Caetano, Mano Brown, Criolo e outros artistas se apresentam em ato no Rio por diretas já

Maio 26, 2017

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Grandes nomes da música brasileira marcam presença neste domingo (28), na praia de Copacabana, para pedir a saída de Temer e “o direito do povo votar”

“Vamos para as ruas em um evento gigantesco, com grandes artistas, pelas diretas já. Pelo direito do povo votar. Nossa crise é de legitimidade”, afirma em vídeo o ator Wagner Moura, sobre o evento “O Rio pelas Diretas Já“, que será realizado na praia de Copacabana, a partir das 11h, no próximo domingo (28). Além de pedir a saída do presidente Michel Temer (PMDB) e a realização de eleições diretas, os presentes poderão assistir a shows de grandes nomes da música nacional.

“Isso não é um movimento de esquerda nem de direita. Isso é pela democracia. Vamos pressionar para tirar esse Temer de onde ele nunca deveria ter chegado. Temos o direito de escolher o próximo presidente”, completa o ator. O ato conta com a organização das frentes Povo sem Medo e Brasil Popular. “É um fato: Temer não se sustenta mais na presidência. Agora é hora de escolhermos o nosso caminho”, afirmam os organizadores.

Caetano Veloso, Mano Brown, Criolo, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mart´nália, Mosquito, Cordão da Bola Preta e BNegão são alguns dos nomes que estarão presentes. “Esse movimento é super importante e necessário para o país”, afirma a cantora e atriz Emanuelle Araújo. “Vamos para a rua lutar por nosso direito de mudar essa bagunça em que foi transformado o governo do nosso país. Serão vários artistas maravilhosos e você não pode perder”, completa.

A organização do evento remete ao movimento das Diretas Já, que defendia o direito de a população votar para presidente, em 1984. “Mais de 30 anos se passaram desde o histórico movimento das Diretas Já. Não há saída que não seja a democracia (…) Não podemos abrir mão dessa escolha e deixar que a Câmara formada por parlamentares tão corruptos quanto Temer e seus aliados decidam por nós”, diz o texto da convocação no Facebook.

O ator Vladimir Brichta gravou um vídeo em seu perfil no Facebook convocando para o ato. “Vamos todos para as ruas pedir nosso direito de escolher o novo presidente. Não vamos deixar nas mão do Congresso. Novo presidente porque todos sabem que Temer vai cair, isso não se discute mais. Mas não se engane, esse Congresso não representa a gente. São mais de 200 pessoas sendo investigadas”, afirma.

‘VAMOS SEM TEMER’: CLIP DE MÁRCIO LUGÓ FAZ CRÍTICA AO GOVERNO GOLPISTA

Maio 25, 2017

O cantor paulistano Márcio Lugó acaba de lançar no YouTube e nas redes sociais o terceiro clipe do álbum Pêndulo. O vídeo feito completamente em animação faz uma crítica literal à atual conjuntura política e social brasileira. Apesar de a letra ter sido escrita há seis anos, a produção escancara mensagens que atingem diretamente o presidente Michel Temer (PMDB), o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado de São Paulo e o do prefeito paulistano, João Doria (PSDB).

A música trata sobre um homem que foi preso por pegar “dinheiro como solução” e que mudou de lado dentro da prisão, “se fez comportado, um tanto humilde e sem distrair cumpriu a pena na certeza que não voltaria pra cela abafada depois de sair”. Acontece, que quando saiu da cadeia, ele viu que o cinza tomava conta da situação – e, de forma literal, a animação mostra as brigadas anti-pichação do atual prefeito de São Paulo.

Videoclipe de 'O Sobrevivente' foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal

Depois de enfrentar as filas e a desesperança nos serviços públicos de empregabilidade, só lhe resta voltar pra casa em metrô abarrotado (“Reverência bovina de todas as noites, onde será que vai essa nação?”). Quando ajuda alguém em situação de rua e com fome, o homem se revolta aparentemente com os lucros exorbitantes dos bancos, com a desigualdade social e conclama o povo a agir. Com mais pessoas, a luta tem mais força contra esta máquina opressora, a mídia e a violência policial: “Agora é esperança de revolução” e é aí que o povo unido carrega a faixa “Vamos sem Temer”.

Em seu site, Márcio Lugó declara a importância da arte na transformação social: “De alguns anos pra cá, percebi que a importância do artista é muito maior do que só o aspecto musical. A arte é a essência. É a desculpa que a gente tem para chegar ao próximo. Para fazer as pessoas refletirem e pensarem um pouco diferente. Nosso papel é estar em contato com essa sociedade que nos cerca, fazendo parte dela, tentando ajudá-la e tentando aprimorá-la”.

O videoclipe foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal.

Ficha técnica O Sobrevivente
Música
Voz e guitarra: Márcio Lugó
Guitarra, baixo synth e programações: Rafa Moraes
Percuteria, congas, bells e efeitos: Raphael Coelho
Mixagem: Gustavo Lenza
Masterização: Carlos Freitas
Videoclipe
Direção, animação e finalização: Dan Leal

Com lei de fomento, coletivo de São Paulo inaugura centro cultural na periferia

Maio 24, 2017

Preta Rara

O Coletivo Perifatividade oferecerá cursos gratuitos de dança étnica, inglês, espanhol e produção audiovisual. Centro conta ainda com biblioteca comunitária.

por Sarah Fernandes

São Paulo – O Coletivo Perifatividade, que reúne artistas e militantes da cultura na periferia, irá inaugurar, no próximo sábado (27), um centro cultural no Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, que oferecerá aulas de inglês e espanhol, dança e produção audiovisual. As atividades terão início em julho e serão gratuitas.

O projeto foi um dos beneficiados pela Lei de Fomento à Cultura da Periferia, sancionada no ano passado pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), a partir de um projeto de lei de iniciativa popular redigido por coletivos culturais das periferias. Após a sanção foi lançado o primeiro edital, que financia projetos culturais nas periferias da cidade por até dois anos, executados por grupos com pelo menos três anos de atividade. A lei prevê que os editais sejam publicados uma vez por ano.

“Vai ser um espaço de encontros de moradores, vizinhos e movimentos populares, principalmente os ligados à habitação, que são históricos no bairro, desde os mutirões e ocupações”, conta um dos integrantes do coletivo, Ruivo Lopes. “Queremos que haja mais iniciativas como essa no centro e nas cinco regiões da cidade.”

Em junho começarão as inscrições para participar dos cursos e oficinas, que serão todos gratuitos. As aulas começam efetivamente em julho. Entre os cursos oferecidos estão o de dança étnica, com foco em danças indígenas e afro-brasileiras; o de inglês, que usará como pano de fundo das aulas poemas de escritores afroamericanos; e o de espanhol, que trabalhará literatura latinoamericana para o ensino da língua.

Na programação também estão previstas oficinas de capacitação em produção audiovisual independente, que terá como um dos objetivos produzir materiais que contem a história do bairro, marcadas por diversas mobilizações de lutas por direitos, a partir de entrevistas com moradores mais antigos.

O centro comunitário também conta com uma biblioteca comunitária, aberta a todos os interessados, e com espaço para realização do Sarau Perifatividade, que terá periodicidade mensal. No segundo semestre, serão promovidos debates do Círculo de Cultura, Educação e Direitos Humanos, que por três meses terão como tema com a comunidade. “Os três assuntos estão entrelaçados: lutar pelo fazer cultural é um processo de ensinamento que promove direitos”, diz Lopes.

Inauguração

O evento oficial de inauguração do espaço deve começar às 14h, quando o local será apresentado para os moradores do Parque Bristol. Às 17h, será lançada a coletânea de livros de poesias e discos chamada Antologia Poética.

A programação conta ainda com um show da rapper Preta Rara e uma apresentação da escola de samba Acadêmicos do Parque Bristol. O coordenador da Central de Movimentos Populares, Benedito Barbosa, o Dito, estará presente, além de um representante do coletivo Mães de Maio e da escritora Dinha, expoente importante do movimento de literatura da periferia.

Leia também:

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Inauguração do Espaço Cultural Perifatividade
Quando? Sábado (27), a partir das 14h
Onde? R. Dr. Benedito Tolosa, 729 – Parque Bristol, São Paulo
Quanto? Grátis

Roger Waters questiona presidência de Michel Temer

Maio 22, 2017

O ex-vocalista da banda Pink Floyd, Roger Waters, postou uma foto em sua página oficial no Facebook com a foto de Michel Temer (PMDB), acompanhada da frase: “Brasil, é essa vida que vocês realmente querem?”.
A postagem já passa de oito mil compartilhamentos.

Waters é conhecido como ativista em todo mundo, encampando importantes campanhas políticas. Em 1990, meses depois da queda do muro de Berlim, ele realizou um show na capital alemã, tocando o álbum The Wall, ressonando a mensagem do Pink Floyd de onze anos antes. Em fevereiro deste ano, ele anunciou que pretendia fazer o mesmo para protestar contra o muro na fronteira entre Estados Unidos e México, propostos pelo novo presidente estadunidense, Donald Trump.

Durante seu show na Cidade do México, em janeiro, poucos dias depois da posse de Trump, o músico usou o palco e a música Pigs como protesto.

Em 2015, Waters escreveu uma carta pública a Caetano Veloso e Gilberto Gil pedindo que os dois reconsiderassem sua decisão de fazer show em Israel. O britânico lembrou as referências de Gil ao bispo Desmond Tutu em uma de suas letras e da resistência de Tutu contra o apartheid na África do Sul. O boicote de artistas internacionais ao país foi um mecanismo forte de pressão à época.

“Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha e nós (…) vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa”, escreveu Waters. Os músicos brasileiros fizeram a visita ainda assim.

Is this the life we really want? – traduzindo É essa a vida que realmente queremos? – é o novo álbum do músico britânico.

Mostra aborda história e cultura de povos indígenas do Rio de Janeiro

Maio 22, 2017

Com obras, fotografias, vídeos e instalações, ‘Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena’, em cartaz no Museu de Arte do Rio, potencializa diversidade cultural de povos presentes em território carioca.

Sepetiba, Cachambi, Tijuca, Catumbi, Ipanema, Guaratiba, Inhaúma, Jacarepaguá, Irajá, Paraty, Itaboraí, Niterói, Itaguaçu, Itatiaia. São muitos os nomes de locais que evidenciam a estreita relação indígena com a cidade e o estado do Rio Janeiro. Mas a exposição Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena, em cartaz até março de 2018 no Museu de Arte do Rio (MAR), vai além de nomes e palavras. A mostra traz fotografias, vídeos, instalações, objetos, maquetes, documentos, linha do tempo e outras formas artísticas e históricas que resgatam a trajetória e a cultura dos povos indígenas para refletir criticamente sobre seu presente e futuro.

Segundo a equipe curatorial composta por Sandra Benites, José Ribamar Bessa, Pablo Lafuente e Clarissa Diniz, a exposição visa mostrar uma história que ainda não é amplamente visível: “Não apenas pelos nomes, mas fundamentalmente pela cultura e história do Rio de Janeiro, podemos afirmar que grande parte do ‘ser carioca’ é inseparável de sua herança indígena – o próprio termo ‘carioca’ advém, segundo registros etnográficos, da aldeia tupinambá Kariók, localizada aos pés do que hoje é o Outeiro da Glória. Essa presença, contudo, não é amplamente visível, nem reconhecida. A história indígena do Rio de Janeiro ainda se mantém encoberta, assim está silenciada a presença dos povos indígenas e sua enorme contribuição à nossa vida cotidiana e à nossa capacidade de imaginar o futuro”.

A exposição foi concebida a partir de colaboração com povos, aldeias, movimentos e indígenas do Rio de Janeiro, como fruto de um processo de diálogo feito entre 2016 e 2017 com a equipe do museu. O resultado é uma mistura de práticas museológicas e indígenas que apresenta ao espectador a polifonia, a pluralidade e a diversidade cultural indígena de Guaranis, Puris, Pataxós e aqueles que moram em contexto urbano, a exemplo da Aldeia Maracanã.

Organizada em quatro núcleos, a mostra é subdividida em estações temáticas desenvolvidas com a colaboração de Josué Kaingang, Eliane Potiguara, Anari Pataxó, Niara do Sol e Edson Kayapó. Elas são dedicadas a questões comuns da vida de grande parte dos indígenas no Rio de Janeiro e no Brasil: comércio, educação, arte, mulheres e natureza. Esta última é uma horta comunitária sob cuidados indígenas localizada fora do espaço expositivo, em uma ocupação na Praça Mauá.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena quer intervir com uma reflexão sobre a realidade indígena no Rio de Janeiro hoje, bem como sobre o passado que desaguou neste presente. Se a recente história política brasileira tem precipitado a emergência de uma luta indígena organizada, com pautas amplas e precisas (do respeito pela diversidade à demarcação de terras), os museus, como lugares da cultura do presente, precisam fazer eco a essa luta”, afirma o texto curatorial.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena
Quando:
até 4 de março de 2018, de terça a domingo, das 10h às 17h
Onde: Museu de Arte do Rio (MAR)
Praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Quanto: R$ 20, R$ 10 (meia-entrada) e grátis às terças-feiras
Mais informações: www.museudeartedorio.org.br/ (21) 3031-2741

Chega ao Brasil terceira parte da obra O Capital, de Karl Marx

Maio 19, 2017

A editora Boitempo acaba de completar, com o lançamento do livro III d´O Capital, de Karl Marx, a publicação da obra magna do fundador do socialismo moderno.

Por José Carlos Ruy

São os três volumes que saíram sob supervisão do próprio Marx (Livro 1, em 1867, cujo subtítulo é O processo de produção do capital) e de seu companheiro e colaborador Friedrich Engels (Livro II, em 1885, com o subtítulo Processo de circulação do capital, e Livro III, Processo global da produção capitalista, 1894).

Alguns temas do livro III são de grande importância para se compreender o funcionamento do sistema capitalista. Trata de temas como lucro e taxa de lucro, capital comercial, juros e crédito, renda da terra. Infelizmente o capitulo final ficou incompleto – ele trata das classes sociais e resume-se à apresentação do começo da sistematização que Marx faria sobre a questão. Mas não teve tempo para desenvolver as notas que ficaram em seus cadernos de anotações, e o texto ficou reduzido apenas a uns poucos parágrafos sobre este problema crucial. Depois dele há a frase final escrita por Engels: “Aqui se interrompe o manuscrito”.

Esta tradução foi feita a partir do original alemão e é a primeira feita no Brasil cotejada com os documentos da MEGA-2 (Marx-Engels-Gesamtausgabe), que reúne os manuscritos, notas e resumos feitos por Marx, e também as notas que Engels elaborou para sua edição de O Capital, da qual se encarregou após a morte de Marx, em1883.

A edição da Boitempo é enriquecida ainda por uma apresentação de Marcelo Dias Carcanholo (“Sobre o caráter necessário do livro III d´ O Capital”) e por um texto de Rosa Luxemburgo (“O segundo e o terceiro volumes d´O Capital”).

Este ano se comemora os 150 anos do início da publicação d´O Capital, em 1867. O livro demorou a ser traduzido no Brasil, embora muitos trechos e resumos tenham sido publicados desde a década de 1930.

A primeira tradução integral, para o português, surgiu na década de 1960. A tarefa coube a Reginaldo Sant´Anna (que também trabalhou a partir do original alemão), sendo publicado pela Editora Civilização Brasileira. Em 1983, surgiu uma nova tradução, publicada na coleção Os Economistas, da Abril Cultural.

A importância da leitura e estudo do livro III d´O Capital é fundamental para a compreensão da análise do capitalismo feita por Marx. E para a compreensão da lógica capitalista que predomina, e o combate a ela. É no livro III que Marx conclui análises e raciocínios iniciados nos livros I e II. nos quais, seguindo com rigor seu método de exposição, de não adiantar conclusões mas apresentá-las depois de análises exaustivas, mas partindo de premissas que conclui mais à frente, como mostrou por exemplo Roman Rosdolski em seu monumental estudo, Gênese e estrutura de ‘O Capital’ de Karl Marx (Rio de Janeiro, Contraponto, 2001).

A publicação enriquece o catálogo da Boitempo, cuja Coleção Marx e Engels chega a 23 títulos já publicados.

Desnecessário dizer que O Capital foi um dos livros que alcançou maior influência no mundo. Inspirou, ao lado de outras obras de Marx e Engels, a revolução proletária no século 20 e o início da construção do socialismo. E hoje, quando o predomínio do pensamento neoliberal parece acachapante, O Capital volta a ser visto como uma obra fundamental paraque se possa entender as contradições do capitalismo, que se acentuam, e a perspectiva de construção de uma alternativa política e social que supere as injustiças e as mazelas que estão na base deste sistema.

‘Conseguiram tirar meu pai do cenário político’, afirma Miruna Genoino

Maio 19, 2017

Após debate no Barão de Itararé, filha do ex-presidente do PT José Genoino lança livro que “reconta” a história. “Além de julgá-lo antecipadamente, nenhum respeito foi dado à família”, disse a autora.

A filha do ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, Miruna, lançou na noite de ontem (17) o livro Felicidade fechada, após o debate “O linchamento midiático no Brasil”, realizado no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo. Pedagoga, ela dividiu a mesa com os jornalistas Paulo Moreira Leite e Maria Inês Nassif. Genoino assistiu ao debate na plateia.

Miruna destaca dois aspectos de Felicidade fechada: o livro reconta a história do pai, condenado antecipadamente pela mídia tradicional antes mesmo de ser julgado no âmbito da Ação Penal 470, o chamado “mensalão”, e fala das angústias e sofrimento das pessoas da família de uma pessoa colocada na situação do petista.

Toda a experiência, diz a autora, mostra no contexto de hoje, quando o “linchamento” midiático continua a avançar no país, “que a gente precisa estar atenta para o modo como a mídia julga as pessoas antes que o processo aconteça”.

Ela conta que a realização do livro mostrou a força de outros canais além da “grande imprensa”. A ideia da obra começou a se concretizar a partir de uma simples postagem no facebook. “Os amigos compartilhavam e com isso eu conseguia contar coisas diferentes do que era veiculado.”

Já do lado da mídia comercial, a história de José Geonoino é anterior e bem diferente daquela que ela e a família conseguiram disseminar pelas redes sociais. A versão bombardeada por jornais, revistas e televisão, com destaque para a Rede Globo, desencadeou o massacre da reputação e a condenação antecipada, desfecho semelhante a de outros políticos, como José Dirceu.

“Meu pai foi condenado sem provas antes até do julgamento, quando decidiram transmitir o julgamento pela televisão”, disse Miruna à RBA. “Com isso, conseguiram tirá-lo do cenário político. Além de julgá-lo antecipadamente, nenhum respeito foi dado à família. Existe uma família por trás. Todas as pessoas, culpadas ou inocentes, como meu pai, merecem respeito.” Para ela, o ex-presidente do PT “poderia estar fazendo muita coisa hoje”.

Depois de todo o processo, Miruna avalia que Genoino, ao final, e com a publicação do livro, se saiu fortalecido. “Mas teve que sair da política.”

No debate, ela contou que a família passou por dois momentos: o das denúncias e o dos julgamentos. “O momento das denúncias foi muito mais difícil, a gente se sentiu sozinho, os amigos se afastaram, e a mídia alternativa não chegava com a força que chega hoje. A gente não tinha canal. O canal era o e-mail.”

Com a expansão das redes sociais, o apoio cresceu. “As coisas mudaram bastante do ponto de vista do apoio. A gente continuou sofrendo linchamento, mas se fortaleceu e abriram outros espaços para encontrar apoio.”

A conclusão, diz Miruna, é que a luta pela verdade compensa. “Apesar do linchamento midiático da grande mídia, vale a pena cavar espaços para recontar e contar outra história. Conseguimos esse espaço falando a verdade e utilizando a palavra escrita. Fruto da minha veia de educadora”, contou.

Moro e inquérito militar

Para Maria Inês Nassif, o livro faz pensar na responsabilidade sobre a vida das pessoas e o que o jornalismo pode provocar nesse sentido. Por isso, disse, nunca pensou em ser jornalista investigativa. “O que aconteceria com as pessoas se eu estivesse errado?”

Maria Inês citou o famoso caso da Escola Base (1994) como paradigmático da destruição que o jornalismo pode provocar na família das pessoas. A intenção política por trás da atual onda de denúncias mostra que “a gente aprendeu pouco com a história”. Ela lembra que, como hoje, o udenismo e o lacerdismo (referência ao empresário e político Carlos Lacerda) “foram parte da estratégia de negação da política para derrubar um governo”. Para isso, é necessário destruir reputações. “A justiça do (Sérgio) Moro nada mais é do que um inquérito policial militar. Em nada difere. Os opositores vão sendo derrubados um a um.”

Para Paulo Moreira Leite, “hoje estamos vendo uma situação de linchamento de consciências, de direitos e de nossa história”.

Carta aberta aos realizadores que abandonaram o festival Cine PE 2017, por Cleonildo Cruz

Maio 17, 2017

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Jornal GGN – Cleonildo Cruz, Cleonildo Cruz,  historiador e cineasta, assina carta aberta criticando os realizadores de filmes que decidiram que seus trabalhados fossem retirados do festival Cine PE 2017, em Recife (PE). O abandono do festival foi um protesto dos cineastas contra a inclusão dos filmes “O jardim das aflições”, documentário sobre Olavo de Carvalho, e do longa “Real: o plano por trás da história”.

Por meio de nota pública, os realizadores disseram que “[a edição deste ano] favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e aos grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao qual não queremos estar atrelados”.
A crise entre os participantes acabou provocando o adiamento da 21ª edição do festival, que deveria começar no dia 23 de maio.
Cleonildo classificou a retirada como um “atitude coletiva oportunista e antidemocrática” que presta um desserviço “a todos e todas que estão no enfrentamento do governo Temer”.
Para ele, alguns integrantes da esquerda brasileira precisam sair da bolha e “falar além dessa retórica que só empregamos para os nossos”. “Enfrentamento se faz no front, e não abandonando a luta”, conclui.
Leia a íntegra da carta abaixo:
Do Blog de Jamildo
Carta aberta aos realizadores que abandonaram o festival CINE PE 2017, numa atitude de intolerância política-cultural
Cleonildo Cruz
A intolerância política-cultural chegou para ficar nesses tempos obscuros que estamos vivendo. Intolerância, sim. E por parte de quem não a deveria praticar. Ela ocorreu quando vocês, realizadores dos filmes “Abissal”, de Arthur Leite (CE); “Vênus – Filó, a Fadinha lésbica”, de Sávio Leite (MG); “A Menina Só”, de Cintia Domit Pittar (SC); “Iluminadas”, de Gabi Saegesser (PE); “O Silêncio da Noite e Que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras”, de Petrônio Lorena (PE); “Não Me Prometa Nada”, de Eva Randolph (RJ); e “Baunilha” de Leo Tabosa (PE), decidiram que suas obras fossem retiradas da programação do 21a edição do Cine PE. Tal postura se afigura como um posicionamento eminentemente antidemocrático.
Vocês inscreveram seus filmes para serem submetidos à curadoria do festival. Foram selecionados, igualmente como todos os outros filmes. Por que não enviaram carta desistindo, assim que saiu o resultado? Todos os filmes estavam lá, inclusive, e entre outros, “O plano por trás da história” e “O Jardim das Aflições”, supostos estopins para a atitude que tomaram. Por que só agora, às vésperas de acontecer o CINE PE, vocês retiraram seus filmes? Isso configura uma atitude coletiva oportunista e antidemocrática, cujo objetivo aparenta ser a busca pelos holofotes. Parabéns! Ressalto que tal atitude é de intolerância político-cultural, bem como um desserviço intelectual a todos e todas que estão no enfrentamento do governo Temer, que vem sistematicamente retirando os direitos da classe trabalhadora.
Este é um erro que ficará na História, mostrando que não souberam ocupar os espaços e fugiram por falta de capacidade de entender a pluralidade no campo das ideias num espaço que, inclusive, é o campo da cultura. O momento era de fazer um protesto, quer fosse individual ou coletivo, mas não contra a obra de qualquer dos filmes selecionados para integrar o CINE PE. Que patrulhamento é esse?
Defendo o protesto, sim. Mas vocês não o fizeram. Deixaram, de forma anti-democrática, de ocupar o espaço do festival. Poderiam, ao contrário, ter feito um belo ato político contra o estado de exceção que estamos vivenciando, contra a criminalização dos movimentos sociais, contra a destruição da democracia no Brasil.
Alguns da esquerda, e não vou generalizar, não compreendem que precisamos sair da bolha. Falar além dessa retórica que só empregamos para os nossos. Imaginem, por exemplo, se em nossos espaços de debate nos negássemos a participar porque fulano de tal apoiou o golpe que afastou a presidenta Dilma Roussef? À minha mente vem um evento que aconteceu nos EUA, no mês passado. Lá estavam Dilma Rousseff, presidenta deposta por um golpe político-midiático-parlamentar-jurídico, e Sérgio Moro, juiz parcial da Lava Jato. Na última semana, também nos EUA, sentaram à mesma mesa para debater o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, e novamente Sérgio Moro.
Enfrentamento se faz no front, e não abandonando a luta.
Cleonildo Cruz
Historiador, cineasta e doutorando em Epistemologia em História da Ciência pela UNTREF – Buenos Aires.
Filmografia: Pernambuco de 1964 em Pernambuco. 2008; Replicar dos Sinos. 2006; Caixa de pandora. 2010; Haiti, 12 de janeiro. 2012; Constituinte: 1987-1988; Operação Condor, verdade inconclusa. 2015.

Caso Olga Prestes: ‘Roubar a mãe de uma pessoa tão pequena é horrível demais’

Maio 16, 2017

Historiadora reúne documentos inéditos da Gestapo que ajudam a contar a história de sua mãe, Olga Benario Prestes, revolucionária brasileira assassinada pelo regime nazista em 1942.

O martírio sofrido pela comunista Olga Benário ganhou novas páginas com a abertura dos arquivos da Gestapo, polícia secreta do Terceiro Reich alemão, em 2015. Mesmo com a digitalização do material prevista para terminar apenas em 2018, já foram publicadas cerca de 2,5 milhões de folhas que integram 28 mil dossiês em 50 catálogos. Cerca de 2 mil dessas folhas fazem parte do que a Gestapo chamou de “Processo Benario”, provavelmente a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única vítima do nazismo.

É exatamente parte deste arquivo que a filha de Olga, a historiadora Anita Leocadia Prestes, publica no livro Olga Benario Prestes: Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo, que acaba de ser lançado pela Boitempo Editorial (144 págs., R$ 37). Entre o material inédito presente na obra, estão mais de 50 correspondências entre a revolucionária e seu marido, o líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes, sua sogra Leocadia e as cunhadas Lygia, Clotilde, Eloiza e Lúcia. A pesquisa de Anita também revela detalhes do monitoramento a que a mãe foi submetida em todas as prisões e campos de concentração nos quais esteve de 1936 até sua morte, em uma câmara de gás, em abril de 1942, em Bernburg.

“Esses documentos formam – dialética incontornável – uma abrangente autoapresentação dos criminosos e das ideologias, coações, mecanismos, organismos e estruturas que dirigiam. À medida que cuidam do arquivo do ‘Processo Benario’, dia após dia, os criminosos fazem o que não podem querer fazer: eles dão informações sobre si mesmos”, diz Robert Cohen em citação na abertura do livro.

Antes das informações e dos documentos inéditos, a autora faz uma recapitulação dos principais episódios da vida da mãe, como sua prisão no Brasil e sua extradição para a Alemanha pelo governo Getúlio Vargas. Depois, Anita trata sobre a ajuda que Olga recebeu da sogra e das cunhadas, sobre o amparo mútuo entre a mãe e o pai (que também estava preso), o desespero de Olga por não saber seu paradeiro quando elas foram separadas – quando a autora tinha 14 meses de idade da autora –, as privações sofridas, entre tantos outros episódios trágicos da vida da comunista considerada “altamente perigosa” pelo regime fascista.

Em uma das cartas enviadas à sogra e reproduzidas no livro, Olga divide com Leocadia o pavor de perder a filha para o Terceiro Reich: “No que se refere à possibilidade de manter a pequena Anita comigo na prisão, sei de outras presas às quais o médico permite uma permanência até o nono ou décimo mês de vida. Querida mãe, não é do nosso feitio ficar se lamentando, mas realmente não sei como poderei suportar me separar da pequena. Querer roubar a mãe de uma pessoa tão pequena é horrível demais.”

Para Anita, a história da mãe deve servir para que atrocidades como as que Olga viveu nunca mais ocorram: “O trágico fim de Olga abalou profundamente toda a família Prestes. Para seu companheiro, foi uma perda irreparável que marcou o restante da sua vida. Muitos anos depois, sempre que Prestes falava em Olga, revelava grande emoção. Por ocasião dos meus aniversários – muitos dos quais passamos longe um do outro – Prestes me escrevia recordando o martírio de Olga e o compromisso de sermos dignos de sua memória. Meu pai e eu sempre entendemos que Olga fora uma entre milhares de outras vítimas do fascismo e que seu martírio deveria servir de exemplo para que não se permita que tais horrores venham a se repetir”, declara.

Olga Benario Prestes: Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo
Autora: Anita Leocadia Prestes
Orelha: Fernando Morais
Páginas: 144
Preço: R$ 37,00
Editora: Boitempo

Festival no Capão Redondo reforça papel da periferia como polo de cultura

Maio 14, 2017

Com shows de jazz, rap, rodas de conversa, oficinas de dança, fanzine, horta, reciclagem, escuta criativa e gastronomia periférica, primeiro Festival do Capão atraiu cerca de 500 jovens.

No início do século 19, o Capão Redondo era lembrado como a região de São Paulo que tinha um enorme aglomerado de araucárias, formando uma ilha de árvores (um capão) de 50 quilômetros de diâmetro em meio à paisagem rural – daí o nome do bairro. Hoje, a lembrança de muitos paulistanos sobre o distrito ainda remete a questões de violência, falta de moradia digna e ausência de equipamentos sociais para dar conta de uma população de cerca de 300 mil habitantes.

Entretanto, na última quinta-feira (11), quando aconteceu o primeiro Festival do Capão, o bairro se apresentou de um modo muito diferente: como um polo de manifestações culturais, em plena tarde ensolarada de São Paulo. O evento – que teve o apoio da Oxfam Brasil e foi realizado em parceria com a TV DOC e a Fábrica de Criatividade – proporcionou troca de experiências políticas e sociais entre os coletivos de juventude organizados da zona sul de São Paulo. Houve shows de jazz, rap, rodas de conversa, oficinas de dança, fanzine, horta, reciclagem, escuta criativa e gastronomia periférica.

“É importante combater a desigualdade urbana dando espaço às lideranças da comunidade para mostrarem o que é feito de bom naqueles locais. Essa foi a proposta do Festival do Capão”, explica Tauá Pires, assessora política da Oxfam Brasil. “A história da cidade de São Paulo não pode deixar ser contada sem a inclusão da periferia.”

Para Eliane Dias – diretora da Boogie Naipe, que administra shows e eventos do grupo Racionais MC’s e de Mano Brown –, as mulheres que participam desse tipo de evento são aquelas que não aceitam o “não” como resposta. “Se eu aceitasse o ‘não’, nem teria nascido, pois sou filha de mãe solteira pobre, negra, que teve de viver na rua e sofreu muito para crescer”, disse ela, que também é coordenadora do S.O.S. Racismo, programa antirracismo da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Festival Capão
Eliane Dias, Karol Oliveira e Jenyffer Nascimento participaram do debate “Juventude, Gênero e Identidade”

Eliane participou da roda de conversa “Juventude, Gênero e Identidade”, moderada por Karol Oliveira, ao lado de Jenyffer Nascimento, da revista Fala Guerreira. “Na minha época, tinha de usar calça larga e camiseta para ser uma menina aceita na visão machista do hip-hop. Hoje não precisamos mais nos masculinizar, é lindo sermos da forma como somos, sem se prender a clichês ou afetar nossa autoestima”, disse Jenyffer, que é negra, escritora e militante feminista no Coletivo Rosas.

O debate de “Literatura Marginal” teve a participação de Isaac Souza, do coletivo Núcleo de Jovens Políticos; Bruno Capão, da Associação Lado B; e Daniel Farias, da Literatura Marginal. Os três autores explicaram como a proposta, até pouco tempo vista como subversiva, consegue chegar mais facilmente à juventude porque usa sua linguagem, com palavrões e gírias, para narrar o dia a dia da comunidade.

“É uma literatura que, de certa forma, dá voz a essa população, mostra sua realidade”, explicou Isaac Souza. “Se você acha que não gosta de ler, pelo menos, carregue um livro na sua mochila. Uma hora você vai querer saber o que está escrito lá dentro, e a aventura vai começar”, disse Bruno Capão. “Sua vida é um livro, mano. Então, trate de ler para aprender como escrevê-la direito”, ponderou Daniel Farias.

Oficinas de horta, reciclagem, forró, jazz, danças urbanas, escuta criativa, gastronomia periférica e shows de encerramento completaram as atrações do Primeiro Festival do Capão.

Com informações da Oxfam Brasil