O POVO POBRE NO CANTO DA GRALHA AZUL

Matéria de Ricardo Prestes Prazello*, para o Brasil de Fato.
Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico - Créditos: Arquivo
Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico / Arquivo

Já faz 40 anos do primeiro voo. Em 1977, aparecia em Paranavaí um grupo de jovens músicos preocupados em alimentar a linguagem da música popular brasileira com a cultura do interior paranaense. Assim surge o grupo Gralha Azul. 

Tendo por ninho o teatro estudantil, o Gralha Azul logo contribuiria para enriquecer o cenário musical do Paraná com trilhas para peças, composições próprias e mostras culturais. Entre seus componentes, vários músicos, que se revezaram dos anos 1970, quando contou com coral feminino, até hoje. 

Os vôos mais altos, sem dúvida, estão refletidos na discografia composta por cerca de sete álbuns. O primeiro, chamado “Ciranda paranaense”, foi gravado em 1980 e carrega na capa o compromisso do grupo: a pintura de Roberto Pereira da Silva, retratando o povo pobre do campo. No encarte do disco, sua preocupação social se expressa, quando se lê que o grupo canta “onde estiver o povo reunido”, nas praças, nas ruas e nos bairros da cidade, “sem ter compromisso com consumo, sem ter a preocupação em vender e ganhar”. 

É curioso notar que o Gralha Azul não ficou conhecido do grande público. Sua “música de registro cultural”, porém, merece ser revisitada pelas novas gerações de músicos e compositores. Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico. 

Se fosse possível destacar apenas algumas de suas composições, não poderia deixar de ser ressaltada a preocupação com a cultura do povo pobre. Por exemplo, a canção “Moema”, de disco homônimo do ano de 1993, canta a história da resistência guarani, ao tempo das 13 reduções jesuíticas que marcaram o território paranaense em pleno século XVI. A lenda da fuga de mais de cem mil indígenas, e dos padres jesuítas, contra a invasão bandeirante, explica a aparição de três morrinhos, na região, que “cresceram do sangue daquela gente”. 

Mas é a música “Procissão dos navegantes”, do disco “Pitanga madura” de 1983, que pode ser tida como a obra-prima do conjunto. Nela, o rio Paraná faz navegar o povo trabalhador, em busca de seu pescado, alimento que sustenta o corpo, mas também a alma, ao evocar a religiosidade popular. Um povo em procissão, na esperança de “que a miséria parta e o rio sempre a lhes doar”. Eis o canto forte do Gralha Azul. 

Para ficar por dentro: 

– Livro “Grupo Gralha Azul: a história e a trajetória de um autêntico grupo de música regional do Paraná” (2004), organizado por Roberto Simões; 

– Caixa “Grupo Gralha Azul: história e trajetória”, com 5 discos remasterizados e um DVD ao vivo. 

*Ricardo Prestes Pazello é professor do curso de direito da UFPR, secretário-geral do IPDMS e militante da Consulta Popular do Paraná.

Edição: Ednubia Ghisi.

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