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Oscar Niemeyer, o conatus político do viver criativo

Dezembro 6, 2012

Oscar Niemeyer architect arquiteto brazil brasileiro

Oscar Niemeyer não está preocupado com sua idade. Ele sempre carregou o si um conatus político, onde sua potência de criação sempre afirmando a vida, nunca deixando de reagir com o novo e a todo momento produzindo artisticamente sua existência. Também foi um homem de seu tempo, presente nas transformações e criações de nossa sociedade. Um político que com sua potência criadora participou de

Há muitos adjetivos para descrever Niemeyer, mas nenhum consegue em seu corpo de qualidades envolver uma pessoa cujo a existência foi repleta de vivências tão ricas e importantes para o Brasil e o mundo. Não pelo tempo cronológico de 104 anos (e quase mais um) que esteve presente, mas pela intensidade de sua presença.

OSCAR, O POLÍTICO

Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir,Oscar Niemeyer, Jorge Amado

Simone de Beauvoir,Oscar Niemeyer, Jean-Paul Sartre, Jorge Amado

Niemeyer e Israel Pinheiro conversam com Fidel Castro no Palácio da Alvorada, em abril de 1959

Niemeyer e Israel Pinheiro conversam com Fidel Castro no Palácio da Alvorada, em abril de 1959

Oscar Niemeyer PCB Roberto Freire

Oscar Niemeyer e Roberto Freire PCB

Além de sua transformação das sociedades através da arte, Oscar como homem político, produtor de composições com o corpus democrático. Não apenas político por sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) do qual deixou em 1991, mas por seu posicionamento social e engajamento em diversas causas.

Sua convicção na mudança que lhe fez arquiteto, assim como lhe fez comunista. Esta luta pela liberdade e pela não aceitação das imposições do capitalismo que o fizeram proibido de trabalhar e morar nos Estados Unidos e posteriormente deixar o país durante a ditadura militar. Seu comunismo sempre foi na prática cotidiana em não aceitar imposição de uma cultura cultuadora da morte e da sabotagem da vida por uma alienação da importância de cada um nas práticas cotidianas.

Oscar Niemeyer e Fidel Castro

Oscar Niemeyer e Fidel Castro

Envolvido em encontros que aumentaram sua potência democrática, Niemeyer esteve ao lado de Fidel Castro, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Lula, Jorge Amado, Luís Carlos Prestes, Hugo Chávez, Ulisses Guimarães, Dilma Vana Rousseff, entre diversos outros nomes políticos.

Artistas participam duma passeata contra a repressão aos estudantes. Rio, 1968.da esq. p dir.Carlos Scliar, Helio Pellegrino, Clarice Lispector, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento.

Artistas participam duma passeata contra a repressão aos estudantes. Rio, 1968.Carlos Scliar, Helio Pellegrino, Clarice Lispector, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento.

OSCAR, O ARTISTA

Oscar Niemeyer

Sua carreira como artista começou com seu ingresso na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1929, e que dois anos depois seria dirigida, por Lucio Costa. Lá ele se formou arquiteto e participou de uma palestra de Le Corbusier. Seu primeiro grande trabalho foi o Ministério da Educação e Saúde, e foi seguido de outra obra que aconteceu quando ele conhece o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (JK), em 1940 e assumiu o projeto da Pampulha. Na mesma década recebe reconhecimento internacional e projeta a Sede da ONU junto com outros arquitetos.

Seu grande impulso foi o convite de JK para a construção de Brasília em 1956, sendo ele nomeado diretor da Escola de Arquitetura da recém-criada Universidade de Brasília – UnB, cargo que manteve durante três anos e que terminou com protesto e pedido de demissão junto com vários acadêmicos devido o golpe militar. Impossibilitado de produzir devido as linhas duras da ditadura, Oscar ganhou o mundo, trabalhando em Paris e várias cidades da Europa durante 10 anos.

Oscar Niemeyer e Gilberto GilOscar Niemeyer Brasília

Oscar Niemeyer (de frente) conversa com funcionários do Departamento de Arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), em Brasília.

Oscar Niemeyer com funcionários do Departamento de Arquitetura da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), em Brasília.

Desde criança Oscar desenhava no ar e sua produção continuou até o dia de ontem, quando foi interrompida. Seus traços produziram uma estética única que está presente em todo o mundo nos cinco continentes e em diversos prédios de importância mundial a Sede do Partido Comunista Francês, a Mesquita de Argel, o Centro Cultural Le Havre e vários outros. A simplicidade dos traços e curvas além da presença mais humana nas construções são características da obra de Niemeyer.

OSCAR, HUMANO

O arquiteto Oscar Niemeyer participou de ensaio da Beija-Flor de Nilópolis no sambódromo do Rio

O arquiteto Oscar Niemeyer no ensaio da Beija-Flor de Nilópolis, Carnaval 2012

Como Oscar sempre soube que a vida não é algo divisível, sendo diversos percursos continuos, ele nunca caiu no conto da melhor idade, e não soube o que era ser estigmatizado de velho. É claro que seu corpo sentiu as mudanças fisico-químicas comuns aos seres humanos, mas devido a sua persistência no ser ele nunca deixou de produzir sua vida e sua arte, pois só assim nutria a existência.

Muitos podem criticar sua existência, mas dificilmente conseguirão alcançar a livre produção e o gozo de vida que Niemeyer sempre teve. Mesmo que digam sobre seus habitos como o tabagismo, Oscar estava presente e nunca negou a vida. Com sua vida ativou o pensamento, e com seu pensamento afirmou sua vida (Nietzche).

Oscar Niemeyer e Martinho da VilaOscar Niemeyer mostra maquete a Ulysses Guimarães

Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer observam maquete da Praça dos Três Poderes no Rio de Janeiro, em novembro de 1958.

Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer observam maquete da Praça dos Três Poderes no Rio de Janeiro, em novembro de 1958.

Um homem eterno em seus traços políticos que semeiou a quatro ventos novas visões da urbes. Oscar com uma caneta ou lápis na mão era capaz de criar uma nova realidade com algumas poucas linhas e curvas. Muitas destas estão concretizadas e outras surgirão, mas ambas o vivificam. Seu fazer continuará presente no mundo quando estes olhos que nos lêem verem os últimos raios de luz, e que estes sejam belos e produtivos como todo o traçado deste arquiteto que brasileiro sempre foi uma parte de nosso povo e nosso tempo, tanto que hoje nos brasileiros e todo o mundo está sorrindo para a celebração vida junto com os dedos curvados e a caneta repousada.

Oscar Niemeyer com o economista Celso Furtado e o antropólogo e amigo Darci Ribeiro em 1987

Oscar Niemeyer com o economista Celso Furtado e o antropólogo e amigo Darci Ribeiro em 1987

Oscar Niemeyer, Gilberto Gil e Lula

Este Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, amante da existência, da transformação do que está constituido e busca se impor, da arte, da mulher, da possibilidade do novo. Seu patrimônio que hoje está presente em diversos paises no mundo nos mostra novas possibilidades de estarmos presente nos espaços e vermos que também podemos modifica-los com o tempo. E este espirito do tempo que com seus minutos, horas, anos impõe o real nos faz perene, muda nosso caminhar, mas mantem muitas construções em pé, principalmente como as de Oscar, que tanto demonstram vitalidade e humanidade. Assim, Oscar conseguiu com seus riscos na tinta e papel renovar, através de uma arquitetura não burguesa e não voltada aos interesses do mercado, uma estrutura massificadora em seus espaços e formas que nos interpelam negativamente. Com a tinta e papel, mostrou que nem sempre a tinta e o papel do capital é o que importa, pois esta apenas carrega linhas duras, enquanto a arte sempre se abre nas linhas de corte. Sempre para o novo, como Niemeyer viveu.

Brazilian architect Oscar Niemeyer in Le Havre, France

À Brasília de Oscar Niemeyer

Dezembro 6, 2012

Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
 
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinícius
“imensos limites da pátria”
 
ou ginástica, pra ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
“Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Cidade com arquitetura da Escola de Bahaus comemora 50 anos

Novembro 9, 2012

De Deutsche Welle Brasil

Projetada há cinco décadas para dar forma à utopia do arquiteto Walter Gropius, de moradias em áreas verdes na periferia da cidade, a Gropiusstadt encontra-se desde então em constante transformação.

“Antigamente era uma beleza”, lembra Renate Ahnert, “finalmente, não precisávamos mais ficar carregando carvão”. Para ela, a calefação central foi decisiva na hora de tomar a decisão em prol de uma mudança para a Gropiusstadt, em 1965.

O conjunto habitacional ainda estava em plena construção, depois do lançamento da pedra fundamental, em 1962. Havia apenas um bonde, o metrô viria depois. E não havia ainda tantos espaços verdes. “Tudo era ainda deserto. Nenhum jardim-de-infância, nada”, recorda a educadora.

Grande conjunto habitacional em área verde

Quando, em 1958, o arquiteto da Bauhaus Walter Gropius foi incumbido de construir o conjunto habitacional Britz-Buckow-Rudow, tratava-se, também, de uma utopia social: o sonho de moradias melhores na periferia da cidade, de trocar os escuros apartamentos de fundos do bairro Neukölln, com banheiros do lado de fora e aquecimento a carvão, por um grande conjunto residencial em meio ao verde.

Gropius planejou complexos de prédios não muito grandes, com uma média de quatro e um máximo de 17 andares, atravessados por um cinturão verde. Além disso, uma boa infraestrutura com centros comerciais, cinema, correios e centros comunitários de lazer, a fim de garantir aos moradores as condições necessárias à vida urbana.

Vista aérea da Gropiusstadt Vista aérea da Gropiusstadt

Mas em 1961 o Muro de Berlim acabou sendo construído e o bairro estava localizado nas imediações da fronteira entre os lados ocidental e o oriental. A área do loteamento foi reduzida, os prédios tornaram-se mais altos.

No lugar dos planejados 14.500 apartamentos, foram construídos 19 mil. Os edifícios, com até 30 andares, abrigavam mais de 50 mil pessoas. Quando as obras acabaram, em 1975, a Gropiusstadt (Cidade de Gropius), como passou a ser chamada, tinha se transformado num verdadeiro monstro habitacional.

Cheiro de campo

“O quê? Você é da Gropiustadt? Na época, as pessoas viam isso como uma ameaça”, recorda Ingo Höse, hoje professor numa escola nas imediações do bairro berlinense. Nos anos 70, quando passou ali sua juventude, a imagem não podia ser pior. Gropiusstadt era considerada “uma área problemática”, marcada por drogas e criminalidade.

Uma percepção dos de fora, com a qual os moradores não concordam. Ingo Höse não lembra de qualquer sinal da suposta criminalidade juvenil na área. É claro que o lugar ficava um pouco “no fim do mundo”, trazia o cheiro de esterco dos enormes campos vizinhos, mas ali se tinha tudo que era necessário, lembra o professor: o centro comercial, os grupos de jovens e também sua escola. Foi a primeira gesamtschule da cidade, escola que reunia em um modelo todos os tipos de escola do sistema de ensino alemão, com aulas em horário integral e engajados professores de esquerda.

Realmente multicultural

“Tenho colegas de 18 nações”, aponta Cornelia Weis-Wilcke, com uma ponta de orgulho. Ela dá aulas há anos na Escola Walter Gropius. Ali, a realidade é, de fato, multicultural, se comparada a outros bairros berlinenses.

Depois da queda do Muro, muitos dos antigos moradores mudaram-se para uma periferia mais distante e o bairro atraiu gente nova, sobretudo migrantes do Leste Europeu – Rússia, Ucrânia, Polônia –, mas também muitos turcos, árabes e asiáticos. Os apartamentos eram baratos e grandes o suficiente para as famílias com muitos filhos.

Que hoje 30% das crianças do bairro vivem em famílias dependentes da previdência social é um fato que não se pode mascarar. Por isso, as escolas e outras instituições sociais oferecem aulas de reforço e ajudam na execução dos deveres de casa, tentando também auxiliar os pais com ofertas especiais.

Festividades na Lipschitzplatz: tentativa de revitalizar o bairro Festividades na Lipschitzplatz: tentativa de revitalizar o bairro

Quando, 50 anos atrás, Gropius projetou o primeiro conjunto habitacional berlinense em grande escala, a ideia era ainda parte de uma utopia social. Desde então, a Gropiusstadt encontra-se em constante transformação. “Não falo de religião, mas de cultura”, diz Julia Pankratyeva de maneira decidida. A efusiva ucraniana é considerada o “coração” do Centro Intercultural da Casa Comunitária, no centro da Gropiusstadt.

Engenheira de formação, ela trabalha ali há 15 anos. Quando chegou, sentiu-se de imediato em casa, uma vez que conhecia arranha-céus semelhantes em sua terra natal. “E aqui ainda tinha tanto verde”, lembra. Hoje, ela organiza no bairro noites de canto e dança, sobretudo para os moradores mais idosos e as crianças. Com seu jeito generoso e uma certa insistência, ela conseguiu reunir pessoas que antes evitavam o contato umas com as outras. A noite curdo-turco-grega, por exemplo, é um verdadeiro sucesso. Através da música e do canto, surgem interesses comuns entre as pessoas.

Atmosfera de mudança em ano de comemorações

Somos da Gropiusstadt é o título de uma exposição no shopping Gropiuspassagen, que reúne pequenos retratos de habitantes de diversas idades e origens. O que eles têm em comum é o fato de gostarem de viver ali e terem orgulho disso.

No ano de comemoração dos 50 anos de existência do bairro, luta-se para mudar a imagem do lugar. Um total de 400 novos apartamentos, lojas e hotéis deverão atrair inquilinos mais abastados para a região, fazendo com que ela se torne um pouco mais “urbana” – o que certamente não desagradaria a seu criador, Walter Gropius.