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VIVA O VINIL!

Junho 28, 2013

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Nossa coluna intempestiva Viva o Vinil traz mais uma grande bolacha pretobrástica da nossa música. Trata do LP Bandeira de Aço de Papete e Compositores do Maranhão. Lançado pelos Discos Marcus Pereira este que é o segundo disco de Papete não é um disco de bumba-meu-boi. Porém tocas as músicas traz um pouco dos sotaques (ou estilo) da música presente no folguedo com instrumentos como a zabumba (instrumentos sobresalentes no boi de Zabumba),as matracas que dão o tom ao Boi de Matraca , tambor onça, chocalho, o pandeirões e pandeiros menores (mais comuns no boi de Pindaré) e os metais principalmente usados no Boi de orquestra, como pistons, saxofone, etc.

As músicas do disco conta com os compositores Carlos César, Josias Sobrinho, Ronaldo e Sergio Habibbe e relata um pouco da rica vida cultural do Maranhão com agradecimento ao bumba-meu-boi de Tabaco em Madredeus, a Ubiratan Souza, Chico Maranhão, Mané Onça, Vavá e tantos outros nomes em que “cada um com seus sonhos, seu trabalho, sua vontade de fazer nada, ou de fazer tudo para que o trabalho seja conhecido e entendido”.

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A rica sonoridade de Papete não está apenas em seu talento e longa jornada como percussionista do Jogral e nas pesquisas pelo “Mapa musical do Brasil”. A riqueza é fruto de uma cultura maranhense/nordestina, onde a alegria do negro, índio, negro criou diversas manifestações culturais.

Obviamente com o mérito dos compositores que produziram letras únicas como Engenho de Flores, Eulália, Bandeira de Aço, Boi da Lua, Boi de Catirina, Catirina, Flor do Mal e todas as outras. Catirina, a companheira de nego Chico no folguedo do bumba-meu-boi, é tema de duas das cantorias.

Todas estas músicas afirmadoras da vida cultural dos povos brasileiros são cantadas pela voz serena acompanhada de Carlão no violão de 12, Otacílio no contra-baixo, Sergio Mineiro e Márcio Werneck nas flautas e Rodolpho Grani no coro. O disco contou ainda com a produção de estúdio do próprio Papete.

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O encarte que vem junto com o LP traz esta imagem de bonecos de pano representando os personagens do bumba-meu-boi. Além das letras, o encarte de Bandeira de Aço traz textos importantes assinados por Papete e Marcus Pereira.

E Lá vai, meu boi/ arrastando a barra/ a maré esbarra, no meio do boqueirão/ Levando um recado, pro meu senhor São João/ La na capital, São Luis do Maranhão.

Em tempos de um engessamento da divulgação da música brasileira pela indústria midiática, que se arrasta desde a época de Marcus Pereira, vemos muitos artistas que produzem uma música rica de partículas brasilianas mas que não são percebidos pelos ouvidos engessados da mediana classe de brasileiros tape/ados pelos meios televisivos e radiofônicos.

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Papete traz uma grande força popular em sua música junto aos compositores maranhenses, e por isto é algo que deve ser ouvido e divulgado não simploriamente como uma música regional do Maranhão. Mas como uma música brasileira de alta qualidade. Música esta que saiu dos berros dos vaqueiros e seus galopes, do canto forte dos amos de bois, de lavadeiras, de carregadores, de brincantes; dos casarões históricos de São Luis; dos tambores que ecoam em todos os cantos sejam eles de crioula, de mina, de boi, de índio, da alegria do encontro junino em todo país e que compõe uma riqueza cultural que continua transborando e se refazendando.

Assim o som que Papete entoa junto ao Maranhão e ao Brasil é algo vibrante e envolvente em uma experiência sonoro-cultural-brasileira-transcendental  para além das formas musicais alienantes.  Então Urra meu boi na urrada papetal deste vinil.

Grupos de Bumba-Meu-Boi se preparam para festas no Maranhão

Maio 21, 2013

O Bumba-meu-boi e a música maranhense de Ubiratan Souza

Março 31, 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Brasil, o país do carnaval: São Luiz

Fevereiro 9, 2013

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São Luiz terra do reggae, dos lençois, do bumba-meu-boi e de muita alegria não poderia ficar de fora deste carnaval afinado. A festa tem uma forte tradição em diversas partes da cidade como a comunidade de Madredeus, que também possui uma forte produção junina de bumba-meu-boi.

No Circuito Deodoro/Cajazeiras haverá além das manifestações folclóricas apresentações momescas de Alcione, Jorge Ben Jor e Diogo Nogueira.

Isto somado aos tradicionais Tambor de Crioula de São Luiz, Tambor de Mina, do Baralho, das Tribos, do Reggae, Blocos afros e a presença dos geniais compositores e cantores maranhenses que estão desde as antigas águas do “Pedra de Cantaria”: Josias Sobrinho e Beto Pereira.

Grupos de bumba meu boi do Maranhão são patrimônio cultural brasileiro

Agosto 31, 2012

 

Uma dos mais importantes e presentes manifestações da cultura popular brasileira é o bumba-meu-boi. Sua importância não se deve apenas pela difusão que teve em praticamente todo o Brasil (em especial no norte, nordeste e em Santa Catarina. Este folguedo popular é uma rica tradição devido a presença das culturas dos negros, indios, brancos, mulatos, cafuzos, mamelucos em suas músicas, danças, gestuais e também nos personagens do folguedo que inclui os diversos tipos de nosso povo.

Desta forma esta expressão que não se foca na comercialidade, no marketing e sim na produção coletiva continua sua manifestação a todo ano em geral nos meses juninos. E o bumba meu boi se apresenta em quatro formas diferentes: Boi de Matraca, Boi de Zabumba, Boi de Pindaré e Boi de Orquestra.

Por esta importância diversos grupos de bumba meu boi do estado do Maranhão receberam ontem do Ministério da Cultura títulos de Patrimônio Cultural Brasileiro. O enconto se deu no Teatro Alcione Nazaré em São Luís, durante o 2º Fórum Bumba Meu Boi do Maranhão – Patrimônio Cultural do Brasil.

Também foi assinado um termo de cooperação técnica para salvaguarda do bumba meu boi, com a instalação de um comitê gestor e  o lançamento do vídeo São Marçal, A Festa dos Bois da Ilha e de uma cartilha com informações sobre a manifestação cultural.

 

 

 

 

A arte em Xilogravura nordestina de Erivaldo em cordel de Bumba-meu-boi

Julho 18, 2012

Estampa de uma camiseta…Clique para ampliar

Devir/Dançar

Julho 5, 2012

O Devir/Dançar de hoje traz um tema que está dentro da época festiva junina-julina que estamos passando. Porém nossa coluna traz uma prática do folclore brasileiro que possui dança mas não é exatamente uma dança, e sim um folguedo popular conhecido como bumba-meu-boi.

Obviamente os personagens desta prática cultural que acontece em todo o Brasil cantam e dançam para seu público, ou para a dona da casa. Assim trazemos algumas pinturas nacionais que demonstram um pouco da verdadeira dança bovina de nosso povo.

Cláudio Portinari- Bumba-meu-boi (1956). Veja aqui uma outra versão.

A.Almeida- bumba-meu-boi

J.Borges- Bumba meu Boi

Aldemir Martins- Bumba-meu-boi (água -forte, 1959)

Eduardo Lima- Bumba meu boi

Viva a festa do São Bumba-meu-boi João

Junho 26, 2012

Eu conhecia do Bumba-meu-boi aquilo que se lê nos dicionários de folclore e nos raros livros disponíveis. Definições como a de Alceu Maynard de Araújo: “O bumba-meu-boi é um bailado popular largamente praticado no Brasil, no qual se nota a presença de vários elementos da arqueocivilização: animais que falam e dançam, a ressureição do boi, animal este que, para alguns autores, é um elemento totêmico. Há um pequeno enredo, de grande simplicidade, sendo que após algumas peripécias, matam o boi e sua carne é distribuída. É uma reminiscência do banquete totêmico ou tal distribuição simbólica, feita por um cantador, um trovador que sempre provoca hilariedade, não representará o antigo “pottlach ?”

Sabia que o Boi, em cada região do Brasil, apresentava-se com características absolutamente peculiares e que, no Maranhão, apresentava-se sob quatro formas diferentes: Boi de Matraca, Boi de Zabumba, Boi de Pindaré e Boi de Orquestra, cada qual com suas variantes. Sabia que, em algumas delas, o auto ainda é mantido enquanto que em outras permanecem alguns personagens (vaqueiros, caboclos de pena, Cazumbá, Pai Francisco, Mãe Catirina) e que a parte mais valorizada das “toadas de boi”, improvisos “puxados” pelos “amos do boi” durante toda a noite e repitidos pelo coro dos “brincantes”, como lá são chamados os participantes dos folguedos populares.

São Luiz

Naquela noite morna de São João, tive meu primeiro encontro com o Boi-Bumba do Maranhão. E meus olhos, meus ouvidos, meu coração foram pequenos para sentir toda a beleza, sem dúvida a mais incrível festa que eu já presenciei. Cesário, meu irmão e companheiro nessas andanças, seguia silencioso, ouvidos atentos, gravador em punho, procurando fazer com que pelo menos uma parte de tudo aquilo ficasse fielmente documentada. Foi graças a Américo Azevedo, um apaixonado pelo folclore maranhense, que conseguimos chegar mais perto do Boi. Seus amigos (entre eles, o Gregório Bacic, da TV cultura de São Paulo e velho admirador do Boi do Maranhão) nos levaram até o bairro Madre Deus, atravessando a cidade com suas ruas estreitas, seus velhos casarões, janelas, portões literalmente entupidos de gente alegre, viva, comunicativa.

A chegada no Bairro Madre Deus foi uma experiência extraordinária. Nos contaram que, até há pouco tempo atrás, era um bairro marginal, fechado, no qual “nem a polícia entrava”. Agora as coisas mudaram um pouco, mas continua difícil um forasteiro chegar lá. Madre Deus é um bairro pobre como tantos, em tantas cidades brasileiras. Mas na noite de São João, na noite do Boi, ele se transforma: as ruas ficam embandeiradas e, de espaço em espaço, grandes fogueiras iluminam as casas, os rostos dos homens que, junto ao fogo, afinam os grandes tambores do Boi. A sensação que tivemos foi a de atravessar um túnel do tempo, de entrar numa nova dimensão,num outro mundo.

Tabaco (Boi da Madre Deus)

Fomos à casa do Tabaco, o “dono do Boi’ da Madre Deus, quem organiza a festa e, antes disto, os ensaios (que começavam a se realizar em abril), quem distribui os vários papéis entre os “brincantes”, prepara a grande festa da morte do boi, lá pra fins de julho. Tabaco resolve todos os problemas: os da brincadeira do boi e os da pequena comunidade do bairro e, por força de sua liderança, acaba se transformando numa espécie de “prefeito” de Madre Deus. Quando falei disso, ele riu, satisfeito, acrescentando que “ser dono de boi é uma canseira danada, mas que vale a pena”.

Boi de Anthero

A  casa de tabaco vivia sua noite de glória e confusão. No meio da sala, vestido com um pequeno manto todo bordado de miçangas e pedrarias, a “pele” do Boi. No dia seguinte, Tabaco me mostrou uma dezena delas: todas bordadas com os motivos alegóricos de cada ano (A descoberta do Brasil, A primeira missa, Os mártires da Inconfidência, Alegria do povo, etc.). Nisso ele gasta um dinheirão. Mas, onde é que já se viu um Boi sem “pele” ? E por toda casa circulavam os “caboclos de pena” com suas incríveis fantasias de penas de ema (“ema, agora, não tem mais, então, a gente usa as penas daqueles espanadores, dos grandes, e cada fantasia fica num dinheirão”). Alguém já se encarregava de “molhar” o Boi e a garrafa de cachaça corria, fraternalmente de boca em boca, porque “boi seco” é um boi absolutamente desmoralizado.

Tabaco deu ordem para começar. Saímos de sua casa e fomos a um pequeno largo, pouco mais abaixo. E, realmente, a “coisa” começou. Não sei de onde, um som enorme tomou conta de tudo. Um som indescritível, uma batida, uma cadência que não tinha nada a ver com as que eu conhecia. Primeiro foi o “amo” “puxando a toada, depois os tambores-onça, depois as matracas (duas tabuinhas, semelhantes a dois pequenos tacos de assoalho), centenas delas batendo. Isso durou talvez meia hora, talvez mais. Depois tambores e matracas silenciaram e o povo começou a entrar numa capelinha, entoando rezas e ladainhas. Entramos também e lá, diante do altar repleto de imagens de santos e bandeirolas, estava o Boi, velas acesas sobre os chifres. Era o batizado do Boi, “porque não presta o Boi sair assim, pagão”.

Boi de Anthero

Só depois do batizado é que o Boi saiu à rua. Aí finalmente, o som dos tambores e das matracas, o canto, a dança e a brincadeira começaram. E só terminariam às nove horas da manhã seguinte, “quando o sol já estivesse alto, porque um Boi que volta para seu bairro antes do amanhecer é mal-falado o ano todo.

Na face A deste disco, tentamos dar uma ideia da Riqueza e beleza do Boi-bumbá do Norte. A beleza musical das toadas está exemplificada em “Me dá, me dá, Moreninha”, recolhida por Vicente Salles, na praia do Mosqueiro, Pará. “Boi-Bumbá” é um exemplo de um compositor erudito ou semi-erudito como Waldemar Henrique, inspirado em tema de Boi. Boi do Amazonas é outro tema de Boi, recolhido por Walter Santos. Com o Boi de Madre Deus fizemos uma colagem, reunindo toadas, batizado e entrevistas. Uma delas foi com Zé Igarapé, um velho “amo” de boi, da “turma de 1905”. Uma figura maravilhosa, respeitadíssimo e considerado pelo pessoal do Boi da Madre Deus uma espécie de patrono, de líder espiritual. Depois, seguem exemplos de Boi de Orquestra, Boi de Zabumba (Guarnicê) e Boi de Pindaré (Urrou), os vários sotaques do Boi maranhense. Guarnicê e Urrou são duas partes mais características da representação do Boi-bumbá. Finalizando mostramos uma gravação de 1938, realizada por uma equipe dirigida por Mário de Andrade, no tempo do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, o trabalho mais sério que já se fez (e isso há quase quarenta anos), no campo da cultura popular, e que prova a permanência das características fundamentais do Boi ao longo de todo esse tempo.

 

CAROLINA ANDRADE, Companheira de Marcus Pereira e coordenadora do projeto “Mapa Musical do Brasil” da nossa música popular. Os textos e fotos estão presente no disco “Música Popular do Norte vol.2” lançado como parte do projeto citado acima pelos Discos Marcus Pereira, e que até hoje é um dos principais registros de nossa cultura, música popular, danças e folclore.

Para baixar este disco ou conhecer mais sobre a coleção “Mapa Musical do Brasil”, clique aqui.