BRASIL DE FATO: FESTIVAL HONK! RIO LEVA ATIVIDADES CULTURAIS GRATUITAS PARA OS CARIOCAS

Novembro 15, 2018

FESTIVAL

Evento ocorre até domingo (18) em diferentes pontos da cidade do Rio de Janeiro

Jaqueline Deister

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Nesta edição, cerca de 100 artistas irão se apresentar no BLoka, uma das atrações do Honk!Rio - Créditos: Foto: divulgação Honk!Rio
Nesta edição, cerca de 100 artistas irão se apresentar no BLoka, uma das atrações do Honk!Rio / Foto: divulgação Honk!Rio

As ruas do Rio de Janeiro estarão ocupadas até domingo (18)  com shows, oficinas, workshops e debates fora do eixo centro-sul da cidade. O Honk!Rio chega em sua quarta edição trazendo o espírito comunitário, colaborativo e autônomo do universo dos artistas para os espaços públicos dos cariocas.

O Honk! surgiu na cidade de Boston, nos Estados Unidos, em 2006 e logo se espalhou para outros países, chegando ao Brasil em 2015. Durante os quatro anos de evento, os organizadores calculam que mais de 30 mil transitaram pelo festival.

Uma das atrações desta edição será o BLoka, uma reunião de mulheres que pertencem a diferentes grupos artísticos e musicais do Rio,  Minas Gerais, Distrito Federal e até mesmo da França que realizarão um ato político-cultural que tem a arte como o principal instrumento para reverberar a voz contra qualquer forma de censura e opressão.

Luane Aires é produtora do festival e uma das organizadoras da BLoka. Ela explica que a ideia de fazer um bloco diverso que reúne mulheres de diferentes grupos musicais surge como uma demanda de muitas artistas que acabam não tendo tanta visibilidade em seus coletivos culturais.

“As mulheres musicistas de rua têm dificuldade de ter espaço de fala com os seus instrumentos dentro do ambiente musical e quando nós estamos entre nós mesmas, isso não existe. Ninguém fala mais alto do que ninguém, tentamos nos ouvir. Há uma igualdade e também conforto. Tem a questão de visibilidade e representatividade das mulheres nos grupos também”, destacou.

Nesta edição, cerca de 100 artistas irão se apresentar no BLoka. A maioria do grupo é composta por mulheres que tocam diferentes instrumentos musicais, mas parte do coletivo também reúne pernaltas e poetisas que participam do Slam das Minas no Rio de Janeiro.

Thatiana Verthein é flautista do grupo Sinfônica Ambulante e idealizou uma das paródias musicais que o BLoka irá tocar nesta quinta-feira (15). A artista, que fez a releitura da tradicional canção Deus Lhe Pague de Chico Buarque, conta que a maioria das músicas que serão executadas no show terá um grito de guerra feminista contra a opressão.

“Eu trabalhei a parodia numa perspectiva feminista do corpo, de séculos de opressão, de controle, da dificuldade das mulheres em se colocar nos espaços por conta das amarras e mordaças que nos são impostas ao longo dos anos”, disse a flautista.

A apresentação do BLoka ocorre nesta quinta-feira (15), a partir das 16h, na Cinelândia, no centro do Rio. Toda a programação do festival Honk!Rio com os locais e dias das atrações pode ser conferida na página do evento no Facebook. 

 

Edição: Mariana Pitasse

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BRASIL DE FATO: DICA PARA O FERIADO: MOSTRA “ARPILLERAS: BORDANDO A RESISTÊNCIA” EM CARTAZ NO RIO

Novembro 15, 2018

ARTE

A exposição traz as diferentes formas de violação ou negação de direitos que afetam a vida das atingidas por barragens

Guilherme Weimann

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

AS 20 peças que compõe a mostra passaram por uma curadoria minuciosa do Coletivo de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) - Créditos: Guilherme Weimann
AS 20 peças que compõe a mostra passaram por uma curadoria minuciosa do Coletivo de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) / Guilherme Weimann

Linhas coloridas e tecidos estampados podem esconder à primeira vista todas as problemáticas que envolvem cada uma das arpilleras, apesar de algumas serem bastante explícitas em relação ao seu conteúdo. As 20 peças que compõe a exposição “Arpilleras: bordando a resistência”, que está no Centro Cultural da Justiça Federal, passaram por uma curadoria minuciosa do Coletivo de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Além do cuidado em relação à diversidade regional, houve também uma preocupação de selecionar obras que conseguissem abarcar as diversas formas de violação e negação dos direitos das mulheres atingidas por barragens constatadas nos últimos anos. No ano de 2010, por exemplo, o Estado brasileiro reconheceu formalmente no relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana que 16 direitos humanos são violados sistematicamente na construção de barragens.

De acordo com Daiane Hohn, integrante do Coletivo de Mulheres do MAB, dentro desse universo de abuso institucional contra as populações atingidas, as mulheres são as principais vítimas. “Existe um debate que vem sendo construído há muitos anos, que constatou e elaborou as especificidades das violências sofridas pelas mulheres atingidas; as arpilleras entraram justamente nesse processo, corroborando pontos já destacados e também jogando luz sobre novos elementos”.

Nesta exposição foram escolhidas 20 peças divididas em seis eixos temáticos/ Foto: Guilherme Weimann

Consolidadas na experiência de mulheres chilenas que se utilizaram da costura como forma de denúncia contra a ditadura militar no país [1973-1990], as arpilleras chegaram ao Brasil em 2013 e se transformou em uma ferramenta de educação popular e auto-organização feminista dentro das regiões afetadas pela construção de barragens. Desde então, já foram confeccionadas cerca de 100 peças, que envolveram aproximadamente 900 mulheres atingidas.

Nessa exposição, que já esteve no final de 2015 no Memorial da América Latina em São Paulo, foram escolhidas 20 peças divididas em seis eixos temáticos. Confira abaixo a explicação de cada um deles:

Eixo 1: Mundo do trabalho

Muitas mulheres atingidas por barragens mantém trabalhos informais, sem registro, o que gera uma invisibilização e negação de seus direitos. Muitas delas são as responsáveis pelas tarefas domésticas ou por manter a roça familiar. Com a chegada das obras, muitas empresas não reconhecem esses trabalhos e acabam negando o direito à justa indenização.

Eixo 2: Participação política e relação com as empresas

Geralmente, as empresas adotam um conceito patrimonialista de “atingido”. Por isso, reconhecem apenas os que têm a posse legal da terra para meios de reparação. Como na maioria dos casos as terras ou casas estão no nome dos homens, às mulheres é negado o direito ao reassentamento ou indenização. Além disso, elas enfrentam uma resistência dentro da própria organização em nível local, devido ao machismo que também assola as populações atingidas. As arpilleras estão funcionando como uma potente ferramenta de auto-organização.

Eixo 3: Água e energia

No atual modelo energético, a água e a energia se tornaram mercadorias, que geram lucros extraordinários para as empresas e prejuízo para os cidadãos. No Brasil, a principal fonte de geração de eletricidade é hídrica, que é a mais barata. Entretanto, os/as consumidores/as brasileiros/as pagam uma das tarifas mais caras do mundo. Além disso, os direitos das populações atingidas são tratados pelas empresas como custos que devem ser reduzidos.

Eixo 4: Quebra dos laços comunitários e familiares

Com o deslocamento forçado de milhares de pessoas, os laços comunitários e afetivos são muitas vezes prejudicados ou rompidos. Vizinhos são separados por quilômetros e famílias são espalhadas entre diversas localidades. Além disso, toda a identidade da comunidade e das casas é dizimada por reassentamentos que, na maioria das vezes, são pré-fabricados pela empresa.

Eixo 5: Violência contra às mulheres e Prostituição

Com a ida de um enorme contingente de mão de obra, na sua grande maioria constituída por homens, os municípios que sediam as obras são afetados por um aumento exponencial no número de casos de violência contra a mulher, pedofilia e prostituição. De acordo com relatório da Plataforma DHESCA (2011), no município de Jaci Paraná (RO), onde está situado o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Jirau, os casos de estupros aumentaram em 200% desde o início das obras.

Eixo 6: Acesso a políticas públicas e Direitos básicos

Com a explosão demográfica decorrente da mão de obra que se desloca para trabalhar na construção das barragens, os já deficientes serviços públicos se tornam ainda mais escassos. Educação, saúde e segurança pública são alguns dos direitos que são prejudicados devido ao aumento populacional nos municípios que sediam as barragens.

 A mostra já esteve em cartaz, no final de 2015, no Memorial da América Latina em São Paulo/ Foto: Guilherme Weimann

Programação

As obras ficarão expostas no CCJF até o dia 2 de dezembro, das 12h às 19h – exceto as segundas-feiras. As visitações de grupos poderão ser agendadas anteriormente, de acordo com a disponibilidade das facilitadoras. Ademais, serão ministradas oficinas e rodas de conversa nas quais as atingidas ensinarão a técnica de confecção das arpilleras ao público interessado.

Haverá também, às 18 horas dos dias 29 de novembro e 1 de dezembro, duas exibições do documentário “Arpilleras: atingidas por barragens bordando a resistência”, que conta as histórias de dez mulheres atingidas por barragens de cinco regiões do Brasil. O longa-metragem foi premiado como melhor documentário no 44º Festival Sesc Melhores Filmes.

Edição: Mariana Pitasse

PORTAL FÓRUM: A OBRA DE DÉRCIO MARQUES POR DANI LASALVIA, CAO ALVES E JOÃO OMAR

Novembro 14, 2018

Há algo além na maneira de tocar e cantar estas canções. Uma entrega emocional rara a cada nota, uma certeza tamanha de estarem, cada um dos três, lidando com coisas eternas e intensas

Dércio Marques. Foto: Divulgação

O disco “Recantos – Ao apanhador de cantigas” é um projeto de uma vida inteira. De três vidas – a cantora Dani Lasalvia e os cantores, multi-instrumentistas e compositores Cao Alves e João Omar – que se unem para homenagear um terceiro, o bardo, compositor e apanhador de cantigas Dércio Marques.

Sobre Dércio, escrevi certa vez, lá se vão mais de 20 anos, um pequeno texto que, para meu orgulho, foi usado pelo artista na página inicial de seu primeiro site, como forma de apresentação:

Dércio Marques é uma lenda para poucos. Acerta em cheio. É um dos artistas mais inusitados deste país tão criativo. Viaja por todo o canto onde houver um canto para aprender ou mostrar. É uma verdadeira enciclopédia viva da cultura popular brasileira. Quando resolve gravar, chama todos os amigos que estiverem ao alcance, incluindo aí as crianças e os passarinhos.

Faz festas do povo e com o povo, não simplesmente discos. É um trovador errante, com uma visão própria de construção de carreira. Não tem nenhum sucesso de rádio ou televisão. Mas lá se vão muitos anos deste mundão de Meu Deus que ele funciona como um pulmão que ajuda a soprar canções direto de sua nascente. Tem uma voz belíssima que sempre se soma às festas e reisados. Canta com a nossa voz, a voz da nossa gente.

Junto com Dércio, conheci na época vários músicos que viajavam com ele. Aos mais afeitos a grupos musicais ou bandas organizadas, é difícil explicar do que se tratava. Era um bando de amigos que dormiam nas casas de outros amigos por onde passavam. Tocavam nas condições mais adversas e, quando isso acontecia, reproduziam algumas das melodias, interpretações, folguedos e canções mais maravilhosas que esta minha vida repleta de discos e canções já ouviu.

Um desses músicos é o Cao Alves, baiano de Vitória da Conquista, terra de Elomar Figueira Mello, mestre do violão, excelente cantor e compositor, pesquisador das nossas tradições populares, enfim, um artista completo. Aquele tempo de cantorias e viagens nos aproximou pro resto de nossas vidas.

Cao Alvez e João Omar. Foto: Divugação

Um que chegou em seguida foi o João Omar. Este só vi em palcos e concertos. Menino prodígio, carregava até então o título de filho de Elomar. Com o passar do tempo, construiu seu nome como grande músico, exímio intérprete e compositor, violonista e violoncelista de mão cheia. Com tudo isso, acabou assinando os arranjos e a direção musical do álbum.

Dani Lasalvia. Foto: Divulgação

Dani Lasalvia, uma das Vozes Bugras (lindo esse nome, não?), chegou um tanto mais pra frente e encantou de saída. É daquelas vozes que todos param pra falar quando alguém coloca o disco. Não só pelo seu timbre belíssimo como também pela capacidade de escolher, compreender e interpretar o que canta.

O acaso, para a nossa sorte e emoção, fez com que estes três artistas encantados se juntassem para homenagear Dércio. Não tenho ideia se alguém que nunca ouviu falar de nenhum dos envolvidos perceba o impacto emocional das gravações de “Recantos – Ao apanhador de cantigas”. Mas tenho quase certeza que sim.

Nele estão algumas das joias garimpadas ou criadas por Dércio. As recriações ficaram, algumas vezes um tanto reverentes aos arranjos originais, noutras tantas um pouco distantes. Em todas elas, no entanto, aparece a essência da intenção da obra tão rica de Dércio, sua capacidade de redescobrir cantos, seu violão criativo, tão influenciado por Elomar, da Bahia, como também por Atahualpa Yupanqui, em Buenos Aires.

E foi como se tivesse feito um risco entre esses dois pontos – e tudo o que entre eles convergia – que o disco foi construído. O álbum conta com obras de músicos como Heitor Villa-Lobos (“Ária”, “Cantilena”, “Bachianas Nº 5”), Elomar Figueira Mello (“Curvas do Rio”) e Djavan (“Lambada de Serpente”). A linda “Le Tengo Rabia al Silêncio”, de Atahualpa Yupanqui; “Mourão de Cerca”, de Zé Maria Giroldo e a comovente recriação para “Riacho de Areia”, folclore do Vale do Jequitinhonha, entre muitas outras.

Há algo além na maneira de tocar e cantar estas canções no disco “Recantos – Ao apanhador de cantigas”. Uma entrega emocional rara a cada nota, uma certeza tamanha de estarem, cada um dos três, lidando com coisas eternas e intensas.

Canções que nos moldaram enquanto nação, processadas pelo filtro de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. E que, agora, são recriadas magistralmente um tanto mais à frente, como que redesenhadas por elos de uma mesma corrente, por mãos da mesma ciranda.

BRASIL DE FATO: “A POLÍTICA, AINDA É O MEIO PARA ATINGIRMOS UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA”, AFIRMA RAPPER

Novembro 13, 2018

CULTURA E POLÍTICA

Compositor paulista, Crônica Mendes participou da última edição do programa “No Jardim da Política”

Júlia Dolce

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,12 de Novembro de 2018

Ouça a matéria:

"O que falta hoje na periferia, muito mais que saúde e segurança, é conscientização" - Créditos: Rafael Stédile
“O que falta hoje na periferia, muito mais que saúde e segurança, é conscientização” / Rafael Stédile

O programa no Jardim da Política da última semana conversou com o rapper e compositor paulista Crônica Mendes, criador do grupo A Família, e que desde 2012 também está em carreira solo. Seu último trabalho foi “Aos que Caminham”, lançado em 2017. Sempre preocupado com as questões sociais são um verdadeiro manifesto ao amor, à justiça e contra toda forma de opressão. 

A entrevista teve como foco a relação entre política e manifestações artísticas, em especial após a eleição do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL). “Por incrível que pareça, ainda mais nos eventos atuais, eu ainda acredito na política como principal meio para que a gente possa alcançar a tão sonhada sociedade mais igualitária, mais justa, mais humana”, comentou o músico. 

Mendes também falou sobre a relação entre as organizações de esquerda e a população que habita as periferias do país: “O que falta hoje na periferia, muito mais que saúde e segurança, é conscientização. Nosso direito como cidadão é votar e cobrar, não ficar de braços cruzados esperando que eles façam por nós”, analisou. 

Confira a entrevista completa abaixo. 

Brasil de Fato: De que modo a política, no sentido mais amplo da palavra, te move e inspira teu trabalho?

Crônica Mendes: Por incrível que pareça, ainda mais nos eventos atuais, eu ainda acredito na política como principal meio para que a gente possa alcançar a tão sonhada sociedade mais igualitária, mais justa, mais humana. Ainda acredito na política como o único meio para que a gente possa provocar a revolução que o rap nacional tanto cantou em suas letras. 

A revolução não vai ser televisionada, mas ela não pode ser “solta”. A gente precisa ter o braço político para que ele seja de fato benéfica para nosso povo, para nossas crianças, para nossos professores, para todas as favelas do Brasil. O rap nacional sempre buscou essa revolução. Nem sempre o rap teve uma relação direta com a política como vem tendo ultimamente. A gente vê grandes nomes se posicionando, buscando, até mesmo através das eleições, um mandato para que possa representar o rap e a periferia do lado de lá da política.

Pode ser que eu seja um sonhador solitário, mas ainda acredito na política, na democracia. Por mais que a gente esteja vivendo um momento tão delicado – a democracia permitiu esse momento -, eu, ainda assim, acredito ser necessário ter um braço político forte, popular.

Você comentou um pouco sobre o papel do rap. Eu queria saber: a arte, de modo geral, qual é o papel dela na política?

Eu acredito que a arte não pode ser simplesmente para entreter. Eu acho que a arte tem que provocar. Tem que despertar, incentivar as pessoas. Para que as pessoas também possam ter seu próprio domínio e conhecimento sobre o que é a política: qual a função, como funciona, como ele desenrola e influencia nossa vida. A arte tem que provocar, tem que ser cada vez mais participativa dentro do cenário político. Claro, sem perder suas raízes, sem perdes seus outros lados aos quais a arte tem que estar atenta. 

Ela é fundamental para que a gente possa despertar o interesse popular pela política e pela conduta dos nossos governantes. A arte também tem o poder de despertar as pessoas para o interesse coletivo e não só individual. 

Você, pessoalmente, é um artista bem contestador. Suas letras sempre falam de questões sociais relevantes. Como você pretende trabalhar sua arte a partir do próximo período que o Brasil vai viver, sob essa ameaça de censura do futuro governo Bolsonaro?

A ideia é manter a luta. Agora é resistência pela nossa existência. Não é só resistir, é resistir para que possamos existir. A gente sabe que não será nada fácil. O rap sempre bateu de frente com o sistema. Minhas letras sempre abordaram os temas políticos, temas sociais, grandes lutas, as que eu sempre acreditei que eram lutas nossas. Agora, como bombou nas redes: ninguém deve soltar a mão de ninguém. Isso não pode ficar só nas redes sociais. A gente tem que cumprir de fato o papel de eleitor, mesmo sendo oposição, a gente tem que ir para as ruas cobrar uma política que seja voltada para as minorias em questões sociais, mas que são maiorias populacionais. A gente vai ter que lutar como lutava nos anos 90, mas hoje temos outras armas, caminhos e braços para lutar. 

A luta se intensifica, a resistência se intensifica. Eu estou direcionando minha arte para isso: para a resistência, para nossa existência.

Você comentou em minorias sociais, maiorias populacionais. Sua arte também está muito conectada com a realidade das periferias, principalmente da cidade de São Paulo, onde você mora. Quais são as prioridades dos moradores de periferias no Brasil, principalmente para juventude: do que é preciso, nesse momento, se falar?

Durante muito tempo, eu acreditei em algumas coisas que faltavam para a periferia. Nós lutamos, enquanto rap, movimentos sociais, articulador cultural da quebrada. Com o resultado dessas eleições eu fiquei muito assustado, porque o Bolsonaro foi eleito pela periferia. Ele não foi eleito pela classe média ou classe alta. Não foi. A periferia tem muita culpa no cenário atual que estamos atravessando e que iremos atravessar. Isso me deixou muito assustado. Nós lutamos e somos periferia, e a própria periferia acabou dando nossa cabeça na bandeja para o inimigo. Isso é assustador. 

Eu não tenho mais certeza se aquilo que eu acreditava que faltava na periferia era só aquilo: a questão da educação, da transformação social, do despertar das mentes para que possamos ter novas lideranças comunitárias, lideranças revolucionárias dentro das comunidades para que nós pudéssemos nós mesmos desenvolver nossa cultura e a cidadania dentro das periferias, sem isentar o Estado de suas obrigações para com a periferia. Eu não sei se aquilo tudo que a gente lutou, se é só isso que continua faltando hoje. Tem um grande interrogação sobre o que de fato falta para a periferia. Nós sabemos que muitos dos nossos que foram votar no candidato oposto, foram por mágoa, por ódio, por sentimento de abandono. De fato, nós temos duras críticas ao governo do PT. O PT já reconhece isso. Eu achei muito lindo da parte do PT dar a cara a tapa, reconhecendo esses erros e ainda assim se dispor a caminhar pelas periferias, como o [Fernando] Haddad fez. Foi lindo. 

Eu enxerguei isso, mas a periferia não: o candidato que errou e sabe que errou, abrindo para admitir os erros do partido. Não é todo partido que admite seu erro. O que falta hoje na periferia, muito mais que saúde e segurança, é conscientização. Do mesmo jeito que o PT abandonou as bases, os jovens militantes que estavam nas periferias foram ocupar cargos em outros ares e não se fomentou nenhum trabalho de base, não deixou nenhum outro líder. As lideranças pararam de surgir e, com isso, a periferia ficou abandonada. A periferia também não foi cobrar. A periferia cruzou os braços, a gente tem culpa nisso. Quando digo “a gente”, também me incluo nessa lista. A gente elegeu e deixou de cobrar. Achou que elegendo estava bom e que nosso papel estava feito, que o governo faria tudo por nós. Nós esquecemos de cobrar. Nosso direito como cidadão é votar e cobrar, não ficar de braços cruzados esperando que eles façam por nós. Não fizeram como a gente esperou, ficamos magoados e devolvemos esse ódio nas eleições. Muito mais que educação, também falta conscientização.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

RBA: FILME SOBRE O GOLPE, ‘O PROCESSO’ É PRÉ-INDICADO AO OSCAR

Novembro 13, 2018
MUNDIAL
Obra retrata os dias que antecederam derrubada de Dilma. Na disputa pela premiação de 2019, dentro da categoria de Melhor Documentário, concorrem ainda outras duas produções brasileiras
por Redação publicado 13/11/2018 14h45, última modificação 13/11/2018
DIVULGAÇÃO
O Processo Oscar

Documentário de Maria Augusta Ramos reconstitui a história dos 271 dias do julgamento do impeachment da ex-presidenta Dilma

São Paulo – O documentário O Processo, que reconstitui os 271 dias que antecederam o golpe do impeachment que retirou Dilma Rousseff (PT) da Presidência da República, foi pré-indicado na categoria Melhor Documentário para concorrer ao Oscar 2019, uma das premiações cinematográficas mais reconhecidas mundialmente. Ao todo,  outras 166 produções concorrem ao troféu. 

O filme, dirigido por Maria Augusta Ramos, já havia sido aclamado pela crítica em importantes circuitos, como o Festival de Berlim, onde chegou a ser escolhido pelo público como terceiro melhor documentário da mostra.  

À época de sua estreia, a diretora chegou a afirmar, durante entrevista ao jornalista Juca Kfouri, no programa Entre Vistas, da TVT, que o filme, ao retratar os bastidores e a disputa pela narrativa entre opositores e apoiadores de Dilma e da democracia, não apresenta lados. “Tento retratar a realidade por diversas narrativas e pontos de vista”, explicou.

Outras duas obras brasileiras também concorrem na mesma categoria de Melhor Documentário, Nossa Chape que relembra a tragédia aérea com a equipe de futebol do clube Chapecoense em 2016, e Piripkura, que dá nome também a uma etnia indígena e conta a história de dois de seus descendentes, que sobrevivem em uma área dominada por madeireiros e fazendeiros.

A seleção final dos concorrentes ao prêmio máximo da academia de cinema norte-americana será anunciada no dia 22 de janeiro e a premiação ocorrerá no dia 24 de fevereiro. 

registrado em:         

RBA: CONSTRANGIDA, CANTORA CLÁUDIA LRITR DENUNCIA ASSÉDIO DE SILVIO SANTOS

Novembro 12, 2018
MACHISMO DIÁRIO
Durante programa, apresentador e dono da emissora SBT usou roupa da cantora para assediá-la. “Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo”, afirmou a artista em rede social
por Redação RBA publicado 12/11/2018
TV SBT/REPRODUÇÃO

Assédio Silvio Santos

“A provocação vem disfarçada de piada, e as pessoas riem, porque acostumaram-se, parece-nos normal”, criticou a cantora

São Paulo – Após o apresentador Silvio Santos afirmar, durante a exibição de um programa criado para ajudar a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), neste sábado (10), que não poderia abraçar a cantora Cláudia Leite porque “ficaria excitado”, a artista veio a público declarar ter se sentido constrangida pela postura do dono da emissora SBT, que usou a roupa da cantora para justificar o assédio.

Visivelmente incomodada, ela chegou a dizer que deixaria o programa. Em sua conta no Instagram, Cláudia declarou que os comentários do apresentador remetem aos episódios diários de machismoenfrentados pelas mulheres em diversos lugares e apontou que o assédio vem muitas vezes mascarado como uma piada.

“Isso é desenfreado, cruel, nos fere e nos dá medo. A provocação vem disfarçada de piada, e as pessoas riem, porque acostumaram-se, parece-nos normal! E lá se vai a nossa vida”, escreveu a cantora.

Durante sua passagem pelo programa, Silvio Santos fez diversas referências ao vestido que Cláudia usava que, segundo ele, não permitia mais olhá-la como “uma loirinha bonita”, mas como “uma mulher provocante e sensual”. “Não sabia que você se apresentava com essa roupa, essa é novidade”, considerou o apresentador. 

A cantora rebateu o argumento afirmando que “definitivamente a culpa não é do que estamos usando!. A culpa é dessa atitude constrangedora e de dois pesos e duas medidas”, defendeu. 

Os comentários de Silvio Santos a respeito das mulheres vêm ganhando destaque na imprensa pela repercussão negativa de suas falas, muitas vezes de teor machista e misógino. No Twitter, mensagens de apoio repercutindo a postagem de indignação de Cláudia Leite estão nos trending topics. Atrizes, jornalistas e apresentadoras, entre elas, Taís Araujo, também comentaram em sua publicação, prestando apoio. “Parabéns pela coragem. Assédio não é diversão. Estamos juntas!”, afirmou a atriz. 

Veja um trecho da fala de Silvio Santos 

PORTAL FÓRUM – JULINHO BITTENCOURT: OS CEM ANOS DE JACOB DO BANDOLIM NO ÁLBUM “SENTIMENTOS & BALANÇO”

Novembro 11, 2018

Produzido por Henrique Cazes, o disco conta com os bandolinistas Fábio Peron e Joel Nascimento

Foto: Divulgação

Para comemorar os cem anos de Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, o selo SESC lança o disco “Jacob do Bandolim 100 Anos – Sentimento & Balanço”. O álbum, um primor em todos os sentidos, foi produzido por Henrique Cazes e Carlos Alberto Sion, dois craques formados dentro do universo de Jacob, suas interpretações e canções.

Jacob teria completado cem anos em fevereiro. Ele foi um dos maiores músicos do seu tempo. Instrumentista magistral, foi também um grande compositor. Esta, inclusive, é uma das suas facetas que é, por vezes, subestimada diante do seu talento infindo no seu instrumento.

Ele foi o autor de clássicos como “Vibrações”, “Doce de Coco”, “Noites Cariocas, “Assanhado” e “Receita de Samba”. Estes cinco choros bastariam para justificar uma vida. No entanto, o controverso Jacob fez mais, muitos mais.

Um pequeno apanhado da obra monumental de Jacob é interpretado no álbum pelos bandolinistas Fábio Peron e Joel Nascimento, acompanhados pelo próprio Henrique Cazes Trio. Estão lá “Vibrações”, “Doce de Coco”, “Gostosinho”, “Bola Preta”, “Assanhado”, “Pé de Moleque”, “Noites Cariocas” e “Santa Morena”, entre algumas outras.

Henrique Cazes Trio toca cavaquinho, violão e violão tenor, ao lado de seu irmão Beto Cazes, que faz todas as percussões. O time é completado por João Camarero, violão 7 cordas, o mais novo integrante do lendário grupo Época de Ouro.

As interpretações são sóbrias, corretas e extremamente reverentes ao legado do compositor. Os bandolins se cruzam entre as intrincadas melodias desenhadas por Jacob e não se atrevem demais ao virtuosismo, apesar dos instrumentistas terem talento de sobra para tal.

A produção do álbum também é límpida. A impressão que se tem é que todos os envolvidos optaram por mostrar, de maneira mais sincera e original, as composições do mestre.

Isto, talvez, até pela própria presença de Jacob sobre os ombros dos autores.

O instrumentista era tido como uma pessoa chata e geniosa, de temperamento forte e difícil. Competitivo, detestava Waldir Azevedo e, ao responder sobre os três maiores gênios do choro respondia sem pestanejar: “Pixinguinha, Pixinguinha e Pixinguinha”. E foi justamente após uma visita ao mestre que, ao chegar em casa, teve um segundo infarto, desta vez fulminante.

Suas composições são ricas, de difícil execução. E os músicos não deixam por menos. Tocam cada nota, cada espaço e tempo, desfilando sobre as construções harmônicas de maneira exata e emocionada.

A influência de Jacob sobre músicos excelentes como Pepeu Gomes, Armandinho e, mais atualmente, Hamilton de Holanda é inegável. Tradicionalista, detestaria o que os três andaram fazendo com a sua música, desde executá-la com guitarras elétricas até improvisos extensos em um bandolim de dez cordas.

No entanto, e até mesmo por conta disto, fica a impressão que ele adoraria o lindo álbum “Jacob do Bandolim 100 Anos – Sentimento & Balanço”.

BRASIL DE FATO: FESTIVAL INTERNACIONAL DE MULHERES NAS ARTES CÊNICAS REALIZA PROGRAMAÇÃO NO RIO

Novembro 10, 2018

ARTE

Multicidade traz espetáculos, performances, instalações, exposições e oficinas gratuitas em diversos locais da cidade

Clívia Mesquita

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

Festival Multicidade acontece no Rio com produções artísticas femininas de diversos países nas artes cênicas até o dia 13 de novembro - Créditos: Piti Tomé/ Divulgação
Festival Multicidade acontece no Rio com produções artísticas femininas de diversos países nas artes cênicas até o dia 13 de novembro / Piti Tomé/ Divulgação

O Festival Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas começa nesta sexta-feira (9) no Rio de Janeiro. Mulheres artistas vindas da Alemanha, Dinamarca, França, Reino Unido e, claro, do Brasil apresentam suas produções de excelência que abordam o fazer artístico e o posicionamento da mulher contemporânea. Ao contrário do que aconteceu na 1ª edição em 2015, quando o Festival ocupou durante oito dias as instalações do Espaço Tom Jobim, localizado no Parque Jardim Botânico, esse ano, o Multicidade acontece até o dia 13 de novembro em diversos pontos da cidade – são 27 atividades com programações espalhadas pelo Centro e na Zona Sul.

A dramaturga e cineasta brasileira, Eveline Costa destaca o recorte de gênero e o combate ao machismo como principal característica das apresentações. “As práticas artísticas compartilhadas trazem acolhimento e fortalecimento. A gente quer dar voz, luz e visibilidade, sair deste lugar da não pluralidade e mostrar o potencial realizador da mulher, reverberar nossas reflexões, falar sobre arte e realidade”, comenta Eveline que também é umas das curadoras do Multicidade.

A abertura do Festival acontece na área externa do Museu de Arte Moderna (MAM), com apresentação do espetáculo de teatro aéreo “Paper Dolls” vindo de Berlim, na Alemanha, com uma história de amizade e saudade. No dia 13, o encerramento será na Sala Cecília Meireles, na Lapa, centro do Rio, com o concerto teatral “Tout Moreau” do Voix Poliphonique da França.

Programação

Nos demais dias, a programação do Festival acontece no Teatro Ipanema, Teatro Poeira, Casa França-Brasil, Espaço Sequência, Casa 7, Universidade Candido Mendes e na Escola Nacional de Circo. “Poesia do Grito” das artistas italianas Paola Luna e Maria Pace é uma instalação permanente durante todo Festival na Casa de Cultura Laura Alvim, um grito em manifesto à violência contra a mulher e o estupro. Também vai acontecer uma oficina gratuita para mulheres acima de 60 anos, “[Des]velhecer” nos dias 10 a 13 de novembro. 

A programação completa com locais e atividades pagas e gratuitas, assim como informações e inscrições para participar das oficinas estão disponíveis no site www.multicidade.com.

Edição: Jaqueline Deister

BRASIL DE FATO: “ENTRE MARGENS” VALORIZA A LITERATURA NEGRA NO VALE DO SÃO FRANCISCO

Novembro 10, 2018

LITERATURA

Quinta edição do evento acontece com exposições, oficinas e degustações literárias

Vanessa Gonzaga

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

O espetáculo "Eu vim da Ilha" traz referências das comunidades ribeirinhas do São Francisco - Créditos: Cia Biruta
O espetáculo “Eu vim da Ilha” traz referências das comunidades ribeirinhas do São Francisco / Cia Biruta

Acontece até domingo (11), no SESC Petrolina o “Entre Margens: Encontro com a literatura”. A proposta do evento é dar espaço e visibilidade para autores e autoras que vivem à margem das imposições sociais. Com o tema “Narrativas (in) Visíveis”, a programação acontece em Petrolina e na cidade vizinha de Lagoa Grande, na comunidade do Lambedor. O evento também relaciona a literatura a condições sociais, políticas, culturais que limitam a difusão da produção literárias dos autores e autoras.

Desde o início da semana já passaram pelos espaços de debate o poeta Miró da Muribeca, Cida Pedrosa e André de Leones. Na sexta, quem se apresenta é Cristiane Sobral, com o Recital Não Vou Mais Lavar os Pratos, às 19h, e logo após o grupo Gira Rosa apresenta o Kinimbá e um Rio de Encantos às 20:30.

No final de semana de encerramento, o Samba de Véio da Ilha do Massangano e o Reisado do Lambedor se apresentam sábado em Petrolina a partir das 15h no ponto das barcas que ligam a cidade à Juazeiro (BA). Às 19h a Galeria Ana das Carrancas é aberta para a exposição Lugar de Terra e às 20:30h Lucas dos Prazeres apresenta O Som da Vida.

No domingo, a programação em Lagoa Grande inicia às 15h com uma conversa sobre o tema do evento com os autores Daniela Amoroso, Francinaldo Borges, Sonia Guimarães e Graça Helenice. Às 17:30 tem contação de histórias com o Yiabás Griós Memórias Afro-brasileiras e a partir as 17h iniciam as apresentações culturais com a Performance Hortensia; o espetáculo Eu vim da Ilha, da Cia Biruta; o Reisado do Lambedor e o encerramento com Um batuque que Ecoou e Batuk-Ajé, com Camila Yasmine e Eugênio Cruz. Toda a programação do evento é gratuita, mas sujeita a lotação de cada espaço e das classificações indicativas de cada atividade.

Edição: Monyse Ravenna

WILSON FERREIRA: O CAPITALISMO É APENAS MAIS UMA FORMA DE GERIR O HOSPÍCIO HUMANO EM “INSANIDADE”

Novembro 9, 2018

 Wilson Roberto Vieira Ferreira

O filme checo “Insanidade” (“Silení, 2005) é para poucos pela sua alta carga de niilismo e humor negro. O diretor Jan Svankmajer volta à crítica da sociedade de consumo do filme anterior “Little Otik” (2000), mas dessa vez por um viés político e ontológico: a história humana é comparada a um problema de gestão de um manicômio no qual há duas formas de fazê-lo – ou a liberdade absoluta na qual o prazer e orgia se aproximam do crime e da morte, ou o totalitarismo da dor e castigo que também flerta com a morte. Um jovem tem recorrentes pesadelos até encontrar um milionário excêntrico que emula o próprio Marquês de Sade. Ele apresenta o médico gestor de um manicômio que apresenta uma técnica supostamente revolucionária que irá livrá-lo dos seus pesadelos. “Insanidade” é uma fábula sobre como a História até aqui não conseguiu conciliar Eros e Thanatos, prazer e morte. E como o capitalismo é mais uma forma de gerir essa loucura.

Uma camisa desce do cabide, rasteja pelo chão para escalar a porta até a fechadura e girar a chave por sua própria vontade, enquanto seu assustado dono pede que pare. A camisa consegue o intento, abre a porta e dela aparece dois corpulentos enfermeiros segurando uma camisa de força, para tentar arrastar o nosso herói para um asilo.

Essa fusão entre live action e animação é a marca registrada do diretor surrealista checo Jan Svankmajer de filmes como Alice e o já analisado filme nesseCinegnoseLittle Otik (2000) – um olhar surreal sobre a cultura do consumo baseado na regressão infantil à compulsão oral – clique aqui.

Em Insanidade (Silení, 2005) Svankmajer volta à carga contra a sociedade de consumo, mas agora com um viés mais político e ontológico: a história humana como o drama da gestão de um manicômio no qual há dois modos institucionais de fazê-lo: ou encoraja a liberdade absoluta, ou então o método obsoleto de comprovada eficiência de controle combinado com punição. Dois extremos.

Mas para o diretor há um terceiro modelo, que seria o manicômio no qual vivemos hoje: uma sociedade que reúne os piores excessos daqueles dois modelos extremos.

Para figurar essa tese, Svankmajer livremente se inspirou em dois contos de Edgard Allan Poe (“O Sistema do Doutor Tarr e do Professor Fether” e “O Enterro Prematuro”) e nos escritos de Marquês de Sade. No prólogo do filme, vemos o diretor definindo sua obra como “um filme de terror, com toda a decadência própria do gênero” – a combinação do horror metafísico de Allan Poe com a decadência aristocrática de Sade.

Insanidade é um filme para poucos pela sua carga de niilismo e humor negro – simultaneamente instiga o pensamento, o horror e o riso. Ao ver o capitalismo como mais uma forma de gerenciar o hospício da história humana, parece que Svankmajer concorda com o pensador Herbert Marcuse de que toda revolução é uma revolução traída: haveria no psiquismo humano um elemento de autoderrota ao não conseguir resolver o conflito entre Eros (o princípio do prazer) e Thatos (o princípio da morte) – leia MARCUSE, Herbert, Eros e Civilçização, LTC, 1982.

O libertino Sade e o horror sistemático e metódico de Allan Poe são os polos que Insanidade trabalha, polos inconciliáveis e intercambiáveis: a cada revolução, a cada golpe de Estado, a cada reforma, ou Eros ou Thanatos assumem nos seus aspectos mais extremos e incontroláveis. E Svankmajer vai transformar um hospício qualquer num distante lugarejo no microcosmo desse conflito psíquico que não alcança a redenção.

O Filme

Insanidade abre com o protagonista Jean Berlot (Pavel Liska) vivendo um pesadelo no qual dois corpulentos enfermeiros tentam coloca-lo numa camisa de força para arrastá-lo a um hospício. Jean resiste e destrói todo o quarto de uma pensão, até ser despertado. É um jovem pobre. Como pagará os prejuízos para o proprietário da pensão?

Acaba aceitando a generosidade de um hóspede chamado “Marquês” (Jan Triska), um rico excêntrico que se veste como um aristocrata do século XVIII e seu meio de transporte é uma luxuosa carroça puxada a cavalos. Marquês paga os prejuízos e o convida para conhecer sua propriedade. Enquanto Jean teme que esses pesadelos recorrentes de ser prisioneiro em um manicômio o faça ter o mesmo destino da sua mãe, que morreu louca em um hospício.

Já na imensa propriedade do Marquês, furtivamente Jean testemunha seu anfitrião em um estranho ritual no qual martela pregos em uma estatua de Cristo crucificado, entre outras profanações, em meio a uma orgia que faz lembrar o filmeSaló ou Os 120 Dias de Sodoma de Pasolini. Jean reconhece que uma das participantes mais relutantes é Carlotta (Anna Geislerová), hóspede da pensão e que trabalha em um manicômio nas proximidades.

Após simular sua própria morte, o Marquês convence o jovem Jean a participar de uma terapia supostamente revolucionária no manicômio local, supervisionada pelo Dr. Coulmiere (Martin Huba) – os próprios pacientes aplicam seus tratamentos como, por exemplo, a terapia artística de jogar tinta sobre modelos obesas nuas.

O que torna ainda a narrativa mais estranha e surreal é que as sequências são pontuadas por animações grotescas em stop-motion de línguas, olhos, cérebros e fatias de carne bovinas que se arrastam e dançam como se brevemente fossem ativadas por centelhas de vida. Como se relembrassem que todas as ações humanas caricatas narradas pelo filme fossem nada mais do que danças de postas de carne, destinadas à morte e apodrecimento.

Mas tudo não é o que parece. Em conluio com o Marquês, Coulmiere encenou um golpe de Estado naquele manicômio, trancando o verdadeiro diretor (Dr. Murloppe – Jaroslav Dusek) e sua equipe no porão. Para comemorar o aniversário da sua perfídia, o Marquês sugere um entretenimento teatral para os internos: uma recriação da famosa tela de Delacroix (“A Liberdade Guiando o Povo”). Claro, com requintes das orgias sadomasoquistas.

Apaixonado por Charlotte (acredita que ela é apenas uma doce jovem, vítima da loucura do Marquês), Jean ajuda ela a libertar Murloppe para retomar o poder da instituição. Porém, da pior maneira descobrirá que o outro doutor tem uma abordagem sobre a doença mental bem diferente: o controle através da dor e do castigo.

Eros versus Thanatos

Rei morto, rei posto. Insanidade contrapõe duas ordens, que sucedem, uma golpeando a outra: de um lado a ordem dos libertinos; e do outro a ordem totalitária. Duas ordens absolutamente niilistas – a primeira a libertinagem pela libertinagem, a orgia como um fim em si mesma. Nega Cristo e desafia Deus por ter dado um corpo ao homem (sensual e prazeroso) mas interdito pela noção de culpa e pecado. Mas faz o prazer se aproximar do crime e da morte.

E a segunda ordem, o controle totalitário do corpo, interditando qualquer forma de prazer sob o pretexto de curar e libertar a mente dos caprichos da carne.

Mas Svankmajer lança um olhar simpático ao personagem do Marquês. Dá destaque aos seus monólogos subversivos, nos quais o homem desafia Deus. Novamente lembra Marcuse no qual Eros (o “instinto da vida”) desafia o princípio de realidade das sociedades repressivas – a compulsão Thanática da dominação política e da repressão dos instintos. Mesmo numa sociedade aparentemente liberal como a de consumo, que atrela a sua satisfação à realização da forma-mercadoria.

Tal como na obra de Marquês de Sade (1740-1814), a orgia transforma-se em ritual sistemático, em novo princípio de realidade, entediante e repetitivo. O que lembra a irônica pergunta imaginada por Jean Baudrillard em uma orgia pós-moderna: “o que você vai fazer depois da orgia?”, pergunta um libertino para o outro no meio da orgia…

Em “Eros e Civilização” Marcuse via em toda revolução, um “vanish point”, aquele instante no qual a revolução torna-se traída por não conseguir ir além dos seus próprios pressupostos. A história humana em um movimento pendular entre Eros e Thanatos, vida e morte experimentada em seus extremos: a afirmação do corpo e do prazer a tal ponto que se aproxima da morte – porque mesmo no orgasmo (o perder-se no outro) há um princípio de morte, de esquecer-se de si mesmo no prazer. Afinal, a satisfação e apaziguamento pleno dos instintos somente será alcançada na morte – a paz absoluta, a própria “sensação oceânica” da qual Freud falava.

Enquanto a ordem do Dr. Murloppe vê os perigos dos apetites corporais. A mente deve ser libertada pelo controle total do corpo, por meio do castigo, da tortura e da dor. Mais uma vez, dessa vez com sinais trocados, uma ordem chega próxima da morte.

Com esse duelo sobre qual gestão é a melhor no hospício daquele lugarejo perdido no interior da República Checa, Svankmajer faz um alerta no prólogo do filme Insanidade: no hospício do mundo atual, a Nova Ordem conseguiu mesclar a insanidade libertina com a insanidade totalitária. Muitos críticos de cinema interpretam como uma herança da juventude do diretor sobre o totalitarismo comunista. Mas Svankmajer nos alerta sobre o presente: a nova ordem global, na qual cada revolução é o aprofundamento do controle da Nova Ordem. 

Ficha Técnica 

Título:  Insanidade
Diretor: Jan Svankmajer
Roteiro: Jan Svankmajer
Elenco:  Jan Triska, Pavel Liska, Anna Geislerová, Martin Huba, Jaroslav Dusek
Produção: Athanor, Ceská Televize
Distribuição: Zeitgeist Films
Ano: 2005
País: República Checa