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VIDA E OBRA DA MILITANTE SOCIALISTA ROSA LUXEMBURGO É CONTADA EM RÁDIONOVELA

Outubro 17, 2017

ESTREIA

Narrada em dez capítulos, trama recria história da juventude à morte da economista polonesa

Redação

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

Ouça a matéria:

Radionovela estreia nesta segunda-feira; episódios serão lançados diariamente às 11 horas - Créditos: Reprodução
Radionovela estreia nesta segunda-feira; episódios serão lançados diariamente às 11 horas / Reprodução

No mês em que se celebra o centenário da Revolução Russa, a Fundação Rosa Luxemburgo e o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra lançam uma rádio novela contando a trajetória da filósofa e economista Rosa Luxemburgo.

O lançamento da radionovela ocorre nesta segunda-feira, às 19h, simultaneamente nos portais do MST, da Fundação Rosa Luxemburgo e do Brasil de Fato. Todos os dias, às 11h, será lançado um novo capítulo. No total, serão dez episódios.

Nascida no dia 5 de março de 1871, na Polônia, Rosa Luxemburgo foi uma das mais influentes pensadoras marxistas de sua época, fundando diversas organizações de esquerda e participando das lutas sociais na Europa no final do século 19 e começo do século 20.

Douglas Estevam, do coletivo de cultura do MST e um dos organizadores da rádio novela, destaca a importância de se retomar a trajetória e o pensamento de Rosa nos debates atuais sobre o centenário da Revolução Russa: “A Rosa foi uma grande defensora, junto com o Lenin, de uma concepção revolucionária do socialismo, e essa temática da Rosa tem ainda hoje uma grande atualidade”. 

Ele explica que um dos principais legados de Rosa é a defesa intransigente do socialismo e a luta que ela desempenhou contra o revisionismo, em um momento em que o pensamento socialista começava a ser questionado por seus próprios teóricos. Ele aponta ainda a importância da questão de gênero, que estava estritamente ligada à militância que Rosa trazia em seus debates. 

”Para nós, hoje adquire cada vez mais importância nos processos organizativos dos movimentos sociais, no próprio MST. A questão de gênero é central ligada a trajetória da Rosa”. 

A ideia de usar o recurso da rádio novela para falar sobre a vida de Rosa Luxemburgo se deu pela importância que o rádio tem, tanto na realidade brasileira quanto no MST, como explica Estevam: “Desenvolver a utilização de outras formas de linguagem de comunicação popular, aproveitando das novas tecnologias produzindo um material que pudesse aprofundar e desenvolver essa linguagem e que tivesse um maior alcance de comunicação”.

O diretor do escritório regional da Fundação Rosa Luxemburgo para o Brasil e o Cone Sul, Gerhard Dilger destaca que a revolucionária polonesa teve um papel fundamental e debateu, suas ideias políticas com todos os importantes ideólogos do Partido Social Democrata Alemão. 

Dilger lembra também o legado que a intelectual deixou ao mundo: “Em primeiro lugar, a convicção profunda de que você não pode construir uma sociedade comunista sem a participação constante das massas, ou seja, não há socialismo sem democracia. O seu internacionalismo também continua sendo um grande exemplo”, diz.

Confira o primeiro capítulo: 

Edição: Vanessa Martina Silva

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ALBERT CAMUS E O NIILISMO HUMANISTA

Outubro 16, 2017

Cultura

LiteraturA

por Eduardo Nunomura, na Carta Capital.
A reedição de obras do autor franco-argelino reabre a reflexão sobre a fragilidade da condição humanadificação 06/10/2
 
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Camus: embate encardido com Jean-Paul Sartre e combate ao nazismo

Naquele 10 de dezembro de 1957, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, o filósofo demarcou que um escritor jamais poderia estar à mercê daqueles que fazem a história, e sim a serviço daqueles que são afetados por ela. Em tempos de exacerbadas radicalizações políticas, o engajado e contestador Camus ressurge como alegoria perfeita para este tempo presente tão absurdo.

Cinco títulos de uma coleção de 11 obras de Camus acabam de ser relançados pela Editora Record – o restante dos títulos virá em 2018. O Estrangeiro, A Peste, O Homem Revoltado, A Queda e Diário de Viagem compõem um quadro amplo do pensamento filosófico camusiano. Estão presentes nesses cinco livros seus principais embates, como a confrontação do homem com a morte, a desolação da condição humana e a obstinada busca pela justiça social.

Filho de uma mãe que lavava roupas por dinheiro e de um pai que morreu na Primeira Guerra Mundial, quando ele tinha 1 ano, Camus cresceu contrariando o destino. A família pobre preferia que ele largasse os estudos para se tornar um tanoeiro, fabricante de tonéis de vinho, o trabalho do tio. Mas um professor primário e outro de filosofia, em épocas distintas, custearam os estudos daquele pied-noir, como era chamado o cidadão francês que vivia nos países ocupados no Norte da África.

Nascido em 1913, na Argélia, Camus foi membro do Partido Comunista, com o qual rompeu tempos depois, e ajudou a fundar o jornal Alger Républicain, onde denunciava a brutalidade dos franceses com os muçulmanos. As críticas o forçaram a se mudar para a França, em 1939, pouco antes da invasão alemã.

É nesse contexto que a filosofia camusiana é marcada pelo absurdo e pela revolta. O “homem absurdo” de Camus, mesmo sendo frágil, recusa-se a sucumbir ao destino de uma vida ordinária, sem frescor ou sentido.

Em O Estrangeiro, o mais popular dos romances do autor, esse sentimento é levado ao extremo com Meursault, o personagem que perde as referências e os anteparos emocionais a ponto de se tornar verdadeiramente livre – e, ironicamente, angustiado por se defrontar com a liberdade.

É uma das obras mais enigmáticas da literatura francesa, em que a narrativa abre indagações do começo (“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”) ao fim da história (“Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”).

Camus não via uma dicotomia entre o coração niilista do anti-herói Meursault, em O Estrangeiro, e os esforços do doutor-herói Rieux, o personagem-narrador de A Peste, que luta para salvar a vida dos moradores de Orã, na Argélia. Ambos tratavam do engajamento camusiano pela preservação da vida. O romance de 1947 é interpretado como uma grande metáfora relativa à ascensão do Terceiro Reich alemão.

A Peste é a história de um grupo de homens que se juntam para lutar contra uma epidemia que ameaça dizimar uma cidade. Esses personagens seriam os equivalentes, nos dias de hoje, ao exército de médicos cubanos que salvam vidas em outros países ou aos profissionais de saúde que se arriscaram na epidemia do vírus Ebola na África. Mas há ainda outros tipos de pragas que A Peste invoca, como a de uma sociedade capitalista que incita os homens a consumirem cada vez mais, mesmo não havendo recursos para todos.

É sintomático lembrar que o pensamento de Camus foi reduzido a uma tese de direita por ocasião da publicação de O Homem Revoltado, em 1951. Intelectuais como Jean-Paul Sartre acusavam-no de ser impreciso com a história e de não se engajar nas causas revolucionárias. “Você não sonhou em ‘fazer a História’, como diz Marx, mas impedi-la de se fazer”, criticou Sartre.

A obra de Camus é uma dura crítica à radicalização e à degeneração de revoltas, da Revolução Francesa, passando pelo nazismo, até as revoluções marxistas. Para ele, a justa contestação contra a condição humana miserável se esfarela quando os revolucionários são pautados pela perpetuação do poder.

À luz dos acontecimentos, Camus manteve-se coerente ao condenar enfaticamente as formas totalitárias de poder, sejam elas de direita, sejam de esquerda. “Sem ela (a liberdade), a justiça parece inconcebível para os rebeldes. Chega um tempo, contudo, em que a justiça exige a suspensão da liberdade. O terror, maior ou menor, vem então coroar a revolução”, escreveu.

A reação surge em A Queda, um romance de 1956 que foi visto pelos estudiosos como uma resposta às críticas que sofrera. Nele, Camus apresenta um narrador, autodenominado juiz-penitente, que se dispõe a fazer uma autocrítica dos erros (“O sentimento do direito, a satisfação de ter razão, a alegria de nos estimarmos a nós próprios são, meu caro senhor, impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar”), provocando os outros a fazerem o mesmo (“Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias”).

Camus era dono de uma escrita sofisticada, ferina. Perdia amigos, mas não perdia a oportunidade da crítica. Dois anos após publicar A Peste, já aclamado, foi convidado a viajar para o Brasil, entre junho e agosto de 1949, onde conheceu do Rio de Janeiro a Pernambuco, de Porto Alegre a Iguape (texto abaixo).

Chamou São Paulo de “cidade estranha”, uma “Orã desmedida”. Espantou-se com o contraste entre o luxo dos palácios e os morros do Rio, nos quais “as mulheres vão buscar água no sopé dos morros”, entediou-se com um ritual de macumba, mas se encantou com o bumba meu boi. Conversou com Oswald de Andrade e gostou de Manuel Bandeira.

Nessa viagem, revelou estar com depressão e exprimiu vontade de morrer. A morte, um de seus temas recorrentes, veio três anos após o Nobel de Literatura, em 1960. Numa viagem a Paris, o carro em que ia de carona se espatifou contra uma árvore e Camus morreu às 13h55.

MULHERES NEGRAS EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE SÃO TEMA EME ESPETÁCULO EM SP

Outubro 15, 2017
Rés’, da Corpórea Companhia de Corpos, aborda as várias formas de encarceramento do corpo feminino, negro e periférico. Esta primeira obra de uma trilogia estreia no dia 17 de outubro no Sesc 24 de Maio
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
                                            GAL OPPIDO/DIVULGAÇÃO
Mulheres

‘Usamos os nossos corpos para denunciar o que um corpo negro feminino sente em uma situação de encarceramento’

Dançar para refletir sobre a condição das mulheres negras e periféricas em situação de cárcere no Brasil. Este é o propósito dos integrantes da Corpórea Companhia de Corpos no espetáculo de dança Rés, que estreia no dia 17 de outubro, no Sesc 24 de Maio, na capital paulista. Entre os temas abordados na obra estão a invisibilidade, a vulnerabilidade e as diversas formas de violência que atingem estes corpos femininos encarcerados.

“Para além das grades e cadeados, Rés procura lançar o questionamento sobre quantas portas fechadas já existiram, existem e ainda existirão na vida destas pessoas que, de certa forma, são marcadas por serem mulheres negras. A obra faz uma análise também sobre o entorno e sobre as mulheres que acabam levando uma vida de encarceramento por terem companheiros, filhos e outros familiares em situação de cárcere”, descreve a companhia.

Dirigida por Verônica Santos, esta é a primeira obra de uma trilogia do grupo cujo principal tema de investigação é levar ao público “um novo olhar sobre como transladar o corpo negro cotidiano para a cena”. Apesar do nome da peça ser o feminino da palavra ‘réus’, a obra não representa literalmente presidiárias como personagens, figuras ou bailarinas, mas utiliza a dança para apresentar três corpos femininos e negros encarcerados física e metaforicamente como forma de promover reflexões e denúncias.

“Usamos os nossos corpos para denunciar o que um corpo negro feminino sente em uma situação de encarceramento. É por isso que a encenação não fala de números estatísticos. Buscamos uma reação da plateia, um incômodo ou simplesmente um estado de inércia. Não porque são espectadores, mas sim por sentirem o peso do encarceramento, queremos remetê-los às suas próprias realidades. Em Rés, a plateia nunca é um mero observador”, declara Malu Avelar, uma das criadoras da Corpórea.

“Decidimos evidenciar o protagonismo do corpo negro dentro das estruturas sociais. Quando falamos desse protagonismo, estamos dizendo que a nossa pesquisa são esses corpos em ação. Sabemos que na estrutura social brasileira pouco se vê pessoas de peles negras ocupando altos cargos, desde as artes até a construção civil. Então, entendemos que quebrar essa estrutura vai um pouco mais além de ocuparmos os lugares que dizem não nos pertencer. Assim, entendemos que, para essas estruturas serem quebradas, deveríamos, então, evidenciar esses corpos numa estrutura que chamamos de ‘protagonismo’, corpos que constroem e são invisibilizados pela desvalorização da cor da pele associada ao campo de trabalho”, afirma o ator William Simplício.

Para ele, é importante que as situações de exclusão sejam discutidas para quebrar o ciclo de reprodução de preconceito. “Retratar e discutir sobre o encarceramento em massa já gera um incômodo social, por se tratar de um assunto que automaticamente remete ao racismo, gênero e classe. A sociedade brasileira possui em seu esqueleto a reprodução do colonialismo, que contribui com a moralização, condenação de corpos negros, de qualquer outro gênero que não seja o masculino, onde a classe mais baixa fica não só à margem da sociedade, mas também anulada do contexto social”.

A segunda obra da trilogia será uma montagem teatral e a terceira, um espetáculo em dança com aspectos performativos sobre a memória do corpo e sua máscara, a pele.

Rés
Quando: terça-feira, dia 17 de outubro, às 21h
Onde: no teatro do Sesc 24 de Maio
Rua 24 de Maio, 109, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 6 (credencial plena)
Duração: 50 minutos
Classificação: 12 anos
Mais informações: (11) 3350-6300

Ficha técnica
Concepção e direção: Verônica Santos
Intérpretes criadores: Débora Marçal, Malu Avelar e Verônica Santos
Direção musical: Melvin Santhana
Trilha sonora: Melvin Santhana e Manassés Nóbrega
Preparação de corpo cênico: William Simplício
Provocadores: Dina Alves e William Simplício
Iluminação: Danielle Meireles
Figurino: Débora Marçal e Wellington Adélia
Fotógrafo: Gal Oppido
Vídeo performance: Noelia Nájera
Produção executiva: UTPA

CANAL EUROPEU LANÇA DOCUMENTÁRIO SOBRE GOLPE NO BRASIL

Outubro 14, 2017
Um ano depois do impeachment da presidenta Dilma Roussef, ARTE fez uma radiografia das consequências do golpe. Em “Brasil – O Grande Passo para Trás”, Gregório Duvivier encontra movimentos de resistência
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
                                                                   REPRODUÇÃO

Filme

Temer não tem legitimidade popular. Ele é a vitrine de uma maioria parlamentar dedicada aos próprios interesses’

“Uma crise profunda”, “uma cativante radiografia das mudanças em curso, entre o recuo democrático e a resistência”. É assim que o canal público de TV franco-alemão ARTE descreve o documentário Brésil – Le Grand Bond Arrière, do francês, Brasil – O Grande Passo para Trás, que apresenta os protagonistas do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, as consequências alarmantes para a população brasileira e o movimento de resistência popular que vem ganhando força.

Com pouco mais de 55 minutos de duração, o filme dirigido por Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux mostra ao público europeu o quanto o Brasil retrocedeu em tão pouco tempo. “Menos de um ano e meio de sua eleição, apesar das 54 milhões de pessoas que lhe depositaram sua confiança para um segundo mandato, alguns celebram, outros denunciam um golpe de Estado, mas, em todo o país, a sensação é de mal-estar. Os deputados que deveriam representar e trabalhar pelo futuro do Brasil votaram em nome de suas famílias, de seus filhos, de suas mulheres e de suas religiões, e não em nome do povo ou do país. Pela primeira vez, o povo viu a verdadeira cara de seus políticos”, narra o documentário já nos primeiros minutos.

O humorista Gregório Duvivier, um dos criadores da série Porta dos Fundos, é uma espécie de anfitrião do documentário e, além de criticar os protagonistas políticos responsáveis pela situação em que o país se encontra, vai ao encontro de movimentos e pessoas que fazem resistência, como por exemplo os Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra e dos Sem Teto, de estudantes secundaristas que promoveram acampamentos em escolas e uma parte da imprensa independente.

A imprensa tradicional é completamente desmascarada em seus objetivos. “O novo presidente Michel Temer poderia bem estar implicado nos casos [de corrupção] da Lava Jato. Mas disso, a imprensa – toda a imprensa – não fala nunca”, pontua a locução em off. Um dos entrevistados, o jornalista Luiz Carlos Azenha, concorda: “O Brasil está muito próximo de uma ditadura midiática, uma ditadura forjada por meia dúzia de famílias. Estamos perto disso. Eu tenho uma longa história no jornalismo e nunca vi nada parecido com o que está acontecendo agora”.

O filme descreve o presidente Michel Temer como um mero representante de uma classe que visa apenas seus próprios interesses. “Chocados, os brasileiros se calaram, mas remoem: os muros exibem o espírito do povo, ‘fora Temer’. A taxa de popularidade do novo presidente está próxima de zero hoje. Ela talvez fique negativa se ele for citado também nos casos de corrupção, como dois terços dos deputados. Temer não tem nenhuma legitimidade popular. Ele é simplesmente a vitrine de uma maioria parlamentar discrepante ferozmente dedicada aos próprios interesses, como os deputados da bancada rural que não têm vergonha alguma de exibir seu poder”, segue a narração.

E para provar o que vem a dizer, o vídeo segue com uma entrevista com o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP): “A agricultura é a base do país. Se você não colocar um ministro que fale a mesma língua que a nossa frente parlamentar, não fica muito tempo, nem o ministro nem o presidente”.

Em seguida, o parlamentar Luiz Carlos Heinze (PP-RS) apresenta sua fazenda, sua família e suas milhares de cabeça de gado. O parlamentar que levou o Prêmio de Racista do Ano da Survival, entidade internacional de defesa das populações indígenas, é apresentado como um “modelo de sucesso à labrasileira” por fazer parte de uma das famílias abastadas que recebeu terras durante a ditadura militar.

“Se o Brasil colhe 200 milhões de toneladas de grãos e tem um rebanho de mais de 200 milhões de cabeças de gado, tudo isso foi plantado naquele momento”, declara orgulhoso o político. “Mas quando o PT tomou o poder e começou a dividir as terras com os sem-terra e os indígenas, ele ficou evidentemente bravo. O ‘bom’ deputado se deu conta de que ele não gostava de todas as formas de divisão”, zomba a narração.

Entre os retrocessos do governo Temer apresentados pelo filme estão os cortes de incentivo à agricultura familiar, aos programas de habitação popular como o Minha Casa Minha Vida, entre outros. O tempo todo reforça-se que nada disso é mostrado pela grande mídia, apenas pela imprensa alternativa, “que vem se desenvolvendo rápido”, como é o caso da Agência Pública, devidamente apresentada pelo filme.

O recuo à direita nas prefeituras brasileiras e na política de vários países da América Latina também são temas que vêm à tona na obra. É claro que o cenário geral é desanimador, mas nem só lamentação (e vergonha alheia) chegam ao espectador. Além da esperança vinda da mídia independente, Gregório Duvivier pontua que é notável a resistência popular exalada pela nova geração. O longa metragem afirma que as ocupações das escolas por estudantes são o “símbolo de um país que traz de volta oxigênio para a democracia”.

A indústria brasileira do cinema – que tem como principal distribuidora a Globo Filmes – vem investindo recursos captados em leis de incentivo fiscal em filmes de ficção que romanceiam e glamorizam o pano de fundo de golpe – um deles, baseado na Lava Jato, tem sido fracasso de público. Cabe, então, aos produtores independentes internacionais apresentar a narrativa do momento histórico brasileiro.

Brasil – O Grande Passo para Trás não está mais disponível na página da ARTE, mas pode ser assistido em diferentes canais no YouTube, a maioria em francês e sem legendagem. O link abaixo apresenta a versão alemã com legenda em português:

ANA COSTA LANÇA CD AO SOM DO BANDOLIM DE CARRAPICHO RANGEL

Outubro 14, 2017

por Augusto Diniz

Está disponível nas plataformas de distribuição de música digital na internet o quinto CD da cantora carioca Ana Costa. Sambista da chamada geração da Lapa do Rio, ele lança o disco “Do começo ao infinito”, em parceria com o talentoso bandolinista Carrapicho Rangel, radicado em Araraquara (SP) e que este ano lançou também o álbum instrumental “Inspirações”.

​O trabalho de Ana Costa e Carrapicho Rangel é bem intimista (diferente dos outros da cantora), com voz e som de bandolim, com algumas entradas esporádicas de fundo de violão e percussão.

Há uma faixa gravada com a participação de mestre Monarco (“Obrigado pelas flores”, dele com Manacéia); e outra com Vidal Assis, que compôs com a cantora a música “Valsa de ferro”. As outras composições são dela com parceiros destacados do samba, como Luiz Carlos Máximo, Moyseis Marques, Cláudio Jorge, Teroca e João Cavalcanti, além de Zélia Duncan.

Quando partiu para a carreira solo – depois de se apresentar nos bares do Rio por muitos anos com um grupo de samba só de mulheres, o “Roda de Saia” (a percussionista do grupo, Bianca Calcagni tornou-se produtora de Ana Costa) -, ela mergulhou em trabalhos oscilando entre o samba tradicional e um estilo mais ligado à MPB.

Aliás, uma das marcas da geração da Lapa são as constantes migrações nos trabalhos para a MPB – além de no começo do movimento terem feito um resgate dos sambistas que deram origem ao samba urbano no Rio. A geração anterior a da Lapa, a do Cacique de Ramos, embora tenha renovado a forma de tocar o samba, com a entrada de novos instrumentos como o repique de mão, tantã e banjo, foi (e é) praticante plena no gênero.

O primeiro e bom disco da Ana Costa intitulado “Meu carnaval” (2006) já mostra estas oscilações entre o samba e a levada mais de MPB em algumas canções. Já o segundo “Novos alvos” (2009), vai de Martinho da Vila, sua referência (e padrinho musical), a Carlinhos Brown, Paulinho Moska e Leila Pinheiro – os dois últimos cantam no CD. O terceiro “Hoje é o melhor lugar” (2012) é samba na veia, com gravação de alguns clássicos do gênero. Em 2015, lançou um trabalho ao vivo em homenagem a Martinho da Vila, cantando suas criações – a cantora já tinha feito trabalhos musicais com as filhas de Martinho.

Esse último disco de Ana Costa segue a linha menos amarrado ao samba tradicional, com um trabalho aberto a outras experimentações, com valsas, choros e canções. O CD “Do começo ao infinito” é para sentar e ouvir uma boa voz e um ótimo bandolim.

TRIBUTO À EDUCAÇÃO NO DOMINGO TERÁ ZÉLIA DUNCAN, CHICO CÉSAR E ILU OBÁ DE MIM

Outubro 13, 2017
Festa-ato do Dia do Professor promovida pela Apeoesp vai lançar também movimento Todos em Defesa da Escola Pública e da Valorização dos Professores. A partir das 14h, na Avenida Paulista
por Redação RBA.
 
 
tributo

Prefeitura proibiu evento no local; Apeoesp obtém liminar

São Paulo – Zélia Duncan, Chico César e o grupo de percussão Ilú Obá de Min estarão na festa do Dia do Professor no domingo (15), na Avenida Paulista. O evento é chamado de Tributo à Educação pela entidade organizadora, o Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) e será realizado entre 14h e 17h na esquina da avenida com Rua Ministro Rocha Azevedo (entre as estações Consolação e Trianon-Masp do metrô).

O Tributo à Educação lançará o movimento Todos em Defesa da Escola Pública e da Valorização dos Professores. Em pesquisa recente realizada pela Apeoesp, 75% da população em geral, 60% dos pais, 58% dos estudantes e 73% dos professores afirmaram que o ensino público piorou nos últimos anos. Por isso, a expectativa dos organizadores é que a festa-manifestação tenha grande participação de pais, estudantes e toda comunidade escolar, além de movimentos sociais, artísticos e políticos.

No lugar planejado

A prefeitura de São Paulo havia proibido a realização do ato no local planejado pela Apeoesp. A entidade acredita em motivação política por parte da administração do prefeito João Doria, e chegou a mudar as apresentações para a Praça Alexandre Gusmão, ao lado do Parque Trianon.

“Ao mesmo tempo, ingressamos com recurso ao Tribunal de Justiça, que concedeu liminar e o evento será realizado no local original, Paulista com Rocha Azevedo”, diz a presidente a Apeoesp, Maria Izabel Noronha, a Bebel. “Uma vitória da persistência da entidade e dos professores contra o autoritarismo da gestão Doria à frente da Prefeitura de São Paulo. Estamos fazendo valer o livre direito de manifestação, assegurado pela Constituição Federal”, comemora.

FILME SOBRE CLARA NUNES ESTREIA COM PROTESTO CONTRA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Outubro 12, 2017
Documentário surgiu de trabalho de pesquisa e traz cenas inéditas, como a apresentação da cantora na Suécia, na década de 1970. Para a estreia, produção do filme pediu que espectadores comparecessem vestidos de branco para um protesto contra a intolerância religiosa
por Isabela Vieira, da Agência Brasil.
 
                                                          WILTON MONTENEGRO
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Direção optou por um documentário em primeira pessoa, sem entrevistas com artistas contemporâneos ou biógrafos

Rio de Janeiro – De cantora de bolero no interior de Minas Gerais a diva do samba no Rio de Janeiro, Clara Nunes se imortalizou como uma das maiores cantoras brasileiras. De vestido branco, com sua cabeleireira vasta e tiaras de conchas e flores na cabeça, ela própria narra sua história no documentário Clara Estrela, dos realizadores Susanna Lira e Rodrigo Alzugui. Feito com imagens de arquivo, o longa-metragem estreou hoje (9) no Festival do Rio, no Cinepolis Lagoon, zona sul cidade. A mostra de cinema exibirá 250 filmes até o próximo domingo (15).

O documentário é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa e traz cenas inéditas, como a apresentação da cantora na Suécia, na década de 1970. Em outras passagens, Clara Nunes revela suas raízes, desde sua saída de Paraopeba – cidade próxima a Belo Horizonte – até se tornar intérprete de compositores como Cartola e de Candeia. Ela também narra a influência das religiões afro em sua obra. Candeia, aliás, é autor de O mar serenou, uma das músicas mais executadas de Clara até hoje, passados mais de 30 anos de sua morte. Clara faleceu prematuramente, por uma complicação após uma cirurgia de varizes.

Para a estreia hoje, a produção do filme pediu que espectadores comparecessem vestidos de branco para um protesto contra a intolerância religiosa, um tema relevante para Clara Nunes, que era umbandista. O documentário também será exibido amanhã (10), às 18h, no Espaço BNDES, no centro, e na quarta-feira (11), às 14h, no Ponto Cine, no bairro de Guadalupe, na zona norte. A cantora era idolatrada na região, popularmente conhecida como subúrbio.

Primeira pessoa

A direção optou por um documentário em primeira pessoa, sem entrevistas com artistas contemporâneos ou biógrafos. A diretora Susanna Lira explicou que, diante do vasto acervo audiovisual, seria importante deixar a própria se apresentar, sobretudo às novas gerações.

“Achamos que, primeiro, íamos dar voz a uma pessoa que morreu há três décadas, da forma mais próxima a que ela usaria para contar a própria história”, disse. “Se alguns fatos (sobre sua vida) não estão no filme é porque ela não mencionou, então (não queria falar sobre isso), a gente não colocou. O resultado é bem poético”, define.

Quando não é a própria Clara quem comenta sua vida em inúmeras entrevistas dadas a emissoras de TV e rádio ao longo dos anos, a atriz Dira Paes é quem interpreta a cantora em alguns trechos. A escolha de Dira foi feita para dar ainda mais peso à brasilidade da cantora, explicou Susanna Lira. “Clara representava essa mulher que vinha do interior para a cidade grande, o que é o caso da própria Dira, que tem uma trajetória semelhante, por ter vindo do Pará”, justificou.

Apesar do vasto material disponível, Clara Nunes, que rompeu paradigmas na indústria fonográfica e chegou a vender mais de 100 mil cópias, não tinha sido retratada em um documentário até hoje. Para os realizadores, essa foi também uma oportunidade de misturar passado e presente.

Susanna conta que o que mais a surpreendeu fazendo o filme foi perceber o quanto Clara Nunes é atual. “Já naquela época ela falava sobre empoderamento da mulher, a importância da mulher trabalhar, ser independente, sobre intolerância religiosa, sobre o respeito à fé do outro”, destacou.

Première Brasil

Clara Estrela integra a mostra Retratos, que reúne biografias dentro da Première Brasil. Nela, também está em cartaz o filme Callado, da documentarista Emília Silveira e Henfil, de Angela Zoé. O primeiro marca o centenário do escritor e jornalista Antônio Callado, incluindo a passagem dele pela britânica BBC, além de bastidores de suas reportagens. As últimas exibições de Callado no festival foram hoje, às 18h, no BNDES, e amanhã, às 14h, no Ponto Cine.

“Esse é um filme sobre uma paixão”, contou a documentarista Emilia Silveira. “Ele era um grande escritor e jornalista. Seu livro mais famoso, o Quarup, marcou minha vida, minha juventude”, completou Emilia, que também é autora do filme Galeria F. Ela juntou o centenário de Callado com os 50 anos do romance Quarup para abordar a vida e a obra do artista.

Já o filme sobre Henfil recupera o trabalho do cartunista e ativista dos direitos humanos com depoimentos de seus colegas do jornal Pasquim. A obra mostra como o artista usou seus desenhos contra a ditadura militar e também para falar da hemofilia, doença da qual sofria. Ele precisava fazer constantes transfusões de sangue, por meio das quais acabou contraindo o vírus HIV. O longa estreou semana passada e sua última exibição será sexta-feira (13), às 14h, no Ponto Cine.

“É PRECISO FALAR DE DITADURA E VIOLÊNCIA, SÃO TEMAS CONTINENTAIS”, DIZ CINEASTA CHILENO

Outubro 11, 2017

PAIXÃO DE MEMÓRIA

Mostra sobre Patricio Guzmán apresenta principais obras do documentarista que dedica a vida e a carreira em retratar a brutalidade do regime autoritário e seus efeitos na sociedade
por Luciano Velleda, da RBA.
 
DIVULGAÇÃO

Patricio Guzmán acredita que a memória e o olhar para o passado indicam o caminho do futuro

São Paulo – Reconhecido como um dos maiores documentaristas da América Latina, o chileno Patricio Guzmán tem pela primeira vez uma mostra cinematográfica no Brasil exclusivamente dedicada a sua obra. Iniciada no último dia 5, no cine Caixa Belas Artes, em São Paulo, a mostra Paixão de Memória apresenta, até a próxima quarta-feira (18), 11 filmes dirigidos pelo cineasta, além de um documentário sobre ele, Filmar Obstinadamente(2014), de Boris Nicot.

Na programação estão desde a clássica trilogia A Batalha do Chile (1975, 1976 e 1979) até obras mais recentes, como Nostalgia da Luz (2010) e O Botão de Pérola (2015), além de outros filmes menos conhecidos, mas não menos importantes. É o caso de Em nome de Deus (1978) e A Cruz do Sul (1992), obras em que o documentarista se afasta da ditadura chilena – seu grande tema na carreira – e investiga as culturas latino-americanas pré-colombianas e a influência da religião.

Na noite de segunda-feira (9), Guzmán participou de um debate sobre cinema documental ao lado do professor Reinaldo Cardenuto, de História do Cinema na Fundação Armando Alvares Penteado, de Carolina Amaral de Aguiar, pós-doutora em cinema, e Ignacio Del Valle, professor de cinema latino-americano na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

A seguir, os principais depoimentos de Patricio Guzmán durante o debate:

Relação com a luta popular e o governo de Salvador Allende

“Meu primeiro filme, O Primeiro Ano (1972), era uma descrição do momento, um período de celebração, de alegria com a vitória de Allende. É um filme divertido, num momento em que não havia oposição e a direita não sabia o que fazer. Estávamos todos entusiasmados, então não havia autocrítica. Mas nunca fui militante de uma única força política e excluindo as outras. Sempre tive o governo Allende como um fenômeno de massa e não como de um partido ou outro. Na terceira parte de A Batalha do Chile (1979), o filme mostra como os grupos populares que apoiavam o governo queriam mais rapidez nas reformas. Apesar da minha posição pessoal, fui tolerante com todos os personagens, pois não queria tomar partido dentro das legendas de esquerda.”

Morar fora do Chile ao mesmo tempo em que seus filmes tratam dos últimos 40 anos de memórias do país

“Não tenho uma definição exata do que faço. Também vivo fora não sei por quê, me acostumei a morar em outro lugar (atualmente Guzmán vive na França) e isso me ajuda. Gosto de não estar em nenhum lugar, me acostumei com essa sensação de não viver fixo em nenhum lado. Vou seguir fazendo filmes sobre o Chile até morrer, e não sei por quê. Tenho ideias claras sobre o Chile, mas não conheço o dia a dia. A pátria é o de menos, o importante é a justiça e os valores que se defende. Muitas vezes, quando estou no Chile, me sinto sozinho, chateado e preciso sair.”

Método de filmar

“Sempre escrevo um guia antes de começar um filme. Invento paisagens que sei que existem, mas nunca vi; invento personagens que depois preciso encontrar. Coloco no guia sobre o que vai ser o filme, onde será, com quem vai ser. É uma intenção de como tratar o tema, mas quando começo a filmar, as coisas mudam. Mesmo assim, o guia é fundamental, não é preciso, mas é muito útil.”

Diferentes modos de documentar

“No começo fazia o cinema direto, o cinema verdade. Depois em outros filmes há mais reflexão, a busca por personagens, uma história que se abre para algo maior. São dois estilos. A batalha do Chile é cinema verdade porque não tinha outro modo de fazer.”

A união do poético e do político

“Quando era jovem não me interessava muito por política. Comecei a aprender mais quando fui morar na Espanha e passei a ler sobre a ditadura de Francisco Franco. No Chile fui aprendendo com amigos, porque não conhecia a cultura política do país. E isso depois foi útil para retratar a vida do país, também com humor, algo que fica muito melhor do que quando a pessoa atua como um militante, o que acaba tirando a criatividade com a câmera. Os chamados ‘feitos invisíveis’ ou ‘quem fez o quê’ é um conceito que ajuda muito. Quando se descobre isso, é algo extraordinário, é um motor documental estupendo se filmar o que não se vê.”

A falta de coragem do cinema latino-americano em abordar temas das forças armadas, do sistema financeiro e da mídia

“São temas complicados e poucos tomam a iniciativa de enfrentá-los, sobretudo sobre o Exército e o capital financeiro. Não sei por que não se fala disso. Mesmo no Chile faltam filmes sobre as forças armadas. Acredito que é preciso seguir falando da ditadura e da violência, são nossos grandes temas continentais, tem que se continuar por toda a vida. Temos um só tema, que é falar de nossos problemas até o fundo, aconteça o que acontecer há que se continuar nesse caminho de combate, com todas as linguagens. Esse é um tema perpétuo.”

A importância da memória

“Acredito que o presente se compõe de memória. Se olha para frente, mas também se olha para trás. É um tema magnífico para avançar. É no passado que está o futuro. O ângulo do olhar é melhor quando se olha para trás. O passado é toda a nossa vida e tem que se pensar nele porque ali está o futuro.”

Como filmar a dor humana

“Simplesmente entrevistando frente a frente, até encontrar a essência. Não há problema teórico que impeça de caminhar e seguir adiante. Todas as perguntas são lícitas, até as mais terríveis, desde que se saiba perguntar. É preciso falar do tema para que se possa superá-lo.”

A relação entre a história e o fantástico em Nostalgia da Luz, filme rodado no deserto do Atacama e que mostra a busca dos astrônomos ao lado de mulheres que procuram pelos restos mortais de parentes

“É uma procura para baixo e outra para cima, numa região linda e misteriosa. É estupendo filmar na região. O fantástico é a maneira como se chega ali, os telescópios enormes, templos da sabedoria humana e da curiosidade. Também é fantástico quando as mulheres contam que estão há 40 anos procurando seus parentes no solo e só acham pequenos ossos. Na região há muitos arqueólogos e eles ensinaram para essas mulheres técnicas para se vasculhar o solo. É um território incrivelmente interessante para conhecer o passado da terra e do mundo, um lugar que parece não ter nada e parece ter uma única cor. Tem uma pureza enorme nesse pedaço do Chile, um lugar magnífico.”

A crise política do Brasil

Todo mundo conhece a crise brasileira. Não sei e creio que ninguém sabe o que vai acontecer. É uma crise grave porque o Brasil influencia todo o continente. No Chile há uma espécie de fadiga, os problemas continuam e ninguém tem a solução, um certo cansaço. Algo parecido pode acontecer no Brasil, uma fadiga da sociedade diante dos problemas do país.

50 CANÇÕES PARA CHE GUEVARA

Outubro 10, 2017

MEMÓRIA

No dia em que se completam 50 anos da morte do Che, o Soy Loco Por Ti preparou uma seleção de canções em sua homenagem

Redação

Portal Soy Loco Por Ti

Uma das mais conhecidas é a canção “Hasta Siempre, Comandante”, composta pelo músico cubano Carlos Puebla. - Créditos: Reprodução
Uma das mais conhecidas é a canção “Hasta Siempre, Comandante”, composta pelo músico cubano Carlos Puebla. / Reprodução

Nove de outubro de 1967. Há exatos 50 anos Ernesto “Che” Guevara era executado numa pequena escola no povoado de La Higuera, na Bolívia. Morria o homem, nascia o mito.

A força de sua figura e sua brusca morte causaram comoção nos círculos militantes da época e influenciaram nas gerações seguintes,  gerando uma riquíssima obra poética e musical em sua homenagem, que reforça a imagem de herói do argentino-cubano.

Para a data de hoje, o programa de rádio Soy Loco Por Ti preparou para o Brasil de Fato uma seleção de 50 canções em homenagem ao Che, que você pode ouvir a seguir.

Uma das mais conhecidas é a canção “Hasta Siempre, Comandante”, composta pelo músico cubano Carlos Puebla, um dos principais cantores da Revolução. “Aquí se queda la clara, la entrañable transparencia, de tu querida presencia, Comandante Che Guevara”, quem não conhece? Além disso, Puebla compôs “Un Nombre”.

Silvio Rodriguez, talvez o maior gênio da música cubana do período pós-revolucionário, também compôs várias canções inspiradas em Che Guevara, como relata num discurso ao receber o título de doutor honoris causa na Argentina.

Mas Silvio adota um estilo distinto ao de Puebla. Ao discurso direto e panfletário deste, Rodriguez impõe seu estilo repleto de metáforas, como em “La era está pariendo un corazón”, sucesso na voz de Omara Portuondo.

Em mais de cinco obras inspiradas ou dedicadas a ele, raramente chega a mencionar o nome do guerrilheiro morto, exceto no título de uma canção: “América, te hablo de Ernesto”, composta em visita ao Chile, quando ao ver um mural com homenagem a diversos próceres da luta revolucionária latino-americana não encontrou a imagem do Che.

Em outra canção diz: “seu nome e sobrenome são fuzil contra fuzil”. E ele explica: “mencionei a conclusão extrema a que havia chegado um homem: que aos fuzis dos opressores, podiam responder os fuzis dos oprimidos”. Outra composição refinada é de Pablo Milanés, compatriota e parceiro de Silvio, que canta “Si el poeta eres tú”. “O que eu posso te cantar Comandante, se o poeta és tu?”

Os grandes nomes da Nueva Canción Chilena também dedicaram canções a Ernesto Guevara. O “cantautor” Victor Jara compôs “Zamba del Che” e “El Aparecido”, que fala da perseguição sofrida pelo guerrilheiro. Além dele, Patricio Manns e os grupos Inti Illimani e Quilapayún também homenagearam Che em suas composições.

Da Venezuela, Ali Primera, cantor e militante de voz marcante compôs “Comandante amigo”. O uruguaio Daniel Viglietti escreveu a “Canción del guerrilero heroico”, gravada numa interpretação emocionante pela cubana Elena Burke.

Da Argentina, terra natal de Ernesto, as lembranças vêm desde o trovador camponês Atahualpa Yupanqui até La Mona Giménez, ídolo do ritmo quarteto.

No Brasil, a vida e morte de Che também gerou homenagens. Gerando Vandré compôs “Che”. Dante Ledesma, argentino radicado no Rio Grande do Sul, compôs “Memorias del Che”.

Na poesia, grandes escritores como Nicolás Guillén (Guitarra en duelo mayor, dedicada ao militar que executou Che), Mario Benedetti (Consternados, rabiosos) e Julio Cortázar (Yo tuve un hermano) também deixaram versos marcantes, alguns deles musicados.

A imagem do homem que lutou e triunfou numa revolução popular armada, mas logo deixou uma possível vida de governante de alto escalão para seguir na luta armada pela libertação dos povos do mundo, o transformou num símbolo do “Homem Novo”, do exemplo de um revolucionário de sua geração, que permanece inspirando até hoje.

Eduardo Galeano chamou Che de “O nascedor”. “Por que será que o Che tem este perigoso costume de seguir sempre renascendo?” Certamente, o “cancionero latinoamericano” contribui para isso.

Edição: Simone Freire

DEDO NA FERIDA: NOVO FILME DE SILVIO TENDLER-“TENHO CONVICÇÃO DE QUE EXPELIREMOS O ‘CANCRO'”

Outubro 10, 2017
Novo filme do cineasta aborda as consequências, sobre a política e a vida das pessoas, do crescente poder do sistema financeiro
por Vitor Nuzzi, da RBA.
 
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Tendler traz depoimentos, imagens e números que demonstram papel do sistema financeiro na miséria do mundo

São Paulo – Silvio Tendler, 67 anos, aborda em seu novo documentário a urgente questão do poder do sistema financeiro em relação à política. Dedo na Ferida, que começou a ser feito no ano passado e foi selecionado para a mostra competitiva do Festival do Rio, será exibido naquela cidade nas próximas quinta e sexta (12 e 13), com debate no primeiro dia entre o autor e a economista Laura Carvalho. Mesmo falando em “tragédia anunciada”, o cineasta acredita em mudança de rumos, lembrando que os movimentos históricos são lentos. “Hoje o cancro é o sistema financeiro, mas tenho convicção de que o expeliremos e viveremos num mundo solidário e feliz”, afirma.

Com duração de 90 minutos, o filme tem como “fio de ligação” o cotidiano do podólogo Anderson Ribeiro, residente em Japeri – cidade na região metropolitana do Rio com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado –, que trabalha em Copacabana, na zona sul carioca. “O tempo de deslocamento dele todo dia é o tempo de uma sessão de cinema. Dedo na Ferida discute uma sociedade na qual ele é um cidadão à margem, não tem uma conta no banco, não vai ao cinema, nem ao teatro. Não tem uma vida ativa, é um cara que trabalha para sustentar a família”, diz o cineasta.

Ele pretende refletir sobre o avanço do sistema financeiro e seus reflexos sobre o cotidiano das pessoas, desde a perda de direitos até a qualidade de vida. O documentário foi patrocinado pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros. A parceria com as entidades já havia rendido o documentário Privatizações – A Distopia do Capital, de 2014.

Dezenove pessoas foram entrevistadas, sendo 12 brasileiros, como o diplomata e ex-ministro Celso Amorim, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., (Banco dos Brics), os professores Ladislau Dowbor, Laura Carvalho e Guilherme Mello e ativistas como Guilherme Boulos (MTST) e João Pedro Stédile (MST). Entre os estrangeiros, falam o ex-ministro grego Yanis Varoufakis, o cineasta Costa-Gavras e os intelectuais Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal), David Harvey (University of New York, Estados Unidos) e Maria José Fariñas Dulce (Universidade Carlos III, Espanha).

O filme procura mostrar como o sistema financeiro se beneficia de crises e aumenta a concentração de renda. “Os bancos ficam com a parte gorda da carne, para o povo restam os ossos”, comenta Tendler. Um retrato dos verdadeiros donos do poder. Ele defende um novo projeto, sem saber ainda qual será. Sobre o avanço conservador no Brasil e as eleições marcadas para 2018, diz se preocupar mais com “a inapetência e desorganização da esquerda”.

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Das 20 empresas mais de maior lucro em 2016 no Brasil, 6 são bancos. Entre os maiores prejuízos, nenhum banco

 

Há um ano, durante a coleta de informações e depoimentos para o documentário, você dizia que o mundo “não aprendeu” com a crise de 2008. Os mercados financeiros seguem livres e influenciam fortemente o poder político. Essa “ferida” tem cura?

Sou um otimista da geração que nasceu protegida pela vacina anti-pólio e pela penicilina. Não tivesse sido assim e poderia ter tido paralisia infantil. ou morrido de sífilis. Hoje o cancro é o sistema financeiro, mas tenho convicção de que o expeliremos e viveremos num mundo solidário e feliz.  

De que forma(s) o podólogo de Japeri sofre os impactos da financeirização e da globalização?

Ele ganha mal, não tem acesso a um sistema de saúde digno, nem de educação para os filhos. Leva uma hora e meia para ir e outras tanto para voltar do trabalho, tempo para assistir diariamente dois longas metragens o que nunca faz por falta de tempo e ânimo. 

Os bancos ficam com a parte gorda da carne, para o povo restam os ossos. Isso tem que mudar.

Poucos dias atrás, foi divulgada a informação de que seis brasileiros detêm a mesma renda dos 100 milhões mais pobres do país. Os 5% mais ricos concentram o mesmo que os outros 95%. A concentração de renda é a face mais perversa desse processo?

A concentração de renda é apenas a gota d’água que entorna um dique represado de injustiças e um libelo gritante que revela o mundo em que estamos vivendo. Entre os extremos existe muita desigualdade que tem que ser superada. Senão os remediados viveremos numa zona de conforto que também gera miséria. 

Em termos mundiais, existe saída política para isso ou os Estados já se renderam? Vê movimentos com força suficiente para combater a força do chamado mercado?

Os movimentos históricos são lentos, nos cabe iniciá-los ou dar sequência mesmo sem a certeza de ver o mundo melhor. Pensemos em nossos netos e seremos mais felizes. 

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Cineasta Costa-Gavras vê desmandos do mercado por trás dos conflitos do Brasil de 2017 e da Grécia de 2015

O Brasil vive um processo de venda de patrimônio público e intensa desregulamentação, com perda de direitos por meio de uma reforma trabalhista, já aprovada, e ainda com a tramitação de um projeto sobre a Previdência. O debate sobre um projeto nacional de desenvolvimento – que a sua geração, por exemplo, testemunhou – foi definitivamente abandonado? Ou pode ser retomado a partir das eleições de 2018, por exemplo? 

Está muito difícil para nós, mas para eles também. Não estão entrando com bola e tudo como imaginaram que seria. Continuemos lutando. 

Você já tem alguma clareza sobre o cenário eleitoral? O avanço conservador lhe preocupa?

Me desespera mais a inapetência e desorganização da esquerda. Por aí me desespero. Sei em quem não votarei, mas ainda não sei em quem e com que programa votarei. 

Um ano atrás, você também dizia que o enfraquecimento do Estado e o domínio do capital poderiam levar o mundo a uma tragédia…

Estamos assistindo essa tragédia anunciada configurar-se. Temos que nos organizar em torno de um projeto que hoje não conheço. 

Dos diversos depoimentos, algum lhe chamou mais a atenção?

Todos são muito fortes. 

Com cinco décadas de trabalhos que abrangem grande parte da história do Brasil e suas mazelas, quais projetos devem vir à tona? 

Uma série de filmes muito fortes, espero.

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Professora Maria Dulce, da Universidade Carlos III (Espanha): capitalismo improdutivo conduz mundo ao colapso

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