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LUIS NASSIF: CLÁUDIO JORGE E AUGUSTO MARTINS, DOIS SENHORES SAMBISTAS CANTANDO ISMAEL

Dezembro 11, 2017

A primeira vez que ouvi o CD “Ismael Silva, uma Escola de Samba” foi na rádio Batuta, em entrevista dois dois cantores, Cláudio Jorge e Augusto Martins, ao Joaquim Ferreira.

São dois eméritos sambistas, compondo um duo de primeira, para saudar um dos maiores sambistas da história, Ismael Silva.

​Me chamou atenção a entrevista conduzida por Joaquim.

Inicialmente, o fato de considerar que Ismael não recebeu a mesma consagração de outros sambistas históricos, como Noel Rosa, Wilson Baptista, Ataulfo Alves.

Não vejo assim. A primeira vez que ouvi falar de Ismael foi ainda nos anos 60, em uma entrevista de Chico Buarque. Apresentado como o novo Noel Rosa, Chico explicou que sua grande influência era Ismael Silva, que era tocada incessantemente na casa da família pelo pai, o historiador Sérgio Buarque.

Lá em Poços ficamos de olho, esperando mais informações sobre Ismael. Logo em seguida saiu o histórico fascículo da Abril. Duas composições de Ismael imediatamente entraram no nosso repertório e não mais saíram: “Novo Amor” (“arranjastes um novo amor, meu bem / eu fui um infeliz, bem sei”) e “Nem é bom falar” (“nem tudo que se diz, se faz / eu digo e serei capaz”).

Se Ismael andou meio esquecido lá pelos anos 60, a partir dos fascículos da Abril sua fama saiu do Rio e se espalhou por todo o país. E descobrimos ser ele o autor de músicas intemporais, que nos acompanharam desde a infância, como “Se você jurar”, “Antonico” e outras.

O ponto central da conversa foi sobre a vida reservada de Ismael. Uma hipótese é o fato de ele ter passado algum tempo na prisão, no início da carreira, por ter disparado tiros no traseiro do malandro que abusou da sua irmã.

Pode ser. Atribuem esse duvidoso não-reconhecimento de Ismael a essa vida reservada. As demais explicações não fecham. Dizer que não fazia músicas fáceis como Wilson Batista esbarra no próprio “Se você jurar”, “Para me livrar do mal”, com Noel e tantas outras que integram o repertório de qualquer sambista que se preze.

Toda essa volta é para não expor o verdadeiro problema que atormentou Ismael: o seu lado homossexual, mesmo drama que atormentou outro grande, Assis Valente. Já nos anos 70 não era segredo para os grandes especialistas de samba que conheci, como o Jangada, repórter do Placar e profundo conhecedor do samba carioca, José Ramos Tinhorão e José Carlos Botezelli.

A defesa de Ismael era seu ar fechado, a postura altiva, que muitos confundiam com arrogância.

Ismael foi o pai do samba, o sujeito que, na Escola do Estácio, lançou as bases para o samba cortar o cordão umbilical com o maxixe e se projetar como o ritmo brasileiro por excelência

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CAETANO E CONVIDADOS NO LARGO DA BATATA NO ATO DE 20 ANOS DO MTST

Dezembro 10, 2017

MTST COMEMORA 20 ANOS COM SHOW DE CAETANO VELOSO E CRIOLO

Dezembro 8, 2017
MÚSICA E MORADIA
Ato em São Paulo, depois da proibição em outubro no ABC, terá ainda a participação de Maria Gadu, Péricles e DJs. “Um dia de resistência e festa”, anuncia o movimento
por Redação RBA.
                                                      DIVULGAÇÃO

Show 20 anos MTST

Fundado pelo MST, movimentou se tornou independente em 2003 e hoje é um dos maiores do país

São Paulo – O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) comemora, no próximo domingo (10), 20 anos de existência. Para marcar a data, o movimento realizará um ato-show no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, com a presença de Caetano Veloso, Criolo, Maria Gadu e Péricles, entre outros convidados.

“Um dia cheio de resistência e festa. São 20 anos do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, são 20 anos lutando pelo direito à moradia e muito mais”, anuncia o movimento, fundado em 1997 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para promover a luta pelo direito à moradia no meio urbano.

“Lembra aquele show que ia acontecer na Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo? Não aconteceu, mas agora vamos participar de um ato, no Largo da Batata, pelo aniversário de 20 anos do MTST”, anuncia Caetano Veloso, em vídeo divulgado nas redes sociais do movimento. O cantor e compositor baiano faz referência ao show que faria em outubro, mas que foi proibido pela Justiça.

“Vai ser um ato lindo. Contamos com a presença de vocês desde o início pra endossar o coro de tantas pessoas”, convoca, no mesmo vídeo, a cantora Maria Gadu.

Confira a programação:

14h: Início da Concentração
14h30: Abertura do Ato
15h: D’Fato Rappers, Denis Família, Edson Bazílio e Sobreviventes de Rua
15h30: Prettos
16h10: DJ Marco (Discopédia/Criolo) e DJ Eduardo Brechó (Alafia)
17h50: Fala do MTST com Guilherme Boulos
18h: Caetano Veloso convida Criolo, Maria Gadu e Péricles

TOM ZÉ EXPLICA PROCESSO CRIATIVO E LEMBRA DE POLÊMICAS NA CARREIRA

Dezembro 7, 2017
O irreverente músico baiano foi o convidado dessa semana do programa EntreVistas, da TVT. Provocador, diz que “Classe Operária” é uma de suas músicas “mais geniais”
por Redação RBA.
 
                                  TVT / REPRODUÇÃO

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Compositor, cantor, ator, performático. Tom Zé no EntreVistas, da TVT: ‘Eu achava que pra lutar contra a ditadura precisava de um certo humor’

São Paulo – No programa EntreVistas de ontem (5), da TVT, o cantor e compositor Tom Zé descreveu, entre outros temas, seu processo criativo e disse que admira artistas que “chegam em casa, tomam uma dose de uísque e começam a tocar e escrever”. Para ele, no entanto, a criar suas obras é completamente diferente. O baiano de Irará disse ter o hábito de acordar às 4 da madrugada, sentar para escrever algo que pensou durante a noite e dedilhar o violão até por volta das 8h, quando então toma café da manhã. Depois, volta para o violão e o papel até o meio-dia, almoça, continua a seguir o trabalho até as 18h, quando então finalmente para. “Eu não tenho inspiração, só tenho ‘suação’”, definiu, bem-humorado.

Histórias como essa o artista multi-performático contou ao longo de quase uma hora de programa, como, por exemplo, ao dizer que a canção Classe Operária é uma de suas músicas “mais geniais”, inspirada, com certa ironia, em Padre Vieira (português nascido em 1608, morreu em Salvador, em 1697; escritor e orador, foi famoso pelos seus sermões).

Tom Zé também relembrou a incompreensão que sofreu quando compôs Complexo de Édipo, música que abre seu disco Todos os Olhos, lançado em 1973. Naquela canção, ele diz que o compositor brasileiro é complexado e se leva a sério demais. Segundo ele, o verso foi pensado na época em que os universitários eram seu público principal, mas houve entre ambos uma discordância relativa aos caminhos para se enfrentar a ditadura.

“Eu achava que lutar contra a ditadura precisava de um certo jogo de cintura, um certo humor, mas os estudantes acreditavam que a seriedade era a principal arma”, explicou, para logo em seguida se levantar e, agitado, declamar parte da música:

Todo compositor brasileiro
é um complexado 

Por que então esta mania danada,
esta preocupação
de falar tão sério, 
de parecer tão sério
de ser tão sério
de sorrir tão sério
de chorar tão sério
de brincar tão sério
de amar tão sério? 

Ai, meu Deus do céu,
vai ser sério assim no inferno!

Durante a entrevista, Tom Zé ainda comentou sobre a nova geração da música brasileira, rasgou elogios ao rapper Emicida – “Tudo o que ele improvisa é quase um descobrimento, aquele homem é incrível” –, e citou o estudo realizado numa universidade inglesa (King’s College), no qual a música brasileira é apontada como “seminal fonte de pesquisa” para compreender a cultura do país.

Tendo como cenário o palco do Tucarena, anfiteatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o EntreVistas estreou em 14 de novembro e propõe  conversar com uma personalidade nacional ou internacional em áreas como saúde, educação, cultura, política, trabalho, esporte e direitos humanos, com temas atuais e de interesse público.

Confira a íntegra:

 

 

CERVEJARIA FEMINISTA HOMENAGEIA MILITANTE COMUNISTA MARIA PRESTES

Dezembro 6, 2017
José Eduardo Bernardes

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Ouça a matéria:

Memórias de Maria Prestes serviram de inspiração para criação da cerveja que leva o nome dela - Créditos: Divulgação/ André Mantelli
Memórias de Maria Prestes serviram de inspiração para criação da cerveja que leva o nome dela / Divulgação/ André Mantelli

Cerveja também é coisa de mulher. E, cada vez mais, produzir a bebida também se torna uma prática comum entre elas. Essa é a intenção das cariocas Andreia Prestes, Maria Antônia Goulart, Maura Santiago e Clarissa Cogo, que criaram a Cervejaria Feminista.

A marca idealizada e tocada pelas quatro mulheres, homenageia ícones femininos de resistência. A primeira delas é justamente a avó de Andreia, Maria Prestes, companheira de Luiz Carlos Prestes, líder do PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Na última semana, Maura, Andreia e Maria Prestes estiveram em Belo Horizonte para o lançamento da cerveja, no Armazém do Campo, a nova loja de produtos agroecológicos do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A produção da cerveja, desenvolvida pelo grupo e feita em parceria com uma microcervejaria, levou Maria Prestes novamente ao passado, resgatando suas andanças pela União Soviética, ao lado de Luiz Carlos Prestes. Foi lá que, segundo ela, “experimentou a melhor cerveja de sua vida”.

“Eu sempre discutia, conversava em casa com meus netos, minha netas, sobre as viagens que eu fazia quando morava na antiga União Soviética. Em uma das minhas visitas à Tchecoslováquia, quando eu estava já perto de vir embora, eles me perguntaram se eu não gostaria de experimentar a cerveja tcheca. Eu disse para ela [Andreia Prestes]: ‘até hoje eu ainda me lembro do sabor da cerveja que eu tomei lá e considero ela uma das melhores cervejas que eu já tomei, durante o meu período de vida, até hoje”, recorda.

A cerveja foi criada com base nas lembranças da avó, como conta Andreia Prestes. “Então a gente convidou a Maria Prestes, minha Avó, para fazer essa cerveja pielsen. E para gente a produção da cerveja é um processo de memória interessante, porque são vários encontros com ela, para falar de cerveja, para falar da memória dela em cerveja. E aí ela falou muito da cerveja que ela lembrava que bebia na época do exílio, que ela fala que foi um dos melhores períodos da vida dela, quando ela conseguiu reunir a família toda”.

Andreia lembra também que, além de homenagear ícones da luta feminista, a Cervejaria é uma oportunidade de romper com o monopólio machista que domina o mercado de cervejas no Brasil.”No Rio de Janeiro também está crescendo muito essa questão da cerveja artesanal. A gente começou a participar de uns grupos e viu que era um ambiente muito machista. E aí a gente começou a pensar como a gente pode trazer essa questão da discussão feminista para esse mundo da cerveja, de uma forma inovadora. Daí surgiu a ideia da cervejaria feminista, de trazer nomes de mulheres”, ressalta.

A iniciativa da neta e das sócias é elogiada por Maria Prestes. Ela destaca que trabalhos como o da Cervejaria Feminista dão força à luta das mulheres.”Uma maneira de você prestigiar os movimentos de mulheres, é ressaltando a personalidade das mulheres, e incentivando para que elas não se intimidem e participem da vida, reconhecendo os seus direitos na sociedade que vivemos. As mulheres têm muita importância nisso. Hoje nós temos mulheres senadoras, deputadas, vereadoras, que antigamente nós não tínhamos esse direito. Hoje as mulheres conquistaram esse espaço. Nós temos mulheres promotoras, juízas, advogadas”, conclui.

Além de Maria Prestes, a Cervejaria Feminista homenageou recentemente Conceição Evaristo, escritora mineira e militante do movimento negro. As duas cervejas artesanais podem ser encontradas nas unidades do Armazém do Campo em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Edição: Camila Salmazio

PERTENCIMENTO E HOMOSSEXUALIDADE SÃO TEMAS DE ‘ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA’

Dezembro 5, 2017

CINEMA NACIONAL

A polêmica ficção de Sérgio Andrade e Fábio Baldo acompanha Anderson, um indígena que questiona as tradições de seu povo e sua sexualidade
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
                                                                        DIVULGAÇÃO

Anderson

Filme que tem como tema central o questionamento da identidade das novas gerações indígenas escorrega na homofobia, historicamente reforçada pelas religiões brancas

São Paulo – “Você pode tirar uma cobra do Japão, trazer para cá e ela vai continuar sendo sempre uma cobra. A mesma lógica se aplica ao índio: na aldeia ou na cidade, ele sempre será um indígena”. É o que diz um pajé no filme Antes o Tempo Não Acabava, dirigido por Sérgio Andrade e Fábio Baldo. O longa-metragem de ficção, que estreou na última semana em salas brasileiras, tem apenas 85 minutos e uma capacidade devastadora de fazer com que o espectador se questione sobre o que acabou de assistir.

O filme traz como protagonista o ator indígena Anderson Tikuna interpretando um personagem homônimo que, em conflito com as tradições do seu povo, contraria os líderes da sua comunidade para morar sozinho no centro de Manaus. Lá, ele experimenta novos sentimentos e enfrenta os desafios da descoberta da sua sexualidade. Para o desenvolvimento do longa, a equipe afirma ter se inspirado “na realidade de vários indígenas que se instalam em Manaus, ora expulsos de suas terras, ora atraídos pelo falso ideal da vida na cidade”.

As primeiras cenas já demonstram a beleza estética da obra, com imagens de um ritual de passagem para a idade adulta feito com meninos da etnia Sateré Mawé. Para que alcancem maturidade e masculinidade, a tribo prepara uma poção com formigas tucandeiras e coloca os insetos semi-adormecidos em luvas que serão vestidas pelos meninos. A dor das picadas de alguma forma já anuncia que o medo e a rejeição de Anderson vão permear todo o filme.

Já adulto, ele trabalha em uma fábrica na Zona Franca de Manaus e volta todo dia para a aldeia, na periferia de Manaus. Anderson não parece pertencer nem lá nem cá e é esta a questão fundamental do longa-metragem. O jovem não aceita a forma com que sua comunidade lida com a filha de sua irmã, uma criança com sérios problemas de desenvolvimento. 

DIVULGAÇÃOAnderson criança
Anderson durante o rito de passagem para a fase adulta

Quando a irmã de Anderson volta para a floresta, ele decide ir morar na cidade e sua decisão não é bem aceita pelos membros da tribo. Sozinho no caos urbano, ele desconfia de tudo naquele ambiente hostil, mas mesmo assim se joga de corpo inteiro na descoberta de sua sexualidade, também renegada e condenada pela sua tribo. Neste ponto, entra outra questão polêmica: o pajé refaz à força o rito das formigas porque ele não funcionou da primeira vez e Anderson tem de passar a “enxergar” as mulheres.

O filme que tem como tema central o questionamento sobre a identidade das novas gerações indígenas, acaba escorregando em uma questão que talvez tenha nascido com as religiões brancas: a homofobia. Sobre a morte da criança com deficiência, fica a dúvida se a descontextualização do fato não reforça ainda mais a estereotipação dos índios como bárbaros. Em um momento em que o conservadorismo atinge em cheio país (e o mundo), impossível não assistir a este filme com olhar desconfiado.

Uma produção Rio Tarumã e 3 Moinhos e com coprodução da berlinense Autentika, Antes o Tempo Não Acabava criou uma fervorosa discussão durante o Festival de Brasília, no ano passado. Apesar das polêmicas, o longa ganhou prêmios, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Ator no 20° International Queer Film Festival – Queer Lisboa; de Melhor Ator, Melhor Roteiro e Melhor Filme no 23º Festival de Cinema de Vitória e os de Melhor filme pelo Júri da Crítica e Melhor Roteiro no 10° For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual.

CartazAntes o Tempo Não Acabava
Direção: Sérgio Andrade e Fábio Baldo
Elenco: Anderson Tikuna, Rita Carelli, Begê Muniz, Severiano Kedassere, Kay Sara, Ana Sabrina, Fidelis Baniwa, Emanuel Araújo
Roteiro: Sérgio Andrade
Produtores: Ana Alice de Morais, Sérgio Andrade
Coprodutores: Paulo Carvalho, Gudula Meinzolt
Cordenação de produção: Sidney Medina, Elenise Maia
Direção de fotografia: Yure César
Direção de arte: Oscar Ramos
Som direto: Nicolas Hallet
Figurino: Adroaldo Pereira
Edição e desenho de som: Fábio Baldo
Assistência de direção: Marianne Macedo Martins
Empresas produtoras: Rio Tarumã, 3 Moinhos
Empresa coprodutora: Autentika
Gênero: drama
Países: Brasil, Alemanha
Ano: 2016
Línguas: Português, Tikuna, Sateré Mawé, Neenguetu, Tariano
Classificação indicativa: 16 anos
Distribuição: Livre Filmes

CARTA CAPITAL: MARANHÃO, A JAMAICA BRASILEIRA

Dezembro 4, 2017

Música

por Jotabê Medeiros.
São Luís abre o Museu do Reggae, reconhecimento de uma influência cultural de meio século
 
Sara Correia

Museu do Reggae

Festa de reggae em São Luís: novo museu é o segundo do gênero no mundo e terá acervo com peças que contam a trajetória do gênero

Reformada com projeto do arquiteto Eduardo Longhi, será inaugurada com uma festa na praça que ladeia o prédio, a já famosa Praça do Reggae. Será uma enxurrada de bandas, radiolas, DJs, cantores, tendas de moda e acessórios, trancistas (cabeleireiros especialistas em dreadlocks e cortes afro), culinária e artesanato.

O acervo do Museu do Reggae é material e imaterial. O acervo material compõe-se de relíquias de colecionadores, parte comprada e parte doada. São discos raros de vinil, além de roupas, acessórios, gravações raras em vídeo, fotografias e outras preciosidades.

A banda pioneira Tribo de Jah, criada há 31 anos no Maranhão, doou ao museu a guitarra usada em seu primeiro show. Outra peça do acervo é a mítica radiola (sound system) de Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro, que era o mais antigo DJ em atividade no Brasil quando morreu, em abril, aos 70 anos, após ter ajudado a popularizar o gênero. Ele fez 17 viagens à Jamaica nos anos 1970 para garimpar discos e montou uma discoteca com 5 mil vinis.

Já o acervo imaterial é composto dos registros que documentam um caso extremado de paixão cultural: memórias em depoimentos gravados com os principais personagens da cena reggae ao longo dos tempos, livros, artigos, teses, dissertações digitalizadas.

“Será raro encontrar um único disco do acervo do museu que não seja raro. Foram todos escolhidos um a um, sob critérios de especialistas que viveram e vivem o reggae há décadas”, diz o DJ Ademar Danilo, idealizador e diretor do museu.

De todos os lugares da grande diáspora do reggae pelo mundo, São Luís do Maranhão é o mais impressionante. Não por acaso, ídolos jamaicanos como Gregory Isaacs, morto em 2010, visitaram a ilha com certa regularidade.

O reggae chegou ao estado há quase 50 anos, nos anos 1970. Desde então se enraizou tanto na terrinha que hoje é um crucial elemento da cultura contemporânea do estado, influenciando diretamente na maneira do maranhense de falar, vestir e, principalmente, dançar.

“Criamos uma maneira única de dançar, agarradinho deslizando pelo salão”, explica Danilo. “Tem reggae de classe média, em bar na praia, com banda tocando, com produção local, letra em português. É bem diversificado aqui”, diz Karla Freire, autora do livro Onde o Reggae É a Lei (2013), volume que esquadrinha a história do gênero.

“Mas uma coisa parece não mudar no reggae de São Luís: as pessoas dançam agarradas. E isso não acontece no Sudeste”, pondera Karla. O estilo maranhense parece referendar um verso de um dos reggaes mais famosos de Jimmy Cliff, aquele que diz: Reggae night/ we come together when the feelin’s right (“Noite de reggae/ a gente cola junto quando o sentimento bate”, em tradução licenciosa).

O reggae é tão grande no Maranhão que se dá ao luxo de espraiar vários segmentos diferentes. Dentro de cada um desses segmentos, analisa Ademar Danilo, surgem ídolos capazes de mobilizar legiões de fãs, de DJs com contratos disputados a cantores que gravam músicas exclusivas para radiolas, que por sua vez arrastam multidões.

Muitos nomes tornam-se mais populares nacionalmente, como a Tribo de Jah. Mas há artistas que alcançam destaque de impacto na cena local, como o maranhense Dub Brown e o jamaicano Sly Foxx, que vive em São Luís há uma década, a exemplo de outros artistas daquele país.

Foi a cena autônoma de São Luís que alimentou o reggae histórico de Gilberto Gil. Conforme ele contou a este repórter em 2010, embora tivesse conhecido o gênero em Londres, foi somente em 1973, na Praia do Calhau, na capital maranhense, que atentaria para a potência globalizante do gênero.

“Ouvi No Woman, No Cry numa barraca de praia e perguntei ao dono quem estava cantando”, lembrou. “Ele me disse que era Jimmy Cliff, um músico que eu conhecera em Londres.” Dali surgiria Não Chore Mais, a inestimável versão de Gil para o sucesso gravado primeiro por Bob Marley, em 1974.

Ao lado do casarão que abrigará o museu, a Praça do Reggae reúne milhares para dançar todas as quintas-feiras, ao som das radiolas

Assim como Gil, o DJ maranhense Joaquim Zion ouviu o reggae pela primeira vez há mais de quatro décadas, mas foi como um eco distante, em Bequimão (a 316 quilômetros de São Luís). Era 1976 e ele não teve dúvidas de que estava ali o seu futuro. Após 21 anos produzindo shows e discotecando, Zion tornou-se um dos bambas do gênero e também um expert no reggae, que vê como um veículo de afirmação racial no estado.

Karla Freire enxerga o reggae como uma cultura dinâmica no Maranhão, em constante movimento. “Novos locais abrem, antigos fecham, se reinventam.Os tipos de reggae vão se multiplicando. Hoje tem eletrônico, roots, reggae de bandas, regravação, composições no padrão do reggae jamaicano dos anos 1970.” O que se destaca neste momento,  acentua, é o avanço feminino, cantoras como Núbia Rodrigues, de 22 anos.

Depois de décadas como expressão legitimada pelo povo, o Museu do Reggae ainda significa um reconhecimento, pelo poder público, do gênero musical como interlocutor social. “Essa é uma das grandes conquistas do movimento reggae do Maranhão.

O governo, que antes atacava através do aparato de repressão, hoje reconhece a importância do reggae para o turismo e a cultura”, diz o diretor da instituição.

Segundo o DJ Danilo, um dos motivos pelos quais o reggae fixou raízes fundas na alma do povo maranhense seria a ancestralidade comum a São Luís e Jamaica. “Grande parte das pessoas escravizadas que foram trazidas à força para cá e para lá tinha a mesma origem: o porto de São Jorge da Mina, na Costa do Ouro, hoje Gana, onde eram aprisionadas pessoas jejes, iorubás, fanti-ashantis, nagôs e de outras nações africanas”, ele afirma, concluindo que vem daí a semelhança física entre habitantes de um lugar e de outro.

“Os traficantes de escravos chamavam a todos de ‘negros Mina’, por causa do nome do porto onde eram embarcados. Por esse motivo a religião afro-maranhense se chama tambor de Mina, enquanto a religião afro-jamaicana se chama pokomina, Mina pela procedência e poko para imitar o som do tambor, poko poko poko”, teoriza.

Não há registro temporal exato da chegada do reggae ao Maranhão no início dos anos 1970. Tampouco há registro da maneira como chegou. O ritmo tocava nas radiolas que animavam as festas populares de São Luís, que já tinham o merengue, por exemplo, como combustível. Na primeira metade da década de 1980, o reggae chegou às rádios.

O primeiro programa de FM inteiramente especializado em reggae foi criado justamente por Ademar Danilo, em 1984. A partir daí pipocaram programas de reggae em rádios do Brasil inteiro. Antes do rádio, era restrito aos bairros da periferia da cidade. O rádio levou o ritmo para a cidade inteira e chegou à classe média.

O reggae maranhense tem outras especificidades. Uma delas é a prevalência do melô (ou “pedra”, como o chamam no estado) no hit parade local. Conforme explica o historiador Bruno Azevêdo, “melô é como os radioleiros e DJs de reggae passaram a batizar certas músicas, por vários motivos: esconder a verdadeira identidade de um fonograma para evitar que a concorrência tivesse acesso, homenagear alguém e também facilitar a compreensão do regueiro”.

Essa adaptação é também um dos sintomas de como o maranhense desenvolveu sua própria forma de tratar os clássicos.

Assim, o inglês do refrão de Wolf (some of them are wolves), de Lloyd Parks, acabou virando o Melô do Ademar na noite maranhense. O Melô da Valéria, o mais onipresente hit nas festas famosas da Ilha, como o Porto da Gabi, é extraído de um riff de My Mind, música gravada em 1976 por Hugh Mundell. Muitas vezes, o artista é obscuro até na terra natal, mas em São Luís é o mais tocado.

Os estreitos laços culturais entre São Luís e a Jamaica também alicerçam a chegada do Museu do Reggae. O diretor do museu viajou, com o secretário de Cultura e Turismo do estado, Diego Galdino, até a Jamaica. “Fomos falar sobre reggae para os jamaicanos”, conta. Com a intermediação da embaixada brasileira em Kingston, foram recebidos pelo Ministério da Cultura da Jamaica, que mobilizou alguns dos principais artistas, intelectuais e experts para o encontro.

“Fomos recebidos com um misto de curiosidade e simpatia. Entre os artistas que foram nos ouvir estavam Jimmy Cliff, Ken Boothe e Ibo Cooper, da banda Third World, entre outros”, conta o diretor. Ganharam uma chancela inédita.

Além de acordos com museus e casas de cultura públicas e privadas de Kingston, o museu brasileiro acertou empréstimos dos acervos do Museu Bob Marley, do Museu Peter Tosh e do Museu da Música da Jamaica. “E em breve teremos uma exposição temporária do Museu Bob Marley”, festeja Danilo.

PEÇA TRAZ “MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO”, DE MARIGHELLA, PARA OS DIAS DE HOJE

Dezembro 3, 2017

RELEITURA

Atores preparam espetáculo baseado no livro de Carlos Marighella, e em personalidades como Frida Kahlo e Joana D’Arc

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG).

Ouça a matéria:

Peça traz à tona também as lutas dos formandos - Créditos: Divulgação
Peça traz à tona também as lutas dos formandos / Divulgação

Estudantes do Curso Técnico de Teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, escolheram terminar seu curso com a montagem de uma peça baseada em obra de Carlos Marighella. O livro “Manual do Guerrilheiro Urbano” se transformou no “Manual dx Guerrilheirx Urbanx”, título da peça, e relaciona causas e lutas relacionadas a mulheres, homossexualidade, negritude e pela permanência do próprio Cefart.

O formando Carlos Lauro explica que a ideia surgiu da diretora da peça, Marina Viana, e foi abraçada pelos estudantes já que, em 2016, eles também viveram uma espécie de “guerrilha” contra a falta de profissionais e de estrutura para as aulas. “A minha turma tem um lugar político que sempre esteve muito presente. O teatro é político é a nossa arma, a arte é política, e o Manual surgiu como uma proposta desafiadora e que instigou a todxs”, conta.

Ao palco sobem 13 atores interpretando personagens como Maria Bonita, Lampião, Dandara, Frida Kahlo e Joana D’Arc, em diálogos que buscam encontrar novas armas para a luta contra a opressão vivida pelos próprios atores nos dias atuais. “Na minha turma existem dezenas de causas e lutas que ganharam foco e voz dentro do espetáculo, e, claro, trazendo à tona Carlos Marighella e sua obra”, explica Carlos Lauro.

O Manual

O líder comunista Carlos Marighella escreveu seu último livro, “Manual do Guerrilheiro Urbano”, em 1969, mesmo ano em que foi assassinado pelo governo militar brasileiro. Marighella liderou movimentos contra a ditadura à época do Estado Novo (1930 a 1945) e durante a ditadura militar. À época de sua morte, liderava uma guerrilha através da Ação Libertadora Nacional (ALN) e vivia como clandestino. Ele foi considerado “o inimigo nº 1 da ditadura”. O Manual traz as medidas práticas que um guerrilheiro urbano deveria tomar.

“Revolução no Brasil tem um nome

40 anos depois, o Racionais MCs produziu a música “Mil faces de um homem leal” com frases reais de Marighella e contando a história do comunista, baiano e capoeirista. A biografia “Marighella – guerrilheiro que incendiou o mundo” do escritor Mário Magalhães, também foi publicada em 2013. 

A peça

“Manual dx Guerrilheirx Urbanx” está em cartaz de 1º a 17 de dezembro no Teatro João Ceschiatti (Avenida Afonso Pena, 1537) com entrada gratuita. De quinta a sábado às 20h, e domingo às 19h. Classificação indicativa 16 anos.

Edição: Joana Tavares

O SAMBA TEM NOVO CICLO, MAS BUSCA PÚBLICO MAIOR

Dezembro 2, 2017

por Augusto Diniz

Neste 2 de dezembro comemora-se o Dia do Samba. O gênero construiu novo ciclo, mas ainda busca conquistar maior público, para firmar uma geração talentosa de sambistas.

​Formar público no samba (eu disse samba, e não esse pop de quinta que se autoproclama pagode inadequadamente) sempre foi um desafio na história do gênero. Por conta dos momentos de plateias maiores outras vezes menores, o samba acabou escrevendo algumas linhas de sua história a partir dessa variação.

Atualmente, o gênero tenta sair de um período de baixa, para alcançar número mais considerável de pessoas. Tempos atrás se atribuía a indústria do disco e a mídia como primordiais nesse papel de alavancagem (ainda que de forma controversa) – mas os tempos são outros e a internet tomou parte dessa função, embora seja necessário atuar de forma quase industrial para obter resultado no meio.

A questão é que a dispersão da web, notadamente pelas redes sociais, embora extremamente importantes para a promoção do samba, dificulta saber a dimensão da ocupação do gênero no tempo e no espaço.

E é provável que daqui para frente seja cada vez mais difícil fazer essa contabilidade, por que o modelo tradicional de massificação da música (altamente questionável), apoiado (com muito dinheiro de empresário) no esquema que reúne gravadora e divulgação paga pelo rádio e televisão, embora ainda funcione, já não tem tanto desempenho como no passado – e isso criou certa desconcentração, não representando necessariamente melhoria da qualidade musical, mas abriu frentes capazes de enfrentar a fórmula (utilizando menos recursos); e o samba também aproveitou essa onda.

Mas especificamente sobre a geração do samba que esta aí, ela é talentosa e deve pouco às anteriores. Uma volta pelas (boas e várias) rodas de samba e nomes e grupos nas redes sociais, pode-se observar um conjunto bastante consistente da produção do gênero na atualidade.

No grupo de bons cantores-compositores no circuito Rio-São Paulo, incluo Daniel Scisinio, João Martins, Juninho Thybau, Leandro Fregonesi, Maurinho de Jesus, Renato da Rocinha, Renato Milagres, Tuco Pellegrino, Yvison Pessoa; além de compositores de mão cheia, como Douglas Germano, Leandro Matos, Marquinhos Jaca, Milbé São Mateus, Rodrigo Campos, Ricardo Bispo, Willian Fialho.

Tem ainda Ana Costa, Adriana Moreira, Emersson Ursso, Fred Camacho, Graça Braga, Marcio Vanderlei, Moyseis Marques, que tão na batalha Já há algum tempo.

O pessoal do Galocantô, do Samba do trabalhador – que deu frutos com Alexandre Marmita, Gabriel Cavalcante, Mingo Silva, Nego Álvaro. O Samba da Vela, Terreiro de Crioulo, Na Palma da Mão, Samba da Laje.

E tem muita gente boa pelo Brasil afora, de Campinas (Vó Tiana) ao Acre (Mangabeira, Casa de Bamba), alguns núcleos importantes (e consolidados) em Florianópolis, Belo Horizonte, Brasília, e por aí vai.

Essa geração já transformou o samba e criou um novo ciclo. São os pilares do gênero hoje. Na verdade, só não aproveita quem não quer.

Imagens

O TRABALHO DOS TRILHOS

Dezembro 1, 2017

Músicos que trabalham no metrô do Recife estão atentos para não atrapalhar o sono ou telefonema dos passageiros.

PH Reinaux

Brasil de Fato | Recife (PE)

Repórter fotográfico do Brasil de Fato Pernambuco acompanhou a dupla Yalle e Batatinha durante parte da jornada de trabalho - Créditos: PH Reinaux
Repórter fotográfico do Brasil de Fato Pernambuco acompanhou a dupla Yalle e Batatinha durante parte da jornada de trabalho / PH Reinaux

– Boa Tarde Pessoal!!!!!

– Boa Tarde Pessoal!!!

– Eu sou Yalle e esse é meu amigo Batatinha, nós somos o Sapukai.

– Somos artistas de rua e gostaríamos de trazer um pouco de música para vocês.

– Podemos cantar???

– Podemos? 

– Podemos?

– Mas, mesmo assim, se alguém se incomodar, basta falar conosco que nós paramos imediatamente e saímos do vagão.

– Certo?

– Meu amigo Batatinha, vamos de quê?

E assim começa o dia de trabalho dos artistas de rua Yalle e Batatinha. Yalle, 27 anos, casado, tem quatro filhos. “Três são filhos de sangue e um de criação”. Batatinha há quatro anos trabalha nas ruas. “Eu tocava com uma parceira, Luiza, depois iniciamos esse projeto com Yalle”. Está no terceiro casamento e tem uma filha de 10 anos.

Trabalham oito horas por dia, seis dias da semana. Durante a viagens acontecem alguns blocos de música. No repertorio entra clássicos da música popular, gospel, brega e aquela música que faz lembra do amor. “Já fizemos vários passageiros chorar, levamos músicas e muita positividade”. Durante as apresentações sempre soltam “Radio MetroRec trilhando os caminhos do seu coração”.

Trata-se de uma rotina de trabalho bem difícil. Por diversas vezes não é possível suportar essa jornada semanal de trabalho. É preciso se alimentar bem, tomam muito chá de gengibre, maçã. Os músicos contam que já chegaram a fazer mais de 16 viagens em um dia. Tudo depende do fluxo de passageiros do metro, o vagão não pode estar muito cheio, nem muito vazio. É preciso tomar cuidado para não incomodar crianças dormindo, pessoas atendendo o celular.

Os artistas dividem o local de trabalho com os ambulantes e é bem tranquilo. Através de olhar, gestos, gentilezas os espaços seguem sedo respeitado. A condição de trabalhador, as obrigações e aquela nossa capacidade criativa de se virar com o que tem demarcam as regras de convivência.

Durante minha passagem com a dupla pelas linhas férreas da Região Metropolitana do Recife, conversei com vários trabalhadores e ouvi diversos relatos de conflitos entre ambulantes e os trabalhadores da segurança do metro. Hoje já existem alguns relatos de violência contra os músicos, o que deixa todos apreensivos. Complicado você sair de casa para trabalhar e voltar apanhado, desmaiado de choque. Com as mercadorias apreendidas. 

Ao final do dia de trabalho, chega a hora de contar o apurado. Tudo é repartido igualmente entre Yalle e Batatinha. Muitas moedas, o que certamente vai facilitar a rotina de trabalho dos cobradores de ônibus no Terminal Integrado. A unidade entre os trabalhadores da arte no metrô do Recife é algo marcante. Trata-se de uma proposta de trabalho justa, honesta e, apesar das incertezas, é a fonte de renda de diversas famílias recifenses.

Edição: Monyse Ravena