O DESAFIO DE INCLUIR A CULTURA COMO DIREITO BÁSICO E POLÍTICA PÚBLICA

Junho 17, 2018
PROPOSTAS
Ex-ministro Juca Ferreira considera que setor é atingido não só pelas políticas de austeridade, mas pela falta de visão global dos governos. E vê risco de o país tornar-se “parque temático neoliberal”
por Vitor Nuzzi, da RBA.
CC WIKIMEDIA
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Juca Ferreira foi ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma e vê a pasta desvalorizada por Michel Temer

São Paulo – Como praticamente todos os setores, a cultura não escapou de cortes impostos por uma política de austeridade implementada pelo atual governo, mas já vinha sofrendo com escassez de recursos. Para um grupo que vem se dedicando a formular propostas no setor, uma mudança só ocorrerá com alteração da “direção política”, a partir da qual seria possível “avançar sobre uma agenda de reorganização do financiamento à cultura”. Algumas políticas melhoraram o acesso da população, avalia o ex-ministro Juca Ferreira, para quem um dos desafios é consolidar a cultura como política público e direito social básico.

Ele participou recentemente de evento organizado pelo coletivo Brasil Debate e pela fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung (FES), para refletir sobre o tema e apresentar propostas que poderão subsidiar o debate eleitoral. Texto do consultor João Brant, ex-secretário-executivo do Ministério da Cultura e ex-secretário municipal em São Paulo, fala em “morte lenta” das políticas federais para o setor, mas aponta saídas, desde que haja “uma reversão completa da trajetória dos últimos anos”. Hoje, diz ele, a tendência é “o ministério desaparecer”. 

Isso chegou a acontecer em maio de 2016. Brant recorda que duas horas depois da posse de Michel Temer foi publicada uma medida provisória extinguindo a pasta. Houve reação da classe artística, levando o governo a recuar. Mas um levantamento organizado pelo consultor mostra orçamento em queda livre. 

“Considerado desnecessário por Temer, prejudicado pelo teto de gastos públicos e desamparado pela falta de empenho de seu ministro em trabalhar por sua recuperação, o Ministério padece em morte lenta. Com ele, morre aos poucos também parte significativa das políticas culturais”, escreve Brant. Na prática, segundo ele, há uma perda entre 70% e 80% na chamada área finalística. “Hoje, o MinC tem R$ 100 milhões para executar.” O problema não é novo, mas tornou-se mais agudo – no texto, o ex-secretário cita a ação de uma “navalha” em 2015 e de uma “guilhotina” no ano passado.

Ex-secretário de Políticas Culturais do Minc e autor de livro sobre o assunto, Guilherme Varella cita conceito do ex-ministro Gilberto Gil: fazer políticas culturais é fazer cultura. Houve um início de mudança de postura institucional, em um Estado caracterizado pela falta de políticas públicas, em uma discussão que já não era mais apenas sobre orçamento, mas sobre diversidade. “Hoje, não existe capacidade operacional.”

Com Gil e Juca, cujas interinidades somam aproximadamente dois anos, o orçamento passou de R$ 476,1 milhões, em 2003, para R$ 1,65 bilhão em 2010. “A perspectiva era de criar uma política de Estado baseada não apenas em fomento a atividades culturais, mas em processos regulatórios e políticas públicas que contribuíssem para o desenvolvimento da cultura em três dimensões: simbólica, econômica e cidadã”, escreve Brant. “Estas três dimensões se desdobraram, naqueles oito anos, em ações concretas.” Ele cita, entre outras iniciativas, a criação do programa Cultura Viva, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do PAC Cidades Históricas.

O consultor lembra que o orçamento para o Cultura Viva, que já foi superior a R$ 100 milhões, passou para R$ 32 milhões. E o PAC “respira por aparelhos”. Ao mesmo tempo, há um “crescimento significativo” do FSA, “que sustenta grande parte das políticas voltadas para este setor”. 

Juca Ferreira avalia que as políticas de austeridades, isoladamente, não explicam a crise na cultura, que não é vista como parte de uma política pública. Ele recorda de conversas difíceis com técnicos da Fazenda e do Planejamento, que se queixavam de “barulho” vindo do Ministério da Cultura. As dificuldades aumentam com o predomínio do capital financeiro. O ex-ministro vê risco de o Brasil se tornar “um parque temático neoliberal”.  Mas a questão vem também da própria sociedade. “Só 5% vão a museus, só 13% vão a cinema, (se lê) um 1,7 livro por ano”, observa.

O Brasil cresceu sua produção de filmes no pós-Lula (“Fazia menos de 10 por ano, hoje faz mais de 150”) e conseguiu zerar as cidades sem biblioteca, mas parte desse avanço se perdeu. Mais de 600 bibliotecas fecharam, aponta Juca, para quem o número pode ser ainda maior. Ele defende que se discuta como a sociedade se relaciona com as políticas culturais. “Não pode haver dicotomia entre acesso à cultura e cultura como mercadoria”, diz Juca. Mas a cultura deve ser um bem universal – não como hoje, em que o rico tem acesso a tudo, diz, a classe média tem grande parte e os mais pobres ficam com a TV aberta.

Durante a reunião, foram feitos vários relatos sobre atividades culturais em áreas mais distantes nos grandes centros. “As pessoas não vão não porque não gostam.”

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QUILOMBO DE XAMBÁ HOMENAGEIA MORADOR COM EVENTO ABERTO AO PÚBLICO

Junho 16, 2018

Morador histórico Tio Luiz, falecido em 1996 e grande contador de histórias, é o homenageado

Da Redação

Brasil de Fato | Olinda (PE)

Moradores transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear Tio Luiz. - Créditos: Divulgação
Moradores transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear Tio Luiz. / Divulgação

Neste sábado (16), o Quilombo Urbano da Xambá, em Olinda, Região Metropolitana do Recife, inaugura a Praça Tio Luiz da Xambá. Uma homenagem a Luiz de França Paraíso (1926-1996), conhecido como Tio Luiz ou como Alegria, devido ao seu senso de humor e fama de grande contador de histórias. O evento inicia às 18h e é aberto ao público. 

A inauguração é uma iniciativa do Centro Cultural Grupo Bongar – Nação Xambá e do Instituto Tia Luíza, que junto com os educadores de uma oficina de leitura, crianças e moradores, transformaram um espaço na comunidade em uma pracinha para homenagear o xambazeiro Tio Luiz.

Na cerimônia, haverá contação de história, pelo Babalorixá Ivo da Xambá e o educador Gleidson da Xambá. As crianças irão relatar todo o trabalho de pesquisa feito por elas, educadores e moradores da Xambá. O evento também contará com apresentações culturais com cocos escritos pelas crianças, falando de Tio Luiz, e com a Orkestra Tambores da Xambá (OTX), com cantos para Xangô. 

Tio Luiz era sapateiro e sua sapataria era um pequeno espaço dentro da comunidade Xambá, que todos chamavam da “barraca” de Tio Luiz, onde hoje se localiza a guarita e saída dos ônibus do Terminal Integrado de Passageiros da Xambá (TI Xambá), em cima da calçada do Centro Cultural Grupo Bongar – Nação Xambá.

A sapataria de Tio Luiz sempre foi um ponto de encontro de moradores e principalmente das crianças da Xambá, que iam para lá ouvir as suas histórias reconhecidas pelos moradores como engraçadas, “mentirosas” e fantásticas, que revelava todo o universo da comunidade Xambá, seus orixás e encantados. Também nas noites da Xambá, Tio Luiz sentava sempre no tronco que fica em frente ao Terreiro Xambá com sua garrafa de café e toda a criançada o rodeava para mais uma vez ouvir as suas histórias.

Para a comunidade de Xambá, a homenagem a Tio Luiz busca a manutenção de sua história e a garantia da memória viva dos seus ancestrais. A comunidade convida a todas as pessoas interessadas em participar. 

 

Edição: Catarina de Angola

LAÉRCIO VILAR, O MESTRE INVISÍVEL

Junho 15, 2018

Conheça o baterista mineiro de 50 anos de carreira que abalou as correntes do Jazz

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Moeda (MG)

Laércio: “há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa” - Créditos: Pedro Faria
Laércio: “há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa” / Pedro Faria

Poucos bateristas são lembrados como “mestre” por tantos nomes da música brasileira. Na pequena cidade de Moeda (MG), a 60 km de Belo Horizonte, vive de forma simples o músico Laércio Vilar, o primeiro baterista de jazz do estado. Agora ele completa nada menos que 70 anos de vida e meio século de carreira.

Quem conhece Laércio já vai se acostumando ao seu jargão estimatório “parrapá”, que ele fala na mesma proporção de um “uai”. O palavreado vem acompanhado de uma piada e um riso divertido, debaixo dos óculos e da barba branca no rosto negro. A dedicação o faz ensaiar ao menos três horas por dia, somente ele e a batera, e diz estar “explodindo de sabores sonoros” nas suas novas composições.

História

Laércio morou em Belo Horizonte até a década de 80, onde iniciou e desenvolveu sua carreira de baterista. Ele fez shows, deu aulas, se tornou parceiro de inúmeros músicos como Toninho Horta, Chico Amaral, Marilton Borges, Beto Lopes, e foi nessa cidade que também enfrentou seus maiores desafios.

O impasse de tocar nos bares de BH – e receber indignamente por isso – era grande e levou Laércio a questionar a relação entre músicos “operários” e músicos “donos de bandas”. Operários, na opinião dele, eram aqueles pagos para executar as músicas, enquanto os “donos” lideravam os negócios e muitas vezes desrespeitavam os demais.

“Há uma diferença entre ser bom músico e boa pessoa. Pra subir no palco tem que ser boa pessoa”, é a ideia de Laércio. A sua insubordinação passou a ser indigesta para os tais “donos”.

O operário inverte a cena

O mestre foi ousado. Em toda banda a bateria é colocada atrás dos outros instrumentos. É a bateria que, junto com o contrabaixo, dá a base da música e por isso recebem o apelido de “cozinha”. Mas Laércio achava que o fundo do palco não era o lugar onde ele gostaria de tocar para sempre, e que a bateria poderia não só ocupar a frente do palco como protagonizar arranjos.

“A bateria sempre foi um pano de fundo. Antigamente, nem a chamavam de bateria, era ritmista. Sempre foi um instrumento da ‘cozinha’. Mas poxa! É lá que está a fogueira!”, se comove. A sua inspiração foi um vídeo do baterista Buddy Rich, na década de 60, que colocou duas baterias na boca do palco. 

“Aquilo pra mim foi um tapa. Eu pus a bateria na frente e fiz a hierarquia com um triângulo no palco”, teimava. “Daí, as chamadas para tocar se escassearam ainda mais. Foram me cortando. De repente nem casa noturna mais, nem pra tocar bolero”, brinca. Laércio saiu de BH e encontrou a cidade de Moeda para construir sua vida. Mas mesmo fora da cena da capital, continua sendo lembrado.

Laércio, um clássico

O músico Eneias Xavier conhece o baterista há mais de 25 anos e produziu “Carnaval Atmosférico”, primeiro e até o momento único CD de Laércio. Obra que leva Eneias a sentenciar: Laércio está na lista dos clássicos. “Todos os bateristas, principalmente, ouvem e estudam esse disco. O Laércio é uma pessoa que a gente cita no estúdio, na mesa de bar. ‘Isso aqui eu queria fazer meio Laércio, aquilo ali o cara fez meio Laércio.’ São três ou quatro músicos de Minas Gerais que a gente cita na mesma proporção que ele”, conta Eneias.

A singularidade do mineiro está ligada à forma como ele usa a “bateria aberta”, o estilo free do jazz, em que leva a bateria a fazer solos e não apenas acompanhamento. “Na época, pouca gente fazia isso, só ele e Neném, que é um discípulo dele”, conta Eneias. 

Essa audácia rendeu a Laércio uma música em sua homenagem. A composição “Laércio” do também baterista Nenê, que tocou com Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Elis Regina, nasceu para lembrar a sua originalidade. “Todo mundo tem influências, seja da música brasileira ou estrangeira, mas quando você desenvolve seu trabalho tentando sair disso, criando uma coisa própria da sua cabeça, isso é um trabalho original”, diz Nenê sobre Laércio.

 

Hoje

O baterista não parou no tempo. Na nossa visita, mostrou à reportagem o desenho – sim, ele desenha suas músicas – das suas novas composições para um álbum que procura gravar em áudio e em DVD ainda em 2018.

A equipe que produziu este vídeo agradece imensamente a recepção e o bom humor do mestre Laércio Vilar. Agradecemos também aos moradores de Moeda (MG) e Belo Vale (MG), que nos ajudaram a fazer contato, gravar e nos orientaram nesse caminho.

Edição: Joana Tavares

‘HORA DO RANGO’ NA ESTRADA: PROGRAMA PREMIADO VAI A SÃO LUIS, PÁTRIA DO REGGAE

Junho 14, 2018
RÁDIO DEMOCRÁTICA
Programa da Rádio Brasil Atual rendeu prêmio APCA de melhor produtor musical ao apresentador Colibri. Depois de algumas experiências itinerantes, passa dois dias na capital maranhense
por Gabriel Valery, da RBA.
REPRODUÇÃO/TVT
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Colibri Vitta: dois anos à frente do ‘Hora do Rango’

São Paulo – De grandes nomes da música brasileira até aqueles que as outras rádios não tocam. Como um celeiro de análise e maturação da boa canção nacional, o programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual, acumula mais de 465 edições desde maio de 2016. Histórias de sucesso que renderam o prêmio de melhor produtor musical de 2017, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), para o jornalista e apresentador vespertino da rádio Oswaldo Luiz Colibri Vitta.

Agora, a ideia é levar fazer experiências fora do estúdio. O programa já foi exibido, ao vivo, do Bar Brahma, em sua edição número 300. Já visitou a cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, e promoveu duas transmissões com artistas do ABC paulista na sede do Instituto Acqua, em Santo André.

A próxima aventura, no bom sentido, será no Nordeste, por meio de uma parceria como instituto. Nesta quinta-feira (14), o Hora do Rango será apresentado de São Luís, diretamente do Museu do Reggae, na capital do Maranhão.

“Lula deu uma canja. Fernando Haddad tocou violão. Mano Brown lançou álbum solo e botou a boca no trombone. Chico Cesar interpretou música inédita ressaltando o ativismo político dos estudantes secundaristas. Jerry Adriani antecipou sua biografia, em sua derradeira entrevista”, lembra Colibri, sobre alguns pontos marcantes da história de seu programa. O prêmio ao jornalista foi concedido em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso no último dia 4.

“A ideia do programa é apresentar a diversidade e a riqueza cultural da música brasileira de todos os gêneros e regiões do país. Da MPB ao samba, da música tradicional (afoxé, maracatu, ijexá, ciranda, coco, etc) e também instrumental”, diz o produtor Nelson Calura.

“A seleção dos artistas está alinhada com o perfil da rádio. O programa valoriza a produção nacional independente que não tem espaço em outros veículos e também artistas consagrados, como Mano Brown, Emicida, Chico César, Paulo Miklos, entre outros. Tem lançamentos, revelações e também o resgate de importantes artistas, que têm muita história, mas acabam não sendo conhecidos pela nova geração porque as rádios não tocam”, define o jornalista.

Longa história

Colibri lembra do início da jornada que o fez chegar até o formato atual da Hora do Rango. Tendo trabalhado com “produção, texto, reportagem, direção de vídeos e, no meio disso tudo, turismo, esportes e principalmente cultura”, o jornalista conta que a experiência com conteúdo voltado à classe trabalhadora vem de longa data. “Fizemos a primeira experiência como o mundo sindical em 1992 com a Rádio dos Bancários. Trabalhamos também com a TVT nos anos 1990 e nos pediram um projeto de rádio”.

“Foi o Gilmar Carneiro, da CUT, que pediu para desenvolvermos inicialmente a Rádio dos Bancários. Jornalismo de manhã, mostrando movimentos sociais, mundo do trabalho e direitos humanos”, afirma.

Hora do Rango, explica Colibri, tem como forte componente a música ao vivo. “Ficamos duas horas com o artista conversando. Começamos com a interação que ainda estava começando e hoje temos as redes sociais e o WhattsApp da rádio para o ouvinte participar. Enfim, é um programa no velho e bom estilo com músicas ao vivo. O ouvinte participa.”

A lista de artistas segue. “É música de todas as tribos e de todos os estilos. Da velha guarda, como Germano Mathias, Odair José, Evinha, Eduardo Araújo, Dudu França, Made in Brazil, Zé Geraldo, Maria Alcina e Claudya, aos lançamentos de novos artistas, como Filipe Catto, Mamelungos, Samuca e a Selva, As Bahias e a Cozinha Mineira, Liniker, Tássia Reis, O Terno, Ava Rocha, Dani Black, Francisco, el Hombre, entre outros.” O papo com os artistas ainda revela outros campos artísticos de interesse deles e do público. “E mais poesia, literatura, teatro e cinema com bom humor e improviso.”

Segundo Calura, a produção para as performances ao vivo é um saboroso desafio. “Já participaram bandas com 11 integrantes, para dar um exemplo. Somos o único programa de rádio de São Paulo que traz artistas diariamente ao estúdio. O que nos deixa muito feliz é que o programa alcançou reconhecimento junto aos artistas, que fazem suas indicações e sugestões. Essa consolidação do programa faz com que haja bastante procura e fazemos o possível para dar espaço a todos.”

Na estrada

As perspectivas agora para o futuro incluem gravações fora dos estúdios da rádio, que ficam na região da Avenida Paulista, em São Paulo. No ano passado e no início deste ano, duas experiências já foram realizadas. Agora, amanhã, o passo será maior, como explica Colibri. “Fomos convidados para participar da festa do Dia do Reggae, que vai ser amanhã, no Museu do Reggae, de São Luís do Maranhão (…) Antes, fizemos a primeira experiência fora do estúdio em Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), no Casarão da Mariquinha. Estivemos com artistas locais. Depois, fizemos em Santo André (região do ABC), neste ano, com artistas locais. Transmitimos pela primeira vez de lá pela TVT”, afirma. A parceria com a TVT também é uma realidade que tende a se intensificar.

O programa será exibido das dependências do museu e as festividades do Dia do Reggae ainda incluem shows e uma programação cultural que será realizada no centro histórico da capital maranhense. “Amanhã e sexta-feira estaremos por lá. A ideia é do Hora do Rango colocar o pé na estrada. A partir deste ano, temos a ideia de sair do nosso estúdio, gravar em outros com o público, em auditórios”, completou.

Colibri ainda conta que já existem outras propostas para levar o programa para outras cidades do país. “Já fomos convidados por outros lugares, como teatros, para apresentarmos ao vivo. A tendência é essa. Temos convites para Santos, São José dos Campos, ao vivo com os artistas locais. Sempre valorizando músicos locais e entrevistando a turma toda. Temos propostas também para o Rio de Janeiro, com o pessoal do Samba do Trabalhador, uma proposta clara. Também temos propostas de Recife, já que recebemos muitos artistas de lá aqui. O negócio está pegando. Estamos todos muito animados.

No Maranhão

A expectativa para o programa no Maranhão é de repetir as boas edições gravadas nas cidades paulistas. “A recepção nessas experiências tem sido maravilhosa. O programa já é querido pelos músicos aqui no estúdio e com o pessoal no Facebook, imagina quando vamos para as cidades e entrevistamos o pessoal no local”, afirmou Colibri, que acrescentou estar ansioso para conhecer o público maranhense de perto.

Além de celebrar o ritmo jamaicano, típico no Maranhão, os eventos ainda lembram o início das festas juninas e do bumba meu boi. O Instituto Acqua, uma organização social que apoia a Rádio Brasil Atual, é a realizadora das festividades que incluem a presença da Hora do Rango na capital maranhense. “A programação, marcada para os dias 14 e 15 de junho, acontecerá no Museu do Reggae e Praça do Reggae, no Centro Histórico de São Luís, e marca o início dos festejos juninos da região. Nomes como Orquestra Maranhense de Reggae, Raíz Tribal e George Gomes integram a atividade”, afirma em nota o Instituto.

A programação, para além do Hora do Rango, inclui shows das bandas que passam pelo programa e oficinas de cultura reggae. ” A partir das 16h, o local receberá oficinas de tranças, dança com o Grupo Afro Malungos e exposição de produtos da cadeia produtiva do reggae. Os DJs Neturbo, Andrezinho Vibration, Chico do Reggae e Ademar Danilo comandam as atividades de palco com entradas às 18h, 20h e 21h15. Às 19h, o público poderá interagir com o grupo Tambor de Crioula. Mais tarde, a partir das 19h30, a Orquestra Maranhense de Reggae sobe ao palco com arranjos reconhecidos pelos fãs do movimento regueiro em São Luís”, afirma o Instituto.

“Outro destaque da noite será a banda Raíz Tribal, formada por filhos dos fundadores da Tribo de Jah e expoentes do atual cenário local.  Eles se apresentam a partir das 20h30 com participação especial de Célia Sampaio, conhecida como a “dama do reggae” do Maranhão. Outro ícone da música, George Gomes, baterista que rearranja músicas folclóricas maranhenses para o ritmo do reggae, toca às 21h30. Para encerrar a programação, a tradição e o colorido do Boi Unidos de Santa Fé, às 22h, um dos grupos de bumba meu boi com maior expressão no Estado”, completa.

Ponto de vista do artista

Para Nelson Calura, que trabalha na produção do Hora do Rango, o reconhecimento junto aos artistas é o ponto mais gratificante dessa história. “Essa consolidação faz com que haja bastante procura e fazemos o possível para dar espaço a todos”, disse. A grande quantidade de artistas é um desafio para eles. “Uma das dificuldades é conciliar a agenda dos artistas pois, embora muitos morem em São Paulo, também trazemos músicos de outros estados para participar do programa.”

“Outro desafio é a produção para as performances ao vivo, característica do Hora do Rango. Já participaram bandas com 11 integrantes, por exemplo. Vale ressaltar que somos o único programa de rádio de São Paulo que traz artistas diariamente ao estúdio, essa é justamente a marca registrada”, completa.

Calura destaca alguns dos episódios que considera mais notáveis. “A ideia do programa é apresentar a diversidade e a riqueza cultural brasileira de todos os gêneros e regiões do país. Da MPB ao samba, música tradicional e também instrumental. A seleção dos artistas está alinhada com o perfil da rádio. O programa valoriza a produção nacional independente que não tem espaço em outros veículos de comunicação e também artistas consagrados como Emicida, Chico César, Paulo Miklos, Mano Brown, entre outros”

A entrevista com Mano Brown foi uma das mais emblemáticas da trajetória da rádio. Colibri conta que no começo ele não queria dizer muito. “Vocês conhecem o jeito dele meio durão. No começo, ele disse que não ia falar de política e eu pensei que a entrevista seria lamentável. Aí, ao contrário. Ele acabou entendendo a rádio, curtindo a rádio e se soltando. No fim ele estava falando de política, adorou porque tocamos o novo disco dele e demos espaço para o projeto dele.”

Parceria com o artista

Esta identidade com o artista é expressa também por outros nomes da música brasileira, como é o caso do gaúcho Arthur de Faria, que revelou não ter ficado surpreendido com o prêmio da APCA de Colibri. “Já estive no programa e acompanho sempre. Penso que é o melhor programa do mundo. Não foi surpresa o prêmio, é só o mundo que ainda não conhece”, disse. A musicista Ava Rocha aproveitou para parabenizar o programa. “Uma rádio que defende a música brasileira independente. Fiquei feliz com o prêmio, eu que já estive lá”, disse.

O cantor Dudu França seguiu a linha de Ava. “Sou testemunha do grande trabalho desse programa maravilhoso que nós artistas, da velha guarda, podemos falar que deveríamos estar tocando maravilhosamente bem nas rádios. Mas há uma massificação de mídia e, às vezes, o público não tem a oportunidade de saber o que existe além da mídia que está no ar. E o programa mostra isso, que o Brasil é muito rico em quesitos musicais.”

Músicos novos também têm sua voz reconhecida no programa, como afirma Lucas Santtana. “A rádio faz tudo com o maior carinho com os ouvintes e leva a diversidade da música brasileira. Ela é muito rica, temos um século de produção musical intensa e diversa e a rádio trás diversidade: gente que já está há muito tempo, gente que está chegando agora. Isso é muito importante para que os ouvintes tenham acesso à essa riqueza musical e que saibam que hoje se produz muita música boa no país.”

É PARA SAIR ARRASADO DO FILME, DIZ DIRETORA DE ‘O PROCESSO’

Junho 13, 2018
CULTURA – IMPEACHMENT OU GOLPE?
Cineasta, que participou de exibição e debate na Assembleia paulista, lembrou que “não existe filme isento”, mas todos os lados da história foram mostrados
por Vitor Nuzzi, da RBA.
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Maria Augusta Ramos (à dir.) com a deputada Beth Sahão: “Cada escolha é estética e ética”

São Paulo – O documentário O Processo começa com uma tomada aérea na platitude da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, contrastando com a cena seguinte, uma tumultuada sessão no plenário da Câmara. Imagens e sensações de menos de dois anos atrás foram revividas, e sentidas, durante exibição na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com a presença da diretora, Maria Augusta Ramos. Não é cinema de entretenimento, mas incômodo, alerta a autora. “A gente tem de sair arrasada desse filme.”

Com duração de 137 minutos, O Processo já foi visto por 58 mil pessoas em quatro semanas de exibição em circuito comercial – continua em cartaz. Em agosto, deve ser exibido em plataformas na internet. A narrativa da destituição de Dilma Rousseff tem cenas de comissões no Congresso, reuniões reservadas dos defensores da presidenta e manifestações de rua, sem entrevistas, comentários ou legendas, como é característica da diretora, responsável por filmes como Brasília (2004), Juízo (2007) e Futuro Junho (2015). “Os (meus) filmes são construídos a partir de observações do cotidiano.”

Maria Augusta editou 450 horas de material para chegar às pouco mais de duas horas de filme, ainda assim um tempo extenso para um documentário. “Cada escolha é uma escolha estética e ética.”

“Não existe filme isento”, lembra a diretora, quando uma senhora da plateia pergunta sobre seu posicionamento político. Ela conta que não é, nunca foi, ativista ou militante do PT. “Votei no Lula, na Dilma, voto na esquerda. O filme é a minha visão daquela realidade. Sou um ser político, que tem valores.”

A cineasta lembra que não conhecia nenhum dos políticos ou envolvidos no processo que aparecem na tela, de direita ou de esquerda – os senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Lindbergh Farias (PT-RJ), além da professora Janaína Paschoal e do então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, aparecem com algum destaque, mas há várias personagens ali, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), chave na história, afastado por corrupção pouco depois de autorizar a abertura do processo. 

O filme deixa claro um lado, sem esquecer de mostrar as diferentes posições em jogo e a divisão do país. “Acho que os argumentos a favor do impeachment estão contemplados”, analisa Maria Augusta.

Momento histórico

Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa, Beth Sahão considerou o filme um “importante retrato deste momento histórico”, que resultou na “delicada” situação atual. Uma história que também faz “reviver a dor”, diz a deputada, que sentiu falta, no documentário, de uma reflexão sobre a mídia. Maria Augusta afirma que procurou ter foto nos aspectos jurídicos e políticos do processo de impeachment. Alguém pergunta por que ela resolveu fazer esse trabalho. Ela responde: “Como não fazer?”.

Convidado para o debate, o professor Gilberto Sobrinho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera O Processo “um olhar muito particular sobre o Brasil”, “um trabalho de resistência, estética e política”, uma reflexão sobre as instituições brasileiras, até para ajudar as pessoas a repensar, escapando da influência da mídia. “É em torno da teatralização da política que o filme vai se organizar também.”

Entre a plateia que foi à sessão no auditório Franco Montoro da Assembleia, na manhã desta quarta-feira (13), uma senhora que viu o filme na praça, em Curitiba, um militante petista de Grajaú, na zona sul paulistana, que agradece pela “ajuda na disputa da narrativa” em torno da natureza do processo – impeachment ou golpe –, uma jovem que participou de várias manifestações e se confessa emocionada por rever aquele momentos. Alguns perguntam por que a diretora opta por não usar legendas.

É justamente para exigir mais do espectador, para que ele se informe, diz Maria Augusta, que fala em certa “preguiça”, estimulada pela mídia. “Tudo é dito no filme. Fica muito claro no início quem é favor do quê. Minha proposta não é fazer cinema de entretenimento, é incomodar.”

Comunicação

Alguém fala sobre a importância da formação política. Cita uma cena simbólica a esta altura, quando o então ministro Gilberto Carvalho, já na evidência da derrota, faz uma avaliação crítica, afirmando que Getúlio Vargas, 70 anos atrás, “teve a clareza que não tivemos”, citando a criação do jornal Última Hora.

“Fica muito difícil falar em comunicação com o povo se a gente não fala com o povo”, diz Carvalho, para quem os governos petistas optaram por não mexer na questão e continuaram alimentando os meios tradicionais de comunicação. “Enchemos os bolsos dos caras de dinheiro”, constata. “Nós, de alguma forma, facilitamos a estrada deles (os defensores do impeachment).”

Logo no início, o filme exibe trechos da famosa sessão da Câmara, em 17 de abril de 2016, que aprovou a admissibilidade do processo contra Dilma. Mostra alguns dos principais momentos daquele período, que culminou na aprovação do impeachment em 31 de agosto, ao final de uma “saga política caótica”, como definiu uma jornalista estrangeira.

“O mar da história é agitado”, afirma Dilma, citando o poeta russo Vladimir Maiakóvski, pouco antes de deixar o cargo, alertando para o início de um período de retrocesso social, como se pôde constatar tempos depois. Curiosamente, o filme para por alguns instantes no momento em que a presidenta está frente a frente com o senador tucano Aécio Neves, seu adversário em 2014, e que parece ganhar a preferência da plateia na hora dos apupos.

A exibição termina pouco antes das 13h, com gritos de “Lula livre”. Uma ausência insistente chama a atenção no documentário: em nenhum momento Michel Temer aparece. Talvez seja um não-personagem.

A diretora já recebeu muitos pedidos de exibição do filme, algo que também depende de questões contratuais. Ela conta que em Mossoró (RN) a população fez abaixo-assinado para que O Processopassasse no cinema.

registrado em:        

GRUPO REDIMUNHO ESTÁ EM CARTAZ NOS PORÕES DA OCUPAÇÃO CAMBRIDGE, EM SP

Junho 12, 2018
TEATRO
Peça ‘Siete Grande Hotel’ fica até 30 de julho no centro da capital paulista
por CUT-SP.
KÁTIA KUWABARA/GRUPO REDIMUNHO
Siete Grande Hotel

Espetáculo vencedor do prêmio APCA tem ingressos no esquema “pague quanto puder”

CUT-SP – O espetáculo Siete Grande Hotel, do Grupo Redimunho de Investigação Teatral, está em cartaz na sede do grupo e nos porões do Hotel Cambridge, no Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo. A temporada segue até 30 de julho aos domingos, às 19h, e segundas-feira, às 20h. Os ingressos para as sessões são no esquema “pague quanto puder”.

O edifício onde a peça é encenada foi construído na década de 1950, passou por várias mudanças, sendo fechado em 2002 e abandonado em 2004. Transformado hoje em moradia popular, após ser ocupado pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) em novembro de 2012, é palco de uma série de histórias que falam sobre força de trabalho, migrações, exploração, fé, violência, esperança, capitalismo e guerra.

Com direção de Rudifran Pompeu, a peça venceu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de 2017 de melhor autor/dramaturgia.

“Tivemos como ponto norteador o universo do escritor João Guimarães Rosa, riquíssimo em sensações e potencialmente imagéticas. Daí que vêm nossas referências criativas, naquilo que toca o sujeito simples, o mundo rústico de coisas e estados”, conta Jandilson Vieira, um dos atores do espetáculo, que tem uma trajetória de 16 anos no teatro.

Jan, como é conhecido em seus espaços de atuação, explica que os atores tiveram como base para pesquisa o livro “Primeiras Estórias”, do mineiro Guimarães Rosa. Na obra, a travessia feita pelos diferentes personagens mescla presente, passado e futuro, numa relação dialética, semelhante ao espetáculo encenado no centro da capital. 

A obra “A Condição Humana”, de Hannah Arendt, também inspirou a dramaturgia. “Todas as experiências de cenas trazidas pelos atores e atrizes ao longo do processo falam de guerra, luta de classes e alienações sociais”, diz Jan, que é também dirigente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo (Sated-SP), entidade que nesta semana se filiou à CUT e que, desde 2018, tem à frente uma nova diretoria.

Segundo o ator, os vários cenários, num espetáculo que faz o público se movimentar, são parte integrante da pesquisa desenvolvida durante um ano e dois meses.

“Está tudo interligado. A cada novo trabalho, nós mergulhamos num mar de referências bibliográficas, políticas e estéticas. Todo o cenário, figurinos e iluminação são rústicos. Não têm grandes mecanismos de elaboração. São materiais que achamos em caçambas e reaproveitamos. Partimos do simples, mas de um simples que carrega uma força simbólica que complementa o discurso que construímos durante o processo. Daí a estética se apresenta muitas vezes com força em nossos trabalhos”, relata.

Em cartaz desde 8 de abril, a peça é aberta aos moradores da Ocupação Cambridge e também à vizinhança do centro de São Paulo. Uma das cenas do espetáculo, inclusive, retrata a luta dos sem-teto por moradia.

Reportagem de Vanessa Ramos

Siete Grande Hotel: A Sociedade das Portas Fechadas
Quando: até 30 de julho

Horário: domingos, às 19h; segundas-feira, às 20h
Ingressos: ‘Pague quanto puder’
Onde: Espaço Redimunho de Teatro
Rua Álvaro de Carvalho, 75, Centro – São Paulo – SP
Estação Anhangabaú (Metrô – Linha 3 Vermelha)
Classificação indicativa: 14 anos 
Duração: 120 minutos

PORTAL FÓRUM: MARCOS SACRAMENTO E LUIZ FLÁVIO ALCOFRA REINVENTAM ARACY DE ALMEIDA

Junho 11, 2018

Marcos Sacramento é um dos maiores intérpretes contemporâneos do nosso samba. Poucos cantam com a sua malemolência, verve, malandragem, suingue e afinação. É um craque testado e aprovado em seus diversos discos e shows. Não bastasse isso, resolveu abraçar, atendendo ao chamado de Hermínio Bello de Carvalho, a homenagem aos 30 anos da partida de Aracy de Almeida, uma joia do nosso samba.

Como talento pouco é bobagem, juntou-se aos dois, Sacramento e Aracy, o violão de Luiz Flavio Alcofra. O resultado, para espanto geral dos que ainda cultivam o bom gosto, é o lindo disco “Aracy de Almeida – A rainha dos parangolés”.

O álbum é basicamente isto. Além do violão e da voz, aparece uma cuíca na abertura e ponto. Tamanha ousadia faz com que o ouvinte, tanto o já experimentado em Aracy de Almeida quanto o novato, fiquem de queixo caído diante da expressão da mais fina cultura popular carioca.

Aracy, é bom que se lembre, foi consagrada entre 1935 e 1957 como uma das grandes intérpretes da nossa música, se destacando com louvor com o repertório de Noel Rosa. Daí em diante virou, por puro instinto de sobrevivência, a jurada mal humorada dos programas de Sílvio Santos. Mas, até chegar ali, a dama do encantado já carregava uma obra de respeito.

E é justamente este rosário magnífico de canções que Sacramento e Alcofra nos mostram de maneira ousada, partindo para o mínimo, sem grandes orquestras, ritmistas, apenas violão e voz. Em alguns momentos o disco lembra um tanto as versões lançadas em compacto triplo em 1966 por Maria Bethânia para seis canções de Noel, acompanhada apenas pelo violão, segundo consta dos registros, por Carlos Castilho.

Se, naquele momento, Bethânia partia para a modernização que aquelas canções tanto pediam, Marcos Sacramento virou a história do avesso para renovar não só isso, mas também as lições da intérprete original. Sem, em momento algum tentar imitar Aracy, Sacramento nos indica com seu canto o tanto que ela nos deixou, o seu legado na bossa e nas intenções de ritmo e interpretação.

O resultado são releituras vibrantes para clássicos, alguns nem tão óbvios, e muito atuais, como “O orvalho vem caindo” (Noel Rosa e Kid Pepe), “Camisa amarela” (Ari Barroso), “Quando tu passas por mim” (Antonio Maria e Vinicius de Moraes), “Filosofia”, “São coisas nossas” (ambas do Noel), “Onde está a honestidade?” (Noel Rosa e Francisco Alves), e “Ganha-se pouco mas é divertido” (Wilson Batista).

Violão e voz se integram em forma e conteúdo. Sem trocadilho, os sambas se descobrem em feitio de oração, tamanha a integração de intérprete e instrumentista. Tudo se conecta de maneira íntima, fácil, como se viessem do mesmo tempo e espaço. As notas de Alcofra são econômicas, criam a cama para que Sacramento se deite sobre as canções como se tivesse nascido com elas impregnadas.

No final, o ouvinte fica com um sentido amplo de ressignificações tanto das obras quanto, como disse acima, do legado de Aracy de Almeida.

“Aracy de Almeida – A rainha dos parangolés” é, como toda grande obra, carregado de histórias que não se encerram em si próprias e nos levam para ainda mais adiante.

CLUBE DO CHORO COMEMORA CENTENÁRIO DE GERALDO PEREIRA

Junho 11, 2018

Jornal GGN – O sambista Geraldo Pereira é marcado por um estilo musical inconfundível, com grande influência da gafieira. E para comemorar o centenário deste músico, o Clube do Choro de Niterói, no Rio de Janeiro, se prepara para uma apresentação na terça-feira, dia 12 de junho, na Sala Carlos Couto, do Teatro Municipal de Niterói. O show tem entrada franca.

Nascido em 2 de dezembro, mesma data em que é comemorada o dia nacional do samba e também o aniversário de pixinguinha, Geraldo Pereira radicou-se no Rio de Janeiro e morou no Morro da Mangueira, um dos principais redutos do samba carioca.

O Sambista homenageado é autor de músicas e lembrado pelo famoso “sincopado”, melodia caracterizada pela execução de som em um tempo fraco, que se prolonga até o tempo forte da canção. Essa criação melódica se deu por meio da vivência de Geraldo nas gafieiras do Rio de Janeiro.

Na música, Geraldo Pereira teve aulas com Cartola, Aluísio Dias e outros grandes músicos. No ano em que se comemora seu centenário, o Clube do Choro de Niterói se une para relembrar seu clássico estilo.

Serviço

“100 anos de Geraldo Pereira”, no Clube do Choro de Niterói

Local: Sala Carlos Couto, no Teatro Municipal de Niterói

Endereço: Rua XV de novembro, 35 – Centro, Niterói

Quando: terça-feira, 12 de junho, às 19h30

Classificação indicativa: Livre

Entrada Franca.

NO ASSASSINATO DO PRESIDENTE

Junho 10, 2018

Ulisses, maior criminoso do país, o Rei da Boca do século 21, limpa seu revólver para uma missão considerada heroica no Brasil pós-golpe: assassinar o presidente. Assim começa a peça “O Assassinato do Presidente”, da Companhia Pessoal do Faroeste, de São Paulo.

Na trama, dirigida por Paulo Faria e encenada por ele mesmo com a atriz Leona Jhovs, o chefe de estado que usurpou o poder participaria de um evento no Memorial da Resistência, próximo ao teatro falido que Ulisses comprou para morar, na Rua do Triunfo, em meio a uma região conhecida como Cracolândia. Seria aquele o palco do fim do golpe, o assassinato do presidente. Na noite anterior, no entanto, Ulisses queria se divertir, e para isso chamou à sua casa uma prostituta travesti: Penélope.

Entre goles de uísque, cigarros, reflexões e insultos, Ulisses e Penélope recriam um cenário de faroeste em pleno ano de 2018 e a clássica dualidade entre “bem” e “mal” do gênero é revolucionada com um brinde à representatividade: o herói do assassinato do presidente, que traduziria o “bem” do bangue bangue, não é mais Ulisses, é Penélope. É um heroína. Uma travesti.

Uma travesti mulher fatal. Uma travesti que é atriz, mas que se prostitui para se sustentar por não conseguir papéis já que, como travesti, está à margem da sociedade. Esta é Penélope, mas Penélope é também um pouco Leona Jhovs, que a interpreta.

A atriz de 31 anos, mulher trans, que segundo ela mesma vive “literalmente da arte”, milita pelos direitos da população T e, ainda mais incisivamente, pela representatividade trans na dramaturgia. “A Leona está neste texto. Assim como a Penélope, sou uma mulher trans e atriz. A Penélope vem com esse apelo e a gente trás essa questão da representatividade na peça”, disse Leona Jhovs em entrevista à Fórum.

Penélope (Leona Jhovs) e Ulisses (Paulo Faria) em cena. (Foto: Luca Meola​)

De acordo com Leona, em meio a inúmeros casos de transfake – quando uma pessoa cisgênero interpreta o papel de pessoas trans e travestis – é muito importante que o teatro seja um local para discutir essas questões, e se diz feliz com a oportunidade de, enquanto mulher e atriz trans, representar esses corpos em cena. “O teatro acontece para falar do nosso tempo. Para mim é um dos trabalhos mais urgentes que já fiz e acho que vai ser atual, infelizmente, durante muito tempo”, analisa.

O diretor Paulo Faria vai na mesma linha, fazendo uma relação direta entre a questão da representatividade e o gênero narrativo da peça, que é o faroeste.

“Na peça nós trabalhamos o gênero do faroeste, da dualidade entre o bem e o mal. E o bem é uma mulher trans que se reivindica, que se torna heroína. Ao fazer isso em uma estrutura dramática como faroeste você chega ao consciente das pessoas. Coloca ali uma heroína que nunca esteve naquele lugar. Você começa a mudar o imaginário. As pessoas se veem representadas”, diz o diretor.

Há na personagem Penélope um pouco da atriz Leona Jhovs (Foto: Luca Meola​)

“Quando Penélope – e a mulher trans como um todo – se torna a heroína dentro do assassinato é ela quem vira a heroína em uma história sobre o Brasil. De acabar com esse Temer. É uma mulher trans que vai encerrar de alguma forma essa história. Faz todo o sentido”, completa Paulo.

De acordo com o diretor, há um “excesso de metáforas” no teatro e hoje as pessoas “vão para as ruas mas as ruas não estão no teatro”. Nesse sentido, Paulo Faria acredita que o espetáculo, ao propor o assassinato do presidente e alçar a mulher trans na condição de heroína, trás as ruas ao teatro. Ou seja, a representatividade. “A ideia era trazer esse discurso para dentro e atualizar. Criar todo esse universo que a Leona trás da militância dela para tornar contemporâneo e mostrar onde é o ponto, onde o golpe destrói, onde é o retrocesso. Se pensarmos toda a inclusão, todas as cotas, as participações da diversidade no Brasil, isso tudo está em franco retrocesso. Então, acho que tem essa necessidade de dar nome aos bois e enfrentar”, pontua.

E não é só a representação trans que está em cena nos rocambolescos diálogos entre Ulisses e Penélope, mas também a transfobia hipócrita de parte dos homens cisgêneros da sociedade, traduzida em Ulisses, que é interpretado pelo próprio diretor Paulo Faria. Trata-se de uma alegoria da realidade: ao mesmo tempo que deseja sexualmente Penélope, uma mulher trans, Ulisses, ironicamente, é o típico homem cisgênero transfóbico. Leona Jhovs explica.

“Nós vivemos no país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo e somos o país que mais consome pornografia com mulheres trans. Então, o Ulisses, ao não aceitar esse corpo feminino, mas ao mesmo tempo desejar esse corpo, traduz essa realidade que a gente vive. Esses homens desfrutam e ao mesmo tempo negam esses corpos. E a forma que eles têm de negar é destruir, matar”, diz a atriz. “Normalmente quando matam a gente à facadas, dão 30, sendo que nas 3 primeiras a gente já morre. As outras 27 são para matar algo deles. Acho que a gente trás essa leitura da realidade”, completa.

Para Paulo Faria, trazer este tipo de representatividade ao teatro ajuda a construir imaginários e, segundo ele, é por conta do imaginário da sociedade que a transfobia é tão reforçada e marginaliza, historicamente, os corpos trans. A peça, para o diretor, vem com esse propósito de construir um novo imaginário sobre o tema.

No assassinato do presidente do Brasil pós-golpe, heroína é uma mulher trans. (Foto: Luca Meola​)

“A ideia é criar no imaginário das pessoas essas personagens. É o compromisso de poder revelar um Brasil que quer se ver representado. Trazer uma personagem trans para dentro de uma ficção – e uma atriz trans fazer esse personagem – é um ato político concreto, não se limita a um debate em uma roda. Nos meus textos, penso: que imaginário estamos fabricando no Brasil para que essa população – seja negra, trans, qualquer ser humano que não se veja representado – se identifique? Então, vem dessa coisa de naturalizar”, afirma.

Para Leona, quando um homem ou uma mulher cisgênero são escalados para interpretar papéis de pessoas trans na dramaturgia, homens e mulheres transvestigêneres estão sendo, simbólica e concretamente, mortos.

“Quando entra um corpo cisgênero representando a gente, estão nos apagando, reforçando que o nosso lugar é o lugar que sempre ocupamos: a prostituição, a margem. Então, permitir que nós entremos em cena e nos representemos é o contrário disso. É naturalizar nossos corpos. O público sai daqui com a minha imagem em cena, uma mulher travesti. Isso é a naturalização. Só assim vamos parar de morrer. Nós vamos ocupar todos os lugares que nos tiraram e todos os lugares que nos são de direito”.

Serviço

“O Assassinato do Presidente”

Domingos de junho à julho, sempre às 18h

Pague quanto puder

Cia. Pessoal do Faroeste

Rua do Triunfo, 305 – Santa Efigênia (Metrô Luz) – São Paulo (SP)

CARTA CAPITAL: A NÁPOLES DE ELENA FERRANTE

Junho 9, 2018

por The Observer

Os romances do/a artista misterioso/a provocaram um boom turístico na cidade italiana, redimindo o lugar de sua reputação duvidosa
Istockphoto
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Nápoles é uma personagem no texto de Ferrante, tanto quanto Lenu e Lila

Como muitos turistas em Nápoles, eu só havia estado lá a caminho de outros lugares. Durante anos a cidade teve a reputação de suja, perigosa e superlotada de veículos: por que no mundo alguém a escolheria para visitar? 

Mas isso mudou. Nápoles está se tornando um destino turístico especial, graças em parte à enorme popularidade da enigmática escritora Elena Ferrante. E, com o problema de coleta de lixo resolvido e novas restrições ao tráfego no Centro, a cidade exibe sua melhor aparência em muitas décadas.

Ferrante, que escreve sob pseudônimo, é a mais importante sensação literária que surgiu na Itália na última geração. Seu quarteto de novelas napolitanas vendeu mais de 5,5 milhões de exemplares em todo o mundo. The New York Times observou que o entusiasmo pelos romances é tão intenso que está sendo descrito “em termos epidemiológicos, fazendo o fenômeno quase parecer uma doença infecciosa”.

E a febre Ferrante não vai baixar, provavelmente, tão cedo: uma adaptação ítalo-americana do primeiro livro, A Amiga Genial, está a caminho. A filmagem começa em Nápoles nesta primavera. O objetivo final é adaptar as quatro novelas em 32 episódios.

Conheci tardiamente os livros, levada a pegar o primeiro volume pela comoção em torno do repórter italiano Claudio Gatti, que causou polêmica ao desmascarar a suposta verdadeira identidade de Ferrante. Não preciso dizer que adorei A Amiga Genial e devorei os outros três, tomada pelo rico retrato feito pela autora da vidas dura e da intensa amizade das protagonistas – Elena e Raffaella (que se chamam entre si de Lenu e Lila) –, que crescem em um bairro pobre e violento com um pano de fundo de vendettas da máfia e o turbilhão político e social dos anos 1960 e 1970.

Nápoles é uma personagem no texto de Ferrante, tanto quanto Lenu e Lila. Suas “ruas escuras cheias de perigo, trânsito desregrado, calçadas quebradas, poças gigantes… esgotos entupidos” percorrem um caminho profundo em nossa imaginação. Assim você termina as novelas napolitanas não apenas com um suspiro de pena, mas um desejo insistente de conhecer a cidade pessoalmente.

“As pessoas começaram a perguntar aos hotéis e agentes de turismo da região: ‘Como podemos encontrar os locais dos romances?’”, diz Caterina dei Vivo, do Progetto Museo, um grupo napolitano dedicado à preservação do patrimônio cultural. “Elas queriam ver o stradone, o Vomero, o Rettifilo, o Corso Umberto.” O Progetto Museo rapidamente lançou uma Excursão Ferrante no início do ano, e várias outros o seguiram desde então.

Decidi combinar minha viagem com algumas noites em Sorrento. Um pitoresco amontoado de casas vermelho-escuras e hotéis ocre pendurados na borda da Baía de Nápoles, a cidade funciona como base não só para visitas à cidade – a cerca de 50 minutos de barco, ou uma hora de trem –, mas também para a trilha costeira de Amalfi (o “caminho dos deuses”), as cidades nas encostas da Campânia e também as ilhas de Capri e Ischia. Pompeia e Herculano estão a curto trajeto de trem.

Fui recebida ao descer do barco de Sorrento pela qualificada Caterina, uma napolitana com doutorado em preservação do patrimônio cultural. Juntamente com as duas outras pessoas de nosso grupo, eu estava ansiosa para visitar o bairro de trabalhadores onde Lenu e Lila cresceram: o Rione Luzzatti, no sul da cidade. Ficamos frustrados, pois Caterina não quis nos levar lá. Hoje ocupado principalmente por moradias sociais, ele tem uma reputação de criminalidade, e seria “triste demais e deprimente” para nós.

Então partimos para a cidade velha, onde nossa primeira escala foi o Corso Umberto, localmente conhecido como Rettifilo. Essa é a rua principal que conecta o rione (distrito administrativo ) com a cidade, onde Lenu e Lila começaram a sair com amigos – com consequências desastrosas certa noite quando os irmãos Solara provocaram uma briga terrível com alguns meninos detestáveis de uma escola particular.

Também é o local das lojas de noivas visitadas por Lila com 16 anos enquanto se preparava para seu casamento elegante com Stefano Carracci. Todas as vitrines estão cheias de rendas brancas e vestidos para madrinhas, multicoloridos.

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Os quatro livros de Elena Ferrante levam seus personagens a passear pelos contrastes de Nápoles, dos becos sombrios…

Viramos à esquerda no bairro da universidade, onde Lenu encontrou seu primeiro emprego em uma livraria e Nino, o amor de sua vida, trabalhava como palestrante de esquerda. Como nos livros, os teatros das palestras são pintados com slogans radicais – uma “lotta dura” (slogan político dos anos 60, hoje mais associado ao futebol) aqui, uma foice e martelo acolá, e estudantes entregando panfletos revolucionários aos passantes.

A parada seguinte é a Via dei Tribunale, onde Lenu frequentou reuniões políticas com seus amigos das Brigadas Vermelhas. Paramos em uma doceira tradicional como a dirigida pelos irmãos Solara nos romances para um café com sfogliatella, doce de massa folhada em forma de concha, original de Nápoles, cheio de creme de baunilha, canela e ricota perfumada com laranja.

centro da cidade parece maravilhosamente não modernizado, com suas ruas escuras e estreitas pingando água das roupas desbotadas, maços de pimenta vermelha pendurados na frente de cada casa e loja. As paredes estão enterradas sob camadas de cartazes, adesivos, grafite e sujeira. Motonetas passam zunindo, buzinas tocam e freios de caminhões chiam.

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…Às ruas gulosas e à Galleria Umberto, do século XIX

Fico impressionada pela ausência de redes como Starbucks e McDonald’s. Caterina diz que as multinacionais sabem que não podem concorrer com a comida de rua de Nápoles: pizza frita, croquetes de batata, flores de abobrinha empanadas, anchovas fritas e muçarela frita são vendidos em cada esquina em cones de papel pardo – cuoppo – por alguns euros cada um. O cheiroso café napolitano também.

A leste da reta infindável da Spac-canapoli, que corta o centro, revelando seu legado romano, as ruas alargam-se e a Via Toledo, uma das principais artérias comerciais da cidade, nos leva para fora da antiga Nápoles. É aqui que os irmãos Solara desfilavam seu Fiat 1100 durante a passeggiata noturna em A Amiga Genial.

Ela passa pela elegante cúpula de vidro da Galleria Umberto, do século XIX – onde Tom Ripley e Dickie Greenleaf passeavam em O Talentoso Ripley – , rumo à Piazza Trieste e Trento, onde fica a Ópera da San Carlo e o Gran Caffè Gambrinus, uma instituição de Nápoles fundada em 1860, que Lenu e suas filhas visitam com Gigliola em História da Menina Perdida. A imponente biblioteca nacional, onde ela pesquisa a história da cidade perto do final do livro, fica na mesma piazza

Dali é uma caminhada curta pela rica Via Chiaia até a elegante Piazza dei Martiri, onde se situa a loja de calçados dos irmãos Solara e onde Lila pendurou uma foto gigantesca e desfigurada dela mesma com o vestido de noiva e mais tarde teve um caso com Nino.

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Na Baía de Nápoles, o portão de entrada para o “caminho dos deuses”

Olhando nas vitrines da bela loja Salvatore Ferragamo, você pode imaginar ver Lila lá dentro, ou talvez seja Alfonso, seu amigo gay enrustido. A cidade se abre aqui para o mar e você percebe que não avistou o Mediterrâneo desde a manhã. Como Lenu muitas vezes reflete, a antiga Nápoles fica de costas para a água, pensativa e voltada para dentro.

Da Villa Comunale, um dos poucos espaços verdes da cidade, você pode vislumbrar a Via Tasso, onde Lenu alugou um apartamento quando estava com Nino, e também a moderna Vomero, onde a adolescente Lenu participou de uma festa elegante dada por seu professor e se admirou com a primeira visão de outro mundo, o da burguesia.