Leandra Leal retrata primeira geração de divas travestis brasileiras

Junho 23, 2017

Marquesa

Documentário ‘Divinas Divas’ resgata a memória afetiva da atriz que cresceu entre mulheres que esbanjam talento e (ainda) desafiam com sua arte os costumes de uma sociedade homofóbica.

por Xandra Stefanel, para a RBA

São Paulo – “As divas fazem parte do meu mundo e eu do delas. Elas nunca foram estranhas para mim. Meu avô tinha um teatro, minha mãe é atriz e eu também sou atriz. Nós herdamos esse teatro Rival, onde vivi as memórias mais fortes da minha infância, nos bastidores, na beira do palco”. É assim que a atriz Leandra Leal começa o filme Divinas Divas, seu primeiro longa-metragem como diretora, que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas.

Enquanto Nelson Gonçalves canta Escultura, sobre o sonho de uma mulher perfeita, fotos de homens vão se transmutando em glamurosas mulheres – “Cansado de tanto amar/ eu quis um dia criar/ na minha imaginação/ uma mulher diferente/ de olhar e voz envolvente/ que atingisse a perfeição”. Surgem na tela elas que que compõem a primeira geração de artistas transformistas brasileiras: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios.

DARYAN DORNELLES/DIVULGAÇÃOLeandra
Leandra: ‘Estreei neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas’

O fio condutor do filme é a memória afetiva da diretora, neta do dono do Teatro Rival, que foi um dos primeiros palcos no Brasil a apresentar homens vestidos de mulher, ainda em plena ditadura militar. Leandra cresceu nas coxias, entre plumas, paetês, brilho, roupas e maquiagens deslumbrantes. “Esse tema fala sobre o que me constitui, sobre a minha história, sobre a minha família. E, ao mesmo tempo, pela relação que tinha com elas, sempre acreditei que só eu poderia fazer esse filme”, afirma.

“Quando eu tinha apenas um mês, uma peça escrita pela minha mãe estava em cartaz. A atriz teve problemas de saúde e ela foi convocada às pressas para o papel. Eu ia bebezinho no colo dela para o teatro toda noite e ficava na coxia, com a camareira, quando ela entrava em cena. Fizeram uma roupa de mini-vedete para mim e no final do espetáculo, minha mãe me levava ao palco. Foi aqui que eu estreiei, neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas”, declara a diretora durante o filme.

Mas não se trata de um filme sobre Leandra Leal. Ao contrário. Sua voz pontua apenas algumas passagens do longa-metragem, com pouquíssimas e efêmeras aparições. As estrelas do documentário são estas outras mulheres, artistas que representam a história da arte performática no país.

Além contar a trajetória das divas oito divas, Leandra acompanha o processo de construção de um espetáculo homônimo que celebra os 50 anos de carreira do grupo: os ensaios, as discussões, as memórias de dias gloriosos mas também das enormes dificuldades que enfrentaram (e ainda enfrentam) por seus corpos e sua arte serem uma espécie de ato político que revolucionou o comportamento sexual da sociedade brasileira.

No palco, divas

Humor e drama se alternam de maneira natural e equilibrada durante todo o longa-metragem. Há também uma ode ao feminino em seu sentido mais amplo: sobre a força necessária para ser mulher quando não se nasce mulher, os preconceitos de gênero ainda mais acentuados quando se trata de mulheres trans, as vaidades, o medo de envelhecer, os amores e as dores. Tudo vem à tona com força e graça. Rogéria, por exemplo, provocadora e engraçada, se diz “a travesti da família brasileira”.

Modesta, Fujika de Halliday reflete sobre a palavra que dá nome ao filme: “Diva é uma coisa muito séria, né, gente? Diva é diva! Eu sou diva? Será? Oh, meu Deus… Divas são essas mulheres maravilhosas, Maria Callas e essas mulheres divinas, divas. Ser artista é bom, eu gosto”, afirma, sorrindo.

DIVULGAÇÃOJane di Castro
Jane di Castro

Apesar de toda censura e opressão que elas sofreram durante a ditadura, Jane di Castro acredita que é ainda mais difícil ser travesti nos dias de hoje. “Ninguém se transformou para se prostituir. Eu não tenho nada contra a prostituição. Pra mim, prostituição é uma coisa normal, é uma profissão que deveria ser legalizada. Principalmente para as travestis, que não têm espaço. Se travesti não se prostituir, vai morrer de fome mesmo, porque não tem emprego. Travesti, hoje em dia, piorou. Porque elas não são artistas, porque também não têm espaço. Naquela época, tinha espaço e nós trabalhávamos de terça a domingo, com duas sessões na quinta, três no sábado e três no domingo, com casa lotada. Hoje em dia, elas não têm espaço para trabalhar, não têm teatro, não têm nada pra trabalhar. Então, o que têm que fazer? Se prostituir, ganhar o dinheiro delas, senão elas vão morrer de fome. Eu sou totalmente à favor da prostituição. Cada um faz do seu corpo o que quer. Tem de ganhar dinheiro, meu amor, tem de comer, beber, vestir… Sem ser marginal, eu admito tudo. Eu não gosto de marginalidade”, declara Jane.

Divinas Divas apresenta as artistas glamurosas, vestidas para o show biz, mas mostra também as pessoas que existem debaixo da maquiagem pesada e das roupas deslumbrantes. Traz à tona, por exemplo, a história de Marquesa, que foi internada em um sanatório pela família e decidiu que iria se travestir apenas nos palcos para não afrontar a mãe. A única das oito artistas a usar roupas masculinas no dia a dia tem uma saúde frágil que contrasta com suas performances intensas. Marquesa morreu aos 71 anos, em 2015, antes de ver o filme finalizado.

Aliás, este é o maior trunfo do filme: eternizar estrelas cujas existências cintilaram tanto nos palcos quanto nesta sociedade que ainda hoje se bate contra a homofobia, a transfobia e todos os preconceitos de gênero. Divinas Divas, assim como as artistas nele retratadas, personifica a resistência de ser quem se é na arte e na vida. Como elas cantam em uma das apresentações: “Je suis comme je suis“, do francês, eu sou como sou. E é preciso ter muita força, coragem e resiliência para se assumir travesti no Brasil de ontem e de hoje.

O longa ganhou o Prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular e foi eleito Melhor Documentário pelo Prêmio Felix, de produções com temáticas relativas à diversidade de gênero, no Festival do Rio 2016, o Prêmio do Público da Mostra Global do Festival South by Southwest, em Austin, no Texas e Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Direção no 11º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa.

CartazDivinas Divas
Direção: Leandra Leal
Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo, Natara Ney
Produção executiva: Carol Benjamin
Montagem: Natara Ney, edt
Fotografia: David Pacheco
Produtoras: Leandra Leal, Carol Benjamin, Natara Ney e Rita Toledo
Produtores associados: Bianca Villar, Fernando Fraiha e Karen Castanho
Realização e produção: Daza Filmes
Coprodução: Biônica Filmes e Canal Brasil
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras

Companhia de teatro invoca a palavra como forma de resistência social

Junho 21, 2017

Montagem sinfônica “Roda das Vozes em Estado de Sítio” mistura linguagem teatral com samba de breque para refletir sobre o modelo de sociedade que temos e queremos.

por Xandra Stefanel

Estreia nesta quinta-feira (22), no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), a peça sinfônica Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro. A montagem propõe um debate sobre o papel da palavra na nossa sociedade e sobre a mecanização da língua em tempos em que o povo é estraçalhado pelo capital corporativo. “A voz e a palavra podem emergir como resistência a toda forma de controle e violência”, invoca a companhia.

Permeada por canções e falas do cantor e compositor Itamar Assumpção, a peça aborda a saturação da palavra, a produção massiva de uma língua sem ninguém dentro, sem densidade nem mistério. Na obra, se fundem o jogo entre o samba de breque, as canções de Bertolt Brecht e dos compositores alemães Hanns Eisler e Kurt Weill.

“A mecanização da língua se articula à mecanização do corpo promovida pelo capitalismo. Sua principal consequência é a objetivação da palavra e dos discursos, cuja prova cabal é a utilização crescente das estatísticas como dados incontestáveis da realidade. Nossos corpos e vozes estão sitiados, não falamos: somos falados. Estamos perdendo o sabor de língua, como diz o filósofo espanhol José Luis Pardo, para quem há um movimento em marcha para livrar a linguagem de sua incômoda espessura, uma tentativa de que a linguagem seja lisa, sem risco”, diz o dramaturgo Zebba Dal Farra.

O espetáculo aborda essas questões de forma poética, contrapondo fala a canto, e crítica, evocando de diversas maneiras o caráter religioso do capitalismo contemporâneo. Além disso, há uma ideia recorrente de que ao capital não interessa nem o que seja o arroz, o algodão, o homem e a mulher: só lhe interessa seu preço”, completa o dramaturgo, integrante do elenco, junto com Maria Simões, Carolina Martins, Beto Siqueira, Luan Braga, Macalé, Pedro Teixeira e Renan Abreu.

JOÃO GOLD/DIVULGAÇÃOMaria SimõesMaria Simões, da companhia Ausgang de Teatro

Roda das Vozes em Estado de Sítio é uma espécie de híbrido entre teatro e roda de samba. Segundo Dal Farra, o formato surgiu em 2001 em uma ocupação do Teatro Alfredo Mesquita.

“Nas rodas de samba tradicionais há uma mesa no centro, onde se colocam letras de músicas, cerveja, e salgadinhos para os músicos. Nossa roda de samba aparece quando retiramos essa mesa e nela surge a arena, propícia à manifestação teatral. Então, a roda mistura improvisação musical e teatral, guiada por um roteiro como um fio condutor”, descreve Dal Farra. Ele cita Paulinho da Viola: “É o ‘rio de murmúrios da memória, que quando aflora serve antes de tudo pra aliviar o peso das palavras, que ninguém é de pedra’. A roda bebe desse jogo entre memória, tradição e presença. É um lugar de passagem, entre formal e informal, entre acaso e composição”.

Para o dramaturgo, no futuro o teatro talvez seja um dos poucos lugares em que a saturação da palavra pode dar lugar a ações transformadoras. “Diz Noca da Portela, em Peregrino: ‘Ninguém vive feliz se não puder falar, e a palavra mais linda é a que faz cantar’. A saturação da palavra cotidiana pode ser superada talvez pela palavra poética no contexto das relações éticas e políticas. O teatro no futuro será, talvez, o único lugar do encontro presencial das pessoas, em que corpos e vozes se confrontam e se enfrentam em tempo real. Nesta perspectiva, o teatro pode impulsionar ações críticas e transformadoras”, define.

A peça fica em cartaz no Tusp até 9 de julho, de quinta a domingo, com uma apresentação especial na segunda-feira, 10 de julho.

Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro
Estreia nesta quinta-feira, dia 22 de junho, às 21h
Temporada: de 23 de junho a 9 de julho
Quintas, sextas e sábados às 21h, e domingos às 19h.
Sessão especial: segunda, dia 10 de julho, às 21h
Onde: Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp)
Rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo
Quanto: R$ 30 e R$ 15. Ingressos à venda no local duas horas antes das apresentações
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Informações: (11) 3123-5223/ (11) 3123-5233 e rapsodiausgang@gmail.com

Chico Buarque aos 73 anos.

Junho 20, 2017

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas sentadas, bebida, tabela, barba e área interna

Livro reúne reflexões de intelectuais sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo

Junho 19, 2017

Um dos organizadores da obra “A crise das esquerdas”, que chega às livrarias em junho, Aldo Fornazieri diz que é preciso superar a “síndrome de Caim e Abel” e trabalhar pela unidade.

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Chega às livrarias em junho, pela editora Civilização Brasileira, A crise das esquerdas, livro que reúne textos e entrevistas de diversos intelectuais sobre a esquerda no mundo contemporâneo. Segundo Aldo Fornazieri, professor de filosofia política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) e um dos organizadores da obra, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, por exemplo, aborda a questão da necessidade de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

De acordo com Fornazieri, os militantes da nova geração não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. “Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda”, diz Fornazieri, em entrevista à RBA.

Para ele, os fatores que levam a esquerda atualmente a passar por dificuldades são múltiplos e complexos. “As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro.” Porém, há aspectos em comum.

Para o outro organizador do livro, o sociólogo Carlos Muanis, “há um abismo perigoso e crescente entre a sociedade e o mundo político”. Segundo ele, existe uma paralisia provocada “pela desconfiança da capacidade de os Estados cumprirem suas promessas básicas de serviços públicos”.

A crise das esquerdas reúne textos e entrevistas de Aldo Fornazieri, Tarso Genro, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Carlos Muanis,  Cícero Araújo, Moisés Marques, Rodrigo Estramanho de Almeida, Ruy Fausto e Sérgio Fausto.

Leia a seguir a entrevista do professor Aldo Fornazieri:

Como se poderia caracterizar a crise da esquerda?

As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro. Não dá para fazer uma caracterização geral. Mas se pode dizer que existe uma crise acerca do lugar onde a esquerda se coloca, na medida em que ela se aproximou muito dos liberais e do neoliberalismo.

Os partidos de esquerda vieram para o centro. Tem uma crise da ação política e programática. A esquerda ficava historicamente com a ideia da utopia, e nos últimos tempos ficou naquilo que o professor Renato Janine chama de redução de danos.

Uma atuação pragmática…

Pragmática, mas faz políticas orientadas para a redução dos danos causados pelo capitalismo. A esquerda teria se tornado uma espécie da cereja no bolo do capitalismo, na medida em que não existe mais um conflito sistêmico. Estamos dentro de um único sistema, que é o sistema capitalista, e não existiria mais uma alternativa socialista hoje no mundo, uma alternativa comunista.

O outro aspecto da crise é o que se chama da crise de pressupostos, que eu abordo. Os principais pressupostos: qual o significado da luta de classes hoje, na medida em que o proletariado clássico quase que desapareceu? Faz ainda sentido falar na ideia de um proletariado revolucionário? Parece que não.

O outro elemento dessa crise de pressupostos é que, historicamente, o marxismo entendeu a política subordinada à economia e com isso perdeu a capacidade de perceber a política na sua autonomia.

E uma terceira crise de pressupostos diz respeito aos próprios partidos, que hoje são estruturas verticalizadas, burocratizadas, e não conseguem absorver uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas etc. Eles não querem saber dessas estruturas organizadas verticalmente. Querem praticar uma política mais horizontal. No livro, Guilherme Boulos aborda isso. Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda.

Poderia traduzir isso, no Brasil, para algo como o PT voltar às bases ou ter abandonado as bases?

Em parte é um pouco isso. Antes de chegar ao poder o partido era de uma militância mais participativa, mais vinculada aos movimentos sociais. Hoje, de modo geral, tanto o PT como os demais partidos de esquerda não têm uma pedagogia capaz de atrair as novas formações militantes em torno de novas bandeiras e questões, e menos ainda a periferia, que cansou de ser massa de manobra dos partidos de esquerda.

Então hoje você vê uma forte influência das igrejas evangélicas na periferia, que adotam um tipo de prática que de certa forma tirou as esquerdas do trabalho de base, principalmente na periferia.

Quando o senhor fala da crise dos pressupostos, aborda mais a esquerda mundial?

Esses pressupostos, mesmo a questão das periferias, não é um problema só aqui no Brasil. Por exemplo, na França, o Partido Socialista, de centro-esquerda, foi reduzido drasticamente. Lá surgiu uma nova esquerda, mas se você for ver, tanto na França, quanto nos EUA, os operários tradicionais votaram na direita.

No mundo, uma crise da esquerda poderia se caracterizar pelo seguinte: em vários países a polarização é entre a direita e o centro, e a esquerda está fora dessa polarização.

No Brasil, depois do golpe que tirou Dilma do poder, a esquerda não ficou um pouco sem rumo, como alguns analistas observaram?

Em todo o processo do impeachment a esquerda ficou muito paralisada, com pouca capacidade de mobilização. Você percebe que agora mesmo, com um governo quase se decompondo no ar, a esquerda tem pouca capacidade de mobilização nas ruas para pôr um fim a esse governo.

Por que isso acontece?

Exatamente porque ela perdeu o trabalho de base. Isso por um lado. E por outro lado tem todo o desgaste que aqui no Brasil a ideia de esquerda sofreu por conta do fracasso do governo Dilma e por conta do fato de que o PT é visto como um partido que se corrompeu também. Isso provocou um enorme desgaste, não só no PT como na esquerda em geral.

Alguns analistas, como Roberto Amaral, defendem que a saída é a união das esquerdas. O senhor concorda?

Eu entendo que é correta essa proposição. Quanto mais a esquerda se divide, mais favorece a direita e o centro. Ela precisa olhar para a formações mais próximas da gente, que são mais exitosas, como a Frente Ampla do Uruguai. Entendo que talvez a esquerda latino-americana mais exitosa no momento seja a esquerda uruguaia, tanto nos resultados que produziu quanto como referência moral, que é o Pepe Mujica.

É viável essa união das esquerdas no Brasil?

Acho que ela é difícil, pelo tipo de cultura divisionista da esquerda. Embora a proposição seja correta, entendo que é difícil porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos.

É preciso superar essa cultura da divisão. As pessoas mais sensatas e que têm uma visão mais ampla do processo político em curso precisam trabalhar para a superação dessa síndrome histórica da divisão entre as esquerdas.

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

Junho 16, 2017

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai, estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas.

Não só a temática do filme traz uma questão sobre o feminino e a condição da mulher, como o próprio processo de produção do longa também levanta pontos importantes. Rodado em municípios do interior do Rio Grande do Sul, onde a cultura do gado é muito forte, consequentemente, com menos atuação das mulheres no mercado de trabalho, o filme deu a oportunidade para muitas delas terem seu primeiro emprego remunerado.

O filme já arrebatou oito prêmios em festivais, entre eles o de melhor Direção e melhor fotografia no Festival do Rio e o Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ambos em 2016. Também foi exibido em importantes festivais internacionais, como o de Berlim, Guadalajara e o do Uruguai – onde ganhou o prêmio da Fipresci na competição Ibero-americana.

O longa conta com a participação do ator paulista Marat Descartes (conhecido por sua participação em filmes como Trabalhar Cansa e em novelas da Globo como Totalmente Demais) e da atriz uruguaia Verónica Perrotta, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme no Festival do Rio, além de apresentar a jovem gaúcha Maria Galant.

A exibição no Brasil, no dia 22, acontece na rua Conselheiro Ramalho, 495, na capital paulista. A entrada é gratuita, mas contribuições voluntárias são bem-vindas.

Assista ao trailer: 

Ubu Rei: o usurpador real como metáfora de Temer

Junho 15, 2017

Teatro Ubu Rei

Peça com Marco Nanini e Josi Campos serve de exemplo para o país que tem um governante cruel no poder.

por Eduardo Nunomura

Um rei cruel, ganancioso e covarde que conquista brutalmente o poder e não tem escrúpulos para governar o povo de maneira totalitária. Pode-se dizer que em todas as épocas há um rei Ubu, e o Brasil de hoje parece a síntese perfeita desse enredo. Na história, Pai Ubu, interpretado por Marco Nanini, assume o trono ao assassinar o rei Venceslau da Polônia e passa a matar e roubar a população para se perpetuar no poder.

Em seguida, o usurpador envolve-se numa guerra com a Rússia. Enquanto isso, sua mulher, Mãe Ubu, interpretada por Josi Campos, igualmente sórdida e vil, tenta roubar o tesouro da Polônia, mas enfrenta a resistência do príncipe herdeiro, Bugrelau, que lidera uma revolta popular.

A realidade cênica implícita pode passar despercebida pelo público mais desatento, desavisado ou desinteressado do espetáculo Ubu Rei, em cartaz até 25 de junho no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Como, por sinal, reagem muitos brasileiros diante do golpe orquestrado por Pai Temer, digo, Pai Ubu. E novamente a montagem de Daniel Herz ajuda a refletir sobre a permanência de um reinado tirânico.

O personagem de Nanini, um déspota mentiroso, despudorado e assassino, é a clássica figura do anti-herói. Faltam a Pai Ubu os atributos morais de um líder nato. Mas, mesmo assim, não é de todo impossível que parte dos súditos o queira nesse posto justamente pela ausência dessas qualidades.

Ubu Rei, com seus personagens desbocados e despudorados, escandalizou a Paris do fim do século XIX. O texto de Alfred Jarry, na época com 23 anos, foi mal recebido por um público até então acostumado a montagens clássicas e com personagens mais previsíveis. A peça tragicômica serviu de inspiração para diferentes movimentos da dramaturgia moderna, como o surrealismo, o dadaísmo e o Teatro do Absurdo.

 Foi encenada por diversas companhias do mundo todo, como tentativa de dar uma resposta às crescentes ondas de brutalidade e turbulência social dos séculos XX e XXI. A atual montagem brasileira é favorecida pela rica execução da trilha sonora ao vivo pelos integrantes da Cia Atores de Laura, que dão uma vivacidade extra à narrativa de Jarry.

Há 200 anos, era inventada a bicicleta

Junho 13, 2017

Em 12 de junho de 1817, o funcionário público e inventor Karl von Drais se sentou no selim de sua máquina de correr de madeira e foi embora. O test-drive foi bem-sucedido: nascia a precursora da bicicleta moderna.

O momento não poderia ser melhor: a região era fustigada por um desastre climático, desencadeado por uma enorme nuvem de cinzas que uma erupção vulcânica na Indonésia tinha jogado no mundo inteiro. O resultado: frio, seca, perda de colheitas, fome. A situação também vitimou muitos cavalos – que foram simplesmente para a panela.

Drais vinha pensando há tempos sobre uma alternativa sensata para o cavalo – e assim foi inventada a chamada “draisiana”. Provavelmente, ao experimentar sua invenção pela primeira vez, ele não chegou a pensar que, com ela, alteraria para sempre a mobilidade da humanidade. Na verdade, ele só queria ganhar dinheiro.

A viagem inaugural começou na cidade de Mannheim e seguiu por cerca de 14 quilômetros em direção ao sul, rumo a Schwetzingen. A imprensa em toda a Europa comentou a invenção vinda da Alemanha. O aspecto financeiro foi o mais celebrado: o custo de uma draisiana era de 20 libras, enquanto o de um cavalo, 1.900 libras. Imbatível também foi considerado o fato de que o dispositivo não tinha custos adicionais – afinal, não precisava receber ração.

Mas, para decepção de Drais, o novo meio de transporte não entusiasmou a todos. Afinal, não era todo mundo que gostava de se movimentar caso não fosse necessário. As pessoas comuns do campo costumavam permanecer por toda a vida no mesmo lugar onde nasceram e achavam estranha a ideia de se afastar voluntariamente de suas casas. Foi então que essa nova máquina se tornou mais um brinquedo de alguns esportistas ricos.

Mas o invento não passou sem ser notado por outros inventores. Drais patenteou sua máquina, mas a patente só tinha validade na sua região, Baden. Além das fronteiras daquela área, seu veículo foi copiado e aperfeiçoado.

Até aparecer a bicicleta em sua forma atual, se passaram muitas décadas. Inventores na França e na Inglaterra melhoraram o projeto de duas rodas continuamente, indo desde o primeiro velocípede movido a pedal até o modelo com a roda dianteira aumentada, que apresentava risco de vida aos ciclistas. Então, no final do século 19, a bicicleta clássica apareceu, com os elementos conhecidos até hoje: duas rodas de tamanho igual, com dois pneus e uma corrente entre os pedais e roda traseira.

A tecnologia da bicicleta foi, aliás, também aproveitada na indústria automobilística, como, por exemplo, no caso dos pneus. Muitas formas foram criadas em 200 anos – e muito foi modificado até que o veículo se tornasse um meio prático de transporte para todos. A bicicleta foi ridicularizada, considerada imprópria por associações conservadoras de mulheres e mais tarde foi considerada um brinquedo exclusivo para ricos. Então, chegaram a motocicleta e o carro como concorrentes.

Hoje, a bicicleta é objeto de consumo, de culto, meio para esporte e diversão, usado por bilhões de pessoas ao redor do mundo. Tornou-se símbolo da mobilidade sustentável. Quem deixa o carro em casa e vai para o trabalho de bicicleta não faz algo de bom só para o meio ambiente, mas também para si mesmo. Pois quem pedala muito permanece mais tempo saudável.

Passado e presente de mãos dadas no filme Cinema Novo, de Eryk Rocha

Junho 11, 2017

Vencedor do prêmio Olho de Ouro em 2016, em Cannes, o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha, resgata a história de um dos mais importantes movimentos cinematográficos latino-americanos, a paixão dos diretores pelo cinema e seus sonhos de transformação do Brasil em um país mais justo e igualitário.

Por Xandra Stefanel

Chamado pelo próprio diretor de “ensaio poético”, o documentário mergulha na criação do cinema novo e na visão de mundo e de cinema de seus diretores: seu pai, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e Paulo César Saraceni. Não se trata, porém, um filme histórico e didático, mas sim uma reconstrução sensorial do movimento.

Foram usadas imagens de arquivo e cenas de 130 filmes do Cinema Novo, entre os quais o clássico de Glauber Rocha Terra Em Transe, Vidas Secas e Rio 40 Graus, ambos de Nelson Pereira. Com uma montagem espetacular de Renato Vallone, o resultado é um mosaico harmônico tanto na forma quanto no conteúdo. As entrevistas de bastidores filmadas na época exalam as aventuras e as lutas de uma geração de cineastas que acreditava na arte como um potencial de transformação social.

Pelas mãos destes cineastas, o cinema nacional deixava antigos moldes e renascia como uma nova forma que tinha como lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Era um cinema que tomava as ruas e registrava o verdadeiro povo brasileiro, a vida nos subúrbios e nas fábricas, nossas manifestações culturais, nossas mazelas e contradições mais profundas.

Por isso tudo, o filme resgata o passado sem desconectá-lo dos dias atuais, como afirmou recentemente Eryk Rocha: “É muito emocionante estrear este filme em Brasília neste momento histórico do país. Eu acho que este filme é fruto de um diálogo entre gerações, desse entendimento da memória não como uma coisa do passado, hermética, ou cristalizada, ou idealizada, mas a memória como uma construção de futuro… Eu acho que essa geração do cinema novo tinha uma grande paixão pelo Brasil e pelo cinema. Mas é uma geração, também, que vivenciou um golpe militar e todos os desdobramentos trágicos de uma ditadura militar no Brasil. E a gente, infelizmente, tragicamente, está vivendo esse momento no Brasil, um novo golpe. Eu, como cidadão, fico indignado com isso. Acho que o filme dialoga nesse sentido, visceralmente, com o Brasil contemporâneo”, critica Eryk.

Assista ao trailer: 

Clássico do Cinema Novo, Terra em Transe completa 50 anos

Junho 10, 2017

O primeiro plano-sequência de Terra em Transe, de Glauber Rocha, depois dos créditos sobre a tela negra, mostra a superfície ondulante do mar, na direção das ondas. Logo, o oceano encontra terra firme: um continente sombrio, no qual se vê primeiro um promontório, depois uma praia e, em seguida, uma massa escura e contínua. Ao fundo, tambores e cantos afro indicam que se está em algum ponto do Atlântico.

Por Luiz Antônio Araujo

O cenário confirma Capistrano de Abreu: “Nem o mar invade, nem a terra avança; faltam mediterrâneos, penínsulas, golfos, ilhas consideráveis; os dois elementos coexistem quase sem transições e sem penetração; com recursos próprios o homem não pôde ir além da pescaria em jangadas”. O cearense fala do Brasil, e o baiano nos mostra Eldorado. As aparências enganavam naquele longínquo maio de 1967, um mês antes de os Beatles lançarem Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e cinco antes de Ernesto Che Guevara tombar em La Higuera, na selva boliviana.

Exibido pela primeira vez há 50 anos, Terra em Transe trazia as marcas de seu tempo e de seu lugar. Eldorado é idílica somente no nome. Quando a ação começa, ao som de uma batucada ensandecida, o governador Felipe Vieira (José Lewgoy), da província periférica de Alecrim, está recebendo um ultimato: renunciar em cinco horas ou ser deposto por tropas a mando do líder populista Porfírio Diaz (Paulo Autran).

O poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) incentiva Vieira a rejeitar a chantagem e resistir. Vieira repele-o.

– Agora temos de ir até o fim – diz Paulo.

– Já disse, o sangue das massas é sagrado – responde Vieira.

Frustrado pelo líder em quem depositara esperanças de redenção, Paulo se retira com Sara (Glauce Rocha), a quem tenta convencer a abraçar a luta armada. O vulto de Paulo na praia, trôpego, com a metralhadora erguida, numa imagem que se funde com a de sua escrita (“Defunto, mas intacto”), é a síntese das quimeras de uma geração. Como muitos contemporâneos, o jovem Glauber fora derrotado em 1964 pela recusa daquele em quem mais confiara, o presidente João Goulart, em ordenar a resistência às tropas do general Olympio Mourão Filho. Envergonhada, a ditadura militar firmara-se e, a cada gesto de rebelião, endurecia-se. Encorajada por Fidel Castro e Che, desconfiada da passividade das massas desmoralizadas por seus chefes, a esquerda latino-americana e brasileira buscava atalhos para a redenção.

“Eu detestava todas as coisas apresentadas em Terra em Transe, filmei com certa repulsão. Lembro-me do que dizia ao montador: estou enojado porque não acho que haja um único plano bonito nesse filme. Todos os planos são feios porque se trata de pessoas prejudiciais, de uma paisagem podre, de um falso barroco. O roteiro me impedia de chegar à espécie de fascinação plástica que se encontra em Deus e o Diabo na Terra do Sol”, escreveu Glauber em Revolução do Cinema Novo (1981).

Alegórico, Terra em Transe foi recebido por parte significativa do público como realista. Anti-herói por excelência, Paulo-Glauber foi saudado como exemplo. Almejando ser programático, Glauber-Paulo foi profético. Como em poucas ocasiões na história da arte brasileira e nenhuma na do cinema, a saga de Paulo, Vieira e outros deflagrou um efeito dominó de espelhos em que, ao final, criador, criaturas e espectadores pareceram ter trocado de identidade para sempre.

No dia 17 de maio de 1967, um debate no Museu da Imagem e do Som, no Rio, dissecou o filme e a época. Participaram Luiz Carlos Barreto (“É mais um marco na história do cinema”), Fernando Gabeira (“Foi realizado para uma minoria intelectualizada e que se supunha capaz de entender e interpretar suas alegorias”), Hélio Pellegrino (“A melhor coisa que se fez em cinema”) e Joaquim Pedro de Andrade (“Não é possível viver quando não se está disposto a morrer por uma ideia, por um amor, por um povo, por um amigo”). Em poucos meses, todos estariam encenando suas próprias versões do filme na vida real, nem sempre em consonância com os pontos de vista expressos no debate.

Fora do Brasil, Terra em Transe estava destinado a afrontar preconceitos. Os públicos europeu e norte-americano estavam acostumados a ver nas telas o Brasil rural e irredentista do Cinema Novo. Em vez disso, eram confrontados com uma tragédia neoplatônica em que os personagens desfiam longos manifestos, sem ouvir uns aos outros e em meio a uma barafunda visual e sonora. “E a Terra entrou em transe e / No sertão de Ipanema / Em transe e / No mar de Monte Santo”, lembrou Caetano Veloso em Cinema Novo.

O impacto foi profundo, mesmo para quem não tinha a menor ideia do contexto brasileiro ou das elucubrações de Glauber. O cineasta americano Martin Scorsese tinha quase 30 anos quando assistiu a Terra em Transe, rebatizado de Land in Anguish na versão em inglês, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ficou extasiado com “a humanidade e a paixão poderosas” do filme. O crítico francês Jean-Louis Bory saudou o filme no Le Nouvel Observateur como uma “ópera-metralhadora”. Outra francesa, a romancista Marguerite Yourcenar, definiu a obra como “ópera cinematográfica”. Premiado em Cannes, Havana e Locarno, o filme acabou proibido pela censura da ditadura militar.

Fonte: Zero Hora

Debate sobre O Capital celebra atualidade e força da obra de Marx

Junho 9, 2017

Entre os anos 1956 e 1964, um grupo de jovens professores universitários se reuniu para estudar a obra de Karl Marx, estes encontros ficaram conhecidos à época como Seminários Marx. Agora, mais de 50 anos depois, três destes já não tão jovens professores, se reuniram novamente, durante a 3º edição do Salão do Livro Político, em São Paulo, para celebrar a obra do filósofo alemão e debater a atualidade do Capital.

Por Mariana Serafini

A noite desta terça-feira (6), foi de celebração à obra de Marx durante o Salão do Livro Poítico, realizado na PUC-SP, na capital paulista. O painel “Nós que amávamos tanto O Capital” reuniu os professores José Arthur Giannotti, João Quartim de Moraes e Roberto Schwarz, com a mediação de Lidiane Rodrigues Soares, para debater a atualidade da máxima obra do filósofo alemão, O Capital.

O filósofo e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), João Quartim, destacou a permanência do marxismo como movimento de ideias que se mantém atual graças ao caráter duplo da obra: por um lado se propõe a emancipar a humanidade, e por outro pretende ser fundamento na lógica objetiva da evolução social.

“A força do marxismo não é apenas este movimento de emancipação adotado desde a origem por uma fração importante do movimento operário internacional, mas também o fato de remeter a um projeto político de emancipação universal da humanidade”, afirmou.

Arthur Giannotti, por sua vez, fez questão de relembrar o período em que o grupo se reuniu pela primeira vez e esclareceu os motivos que levaram estes jovens intelectuais a buscar respostas para o Brasil no marxismo. “Quando nós começamos a estudar Marx era basicamente para estudar um autor que nos desse ferramentas para entender a atualidade. Era um grupo basicamente universitário tentando entender a modernidade brasileira [no final da década de 50]”.

Passados mais de 50 anos da dispersão do grupo, Giannotti ressaltou que a leitura de O Capital é crítica. O intelectual acredita que sempre que houve supressão forçada da propriedade privada, característica que fundamentaria o capitalismo, criaram-se problemas sérios.

Já o crítico literário e professor de teoria literária Roberto Schwartz, falou sobre a configuração e a importância dos Seminários Marx para a consolidação do marxismo na academia brasileira, bem como as rupturas que ele implicou. Segundo ele, à época, os professores da USP reunidos no seminário entenderam que a realidade brasileira não cabia no marxismo, mas obrigava a teoria a se reformular, rompendo sua crosta dogmática.

O nome do painel é inspirado na obra homônima lançada recentemente pela editora Boitempo. Trata-se de uma coletânea de artigos dos três participantes da mesa, além do cientista político Emir Sader, cujo objetivo é retomar os estudos de meio século e refletir sobre a atualidade do tema.

O Salão do Livro Político começou na segunda-feira (5) e segue até a quinta-feira (8) com palestras, debates e exposições sobre diversos temas, entre eles o marxismo, a Revolução Russa, feminismo e a questão dos refugiados e dos povos indígenas. A programação completa pode ser conferida no site oficial do evento.