NA SEMANA DO CENTENÁRIO, SESC EXIBE SÉRIE “PAULO FREIRE, UM HOMEM DO MUNDO”

Setembro 15, 2021
  1. CULTURA

HOMENAGEM

Em cinco episódios, a produção explora a dimensão humana de Freire e será disponibilizada gratuitamente no YouTube

Da RedaçãoBrasil de Fato | Recife (PE) | 14 de Setembro de 2021.

A série trata da vida e obra do educador em cinco episódios, com participações especiais – Reprodução/Instituto Paulo Freire

No próximo domingo (19), entre 14h e 18h, o SescTV exibe os cinco episódios da série documental “Paulo Freire, Um Homem do Mundo”. Dirigida por Cristiano Burlan, a obra audiovisual é composta por cinco episódios, que rememoram a vida e obra do pedagogo e intelectual brasileiro Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), reconhecido por sua influência no movimento chamado Pedagogia Crítica – que visa o desenvolvimento da educação por meio da consciência do indivíduo perante sua realidade.

Todos os episódios da série estão disponíveis no site do SescTV.

No sábado (18), será exibida a live “Paulo Freire 100 anos: Pensamento, Experiências e Derivações”, transmitida ao vivo às 16h no Youtube.

O encontro promove a transmissão ao vivo de debates sobre as principais questões que tensionam a agenda sociocultural e educativa com as participações da educadora social Bel Santos Mayer – uma das criadoras do projeto Biblioteca Caminhos da Leitura, que promove a leitura em espaços remotos, na região Parelheiros, em São Paulo, do diretor e roteirista Cristiano Burlan e o educador Moacir Gadotti, que é docente aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e presidente de honra do Instituto Paulo Freire.

: Leia mais: Precursor e de contribuição “incomparável”: como acadêmicos estrangeiros enxergam Paulo Freire

Já a série “Paulo Freire, Um Homem do Mundo” é dividida em cinco episódios: A Formação do Pensamento; as 40 Horas de Angicos; o Exílio; do Pátio do Colégio à Pedagogia do Oprimido e o Mundo Não É, Está Sendo.

Todos mesclam depoimentos de familiares, colegas de profissão e amigos íntimos do pensador. A série trata da vida e obra do educador desde Recife, passando pelas 40 horas de Angicos – experiência de alfabetização com adultos do sertão do Rio Grande do Norte –, o seu exílio em Genebra e suas ações como secretário de educação da cidade de São Paulo, investigando também a reverberação de seu pensamento nas artes. Paulo Freire, Um Homem do Mundo nos convida a mergulhar na trajetória de um dos maiores intelectuais brasileiros.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga

AQUILES RIQUE REIS: O DIA EM QUE MANU CAVALARO ME PEGOU DE SURPRESA

Setembro 14, 2021

“Canções para Iluminar o Mundo” (Manu Cavalaro). Cada canção vem à terra, limpa o céu, rompe barreiras e brota uma flor no quintal das casas. A cor chama a atenção de quem presenciou a mutação da tempestade em vida.Por Aquiles Rique Reis -14 de setembro de 2021 Compartilhar

O dia em que Manu Cavalaro me pegou de surpresa

por Aquiles Rique Reis

Para avaliar uma possível resenha, absorto, eu ouvia o canto de uma voz masculina. Surpreso, não percebi que o YouTube trocara a música que eu ouvia. Só então percebi que uma mulher cantava: que voz! Meu Deus! Quanta personalidade! Que timbre! Quanta afinação, quanto balanço… era Manu Cavalaro.

Cantora, pianista, compositora e educadora vocal, ela cantava uma das músicas de seu segundo álbum autoral, Canções para Iluminar o Mundo (independente) – dela, do Brazú Quinté, grupo que mistura a sonoridade erudita dos grupos camerísticos à guitarra elétrica, e do contrabaixista e violonista Franco Lorenzon. A mixagem e a masterização são coisas de craque.

“Primeira Estrela” (Luhli, Lucina e Sonia Prazeres) é o que se pode chamar de uma canção que fala ao coração. Um arranjo delicado expõe o conteúdo vocal de Manu. Como ela canta, meu Deus. Sua voz me surpreendeu pela forma como vem à luz, maestria de quem dá asas à voz e aos instrumentos em pleno voo. Todos afinados com a concepção alcançada em pleno ato do cantar. Seja com a voz se multiplicando em terças, ora ad libitum e suingada, Manu tem no rosto um semblante de paz.

“Canções para Iluminar o Mundo” (Manu Cavalaro). Cada canção vem à terra, limpa o céu, rompe barreiras e brota uma flor no quintal das casas. A cor chama a atenção de quem presenciou a mutação da tempestade em vida. O arranjo descobre mil e uma interpretações para violão, cello, baixo, percussão, piano violino e flauta. Atuações soberbas, dignas de aplausos em cena aberta.

“Baião de Oração” (Manu Cavalaro): embora a melodia seja suingada de tudo, ainda mais vestida para encantar como está, a levada faz sacolejar desde os nordestinos até os sulistas. Todos sacudindo os miolos, entorpecidos que parecem estar, vendo passar o vilão negacionista falar na TV.

“A Vida Que a Gente Leva” (Fátima Guedes) vem cuidadosa, como quem sai a passeio. Os instrumentos tocam à beleza, nunca à tristeza. Vida levada aos trancos e barrancos. Medo que nos põe à beira de um cansaço mortal, capaz de nos enterrar nesse mundo sem que pedíssemos.

Neste momento, quando a alegria parece ter dado vez à agonia, o destino traçado a ferro e fogo, e o tempo fugindo parecendo não querer voltar, sem rumo, somos governados por farsantes que, mesmo sabendo a dor da morte em vida, insistem em nos humilhar.

Mas não! Mil vezes não! Antes de sucumbirmos, vamos à luta cantando com Manu Cavalaro as canções que iluminam o mundo, e com Violeta Parra… “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4https://37d47659a3aef71264f0f984a1ee25e3.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Ficha Técnica:

Ariane Rodrigues – flautas

Letícia Andrade – violino

Thiago Faria – cello

Participações especiais: Guegué Medeiros – percussão: faixas 01, 07, 08 e 10, Elisa Graciela: viola – faixa 03; mixagem e masterização: Adonias Jr; gravado no estúdio Arsis, SP, em outubro de 2010; projeto gráfico: L´Art Produtora; ilustrações: Lucas A. R. Tannuri.

CURSO DE LÍNGUA GUARANI É OFERECIDO PELO MUSEU DO ÍNDIO; INSCRIÇÕES ESTÃO ABERTAS

Setembro 14, 2021
  1. CULTURA

LÍNGUAS

Quarta edição do curso “Vamos Aprender Guarani?” acontece nos dias 15, 16 e 17 de setembro, de 19h às 21h

RedaçãoBrasil de Fato | Belo Horizonte (MG) | 14 de Setembro de 2021 às 15:44

Aulas do curso “Vamos aprender Guarani?” serão transmitidas pelo youtube – Reprodução Agência Brasil

Começa nesta quarta-feira (15) a quarta edição do curso “Vamos aprender Guarani?”. Com programação até o dia 18 de setembro, de 19h às 21h, as aulas onlines serão ministradas por Alberto Tupã Ra’y, indígena Guarani Nhandeva e professor de língua Guarani na Universidade Federal Fluminense (UFF). 

O curso faz parte das iniciativas desenvolvidas pelo Museu para difundir a história e a cultura indígena brasileira e tem por objetivo “apresentar aspectos linguísticos e culturais da língua Guarani, uma das 205 línguas indígenas faladas no Brasil atualmente, segundo dados do IBGE”. 

:: Artigo | Saída do Brasil da Convenção 169: país irá pactuar com retrocesso em direitos humanos? ::

Lídia Meirelles, coordenadora do Museu do Índio, enfatiza que as línguas indígenas deram origem a palavras e expressões presentes em nosso vocabulário. “O português falado no Brasil incorporou, somente de línguas originadas do Tronco Tupi, pelo menos 20 mil vocábulos, isso inclui expressões, nomes próprios, topônimos, nomes de animais, plantas nativas do Brasil, dentre outros. Por isso é tão importante conhecermos a nossa língua, pois ela é a forma mais efetiva de transmissão da nossa cultura”, explica.

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As aulas serão transmitidas pelo Youtube. Para ter acesso ao link, é preciso se inscrever aqui

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Elis Almeida

10 MÚSICAS DE ITAMAR ASSUMPÇÃO PARA REVELAR O BRASIL

Setembro 13, 2021

HOMENAGEM

Um dos maiores artistas da música brasileira, Assumpção faria aniversário nesta segunda (13)

Raphael Vidigal Esquina Musical| 13 de Setembro de 2021.

Itamar Assumpção foi um compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical brasileiro – Marcos Penteado/CEDOC FPA

Para o crítico musical Hugo Sukman, “a música de Itamar Assumpção explode originalidade”. “Ele revela um mundo que, por incrível que pareça, dada a riqueza da música brasileira, não havia sido nos mostrado”, aponta. Segundo Sukman, a produção de Itamar se fia nas experiências do “negro urbano, de classe média”.

“Ele faz isso dentro da tradição da canção brasileira”, diz. A denúncia ao racismo, que surge em “Cabelo Duro”, “Pretobras” e outras, é “feita com altivez”.

Itamar é a voz de uma população que ascendeu socialmente e chegou à universidade. Ele fala de igual pra igual. Nesse sentido, o comparo ao Gilberto Gil, observa Sukman. 

Para celebrar o legado atemporal de Itamar Assumpção, selecionamos 10 músicas deste artista único.

“Laranja Madura” (samba, 1967) – Ataulfo Alves

O mineiro Ataulfo Alves, filho de um violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona da Mata do estado, foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas, engraxate, marceneiro e lavrador, além do mais frequentava a escola, antes de se tornar um dos mais conhecidos compositores populares do Brasil.

Não espanta, portanto, que Ataulfo tenha recolhido uma expressão popular, um ditado, para colocar em sua música.

“Laranja madura, na beira de estrada, tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”, exemplifica em versos a decantada desconfiança mineira. Pois foi na escola da vida que Ataulfo formou seu caráter social e artístico. A música foi lançada em 1967 por Ataulfo com as suas “Pastoras”, outra tradição de Minas, e regravada por Noite Ilustrada e Itamar Assumpção.

“Negra Melodia” (reggae, 1977) – Jards Macalé e Wally Salomão

Jards Macalé e Wally Salomão escreveram “Negra Melodia” pensando em Luiz Melodia, amigo de ambos. A música é uma exaltação bem ao estilo da dupla, e também ao feitio do homenageado. Prepondera a mistura de influências e a miscigenação de linguagens que formou a própria sociedade brasileira. Não por acaso, o idioma português se mescla ao inglês em determinadas passagens da letra.

Lançada por Jards Macalé em 1977, no álbum “Contrastes”, ela só recebeu a voz de Luiz Melodia em 2005, em dueto com Macalé. Antes, foi regravada por Itamar Assumpção, Margareth Menezes e Lenine, até dar nome ao disco lançado por Zezé Motta em 2011, dedicado ao repertório de Luiz Melodia e Jards Macalé. O ritmo de reggae se abre a fusões.

“Nego Dito” (vanguarda, 1980) – Itamar Assumpção


São raros os artistas de vanguarda que não se valem de uma sólida formação pautada na tradição. O pintor Wassily Kandinsky, inventor do abstracionismo nas artes plásticas, baseava suas criações no folclore, nos rituais xamânicos dos índios de sua região e nos contos de fada.

Qualquer semelhança com a música de vanguarda proposta por Itamar Assumpção em terras tupiniquins não é mera coincidência. Sua obra está recheada de referências desse tipo, por exemplo, nas canções “Sutil” (“muita areia para o meu caminhãozinho”) e “Aprendiz de Feiticeiro”. Mas é em “Nego Dito”, lançada no álbum de estreia, em 1980, que Itamar tece este encontro da maneira mais radical. A expressão popular pinçada não poderia ser outra do que “mato a cobra e mostro o pau”.

“Amanticida” (vanguarda, 1981) – Itamar Assumpção e Marta Rosa Amoroso


A atmosfera cinza e poluída da cidade de São Paulo foi o ambiente que influiu decisivamente na estética proposta pela chamada Vanguarda Paulista, surgida em meio aos anos 1980 que consagravam o colorido das bandas de rock nacionais.

Numa linguagem que misturava quadrinhos, teatro, rap e música urbana, a palavra destilada com o veneno lento das horas era uma das armas de Itamar Assumpção e sua banda Isca de Polícia. Na parceria com Marta Rosa Amoroso, de 1981, cria-se uma história assustadora: “Fera, bruxa, madrasta, amanticida/Homem, mulher/Amada que mata amante”.

“Já Deu Pra Sentir” (vanguarda, 1987) – Itamar Assumpção


Companheiro de geração, Arrigo Barnabé não apenas conviveu com Itamar Assumpção, que tocou e participou de arranjos do disco “Clara Crocodilo” (1980), como morou, durante mais de dois anos, com o amigo em São Paulo.

“Antes de estourar com a Vanguarda Paulista e ficar conhecido, a gente fez muitos shows juntos”, conta. 

Arrigo foi um dos músicos mais próximos de Itamar. Em dueto, eles gravaram “Já Deu pra Sentir”, no disco “Suspeito”, em 1987, que, ao lado de “Noite Torta”, Arrigo considera “o auge de Itamar na composição”. “As duas são muito bem-resolvidas em termos de letra e canção”, elogia Arrigo. Os dois se conheceram em Londrina, no interior do Paraná.

“Mal Menor” (vanguarda, 1988) – Itamar Assumpção

Poderia ser um bolero ao gosto de Nelson Gonçalves ou Angela Maria, bebericando na tradição da música popular brasileira, não fosse a música escrita por Itamar Assumpção, que transforma “Mal Menor” em mais uma peça de vanguarda do seu repertório.

“Minha flor de trigo/ Meu licor de figo/ Diga aonde irás que é pra lá que eu sigo/ Pra tudo conte comigo”, anuncia o galante eu-lírico da canção.

Perspicaz, Itamar lança frases de profunda compreensão da vida como quem fala aquilo que existe de mais banal na face da Terra:

“Sofrer é antigo/ Por isso que digo/ Basta estar vivo/ Para correr perigo”. A música foi lançada por Itamar no álbum “Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!!”, em 1988, e mereceu uma regravação do sempre atento, e companheiro de vanguarda, Arrigo Barnabé, em 1992, em seu CD “Façanhas”.

“Dor Elegante” (balada, 1998) – Paulo Leminski e Itamar Assumpção


O sempre atento e performático Itamar Assumpção, um dos principais nomes da “Vanguarda Paulista” que invadiu o cenário cultural brasileiro unindo música a teatro e outras inovações mais, foi outro a buscar em Paulo Leminski combustível para a sua arte. Em 1998, no álbum “Pretobrás”, Itamar transformou o poema “Dor elegante”, em canção, ao receber a letra.

Diga-se de passagem, essa “transformação” é, quase sempre, apenas a colocação de instrumentos musicais e voz, pois, melodia e métrica quase sempre são presentes em todas as composições de Paulo.

Numa das mais sensíveis e delicadas criações de Paulo Leminski, o autor versa com sabedoria e singeleza sobre o valor da vida, e a histórica e até barroca capacidade de, a partir do martírio, nascer a beleza.

“Vida de Artista” (vanguarda, 1998) – Itamar Assumpção


Os dois primeiros álbuns da carreira de Itamar Assumpção ganharam, em 2019, reedições em vinil: tanto “Beleléu, Leléu, Eu” (1980) quanto “Às Próprias Custas S. A.” (1981), que trazia em seu título uma das muitas críticas e ironias lançadas por Itamar em suas composições.

“O meu pai foi um pioneiro da música independente, numa época em que isso não era comum. Todo esse cenário de hoje, inclusive do rap, deve muito às lutas que ele travou”, observa a cantora e compositora Anelis Assumpção, que se ressente da falta de reconhecimento ao legado do pai.

“A música brasileira é ingrata”, reclama. Para tentar amenizar os efeitos desse desprezo à memória, ela prepara um site, em formato de museu virtual, com todo o acervo do progenitor. “Itamar é um documento artístico e cultural do país”, define Anelis. Essas questões inerentes ao fazer cultural e artístico no Brasil aparecem em “Vida de Artista”, de 1998.

“Aprendiz de Feiticeiro” (vanguarda paulista, 1999) – Itamar Assumpção


Tido e havido, com méritos, como um dos mais originais e criativos artistas da música brasileira, Itamar Assumpção experimentava no palco as facetas de cantor e ator com a mesma facilidade usada para distribuir sua obra. Compositor de mão cheia incumbiu a Cássia Eller o desafio de lançar a canção “Aprendiz de Feiticeiro”, em 1999.

Na peça o autor busca retratar as desditas da existência com um olhar arguto e audacioso, misturando, como de seu feitio e da vanguarda paulista, sotaques, emblemas e territórios.

Dois anos mais tarde, Cássia teria outra experiência com universo místico, ao regravar, para o especial do Sítio do Pica-Pau Amarelo, a música “A Cuca Te Pega”, também registrada por Angela Ro Ro. Com a voz capaz de encantos de outro mundo…

“Anteontem” (vanguarda, 2003) – Itamar Assumpção


Itamar Assumpção lutava contra um câncer de estômago que o mataria quando realizou o seu último show, em 2003. Nessa apresentação, o músico recebeu no palco a multiartista Elke Maravilha, que o auxiliou a cantar.

“Anteontem”, num dueto que dialogava com a morte. A música foi composta por Itamar numa de suas internações, e, não por acaso, tinha o subtítulo jocoso de “Melô da UTI”.

Lançada apenas após sua morte, a canção aparece no álbum “Pretobrás III: Devia Ser Proibido”, de 2010, e mantém o espírito de vanguarda que conduziu toda a carreira de Itamar. “Foi me visitar a morte/ Mesmo sedado senti…”, entoa.

*Bônus
“Dodói” (vanguarda, 2007) – Luiz Tatit e Itamar Assumpção


Todas as cadeiras do pequeno Teatro Marília, em Belo Horizonte, estavam ocupadas quando Zélia Duncan estreou na cidade, em 2012, o espetáculo “Totatiando”, em homenagem a Luiz Tatit. Ao interpretar a música “Dodói”, parceria de Tatit e Itamar Assumpção (1949-2003), a cantora não resistiu.

“No universo do teatro, estou autorizada a não controlar esse tipo de emoção diante do público. Não conseguiria se não fosse verdadeiro, até porque não tenho essa técnica”, observa Zélia, explicando as lágrimas daquela ocasião.

“Dodói” foi lançada por Tatit em 2007. A canção, uma das últimas de Itamar, não chegou a ser gravada pelo autor dos melancólicos versos, que descreviam sua agonia na batalha contra o câncer de intestino: “Eu ando tão dodói/ Mas tão dodói/ Que quando ando dói/ Quando não ando dói/ Meu corpo todo dói/ (…) Até meu dom dói/ Pois quando canto/ Não importa o tom dói”, resume o artista.

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FILME MOSTRA HISTÓRIA DE DISTRITO DE OURO PRETO (MG) ABANDONADO PELA MINERAÇÃO; ASSISTA

Setembro 12, 2021
  1. CULTURA

RETRATO ESQUECIDO

Conheça Miguel Burnier, que já foi uma comunidade potente, mas resiste hoje à sua destruição total

Karem AndradeBelo Horizonte (MG) | Setembro de 2021.

O filme faz uma construção afetiva da comunidade desenvolvida e esquecida pela economia da extração minerária – Guilherme Oliveira

O distrito de Miguel Burnier, pertencente a Ouro Preto (MG), é o maior contribuinte ao tesouro da cidade, mas sofre devastações devido à mineração exploratória causada por diversas empresas como a Gerdau e a Vale. A degradação é tão grande que o distrito, que já contou com uma população de mais de 5 mil habitantes, apresenta atualmente a média de 75 habitantes.

É essa história que o documentário “O Retrato Esquecido de Miguel Burnier” resgata, em quatro capítulos. O filme de Guilherme Oliveira, desenvolvido como conclusão do curso de jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto, faz uma construção afetiva da comunidade desenvolvida e esquecida pela economia da extração minerária, e leva ao espectador a sensação de conviver lado a lado com uma cava de minério.

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“A decisão de fazer o documentário sobre Miguel Burnier surgiu devido a necessidade de dar algum retorno à sociedade de Ouro Preto e Mariana, já que saí do interior de São Paulo para estudar em Mariana”, diz o jornalista. “Um amigo me falou sobre Miguel Burnier, um lugar que depois de explorado pela Votorantim, retiraram até a energia elétrica do lugar”, conta.

Dos anos áureos à tentativa de sua completa destruição, o distrito é um exemplo clássico das cidades exploradas e relegadas à sua própria sorte quando o minério por fim acaba.

“Decidi conhecer o distrito, e a cada conversa percebia que para o capitalismo não existe limites, não importa se existe uma sociedade. Para ele, a única coisa importante é o lucro, doa a quem doer”, conclui o produtor do filme.

O Quadro na Parede, capítulo 1https://www.youtube.com/embed/-fsAr2Z1Zyw?rel=0

Miguel Burnier é o maior distrito em extensão territorial de Ouro Preto e tem sua história associada a explorações de recursos minerais. O distrito é lembrado como uma comunidade que vivia em meio a festas, campeonatos, cuidados com a saúde e abundâncias. Mas atualmente, sofre impactos negativos de empreendimentos minerais que ainda são realizados por lá.

No Capítulo “O Quadro na Parede”, os discursos são saudosos. Cada morador traz consigo memórias da era do time de futebol local, dos blocos de carnavais e das celebrações religiosas. Eram tempos de fartura.

“A siderúrgica dava emprego pra muita gente. Teve época em torno de 3 mil moradores, sendo que só eleitores seriam 1.500. Os quais sempre decidiram as eleições municipais de Ouro Preto”, relata o morador Geraldo Vasconcelos. O número de habitantes, segundo outras pessoas ouvidas no documentário, chegou a 5 mil.

A Queda do Quadro, capítulo 2https://www.youtube.com/embed/490zbwXzstc?rel=0

Após a sua era de abundância, veio a queda. A Usina Barra Mansa fechou e Miguel Burnier começou a sofrer uma primeira decadência. Sem a usina, o distrito ficou sem energia elétrica e à mercê do poder público. A situação ficou mais crítica quando ocorreu a privatização da Estrada Ferroviária Central do Brasil, que deixou o distrito isolado em meio a estradas de terra e com difícil acesso à sede do município.

O documentário conta que, após 11 anos do fechamento da Usina Barra Mansa, a Gerdau começa a explorar minério de ferro na região, mas sem o intuito de construir uma relação íntima com a comunidade. Ao contrário, a empresa elaborou projetos para que a comunidade abandonasse o distrito.

As relações sociais se esfacelaram. As atividades culturais promovidas pela comunidade foram suprimidas, o clube se tornou parte da operação da mina, o campo de futebol se transformou em um almoxarifado e a área da planta de beneficiamento de minério ocupou o espaço entre a igreja principal e o cemitério.

Royalties foram pagos à Prefeitura de Ouro Preto pela Gerdau e outras empresas que atuavam na região, mas as melhorias necessárias para o distrito não foram realizadas e Miguel Burnier se viu abandonada pelo poder público.

Varrendo os Cacos, capítulo 3https://www.youtube.com/embed/yIo4g-18jY0?rel=0

O efeito da mineração da Gerdau foi avassalador e dividiu a comunidade em dois lados: um que defendia a permanência e a cultura do lugar e buscava restaurar aquilo que foi vivido, e outro que queria o fim de Miguel Burnier, ceder suas terras e ser indenizado pela empresa.

A construção de uma barragem no distrito se tornou um pesadelo para a comunidade, mostra o documentário, e uma tragédia se avizinhava. As fortes chuvas de 2011 fizeram a barragem romper e levar a estrada de acesso à igreja com a mata nativa. A lama tóxica foi direto para os afluentes do rio Paraopeba e o caso não foi noticiado pela mídia.

Os danos ambientais vão além do rompimento da barragem. Durante a mineração de ferro, as mineradoras retiraram águas das áreas em exploração, provocando o rebaixamento do lençol freático e, consequentemente, o secamento de córregos e nascentes.

Também houve danos aos patrimônios históricos de Miguel Burnier. Obras antigas e sacras foram furtadas e estruturas destruídas. Assim, o lugar começou a correr o risco de perder sua força cultural, mas que resiste até o momento no distrito.

Colando os Cacos, capítulo 4https://www.youtube.com/embed/WVBHpw3Zz6I?rel=0

Com uma fundição maior e um pouco afastada do centro de Miguel Burnier, a Usina Wigg, instalada em 1969, trouxe a necessidade de um quadro de funcionários numeroso e, consequentemente, o aumento do número de residências no distrito.

Contudo, hoje Miguel Burnier é bem diferente da época do estouro populacional. O Capítulo 4 — Colando os Cacos mostra o que restou na comunidade e destaca ações da comunidade para resgatar seus bens e manter sua cultura. Uma das ações é o Projeto Estação Cultura que transformou a estação ferroviária em uma biblioteca e espaço para atividades culturais.

Ainda existem vários bens em situação de abandono, e por mais que a comunidade exija que eles sejam restaurados diante o Ministério Público, eles continuam jogados ao tempo. Esse é o caso de igrejas do século XVIII, grutas, casarios e construções como a própria Usina Wigg.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Rafaella Dotta

OS PRIMEIROS ANOS DA “GUERRA AO TERROR” EM CHARGES

Setembro 11, 2021

11 DE SETEMBRO

Coletânea criada para a Carta Maior mostra as contradições dos primeiros dez anos de intervenções dos EUA

RedaçãoSão Paulo | 11 de Setembro de 2021.

Charge ironiza presença dos EUA no Iraque, em 2003 – Carta Maior / Gilberto Maringoni

Imediatamente após os ataques do 11 de setembro, a primeira medida do então presidente George w. Bush foi anunciar a invasão do Afeganistão.  

Ainda que a justificativa fosse caçar Osama Bin Laden, o mentor dos ataques, e derrubar o Talibã, que lhe havia dado abrigo, logo foi perceptível que uma série de interesses imperiais estavam em jogo. 

O passo seguinte foi invadir o Iraque, em 2003, e remover Saddam Hussein do poder. Ali havia interesses muitos concretos de membros do governo dos EUA, entre eles o vice-presidente Dick Cheney, que tinha parte na Halliburton, empresa que fechou lucrativos contratos logo depois da invasão.  

Mais tarde foi descoberto que a inteligência dos Estados Unidos inventou a suposta existência de um arsenal de armas de destruição em massa que justificou a ação militar.

:: Entenda a história recente do Afeganistão e veja o que dizem mulheres do país sobre o Talibã ::  

Nestas imagens, por meio do traço ácido e crítico de Gilberto Maringoni, revisitamos os temas e contradições debatidas nos primeiros dez anos pós-11 de setembro. Das críticas iniciais à invasão à ironia do que de fato foi construído nessa primeira década de intervenções dos EUA. 


2002 | A resposta dos EUA ao 11 de setembro foi justificada em nome de valores ocidentais. Mas quais valores? / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2002 | Proposta de Paz: O “terror” foi a palavra-chave que retratava a violência como sendo realizada apenas por um lado / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


Os EUA invadem o Afeganistão como primeiro passo da política intervencionista do governo George W. Bush com o paoio de grupos rivais do Talibã / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2003 | Havia duas características na intervenção dos EUA: movimentar uma indústria militar lucrativa e exigir medidas neoliberais / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2003 | EUA invadem o Iraque em 2003, o passo seguinte na “Guerra ao Terror” / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2003 | VÁ PRA CASA! Já nos primeiros havia a percepção de que os EUA manteriam presença no Oriente Médio por um tempo longo / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2004 | Os gastos dos EUA em vinte anos de intervenção no Oriente Médio chegaram a 6,4 trilhões de dólares (cerca de 33 trilhões de reais) / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2005 | Fica para a próxima: A justificativa para invadir o Iraque foi um arsenal de destruição em massa que nunca foi encontrado. Mais tarde soube-se que eram informações falsas / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2005 | A partir de 2001, o governo dos EUA expandiu ações interventoras, fosse por meio militar ou guerra híbrida / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2005 | Eleição no Iraque após a queda de Saddam Hussein se deu sob forte influência política e militar dos EUA / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2006 | À medida que o tempo passava, era perceptível que as invasões não deixariam como legado democracias / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2009 | Outra característica dessas ações militares foi a exploração midiática da “defesa de valores ocidentais” / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2011 | A principal preocupação dos ataques eram os “pobres poços de petróleo” do Iraque / Carta Maior/ Gilberto Maringoni


2011 | Por fim, ao completar dez anos, já ficava claro o aspecto destrutivo das intervenções dos EUA. Hoje, 20 anos depois, isso foi confirmado / Carta Maior/ Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni é jornalista, cartunista e professor universitário. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e integrante do OPEB (Observatório de Política Externa Brasileira – UFABC).  

Edição: Arturo Hartmann

LUTA POR MORADIA ENCONTRA A MAGIA DO CINEMA NO DOCUMENTÁRIO “CINE MARROCOS”

Setembro 10, 2021
  1. MOSAICO CULTURAL

SÉTIMA ARTE

Após ficar fechado por quase 20 anos, a famosa sala de cinema foi ocupada por famílias sem-teto e virou tema de filme

Vanessa Nicolav10 de Setembro de 2021.

Ouça o áudio:Play02:1502:47MuteDownload

Cartaz do documentário “Cine Marrocos”, lançado em 2018 – Divulgação/ Cine Marrocos

um cinema não pode ficar fechado e ele não precisa ser só para elite

A mistura entre realidade e criação, vida e sonho de moradores da ocupação Cine Marrocos, local que já foi considerado uma das mais prestigiadas salas de cinema de São Paulo, é o tema do filme, de mesmo nome, escrito e dirigido por Ricardo Calil.
 
Mais do que um documentário sobre a transformação desse local, o filme é um retrato sobre o poder do encontro. O encontro entre pessoas que lutam pelo direito à moradia, a magia do cinema e o poder da transformação gerados pela invenção.  

O diretor conta que a ideia surgiu depois de visitar o espaço e ficar impressionado com a riqueza humana e cultural do local:  na época, ali viviam cerca de 2 mil pessoas, de 17 países diferentes.

Aquelas pessoas que são muitas vezes invisibilizadas mereciam estar nessa vitrine linda que é a tela de cinema 

“O que a gente quis fazer com o filme é que essas pessoas precisam não só de um teto, mas também precisam de tela, precisam de cultura, arte, fantasia, além da realidade, elas precisam de fantasia também”, aponta.

A produção envolveu um rico processo criativo com um grupo de moradores da ocupação, que durante dois meses ensaiaram cenas de filmes clássicos, exibidos durante o período auge da sala de cinema. 

:: Cineclubes: espaço de debate, política e amor pelo cinema :: 

“Existe um duplo sentido político nesses gestos. Primeiro dizer que um cinema não pode ficar fechado e ele não precisa ser só para elite ele pode ser aqueles moradores da ocupação. E o segundo é que aquelas pessoas que são muitas vezes invisibilizadas mereciam estar nessa vitrine linda que é a tela de cinema”, diz o diretor. 

O filme, que foi realizado entre 2015, mostra, além da realidade e sonhos da ocupação Cine Marrocos, o episódio de reintegração de posse do prédio, ocorrido em 2016. Desde então, o problema de moradia em SP só piorou. Segundo dados da prefeitura, o número de pessoas em situação de rua aumentou 53% nos últimos 5 anos.

:: Goma: um curta-metragem sobre música, cultura periférica e contradições :: 

“A gente acredita que a luta por moradia é uma luta justa nobre importante. Porque ela tenta corrigir um erro básico da nossa sociedade, da nossa desigualdade social, que é o fato de ter gente sem casa e casa ser gente. É um absurdo que precisa ser corrigido”, pontua Calil.

O longa-metragem venceu o festival de documentários É Tudo Verdade em 2019. E atualmente pode ser assistido em plataformas online. 

Edição: Douglas Matos

‘7 PRISIONEIROS’, PROTAGONIZADO POR MALHEIROS E SANTORO, É EXIBIDO EM VENEZA

Setembro 9, 2021

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Foto: Aline Arruda/Netflix
Rodrigo Santoro e Christian Malherios em 7 PrisioneirosCredit…Foto: Aline Arruda/Netflix

Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO

  • Publicado em 2021-09.

https://97748816fef276935d88fdd8b8c9fc8a.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Dirigido por Alexandre Moratto – e tendo Fernando Meirelles entre os produtores – “7 Prisioneiros” é outro título representando o Brasil em Veneza. O cineasta brasileiro-americano retorna ao tema de pessoas que vivem à margem da sociedade, como já tinha feito no excelente “Sócrates”.

Seu novo trabalho, que se concentra na escravidão moderna, estreou no festival dia 6 e teve uma segunda exibição nessa terça feira (7) na paralela Orizzonti Extra de júri popular.

A história segue Mateus (Christian Malheiros), um adolescente de 18 anos que trabalha em um ferro-velho em São Paulo, quando seu novo chefe Luca (Rodrigo Santoro) o faz prisioneiro junto com seus colegas, os obrigando a dar longas horas a mais de trabalho.

Luca sabe onde vivem as famílias de seus trabalhadores escravizados e consegue mantê-los presos com a ameaça de destruir a única coisa com a qual todos se importam: suas famílias.

Santoro – que vive intensamente o papel – compareceu à première do filme no festival. “Estar em Veneza é uma honra”, declarou à imprensa o talentoso ator que vem consolidando, cada vez mais, uma carreira internacional.https://97748816fef276935d88fdd8b8c9fc8a.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Malheiros tem igualmente uma excelente atuação interpretando um herói simpático, inteligente e que busca uma estratégia para impressionar e se tornar o braço direito do seu chefe. Moratto, por sua vez, já havia declarado em entrevistas o desejo de trabalhar novamente com ele.

“Tivemos uma ótima colaboração em Sócrates”, elogia o diretor, que ficou motivado para fazer “7 Prisioneiros” após ter assistido a um programa na televisão sobre escravidão nos tempos atuais e tráfico de pessoas.

Fica claro que a intenção do cineasta é fazer com que os espectadores reflitam sobre a situação de pessoas que moram em regiões periféricas e precisam enfrentar duras realidades.

O filme, produção da Netflix e cujo roteiro foi escrito por Moratto e Thayná Mantesso, é um drama tenso com pinceladas de thriller e, em última análise, confirma o talento do cineasta, já mostrado em vários documentários e neste seu segundo longa-metragem de ficção.

FILMES PARA PENSAR AS AMEAÇAS DO EXTRATIVISMO

Setembro 8, 2021

Filmes para pensar as ameaças do extrativismo - Outras Palavras

De onde vêm nossa água e comida, as roupas que vestimos, os materiais de que são feitos os produtos que consumimos? O Festival de Filmes sobre o Extrativismo Global questiona essaa lógica irracional e perigosa que pode nos levar ao abismoOUTRASPALAVRASCRISE CIVILIZATÓRIApor Inês Castilho

Publicado09/2021.https://player.vimeo.com/video/592260148?dnt=1&app_id=122963&h=b2e9746217

MAIS
Festival de Filmes sobre o Extrativismo Global 2021
De 9 a 12 de setembro, online e gratuito
Programa completo

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Por Inês Castilho

Satélites, celulares, computadores, armazenamento digital, automóveis, transportes, a indústria do turismo, voos espaciais, infraestrutura, construção, medicina, energia, o complexo industrial militar, eletrodomésticos, cosméticos, alimentos, bebidas – todos os aspectos da nossa vida “moderna” e da economia global dependem do extrativismo em larga escala de minerais, combustíveis fósseis, água, árvores, plantas e animais, que são manufaturados e transformados nos bens e serviços que consumimos – e são consumidos nas intermináveis guerras e combates militares e “mudanças de regime” que ocorrem em todo o mundo.

Essa política econômica só pode ser implementada por meio da exploração “barata” da natureza, das pessoas e do trabalho. A indústria extrativista destrói o ambiente, desloca milhões de povos originários e rurais, usa enormes quantidades de energia, descarta resíduos tóxicos e poluentes, prejudica a saúde de todos os seres vivos, priva de direitos as próximas gerações e empobrece milhões de pessoas já marginalizadas – tudo em nome do “desenvolvimento”.

Para expor essa realidade, o Festival de Filmes sobre o Extrativismo Global 2021 (Global Extraction Film Festival 2021 – GEFF 2021) apresenta mais de 150 documentários, de 40 países, sobre os danos produzidos pela indústria extrativista em todo o mundo, e a resistência de comunidades a essa destruição. O festival acontece online e gratuitamente, entre 9 e 12 de setembro.

O GEFF foi lançado no ano passado pela escritora jamaicana Esther Figueroa, doutora em Sociolinguística e realizadora de vários filmes pela Vagabond Media, em parceria com o holandês Emiel Martens, doutor em Estudos de Mídia pela Universidade de Amsterdam, professor visitante no Instituto Caribenho de Mídia e Comunicação da Universidade de West Indies e criador da Caribbean Creativity.

“O festival é produzido sem qualquer financiamento, apenas com trabalho voluntário, compartilhamento de recursos, generosidade e ajuda mútua”, diz Esther.

A edição deste ano inclui quatro programas – Perspectivas globais, Olhar para as Américas, Estudos Humano-Animais e Apresentado pela Patagônia – e propõe a reflexão sobre questões essenciais à vida humana: De onde vêm a comida que consumimos, a água que bebemos, as roupas que vestimos, os materiais de que são feitos nossos instrumentos e artefatos cotidianos? De onde vem a energia que viabiliza a nossa vida, como e por quem é produzida e transportada? O que fazemos com as trilhões de toneladas de resíduos que produzimos todos os dias?

O programa principal é o Olhar para as Américas. O continente é essencial para a economia mundial – fonte de petróleo, gás, água, madeira, lítio, cobre, ouro, prata, níquel, alumínio, ferro, carvão, agricultura, pesca, turismo – e nele estão tanto países com as corporações extrativistas mais predatórias do mundo, em particular o Canadá e os EUA, como uma maioria de nações que são objeto do extrativismo brutal dessas e outras corporações. Conhecer o extrativismo nas Américas é também compreender que existem alternativas indígenas à destruição planetária e há comunidades em todo o continente que resistem há séculos e continuam protegendo e defendendo o que é essencial para a vida.

Outrora conhecido como Novo Mundo, o continente americano vem sofrendo sob o extrativismo desde o século 15. Os povos originários foram escravizados, deslocados e exterminados. Sua terra foi tomada e ocupada pelos colonizadores europeus. Árvores foram mortas e florestas, transformadas em madeira, foram exportados com ouro, prata e outros “metais preciosos” para a Europa, onde fortunas imensas se acumularam. Os africanos foram escravizados e transportados para o continente para trabalhar nas plantações, primeiro exemplo de agricultura industrial moderna. O saque e o assentamento ecocida e genocida das potências imperiais europeias permitiram o enriquecimento da Europa (e posteriormente da América do Norte) e o surgimento da Revolução Industrial, altamente intensiva em extração de recursos naturais, acelerando o Antropoceno e provocando a crise climática que vivemos hoje. O extrativismo em território americano persiste até hoje, assim como a ameaça às vidas e terras de povos indígenas.

Os organizadores do GEFF2021 programaram principalmente filmes já disponibilizados ao público, em parte porque é mais fácil para um festival que não paga pela exibição nem controla o acesso aos filmes, mas também porque os filmes podem ser assistidos quando as pessoas têm tempo pra isso. Graças à generosidade de realizadores e distribuidores comprometidos, programaram também filmes que não estão disponíveis online gratuitamente. Muitos são bem recentes, e foram liberados porque seus realizados e/ou produtores acreditam na importância do GEFF e querem que as pessoas vejam seus filmes, em particular aquelas que têm relação com os fatos e lugares onde filmaram. Esses filmes estarão disponíveis, gratuitamente, somente durante o GEFF2021, de 9 a 12 de setembro.

Entre os mais de 30 filmes exibidos com exclusividade pelo festival estão En el Nombre de Litio (Cristian Cartier e Martin Longo, 2020, 75 min), trailer aqui [https://vimeo.com/ondemand/inthenameoflithium]; Uma – La Crisis del Agua em Bolivia (Ana Llacer, 2020, 77 min), trailer aqui [https://vimeo.com/ondemand/uma]; Soldados da Borracha (Wolney Oliveira, 2019, 82 min), trailer aqui [https://vimeo.com/ondemand/rubbersoldiers]

Este ano o festival apresentará também eventos virtuais. “São hospedados por parceiros com interesses comuns, organizações e redes que também defendem a terra, as pessoas e todos os seres vivos contra a indústria extrativista”, diz Esther. Além da colaboração de pessoas em vários países, Esther e Emiel mantêm parceria com os coletivos Deep Green Resistance, London Mining Network, Asia Pacific Ecological Network, Freedom Imaginaries.

O GEFF2021 não oferece um site em português ou espanhol. Alguns filmes em língua indígena têm legendas em espanhol, outros são falados/narrados em espanhol, e grande parte deles é falado/narrado em inglês.

Aqui https://www.caribbeancreativity.nl/ você encontra a lista dos filmes de cada um dos 4 programas que integram o evento, em inglês. Abaixo do título e sinopse de cada um deles, e do link Watch (Assista), há uma observação sobre onde encontrar o filme: “disponível no YouTube”, ou em outra plataformaquando é exclusivo do festival, a observação é: “use o código GEFF2021 para ver o filme gratuitamente durante o festival”.

Programa 1: Perspectivas globais

Perspectivas Globais oferece 26 documentários e curtas-metragens focados em questões globais fortemente interrelacionadas, tais como crise climática, água, alimentos, energia, mineração, turismo excessivo e legados coloniais. Os filmes vêm principalmente da Africa, Asia, Europa e Oceania – já que as Américas têm um programa especial e são o maior foco desta edição do Festival.

Os curadores deste programa, Esther Figueroa e Emiel Martens, selecionaram filmes que tratam de questões globais a partir de uma perspectiva local, numa vasta extensão da Europa. Uma das razões é que os países da União Europeia sempre se apresentam como exemplos de boas práticas ambientais e provedores de soluções para o resto do mundo, quando na verdade existem na Europa os mesmos problemas causados pelo extrativismo em todo o mundo.

Entre os documentários apresentados estão Bright Green Lies (Mentiras Verdes Brilhantes, em tradução livre), que expõe a realidade das soluções de tecnologia “verde”, altamente destrutivas e extrativistas; Grit, que conta a história da menina Dian, de 6 anos, que junto com outros 60.000 deslocados sofreu um acidente industrial na Indonésia e tornou-se depois uma ativista política que luta por justiça; Gather e Final Straw, Food, Earth, Happiness apresentam antigas alternativas para a agricultura industrial; Sustenance e The Superfood Chain refletem sobre a comida que consumimos, sua origem e as consequências das cadeias globais de alimentos; Eating up Easter e Crowded Out: The Story of Overtourism demonstram que o turismo é uma indústria fortemente extrativista.

Os títulos e sinopses dos filmes apresentados por este programa estão aqui. https://www.caribbeancreativity.nl/events/geff2021-global-perspectives/

Programa 2: Um olhar para as Américas

Com a curadoria de Esther Figueroa e das brasileiras Larissa Santos, geógrafa, e Gina Chabes, bióloga, este programa é o mais extenso e destacado do GEFF2021. Oferece mais de 100 documentários e curtas-metragens de 30 países das Américas – da Argentina, ao Sul, ao Canadá, ao Norte, incluindo as ilhas do Caribe. Esses filmes, um misto de documentários, programas de notícias, conteúdo de YouTube e séries, estão listados primeiro como filmes regionais e depois por país, em ordem alfabética, começando com a Argentina e terminando com a Venezuela.

“Nem todos os países americanos estão representados. Para alguns, em particular no Caribe, não encontramos filmes relevantes disponíveis, para outros não conseguimos permissão para programar aqueles que queríamos”, explica Esther. “Apesar disso, o programa oferece conteúdo extenso, rico e variado sobre os impactos do extrativismo numa vasta região, assim como as muitas comunidades que estão defendendo suas terras, culturas e o futuro do planeta.”

Do Brasil há 7 filmes confirmados, já disponíveis online. São eles:

Amazônia Sociedade Anônima (Estevão Ciavatta, 2020, 71 min)

Diante do fracasso do governo brasileiro em proteger a Amazônia, índios e ribeirinhos, em uma união inédita liderada pelo Cacique Juarez Saw Munduruku, enfrentam máfias de roubo de terras e desmatamento ilegal para salvar a floresta.

Série disponível

Os Soldados da Borracha (Rubber Soldiers, Wolney Oliveira, 2019, 82 min)

Durante a Segunda Guerra Mundial, um acordo de cooperação entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos levou cerca de 60 mil brasileiros nordestinos para a região amazônica para trabalhar na extração de látex destinado à indústria americana de armamentos. Conhecidos como “Soldados da Borracha”, metade deles morreu antes de voltar para casa e muitos outros ainda esperam o reconhecimento como “heróis da pátria” e a prometida aposentadoria equivalente à dos militares.

Nove Águas (Gabriel Martins and Quilombo dos Marques, 2019, 25 min)

Em 1930, Marcos e seu grupo de descendentes de escravizados saíram do Vale do Jequitinhonha rumo ao Vale do Mucuri. Fugindo da seca, da fome e da violência no campo, os quilombolas buscavam uma novo território para construir sua comunidade. Dos tempos do desbravamento aos atuais, a história de luta por água e terra protagonizada pelos moradores do Quilombo Marques, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais.

Por trás da colina verde (Caio Ferraz & Paulo Pla, 2019, 29 min)

Apresenta a dura realidade enfrentada pelas comunidades camponesas da região do Alto Vale do Jequitinhonha – Nordeste de Minas Gerais – Brasil, diante da degradação socioambiental provocada pela implantação.

Arpilleras: Atingidas Por Barragens Bordando a Resistência (Adriane Canan, 2017, 97 min)

Conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil que, por meio de uma técnica de bordado surgida no Chile durante a ditadura militar, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. A costura, que sempre foi vista como tarefa do lar, transformou-se numa ferramenta poderosa de resistência, de denúncia e empoderamento feminino.

Sem Clima – Uma República Controlada pelo Agronegócio (Alceu Luís Castilho and Fabrício Lima, 2017, 41 min)

De Olho Nos Ruralistas lançou seu primeiro documentário: “Sem Clima – uma República controlada pelo agronegócio”. Qual a relação entre a bancada ruralista e as mudanças climáticas? Ou, pensando no Acordo de Paris: com o Congresso que temos o Brasil será capaz de cumprir o acordo? Para tentar responder a essas perguntas o observatório entrevistou, durante sete meses, parlamentares e especialistas no tema. A equipe foi até Brasília conversar com os próprios ruralistas, mas acabou expulsa da sede da Frente Parlamentar da Agropecuária, uma mansão no Lago Sul. Por quê?

Para onde foram as andorinhas? (Mari Corrêa, 2016, 22 min)

O clima está mudando, o calor aumentando. Os índios do Xingu observam os sinais que estão por toda parte. Árvores não florescem mais, o fogo se alastra queimando a floresta, cigarras não cantam mais anunciando a chuva porque o calor cozinhou seus ovos. Os frutos da roça estão se estragando antes de crescer. Ao olhar os efeitos devastadores dessas mudanças, eles se perguntam como será o futuro de seus netos.

Os outros títulos e sinopses dos filmes apresentados por este programa estão aqui.

Programa 3: Estudos Humano-Animais

Este programa especial, curado pelo Centro de Estudos Humano-Animais da Holanda (Centre for Human-Animal Studies Netherlands), recentemente criado, oferece mais de 10 documentários e curtas sobre a relação entre humanos e animais, e o impacto da indústria extrativista sobre estes últimos. Humanos são animais que dominam o planeta, decidindo quais animais têm valor, quais serão para comer, quais serão nossos amigos e inimigos, e quais serão pragas que podem ser abatidas ou extintas. Por exemplo, o documentário Artifishal – A Luta para Salvar o Salmão Selvagem mostra os efeitos devastadores das represas e das fazendas de salmão sobre a população de salmão selvagem; e o O Último Macho na Terra conta uma história de extinção.

Os títulos e sinopses dos filmes apresentados por este programa estão aqui.

Programa 4: Apresentado pela Patagônia

Esta seleção especial oferece 8 documentários e curtas produzidos pela Patagonia Filmes, mostrando casos de pessoas que lutam pela justiça ambiental e alimentar, pela proteção dos lugares e das espécies selvagens e pela busca de soluções.

Os títulos e sinopses dos filmes apresentados por este programa estão aqui.

Eventos especiais

Para acessar a programação dos eventos especiais, clique aqui.

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JEAN PIERRE CHAUVIN LANÇA ROMANCE SOBRE MUNDO DISTÓPICO

Setembro 7, 2021

Evento será hoje, 7 de setembro, com pré-lançamento do livro ‘Mil, uma distopia’ e será transmitido a partir das 19h no Instagram da Editora Luva.Por Jornal GGN O jornal de todos os Brasis -7 de setembro de 2021.

Jornal GGN – O professor Jean Pierre Chauvin, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração na ECA-USP, faz hoje, 7 de setembro, o pré-lançamento do livro ‘Mil, uma distopia’. O evento será transmitido a partir das 19h no Instagram da Editora Luva.

Esse é o primeiro volume da trilogia.

Chauvin, em 2020, recebeu o Prêmio ABERST Lúcia Machado de Almeida, na categoria narrativa curta, com o conto O Assassinato de Cláudio Manuel da Costa.

O evento contará também com a presença de Marcelo Lachat, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e responsável pelo posfácio do livro, e de Úrsula Antunes, revisora e professora com formação em Letras e especialização em História.