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A refeição do imperador

Janeiro 21, 2012

Que prefere o Imperador à mesa? Em seu desconjuntado castelo entre as montanhas, o conde Beroquin Prenez se preocupava. Passando pelo vale com o bando dos seus paladinos, Carlos Magno dignar-se-á comer em sua casa. Assim mandou dizer.

O conde Beroquin é pobre, mas faz questão da velha honra. Preparar um banquete digno de Nero. Mas que prefere o imperador? Lá em cima, entre os despenhadeiros, estas coisas não se sabem.

Despacha alguns fiéis à cidade para se informar. Partem, voam a golope, à sua passagem tamanho é o turbilhão, que balançam as lanternas nas portas das hospedarias. Chegam, perguntam, logo estão de volta. Um deles diz ao conde: “O imperador tem paixão por enguias”.

“E você, o que soube?” E o segundo: ” Enguias”, diz. O terceiro, o quarto, o quinto confirmam.

Mas lá em cima nunca alguém viu enguias. O conde, que já é velho chama o filho: “Baldovino, você iria a toda velocidade até Chioggia?”

O filho se inclina, nunca foram vistas cavalgaduras passar com tamanha rapidez por bosques e barrancos. Os pássaros que querem segui-lo bem cedo estão cansados. Dois dias e Baldovino está de volta. Traz doze enguias adultas, parecem as serpentes de Laocoonte.

Como no fundo do vale vê-se passar a grande nuvem de poeira levantada pelo cortejo de Carlos Magno, o conde chama o padre para que as enguias sejam abençoadas.  Contudo, há tempo ainda. O imperador se deterá em outros três castelos situados mais abaixo para comer e descançar, antes de chegar a Prenez.

Até que chega o dia. Carlos Magno acorda contrariado, na noite anterior, à mesa, comera um pouco demais. Agora, senta na cama, com a boca torcida, e dá um arroto: “Enguias”, exclama, “sempre enguias, que vão para o inferno… se hoje à noite me servirem mais enguias, juro… fá-los-ei decapitar.”

Aproxima-se da janela, escancara os vidros, olha para baixo o imenso vale. Contra o sol, sobre um penhasco, surge o castelo de Prenez. Das chaminés sai uma fumaça branca.

-Enguia- murmura ainda, com desgosto- maldito bicho. Se me oferecerem enguias, mandarei matar a família inteira… pai, filhos e empregados… E antes, um belo suplício.

Conto do jornalista, escritor de contos, romances e livros infantis, o italiano Dino Buzzati