Samba completa 100 anos de resistência e controvérsia

Dezembro 3, 2016

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Expressão da cultura brasileira, primeiro samba registrado chega a seu centenário. História de preconceito, perseguição e resistência tem homenagem da CUT, no Brás, neste sábado.

por Gabriel Valery, da RBA

São Paulo – Enraizado na cultura popular brasileira, o samba se funde com a identidade nacional. Como sinestesia, essas cinco letras carregam significados, despertam sentidos e afloram as histórias de um povo. Rio de Janeiro e Bahia foram os nascedouros do estilo. A pioneira canção Pelo Telefone, do compositor Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos, 1890-1974), foi registrada no dia 27 de novembro de 1916. Cem anos depois, a flecha do tempo viu o samba crescer, resistir e se definir como tradição controversa.

O centenário comemorado no último domingo divide a semana com outra data importante: hoje (2), Dia Nacional do Samba. A origem deste, porém, não tem ligação com o registro da canção de Donga, como explica o professor Alberto Ikeda, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especialista em cultura popular: “A data se deve à aprovação de um documento chamado ‘Carta do Samba’, com origem em um grande congresso realizado em 1962”.

“Sambistas, membros de escolas de samba, pesquisadores, antropólogos e musicólogos se reuniram durante uma semana. No fim, foi elaborado o documento organizado pelo baiano antropólogo Édison Carneiro”, afirma. Entretanto, mesmo quase 50 anos após o surgimento do ritmo, a carta que reúne características do samba não teve ampla aceitação, especialmente de setores conservadores, que ainda o viam como algo subversivo.

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“Em 1964, deputados fluminenses propuseram a aprovação oficial do documento e que o Rio de Janeiro aprovasse o Dia do Samba. Mas isso não foi aceito nem assinado pelo governador da época, Carlos Lacerda, da UDN, partido que esteve por trás das tentativas de golpe contra governos nacionalistas e trabalhistas nas décadas de 1940, 1950 e, enfim, consumado em 1964. Ele era reacionário e não achou nada interessante. Porém, o projeto voltou para a Assembleia Legislativa que acabou conseguindo oficializara data.”

A visão de Lacerda era carregada, possivelmente, do preconceito que marcou o samba desde o início de sua história. As raízes do gênero estão entre os negros baianos que migraram para o Rio de Janeiro no fim do século 18, como explica o professor: “As origens do samba estão nos batuques africanos, depois com o remoto Lundu e, lá por 1870, surge o maxixe. Eram bailes de camadas sociais periféricas de negros. Seria como o funk ou o rap de hoje quanto a referência de grupo social”.

“A relação do samba com outras classes sociais era complicada. O ritmo era completamente mal visto, era caso de polícia. Uma roda de samba era motivo para chamar a polícia, que apreendia os instrumentos e muitas vezes detinham as pessoas, os sambistas”, afirma Ikeda. “O samba era duramente perseguido, existiam proibições: ‘Ficam proibidas as arruaças e os sambas’, diziam informes”, lembra.

A mudança gradual da visão que criminalizava o samba, de acordo com o professor, começou na década de 1930, no primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). “Getúlio, com sua visão do trabalhismo, tinha interesse em agradar as massas, e o que tinha grande penetração na população mais pobre era o samba, em especial no Rio de Janeiro. Então, começaram a organizar concursos e os desfiles a partir de 1932.”

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Professor Ikeda, especialista em cultura popular brasileira

Mas o estigma e o preconceito perduraram, como mostra a rejeição de Lacerda. “Mesmo na década de 1960, a polícia baixava em rodas de samba de jovens negros sambistas e acabavam com tudo. Socialmente, o ritmo ainda era mal visto, bem como todas as práticas negras. Vemos isso até hoje, sobretudo grupos que demonizam praticas religiosas negras. Ainda existe perseguição, agora mais religiosa. Na época, as elites tinham medo do ‘feitiço’ dos negros, então eles reprimiam”, diz Ikeda.

Canção de denúncia

Para comemorar os 100 anos do samba, a CUT São Paulo vai realizar uma roda no sábado (3). A festa reunirá grupos de diversas comunidades que estudam e praticam a música no saguão da sede da central, na Rua Caetano Pinto, 575, Brás, região central da cidade de São Paulo, das 14h às 17h. O evento será transmitido ao vivo pela Rádio Brasil Atual na FM 98,9 (Grande São Paulo), 93,3 (litoral paulista) e 92,7 (noroeste paulista).

A ligação do ritmo com classes sociais periféricas e um passado ligado ao trabalhismo estimulou a entidade a realizar o evento. “O samba, além de fazer parte da história da formação da classe operária, traz a reflexão sobre a exclusão da população negra na formação de nossa cultura e sociedade. Hoje, o samba é celebrado, porém nem sempre foi assim. No passado, quem gostava e fazia samba era criminalizado e perseguido”, diz o presidente da CUT São Paulo, Douglas Izzo.

De fato, de acordo com o professor Ikeda, a resistência foi ponto central do estilo. “O samba mais tradicional, com a presença de negros baianos, sempre foi retrato da sociedade que o produz. Era muito comum os sambistas falarem de problemas, dificuldades e mazelas vividas por esses grupos”, afirma.

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Donga, compositor de ‘Pelo telefone’

“Mesmo o dito primeiro samba Pelo Telefone, embora não exista a certeza, a letra original dizia: ‘O chefe de polícia/ Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca tem uma roleta para se jogar’. O fato de existir na época um texto como esse revela uma denúncia. É algo que vemos hoje no Brasil, autoridades públicas levando grana em função de benefício pessoal relacionado com algum malfeito”, afirma o professor, que classifica esse primeiro samba registrado como “um documento de denúncia de uma autoridade levando propina para autorizar o jogo no Largo da Carioca (centro do Rio de Janeiro). Um documento histórico.”

Samba e consumo

“As características do samba foram mudaram, especialmente ao longo da década de 1960, quando as escolas de samba se transformaram na grande referência da cultura brasileira”, afirma Ikeda. Tais mudanças, para o professor, acabaram transformando o ritmo em algo controverso, especialmente com a cultura do consumo abraçando o estilo. “De forma genérica, o samba ainda é um instrumento de socialização, de referência de grupos sociais manos favorecidos, mas o samba do carnaval, do desfile, é completamente segregado.”

“Os poucos negros que estão nos desfiles do carnaval ali estão por competência técnica, como bateria, mestre sala e porta bandeira, ritmista e ala das baianas. Mas no geral, os desfiles estão destinados para quem tem grana para pagar uma fantasia de mil reais. E não é a população pobre negra que tem o dinheiro. Você também encontra os negros empurrando carros alegóricos para o brilho das madames que ficam lá em cima”, critica Ikeda.

Mesmo o sentimento de orgulho brasileiro pela expressão do samba como forma artística unificada não é uma realidade completa. “O samba se tornou referência nacional e se generalizou, espalhou por interferência de interesses de meios de comunicação, do dinheiro e da política. Mesmo o local, o ritmo não é nacional. Ceará, Rio Grande do Sul, Mato Grosso não tinham isso. Isso vem dos meios de comunicação e houve influência e ingerência política para que isso acontecesse”, afirma.

Alimento espiritual

A lógica do lucro que rege os desfiles de escolas de samba, ou como Ikeda chama “o carnaval confinado”, acabou por “afastar os negros de sua própria expressão cultural no processo de inserção da expressão como referência da cultura brasileira”. Contudo, o professor pondera que nas ruas, nos blocos, a natureza do samba ainda vive.

“É fundamental que o samba de raiz, o partido alto, o pagode, praticados nos bares, nas esquinas, trazem a sensação de se sentir irmanado com pessoas da mesma comunidade. Essas expressões estabelecem uma comunicabilidade e sociabilidade horizontal entre pessoas de uma geração e, sobretudo, estabelece uma hierarquia na linha do tempo. O samba rememora os pais e você localiza o indivíduo em um espaço social, lincando o homem e seu passado. Essa é a importância da tradição no contemporâneo, o alimento espiritual que situa o indivíduo no tempo social, com uma identidade cultural geracional”, afirma o professor.

“O samba tem a importância da tradição no contemporâneo, o alimento espiritual que situa o indivíduo no tempo social, com uma identidade cultural geracional”, afirma Ikeda

O outro lado do carnaval

A lógica do capital, e “trazer o samba estritamente para o lado comercial do lucro, exclui a possibilidade de alimento espiritual”, diz Ikeda. “Por exemplo, alguns anos atrás, uma escola de samba do Rio de Janeiro, ao ver o tempo de desfile estourando, fechou o portão antecipadamente, impedindo a velha guarda de fora. Isso é uma ofensa moral e ética. Excluir a origem é uma afronta de uma imoralidade absoluta. Mas vale tudo para ganhar”, lembra.

Pelo outro lado, está o que Ikeda chama de “reação ao gigantismo” do carnaval confinado: os blocos de rua. “Os blocos são a própria origem. A retomada disso é importante pois questiona o modelo de que para participar do carnaval é preciso pagar, o modelo da expressão do luxo estético. O carnaval de rua é interessante pois recupera a sociabilidade do espaço público.” Ikeda apenas lamenta o fato de que o recrudescimento deste modelo não vem das classes populares negras periféricas. “Infelizmente as iniciativas não partiram dos sambistas originais, mas de grupos intelectualizados de formação universitária que ganharam uma visão crítica”, conclui.

‘Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais’: retrato dos dramas e esperanças de refugiados

Dezembro 2, 2016

Longa-metragem conta a história de seis pessoas de diferentes partes do mundo que foram forçadas a deixar suas casas para reconstruir suas vidas sob novas e desafiadoras circunstâncias.

por Xandra Stefanel, especial para RBA

Segundo a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), uma em cada três pessoas no planeta é solicitante de refúgio, deslocada interna ou refugiada. Pela primeira vez na história, o número de deslocamentos forçados ultrapassou os 60 milhões de pessoas e chegou à marca de 65,3 milhões, de acordo com o relatório Tendências Globais.

Para dar cara e vida à essas histórias, o cineasta Hank Levine decidiu fazer um documentário que acompanha a trajetória de seis pessoas de diferentes partes do mundo que tiveram de abandonar seus lares e tentar recomeçar a vida em outra cidade ou país. Produzido por Fernando Meirelles, Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 1° de dezembro.

O longa-metragem começa com impressionantes cenas no deserto do Saara: crianças gritam por direitos humanos na caçamba de um caminhão e uma multidão forma na imensidão arenosa um gigantesco apelo por liberdade ao som da narração de Wagner Moura: “Eu não sei onde estou indo, sei que ainda não cheguei. Os campos, as marchas, a espera constante, a caminhada sem parada. Uma vida pausada. Uma língua estrangeira, uma angústia estrangeira. Tudo o que deixei para trás: lembranças de sementes de esperança, o cheiro de casa e o próprio sentido. O medo de ser esquecido, o medo de ser temido, a distância de casa,” anuncia a abertura.

Durante dois anos, a equipe acompanhou os protagonistas, que contam suas histórias em primeira pessoa: a ativista política Napuli foi obrigada a deixar o Sudão do Sul e ir para a Alemanha, onde luta por seus direitos e contra a saudade da família. Tarcha nasceu no Saara Ocidental e teve de fugir para a Argélia em 1975 devido à invasão do Marrocos, e vive desde então em campos de refugiados. Dana, nascida na Síria, chegou ao Brasil e está desesperada para poder reunir sua família no Canadá. O jovem sírio-palestino Nizar veio para o Brasil, encontrou o irmão em Cuba e seguiu para a Europa, onde espera receber refúgio e reunir a família. Bruno, de Togo, ficou nove anos em campos na Alemanha, até ser finalmente legalizado e passar a lutar pelos direitos de refugiados. Lahtow e Mahka, de Kachin, em Mianmar, tiveram de abandonar suas casas por causa de conflitos militares.

Não há no filme discussões sobre a legalidade ou ilegalidade de cruzar fronteiras e permanecer. O que ficam evidentes são as problemáticas que obrigam as pessoas a deixarem tudo para trás para começar – muitas vezes do zero – uma nova vida. “Eu fui presa e torturada durante quatro dias. Saí e escapei para Uganda em abril de 2011, depois da separação [de Sudão do Sul]. Em 2012, eu vim para a Alemanha e não tinha ideia de que eu pediria asilo. Eu achei um jeito de vir para cá e pensei: ‘Ok, já estou aqui. Agora eu preciso dar continuidade aos meus sonhos, estudar, terminar a universidade – eu estudei Artes e Desenvolvimento em Uganda e no Sudão. Mas não tinha como, havia bloqueios em todos os lugares: sem estudo, sem trabalho, sem nada. Eu não posso alugar uma casa, eu não posso fazer nada. Então, o único jeito de ficar aqui é pedir asilo”, afirma Napuli.

Segundo o filme, as leis alemãs determinam que a maioria das pessoas que pedem asilo vivam em campos até que seus status sejam determinados. Enquanto esperam pela sorte, eles são proibidos de procurar trabalho e têm a liberdade de movimento severamente restrita. Bruno Watara passou sete anos em um campo de refugiados em Crivitz enquanto esperava a resposta para seu pedido de asilo. “Em algumas noites, não conseguíamos dormir e tínhamos de tomar soníferos, mas às vezes nem isso funcionava. Você fica na cama o dia inteiro e não consegue dormir. E durante o dia, o que poderíamos fazer? […] Poderia dizer que eles roubaram sete anos da minha vida”, afirma o togolês que hoje faz parte do Conselho de Refugiados de Berlim-Brandemburgo.

Para os deslocados e refugiados, muitas vezes, a única coisa que sobra, além da imobilidade forçada e do silêncio, é a esperança de poder recomeçar sua caminhada em paz e sem sofrer preconceito. Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais faz um apelo poético por dignidade e respeito para essas pessoas que já viveram tantas situações complexas: “De onde estou agora, posso ver a casa que deixei. Milhas acumuladas atrás de mim e muros em minha frente. A casa ainda vive dentro de mim, é música para meus ouvidos, é ar na minha pele, é paz nos meus sonhos. Eu vou construí-la de novo. Mas onde? Fora do fogo e no frio, eu começo a mais longa jornada. Milhas à frente antes que eu esteja livre. Milhas à frente antes que eu esteja em casa”, resume a narração.

Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais
Direção e roteiro: Hank Levine
Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro, Bel Berlinck, Fernando Sapelli, Hank Levine
Narração: Wagner Moura, Jule Böwe
Distribuição: O2 Play
País: Brasil, Alemanha
Gênero: Documentário
Duração: 105 minutos
Ano: 2016

“Na morte de Fidel” – um poema

Novembro 30, 2016

 

“É urgente um verso vermelho | que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação | azeite puro em manivelas de razão quente”

Por Boaventura de Sousa Santos*, no blog Outras Palavras

É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno

É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo

É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções

É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem

É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
dos sistemas de irrigação industrial da alma

É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem

É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação

É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria

É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais

*Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa – todos da Universidade de Coimbra.

SONS DA REVOLUÇÃO CUBANA.

Novembro 27, 2016

Y en eso llego Fidel, de Carlos Puebla

Novembro 26, 2016

Documentário “Raízes” faz busca pela ancestralidade negra brasileira

Novembro 24, 2016

Cena em que aparece Kelton, personagem que busca seus ancestrais  - Créditos: Reprodução

Filme que tem lançamento previsto para 2017 denuncia o apagamento da história dos negros no Brasil

Teti: o movimento musical Pessoal do Ceará foi revolucionário

Novembro 23, 2016

A cantora Teti afirmou que se sente felicíssima cada vez que vê surgir uma nova geração de compositores, intérpretes e músicos cearenses. “Eu me sinto mãe e irmã. Irmã da minha geração e mãe de todas gerações que vieram depois da nossa”, afirmou a artista cearense. “Fui uma das pessoas que abriram essa trilha pra música aqui no Ceará, as coisas estão acontecendo e acho que vão acontecer ainda mais”, frisou Teti. Para ela “os estudantes, os universitários têm um papel maravilhoso nessa história de mudar, de fazer esse movimento, de mudar esse Brasil, que tem que ser mudado e a força vem de vocês, jovens, com certeza”.

Dia da Consciência Negra tem teatro, cinema e exposição em São Paulo

Novembro 18, 2016
Nesta semana, capital paulista sedia apresentações de dança e capoeira, peça sobre identidade cultural do brasileiro e mostra sobre o artista e militante Abdias do Nascimento
por Redação RBA
São Paulo – O feriado de 20 de novembro é dia de luta para o movimento negro. Em São Paulo, algumas das mobilizações são artísticas e propõem reflexões sobre a questão racial. Uma delas é a mostra de cinema Pérola Negra – Ruth de Souza, que exibe até o próximo dia 28 no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) filmes em homenagem à atriz que completou 70 anos de carreira em 2015. Estão programados filmes e programas de TV que contam a história da primeira atriz brasileira que recebeu uma indicação em um festival internacional. Entre os filmes selecionados estão Osso, Amor e Papagaios,Candinho, Quem Matou Anabela, O Assalto ao Trem Pagador e Sinhá Moça, entre outros. A mostra também promove debates sobre o encontro entre Ruth e Carolina de Jesus e sobre o negro no cinema brasileiro. A programação completa pode ser conferida no site do CCBB-SP.

O Instituto Itaú Cultural sedia até 15 de janeiro a Ocupação Abdias Nascimento em homenagem ao poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico e militante que dedicou toda sua carreira ao combate à discriminação. A exposição reúne documentos históricos, pinturas, fotografias, vídeos, entrevistas, leituras dramáticas e outros materiais que resgatam a trajetória de Abdias nas várias áreas nas quais atuou. Entrada gratuita de terça a sexta-feira, das 9h às 20h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h, na Avenida Paulista, 149.

No domingo (20), o Teatro do Incêndio (Rua 13 de Maio, 53, na Bela Vista) será ocupado por manifestações culturais e apresentações artísticas e de resistência. As atividades começam às 15h com apresentação de capoeira seguida de maculelê. Às 16h, o corpo artístico do Ilê Asé Yá Oju Omim apresenta o espetáculo de dança de orixás Oba Ti Àlà.

As celebrações terminam com a apresentação do espetáculo O Santo Dialético, de Marcelo Marcus Fonseca, às 19h. A peça do grupo Teatro do Incêndio discute a perda da identidade cultural do brasileiro e explora sua formação pelo estudo de nossas raízes. A montagem faz parte do projeto “A Teoria do Brasil”, na qual o grupo investiga os vestígios da essência ancestral do brasileiro por meio de pessoas que, vivendo em São Paulo, perderam o contato com suas origens. Os ingressos são contribuições voluntárias.

Consuelo de Paula: produção independente valoriza a cultura popular

Novembro 15, 2016
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“Precisamos de todas as expressões artísticas”, diz a cantora. Do pop, toada, do samba, “de outras que vêm do barro do chão, dos rios, das montanhas, do pólen, da pedra, do asfalto, outras do pó”
por Vitor Nuzzi, da RBA
São Paulo – “Canto como quem tenta apenas transmitir poesia enquanto baila entre a aparente imobilidade e o invisível voo”, diz Consuelo de Paula, nascida em 1962 na Rua 7 de Setembro, na pequena Pratápolis, sudoeste de Minas Gerais. Desde sempre, artista inquieta. “Queria loucamente fazer qualquer coisa que fosse próxima à vida que levo hoje: fazia canções, cantava, inventava peças de teatro, tocava instrumentos de percussão, tocava violão e dançava! Ouvia com paixão os congados, os moçambiques, as folias, o carnavais, as serenatas, os LPs da minha avó e dos meus pais…”, conta.

Antes que a música se tornasse o verdadeiro ofício, Consuelo foi estudar Farmácia na Universidade Federal de Ouro Preto. “Cantei na Casa da Ópera de lá e foi incrível” recorda. O primeiro violão, ela ganhou dos pais, aos 13 anos. “Nunca mais me separei dele. Nunca foi meu instrumento principal – minha voz é meu instrumento –, mas me ajudou muito a construir o meu universo de expressão.”

Da cidade histórica mineira, ela seguiu em 1988 para São Paulo, onde, como diz, começou a preparar a sua obra e a construir sua história, que hoje já tem seis CDs, um DVD e um livro (A Poesia dos Descuidos, 2011). “Eu me lembro que fiquei meio perdida quando saí de Ouro Preto e só voltei a me sentir bem em São Paulo”, diz. “Intuitivamente eu soube que aqui teria condições para desenvolver a minha arte.”

Cecília e Adoniran

O primeiro disco, Samba, Seresta & Baião, é de 1998, exatamente dez anos depois de chegar e se instalar em São Paulo. O trabalho mais recente é O Tempo e o Branco, lançado em 2015. Com muitas melodias de Rubens Nogueira, o Rubão (o parceiro mais constante de Consuelo morreu em 2012), arranjos de Toninho Ferragutti (acordeon) e de Neymar Dias (violão e viola caipira), o álbum tem a presença permanente de Cecília Meireles, que inspirou várias canções, como Revoada, que abre o CD (“Minha mão espera seus pássaros/ Uns pousam, outros passam”).

No show que lançou o disco, no ano passado, Consuelo surpreendeu ao apresentar uma “parceria” com Adoniran Barbosa. Era um melodia de 1934, dele e do músico Copinha. A cantora recebeu de um admirador um link com participação de Copinha no programa Ensaio, da TV Cultura. A melodia ganhou letra, escrita quase de imediato – e o nome de Valsa para Mathilde, nome da companheira de Adoniran por décadas. “Amor, quando eu partir, ouça a canção que eu lhe fiz/A flor que prometi, a minha mão, os bem-te-vis/Nossa paixão, a nossa casa, o céu do meu país/O som da valsa, a vida que eu quis/ Teu nome, o nosso tempo mais feliz (…)”

Consuelo ouve de tudo, a raiz, o profundo. “Se formos falar do que a grande mídia divulga, não estaremos falando da realidade. Claro que esta divulgação tendenciosa acaba influenciando a realidade, mas o que noto em minha experiência é que sabemos, sim, quais são os nossos sons. O Brasil sabe, o brasileiro sabe, principalmente em sua mais essencial emoção, em sua pele, em suas células. E na produção musical independente você percebe fortemente isso.”

O que não significa negar influências, das mais diversas. “Mesmo num som que sofre forte influência do mundo – e influências naturais são sempre bem-vindas, e as “influências naturais” não resultam de apenas um país ou de apenas um ritmo, pressupõe-se que podem vir de múltiplos povos, de infinitas convivências –, é o nosso som, é a forma de expressão daquele artista, com a história dele, com a alma dele, com o corpo dele. Isso se for uma expressão de arte.”

Arte e mercado

Mas é preciso ouvir e ouvir, pondera a cantora. “A música veiculada pela grande mídia tem outros objetivos e na maioria das vezes não vemos influências, mas sim imitações. Não estou dizendo que não pode haver música de arte sendo veiculada nos grandes meios de comunicação, mas geralmente as grandes gravadoras estragam o que poderia ser realmente verdadeiro, transformador e transcendente. Acho que existem motivos políticos e não só econômicos.”

Para ela, o objetivo do mercado não é a arte. “Estou no Brasil, seria natural ouvir nas rádios e televisões pelo menos mais de 50% de canções brasileiras de milhares de artistas, músicas distintas com suas organicidades e estranhezas. E cada artista com sua respiração particular, com seus silêncios e pausas, cada um com seu ritmo, com sua poesia. Quem precisa ouvir música, quem se alimenta com arte musical, tem que descobrir as produções independentes. Por isso é importante que a gente se preocupe com a possibilidade de continuar existindo a produção independente. O mundo não precisa de todas as espécies de aves? Quando alguma destas aves é ameaçada de extinção, choramos. Pois então, precisamos de todas as expressões artísticas: daquelas que vêm dos mistérios das toadas, de outras que vêm do universo do samba, das expressões que respiram como na música pop, de outras que vêm do barro do chão, outras dos rios, outras das montanhas, outras do pólen, outras da pedra, outras do asfalto, outras do pó, outras de tudo isso, outras do nada.”

Pesquisadora, Consuelo de Paula enfatiza a diversidade, “que demostra nossa criatividade em produzir canções contemporâneas e surpreendentes, quando nos inspiramos em nossas vivências ou quando sofremos influências naturais da música do mundo”. E a expressão poética, diz, só se dá por necessidade, quando precisa vir. “Se houver outro objetivo, essa senhora exigente chamada arte retira-se.”

Também é preciso ganhar estrada para ver e ouvir arte. “Cresci vendo congos e moçambiques passando nas ruas da minha cidade natal. Depois, assim que cheguei a São Paulo, fui assistir a muitas festas populares, participei do grupo Abaçaí, do grande Toninho Macedo (Antonio Teixeira de Macedo Neto, atual diretor cultural da organização social). E até hoje, pelo menos três vezes ao ano, vou a festas populares. Da mesma forma que amo frequentar rodas de samba, rodas de choro. Da mesma forma que frequento shows dos meus colegas de ofício. Enfim, amo música e naturalmente, amo a música brasileira.”

Esse amor se direciona tanto à cultura popular como àquela que nela se inspira. “A nossa música rural ou urbana, do interior ou dos grandes centros, tem sua essência em algum raminho da música de nossa cultura popular. Adoro a nossa música urbana que traz em sua alma os rastros e os perfumes da nossa paisagem, mesmo quando o resultado é totalmente contrastante”, diz Consuelo.

E é por isso que ela vive, canta, escreve e trabalha, afirma. “Faço parte de uma geração que produz mesmo quando o mundo diz não. Poderíamos ter feito mais e melhor, mas os dias eram e são assim. Continuaremos criando, pois é nosso ofício neste mundo. Ser artista hoje é como remar contra a maré, mas é também um ofício que nos dá muito prazer e força, um ofício que nos provoca a vontade de recomeçar a cada nova canção…”

Documentário ‘Lute como uma Menina’ celebra novas energias em movimento

Novembro 13, 2016
Lute
Produtores antecipam acesso ao filme para estimular luta estudantil em defesa da educação. Trabalho retrata ocupações em São Paulo, no ano passado, e destaca papel da energia feminina no movimento.
por Redação RBA
São Paulo – O movimento que abalou São Paulo em 2015 é a inspiração do documentário Lute como uma Menina, concluído no início deste ano e agora disponível no Youtube. O ativismo autônomo dos secundaristas, não ligados a organizações tradicionais, obrigou o estado a recuar da imposição de um projeto de “reorganização” que implicaria fechamento de centenas de salas de aula e levou à queda de um secretário da Educação.

Iniciadas em 9 de novembro de 2015 – nas escolas estaduais Diadema, no ABC Paulista, e Fernão Dias, na zona oeste da capital –, as ocupações que alcançariam mais de 200 escolas públicas tiveram como particularidade a força das jovens secundaristas, que despertaram atenções para um feminismo rejuvenescido. A energia do movimento e das jovens mulheres que o protagonizaram são a matérias-prima do filme produzido por Beatriz Alonso e Flávio Colombini.

Com 76 minutos, o filme apresenta a experiência de suas organizações internas, o enfrentamento das autoridades e da violência policial, a luta pela autogestão, o amadurecimento político, intelectual e cultural e o sonho de milhares de pessoas que nunca haviam participado de nenhum tipo de mobilização de que é possível construir um país melhor – e agir por ele. Lute como uma Menina deve funcionar como ferramenta de reflexão e também de estímulo às novas lutas estudantis, segundo seus idealizadores, a exemplo de Acabou a Paz – Isso aqui vai virar o Chile, de Carlos Pronzato.

“Tínhamos planos de lançar o filme em festivais, pois seria também uma possibilidade de levar a luta para outros estados e outros setores da sociedade. Mas percebemos que se trata de um circuito meio fechado, difícil de ser penetrado. Então resolvemos antecipar as exibições e a exposição no Youtube para que possamos contribuir com esse momento de efervescência”, diz Beatriz. “Acho que não teríamos espaço no circuito convencional embora ainda tenhamos esperança de lançar ao menos no Netflix. “Assim como os secundaristas foram inspirados por um documentário sobre a rebelião pinguina, no Chile, esperamos poder inspirar muita luta. Inclusive ele está sendo legendado em inglês e espanhol. Enfim, fizemos esse documentário pra ser visto.”

As exibições, seguidas de debates, já vêm acontecendo há várias semanas. As próximas, neste mês, estão marcadas para dia 17 na Unifesp da Barra Funda e dia 24 em Paraty, no Cine Mulher. “Já exibimos na Federal do ABC (UFABC), no Instituto Federal de São Paulo, na Biblioteca Mario de Andrade, centro da capital, em Caraguatatuba, Guarulhos, em ocupações. Em uma ocasião, uma menina veio nos cumprimentar chorando muito, dizendo que se sentiu muito representada como feminista, que o filme é muito inspirador e a fez sentir mais forte. Foi emocionante ouvir isso”, conta a produtora.

Assista aqui


Direção: Flávio Colombini e Beatriz Alonso
Este filme só foi possível devido à colaboração especial do cinegrafista Caio Castor, dos Jornalistas Livres, e de muitos outros cinegrafistas e fotógrafos que documentaram a luta secundarista. Imagens (Danilo Ramos) e reportagens da RBA são usadas no filme