-bis

Na realidade nem esta ideia de morte é minha, já que

ela se tece entre os meus neurônios assim como esta

enferma-idade se instala no encarcerado interior da vida

do homem.

foto051Os três poeminhas foram extraídos da obra Introdução a Escombros, publicada em 1998 pela Editora Bertrand Brasil.

TRÊS POEMINHAS DE ARTAUD TOCANDO DE LEVE NO NEUTRO FEMININO MASCULINO

Outubro 24, 2015

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                                                   Há detalhes suficientes para a compreensão.

                                                                    Explicitar seria estragar a poesia das coisas.

Antonin Artaud! Teatro da Crueldade! Corpo Sem Órgãos!

“Nunca, quando é a própria vida que nos foge, se falou tanto em civilização e cultura. E existe um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida que está na base da desmoralização atual e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu com a vida e que é feita para dirigir a vida”.

Esse o Teatro da Crueldade de Artaud: escapar de uma cultura “que nunca coincidiu com a vida”. Uma cultura que se toma com o direito de “dirigir a vida”. Não se deixar apanhar por uma cultura Corpo Com Órgãos, mas escapar como Corpo Sem Órgãos. Ser sempre intensidade. Fluxos de desejo. Desejo revolucionário.

Artaud teatrólogo intensivamente poeta.

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                                    NEUTRO

E em meu Neutro há um massacre!

Vocês compreendem, há a imagem inflamada de um massacre

que alimenta minha guerra pessoal.

Minha guerra se alimenta de uma guerra,

e cospe sua própria guerra.

artaud-reprodução

                                     FEMININO

Quero experimentar o feminino terrível.

O grito da revolta sufocada, da angústia armada em guerra e da reivindicação.

É como a queixa de um abismo que se abre:

a terra ferida grita, mas vozes se elevam, profundas

como o buraco do abismo, e que são o buraco do abismo que grita.

Neutro. Feminino. Masculino.

Para lançar esse grito eu me esvazio.

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                                MASCULINO

O Masculino, para fazer sair o grito da força,

se apoiaria primeiro no ponto do estrangulamento,

comandaria a irrupção dos pulmões na respiração

e da respiração nos pulmões.                         

Os poemas-textos foram extraídos do livro O Teatro e Seu Duplo, de Antonin Artaud.

TRÊS POEMINHAS DE KONSTANTINOS KAVÃFIS TOCANDO DE LEVE NO AMOR

Outubro 17, 2015

kavafis (1)O poeta não tem pátria. É um desterritorializado. Porém, parte de algum território descodificando a linguagem prática da objetividade que serve como instrumento de relações no cotidiano.

Konstantinos Kavãfis se desterritorializou do território grego e fluiu pelo mundo descodificado como fluxo-desejo informe cortando com rastros poéticos a imobilidade que se finge vida.

A poiesis Konstantinos Kavãfis se transmuta em devir-político singular como vida inapreensível. Amor!

                       NA RUA

Um rosto simpático, ligeiramente pálido;

olhos castanhos, como que pisados;

parecem quando muito vinte os seus vinte e cinco anos.

tem uma não sei quê de artista no modo de vestir-se

– talvez a cor da gravata, o feitio do colarinho;

sem rumo certo vagueia pela rua,

somo se hipnotizado pelo prazer ilegal,

o prazer tão ilegal que ainda há pouco desfrutou.

 kavafis

                  QUANDO SURGIREM

Esforça-te, poeta, por retê-las todas,

embora sejam poucas as que se detêm.

As fantasias do teu erotismo.

Põe-nas, semi-ocultas, em meio às tuas frases.

Esforça-te poeta, por guarda-las todas,

quando surgirem no teu cérebro, de noite,

ou no fulgor do meio-dia se mostrarem.

 konstantinos-kavafis

                         A VITRINA DA TABACARIA

Ante a vitrina bem iluminada

de uma tabacaria pararam em meio a muitos mais.

Por acaso, os seus olhares se encontraram

E o ilegal desejado da carne

se revelou timidamente, irresolutamente.

Depois, alguns passos ansiosos pela calçada afora –

até que, sem sorrir, acenaram-se de leve.

 konstantinos_kavafis_620

E então, dentro da carruagem fechada…

A sensual aproximação dos corpos;

As mãos unidas, os lábios unidos.