VÍDEO: ORQUESTRA ROYAL: DALLAGNOL & MORO. O DEVIR LIBERDADE DO HUMOR

Junho 15, 2019

Orquestra Royal: Dallagnol & Moro, juntinhos e shallow now!;  vídeo

 

FESTIVAL EJILÁ OSÉ OBORÁ, EM HOMENAGEM A XANGÔ, INICIA NESTA SEXTA-FEIRA (14)

Junho 14, 2019

TRADIÇÃO

Atividades vão até domingo (16); em 2019, celebração traz como tema a defesa da liberdade do ex-presidente Lula

Marcos Barbosa

Brasil de Fato | Recife (PE)

14 de Junho de 2019.

Afoxé Oyá Tokolêse apresenta na celebração - Créditos: Danilo Oliveira/Divulgação Oyá Tokolê Afoxé Owo
Afoxé Oyá Tokolêse apresenta na celebração / Danilo Oliveira/Divulgação Oyá Tokolê Afoxé Owo

Nos dias 14, 15 e 16 de junho, acontece o Ejilá Osé Oborá e a fogueira sagrada do Rei, festival em homenagem a Xangô, atividade religiosa, política e cultural que existe desde 1995. Conhecido como o senhor do Fogo, dos Raios, dos trovões, da fartura e da Justiça, Xangô é um dos orixás mais populares do mundo. A fogueira sagrada se tornou o maior festival da América Latina em sua devoção.

O Ejilá Osé Oborá é um reconhecimento de fé, cuja manutenção ancestral tem enfrentado barreiras por conta da intolerância a religiões de matriz africana e o racismo. De acordo com Igor Prazeres, da Roça Oxaguiã Oxum Ipondá, que participa da organização do evento, a celebração ‘‘coloca o candomblé na rua, para trazer fartura onde há fome, o bem onde há o mal, e justiça onde há injustiça”, afirma. 

Igor defende, ainda, que a celebração das tradições de matriz africana ganha um significado especial em um contexto político como o atual. “Para combater esses momentos obscuros que a gente vive hoje e fazer com que o povo saúde nessa data a sua luta, a sua resistência, para manter as religiões de matriz africana sempre vivas, com seus cultos, seus rituais e suas tradições”, reforça.

O evento acontece no mês de junho e é sincretizado com o São João. Na sexta-feira (14), a programação acontece na Roça Oxaguiã Oxum Ipondá, às 19h, com o Corte do Romã, louvação com os 12 ilús para o Rei Xangô. 

No sábado (15), a festa acontece na Torre Malakoff. A abertura inicia às 8h, com Louvação aos Orixás. Às 12h, tem queima de fogos com louvação com os 12 ilús para o Rei Xangô. Às 16h, oficina de dança Ajô Nagô. Em seguida, a missa ecumênica com o Padre Clóvis, às 18. No restante do dia, apresentações de afoxés, coco, maracatus, entre outras atividades culturais.

No domingo (16), último dia de celebração, começa às 16h o Toque Oficial ao Grande Rei Xangô e, às 18h, queima da fogueira ao som de clarim. Tem, ainda, degustação de Amalá – papa preparada a base de farinha de mandioca e água – e Beguirí – preparado com quiabo, castanha, amendoim, camarão e carne bovina, excessivamente com azeite de dendê e temperado com cebola, cebolinha, pimenta e sal – do início ao fim. 

Neste ano, o Ejilá Osé Oborá traz como tema luta pela liberdade do ex-presidente Lula da Silva, preso político. De acordo com Igor Prazeres, a Roça Oxaguiã Oxum Ipondá resolve assumir a luta pela liberdade do ex-presidente Lula “pela liberdade dessa ideia que foi implementada no seu governo, de combater o racismo, o preconceito e a intolerância”. “Somos uma casa de tradição, de respeito, de responsabilidade, que não foge aos seus deveres religiosos, culturais e políticos de reconhecer em um presidente que está preso politicamente todos os seus acertos para o povo negro. [Lula] assumiu as bandeiras das populações negra, indígena, LGBT, e dos menos favorecidos e transformou esse país em um Brasil soberano” conclui.

Edição: Monyse Ravena

BRINCADEIRA DO BOI DA MATA MOVIMENTA MATA DE SÃO JOÃO DA VÁRZEA NESSE SÁBADO (15)

Junho 14, 2019

AGENDA CULTURAL

Trilha ecológica custa apenas 5 reais

Da Redação

Brasil de Fato | Recife (PE)

14 de Junho de 2019.

Brincadeira acontece mensalmente na Várzea - Créditos: Divulgação
Brincadeira acontece mensalmente na Várzea / Divulgação

Sábado (15), será realizada a brincadeira do Boi da Mata, com trilha ecopedagógica, na Mata de São João da Várzea e almoço colaborativo. A concentração será às 9h, no Bosque do Bacurau,  com a roda de acolhimento e alongamento.

A contribuição mínima sugerida para a trilha é de R$ 5 e para o almoço, a contribuição é de R$ 15. A organização sugere levar água, usar roupas leves e tênis. 

Edição: Monyse Ravenna

AQUILES RIQUE REIS: O CASAMENTO DE VIOLA COM PIANO

Junho 13, 2019
Capa do CD de Benjamim Taubkin & Ivan Vilela

por Aquiles Rique Reis

No princípio eram só olhares. O primeiro papo revelou gostos parecidos. Enredaram-se na magia do amor. Assim como livre era o tal amor, a solidariedade entre eles permitiu olhares retos.

Os eruditos garantiam que os dois só seriam felizes se descobrissem o melhor de cada um; já a moçada popular torcia para que a paixão entre Viola e Piano fosse movida à harmonia incondicional.

Enquanto os dois afinavam suas opiniões, as galeras revelavam suas preocupações: “Sei não”, disse um, “eu acho muito difícil eles se entenderem”. Ao que outro retrucou: “Eles veem o mundo sob o prisma da harmonia, ainda assim, o amor pode atravessar”. “Concordo, cada um deve tratar seu ofício como uma missão.”

“Eu tenho medo”, disse Viola; ao que Piano replicou: “Somos suficientemente maduros para saber conduzir as nossas notas”. “Acho que você tem razão”, concluiu Viola. “Certamente, aproveitaremos nossas virtudes e multiplicaremos a beleza das partituras.”

E foi assim que Viola se casou com Piano.

Durante nove meses, tudo foi sagração. Sentindo que a união frutificara, percebendo que a harmonia reinava em allegro movimento, os dois se emocionaram.

Primeiro mês de gravidez (faixa 1): Viola compõe “Sertão”. Enquanto toca com Piano, o amor transborda pelos dedos, comovendo-a o tanto do xodó que tem pelo parceiro.

Segundo mês (faixa 2): ambos se ajuntaram para tocar “A Lua Girou”, música de Milton Nascimento, compositor que os dois tanto amam. Piano vibra as notas, Viola as agita.

Terceiro mês: Piano fez “Encontro”. Sua amada não faz por menos, segura a onda e traduz em sons o esmero repartido. Piano vem com ela. Juntos, vão.

Quarto mês: os dois tocam “Cravo e Canela”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Felizes, saltitam em harmonia e pulsam na levada. Com Viola batucando no braço do instrumento, a alegria é consagrada.

Quinto mês: delicadamente, Piano toca a intro de seu “Mantendo a Fé”. Amoroso, ele canta. “Mas… aquilo é uma lágrima?” Sim, de amor”, diz Viola, que a tudo vê e sente.

Sexto mês: “A Força do Boi”, criada por Viola, é como uma retribuição ao amor de Piano, ele que toca com o espírito na palma das mãos. Até seu aboio, Viola está com ele.

Sétimo mês: em nome da harmonia e do ritmo da vida em comum, Piano tece loas à Viola com “Caipira”; juntos, eles a preenchem com ternura.

Oitavo mês: “Castelo dos Mouros” é o tema que Viola idealizou e, junto com Piano, aperfeiçoou com afortunada interpretação. Dedilhando as notas, Piano explicita o fascínio de tê-la ao seu lado.

Nono mês: no ato de parir, Piano ouve Viola desdobrar as entranhas. Juntos, os dois dão vida à luz. Ele a abraça, e choram e tocam “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que soa como se feita para reverenciar a bendita união de Viola e Piano. Meu Deus!

  1. Encontro (Núcleo Contemporâneo) é o lindo CD, com nove faixas, recém-lançado por Benjamim Taubkin (o Piano) e por Ivan Vilela (a Viola) – com três temas cada um –, além de três músicas de Milton Nascimento.

EL ODIO, FILME DE ANDRÉS SAL-LARI

Junho 13, 2019

BRASIL DE FATO: PRAMIT LANÇA SEU DISCO DIGITAL “IN NATURA” E FAZ SHOW EM PORTO ALEGRE

Junho 12, 2019

MÚSICA

O músico e compositor paraense radicado no Rio Grande do Sul desde 2004 disponibiliza o disco em seu site

Redação

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

12 de Junho de 2019.

show de lançamento será no dia 18 de junho, às 20h, no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mario Quintana - Créditos: Foto: Divulgação
show de lançamento será no dia 18 de junho, às 20h, no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mario Quintana / Foto: Divulgação

O músico e compositor paraense, Pramit, radicado no Rio Grande do Sul desde 2004, fará o lançamento de In Natura, seu disco digital, no dia 12 de junho em todas as plataformas, que podem ser acessadas pelo seu site www.pramit.com.br. O show de lançamento será no dia 18 de junho, às 20h, no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 Porto Alegre). Ingressos antecipados podem ser adquiridos a R$ 35,00, no Namastê (Rua da República, 528 Cidade Baixa).

Também já está marcado o lançamento em sua terra natal, Belém do Pará, no dia 28 de junho, no Sesc Boulevart. Pramit também levará seu trabalho para a Europa, em setembro, quando apresentará em Viena, Praga, Barcelona, Porto e Lisboa.

O disco

O álbum é resultado de 3 anos de trabalho e muitas mãos. Gravado no estilo old school, todo ele acústico, orgânico, como gosta de dizer. Produzido pelo uruguaio Federico Trindade, reuniu músicos brasileiros e estrangeiros de norte a sul. O disco tem a cara desse encontro: a sensualidade do tambor amazônico acariciado pelas ondas da música caribenha, a viola caipira nordestina, o acordeom do regional gaúcho, todos sentados à mesa com um contrabaixo escolado no Jazz, tocado pelo dinamarquês Albert Reinholdt.

O repertório, composto de 11 músicas de sua autoria, conta sobre uma série de encontros e despedidas, sobre idas e vindas, sobre saudades e amores. NaturezaAmanhecer e Te ter são músicas que falam sobre o amor, sobre a profundidade da entrega. A primeira delas, Pramit canta no disco com Beatriz Rabello, uma das vozes que desponta na música popular brasileira, filha do compositor e violonista Paulinho da Viola. A música “O Cantor”surgiu de uma parceria com cantor e compositor paulistano Paulo Novaes. Em Sinais, composta após um show dos amigos Carmem Correia e Tiago Rubens no Palco, o artista recorre ao que tem de mais profundo na poesia seca e dolorida do cancioneiro nordestino.

Pramit convida para dividir o palco músicos que de alguma forma fizeram parte desse processo, velhos e novos amigos como Sander Frois, guitarrista e compositor do Chimarruts, a cantora Raquel Leão, o flautista Pedrinho Figueiredo, Gabriel Romano no acordeon e Gutcha Ramil. Para Pramit, o amor é o sentido de compor e cantar. Amar é a condição humana in natura, é a saída para enfrentar os problemas do mundo.

Para homenagear sua cidade natal, Pramit compôs Por lá, com aqueles olhos atentos à beleza das coisas cotidianas, é uma música suave e quente como o vento à beira do rio Guamá, uma música inspirada pelo clássico do repertório regional, do compositor brasileiro Chico Senna. Sem poder conter o tambor que pulsa dentro do peito, Saudação é festa, é roda de carimbó, uma reverência aos mestres: pela importância do ritual, Pramit recorreu ao tambor de JP, percursionista paraense que acompanha Dona Onete, a grande diva do carimbó paraense na atualidade. A canção é de encerramento, não propriamente pelo fim, mas como a despedida de um cortejo, que ao passar nos inunda de alegria e deixa o silêncio.

Serviço:

Lançamento do disco digital (www.pramit.com.br) em todas as plataformas dia 12 de junho.

Show de lançamento do disco In Natura dia 18 de junho 2019.

Horário: 20 horas

Local: Teatro Bruno Kiefer

Ingresso: 35 reais (local de venda antecipada – Namastê – Rua da República 528)

Edição: Marcelo Ferreira

BLOG DO CINEMA: CLOUZOT EM JUÍZO

Junho 11, 2019

UNHO DE 2019

A mostra Os filmes de Henri-Georges Clouzot está em cartaz no IMS Paulista e no IMS Rio durante o mês de junho.

Por diversos motivos, frequentar o universo de Henri-Georges Clouzot em 2019 é uma experiência profundamente desconcertante. Impossível meditar sobre seu sadismo “lendário”, tanto dentro quanto fora dos sets de filmagem, com imparcialidade nos tempos atuais. Contudo, de certa maneira, o desconcerto sempre informou a recepção de seu trabalho. Desconcerto do público, sempre atordoado por sua virulência, sempre curioso quanto aos limites que Clouzot haveria de ultrapassar em seu próximo filme; desconcerto da crítica, que pouco mérito reconhecia àqueles produtos. Um dos mais notórios realizadores franceses dos anos anteriores à nouvelle vague, Clouzot teve filmes assistidos no mundo inteiro por espectadores ávidos de choque, tensão, violência. Premiado em diversos festivais, responsável por alguns dos maiores sucessos de bilheteria da França, ele era um cineasta que trabalhava quase exclusivamente dentro dos estreitos limites colocados pelo thriller. Não à toa, tantos o reputam até hoje como o “Hitchcock francês”. No entanto, suas relações com a crítica – particularmente os futuros realizadores que escreveram para a Cahiers du Cinéma ao longo dos anos 1950 – sempre foram marcadas por uma hostilidade profunda. A despeito dos evidentes pontos de contato entre suas obras, a consagração de Hitchcock por parte da crítica cinematográfica francesa e sua “promoção” a autor foram taxativamente negadas ao contemporâneo Clouzot, constantemente jogado no balaio dos “intocáveis” do cinema francês, junto aos “velhacos” Becker, Rene Clément etc. A identificação de Clouzot com um cinema antiquado, mórbido, impermeável à realidade cotidiana, altamente estilizado e norteado por efeitosnão é de todo descabida. Todavia, em Hitchcock, cineasta igualmente inquietante e essencialmente ocupado em manipular as emoções e expectativas de sua plateia, a então jovem crítica francesa campeou uma visão de mundo, um universo moral de infinitos desdobramentos. O crítico e realizador Philippe Pilard, escrevendo para a Revue du Cinéma em 1978, chega mesmo a observar que, se Clouzot tivesse nascido nos EUA e trabalhado segundo e conforme a cartilha dos estúdios hollywoodianos então imperantes, certamente teria sido louvado pela mesma crítica que optou, em algum momento, por descartá-lo.

Descarte crítico, voracidade do público. Sempre a impossibilidade de extratar do trabalho de Clouzot uma visão de mundo “coesa” ou “positiva”, a dificuldade em divisar um programa coerente, uma proposição de mundo. À guisa de ilustração: Paulo Emilio Salles Gomes, em nota crítica redigida em meados dos anos 1950, rememora a primeira vez que viu Sombra do pavor (Le corbeau, 1943) nos seguintes termos: “A fita significou para mim a descoberta de um autor na plena acepção da palavra, isto é, alguém que define uma concepção do mundo através dos personagens que cria e da história que narra”. Um ano depois da nota de Paulo, o jovem Jacques Rivette escrevia para a Cahiers du Cinéma: “Desafio qualquer um […] a encontrar qualquer concepção de mundo nos filmes de Clouzot”.

Algumas hipóteses para este duradouro antagonismo entre a crítica e o cineasta são sugeridas pelo documentário O escândalo Clouzot (Le scandale Clouzot). A mais convincente de todas é o seu envolvimento com a produtora Continental, chefiada por oficiais nazistas durante a Ocupação da França. Embora o documentário retrate Clouzot menos como simpatizante do nacional-socialismo do que como um homem ferozmente independente, trabalhando sob o jugo de um regime autoritário, a pecha de colaboracionista nunca deixou de persegui-lo.

 

 Cena de O assassino mora no 21, de Henri-Georges Clouzot

 

Em todo caso, se Clouzot é de fato um “universo” em si mesmo, é no âmbito da Continental que este universo começa a ser forjado, com O assassino mora no 21 (L’assassin habite au… 21, 1942), filme em que já repontam alguns traços estilísticos de sua obra posterior: sua preferência por espaços claustrofóbicos, a iluminação expressionista reforçando a atmosfera de enclausuramento, a obsessão temática com o engano – e o autoengano –, a “partilha” do crime, como a sinalizar que somos todos culpados, iniludivelmente culpados. Todos esses elementos, tomados em conjunto e aliados a uma inegável perícia técnica, traem já o cinismo, a descrença e o pessimismo vigoroso do restante de sua obra. Sobre seu apuro técnico, vale ressaltar que não se encontra a serviço de um vazio conceitual. Numa das sequências mais impressionantes dessa estreia na Continental, somos forçados a testemunhar um assassinato do ponto de vista do assassino. Muitos anos antes de A tortura do medo (Peeping Tom, 1960), de Michael Powell, ou mesmo de Psicose (Psycho, 1960), de Hitchcock, Clouzot impõe, pelo recurso da câmera subjetiva, uma aliança com o espectador, baseada numa culpabilidade comum. Não há inocência possível quando o realizador nos firma ora na posição de cúmplice, ora na posição de voyeur. Passividade e ação concorrem aqui para um mesmo atoleiro moral.

Em O salário do medo (Le salaire de la peur, 1953) e As diabólicas (Les diaboliques, 1954), encontramos Clouzot em seu auge. Felizmente, limpos dos excessos de O assassino… – os interlúdios musicais exasperantes, o tom ligeiro em franca contradição com a atmosfera opressiva do filme –, ambos os filmes configuram feitos memoráveis. No caso do primeiro, o domínio formal de Clouzot é completo – e a manutenção da tensão, uma vez principiada a jornada dos caminhoneiros, roça por vezes no insuportável. Trata-se de um filme, parafraseando Paulo Emilio na nota crítica referida acima, que empolga o espectador “por um contato permanente com os seus nervos”. Aqui, Clouzot demonstra imensa aptidão, tanto para o espetacular quanto para o sutil – caso da morte dos caminhoneiros Bimba e Luigi, colhidos por uma explosão significada por Clouzot mediante flashes luminosos e um golpe de vento que arranca o tabaco do papel de fumo nas mãos de outro caminhoneiro a quilômetros de distância. Clouzot torna os vastos e áridos espaços que os protagonistas devem percorrer em sua jornada tão claustrofóbicos quanto o internato onde grande parte da intriga de As diabólicas se desenrola. Neste filme, que transita com a habitual gravidade clouzotiana entre o natural e o sobrenatural, para acabar num dos mais célebres “finais surpresa” da história do cinema, Clouzot cria um microcosmo particularmente sórdido, em que a própria mise en scène não cessa de sugerir a insustentabilidade das alianças humanas ali forjadas. A traição, o segredo, a duplicidade, que sempre fizeram ato de presença em seus filmes, encontram aqui expressão cabal, dir-se-ia definitiva, sem alienar o espectador. Clouzot sempre se declarou um homem magnetizado pelo mal, pela ideia do mal – a transferência desse fascínio para o público, sua contaminação, constituiria uma proeza, uma perversidade, ou ambos?

 

 Cena de O inferno de Henri-Georges Clouzot, de Henri-Georges Clouzot

 

Em A verdade (La vérité, 1960), um dos veículos mais exitosos da estrela Brigitte Bardot, tem-se a impressão renitente de que a duplicidade que Clouzot sempre se esmerara em retratar em seus filmes começa também a infectar o interior do projeto, posto melhor, sua formulação. Se o filme pode ser lido, por um lado, como uma cáustica denúncia da moralidade burguesa e de um sistema judiciário essencialmente desumano, ele se abre com igual facilidade a uma leitura pautada pelo frisson fácil. Bardot, em sua autobiografia, afirma ter sentido que ela própria estava em julgamento durante a rodagem das extensas sequências de tribunal. Bardot como signo de uma nova moralidade, uma nova ideia de juventude, um novo corpo. E o que está em primeiro plano, infalivelmente, por toda a duração de A verdade – um filme bastante conservador do ponto de vista narrativo, de construção episódica, mas absolutamente linear –, é o corpo de Bardot, os usos que ela própria faz dele, os ambientes e as pessoas “infames” por ele frequentados. Algo do caráter de libelo se dilui na maneira como Bardot é fetichizada – muito menos que em seus veículos anteriores, naturalmente, mas, ainda assim, a tentativa de investir esse ícone da liberdade e da soltura com um caráter trágico parece, se não punitiva, pelo menos tão fraudulenta quanto os afetados discursos do advogado de defesa.

É em O mistério Picasso (Le mystère Picasso, 1955) que temos acesso mais direto às inquietações de Clouzot, ainda que de maneira oblíqua, por via da figura do renomado pintor, cujo processo criativo o cineasta acompanha com inabitual respeito. Cabe-nos salientar aqui a maneira como a dimensão feitora do trabalho criativo é valorizada – o mistério de Picasso é o mistério do fazer, da artesania, do trabalho, não da elucubração teórica. Clouzot, conhecido não apenas pelo hábito de torturar psicológica e fisicamente seus intérpretes, por seu temperamento irascível e por seu apego doentio ao que de mais insalubre há na experiência humana, era também um homem meticuloso ao ponto da mania. Era no papel que se permitia improvisar – de seus atores e sua equipe, exigia apenas subordinação. A vocação tirânica de Clouzot parece abrandar diante da figura de Picasso – que espécie de fascínio aqueles traços, tão soltos, tão fáceis na aparência, exerciam sobre o cineasta? Finalmente, o que está exposto na declaração desse fascínio – tão contrário ao fascínio do mal e da opressão, da sombra e do ludíbrio, que perpassa quase toda sua reduzida cinematografia? Que mistério próprio Clouzot buscava elucidar – para nós e para si mesmo – ao registrar o mistério de Picasso?

 

 Cena de O mistério de Picasso, de Henri-Georges Clouzot

WALNICE NOGUEIRA: OS DURRELLS

Junho 10, 2019

Esta simpática série, ao aparecer agora na televisão, trouxe à memória um nome que se tornou conhecido nos anos 50-60, quando Lawrence Durrell foi lançando sucessivamente os quatro volumes do Quarteto de Alexandria, intitulados Justine, Balthazar, Mountolive, Clea. Bem orquestrado, o lançamento levou ao delírio os leitores, que esperavam com ânsia o surgimento dos demais volumes e disputavam as traduções imediatas para outras línguas.

Mais tarde, o autor até escreveria outro quarteto, aliás um quinteto, O quinteto de Avignon, repetindo aproximadamente as mesmas técnicas e achados do anterior. Mas nunca mais atingiria aquele patamar, o que não quer dizer que não tenha ficado rico e famoso. E assim ele foi deslizando para o esquecimento, apesar de autor de numerosa obra de ficção e não ficção, incluindo poesia e teatro. Sic transit gloria mundi…

Tanto que o Durrell famoso hoje em dia é seu irmão caçula, Gerald Durrell, autor da Corfu trilogy, autobiografia em que se baseia a série. Todavia, não é pela trilogia que ele se alçou à fama mas sim porque, como naturalista, desenvolveu a vida toda programas de rádio e televisão sobre animais, na BBC, tornando-se querido de um público em que o carinho pelos bichos é proverbial, como é o caso dos ingleses. Fazia constantes excursões aos mais remotos e exóticos cantos da Terra, colhendo material para seus programas e para seus livros, que se tornaram bestsellers. E era um paladino da causa animal.

A série embaralha um pouco as coisas, principalmente tendo em vista diminuir a distância de idade entre os irmãos e tornar a fratria mais unitária. De fato, a essa altura, em Corfu, Lawrence já tinha se casado e não vivia mais na casa materna.

O encanto da série vem muito de sua implantação na ilha grega de Corfu, no Mar Jônico. A mãe viúva resolveu se mudar para lá nos anos 30, com toda a família: três filhos (Lawrence já lá estava) e uma filha; uma tia velha depois se agregaria. Ia em busca de boas condições atmosféricas: o contraste entre uma região ensolarada e as perpétuas brumas da Inglaterra não poderia ser maior. Também não era de desprezar o passadio mais barato, pois seus recursos não iam muito longe. Quem faz o papel da atribulada mãe, com sensibilidade e graça, é a atriz inglesa Keeley Hawes.

Os gregos retratados são calorosos e engraçados, cheios de costumes pitorescos, talvez um tanto idealizados ou estereotipados. Por sua vez, a família não fica atrás em matéria de idiossincrasias e excentricidade. A mãe, ainda jovem e bem posta, tem admiradores com os quais não lida muito à vontade. Os filhos, então… A menina está apaixonada por um padre; o segundo filho tem três namoradas ao mesmo tempo, o que demanda uma logística enredada; o filho mais velho só quer escrever sem parar; o caçula, Gerald, enche a casa de animais esquisitos: pelicanos, flamingos, lontras, cobras, abutres e até um bicho-preguiça. A vocação é precoce e visceral.  

Vivem todos juntos em domesticidade caótica num casarão meio arruinado, no meio de um jardim selvagem, onde tudo pode acontecer. E, afora os bichos de estimação de Gerald, também perambulam por ali cabras, porcos, galinhas, um jumento. As idas e vindas de todas as personagens, bem como as confusões em que se metem, ocupam o entrecho.

Posteriormente, Gerald, além de popular, tornou-se um cidadão benemérito. Criou um zoológico dedicado exclusivamente a salvar animais em extinção. O zoo oferece atividades pedagógicas interessantes; além do mais, você pode hospedar-se lá, em cabanas bonitinhas. E, naturalmente, os animais em extinção inscrevem-se entre os mais esquisitos e estranhos, o que faz a criançada enlouquecer.

Grande militante da causa, seu zoo oferece cursos que formam especialistas em ambientalismo e conservacionismo do mundo inteiro. Esse é o autor do livro autobiográfico em três volumes, Corfu trilogy, em que se baseia a série. E a tal ponto desbancou o irmão na estima e no reconhecimento geral, que quem pergunta por Lawrence Durrell recebe a resposta: “Quem? Aquele escritor que era irmão do Gerald?”

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

LUIS NASSIF: VENDE-SE PARTITURA ORIGINAL DE “VIBRAÇÕES”, DE JACOB DO BANDOLIM

Junho 9, 2019

 

Grande violonista, Luiz Filipe de Lima colocou à venda um bem precioso: partitura original de Jacob do Bandolim, adquirida por seu pai em um sebo, no final dos anos 80

Meu xará e grande violonista, Luiz Filipe de Lima, foi apanhado pela crise do mercado cultural, pós-Bolsonaro e colocou à venda um bem precioso: partitura original de Jacob do Bandolim, adquirida por seu pai em um sebo, no final dos anos 80. E não é de qualquer choro de Jacob, mas o clássico “Vibrações”.

Luiz Filipe conferiu a autenticidade com Sérgio Prata, do Instituto Jacob do Bandolim, e com Deo Rian, que foi aluno do mestre. O cabeçalho está datilografado pela mesma máquina de escrever que Jacob usou em vários de seus registros e anotações.

Luiz pede R$ 8 mil pela partitura, emoldurada e em ótimo estado de conservação. É item nobre de colecionadores.

Mais informações, vai aqui seu perfil no Faceboook

BRASIL DE FATO: ENCONTRO REÚNE MAIS DE 20 MESTRES POPULARES EM LAGOA SANTA (MG)

Junho 9, 2019

TROCA DE SABERES

Lapinha Museu Vivo reúne cultura de matriz africana e indígena, de 14 a 16 de junho

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Junho de 2019.

O Lapinha deste ano vai fazer uma homenagem a mestre Pastinha - Créditos: Foto: Matheus Sá
O Lapinha deste ano vai fazer uma homenagem a mestre Pastinha / Foto: Matheus Sá

Com a recepção de quase 20 mestres e mestras populares, acontece nos dias 14, 15 e 16 de junho o Lapinha Museu Vivo no Mês de Santo Antônio 2019, em Lagoa Santa (MG). O evento é organizado anualmente e proporciona vivências com a capoeira, a medicina popular, dança, tambor de crioula, candombe, samba e mais uma enorme gama da cultura indígena e negra brasileira.

Quem organiza o evento é a Associação Cultural Eu Sou Angoleiro (Acesa) e a Irmandade dos Atores de Pândega. O Lapinha, que começou para reunir os capoeiristas da associação, já é construído há 16 anos e agora adquire o objetivo de estimular as trocas de saberes, sempre com a valorização e a presença dos mestres populares.

O anfitrião é o Mestre João Angoleiro, que recebe Mestre Dunga, Mestre Bigo (Bahia), Mestra Cristina (Maré, RJ), Mestre Zequinha (Goiás), Mestre Índio, Mestre Jurandir, Mestre Leo, Mestre Gercino, o brincante Mestre Faria, Mestre Chico Broca e Mestre Paulo (Maranhão) do tambor de crioula, o compositor e dançarino Mestre Mamour Ba, o sambista Mestre Conga e Dona Elisa e outros. Também estarão presentes o Candombe do Mato do Tição, o Candombe da Várzea, o Reinado de Nossa Senhora do Rosário e os índios xacriabás, pataxós e maxacalis.

“O Lapinha deste ano vai fazer uma homenagem a mestre Pastinha, com 130 anos de capoeira angola, que é o ancestral maior da nossa linhagem, e a Luzia, que é o fóssil de 12.500 anos encontrado na gruta da Lapinha, que inclusive estava no Museu Nacional [no Rio de Janeiro] e sobreviveu ao incêndio”, afirma Mestre João.

Floresce a militância cultural

O encontro deste ano é feito sem nenhum recurso financeiro governamental, explica a contramestra da Acesa, Flavia Soares, organizadora da alimentação do evento. “Estamos fazendo tudo na base da cooperação, inclusive pra fortalecer a cozinha, que é o coração do evento”, afirma. Ela defende que o evento não seria cancelado devido a dificuldades que “o sistema impõe”, e que o Lapinha será fruto da militância cultural.

Mestre João destaca ainda que o evento foi feito por meio de bioconstrução, usada para levantar os banheiros secos, a cozinha, os móveis e toda a estrutura do evento. “Nós acreditamos que a revolução vai vir daí, dos novos valores de cooperação e de entendimento. Assim é que vamos trilhar as mudanças e salvaguardar o Brasil de um colapso”, defende.

Agende-se:

Lapinha Museu Vivo no Mês de Santo Antônio 2019

Dias: 14 a 16 de junho

Local: Praça Dr. Lundi, Lagoa Santa (sexta) e Gruta da Lapinha, Sítio do Luís (sábado e domingo)

Informações: facebook.com/lapinhamuseuvivo

Edição: Elis Almeida