CINEMA: “BOWLING SATURNE”: FILME FRANCÊS CONTA HISTÓRIA DE UM FEMINICIDA

Agosto 17, 2022
  1. CULTURA

CINEMA

Em competição no festival de Locarno, produção traz violência e suspense para a tela

Rui Martins

Brasil de Fato | Locarno (Suíça) |

 Agosto de 2022 –

Bowling Saturne, um dos destaques do festival de Locarno em 2022 – Divulgação

De repente nos arredores das cidades de Deauville e Caen, na Normandia, no norte da França, aparecem, em lugares diferentes, embrulhadas em plásticos azuis, jovens mulheres assassinadas com requintes de grande violência. O espectador do filme Bowling Saturne, na competição internacional do Festival de Cinema de Locarno (Suíça), sabe quem é o criminoso, viu mesmo como ele convence as garotas a irem ao seu apartamento. Mas a polícia quebra a cabeça, sem descobrir traços ou indícios capazes de levar ao feminicida, e só no fim do filme consegue identificar uma das vítimas. 

Quem se ocupa das investigações é o inspetor Guillaume, policial meticuloso mas um tanto solitário. Não se vê ao seu redor nenhuma mulher. A série de assassinatos é grave e tudo leva a crer ser cometida por algum maníaco sempre disposto a recomeçar se não for descoberto. Enquanto isso, o espectador se envolve com a outra atividade de Guillaume, a de proprietário de um boliche, recebido como herança de seu pai. Uma atividade que lhe toma tempo, mesmo com empregados para ajudá-lo e da qual pensa se desfazer.

Por isso, é com certo alívio que vê ressurgir seu meio-irmão, filho adulterino do pai: um tanto mais jovem, meio perdido na vida e desempregado, com o qual nunca teve maior contato. Armand, seu nome, aceita administrar o boliche e se mostra satisfeito por ter, enfim, um trabalho e alguma coisa séria para fazer na vida. Ele pensa em como aumentar as receitas do local, e ganha também um apartamento, onde antes vivia seu pai.

Bowling Saturne é um filme francês, da cineasta Patricia Mazuy, que em 1994 já havia ganhado o terceiro prêmio (o “Leopardo de Bronze”) na competição do Festival de Locarno com Eu e Travolta. A nova produção é um thriller, com um enredo ou história à la française, mas com cenas de violências típicas dos filmes policiais norte americanos. Bowling Saturne foi exibido no começo do Festival e se manteve como um dos violentos da competição. 

O objetivo de Patricia Mazuy é mostrar como a violência masculina é ainda marcante na sociedade. Mas o filme explora outro aspecto, aparentemente desvinculado das investigações sobre o serial killer. O pai de Guillaume e de Armand era um aficionado por caça e pertencia a um grupo de organizadores de safáris na África, com o objetivo de matar grandes animais selvagens como leões, tigres. Ele levava troféus dessas caçadas e filmava a morte dos animais. Um encontro com projeções desses filmes mostrava o júbilo desses caçadores, agora idosos, quando abateram os animais sem outros objetivos que não o prazer de matá-los.

Embora Armand tenha sido abandonado pelo pai, acaba se identificando com ele ao vestir sua roupa de caçador feita de pele de uma grande cobra piton. Entretanto, em vez de caçar animais, preferia caçar jovens indefesas frequentadoras do boliche. Depois de levá-las a seu apartamento, o romantismo inicial era substituído por uma relação sexual violenta, seguida de mortes a pancadas, sem qualquer razão, por uma pulsão violenta, como os animais selvagens caçados e abatidos por seu pai.

*Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

Edição: Felipe Mendes

EM BATE PAPO INFORMAL, GILBERTO GIL CONTA SOBRE LIVROS PREFERIDOS NA BIBLIOTECA PARQUE DO RIO

Agosto 16, 2022
  1. CULTURA

LITERATURA

Encontro acontece na próxima terça-feira (23) na unidade do centro; entrada é gratuita e sujeita a lotação

Redação

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

 Agosto de 2022 –

Nesta edição do encontro chamado de “Ilustre leitor”, o cantor Gilberto Gil vai contar sobre seus 10 livros preferidos – Divulgação

Na próxima terça-feira (23), o projeto Parque de Ideias terá como atração Gilberto Gil. O cantor fará parte de um bate papo informal na Biblioteca Parque, que fica na avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro.

Leia também: Primeiro representante da MPB na Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil agora é ‘imortal’

O encontro chamado de “Ilustre leitor”, série com grandes nomes da música e literatura brasileira para conversas em torno de seus livros de cabeceira, tem entrada gratuita. Nesta edição, Gil vai contar sobre seus 10 livros preferidos, que fizeram ou fazem parte de sua trajetória em sua formação pessoal e criação artística.

Todos os livros mencionados durante a conversa serão doados para a biblioteca. A conversa será mediada pelo curador do projeto Parque das Ideias, Marcio Debellian. 

O Parque das Ideias vem acontecendo desde maio com inúmeras atividades gratuitas, como shows, palestras, oficinas literárias e cursos selecionados a partir de um convênio com a PUC-Rio. Artistas como Denise Stoklos, Mart’nália, Zélia Duncan, Jéssica Ellen, Rico Dalasam, Elisa Lucinda, Luiz Antônio Simas, Maxwell Alexandre e Fabrício Carpinejar já se apresentaram no projeto.

Serviço

“Ilustre leitor” com Gilberto Gil, terça (23), às 18h.
Biblioteca Parque Estadual
Avenida Presidente Vargas, 1261, no centro.
Entrada gratuita – evento sujeito a lotação.

Edição: Mariana Pitasse

DESASTRE DO FESTIVAL DE WOODSTOCK 99 REVELA EMBRIÃO DA AMÉRICA DE TRUMP

Agosto 15, 2022

WOODSTOCK 99

Minissérie recém-lançada na Netflix mostra um evento cheio de violência e transtornos, o oposto do que foi o Woodstock em 1969

Cena de Woodstock 99.Créditos: Divulgação
Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 OPINIÃO – 15/8/2022 ·

Várias gerações cresceram e se alimentaram das lendas do festival de Woodstock de 1969, que, além, de reunir grandes nomes da música como Jimi HendrixCarlos SantanaJoe CockerThe Who entre muitos outros, foi o grande estandarte de bandeiras como o pacifismo, a revolução sexual etc.

Tudo bem, repetir isso é chover no molhado. Aos mais jovens que quiserem maiores informações, basta procurar pelo excelente documentário “Woodstock – 3 Dias de Paz, Amor e Música”, dirigido por Michael Wadleigh e lançado em março de 1970.

Woodstock virou marca explorada incansavelmente por seu dono, o produtor Michael Lang, morto em janeiro deste ano, aos 77 anos. Apesar do fiasco financeiro do primeiro festival que, conforme se pode ver no filme, teve as suas cercas derrubadas e praticamente ninguém pagou ingressos, todos os seus produtos derivados, entre eles disco e filme, continuam vendendo até hoje.

Por conta dessa força, Lang se reuniu com investidores e resolveu fazer o Woodstock 99, quando o festival original completava 30 anos. Para tal, foi escolhida uma antiga Base Aérea de Griffiss, no estado de Nova York. A programação reuniu artistas como Red Hot Chilli Peppers, Alanis Morissette, Metallica, Creed, Kid Rock entre outros.

Desastre total

As três décadas que separam um evento do outro e as transformações que os EUA sofreram (e vários outros locais do planeta também, incluindo o Brasil) aparecem de maneira contundente na minissérie recém-chegada ao Netflix Brasil, “Desastre Total: Woodstock 99”, dirigida por Tim Wardle.

Como bem diz o título, o festival de 99 não só foi um verdadeiro fracasso, como deixou claro ao mundo, mais uma vez e por infeliz coincidência, no que vinha se transformando parte da juventude que crescia naquele momento. E que, não por acaso, viria a eleger uma década e meia depois, o candidato de extrema-direita Donald Trump.

A esquisitice aparece logo no início da minissérie, quando um sujeito grita para que a cantora e compositora Sheryl Crow mostre seus seios. Ela responde certeira que, para isso, teria que receber um cachê muito maior do que o que pagavam.

Por várias vezes, a minissérie mostra uma plateia chacoalhando em ondas nervosamente, prestes a sair do controle, o que de fato acontece algumas vezes e por razões diferentes. Tudo colaborava para o caos: o calor de 40°, preços altos e dificuldade enorme para se conseguir uma simples garrafa de água – que custava caríssimo – e banheiros imundos se somaram a jovens bombados e bêbados de fraternidades universitárias. Uma série de ingredientes desmedidos desembocaram em uma série de cenas estúpidas, assédios e abusos sexuais entre outros cenas deploráveis.

O caos

No final das contas, o festival explodiu em incêndios, assaltos aos comerciantes que trabalhavam no local, objetos atirados para todos os lados e, para completar, vazamento dos esgotos dos banheiros que se misturou à água consumida nos bebedouros, o que provocou problemas no estômago, úlceras na boca e outras doenças.

Ao final, depois do festival, como se não bastasse todo o ocorrido, uma série de denúncias de estupros foram feitas à direção do festival por pais de meninas que teriam sido abusadas durante o evento.

No final das contas, muito mais do que mostrar um evento fracassado sob todos os aspectos, a minissérie “Desastre Total: Woodstock 99” revela um dos embriões do eleitorado que se arvoraria, pouco tempo depois, à irônica tentativa de fazer a América grande novamente.

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IL PATAFFIO: COMÉDIA MEDIEVAL ITALIANA RIDICULARIZA NOBREZA E IGREJA

Agosto 14, 2022

FESTIVAL DE LOCARNO

Filme do diretor Francesco Lagi disputa competição internacional do Festival de Locarno com sátira ácida

Rui Martins

Locarno, Suíça |

 Agosto de 2022 –

Francesco Lagi leva seus personagens tontos, sujos e maldosos ao Festival de Locarno – Divulgação

Ali vão eles numa carroça pequena de dois lugares sob um sol escaldante, numa região árida e seca, em direção ao palácio recebido do pai e sogro como presente de casamento. Assim começa o filme italiano Il Pataffio, parte da competição internacional do Festival de Locarno, com direção e cenário de Francesco Lagi, com seus personagens tontos, sujos e maldosos. A recém-casada, um tanto gorda, ocupa todo o espaço, transpira e tem fome, enquanto seu marido, de origem plebeia, ansioso por chegar, desfruta do prazer de se sentir importante com seus soldados e sua pequena e ridícula comitiva. 

Cúmulo do azar, ao chegarem ao palácio, onde não lhes abrem a porta para entrarem, descobrem terem se enganado de endereço. Estamos no interior da Itália, em plena Idade Média, e o pequeno grupo, cansado e com um casamento para ser consumado numa boa cama, pede um pernoite por gentileza, como se costumava fazer entre os nobres. 

Entretanto, isso lhes é negado e o marconde Berlocchio, o marido, considera a indelicadeza uma afronta, agravada com palavras de baixo calão, gritadas contra eles pela castelã do alto da muralha. Desejoso de assumir rapidamente sua nova categoria de varão nobilizado pelo sogro, o marconde se infla como um pavão e decide atacar os detratores com sua pequena dúzia de soldados em final de carreira. 

“Atacar o palácio”, ordena, enquanto os soldados procuram encontrar uma escada, que logo se revela curta demais para chegar ao alto do paredão de pedras do palácio. “Que fazemos?”, perguntam, diante do obstáculo e sem equipamentos para a escalada. “Subam agarrando-se com as unhas e as mãos”, ordena o novo nobre contente de poder exercer seu poder. Não dá certo, um primeiro soldado se esborracha. A situação logo se agrava com uma chuva de pedras, lançada pelos soldados adversários. É preciso fazer meia-volta e continuar com a pequena comitiva extenuada até chegar ao destino. 

Mas o palácio é um verdadeiro lixo, com galinhas, cabras e mesmo uma vaca nos aposentos nobres, sem câmara nupcial para Berlocchio poder deflorar sua virgem e impaciente esposa Bernarda, cujos sonhos eróticos lhe colocam em conflito com a obrigação de pureza mesmo nos pensamentos, exigida pela santa Igreja. 

Esse é só o início deste bom filme do Festival, cuja sequência ridiculariza a igreja, mostra a empáfia e incompetência do marconde, enquanto o libidinoso padre da caravana, ao tomar a confissão dos pecados de Bernarda, aproveita também para lhe tomar a virgindade. Por demais ansiosa e ardente com as cavalgadas do padre sobre seu corpo, Bernarda goza e entrega sua alma ao criador. 

Um dos invasores do palácio, que ali habitavam clandestinamente de maneira precária, conseguiu reuni-los para expulsar o marconde e seus soldados, numa espécie de revolta local. Porém, o marconde conseguiu convencer o líder a trair seus seguidores, como se costuma fazer na boa política. Mesmo assim o arranjo falhou, pois o líder dos pobres aldeões morreu de tanto comer no jantar, a ele oferecido sem talheres e sem guardanapos, com as últimas galinhas caçadas nos arredores. 

O filme é baseado no livro “Il Pataffio”, de Luigi Malerba, sobre os tempos medievais de fome, sujeira, gula, anarquia e crendices católicas. 

*O jornalista Rui Martins está no Festival Internacional de Cinema de Locarno, um dos mais importantes e antigos do mundo, ocorrendo anualmente desde 1946. 

Edição: Nicolau Soares

CANTO DOS POVOS: PERNAMBUCANO NEUDO OLIVEIRA APRESENTA MÚSICAS INÉDITAS E LIVRO DE POESIAS

Agosto 13, 2022
  1. MOSAICO CULTURAL

SEM PERDER A TERNURA

A obra é inspirada nas vivências inseparáveis enquanto artista e militante político

Daniel Lamir

13 de Agosto de 2022 –

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O pernambucano Neudo Oliveira nasceu em Bodocó, viveu em Ouricuri (PE) e hoje mora na capital do estado – Divulgação

Eu intitulei Cantos dos Povos como um resgate das vivências e lutas dos povos, das revoluções diária

De sotaque sertanejo e escolha pelas palavras fáceis, o cantador Neudo Oliveira afirma a justiça social através da música. Mas com a mais recente obra, “Canto dos Povos”, essa expressão de sentimentos e militância esborrou a expressão dos acordes e melodias. O também compositor e poeta está lançando um disco com cinco músicas inéditas que acompanha um livro de poesias.

“Eu intitulei Cantos dos Povos como um resgate das vivências e lutas dos povos, das revoluções diárias”, explica o artista que iniciou a carreira 
em 2004, durante a Conferência Internacional da Via Campesina em São Paulo, dividindo o palco com nomes como o violonista Yamandu Costa e o grupo latino-americano Tarancón. 

Antes mesmo das aparições públicas, Neudo sempre esteve ao lado da métrica, dos versos e da rima. Mas diante de um cenário de aumento da violência contra as populações camponesas e tradicionais no país, decidiu que era hora de compartilhar os poemas “não musicados” de cunho mais social. A publicação que acompanha “Canto dos Povos” é composta por 42 textos, com temas diversos sobre a vida, esperança e rebeldia. 

Para o músico e professor Lucas Oliveira, Canto dos Povos é uma síntese e celebração da trajetória de Neudo com os movimentos populares, os trabalhos nas comunidades de base e as participações em festivais de música. Lucas é amigo de Neudo, escreveu a apresentação do livro, e analisa a trajetória do artista. 

“É aquele trabalho que busca mais a qualidade que a quantidade. Eu vejo isso no trabalho dele, que o foco – é claro que todo mundo quer fazer sucesso e ter difusão da sua música, da sua poesia –, mas eu vejo que ele se preocupa em tocar para as pessoas e as pessoas que gostem daquilo que ele faz e gostem dele enquanto o ser humano que é”, define Lucas.  

Neudo Oliveira afirma uma condição de militância em que a arte funciona como uma bomba propulsora de amor e solidariedade diante de uma cultura do ódio. 

“Na verdade, o que a gente faz é justamente tentar captar um pouco desses sentimentos do nosso povo e disseminar isso através dessas manifestações, dessas expressões artísticas que a gente procura dominar, com a música e a poesia. Apesar de tudo, apesar de toda essa cultura do ódio que vem sendo propagada e financiada por esse sistema ultimamente, a gente acredita que o amor e a solidariedade ainda prevalecem no coração do nosso povo. E a gente vai nessa mesma vibração”, salienta. 


Neudo Oliveira trabalha para captar os sentimentos populares e os disseminar através da arte / Divulgação

Lucas Oliveira diz que Neudo é uma referência para o seu trabalho pela ebulição de amor e solidariedade através da arte, buscando frestas nas barreiras positivistas e capitalistas. O também professor e pesquisador destaca uma condição relacional na música de Neudo. 

“Eu considero sempre, como alguém que pesquisa sobre música, que também analisa, a importância de se ouvir as narrativas que as pessoas têm da sobre as músicas, ou seja, há uma questão sempre afetiva, uma ligação com a memória. A gente tem essa tendência de separar corpo, mente e espírito desde a época do positivismo”.

Natural de Bodocó, no sertão do Araripe pernambucano, Neudo vivenciou as lidas do campo na influência das sanfonas no forró e das violas nos repentes. Mas seu trabalho é fruto de um laboratório sonoro bem amplo, por ser, desde cedo, um assíduo ouvinte de rádio, e amante dos discos de vinil. Alguns exemplos de referências são Luiz Gonzaga, Violeta Parra, Maciel Melo, Bob Dylan e Sílvio Rodrigues. 


Neudo Oliveira: militância em música e poesia / Divulgação

Apesar de percorrer outros chão da terra natal, através da arte ou das viagens em turnê, Neudo mantém com naturalidade o seu jeito de vida. Mas com o alerta de evitar uma condição de caricatura, que seria uma contradição com suas lutas e sonhos.

Para adquirir a obra Canto dos Povos, basta entrar em contato com o próprio artista através de “direct” no Instagram no perfil @neudooliveira ou pelo Facebook.

Edição: Felipe Mendes

FILME TRAZ DIÁLOGOS ENTRE HITLER, MUSSOLINI, CHURCHILL E OUTROS TITANOS NO PURGATÓRIO

Agosto 12, 2022
  1. CULTURA

FESTIVAL DE LOCARNO

“Skazka”, do cineasta russo Alexander Sokurov, usa tecnologia deepfake para trazer figuras históricas de volta à vida

Rui Martins

Locarno, Itália |

 Agosto de 2022 –

Filme do cineasta Alexander Sokurov mostra um inferno/purgatório inspirado em Dante – Divulgação

Seria o purgatório, o hades ou a sala de espera para o céu ou inferno?  

Seja o que for, parece uma gigantesca catedral, um palácio fechado ou uma masmorra subterrânea, na qual alguns mortos aguardam, deitados no caixão ou ainda na sepultura, abrir-se a porta para irem aos céus ou ao inferno. Jesus Cristo, que muitos creem ter ressuscitado e subido aos céus, também ali estava se queixando de muitas dores no corpo e esperando que seu pai viesse logo buscá-lo. Na porta, uma frase de Dante “tu que entras aqui, abandone toda esperança!”

Não muito longe, Stalin levanta-se do túmulo, reclamando das botas e das ceroulas apertadas, quase ao mesmo tempo em que saem de suas tumbas outros tantos mortos-vivos ou zumbis. Alguns são fáceis de reconhecer como Hitler, Mussolini, Churchill. 

Esse é o cenário de Skazka (Conto), filme do cineasta russo Alexander Sokurov lançado no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Itália. O filme realça seu clima de pesadelo com uma inovação técnica. Combinando imagens de arquivo com tecnologia deepfake, o filme tem os rostos e os corpos das personagens capturados nas atualidades cinematográficas da época, reconstituídos por imagens de síntese em preto e branco.

E eles não são os únicos. Outros vão sendo reconhecidos enquanto andam sem rumo, imaginando-se que já faz parte do inferno ficar dando voltas sem fim.  

E nesses passeios de fantasmas e almas penadas, os antigos tiranos, ditadores cruéis, acabam se encontrando, e mesmo chegam a discutir e menosprezar alguns daqueles que os resistiram. Hitler lamenta, por exemplo, não ter destruído Paris. Stalin não se arrepende de seus crimes, acha que, quando se corta a grama, deve-se deixá-la bem rente ao chão. Hitler repete que sua guerra provou a inexistência de Deus. Churchill faz o V da vitória. De uma época bem anterior, também anda por ali Napoleão. 

Para Sokurov, foi importante vir apresentar seu novo filme em Locarno, pois sua carreira cinematográfica começou no festival. Ele tem dúvidas se seu filme poderá ser exibido na Rússia. Conta ter discutido seriamente diversas vezes com o presidente russo Vladimir Putin, mas afirma que não sairá da Rússia, por ter ali seu idioma e suas atividades de professor e cineasta. 

Frases de Alexander Sokurov no encontro com a imprensa: 

Eu fui criado e formado na cultura do Velho Mundo. Fui uma criança da cultura europeia, criada sob a influência da história e filosofia europeias. A minha vida foi construída nisso. 

Os americanos não se concentram nessas dores e nessas tragédias que vivemos, por isso é preciso falarmos e relembrarmos ainda mais esse passado. Devemos ouvir com mais atenção e compreender o que se passou para entender os problemas que originaram nossas aflições e assim transmitir o que sabemos para aqueles que estão longe, além-mar. 

É preciso se compreender que nesses anos aos quais se refere o filme, os valores humanísticos se perderam por muito tempo. 

Agora chegou uma época em que os políticos têm uma tática, mas não uma estratégia. Eu repito sempre que os políticos devem colocar os valores humanos acima de todos os outros valores. 

Meu filme está dentro do contexto da “Divina Comédia”. Na comédia de Dante, o que é diferente é que os personagens são punidos, mas na nossa história as personagens autoras de crimes não são punidos e não serão punidas. Os crimes cometidos por esses personagens, mesmo retrospectivamente, não foram punidos e nunca serão punidos, mesmo se foram crimes hediondos e horríveis. Nessa tragédia incompreensível, talvez surja um novo Dante capaz de elaborar um novo sistema de poder entre os homens e ajudar a compreender. 

Para mim essas imagens nos tocam e nos ajudam a interpretar por que e como aconteceram. Um dos fatores, por exemplo, foi a propaganda, que detesto e odeio, porque ela influencia o pensamento das pessoas. 

A dor que sentimos é semelhante à dor fantasma dos que têm um membro amputado. E é essa dor fantasma que tem interessado aos grandes como Dickens, Marques, Soljenitzen e os escritores russos. 

No filme, o que interessa não é tanto a ideologia, mas a dramaturgia humana, seu caráter sofredor, que leva ao interesse pelo estudo dos caracteres humanos e não à tragédia da ideologia.  Queremos compreender como nascem e surgem esses caracteres e comportamentos humanos diabólicos. É sempre nos homens comuns que isso se manifesta, e não devemos esquecer que mesmo os grandes políticos não deixam de ser homens comuns. 

Não existe fábula sem existência de vida e não existe vida sem fábula. A fábula com seu bom fim normalmente deve transmitir esperança. Todas as fábulas terminam bem e, ao fim do livro, retornando à realidade, ela nos dá a força de reagir, nos leva à realidade e a realidade nos dá a força de fazer alguma coisa contra o mal.

*O jornalista Rui Martins está no Festival Internacional de Cinema de Locarno, um dos mais importantes e antigos do mundo, ocorrendo anualmente desde 1946. 

Edição: Nicolau Soares

CIDA PEDROSA LANÇA ‘ESTESIA’, LIVRO QUE FAZ SUA ESTREIA NO GÊNERO HAIKAI

Agosto 11, 2022
  1. CULTURA

LITERATURA

O haikai é uma forma de poesia japonesa caracterizada por versos curtos e um compasso específico das sílabas

Da Redação

Brasil de Fato | Recife (PE) |

 Agosto de 2022 –

Além de vereadora do Recife pelo PCdoB, Cida Pedrosa é escritora consagrada com dois prêmios Jabuti – Divulgação

Autora consagrada com dois prêmios Jabuti em 2020, o mais tradicional da literatura brasileira, a pernambucana Cida Pedrosa lança nesta quinta-feira (11) a versão física de novo livro em gênero inédito. Em ‘Estesia’, publicado pela Cepe Editora, a autora, que também é vereadora do Recife pelo PCdoB, apresenta pela primeira vez sua escrita em haikai (ou haiku) – estilo de poesia japonês caracterizado por versos curtos e um compasso específico das sílabas. 

A obra contém 40 haikais escritos durante o período mais duro do isolamento social provocado pela covid-19, acompanhados de fotografias também registradas por Cida Pedrosa. 

Leia também: Homenageada da Bienal do Livro, Cida Pedrosa reafirma: “faço uma arte engajada feminista”

“Não sou profissional de fotografia, mas gosto muito de registrar o que vejo e sempre amei poemas metrificados, como os que eu lia naquele momento e me deram uma vontade imensa de experimentar o gênero”, expressa a escritora.

A fome, a fé, o amor, o vazio, as lojas fechadas, os pontos de ônibus sem ninguém, o silêncio e os trabalhadores que ainda transitavam nas vias públicas inspiraram os poemas que compõem a obra.

“O mundo não é mais o mesmo. Essa coisa que nos colocou diante da morte também nos coloca uma urgência de repensar a forma como nos relacionamos com o mundo. E o livro dá um toque sobre isso: a beleza precisa reagir”, declara.

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Mesmo com o retorno das atividades presenciais, Cida observa que a obra se mantém atual. “O distanciamento da dor maior da morte (no pico da pandemia) mostra o tamanho que ela teve para você”, reflete. “Para mim, é novo constatar que mudei, com a pandemia, mas não tanto quanto gostaria. Continuo em busca de minha Passárgada”, em alusão ao célebre poema de Manuel Bandeira.

O livro é uma seleção de 40 dos 70 haikais que Pedrosa compôs no período. Seu primeiro lançamento, no formato digital, aconteceu em setembro do ano passado, em uma live que sofreu ataques da extrema direita. Agora, a edição física é lançada nesta quinta-feira (11), às 18h, na loja Passa Disco, situada na Galeria Hora Center, na Rua da Hora, 345, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife. O livro físico estará à venda por R$ 25 (impresso), e o e-book, por R$ 10.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga

NARRATIVA ROMANESCA POLITIZADA DE JORGE AMADO: LEMBRE OBRAS MARCANTES NOS 110 ANOS DO ESCRITOR

Agosto 10, 2022

OUÇA

Diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, Ângela Fraga, destaca como legado ainda influencia no debate político do país

Geisa Marques

10 de Agosto de 2022 –

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Escritor baiano deixou legado que é repercutido em novelas televisivas, cinema, música, além, é óbvio, na literatura – Acervo Arquivo Nacional

O dia 10 de agosto de 2022 marca os 110 anos do nascimento do escritor baiano Jorge Amado, que faleceu há 21 anos, em 06 de agosto de 2001. 

O tempo não foi capaz —  e certamente nunca será —  de tirar as obras dele das estantes de livros e do centro de debate político e cultural do país. Jorge Amado segue como um dos mais importantes escritores brasileiros. Sua vasta obra, traduzida para mais de 50 idiomas, segue atual e capaz de dialogar, em diversos aspectos, com a realidade do Brasil. 

:: Central do Brasil: grupo de teatro apresenta obra de Jorge Amado em praças de São Paulo ::

“Os valores que ele carrega na narrativa são coisas que fazem com que as obras continuem atuais. São bandeiras que, de fato, ele levantava, quando  falava sobre o candomblé, das mães de santo, dos terreiros, os pais de santo. Eram muito da realidade dele, e que ele trazia como uma narrativa romanesca, que de verdade tinha algo de político ali que a gente percebe até hoje”, defende a diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, Ângela Fraga, em entrevista ao programa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.

Segundo a pesquisadora, a obra de Jorge Amado “abraça muitas pessoas”, pela capacidade de contar com particularidade e preciosismo a realidade de diferentes segmentos da população.  

:: Maria Marighella: “Com o fascismo não se dialoga, com a barbárie não se negocia” ::

“Os personagens e as narrativas trazem muito de humanidade, e, assim, ele traduz muito do que é o povo brasileiro. Não somente nos seus problemas sociais, que, infelizmente, muitos deles ainda perduram desde de o primeiro romance até hoje, mas também na alegria do povo, na graça, nos costumes, na cultura, especialmente a cultura da Bahia”, continua Fraga.


Jorge Amado teve atuação importante na política institucional, chegou a ser deputado pelo PCB na década de 1940 / Crédito: Fundação Casa de Jorge Amado / Acervo Zélia Gatta

Obras imortalizadas

Dona Flor e Seus Dois Maridos; Gabriela, Cravo e Canela; Tieta do Agreste; Tereza Batista Cansada de Guerra; e Quincas Berro D’áGua. Essas são alguns dos livros de Jorge Amado que saíram da escrita para a televisão.

Ângela Fraga lembra que estas obras são consideradas à frente do tempo que foram publicadas. “Em Tieta ele fala da questão do meio ambiente, da preocupação com o meio ambiente. Esses valores que ele carrega na narrativa dele são coisas que fazem com que as obras continuem atuais.”

:: Itamar Vieira Jr: “O Brasil está encalhado no passado, que resiste em ser superado” :: 

Segundo a diretora, hoje, pode ser um pouco mais difícil perceber a inovação do escritor porque a sociedade se politizou e trouxe debates importantes para o cotidiano. Contudo, à época, ela defende que foi revolucionário Jorge Amado “fazer uma referência muito grande à condição da mulher na sociedade, às questões raciais, ele trazer até heróis negros para os romances dele. Eram coisas que ninguém fazia na época que ele começou a escrever.”

“Ele teve insight de trazer questões que, infelizmente, estão atuais até hoje, como a situação de crianças abandonadas, em Capitães da Areia, e outras bandeiras, não tão cruéis do ponto de vista social, mas que ninguém pensava.”, pontua Fraga, ao lembrar do livro que não virou novela, mas foi levado ao cinema. 

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Escrita política

Jorge Amado foi deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) na década de 1940. Porém, foi um curto período, por ter tido seu mandato  suspenso por alegação de ilegalidade do partido. O que, segundo Ângela Fraga, não o impediu de deixar um legado:

“Foi um deputado atuante e levantou algumas bandeiras muito interessantes que eram muito condizentes com esse universo dele. Por exemplo, uma emenda pela liberdade de culto, uma emenda pela isenção de impostos pra insumos que produzissem livros, papel etc.”.

Antes disso, ele chegou a ser preso, exilou-se na Argentina e teve livros apreendido. Tudo isso por conta da proximidade com os ideais comunistas. 

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Ângela Fraga destaca a capacidade de diálogo que o escritor era capaz de proporcionar dentro da política institucional. “Jorge Amado era um político de esquerda e muito militante, mas ele tinha uma peculiaridade que era uma coisa da personalidade dele também, que era construir redes. Então, ao mesmo tempo, em que ele tinha a ideologia dele, não era sectário. Ele tinha muitos amigos, inclusive, e tinha muito respeito de políticos de direita”.

Fundação Jorge Amado

Fundação Jorge Amado foi inaugurada em 7 de março de 1987. Ela foi idealizada e instituída com o objetivo de preservar e estudar os acervos bibliográficos e artísticos do escritor. Esse processo se deu com apoio de Jorge Amado e a escritora e esposa Zélia Gattai, que faleceu sete anos após o marido, em 17 de maio de 2008.

Esse mês de agosto a Fundação está propondo uma exposição itinerante que vai pra percorrer algumas estações do metrô de Salvador (BA) sobre os personagens marcantes de Jorge Amado. “Vai primeiro pro Campo da Pólvora, que é bem pertinho daqui e, depois, vai pro Aeroporto, levando um pouco dos personagens de Jorge Amado pro público, para as pessoas conhecerem – ou reconhecerem, porque tem muitos que já são famosos, como Gabriela e Tieta”, explica Ângela Fraga.

:: A literatura pode reverter a desvalorização do olhar das mulheres negras no Brasil :: 

A Fundação Jorge Amado é considerada um ponto de referência na geografia cultural da cidade, realizando cursos, seminários, oficinas, ciclos de conferências, lançamentos de livros, exposições e a FLIPELÔ – Feira Literária Internacional do Pelourinho, um dos maiores eventos literários da Bahia.

Ela está localizada na rua das Portas do Carmo, número 49/51, Largo do Pelourinho.

CHICO BUARQUE LÊ TRECHO DA “CARTA EM DEFESA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO”

Agosto 9, 2022

Documento já conta com mais de 800 mil assinaturas e é reação às manifestações de Bolsonaro contra as urnas eletrônicas; veja como assinar aqui

Chico Buarque lê Carta em Defesa da Democracia.Créditos: Reprodução de Vídeo
Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

Escrito en CULTURA el 9/8/2022 ·

O cantor e compositor Chico Buarque gravou um vídeo em que lê um trecho da “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!

O documento é inspirado na “Carta aos Brasileiros”, de 1977, que comemorou 45 anos nesta segunda-feira (8). Organizadores da “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, publicaram um novo texto em defesa da democracia nos grandes jornais do país.https://0b55746c107ece66e7a57535282497a7.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html?n=0

O manifesto, que foi divulgado no último dia 26 de julho, já conta com mais de 800 mil assinaturas e é considerado uma crítica velada às acusações de fraude nas urnas eletrônicas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ato em 11 de agosto

O texto publicado nesta segunda-feira comemora a existência da “Carta aos Brasileiros”, reforça o seu propósito de defesa da democracia e convida para participação no ato de quinta-feira (11), no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da USP.https://d-20281903332202169240.ampproject.net/2207221643000/frame.html

“A mobilização popular será o antídoto eficaz para evitar eventual investida contra o resultado da eleição, independentemente de quem seja o vencedor”, diz um trecho da “Carta de 22”.

Para assinar a carta, clique aqui.

Veja abaixo o trecho lido por Chico Buarque:

No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições.

Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:

Estado Democrático de Direito Sempre!!!!https://d-

TEMAS

Chico BuarqueCarta em Defesa da Democracia

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DOCUMENTÁRIO SOBRE ESTAÇÕES DE TREM DO VALE DO PARAÍBA TERÁ ESTREIA INTERNACIONAL

Agosto 8, 2022
  1. CULTURA

AUDIOVISUAL NACIONAL

Icônicas estações de trem das cidades do Vale do Paraíba, em especial Barra do Piraí, são o tema de “Entroncamentos”

Redação

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

 Agosto de 2022 –

cinema documentário
Os diretores Fernando Sousa e Gabriel Barbosa com o ferroviário José Francês (meio), durante as filmagens – Divulgação

As icônicas estações de trem das cidades do Vale do Paraíba, em especial Barra do Piraí, são o tema do documentário Entroncamentos – vida e memória nas estações ferroviárias do Vale do Paraíba, cuja estreia no Festival Internacional de Buenos Aires, em setembro deste ano.

Primeiro longa metragem produzido pela Quiprocó Filmes e dirigido por Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, a narrativa é construída a partir de entrevistas e de vasto material de arquivo de cine-jornais, fotografias, mapas e litogravuras, que contam a história da ascensão e declínio do transporte ferroviário no maior entroncamento da América Latina, no Vale do Paraíba fluminense.

Em meio a esses registros heterogêneos e às ruínas das estações ferroviárias, a narrativa é costurada pela experiência dos personagens, suas reminiscências de relações de amizade, afetos, paixões e tensões forjadas nos trilhos do trem.

A trilha sonora do filme conta com composições originais do argentino Jonatan Szer, Abel Ferreira e Clementina de Jesus, cujas canções imprimem ao documentário o ritmo característico da musicalidade afro-brasileira – com destaque ao jongo – sonoridade marcante e definidora da formação cultural do Vale do Paraíba. 

Estações sucateadas

As histórias dos personagens envolvidos diretamente com as estações e o material de arquivo são o fio condutor do documentário. A estrada de ferro D. Pedro II, uma das primeiras linhas férreas do Brasil, tinha como objetivo inicial escoar a produção de café do Vale do Paraíba e, posteriormente, contribuir para estruturar a industrialização da região no século 20. Assim, diversas cidades nasceram ao longo do seu traçado, consolidando um estilo de vida intimamente ligado ao trem e às estações.

“Muitos trabalhadores dessas estações – hoje sucateadas e fora de funcionamento – ainda moram no seu entorno, o que nos permite vislumbrar uma forte relação ainda não rompida com esses lugares, que são centrais para a formação social da região do Vale do Paraíba e do Estado do Rio de Janeiro”, afirma Gabriel Barbosa, que assina o roteiro e direção do filme com Fernando Sousa.

Com a finalização da obra, a Quiprocó Filmes aprovou um projeto de Circulação Estadual de Programação na Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Lei do ICMS), o que habilita a captação de recursos para viabilizar um circuito de exibições com o filme no interior do Rio de Janeiro. Os diretores planejam a realização de uma estreia do filme em Barra do Piraí, em março de 2023, quando será comemorado o aniversário de 133 anos da cidade.

Entroncamentos: vida e memória nas estações ferroviárias do Vale do Paraíba é apresentado pelos governos federal e estadual e pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Lei Aldir Blanc. O primeiro longa-metragem da dupla de cineastas contou ainda com recursos de um financiamento coletivo, o apoio da Casa Fluminense, da Fundação Heinrich Böll e do Centro Universitário Geraldo Di Biase.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Eduardo Miranda e Sarah Fernandes