Archive for the ‘Uncategorized’ Category

TVT TRANSMITE FESTA DE SÃO JOÃO A PARTIR DESTA QUINTA-FEIRA

Junho 21, 2018
CULTURA-PARCERIA
Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo estão entre os destaques dos quatro dias das festas juninas na capital e no interior
por Redação RBA.
GOV BA
Pelourinho

Programação junina do Pelourinho é destaque no sábado e no domingo

São Paulo – A partir desta quinta-feira (21) até domingo, a TVT transmite os festejos de São João de Bahia, da capital, Salvador, e das cidades de Cruz das Almas e Amargosa, no interior, em parceria com a TVE Bahia. As cidades terão shows de artistas como Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, dentre outras atrações, em uma das festas juninas mais tradicionais do país.

Elba Ramalho comanda as atrações, em Amargosa, na noite desta quinta-feira (21). Também animam a festa na cidade do Vale do Jiquiriçá os forrozeiros Flávio José e Santana, o grupo Seu Maxixe, o cantor Gabriel Diniz e a dupla sertaneja Henrique e Juliano. Na sexta-feira (22), é a vez da cidade de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, com Elba Ramalho, Flávio José e a banda de forró Acarajé com Camarão. 

No sábado (23), as transmissões se dividem entre as atrações no Pelourinho, na capital, e Cruz das Almas. Já no domingo (24), as atenções se dividem entre Salvador e Amargosa. Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Lucy Alves são os destaques desses dois dias.

Você pode assistir a TVT no canal digital 44.1 para toda a grande São Paulo;  no canal 512 da NET, na região do ABC Paulista; no canal 513 da NET, em Mogi das Cruzes e no canal 12 da Vivo, em São Caetano do Sul. As transmissões também estarão disponíveis no aplicativo TVT de Bolso para celulares Android e iOS, e também pelo Facebook.

Confira os horários das transmissões

Quinta-feira (21): Amargosa, a partir das 20h 

Sexta-feira (22): Cruz das Almas, a partir das 22h 

Sábado (23): Pelourinho e Cruz das Almas, a partir das 17h 

Domingo (24): Pelourinho e Amargosa, a partir das 17h

registrado em:          

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ENTRE VISTAS: JUCA KFOURI ENTREVISTA LECI BRANDÃO

Junho 20, 2018

LEGADO DA SEM-TERRA ROSE SELESTE SERÁ EXIBIDO NO CANAL BRASIL

Junho 20, 2018
CULTURA-MEMÓRIA
Agricultora que virou símbolo da luta pela reforma agrária e defensora dos direitos das mulheres teve sua vida interrompida aos 33 anos, em 1987. Emissora exibe três documentários sobre a ativista
por Redação RBA.
MST
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Rose foi uma das líderes na ocupação da Fazenda Annoni, em 1985 – a maior do MST no Rio Grande do Sul

São Paulo – O canal de TV por assinatura Canal Brasil exibe, nesta quarta-feira e quinta-feira (20 e 21),uma trilogia de filmes que contam a história da agricultora sem terra Roseli Seleste Nunes da Silva. Rose, como era conhecida foi ativista pela reforma agrária e defensora dos direitos das mulheres, mas teve a sua vida interrompida aos 33 anos, em 1987.

Durante uma manifestação pacífica no trevo do município de Sarandi, interior do Rio Grande do Sul, ela foi atropelada por um caminhão carregado de ferro jogado contra as famílias do acampamento. Ela deixou três filhos pequenos. Um deles, Marcos Tiaraju, foi o primeiro bebê a nascer num acampamento de trabalhadores sem-terra, tornou-se médico e, hoje trabalha junto ao movimento,

O primeiro dos documentários sobre a vida da ativista será exibido nesta quarta às 18h. Terra Para Rose(1987) registra a ocupação na Fazenda Annoni, em 1985, um latifúndio improdutivo de mais de 9 mil hectares localizado no município de Pontão, na região Norte do Rio Grande do Sul.

Amanhã, mais dois filmes estão na programação da emissora. O primeiro é Sonho de Rose – 10 Anos Depois (2000), às 18h, que volta à rotina do acampamento da Fazenda Annoni, retratando o sonho de camponeses que conseguiram sua terra e resgata a história da família da agricultora.

Na sequência, às 19h35, o curta-metragem Fruto da Terra (2008) traz a história de Marcos Tiarajú que, aos 22 anos, tornou-se bolsista de medicina, em Cuba.

A ocupação da Fazenda Annoni foi a primeira e a maior já realizada por famílias organizadas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em território gaúcho. Rose se somou às fileiras de uma marcha de 300 quilômetros até Porto Alegre, onde os camponeses ocuparam a Assembleia Legislativa. Eles permaneceram por dois meses no local, até conquistarem uma solução para os trabalhadores que ainda estavam acampados na Annoni.

Em 31 de março de 1987, durante um protesto contra as altas taxas de juros e a indefinição do governo em relação à política agrária que se estendeu por vários municípios, um caminhão investiu contra uma barreira humana formada na BR-386, em Sarandi. A ação resultou em 14 agricultores feridos e em três mortos: Lari Grosseli, de 23 anos; Vitalino Antonio Mori, de 32 anos; e Roseli Nunes, 33.

registrado em:     

CONCEIÇÃO EVARISTO ENTREGA CARTA DE APRESENTAÇÃO E É OFICIALMENTE CANDIDATA À ABL

Junho 19, 2018

A premiada escritora mineira, Conceição Evaristo, entregou a carta de apresentação, o que confirma sua candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela pleiteia a cadeira número 7, que está vaga desde a morte do cineasta Nelson Pereira dos Santos. Depois da criação de uma petição online, em apoio à escolha de Conceição, a iniciativa repercutiu na internet e já ultrapassou 20 mil assinaturas. “Assinalo o meu desejo e minha disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”, diz um trecho da carta.

A escritora já havia dito: “Eu quero entrar porque é um lugar nosso, porque temos direito”. Denise Carrascosa, professora de Literatura da Universidade Federal da Bahia, assinou o texto do abaixo-assinado: “A escritora mineira Conceição Evaristo reescreve a história do Brasil a partir do ponto de vista de quem a vivencia, desde a chegada forçada de seus ancestrais, a partir de todas as suas trágicas e cotidianas impossibilidades”.

Foto: Divulgação

Aos 71 anos, a autora pode ser a primeira mulher negra na ABL em 120 anos. Uma das mais reconhecidas escritoras do país, Conceição nasceu e vivei até a década de 70 na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte. Mudou-se para o Rio de Janeiro, fez mestrado, doutorado e se tornou escritora e professora universitária. Recebeu, em 2017, o Prêmio Govern o de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra. Conquistou o Prêmio Jabuti, em 2015, com “Olhos d’água. É autora do romance “Ponciá Vicêncio (2003), de “Becos da Memória”, entre outros.

CARTA CAPITAL: ‘A LITERATURA QUEBRA FRONTEIRA’, DIZ O ESCRITOR UNGULANI BA KA KHOSA

Junho 18, 2018

Literatura Africana

por Clarissa WolFF

O premiado autor moçambicano fala sobre a importância das artes, especialmente a literatura, na identidade cultural do seu país, de independência recente
Por Clarissa Wolff

ungulani

Ungulani escreveu quase dez livros e se aventurou também pela literatura infantil

Ungulani faz 61 anos em 2018, escreveu quase dez livros e se aventurou pela literatura infantil. Em 2016, esteve no Brasil para o lançamento de seu incrível Orgia dos loucos, lançado pela Editora Kapulana, onde a entrevista de quase uma hora de troca de experiências e ensinamentos gigantes aconteceu.

Moçambique conquistou sua independência num passado bastante próximo – 1975 – e as artes, especialmente a literatura, foram importantíssimas para a revolução (Ungulani cita a maravilhosa Noémia de Sousa). 

Ainda hoje é um país com grandíssimas discrepâncias entre o campo e a cidade, diferenças essas que ele explora em seu lançamento por nossas terras – embora Orgia dos loucos tenha sido publicada originalmente em 1990. Nele, o campo é quase um personagem, cenário árduo e sudorento dos histórias doloridas, cruéis, cruas. “A literatura tem que estar ligada a uma realidade cultural forte”, ele declara.

É assim mesmo que ele nos fala sobre violência, morte, pobreza. Aliás, fala talvez não seja o verbo certo: ele mostra, com imagens fortes, linguagem em sincronia perfeita com o tema, personagens pungentes e descrições certeiras e arrebatadoras.

O segundo conto do livro – e o meu favorito – explora com maestria a violência contra mulher, o que, saído de um escritor homem, é um tremendo elogio. O livro é curto, mas não é daqueles que devemos ler com rapidez: é preciso pensá-lo com calma.

Segundo o Ungulani, mesmo com escritores fortíssimos saídos de lá – Suleiman Cassamo e Aldino Muianga, por exemplo, ambos publicados no Brasil pela Editora Kapulana – o povo do país ainda sofre do “complexo de vira-lata”. Ele conta que ouviu o termo pela primeira vez em São Paulo e que ele é perfeitamente adequado para aquela realidade também.

Voltando ao nosso país, ele diz apreciar literatura brasileira, mas conhecer pouco. Em Moçambique, não existe acesso à literatura brasileira contemporânea, e os autores que chegam lá são os que já estão mortos.

Para ele, isso é motivo de muita tristeza. E faz uma provocação: percebe que mesmo no Brasil não existe muita comunicação entre as produções literárias regionais, que poucas vezes extrapolam os limites geográficos. Em geral, são autores do eixo Rio-São Paulo que conseguem atenção. Mas garante: “a literatura quebra fronteiras”.

A gente concorda.

Assista às melhores partes da entrevista:

 

orgiadosloucosORGIA DOS LOUCOS, Ungulani Ba Ka Khosa

Editora Kapulana, 2016

112 páginas

R$32,90

O DESAFIO DE INCLUIR A CULTURA COMO DIREITO BÁSICO E POLÍTICA PÚBLICA

Junho 17, 2018
PROPOSTAS
Ex-ministro Juca Ferreira considera que setor é atingido não só pelas políticas de austeridade, mas pela falta de visão global dos governos. E vê risco de o país tornar-se “parque temático neoliberal”
por Vitor Nuzzi, da RBA.
CC WIKIMEDIA
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Juca Ferreira foi ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma e vê a pasta desvalorizada por Michel Temer

São Paulo – Como praticamente todos os setores, a cultura não escapou de cortes impostos por uma política de austeridade implementada pelo atual governo, mas já vinha sofrendo com escassez de recursos. Para um grupo que vem se dedicando a formular propostas no setor, uma mudança só ocorrerá com alteração da “direção política”, a partir da qual seria possível “avançar sobre uma agenda de reorganização do financiamento à cultura”. Algumas políticas melhoraram o acesso da população, avalia o ex-ministro Juca Ferreira, para quem um dos desafios é consolidar a cultura como política público e direito social básico.

Ele participou recentemente de evento organizado pelo coletivo Brasil Debate e pela fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung (FES), para refletir sobre o tema e apresentar propostas que poderão subsidiar o debate eleitoral. Texto do consultor João Brant, ex-secretário-executivo do Ministério da Cultura e ex-secretário municipal em São Paulo, fala em “morte lenta” das políticas federais para o setor, mas aponta saídas, desde que haja “uma reversão completa da trajetória dos últimos anos”. Hoje, diz ele, a tendência é “o ministério desaparecer”. 

Isso chegou a acontecer em maio de 2016. Brant recorda que duas horas depois da posse de Michel Temer foi publicada uma medida provisória extinguindo a pasta. Houve reação da classe artística, levando o governo a recuar. Mas um levantamento organizado pelo consultor mostra orçamento em queda livre. 

“Considerado desnecessário por Temer, prejudicado pelo teto de gastos públicos e desamparado pela falta de empenho de seu ministro em trabalhar por sua recuperação, o Ministério padece em morte lenta. Com ele, morre aos poucos também parte significativa das políticas culturais”, escreve Brant. Na prática, segundo ele, há uma perda entre 70% e 80% na chamada área finalística. “Hoje, o MinC tem R$ 100 milhões para executar.” O problema não é novo, mas tornou-se mais agudo – no texto, o ex-secretário cita a ação de uma “navalha” em 2015 e de uma “guilhotina” no ano passado.

Ex-secretário de Políticas Culturais do Minc e autor de livro sobre o assunto, Guilherme Varella cita conceito do ex-ministro Gilberto Gil: fazer políticas culturais é fazer cultura. Houve um início de mudança de postura institucional, em um Estado caracterizado pela falta de políticas públicas, em uma discussão que já não era mais apenas sobre orçamento, mas sobre diversidade. “Hoje, não existe capacidade operacional.”

Com Gil e Juca, cujas interinidades somam aproximadamente dois anos, o orçamento passou de R$ 476,1 milhões, em 2003, para R$ 1,65 bilhão em 2010. “A perspectiva era de criar uma política de Estado baseada não apenas em fomento a atividades culturais, mas em processos regulatórios e políticas públicas que contribuíssem para o desenvolvimento da cultura em três dimensões: simbólica, econômica e cidadã”, escreve Brant. “Estas três dimensões se desdobraram, naqueles oito anos, em ações concretas.” Ele cita, entre outras iniciativas, a criação do programa Cultura Viva, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do PAC Cidades Históricas.

O consultor lembra que o orçamento para o Cultura Viva, que já foi superior a R$ 100 milhões, passou para R$ 32 milhões. E o PAC “respira por aparelhos”. Ao mesmo tempo, há um “crescimento significativo” do FSA, “que sustenta grande parte das políticas voltadas para este setor”. 

Juca Ferreira avalia que as políticas de austeridades, isoladamente, não explicam a crise na cultura, que não é vista como parte de uma política pública. Ele recorda de conversas difíceis com técnicos da Fazenda e do Planejamento, que se queixavam de “barulho” vindo do Ministério da Cultura. As dificuldades aumentam com o predomínio do capital financeiro. O ex-ministro vê risco de o Brasil se tornar “um parque temático neoliberal”.  Mas a questão vem também da própria sociedade. “Só 5% vão a museus, só 13% vão a cinema, (se lê) um 1,7 livro por ano”, observa.

O Brasil cresceu sua produção de filmes no pós-Lula (“Fazia menos de 10 por ano, hoje faz mais de 150”) e conseguiu zerar as cidades sem biblioteca, mas parte desse avanço se perdeu. Mais de 600 bibliotecas fecharam, aponta Juca, para quem o número pode ser ainda maior. Ele defende que se discuta como a sociedade se relaciona com as políticas culturais. “Não pode haver dicotomia entre acesso à cultura e cultura como mercadoria”, diz Juca. Mas a cultura deve ser um bem universal – não como hoje, em que o rico tem acesso a tudo, diz, a classe média tem grande parte e os mais pobres ficam com a TV aberta.

Durante a reunião, foram feitos vários relatos sobre atividades culturais em áreas mais distantes nos grandes centros. “As pessoas não vão não porque não gostam.”

QUILOMBO DE XAMBÁ HOMENAGEIA MORADOR COM EVENTO ABERTO AO PÚBLICO

Junho 16, 2018

Morador histórico Tio Luiz, falecido em 1996 e grande contador de histórias, é o homenageado

Da Redação

Brasil de Fato | Olinda (PE)

Moradores transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear Tio Luiz. - Créditos: Divulgação
Moradores transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear Tio Luiz. / Divulgação

Neste sábado (16), o Quilombo Urbano da Xambá, em Olinda, Região Metropolitana do Recife, inaugura a Praça Tio Luiz da Xambá. Uma homenagem a Luiz de França Paraíso (1926-1996), conhecido como Tio Luiz ou como Alegria, devido ao seu senso de humor e fama de grande contador de histórias. O evento inicia às 18h e é aberto ao público. 

A inauguração é uma iniciativa do Centro Cultural Grupo Bongar – Nação Xambá e do Instituto Tia Luíza, que junto com os educadores de uma oficina de leitura, crianças e moradores, transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear o xambazeiro Tio Luiz.

Na cerimônia, haverá contação de história, pelo Babalorixá Ivo da Xambá e o educador Gleidson da Xambá. As crianças irão relatar todo o trabalho de pesquisa feito por elas, educadores e moradores da Xambá. O evento também contará com apresentações culturais com cocos escritos pelas crianças, falando de Tio Luiz, e com a Orkestra Tambores da Xambá (OTX), com cantos para Xangô. 

Tio Luiz era sapateiro e sua sapataria era um pequeno espaço dentro da comunidade Xambá, que todos chamavam da “barraca” de Tio Luiz, onde hoje se localiza a guarita e saída dos ônibus do Terminal Integrado de Passageiros da Xambá (TI Xambá), em cima da calçada do Centro Cultural Grupo Bongar – Nação Xambá.

A sapataria de Tio Luiz sempre foi um ponto de encontro de moradores e principalmente das crianças da Xambá, que iam para lá ouvir as suas histórias reconhecidas pelos moradores como engraçadas, “mentirosas” e fantásticas, que revelava todo o universo da comunidade Xambá, seus orixás e encantados. Também nas noites da Xambá, Tio Luiz sentava sempre no tronco que fica em frente ao Terreiro Xambá com sua garrafa de café e toda a criançada o rodeava para mais uma vez ouvir as suas histórias.

Para a comunidade de Xambá, a homenagem a Tio Luiz busca a manutenção de sua história e a garantia da memória viva dos seus ancestrais. A comunidade convida a todas as pessoas interessadas em participar. 

 

Edição: Catarina de Angola

LAÉRCIO VILAR, O MESTRE INVISÍVEL

Junho 15, 2018

Conheça o baterista mineiro de 50 anos de carreira que abalou as correntes do Jazz

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Moeda (MG)

Laércio: “há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa” - Créditos: Pedro Faria
Laércio: “há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa” / Pedro Faria

Poucos bateristas são lembrados como “mestre” por tantos nomes da música brasileira. Na pequena cidade de Moeda (MG), a 60 km de Belo Horizonte, vive de forma simples o músico Laércio Vilar, o primeiro baterista de jazz do estado. Agora ele completa nada menos que 70 anos de vida e meio século de carreira.

Quem conhece Laércio já vai se acostumando ao seu jargão estimatório “parrapá”, que ele fala na mesma proporção de um “uai”. O palavreado vem acompanhado de uma piada e um riso divertido, debaixo dos óculos e da barba branca no rosto negro. A dedicação o faz ensaiar ao menos três horas por dia, somente ele e a batera, e diz estar “explodindo de sabores sonoros” nas suas novas composições.

História

Laércio morou em Belo Horizonte até a década de 80, onde iniciou e desenvolveu sua carreira de baterista. Ele fez shows, deu aulas, se tornou parceiro de inúmeros músicos como Toninho Horta, Chico Amaral, Marilton Borges, Beto Lopes, e foi nessa cidade que também enfrentou seus maiores desafios.

O impasse de tocar nos bares de BH – e receber indignamente por isso – era grande e levou Laércio a questionar a relação entre músicos “operários” e músicos “donos de bandas”. Operários, na opinião dele, eram aqueles pagos para executar as músicas, enquanto os “donos” lideravam os negócios e muitas vezes desrespeitavam os demais.

“Há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa”, é a ideia de Laércio. A sua insubordinação passou a ser indigesta para os tais “donos”.

O operário inverte a cena

O mestre foi ousado. Em toda banda a bateria é colocada atrás dos outros instrumentos. É a bateria que, junto com o contrabaixo, dá a base da música e por isso recebem o apelido de “cozinha”. Mas Laércio achava que o fundo do palco não era o lugar onde ele gostaria de tocar para sempre, e que a bateria poderia não só ocupar a frente do palco como protagonizar arranjos.

“A bateria sempre foi um pano de fundo. Antigamente, nem a chamavam de bateria, era ritmista. Sempre foi um instrumento da ‘cozinha’. Mas poxa! É lá que está a fogueira!”, se comove. A sua inspiração foi um vídeo do baterista Buddy Rich, na década de 60, que colocou duas baterias na boca do palco. 

“Aquilo pra mim foi um tapa. Eu pus a bateria na frente e fiz a hierarquia com um triângulo no palco”, teimava. “Daí, as chamadas para tocar se escassearam ainda mais. Foram me cortando. De repente nem casa noturna mais, nem pra tocar bolero”, brinca. Laércio saiu de BH e encontrou a cidade de Moeda para construir sua vida. Mas mesmo fora da cena da capital, continua sendo lembrado.

Laércio, um clássico

O músico Eneias Xavier conhece o baterista há mais de 25 anos e produziu “Carnaval Atmosférico”, primeiro e até o momento único CD de Laércio. Obra que leva Eneias a sentenciar: Laércio está na lista dos clássicos. “Todos os bateristas, principalmente, ouvem e estudam esse disco. O Laércio é uma pessoa que a gente cita no estúdio, na mesa de bar. ‘Isso aqui eu queria fazer meio Laércio, aquilo ali o cara fez meio Laércio.’ São três ou quatro músicos de Minas Gerais que a gente cita na mesma proporção que ele”, conta Eneias.

A singularidade do mineiro está ligada à forma como ele usa a “bateria aberta”, o estilo free do jazz, em que leva a bateria a fazer solos e não apenas acompanhamento. “Na época, pouca gente fazia isso, só ele e Neném, que é um discípulo dele”, conta Eneias. 

Essa audácia rendeu a Laércio uma música em sua homenagem. A composição “Laércio” do também baterista Nenê, que tocou com Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Elis Regina, nasceu para lembrar a sua originalidade. “Todo mundo tem influências, seja da música brasileira ou estrangeira, mas quando você desenvolve seu trabalho tentando sair disso, criando uma coisa própria da sua cabeça, isso é um trabalho original”, diz Nenê sobre Laércio.

 

Hoje

O baterista não parou no tempo. Na nossa visita, mostrou à reportagem o desenho – sim, ele desenha suas músicas – das suas novas composições para um álbum que procura gravar em áudio e em DVD ainda em 2018.

A equipe que produziu este vídeo agradece imensamente a recepção e o bom humor do mestre Laércio Vilar. Agradecemos também aos moradores de Moeda (MG) e Belo Vale (MG), que nos ajudaram a fazer contato, gravar e nos orientaram nesse caminho.

Edição: Joana Tavares

‘HORA DO RANGO’ NA ESTRADA: PROGRAMA PREMIADO VAI A SÃO LUIS, PÁTRIA DO REGGAE

Junho 14, 2018
RÁDIO DEMOCRÁTICA
Programa da Rádio Brasil Atual rendeu prêmio APCA de melhor produtor musical ao apresentador Colibri. Depois de algumas experiências itinerantes, passa dois dias na capital maranhense
por Gabriel Valery, da RBA.
REPRODUÇÃO/TVT
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Colibri Vitta: dois anos à frente do ‘Hora do Rango’

São Paulo – De grandes nomes da música brasileira até aqueles que as outras rádios não tocam. Como um celeiro de análise e maturação da boa canção nacional, o programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual, acumula mais de 465 edições desde maio de 2016. Histórias de sucesso que renderam o prêmio de melhor produtor musical de 2017, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), para o jornalista e apresentador vespertino da rádio Oswaldo Luiz Colibri Vitta.

Agora, a ideia é levar fazer experiências fora do estúdio. O programa já foi exibido, ao vivo, do Bar Brahma, em sua edição número 300. Já visitou a cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, e promoveu duas transmissões com artistas do ABC paulista na sede do Instituto Acqua, em Santo André.

A próxima aventura, no bom sentido, será no Nordeste, por meio de uma parceria como instituto. Nesta quinta-feira (14), o Hora do Rango será apresentado de São Luís, diretamente do Museu do Reggae, na capital do Maranhão.

“Lula deu uma canja. Fernando Haddad tocou violão. Mano Brown lançou álbum solo e botou a boca no trombone. Chico Cesar interpretou música inédita ressaltando o ativismo político dos estudantes secundaristas. Jerry Adriani antecipou sua biografia, em sua derradeira entrevista”, lembra Colibri, sobre alguns pontos marcantes da história de seu programa. O prêmio ao jornalista foi concedido em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso no último dia 4.

“A ideia do programa é apresentar a diversidade e a riqueza cultural da música brasileira de todos os gêneros e regiões do país. Da MPB ao samba, da música tradicional (afoxé, maracatu, ijexá, ciranda, coco, etc) e também instrumental”, diz o produtor Nelson Calura.

“A seleção dos artistas está alinhada com o perfil da rádio. O programa valoriza a produção nacional independente que não tem espaço em outros veículos e também artistas consagrados, como Mano Brown, Emicida, Chico César, Paulo Miklos, entre outros. Tem lançamentos, revelações e também o resgate de importantes artistas, que têm muita história, mas acabam não sendo conhecidos pela nova geração porque as rádios não tocam”, define o jornalista.

Longa história

Colibri lembra do início da jornada que o fez chegar até o formato atual da Hora do Rango. Tendo trabalhado com “produção, texto, reportagem, direção de vídeos e, no meio disso tudo, turismo, esportes e principalmente cultura”, o jornalista conta que a experiência com conteúdo voltado à classe trabalhadora vem de longa data. “Fizemos a primeira experiência como o mundo sindical em 1992 com a Rádio dos Bancários. Trabalhamos também com a TVT nos anos 1990 e nos pediram um projeto de rádio”.

“Foi o Gilmar Carneiro, da CUT, que pediu para desenvolvermos inicialmente a Rádio dos Bancários. Jornalismo de manhã, mostrando movimentos sociais, mundo do trabalho e direitos humanos”, afirma.

Hora do Rango, explica Colibri, tem como forte componente a música ao vivo. “Ficamos duas horas com o artista conversando. Começamos com a interação que ainda estava começando e hoje temos as redes sociais e o WhattsApp da rádio para o ouvinte participar. Enfim, é um programa no velho e bom estilo com músicas ao vivo. O ouvinte participa.”

A lista de artistas segue. “É música de todas as tribos e de todos os estilos. Da velha guarda, como Germano Mathias, Odair José, Evinha, Eduardo Araújo, Dudu França, Made in Brazil, Zé Geraldo, Maria Alcina e Claudya, aos lançamentos de novos artistas, como Filipe Catto, Mamelungos, Samuca e a Selva, As Bahias e a Cozinha Mineira, Liniker, Tássia Reis, O Terno, Ava Rocha, Dani Black, Francisco, el Hombre, entre outros.” O papo com os artistas ainda revela outros campos artísticos de interesse deles e do público. “E mais poesia, literatura, teatro e cinema com bom humor e improviso.”

Segundo Calura, a produção para as performances ao vivo é um saboroso desafio. “Já participaram bandas com 11 integrantes, para dar um exemplo. Somos o único programa de rádio de São Paulo que traz artistas diariamente ao estúdio. O que nos deixa muito feliz é que o programa alcançou reconhecimento junto aos artistas, que fazem suas indicações e sugestões. Essa consolidação do programa faz com que haja bastante procura e fazemos o possível para dar espaço a todos.”

Na estrada

As perspectivas agora para o futuro incluem gravações fora dos estúdios da rádio, que ficam na região da Avenida Paulista, em São Paulo. No ano passado e no início deste ano, duas experiências já foram realizadas. Agora, amanhã, o passo será maior, como explica Colibri. “Fomos convidados para participar da festa do Dia do Reggae, que vai ser amanhã, no Museu do Reggae, de São Luís do Maranhão (…) Antes, fizemos a primeira experiência fora do estúdio em Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), no Casarão da Mariquinha. Estivemos com artistas locais. Depois, fizemos em Santo André (região do ABC), neste ano, com artistas locais. Transmitimos pela primeira vez de lá pela TVT”, afirma. A parceria com a TVT também é uma realidade que tende a se intensificar.

O programa será exibido das dependências do museu e as festividades do Dia do Reggae ainda incluem shows e uma programação cultural que será realizada no centro histórico da capital maranhense. “Amanhã e sexta-feira estaremos por lá. A ideia é do Hora do Rango colocar o pé na estrada. A partir deste ano, temos a ideia de sair do nosso estúdio, gravar em outros com o público, em auditórios”, completou.

Colibri ainda conta que já existem outras propostas para levar o programa para outras cidades do país. “Já fomos convidados por outros lugares, como teatros, para apresentarmos ao vivo. A tendência é essa. Temos convites para Santos, São José dos Campos, ao vivo com os artistas locais. Sempre valorizando músicos locais e entrevistando a turma toda. Temos propostas também para o Rio de Janeiro, com o pessoal do Samba do Trabalhador, uma proposta clara. Também temos propostas de Recife, já que recebemos muitos artistas de lá aqui. O negócio está pegando. Estamos todos muito animados.

No Maranhão

A expectativa para o programa no Maranhão é de repetir as boas edições gravadas nas cidades paulistas. “A recepção nessas experiências tem sido maravilhosa. O programa já é querido pelos músicos aqui no estúdio e com o pessoal no Facebook, imagina quando vamos para as cidades e entrevistamos o pessoal no local”, afirmou Colibri, que acrescentou estar ansioso para conhecer o público maranhense de perto.

Além de celebrar o ritmo jamaicano, típico no Maranhão, os eventos ainda lembram o início das festas juninas e do bumba meu boi. O Instituto Acqua, uma organização social que apoia a Rádio Brasil Atual, é a realizadora das festividades que incluem a presença da Hora do Rango na capital maranhense. “A programação, marcada para os dias 14 e 15 de junho, acontecerá no Museu do Reggae e Praça do Reggae, no Centro Histórico de São Luís, e marca o início dos festejos juninos da região. Nomes como Orquestra Maranhense de Reggae, Raíz Tribal e George Gomes integram a atividade”, afirma em nota o Instituto.

A programação, para além do Hora do Rango, inclui shows das bandas que passam pelo programa e oficinas de cultura reggae. ” A partir das 16h, o local receberá oficinas de tranças, dança com o Grupo Afro Malungos e exposição de produtos da cadeia produtiva do reggae. Os DJs Neturbo, Andrezinho Vibration, Chico do Reggae e Ademar Danilo comandam as atividades de palco com entradas às 18h, 20h e 21h15. Às 19h, o público poderá interagir com o grupo Tambor de Crioula. Mais tarde, a partir das 19h30, a Orquestra Maranhense de Reggae sobe ao palco com arranjos reconhecidos pelos fãs do movimento regueiro em São Luís”, afirma o Instituto.

“Outro destaque da noite será a banda Raíz Tribal, formada por filhos dos fundadores da Tribo de Jah e expoentes do atual cenário local.  Eles se apresentam a partir das 20h30 com participação especial de Célia Sampaio, conhecida como a “dama do reggae” do Maranhão. Outro ícone da música, George Gomes, baterista que rearranja músicas folclóricas maranhenses para o ritmo do reggae, toca às 21h30. Para encerrar a programação, a tradição e o colorido do Boi Unidos de Santa Fé, às 22h, um dos grupos de bumba meu boi com maior expressão no Estado”, completa.

Ponto de vista do artista

Para Nelson Calura, que trabalha na produção do Hora do Rango, o reconhecimento junto aos artistas é o ponto mais gratificante dessa história. “Essa consolidação faz com que haja bastante procura e fazemos o possível para dar espaço a todos”, disse. A grande quantidade de artistas é um desafio para eles. “Uma das dificuldades é conciliar a agenda dos artistas pois, embora muitos morem em São Paulo, também trazemos músicos de outros estados para participar do programa.”

“Outro desafio é a produção para as performances ao vivo, característica do Hora do Rango. Já participaram bandas com 11 integrantes, por exemplo. Vale ressaltar que somos o único programa de rádio de São Paulo que traz artistas diariamente ao estúdio, essa é justamente a marca registrada”, completa.

Calura destaca alguns dos episódios que considera mais notáveis. “A ideia do programa é apresentar a diversidade e a riqueza cultural brasileira de todos os gêneros e regiões do país. Da MPB ao samba, música tradicional e também instrumental. A seleção dos artistas está alinhada com o perfil da rádio. O programa valoriza a produção nacional independente que não tem espaço em outros veículos de comunicação e também artistas consagrados como Emicida, Chico César, Paulo Miklos, Mano Brown, entre outros”

A entrevista com Mano Brown foi uma das mais emblemáticas da trajetória da rádio. Colibri conta que no começo ele não queria dizer muito. “Vocês conhecem o jeito dele meio durão. No começo, ele disse que não ia falar de política e eu pensei que a entrevista seria lamentável. Aí, ao contrário. Ele acabou entendendo a rádio, curtindo a rádio e se soltando. No fim ele estava falando de política, adorou porque tocamos o novo disco dele e demos espaço para o projeto dele.”

Parceria com o artista

Esta identidade com o artista é expressa também por outros nomes da música brasileira, como é o caso do gaúcho Arthur de Faria, que revelou não ter ficado surpreendido com o prêmio da APCA de Colibri. “Já estive no programa e acompanho sempre. Penso que é o melhor programa do mundo. Não foi surpresa o prêmio, é só o mundo que ainda não conhece”, disse. A musicista Ava Rocha aproveitou para parabenizar o programa. “Uma rádio que defende a música brasileira independente. Fiquei feliz com o prêmio, eu que já estive lá”, disse.

O cantor Dudu França seguiu a linha de Ava. “Sou testemunha do grande trabalho desse programa maravilhoso que nós artistas, da velha guarda, podemos falar que deveríamos estar tocando maravilhosamente bem nas rádios. Mas há uma massificação de mídia e, às vezes, o público não tem a oportunidade de saber o que existe além da mídia que está no ar. E o programa mostra isso, que o Brasil é muito rico em quesitos musicais.”

Músicos novos também têm sua voz reconhecida no programa, como afirma Lucas Santtana. “A rádio faz tudo com o maior carinho com os ouvintes e leva a diversidade da música brasileira. Ela é muito rica, temos um século de produção musical intensa e diversa e a rádio trás diversidade: gente que já está há muito tempo, gente que está chegando agora. Isso é muito importante para que os ouvintes tenham acesso à essa riqueza musical e que saibam que hoje se produz muita música boa no país.”

É PARA SAIR ARRASADO DO FILME, DIZ DIRETORA DE ‘O PROCESSO’

Junho 13, 2018
CULTURA – IMPEACHMENT OU GOLPE?
Cineasta, que participou de exibição e debate na Assembleia paulista, lembrou que “não existe filme isento”, mas todos os lados da história foram mostrados
por Vitor Nuzzi, da RBA.
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Maria Augusta Ramos (à dir.) com a deputada Beth Sahão: “Cada escolha é estética e ética”

São Paulo – O documentário O Processo começa com uma tomada aérea na platitude da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, contrastando com a cena seguinte, uma tumultuada sessão no plenário da Câmara. Imagens e sensações de menos de dois anos atrás foram revividas, e sentidas, durante exibição na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com a presença da diretora, Maria Augusta Ramos. Não é cinema de entretenimento, mas incômodo, alerta a autora. “A gente tem de sair arrasada desse filme.”

Com duração de 137 minutos, O Processo já foi visto por 58 mil pessoas em quatro semanas de exibição em circuito comercial – continua em cartaz. Em agosto, deve ser exibido em plataformas na internet. A narrativa da destituição de Dilma Rousseff tem cenas de comissões no Congresso, reuniões reservadas dos defensores da presidenta e manifestações de rua, sem entrevistas, comentários ou legendas, como é característica da diretora, responsável por filmes como Brasília (2004), Juízo (2007) e Futuro Junho (2015). “Os (meus) filmes são construídos a partir de observações do cotidiano.”

Maria Augusta editou 450 horas de material para chegar às pouco mais de duas horas de filme, ainda assim um tempo extenso para um documentário. “Cada escolha é uma escolha estética e ética.”

“Não existe filme isento”, lembra a diretora, quando uma senhora da plateia pergunta sobre seu posicionamento político. Ela conta que não é, nunca foi, ativista ou militante do PT. “Votei no Lula, na Dilma, voto na esquerda. O filme é a minha visão daquela realidade. Sou um ser político, que tem valores.”

A cineasta lembra que não conhecia nenhum dos políticos ou envolvidos no processo que aparecem na tela, de direita ou de esquerda – os senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Lindbergh Farias (PT-RJ), além da professora Janaína Paschoal e do então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, aparecem com algum destaque, mas há várias personagens ali, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), chave na história, afastado por corrupção pouco depois de autorizar a abertura do processo. 

O filme deixa claro um lado, sem esquecer de mostrar as diferentes posições em jogo e a divisão do país. “Acho que os argumentos a favor do impeachment estão contemplados”, analisa Maria Augusta.

Momento histórico

Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa, Beth Sahão considerou o filme um “importante retrato deste momento histórico”, que resultou na “delicada” situação atual. Uma história que também faz “reviver a dor”, diz a deputada, que sentiu falta, no documentário, de uma reflexão sobre a mídia. Maria Augusta afirma que procurou ter foto nos aspectos jurídicos e políticos do processo de impeachment. Alguém pergunta por que ela resolveu fazer esse trabalho. Ela responde: “Como não fazer?”.

Convidado para o debate, o professor Gilberto Sobrinho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera O Processo “um olhar muito particular sobre o Brasil”, “um trabalho de resistência, estética e política”, uma reflexão sobre as instituições brasileiras, até para ajudar as pessoas a repensar, escapando da influência da mídia. “É em torno da teatralização da política que o filme vai se organizar também.”

Entre a plateia que foi à sessão no auditório Franco Montoro da Assembleia, na manhã desta quarta-feira (13), uma senhora que viu o filme na praça, em Curitiba, um militante petista de Grajaú, na zona sul paulistana, que agradece pela “ajuda na disputa da narrativa” em torno da natureza do processo – impeachment ou golpe –, uma jovem que participou de várias manifestações e se confessa emocionada por rever aquele momentos. Alguns perguntam por que a diretora opta por não usar legendas.

É justamente para exigir mais do espectador, para que ele se informe, diz Maria Augusta, que fala em certa “preguiça”, estimulada pela mídia. “Tudo é dito no filme. Fica muito claro no início quem é favor do quê. Minha proposta não é fazer cinema de entretenimento, é incomodar.”

Comunicação

Alguém fala sobre a importância da formação política. Cita uma cena simbólica a esta altura, quando o então ministro Gilberto Carvalho, já na evidência da derrota, faz uma avaliação crítica, afirmando que Getúlio Vargas, 70 anos atrás, “teve a clareza que não tivemos”, citando a criação do jornal Última Hora.

“Fica muito difícil falar em comunicação com o povo se a gente não fala com o povo”, diz Carvalho, para quem os governos petistas optaram por não mexer na questão e continuaram alimentando os meios tradicionais de comunicação. “Enchemos os bolsos dos caras de dinheiro”, constata. “Nós, de alguma forma, facilitamos a estrada deles (os defensores do impeachment).”

Logo no início, o filme exibe trechos da famosa sessão da Câmara, em 17 de abril de 2016, que aprovou a admissibilidade do processo contra Dilma. Mostra alguns dos principais momentos daquele período, que culminou na aprovação do impeachment em 31 de agosto, ao final de uma “saga política caótica”, como definiu uma jornalista estrangeira.

“O mar da história é agitado”, afirma Dilma, citando o poeta russo Vladimir Maiakóvski, pouco antes de deixar o cargo, alertando para o início de um período de retrocesso social, como se pôde constatar tempos depois. Curiosamente, o filme para por alguns instantes no momento em que a presidenta está frente a frente com o senador tucano Aécio Neves, seu adversário em 2014, e que parece ganhar a preferência da plateia na hora dos apupos.

A exibição termina pouco antes das 13h, com gritos de “Lula livre”. Uma ausência insistente chama a atenção no documentário: em nenhum momento Michel Temer aparece. Talvez seja um não-personagem.

A diretora já recebeu muitos pedidos de exibição do filme, algo que também depende de questões contratuais. Ela conta que em Mossoró (RN) a população fez abaixo-assinado para que O Processopassasse no cinema.

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