Archive for the ‘Uncategorized’ Category

FIOS DE TRAMA, UMA MOÇADA ARREBENTANDO NO CHORO

Julho 21, 2019

Por

 

Meu sobrinho, Fábio de Souza, me encontra e me fala de uns amigos, jovens instrumentistas, querendo entrar na roda do Alemão. O nome do conjunto é Fios do Choro.

Me manda alguns vídeos e me dou conta de que é um conjunto fantástico, com uma formação tradicional mas tendo como solista uma violonista com formação esmerada.

Ai vai um pouco desse pessoal.

 

 

 

 

 

 

DINHO NOGUEIRA E ZÉ BARBEIRO, DOIS VIOLÕES DO CHORO CORRENDO O MUNDO

Julho 21, 2019

 

Zé Barbeiro é um João Pernambuco contemporâneo. Tudo bem, Pernambuco é um dos deuses da música brasileira. Mas, como ele, Zé Barbeiro é um nordestino arretado, intuitivo, dono de uma musicalidade que o transformou em um dos+ autores referenciais da música brasileira.

Zé Barbeiro também é o nordestino afetivamente seco, se me entendem, aparentemente durão, pouco propenso a externar sentimentos e, mesmo assim, um sujeito sensível, amigo para toda a vida de quem conseguir penetrar no seu universo afetivo.

Dono de uma intuição genial no violão 7 cordas, teve um desenvolvimento musical pouco comum. Conheci-o em 1994, como 7 cordas do CD “Roda do Choro”, que solei. Já era grande. De lá para cá continuou crescendo. Em geral, os grandes músicos têm seu auge por volta dos 30 anos. Depois, se estabilizam e enfrentam a curva da idade.

Barbeiro não parou. Continuou crescendo, tornou-se um compositor referencial de choro, a ponto de ser o tema da tese de doutorado  de Cibele Palopoli (clique aqui). Mas sem nenhum tino para buscar novos caminhos, explodia seu talento tocando em botecos. O mais famoso deles foi do bar do Cidão, na Vila Madalena, com cinco ou seis meses apenas, famoso pelo fato de ninguém se queixar do serviço (porque inexistente), mas com uma música capaz de encarar qualquer palco do mundo.

Barbeiro passou por inúmeros conjuntos. Anos atrás, encontrou sua melhor tradução, em Dinho Nogueira, um filho de sitiantes do sul de Minas, nascido em Campestre, criado em Poços de Caldas e, nos tempos do interior, líder do famosíssimo conjunto Vacabraba, que reinava nos bailinhos da região.

Dinho é outro fenômeno de talento e persistência. Aprofundou-se nos estudos, veio na cara e coragem para São Paulo, entrosou-se com os círculos musicais paulistas e encontrou Zé Barbeiro.

Montaram o duo de violão e resolveram conquistar o mundo, montando excursões nas principais capitais europeias. De início receberam a ajuda inestimável de Yamandu Costa, não apenas um gênio do violão, como um coração generoso, sempre presente no apoio aos colegas, assim como seu antecessor como rei do violão, Rafael Rabello. Yamandu indicou uma produtora na França.

Desses contatos nasceu uma excursão à Europa, uma apresentação no Sunset Jazz Club, em Paris que resultou no CD ˆDinheiro Nogueira e Zé Barbeiro ao Vivo em Paris”, com dois violões. No show de Paris, na plateia estava o grande violonista Paulo Belinatti, sentado na primeira cadeira. A turnê durou 30 dias, passando pela França, Inglaterra, Holanda e França.

Este ano, haverá uma nova excursão, prevendo 14 shows de lançamento na Europa, começando pela maior casa de shows de Portugal, a Casa da Música em Porto.

Na 4a feira, ambos estarão fazendo um show no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

 

O POETA JAIME HUENÚN FALA SOBRE CHILE, UMA REPÚBLICA ASSASSINADA

Julho 21, 2019

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Mais do que uma nação saqueada, nós já vivemos no que Paul de Rokha chamou de “A República Assassinada”; assassinado para pausar por impostos patrióticos e estadistas, por autoridades de todos os níveis a quem o serviço público não dá a mínima. Água, terra, ar, mar, sol: todos vendidos ao menor preço.

Do Poeta Jaime Huenún, sobre a tragédia da privatização da água no Chile

Em Osorno, a cidade em que eu cresci, a tragédia, a impotência e a inquietação são desencadeadas. Lá, quase 200 mil pessoas sofrem com a falta de água potável por 10 dias, contaminadas por erro de hidrocarbonetos. Cidade cercada pelo bullying e negligência de Aguas Barcelona (Essal) e pelas paródias e insultos discursivos dos representantes do governo. Terra de chuvas e rios, nascentes e estuários que hoje não tem água para seus filhos, seus idosos e doentes.

Oito dos meus irmãos e irmãs com suas respectivas famílias moram lá. Minha mãe, prostrada por múltiplas doenças, mal consegue acessar copos racionados de água pura comprados a preços elevados em supermercados. Há também um fim no estoque de água engarrafada nas poucas empresas que trabalham. Meus parentes dizem que das chaves ou torneiras – quando as “janelas” de 1 ou 2 horas de distribuição são abertas – sai água turva e azul, quando não literalmente preta. Milhares de pessoas não podem trabalhar, milhares de Osorninos e Osorno estão condenados a voltar no tempo.

Osorno é agora um subúrbio hindu ou africano: as pessoas se aglomeram em frente às cisternas dos caminhões com carrinhos de mão cheios de tambores, baldes e garrafas de plástico. Outros retornam à prática huilliche de beber água de nascentes.

Pode um governo, os líderes políticos podem continuar a encher a boca com o que estamos a um passo do desenvolvimento? Todas as outras cidades do país podem dizer que essa tragédia nunca as afetará, considerando que a água é um negócio totalmente desregulado e redondo, que controla os capitais sanitários nacionais e estrangeiros?
Leia também:  A quem interessa uma aposentadoria capitalizada?

Mais do que uma nação saqueada, nós já vivemos no que Paul de Rokha chamou de “A República Assassinada”; assassinado para pausar por impostos patrióticos e estadistas, por autoridades de todos os níveis a quem o serviço público não dá a mínima. Água, terra, ar, mar, sol: todos vendidos ao menor preço.

LOS DÍAS NEGROS DEL INTENDENTE: CRISIS DEL AGUA EN OSORNO GOLPEA A JÜRGENSEN POR ERRORES EN SU GESTIÓN

https://www.msn.com/es-cl/video/noticias/masiva-protesta-en-osorno-contra-empresa-essal-por-falta-de-agua-potable/vp-AAEmECb

 

 

COM CENSURA E CERCO À ARTE, BOLSONARO REPETE DITADURA, QUE TEMIA A CULTURA

Julho 20, 2019
MORDAÇA À VISTA
Ao ameaçar Ancine de fechamento, presidente também ataca um mercado milionário, que emprega milhares de pessoas, por orientação ideológica
  
FLICKR FAMÍLIA BOLSONARO/VIA CONVERSA AFIADA

Bolsonaro e o ditador Médici, um de seus ídolos: ‘Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine’

São Paulo – O presidente Jair Bolsonaro (PSL), que em 200 dias ainda não apresentou nenhuma proposta para que o a economia funcione e o país cresça, desta vez centrou ataque na Agência Nacional de Cinema. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine”, afirmou, ao anunciar a intenção de levar o órgão com sede no Rio de Janeiro para Brasília, sob comando da Casa Civil. Ontem (18), o Conselho Superior de Cinema já passou do Ministério da Cidadania para a pasta de Onix Lorenzoni.

“Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos costumes; CONSIDERANDO que essa norma visa a proteger a instituição da família, preservar-lhe os valores éticos e assegurar a formação sadia e digna da mocidade.” O argumento que parece conduzir o atual governo é um trecho do decreto de censura da ditadura civil-militar (1964-1985) assinado em 1970 pelo general Emílio Garrastazu Médici, pouco mais de um ano após a edição do Ato Institucional (AI-5), que suspendeu direitos civis e garantias constitucionais.

Sobre quais os “filtros” que deseja impor à Ancine, Bolsonaro diz: “Culturais, pô! Temos tantos heróis no Brasil e não se fala desses heróis (…) Temos que dar valor a essas pessoas”, disse, sem explicitar quais seriam seus “heróis” – embora já tenha manifestado fervor pelo torturador coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Mérito?

A Ancine é responsável pelo fomento, regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro. Desde 2001, a agência vem criando mecanismos impessoais para a escolha de projetos, por meio de leis de incentivo e editais, que surtiram um resultado notável. Pontos são reformulados de forma constante, ainda há o que ser aprimorado, de acordo com os próprios produtores, e esse caminho estava sendo trilhado. Apenas neste ano, duas produções nacionais ganharam dois dos mais importantes prêmios do cinema mundial. Bacuraude Kleber Mendonça Filho, levou o Prêmio do Juri em Cannes e A Vida Secreta de Eurídice Gusmãode Karim Aïnouz, levou o prêmio Um Certo Olhar, no mesmo festival.

“Um dia depois de quatro filmes brasileiros serem selecionados para o Festival de Locarno, em um ano notável para o cinema brasileiro, com forte presença em Sundance, Rotterdam, Berlim e Cannes, o presidente anunciou planos para desmontar a agência do cinema porque ele não está feliz com os filmes que estão sendo produzidos”, resumiu o cineasta Mendonça Filho.

Outro cineasta, Fernando Fraiha, explica que o modelo da Ancine é baseado em uma “curadoria técnica” e não entra no mérito do conteúdo, para não favorecer algum viés ou ideologia. “É o mercado que escolhe os projetos através das afinidades entre investidores e filme (…) Pra quem se diz liberal, falar que o estado vai ditar oq pode ou não ser produzido, não é nem uma contradição. É uma heresia”, postou em rede social.

Não gostei: censura

Um dos pivôs escolhido por Bolsonaro foi a série #MeChamaDeBruna, que renovou para sua terceira temporada. A produção, que ganhou público e crítica, é considerada “imoral” pelo presidente, que não poupou ataques em entrevista coletiva. “Não pode é dinheiro público ser usado para filme pornográfico, só isso. Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá.” A produção conta a história de uma garota de programa e sua saga até deixar essa função.

A tentativa de Bolsonaro atinge diretamente o turismo e, principalmente, emprego e renda na própria área. De acordo com dados da Ancine, o audiovisual movimenta no país mais de R$ 24,5 bilhões por ano. Desde o início da série histórica da agência, em 2007, os números de emprego e retorno aumentam exponencialmente.

De acordo com números do antigo Ministério da Cultura (extinto por Bolsonaro), o setor movimentava 4% do PIB até o agravamento de seu desmonte, neste ano. O Banco Mundial calcula que a área seja responsável por 7% do PIB do planeta. O audiovisual cresceu expressivamente no Brasil na década passada. De 2009 para 2014, os investimentos federais foram de R$ 149,1 milhões para R$ 356 milhões. No mesmo período, o público nos cinemas cresceu 53%. São dados do Atlas Econômico da Cultura Brasileira, divulgados em 2017.

Fraiha se mostrou abalado com as ações de Bolsonaro. “Com ações como essa, ele pode até mirar no audiovisual, mas vai acertar no país. Vai impactar no PIB, desemprego e superavit primário. Mas todas essas questões pragmáticas são ignoradas pelo viés ideológico do governo. Que o Bolsonaro é contra a cultura, principalmente o audiovisual, todo mundo já sabe. Mas ele falar que ‘não faz sentido fazer filmes como Bruna Surfistinha com recursos da Ancine’ ele tá sendo contra um projeto que deu lucro pro Estado. Isso eu não sabia que ele era contra.”

 

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PEÇA MERGULHA NO UNIVERSO DE CAROLINA DE JESUS, A AUTORA DO CLÁSSICO “QUARTO DE DESPEJO”

Julho 20, 2019
ALÉM DO SEU TEMPO
Espetáculo retrata a vida e a obra dessa mulher negra e pobre, cuja obra revelou um Brasil que o Brasil insiste em esconder
    
PAULO PEREIRA/DIVULGAÇÃO

O livro “Quarto de despejo” foi traduzido para 13 línguas e vendido em 80 países. Política, história e sociologia se fundem na obra de Carolina de Jesus

São Paulo — Um “enigma” e um “poço sem fundo”. Assim a atriz, dramaturga e arte-educadora Dirce Thomaz define Maria Carolina de Jesus, a catadora de papel descoberta pelo jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé, em São Paulo, e autora do livro Quarto de despejo, lançado em 1960 e que logo se transformou em estrondoso sucesso.

Para Dirce Thomaz, o diário de Carolina de Jesus é “forte, real e visceral”. A atriz está em cartaz com a peça Eu e Ela: visita a Carolina de Jesus, espetáculo em que interpreta Carolina e no qual é também a diretora. A peça, baseada no diário de Carolina de Jesus, está em cartaz na Funarte, em São Paulo, até o dia 10 de agosto.

Poeta, compositora e feminista, Carolina de Jesus ainda cantava e dançava. “Uma mulher além do seu tempo. Quando falo que ela era um poço, agora estão descobrindo que Carolina também escreveu para teatro. A cada dia se descobre alguma coisa de Carolina”, afirma Dirce, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual.

A atriz conta estar mergulhada no universo desde 1988. Atuou no curta-metragem O papel e o Mar e, em 2009, interpretou Carolina de Jesus no cinema. “E daí não teve mais jeito, foi um mergulho nessa mulher incrível que é Maria Carolina de Jesus, esse universo incrível.” Dirce lembra que, ao ser lançado, Quarto de despejo vendeu mais que Jorge Amado. “Foi um best seller, foi uma fama, uma coisa muito louca.”

Carolina de Jesus aprendeu a ler aos 7 anos de idade, a idade correta para uma criança ser alfabetizada, mesmo ela sendo uma criança muito pobre vivendo na cidade grande. “Ela saia na rua lendo tudo, ela se encontrou ali. Fazia crítica à política, à história e à sociedade. A obra de Carolina não é só o diário do que ela passava na favela, é uma obra política e social de peso”, afirma a dramaturga. Quarto de despejo foi traduzido para 13 línguas, em 80 países.

“Ela só não é muito respeitada no Brasil. A Academia Brasileira de Letras não a reconhece como poeta, porque fala que ela teve só o segundo ano primário. Ela estudou muito. O Brasil sempre não quer falar das suas mazelas”, reclama Dirce. “Como vamos ficar falando da história das favelas, história de mulher negra favelada?”, ironiza.

Após o sucesso de Quarto de despejo, Carolina de Jesus não conseguiu mais espaço para editar novos trabalhos, e decidiu então editar a própria obra. “A gente (o povo negro) esperneia desde o período colonial, para sobreviver, para chegar em algum lugar, para estudar, para trabalhar. E a Carolina é um espelho muito grande para as mulheres negrassobre tudo o que acontece com a população negra. Carolina foi e é um marco na história do Brasil, uma referência forte para as mulheres negras.”

Eu e Ela: visita a Carolina de Jesus
Até o dia 10 de agosto
Funarte - Alameda Nothmann, 1.058, Campos Elíseos, São Paulo 
Sextas e sábados, às 19h, e domingos, às 18h 

A CRÍTICA DE DOR E GLÓRIA! CINESTESIA, POR ÉRICO ANDRADE

Julho 20, 2019

Crítica de Dor e Gloria! Sinestesia

Érico Andrade

Cor, sabor, cheiro, textura: sinestesia. As diversas linguagens artísticas sobretudo na contemporaneidade não raro almejam transpassar a barreira dos sentidos para as quais se voltam prioritariamente. A estratégia do diretor Pedro Almadóvar em Dor e Gloria para lidar com esse desafio estético é inovadora. Ele funde as diversas linguagens artísticas numa só película. Assim, as artes plásticas, o teatro, a literatura, o próprio cinema, ganham corpo numa narrativa cinematográfica sobre o desejo.

A temática é cara ao diretor. Sabemos. O que muda é forma como ele conduz o desejo por meio dos afetos de dor e glória. É um passeio nas artes para lhes tirar o que é mais estético, seguindo Maurice Merleau-Ponyt: dar existência visível àquilo que a visão comum crer ser invisível. É por isso que no filme de Almadóvar não importa mais a distinção – frequentemente artificial entre ficção e realidade – porque o que ele torna visível é o sofrimento que borra as fronteiras da percepção para se inscrever na nossa existência e em tudo aquilo que emana dela. O que é real, o que importa, é o sofrimento. Para ser mais preciso; a forma como a arte lhe oferece um contorno para que nossa percepção saia do ordinário e possa imergir no que nos conecta à terra: o tempo.

Com a arte não precisamos, para continuar um pouco mais com Merleau-Ponty de um sentido muscular para ter a voluminozidade do mundo. É por isso que os músculos, as articulações, expostos nas tomografias, são apresentados em Dor e Glória, compondo a montagem do filme (são cenas) e de um modo dinâmico. Elas flutuam. Não são resultados de um exame. É arte. Elas dançam diferentemente da personagem principal, presa à dor crônica, e mostram a voluminozidade da dor. Em outras palavras, ela são um bale de imagens cuja autonomia mostra paradoxalmente a falta de autonomia de quem suporta a glória a base de medicamentos. Como, aliás, o diretor frisa em repetidas cenas em que a quantidade de medicamentos é sublinha pela diversidade de suas cores.

Se podemos tomar o bale das tomografias como uma espécie de instalação que figura como cena do filme, é no teatro que Almadóvar funde ficção e realidade para que num monólogo – expressão mais literária do teatro – sobre o vício e o amor os momentos de felicidade retornem com a presença de um amor que dá matéria à memória. Textura.

E é a textura das artes plásticas que adensam as imagens do filme. O quadro do filme Sabor é desenhado por uma boca cuja língua é morango. Além de presentificar o invariavelmente correto estudo do vermelho, sobre o qual voltaremos mais na frente, indica, pela ambiguidade do sabor do morango, a ambiguidade dos sentimentos. E é o vermelho que conectas os dois quadros principais do filme. Sabor e Vício. Prazer e dor. É pelo vermelho que Almadóvar mantém a relação umbilical entre esses afetos em cujo apogeu repousa a apresentação da heroína; do prazer que alivia a dor e da dor que é desprazer para as populações responsáveis por sua distribuição, os traficantes. A Espanha pobre que assombra a memória do narrador.

É na ambivalência do desejo que o cinema de Almadóvar faz casa. São os afetos que roubam nossa respiração e preenchem a atmosfera de desejo nas cenas em que Salvador e Alberto percorrem os corredores da memória ou nas cenas quando Salvador lembra do seu primeiro, para recuperar a imagem de Manuel Bandeira, alumbramento. Com essas cenas Almadóvar enquadra como nossa relação com a memória é marcada por aquilo que nos escapa no presente. Afetos que não mais sentimos, mas que mantêm o vigor de ter sido. É a presença do que falta. E é também a velhice que realiza o que o corpo não comporta mais fazer. Certos sabores passam a pertencer apenas à memória. Viram quadro. São como alguns filmes de arte que posteriormente se vêm fadados a exibições esporádicas em salas rareadas de filmes alternativos.

Se a arte é, como dizia uma amiga, adiar a nossa morte, o cinema de Almadóvar mostra como ela – a morte – pode ser lenta e gradual para receber o nome de velhice. Ela acontece quadro a quadro no roteiro aberto de nossas vidas. E é na profusão de vermelhos, presente na última cena do filme, que aprendemos que a memória retém matizes de uma narrativa que como na arte é travessia.

Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

GUITARRISTA VICTOR BIGLIONE TOCA ROCK CLÁSSICO EM NOVO CD SOLO

Julho 19, 2019

19 DE JULHO DE 2019.

Com participação especial de Andy Summers (The Police), disco traz também composições autorais

Foto: Nando Chagas/Divulgação

Referência internacional no instrumento e artista mais do que consagrado, o guitarrista Victor Biglione lança seu novo CD, “Classic Rocks from Brazil”, realçando sua paixão pela verve roqueira, sempre com forte presença em mais de três décadas de carreira, com feitos surpreendentes – o músico já tocou e gravou dois CDs com Andy Summers (The Police), além de gravar e tocar com Steve Hackett (Gênesis), Jon Hiseman (Colosseum), Jon Robinson (Eric Clapton), Andreas kisser (Sepultura), Som Imaginário, A Cor do Som, Steve Tavaglione (Roger Waters), dentre muitos outros.

Reunindo recentes gravações feitas nos intervalos de suas inúmeras atividades musicais, o novo disco traz peculiares releituras e tributos aos mais importantes artistas de uma época considerada de ouro para o rock internacional.

Veja também:  De olho em vaga no STF, Bretas afirma: “Não sei se sou terrivelmente evangélico, mas sou fiel”

Fazem parte também da homenagem “Jam Back at the House ” e “Who Knows” (Jimi Hendrix), “We got to live together” (Buddy Miles), além de composições do próprio Biglione, como “Copacabana Balcony Blues” e “Latin Texas”.

Participaram do disco um grande leque de músicos, como os baixistas Marco “Bombom”, Alex Rocha e Luiz Alves, os bateristas André Tandeta, Roberto Alemão, Sergio Della Mônica e Athur Dutra, dentre outros. Andy Summers faz participação especial em “1+2 Blues”, de Larry Corryell, e a cantora Vera Negri brilha em todas as faixas cantadas com sua voz potente e rouca.

Biglione já ganhou dois Grammy’s  internacionais – com “Manhattan transfer” (1988)  e  com Milton Nascimento, no CD “Crooner” (2000). Em 2016, foi finalista do Grammy latino com seu CD solo “Mercosul”. Já tocou nos maiores festivais e casas do mundo, como  Montreux , Montreal , Aruba , Blue Note NY, Ottawa (Canadá) , Jazz Plaza (Havana, Cuba ), Frutas Tropicais (Finlândia), New York guitar festival.

UYELÊ DAS PRETAS ACONTECE NESTE SÁBADO, ÀS 16HS, NA CASA DA PÓLVORA

Julho 18, 2019

AFROFEMINISMO

Evento faz parte do 25J, mês da mulher negra, e contará com roda de diálogo, música, poesia, performance e feira preta

Redação BdF

Brasil de Fato | João Pessoa – PB

18 de Julho de 2019.

Uylê das Pretas terá Rafa Rasta MC - Feminismo negro neste, sábado! - Créditos: Card de divulgação
Uylê das Pretas terá Rafa Rasta MC – Feminismo negro neste, sábado! / Card de divulgação

Neste sábado (20) acontece mais um evento da programação do 25 de Julho: o Uylê das Pretas. Na sua segunda edição, o evento terá início às 14h, no complexo Casa da Pólvora, e tratá roda de diálogo, música, poesia, performance e feira preta. Segundo a organização, o Uylê das Pretas é uma ação político-cultural organizada pelos diferentes movimentos e  coletivos que pautam a questão de gênero, raça, classe e sexualidade, e que se juntam neste mês alusivo ao 25 de Julho para fomentar, estimular e produzir a visibilidade da arte e da cultura da mulher negra no estado. A atividade é uma produção da Coletiva Abayomi –  Mulheres Negras da Paraíba, Slam Parahyba e GMLB Maria Quitéria/Pb.

Com o tema: “Mulheres Negras pelo Bem Viver: Afrontando o Racismo por um Nordeste Livre,  o 25 de Julho – Dia Internacional das Mulheres Negras da América Latina e do Caribe – e Dia Nacional de Tereza de Benguela, é promovido pelo Movimento de Mulheres Negras na Paraíba, com a participação de várias organizações, gabinetes e movimentos sociais.

O evento terá abertura com uma Roda de Conversa com o tema: “Mulher Negra Interseccionalidade,  Questão de Gênero, Raça, Classe e Sexualidade”. Em seguida, vai haver a abertura da Feira Preta e início das atividades do palco, com uma Performance da atriz Fernanda Ferreira com o tema “Vidas Negras Importam”. Em seguida, começam os shows com a participação de vários grupos de cultura de rua e apresentações individuais, como o Slam das Minas/Pb; Slam Parahyba, Rafa Rasta MC, Batalha Freetyles, DjIsa Queirós, Dj AlY e espetáculos de dança, além do Mic Aberto.

Mariane Oliveira, do Slam Parahyba, fala sobre a importância do evento. “O Uyelê das Pretas é um convite para uma arte engajada. É  um encontro que se propõe a juntar aquilo que não deveria jamais ter sido separado: a Luta e sua Celebração. Festejar em dias difíceis é o que fazemos na cultura de rua. Através da arte, da fala, da Liberdade de expressão, esperamos transformar João Pessoa e o Nordeste em um lugar ainda mais colorido e diverso”, conclama a artista.

O evento tem como parcerias: a Prefeitura Municipal de João Pessoa, através da Casa da Pólvora e Fundação de Cultura – Funjope, o Governo do Estado, através da Secretaria  de Estado das Mulheres e da Diversidade Humana e Secretaria do Desenvolvimento Humano /Pb, e o Projeto Elas por Elas (PT).

Programação

14h Roda de Conversa – Mulher Negra e a questão de gênero, raça, classe e sexualidade

16h20 Abertura da Feira Preta

Abertura do Palco – Performance

Fernanda Ferreira “Vidas negras importam”

17h00 Mic Aberto

17h30 Slam Parahyba convida as Minas

19h00 Rafa Rasta Mc  e convidadas

20h00 Dj Iza Queiroz

Edição: Cida Alves

GRUPO POTIGUAR APRESENTA PEÇA “A JORNADA DE UM IMBECIL ATÉ O ENTENDIMENTO”

Julho 18, 2019

TEATRO

Adaptação do texto de Plínio Marcos é exibida nesta quinta (18) no TCP

Da Redação

Brasil de Fato | Natal (RN)

Julho de 2019.

Grupo de Teatro Facetas mergulha no texto de Plínio Marcos - Créditos: Robson Araújo/Divulgação
Grupo de Teatro Facetas mergulha no texto de Plínio Marcos / Robson Araújo/Divulgação

Na próxima quinta-feira (18), o Grupo de Teatro Facetas, Mutretas e Outras Histórias apresenta a peça “A Jornada de um Imbecil até o entendimento”, adaptação do texto original de 1960 escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos. O espetáculo será realizado às 20h, no Teatro de Cultura Popular Chico de Daniel. 

Na “Jornada”, que se passa em uma realidade paralela, política e religião se unem para manter o poder na mão de seus líderes, até que as coisas começam a mudar a partir da organização dos trabalhadores. A direção é assinada por Enio Cavalcante. 

Movido pelo desejo de montar um espetáculo que se relacionasse com o momento de crise política que vive o Brasil, e com o entendimento de que o fazer teatral é um ato político, o Grupo de Teatro Facetas mergulha no texto de Plínio, explorando os conchavos e as manobras políticas que estão por trás daqueles que se perpetuam no poder.

 

Edição: Marcos Barbosa

LIVRO SOBRE LUIZ GONZAGA MOSTRA COMO ELE AJUDOU A CONSTRUIR UM IMAGINÁRIO NORDESTINO

Julho 18, 2019

LITERATURA

Obra foi dissertação de mestrado do radialista Jose Mario Austregésilo e já está na quarta edição

Daniel Lamir e Vanessa Gonzaga

Brasil de Fato | Recife (PE)

Julho de 2019.

O livro também foca na multiculturalidade do pernambucano - Créditos: Divulgação/ALECE
O livro também foca na multiculturalidade do pernambucano / Divulgação/ALECE

“Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta” conta toda a trajetória artística do Rei do Baião. O livro, tema de pesquisa do radialista Jose Mario Austregésilo conta fatos já conhecidos sobre Luiz e também traz novidades descobertas e pouco exploradas sobre o artista. Para chegar até a história de Luiz Gonzaga, Jose Mario perpassou por outros artistas e leituras “Para chegar até Luiz e emergir no tema do sertão eu tive que ler outros autores como Euclides da Cunha, e aí das mais de 700 músicas selecionei as que tinham relação com o homem, a terra e a luta do homem nordestino e daí partimos para a análise”, explica. 

Dentre as várias histórias resgatadas por José Mario, uma delas relembra a vez em que Luiz esteve em Pernambuco em 1968, no auge da sua carreira, e não foi contratado para nenhum show, apresentação ou entrevistas, exceto uma única apresentação na Rádio Clube, no programa Comandos da Alegria. Lá, ele faz um discurso afirmando suas plenas capacidades de exercer seu trabalho e discute a desvalorização do artista no próprio estado. Depois, ele fez um show gratuito de quase três horas no antigo prédio da rádio. 

O livro também foca na multiculturalidade do pernambucano, que além dos ritmos como xote, forró e baião, também compôs para vários outros ritmos antes de se dedicar à música nordestina, como valsas, chorinhos, mazurcas e boleros. A imersão na música que relembrava sua terra veio anos depois por pedidos, principalmente, dos nordestinos que viviam no sudeste e relembravam suas origens ouvindo Luiz.

Percorrendo a discografia é possível perceber que o repertório de Luiz Gonzaga ultrapassa as músicas mais ouvidas no período junino, como músicas em maracatu, uma versão da música de resistência à ditadura “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré e até músicas no trio elétrico com Dodô, Osmar e Armandinho. Luiz retratou não só o imaginário que até hoje existe da seca e fome no sertão, mas também da beleza da caatinga, da alegria trazida pela chuva, do desenvolvimento do nordeste vindo com obras como os trens, das mulheres, da cultura do estado, como a feira de Caruaru e as comidas típicas da região.

Para ajudar a narrar a história, o livro é ilustrado com xilogravuras de J. Miguel, da cidade de Bezerros, como a capa do livro, que mostra o forró no céu com a chegada de Luiz Gonzaga. Uma das assertivas de José Mario sobre a obra do Rei do Baião é que ele ajudou a construir um imaginário para as outras regiões sobre o que é o nordeste e com isso, ele elege um lugar de fala e ao mesmo tempo um ponto de partida para outras discussões. O livro “Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta” pode ser encontrado à venda nas plataformas digitais e em livrarias online e físicas em todo o Brasil.

Edição: Monyse Ravenna