Contra congelamento de verbas, artistas ‘instalam’ geladeiras na Secretaria da Cultura

Março 28, 2017

Manifestantes reivindicam descongelamento do orçamento do setor na cidade de São Paulo e a retomada dos programas que empregam centenas de artistas e formam milhares de jovens.

por Rodrigo Gomes, da RBA

São Paulo – Artistas e trabalhadores da cultura protestaram hoje (27) contra o congelamento de 43,5% do orçamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, determinado pelo prefeito João Doria (PSDB). Os manifestantes instalaram geladeiras em frente à sede da secretaria, no Largo do Paissandu, centro da cidade. “Queremos o descongelamento imediato do orçamento aprovado na Câmara Municipal. Essa medida não afeta só a cultura, mas também educação, desenvolvimento social e humano, o direito à cidade”, diz o presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, Rudifran Pompeu.

Para Pompeu, a suspensão de tantos programas, muitos dos quais realizados há anos, é um grave retrocesso na cultura da capital paulista. “Em nenhuma outra gestão ocorreu algo assim. Isso se aproxima de um desmanche total das conquistas de quase duas décadas. Se querem fazer uma gestão melhor do que a anterior, faça mais coisas, mas não destrua o que está sendo feito”, disse o presidente da Cooperativa, lembrando que o ato não tem objetivos partidários. “Queremos que se cumpra a lei”, completou.

Os artistas saíram do Teatro Municipal às 17h. O local, que devia ser o palco principal do ato, foi totalmente cercado com grades pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), que posicionou várias viaturas no local. A Polícia Militar também acompanhou o ato a distância. A gestão Doria justificou o cercamento por conta do evento de lançamento do programa Nossa Creche, com a participação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o ministro da Educação, Mendonça Filho, que vai ocorrer no local a partir das 19h.

Para Pompeu, ainda que o evento explique as grades, o simbolismo é marcante. “Estas grades talvez sejam o melhor símbolo do que está acontecendo hoje na cidade. Os artistas recebidos no Teatro Municipal com grades, guardas e policiais. Como se estivéssemos sitiando o municipal”, lamentou. Também na sede da secretaria os portões foram fechados antes da chegada dos artistas.

Os artistas caminharam até a sede da secretaria cantando uma música composta para Doria e o secretário da Cultura, André Sturm. “Escute aqui senhor João Doria. Acaso sabe vossa senhoria? Cultura não é mercadoria!”, diz um trecho. À frente da marcha, atores levavam geladeiras para “presentear” prefeito e secretário. Estandartes, bonecos de Olinda, pernas de pau, pequenas cenas e danças ocuparam todo o trajeto.

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Paschoal da Conceição, eterno doutor Abobrinha, vestido como Mário de Andrade durante o protesto

Entre os projetos e programas – muitos previstos em Lei Municipal – afetados pelo congelamento estão os já citados Programa de Iniciação Artística (PIÁ) e Vocacional; os fomentos à Dança, ao Teatro, das Periferias, ao Circo; Jovem Monitor Cultural; o Programa de Valorização das Iniciativas Culturais (VAI e VAI II); além da programação de equipamentos culturais, tais como bibliotecas, centros culturais, Casas de Cultura e Centros Educacionais Unificados (CEU). No caso das bibliotecas, para as quais a atual gestão apresentou um projeto de revitalização, algumas propostas na verdade já existem, como os saraus de poesias nos espaços.

A maior parte dessas ações é realizada nas periferias da capital, com crianças e jovens que não têm outras possibilidades de acesso à formação cultural.

No caso do PIÁ e Vocacional, que existem há oito e 15 anos, respectivamente, os educadores vinham pleiteando há algum tempo que os projetos tivessem continuidade, já que são programas de formação. No último ano da administração Fernando Haddad (PT), a Secretaria da Cultura criou um processo de avaliação para efetivar a continuidade de parte dos projetos. Foram selecionados 336 profissionais para atender cerca de 8 mil crianças e adolescentes. No entanto, nesta semana, a gestão Doria decidiu que o processo não vale. E, em vez de realizar um novo edital para seleção, vai seguir a lista do edital passado, chamando inscritos após o último selecionado.

No início do mês, suspendeu um edital do Fomento à Dança, que já estava com todos os projetos prontos para análise da comissão julgadora. Nesta semana, comunicou os educadores do PIÁ e do Programa Vocacional que eles não poderiam dar sequência aos projetos bianuais, modelo criado na gestão Haddad. A análise de projetos do VAI está atrasada e deve ter a verba reduzida em relação aos anos anteriores.

Segundo Pompeu, os artistas estudam ingressar com ações judiciais para questionar o descumprimento das leis municipais pelo prefeito. “Depois desse ato, o próximo passo é estudar as medidas que vão além da tentativa de diálogo. Ainda esperamos que a prefeitura reveja a decisão, mas, se isso não ocorrer, vamos tomar todas as iniciativas que pudermos”, afirmou.

Nas redes sociais, o secretário afirma que o congelamento foi um “engano”. “Desde que se deparou com esta situação a Secretaria vem lutando diariamente para conseguir o descongelamento destes valores. Desde o início do ano já conseguiu descongelar cerca de R$ 30 milhões para essas atividades”, disse Sturm.

Cem anos de solidão de Aracataca-Macondo

Março 23, 2017
Calle 2

Fachada de uma residência em Aracata

Fachada de uma residência em Aracata

Quando cheguei a Aracataca − depois de cinco horas de jornada rumo ao interior da Colômbia, saindo de Cartagena, balançando em um ônibus velho e sem ar-condicionado, parando por entre ambulantes em Barranquilha, tendo que pegar um taxi até a rodovia e balançando outra vez em um ônibus velho e sem ar-condicionado −, comecei a entender a solidão. Não a interna, que nos assola vez por outra nas noites insones e nos momentos sofridos. Mas a geográfica, de um povoado-ilha, rodeado por nada, a horas de distância de qualquer cidade grande. Aracataca vive no esquecimento.

Nesta aldeia ilhada, vi o asfalto vibrar com o calor constante de 40 graus, cachorros serelepes puxarem meu vestido, vi um moço triste de chapéu de palha sobre uma carroça vazia e senhoras passeando debaixo da sombrinha por entre ruas empoeiradas. Vi tendas de açougue com nacos de carne dependuradas como mochilas, incontáveis bares com bilhar, água potável sendo vendida em sacos plásticos, crianças uniformizadas com saia plissê e meia até o joelho e uma infinidade de motos atrapalharem o silêncio de um povoado onde não acontece nada.

Foi ali, naquele povoado onde o tempo dá voltas em círculos que nasceu, em 6 de março de 1927, o escritor que viria a ser o terceiro latino-americano a ganhar o prêmio Nobel de literatura. E era da mente mágica deste célebre escritor que o povoado perdido e solitário seria imortalizado como Macondo, a cidade dos Buendía em Cem Anos de Solidão.

Macondo é Aracataca e Aracataca é Macondo. Ali existe um rio com pedras polidas como ovos pré-históricos, borboletas amarelas e miúdas como as que giravam em torno de Remédios, um calor infernal que faz do gelo um dos melhores inventos da humanidade e existem as chuvas e inundações do rio Aracataca (que provavelmente inspiraram Gabo a colocar quatro anos de dilúvio ininterrupto em Macondo, onde, no dia seguinte, era possível contemplar peixes voando pelos ares devido à grande umidade).

Aracataca é tão Macondo que em 2006 houve um referendo para mudar o nome da cidade para ‘Aracataca-Macondo’. Porém, não houve votantes suficientes. Dos 22 mil eleitores do povoado, era necessário que 7.380 pessoas comparecessem às urnas, mas apenas 3.592 se deram ao trabalho. (Apesar da anulação do referendo, a mudança de nome era favorita: apenas 250 moradores queriam manter a tradição do batismo).

O povoado, antes de ser uma aldeia, era uma fazenda, e, lentamente, como Macondo, foi sendo construída às margens do rio por refugiados da guerra civil colombiana, em 1851.

Um livro do jornalista Rafael Giménez, que conta a história da cidade, destaca o caráter amigável entre seus fundadores. “Como refugiados, iniciaram seus trabalhos com harmonia, consolidando uma homogeneidade social e atitude de tolerância com os vizinhos. Aracataca se cimentou como um povoado de grande diversidade de origem, onde predominou a exploração primária da agricultura e da madeira”.

Em 1894, a aldeia tinha apenas uma rua, que ia do rio até o antigo cemitério, onde hoje está a praça Bolívar. Parecia erguida pelas próprias mãos de José Arcadio Buendía, “que era o homem mais empreendedor que se poderia ver na aldeia, determinara de tal modo a posição das casas que a partir de cada uma se podia chegar ao rio e se abastecer de água com o mesmo esforço; e traçara as ruas com tanta habilidade que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. Dentro de poucos anos, Macondo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa que qualquer das conhecidas até então pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém ainda havia morrido.”

Se hoje está imersa no ostracismo e na solidão – interrompidos apenas por turistas desavisados que vão à cidade por causa do escritor –, Aracataca já teve teus tempos de glória, quando atraía gente do mundo inteiro atrás de emprego e prosperidade.

Em 1906 chegou à cidade a linha férrea, em 1908 a região recebeu a visita do então presidente General Rafael Reyes e, em 1912, com a inauguração da empresa estadounidense United Fruit Company, Aracataca ganhou sua independência como município e começou a viver tempos de prosperidade. A multinacional bananeira trouxe consigo trabalhadores de diversas nacionalidades – franceses, árabes, espanhóis e venezuelanos.

No início da década de 20, o povoado tinha um clima cosmopolita – por suas ruas, escutavam-se diversos idiomas, enquanto os homens ‘da sociedade’ caminhavam pelas calçadas com chapéus de feltro e frequentavam o Carnaval ou as cumbiamabas (festas para dançar a cumbia, dança folclórica cubana que mistura ritmos indígenas e africanos), regados a rum Cataca.

Hoje, um observador detalhista consegue ver o então esplendor de Aracataca. Suas casas na região central têm uma sutil imponência e, até hoje, há ruas com nomes de estrangeiros, como a calle de los Turcos e a calle de los Italianos.

Foi nesta época que o pai de Gabo, Gabriel Eligio García, então telegrafista, se apaixonou por Luiza Santiaga Márquez. O pai de Luiza era contrário ao casamento dos dois, e, depois de muitas serenatas, cartas de amor e insistência, conseguiram se casar em Santa Marta em 1926, numa história que posteriormente inspiraria García Márquez a escrever O Amor nos Tempos do Cólera.

Após o nascimento de Gabo, seus pais mudaram-se para Barranquilha, e Gabito ficou com seus avós maternos em Aracataca. Daí viriam importantes influências à escrita de Gabo. A avó, Tranquilina Iguarán Cotes, era uma mulher “imaginativa e supersticiosa”, que teria inspirado a personagem Úrsula Iguarán.

O avô, Coronel Márquez, era um exímio contador de histórias e muito do que apresentou a Gabito está imortalizado em seus livros. Como a história do gelo, que está na primeira frase de Cem Anos de Solidão (quando criança, o avô de Gabo o levava à loja da United Fruit, a única com energia elétrica naquela época, para o neto colocar a mãos nos cristais resfriados, que pareciam que ‘ferviam’). E como a história do massacre das bananas.

No livro, José Arcadio Segundo é sindicalista e lidera a greve dos trabalhadores de Macondo. Numa noite, reunidos na praça da estação férrea, eles são alvo do exército, que atira na multidão.

O episódio da matança realmente aconteceu, em dezembro de 1928, quando Gabo tinha um ano de idade. Os trabalhadores da United Fruit, em greve, se encontram na estação de trem de Ciénaga, a 50 km de Aracataca. Trezentos soldados do exército fuzilam os manifestantes (em um tiroteio que durou 15 minutos), e o número de mortos é até hoje um mistério. O general responsável pela matança falou que foram 47. O então embaixador dos Estados Unidos estimou cerca de mil assassinados. E há quem diga que foram cinco mil mortos.

O avô de Gabo não se conformava com o silêncio em torno do massacre, apesar de o exército ter deixado, na estação, nove cadáveres. E, no livro, García Márquez ironiza, brilhantemente, o episódio.
Arcadio Segundo, depois do tiroteio, desmaia e acorda em um vagão de trem, com milhares de cadáveres. Ele salta, foge, e, ao voltar para sua casa, em Macondo, se surpreende com o fato de que ninguém sabia da matança. Os coronéis enterram o assunto dizendo que “Em Macondo não acontece nada, nunca aconteceu nada e nunca acontecerá. É um povoado feliz”.

Depois da matança real, como numa revolta dos céus, a United Fruit e toda a região bananeira entram em decadência com o crack da Bolsa de 1929, e Aracataca entra no ostracismo. O próprio Gabo saiu de lá para Barranquilha com 8 anos de idade e só voltaria em 1983, um ano depois de ganhar o Nobel.

A United Fruit permaneceu na cidade até 1966, mas já não atraía trabalhadores estrangeiros. Os carnavais e as cumbiamabas desapareceram na década de 40. A cidade ganhou então esse clima nostálgico, solitário e melancólico. Aracata começa a viver problemas similares aos atuais: desemprego, falta de oportunidade, falta de saneamento e altas taxas de analfabetismo.
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Rafael Darío tem a pele cor de madeira, olhos puxados e cabelo preto abaixo da orelha. Parece mais jovem que seus 57 anos. Ele é jornalista e escritor e me conta que, na década de 60, plantações de maconha invadiram La Guajira (Estado da Colômbia, na divisa com a Venezuela) e a Serra Nevada, perto da cidade. A bonança do narcotráfico teria durado até finais da década de 80, quando a cocaína começa a ganhar projeção nacional e, principalmente, a atenção dos narcotraficantes.

“Nas dedécadas de 70 e 80, às vezes acabava a luz da cidade, e todos sabíamos que era a hora de passar caminhões lotados de maconha rumo ao porto de Santa Marta.” Nesta mesma época, o silêncio dos céus da cidade era interrompido pelo roncar de aviões bimotores – também destinados ao transporte da erva.

Hoje, nem banana nem maconha. Segundo Darío, o principal cultivo da região é palma africana, cuja semente produz um óleo, conhecido no Brasil como azeite de dendê.
O problema da palma é que ela empobrece o solo.

“Em Aracataca não acontece nada, nunca aconteceu e não acontecerá. É um povoado feliz”. Escuto a frase da boca de Tim Aan´t Goor, que se autodenomina Tim Buendía, 31, um holandês de 1,98 metro de altura, que viajou o mundo, especialmente a América Latina, e terminou decidindo ficar em Aracataca. Abriu uma pousada com três quartos para os hóspedes – a única da cidade. (Uma reportagem em um jornal colombiano me contou que a pousada de Tim foi recentemente fechada, e que ele retomou suas andanças pelo mundo.)

A frase foi adotada pelos ‘cataqueros’ como um lema – não metafórico – da cidade. Cheguei a vê-la impressa num folheto da prefeitura. Aliás, frases de Cem Anos de Solidão e referências à Gabo são constantes na cidade.


Pelas ruas de Aracata

No portal de entrada de Aracataca, um mural de cimento com um desenho de Gabo e rodeado por borboletas amarelas tem uma frase: “Me sinto latino-americano de qualquer país. Mas sem renunciar nunca à saudade da minha terra, Aracataca, onde regressei um dia e descobri que entre a realidade e a nostalgia, estava a obra prima da minha obra”.

Há ainda a escultura de um livro, com borboletas amarelas esvoaçantes e a estátua de Remédios seminua. Há bilhares chamados Macondo, e há vários trechos de Cem Anos de Solidão na fachada de casas e de insistuições públicas.

Além da possibilidade mágica de voltar no tempo e e entender o ritmo de vida do século passado, não há muito o que fazer em Aracataca. A casa onde Gabo passou a infância é hoje um museu. Na casa do telegrafista, onde trabalhava o pai de Gabo, há fotos da família, uma máquina velha de escrever, um telégrafo e pouco mais.

Apesar da solidão e da sensação de que não há muito o que fazer, minha ida à Aracataca-Macondo foi marcante. Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de voltar um século no tempo e conhecer a inspiração de um gênio da literatura.

Fonte: Calle 2

EM INTERVENÇÃO DURANTE MOSTRA DE TEATRO, SECUNDARISTAS PROMETEM NOVAS MOBILIZAÇÕES

Março 21, 2017

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Texto de Sarah Fernandes, da Rede Brasil Atual

São Paulo – Alunos Secundaristas da rede pública de ensino de São Paulo realizaram uma série de intervenções artísticas durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – que começou dia 14 e  se encerra nesta terça (21), em diversos teatros da capital paulista – com o intuito de relembrar e compartilhar experiências das ocupações de escolas realizadas no ano passado. Sem que fossem anunciados, os estudantes encenaram “Atos de Resistência II” após o termino de pelo menos duas peças do circuito, surpreendendo a plateia com encenações cheias de energia e engajamento político.

As apresentações terminaram com promessas de mobilizações contra as diversas reformas propostas pelos governos federal, estadual e municipal, como a reforma do ensino médio, da Previdência e a reforma trabalhista. “Fica preparado que com a reforma vai ter luta!”, cantaram os jovens.

Uma das apresentações dos secundaristas foi realizada no domingo (19), depois da peça chilena Mateluna, uma obra sobre o militante Jorge Mateluna, que lutou na Frente Patriótica Manuel Rodriguez, no Chile. Quando o público já se preparava para deixar o teatro João Caetano, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, os estudantes entraram correndo pelos corredores gritando “vamos ocupar! Essa é a minha escola e ninguém vai me tirar”. Era o começo da mobilização em linguagem cênica.

“9 de novembro de 2015, escola estadual Onório Monteiro, ocupada!” maio de 2016, Etec das Artes, ocupada!”, bradava os jovens, lembrando as escolas ocupadas e datas marcantes para o movimento. Eles percorreram as fileiras contanto para os espectadores particularidades das ocupações: “nós tínhamos arrecadado tanta comida, pra semana inteira, mas eram muitos jovens e acabamos comendo quase tudo em um dia”, confidenciou uma jovem. “Eu me inspirei nos estudantes do Chile”, disse outra. “Uma das melhores refeições da minha vida foi uma lasanha que comemos na ocupação e não porque era lasanha, mas porque estávamos comendo todos juntos”, contou uma aluna.

“O Choque! Olha o Choque!”, gritavam os jovens em referência à repressão policial, relembrando os momentos mais tensos das ocupações. Os jovens entoaram palavras de ordem e finalizaram a apresentação com um jogral, principal forma de pronunciamento adotada pelos estudantes durante as mobilizações. “Nós estudantes secundaristas, organizados de forma autônoma, horizontal e democrática, estamos aqui hoje para reivindicar educação pública. O Estado há muito tem feito ataques e projetos de precarização da educação, seja privatizando reformando ou fechando escolas. Nós  estamos aqui pra mostrar que estamos vivos e seguimos lutando!”

O público, surpreendido, foi levado até a rua pelos secundaristas e foram aplaudidos de forma bastante emocionada. “Não adianta falar que é vandalismo. A gente vai ocupar tudo. Vamos ocupar as ruas, vamos ocupar as escolas e vamos ocupar os teatros, vamos ocupar o mundo e não vai falar que é vandalismo, porque vandalismo é o que fazem com as nossas vidas!”, disseram os estudantes em jogral. “Pacífico? Pacífico é só o oceano! O nome disso aqui é revolta!”

O trabalho encenado pelos jovens foi coordenado pela atriz e performer Martha Kiss Perrone, num trabalho artístico com estudantes secundaristas que participaram de ocupações ao longo de 2016, contra a aprovação da Emenda Constitucional 95, que limita por 20 anos os investimentos públicos em diversas áreas, como saúde e educação. Pelo menos 1.198 escolas no país foram ocupadas no movimento, naquela que foi considerada a maior mobilização de estudantes do país.

Alguns dos integrantes participaram também do movimento de ocupações de escolas estaduais de São Paulo, iniciado no final de 2015, contra o projeto de reorganização escolar anunciado pelo governador Geraldo Alckmin, que pretendia fechar 94 escolas e transferir compulsoriamente 311 mil estudantes.

Como resposta, os secundaristas chegaram a ocupar 213 no estado, no auge do movimento, em 2 de dezembro. Após 25 dias de intensa mobilização, o governador foi a público suspender o projeto e em seguida, o então secretário estadual da Educação, Herman Voorwald, pediu demissão.

A Mostra Internacional de Teatro deste ano traz para São Paulo espetáculos de seis países: África do Sul, Alemanha, Bélgica, Brasil, Chile e Líbano. Os ingressos para as peças custam R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira) e as atividades de formação e reflexão são gratuitas. Um desses temas centrais do evento esse ano é “negritude, do racismo, do protagonismo negro e do empoderamento”. Pelo menos três espetáculos abordam o tema: Branco: o cheiro do lírio e do formolA Missão em Fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesaBlack Off.

 

A ESCRAVIDÃO PERSISTE NO BRASIL. NESTA TERÇA RODRIGO MAIA QUER COLOCAR EM VOTAÇÃO A DEFORMA DA CLT QUE ACABA COM TODOS OS DIREITOS DOS TRABALHADORES

Março 20, 2017

É de interesse do capital internacional e nacional brasileiro que o trabalho escravo continue no nosso país. Isso será mantido se aprovada a deforma da CLT na Câmara dos Deputados, nesta terça-feira, dia 21. Para propor linhas de corte, publicamos a paródia da estudante Maryana Emilly Alvarenga Costa. Tendo o Romantismo como movimento filosófico, artístico e literário, Maryana compõe 4 estrofes com a Terceira Geração Romântica Condoreira,  viajando no  Navio Negreiro de Castro Alves, canto V, mais uma invocação contra tanta violência e crueldade em tempo difíceis por que passa o Brasil. Leiamos:

Senhor Deus! Será que não ouves

O silêncio gritante dos escravos?

Será que não podes por um fim

Em seus fardos pesados?

A ausência de alegria, amor e sorriso,

É pior do que a desejada morte

Presos em correntes dia e noite,

Parece que roubaram deles a sorte.

Deus dos acorrentados! onde estais

Que não ouves os choros abafados?

A cor negra de raça, de força e garra

Agora sofrem com mãos e corações aprisionados.

A cor da nação, terra e povo

Não deixe Senhor que morram de desgosto.

Não os deixem viver na prisão e escuridão

Deus dos acorrentados, os livrem da escravidão.

Morre Chuck Berry, um dos pais do rock and roll

Março 20, 2017

O compositor, guitarrista e cantor norte-americano Chuck Berry, um dos pais do rock and roll, faleceu neste sábado aos 90 anos, em Saint Charles, no estado de Missouri, Estados Unidos.

“O Departamento Policial do condado de Saint Charles tristemente confirma a morte de Charles Edward Anderson Berry, mais conhecido como o lendário músico Chuck Berry”, assinala um comunicado da polícia local. Os agentes receberam um alerta de emergência às 12h40, hora local (às 14h40, horário de Brasília) na rua Buckner. Na casa, os trabalhadores dos serviços de emergência acharam um homem inconsciente e, apesar de ter tentado reanimá-lo, não puderam fazer nada por sua vida. O óbito foi certificado às 13h26, hora local (15h26, horário de Brasília).

Mais de 60 anos na estrada do rock

Desde o primeiro hit, “Maybellene”, em 1955, Berry compôs uma coleção de músicas que se tornaram partes essenciais dos primórdios do rock: “Roll Over, Beethoven”, “Rock & Roll Music” e especialmente “Johnny B. Goode” eram odes à nova forma de arte que surgia – músicas tão importantes que tinham que ser dominadas por qualquer banda ou guitarrista novatos que viessem depois de Berry. Na adolescência, Keith Richards e Mick Jagger se aproximaram graças à paixão em comum pela música de Berry, e nas últimas cinco décadas as canções dele foram reinterpretadas por uma impressionante quantidade de artistas: desde os Rolling Stones, Beach Boys, The Kinks, The Doors e Grateful Dead até James Taylor, Peter Tosh, Judas Priest, Dwight Yoakam, Phish e os Sex Pistols.

Misturando blues e country, Berry também inventou um próprio estilo de guitarra que foi imitado por bandas desde os Stones e os Beach Boys até os grupos de punk rock. As letras dele – a maioria sobre sexo, carros, músicas e problemas – introduziram um novo vocabulário à música popular dos anos 1950. Nas canções, Berry captava a nova prosperidade pós-guerra dos Estados Unidos – um mundo, como ele cantou em “Back in the U.S.A.”, no qual “hambúrgueres chiam em uma grelha aberta dia e noite”. “Eu fiz discos para as pessoas que os comprariam”, Berry disse uma vez. “Sem cor, sem etnia, sem política – eu não quero isso, nunca quis.”

Nos anos recentes, Berry recebeu o Lifetime Achievement Award (prêmio pelas conquistas de toda a carreira) no Grammy de 1986 e entrou para o Hall da Fama do Rock.

Nascido em St. Louis no dia 18 de outubro de 1926, Charles Edward Anderson Berry aprendeu a tocar blues na guitarra enquanto era adolescente e se apresentou pela primeira vez no show de talentos da escola. Música foi seu primeiro amor, mas não necessariamente a primeira escolha de carreira. Filho de um carpinteiro, Berry trabalhou na linha de produção da General Motors e estudou para ser cabeleireiro. Com o pianista Johnnie Johnson (presença constante da banda ele nos anos seguintes), Berry formou um grupo em 1952. Depois de conhecer a lenda do blues Muddy Waters, Berry foi apresentado ao fundador da Chess Records, Leonard Chess, em 1955. Ele levou com ele uma música baseada no som country “Ida Red”. Com um novo título e letra, a música foi transformada em “Maybellene”. Depois, quando voltou lá, Berry levou a gravação dele da música e assinou imediatamente com a gravadora. “[a Chess] não conseguia acreditar que um som de country podia ser escrito e cantado por um cara negro”, Berry escreveu mais tarde, em 1987, no livro de memórias Chuck Berry: The Autobiography.

Chuck interpreta “Maybellene”, em 1958

“Maybellene” chegou ao topo das paradas em 1955 e firmou a carreira e som de Berry. No fim dos anos 1950, ele tinha outros sete grandes sucessos: “Roll Over Beethoven”, “School Day”, “Rock & Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”, “Johnny B. Goode”, “Carol” e “Back in the U.S.A.” Cada música tinha as marcas registradas de Berry: aquela mistura de batida propulsora, charme pesaroso e guitarra vibrante.

Em 1966, Berry saiu da Chess, a gravadora de longa data dele, e foi para a Mercury, mas o resultado foi uma série de discos abaixo do padrão e regravações fracas dos hits dele (uma notável exceção é uma jam com a Steve Miller Band no disco de 1967 Live at the Fillmore Auditorium). Em 1969, ele retornou à Chess e voltou a criar canções mais impactantes, como “Tulane”. Em 1972, emplacou um sucesso novamente com “My Ding-a-Ling”. O último disco de inéditas dele, Rock It, foi lançado em 1979.

Até a morte, Berry (que deixa para trás a esposa Themetta “Toddy” Suggs, com quem ele se casou em 1948, e quatro filhos) continuou a se apresentar em boates e cassinos. Ele morava em St. Louis mas costumava passar algum tempo em Berry Park, uma propriedade nos arredores de Wentzville, no Missouri. Como ele disse à Rolling Stone EUA em 2010, ele até ainda cortava a grama de lá. Questionado pela RS EUA em 1969 sobre o papel do rock, Berry disse: “Como qualquer tipo de música, ela une todo mundo, porque se duas pessoas gostam da mesma música, elas podem ficar lado a lado balançando e vão acabar dançando, e é uma questão de comunicação… então eu digo que é um meio de comunicação, mais do que outros tipos de música, para os jovens”.

Chuck Berry e John Lennon interpretam “Johnny B Goode”:

CANÇÃO MANAUARA

Março 19, 2017

Em tempos de “escândalo” da carne podre, carne fraca,  publicamos a paródia do afinado Kalyan Iauacanã da Silva Oliveira a buscar no Romantismo de Gonçalves Dias que tematizava a saudade de sua pátria quando lá em Portugal vivia a pensar no Brasil.

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Minha terra tem farinha,

Que não se encontra em qualquer lugar,

Tem a branca e a baguda,

Que fazem nossos dentes rachar.

Nossa mata tem o macaco,

Nosso céu tem urubu,

No lago tem a canoa,

E no rio tem o pacu.

Em pensar que o bodó é bom,

O jaraqui é muito mais,

Em pensar naquela farinha,

Desse jeito emagrecer jamais.

Minha terra tem muitas lendas,

Que tais nos fazem acreditar,

Em cismar com medo à noite,

Mais sombrias elas irão ficar,

Minha terra tem muitas lendas,

Onde no futuro irei participar,

retirando o golpista Temer

para meu Brasil melhorar.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu pare de jantar,

Sem que eu cisme com nossas lendas,

Que não se encontram em todo lugar,

Sem que eu ainda coma a farinha,

Onde no final um açaí irei degustar.

 

 

 

 

Projeto musical em São Paulo faz audições comentadas de discos em vinil

Março 18, 2017

Centro de estudos Uirapuru toca neste sábado (18), obras de Villa Lobos e mostra a trajetória musical e a história do maestro. Galinhada no jantar fecha a experiência dos participantes.

São Paulo – O centro de estudos musicais Espaço Uirapuru, de São Paulo, realiza neste sábado (18) nova edição de seu projeto mensal VinilCultura. A proposta é promover audições públicas de discos de vinil de alguns dos principais nomes da música brasileira, comentadas pelo pesquisador Euclides Marques, seguido de jantar entre os participantes. Desta vez, o “convidado” da noite será o compositor Heitor Villa-Lobos, considerado o maior criador da música erudita brasileira e que completaria 130 anos no dia 5 de março.

Os participantes terão a experiência de ouvir discos de vinil originais que contam a trajetória musical, além de conhecer mais sobre a vida, a obra e as polêmicas que giraram em torno do maestro.

Entre os LP´s selecionados para a audição deste sábado, estão as obras mais conhecidas de Villa-Lobos, como as Bachianas Brasileiras, os Choros de Câmara e as peças para piano e violão. Além destas, o pesquisador apresentará peças menos conhecidas, como os concertos para harpa e o para sax, composições para música vocal e canto orfeônico. A audição é oportunidade também para conhecer alguns dos principais intérpretes do músico, como o violonista Andrés Segovia, o pianista Artur Rubinstein e as sopranos Bidu Sayão e Victoria de Los Angeles

“Mostrarei, por exemplo, o último disco que ele gravou, com a Fantasia Concertante para Orquestra de Violoncelo de um lado, e arranjos seus para música de Bach de outro”, diz o pesquisador, anunciando o Villa-Lobos intérprete e regente de sua própria obra também se´ra aboreado, com a audição dos discos regidos por ele mesmo.

Os discos da audição fazem parte de uma coleção de 5000 LP´s de Euclides Marques, e serão tocados em equipamentos hi-end, numa sala com tratamento acústico especial para audições.

Após a apresentação, será servida uma “galinhada” no jantar, às 19h30, “para combinar com a brasilidade da música de concerto de Villa-Lobos”, segundo a promotora do evento, Mariana Queiroz.

Localizado no bairro de Vila Mariana, zona sul de São Paulo, o Espaço Uirapuru é um centro de estudos e apresentações musicais idealizado pelos violonistas Euclides Marques, Zé Garcez e Luizinho 7 Cordas.

Serviço:

VinilCultura – 130 anos de Villa-Lobos

Data: 18/03

Horários: abertura da casa: 17h / apresentação: 18h / jantar: 19h30

Espaço Uirapuru – Rua Comendador Paulo Brancato, 49. Vila Mariana – SP (Esquina com Rua Sud Menucci)

Ingressos : Audição: R$ 40,00 / Audição + jantar: R$ 60,00

Telefone: (11) 2639-9065

No vídeo a seguir, Euclides Marques e Luizinho 7 Cordas interpretam canções de Dilermando Reis:

Livro escrito por filha sobre Genoino será lançado nesta quinta em São Paulo

Março 17, 2017

Obra editada por meio de financiamento coletivo trata da relação da família antes, durante e depois da prisão.

São Paulo – O livro Felicidade Fechada, de Miruna Genoino, será lançado na noite de hoje (16), na ViaTV, no Butantã, zona oeste de São Paulo. Publicada por meio de financiamento coletivo, a obra traz uma narrativa pessoal da filha do ex-deputado José Genoino, falando sobre a trajetória política do pai e as relações da família desde as acusações, a partir de 2005, que resultaram na prisão do militante, e sua liberdade, obtida em 2014. Há outros lançamentos previstos, no dia 29 (no Sindicato dos Bancários do Distrito Federal) e em 3 de maio, no Rio de Janeiro.

Com 240 páginas, o livro traz imagens “políticas e poéticas”. Os manuscritos chegaram a ser recusados em alguns locais, até que a Editora Cosmos propôs uma campanha na plataforma digital Catarse. Os recursos foram obtidos em apenas 11 dias. O valor total, de R$ 90 mil, superou a meta inicial. A solidariedade já havia se manifestado em 2014, quando a Justiça impôs uma multa pela condenação de Genoino: na época, 2.624 pessoas contribuíram para uma campanha de arrecadação. O livro é dedicado a elas.

“Durante o período da decretação da prisão de José Genoino, em 2014, Rioco Kayano, companheiro de José Genoino, tivera a ideia de bordar num grande tecido o pássaro Fênix – aquele que renasce das cinzas – com a frase do poeta Mário Quintana: ‘Todos os que estão a atravancar o meu caminho, eles passarão, eu passarinho‘, citada na carta de renúncia de Genoino ao cargo de assessor do Ministério da Defesa. Homens, mulheres, crianças, idosos, militantes, amigos, pessoas públicas, juntaram-se, na ocasião, bordando pássaros coloridos numa alusão à luta pela liberdade na trajetória política da família”, diz o texto de apresentação do livro.

Cartas

O livro traz a correspondência trocada entre Miruna e o pai. Foram mais de 100 cartas, no período que vai de 3 de maio a 11 de agosto de 2014, quando Genoino deixa um curto período de prisão domiciliar e retorna ao presídio da Papuda, no Distrito Federal. Assim, é retomado um antigo hábito de Miruna e do caçula Ronan Kayano, que quando crianças costumavam escrever cartinhas ao pai. O tom familiar é reforçado com desenhos dos netos Paulinha e Luis, fotos e retratos pintados por Rioco.

Hoje, o que eu mais gostei de ouvir de você foi que o corpo fica preso, mas sua alma jamais. Que a mente nunca pode ficar presa, escreveu Miruna (“Mimi”) ao pai em 9 de julho de 2014.

A apresentação foi escrita pelo agora vereador Eduardo Suplicy (PT), ex-companheiro de Parlamento de Genoino. Segundo ele, Miruna “escreveu um dos mais belos e comoventes depoimentos que já li ao longo de minha vida sobre quaisquer acontecimentos, pessoas ou episódios da História”. Suplicy afirma que durante toda sua longa convivência com Genoino “nunca soube de qualquer palavra ou ação que pudesse significar uma ilicitude, muito menos qualquer ato  de enriquecimento ilícito”.

“Sou também testemunha de como Genoino e sua família sempre tiveram uma vida modesta”, acrescenta Suplicy. “Eis porque considero muito relevante a iniciativa de Miruna Genoino de escrever este depoimento tão bonito e sincero sobre as batalhas que seu pai travou e o verdadeiro calvário por que passou.”

O posfácio é do próprio José Genoino, que conta ter deixado de ser “100% política”, com candidaturas, atuação partidária e participação no governo Lula, para pensar mais na mulher e nos filhos.

“A partir de 2005, tive que fazer uma espécie de retorno revisado do que vivi quando iniciei minha militância política em 1967, e isso desaguou numa mudança, um reajuste da minha relação com a família, com a Rioco, com o Ronan, a Miruna e a Mariana – a filha que mora em Brasília (Mariana é irmã deles por parte de pai). Antes, eu decidia muita coisa, opinava e escolhia, depois, a partir de 2005, tomei a decisão de discutir tudo com eles. Fui jogado num tsunami muito tormentoso, violento, e essa relação familiar foi o barco que me segurou. (…) Agora estou fazendo política de outra forma. Passei a colocar a minha família na política. Conversei com a Miruna, a Rioco, o Ronan, a Mariana, assuntos que não conversava antes porque ficava embalado naquela missão que estava destinado a cumprir. Esse é o sentido de uma militância política.”

Genoino retomou atividades, com discrição. “Não quer mais holofotes, mas espera paciente, junto de todos nós, o dia em que seu nome será libertado de vez, e sua história será resgatada pela verdade”, escreve Miruna.

 

Libertadoras da América: 6 mulheres que lutaram pela independência

Março 15, 2017

Elas não só estiveram nas frentes de batalha como participaram assumindo outros tantos papeis para a formação das novas pátrias na América Latina. Nos livros de História, no entanto, há pouca ou nenhuma menção às mulheres que participaram das lutas pela independência no século 19 na região.

Por Marcelle Souza

Para Natividad Gutiérrez Chong, pesquisadora da Unam (Universidad Nacional Autónoma de México), não há muitas fontes históricas que tenham registrado a participação de mulheres nessa época, de modo que “aquelas de quem sabemos algo é porque estiveram vinculadas sentimentalmente com homens ligados à causa”, diz.

Além disso, a pesquisadora e autora de livros sobre o tema diz que outros problemas causaram a invisibilidade histórica dessas personagens: “O analfabetismo de mulheres era altíssimo, inclusive entre mulheres de maior nível socioeconômico ou político, situação que é notória até o fim do século 19”.

No livro “América Latina no século 19: tramas, telas e textos”, a professora e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Maria Ligia Coelho Prado diz que a participação política das mulheres durante as lutas pela independência “precisa ser levada em consideração, pois sua presença e comportamento não têm sido suficientemente notados e valorizados”.

“Entre os nomes mais conhecidos atualmente, estão a baiana Maria Quitéria, que chegou a se vestir de homem para lutar no exército insurgente, e Josefa Ortiz de Domínguez, mexicana que ficou conhecida por dar o ‘grito da Independência’”, diz.

Há outras tantas desconhecidas, que exerceram distintos papéis e contribuíram nos movimentos de libertação. “Quando se fala em exército, nesse período, imaginamos sempre homens marchando a pé ou a cavalo, lutando. Esquecemo-nos de que as mulheres, muitas vezes com filhos, acompanhavam seus maridos-soldados; além disso, como não havia abastecimento regular das tropas, muitas trabalhavam – cozinhando, lavando ou costurando – em troca de algum dinheiro”, escreveu Prado.‎

Conheça seis heroínas da Independência:‎

1 – Maria Quitéria de Jesus

A jovem baiana de família simples vestiu-se de homem para lutar contra as forças do general Madeira. Em sua imagem mais conhecida, adaptou um saiote do modelo escocês, que tinha visto em algumas pinturas, sobre o uniforme de batalha.

“Não sabia ler ou escrever, mas ouviu histórias na pequena propriedade de seu pai, no interior da Bahia, sobre a opressão de Portugal, fazendo seu coração ‘arder de amor à pátria’. Fugiu para a casa da irmã casada, que a ajudou a vestir-se de homem para, assim, poder entrar para o exército patriótico. Participou de algumas batalhas, distinguiu-se em ação e finalmente foi recebida pelo imperador, em agosto de 1823, que a condecorou com a ordem do Cruzeiro e a promoveu a alferes”, conta Maria Ligia Prado.

‎2 – Manuela Eras y Gandarillas

Era de Cochabamba, que mais tarde se transformaria na Bolívia, e teria participado de várias ações armadas, entre elas de um ataque ao quartel dos veteranos realistas em 1815.


Estátua em homenagem a Manuela Gandarillas

Segundo a professora Maria Ligia Padro, conta-se que Manuela, ao ver aproximar-se um ataque à cidade, notando certa vacilação por parte do pequeno grupo de soldados, teria afirmado: “Se não há mais homens, aqui estamos nós, para enfrentar o inimigo e morrer pela pátria”.

Manuela era da aristocracia e liderou o grupo que ficou conhecido como “Las Heroínas de la Coronilla”.‎

3 – Juana Azurduy de Padilha

Nasceu em Sucre, Bolívia, em 1780 e junto com o marido, Manuel Ascencio Padilla, que era fazendeiro, liderou um grupo de guerrilheiros. Participou de 23 ações armadas pela Independência. Chegou a perder todos os seus bens nessas lutas.

“Ganhou fama por sua coragem e habilidade, chegando a obter a patente de tenente-coronel. Havia um grupo de mulheres, chamado ‘las amazonas’, que a acompanhava nos combates”, diz Prado. Em uma dessas batalhas, seu marido foi morto, mas Juana conseguiu escapar e continuou na luta guerrilheira.

Após a Independência, chegou a receber uma pensão do governo pelos serviços prestados à luta pela independência, mas o benefício foi logo interrompido. Morreu pobre aos 80 anos. Atualmente o aeroporto de Sucre leva o seu nome.‎

4 – Manuela Sáez

Filha de uma mestiça e um espanhol, Manuela Sáez passou para a história como amante de Simón Bolívar – ele sim ficou para a história como um dos heróis do século 19 na América Latina. Manuela foi casada com um médico inglês, de quem se separou para acompanhar Bolívar, que conheceu em 1822 em Lima, no Peru.

“Muito se escreveu sobre sua independência, inteligência, sagacidade e iniciativa. Cuidou dos arquivos de Bolívar em sua estada no Peru, escreveu cartas que ele ditava e salvou-o, segundo testemunhos diversos, de duas tentativas de assassinato. Depois da morte do líder, teve que se sustentar com seu trabalho, não aceitando voltar para o marido, que segundo consta ainda a queria” diz Prado.‎

5 – Josefa Ortíz de Dominguez

Aos 23 anos, a mexicana Josefa Ortíz se casa com o advogado Miguel Dominguez, que logo é nomeado corregedor de Querétaro. “La Corregidora”, como ficou conhecida, ela e o marido eram ligados ao grupo que pretendia iniciar a luta pela independência. Ao saber que a rebelião havia sido denunciada e que os conspiradores seriam presos, dona Josefa decide comunicá-los.

“Ela enviou uma mensagem para que a tropa popular declarasse o fim do Império Espanhol. Esse momento ficou conhecido como o grito da independência e é a maior festa dos mexicanos, comemorada em 15 de setembro”, afirma Gutiérrez Chong.

Foi a partir desta mensagem que o padre Miguel Hidalgo deu início à luta de independência. Josefa foi denunciada por conspiração e, mesmo grávida, cumpriu pena de três anos presa em conventos. Após a independência, manteve envolvimento em atividades políticas. Morreu em 1829, aos 61 anos, na Cidade do México, onde hoje existe uma estátua em sua homenagem.

‎6 – Policarpa Salavarrieta

“La Pola”, como era conhecida, costumava levar informações aos rebeldes em Nova Granada, atual Colômbia. Por conta do seu trabalho como costureira, costumava frequentar casas de famílias de posses, onde colhia informações sobre as tropas do rei.

Há relatos de que um dos rebeldes, Alejo Sabaraín era seu grande amor. Quando ele foi preso, havia documentos que a comprometiam diretamente. “Presa e julgada, foi condenada à morte, juntamente com outros oito homens, entre eles seu noivo. O fuzilamento ocorreu na praça principal de Bogotá, no dia 14 de novembro de 1817, causando grande impacto sobre a população”, escreveu Maria Ligia Prado.

Fonte: Calle 2

Aos 83 anos, João das Neves novamente no palco

Março 13, 2017

A peça já está sendo apresentada nas sextas, sábados e domingos até 19 de março no Teatro Francisco Nunes, em BH - Créditos: Guto Muniz / Divulgação

Renomado nacionalmente, ator apresenta nova peça teatral “Lazarillo de Tormes” em BH.

Rafaella Dotta

Antigo ofício, novas práticas. O ator João das Neves está novamente no palco aos 83 anos de idade e experimenta novidades para a produção. Através do site Benfeitoria, a montagem da peça está sendo financiada por doações. A meta é atingir R$ 15 mil, mas “Lazarillo de Tormes” já está em cartaz.

“Por questões burocráticas da Secretaria Municipal de Cultura acabamos não conseguindo a liberação do patrocínio. Mas não íamos parar a peça por isso”, comenta o ator, que também é diretor e roteirista da peça. A campanha de doação está aberta até 30 de março. A peça já está sendo apresentada nas sextas, sábados e domingos até 19 de março no Teatro Francisco Nunes, em BH.

Um quase herói

“Lazarillo de Tormes” foi escrito entre 1500 e 1600 na Espanha e é um dos primeiros textos a ter como personagem principal um “anti-herói”, ou seja, um herói sem virtudes clássicas de herói. “Os personagens são engraçados e ao mesmo tempo dolorosos”, explica João das Neves. A peça fala sobre as desventuras de um menino miserável que precisa sobreviver e se mete em variadas confusões.

O roteiro nasceu de um texto encontrado no ano 2000 por dois operários que derrubaram acidentalmente a parede de uma velha mansão na Espanha, descobrindo ali uma biblioteca escondida há 400 anos. O texto provavelmente foi escondido para ser salvo das fogueiras da Inquisição da Igreja católica, que proibia livros que não tivessem aval do reino.

João das Neves adaptou a obra ao terreno brasileiro. A peça ganhou trejeitos de circo e um texto em cordel, poesia típica do Nordeste. “É assustador em como a peça se parece com o Brasil atualmente. A situação do Lazarillo se repete muito com os meninos de rua daqui, que tem que se virar para morar na rua e acabam reféns do tráfico ou de pequenos roubos”, conta o ator.

A quem for assistir à peça, a promessa é de risadas e de reflexão. Apesar das situações engraçadas de Lazarillo, o espectador é levado a ver a tragédia por detrás delas. “A peça te coloca naquela situação de riso, mas que depois dá até uma dor no coração de estar rindo da miséria”, comenta. João divide o palco com Glicério do Rosário, Rodrigo Cohen e bonecos de Paulo Emílio e a direção musical é de Titane e André Siqueira.

Quem é João das Neves?

O ator nascido no Rio de Janeiro (RJ) foi um dos mais importantes nomes do teatro chamado de protesto brasileiro e um dos fundadores do Grupo Opinião, em 1964. Na primeira montagem da companhia, João das Neves e Augusto Boal dirigiram a peça “Opininiando”, com a participação de Zé Keti, João do Vale, Nara Leão e Maria Bethânia, em plena ditadura militar.

João das Neves é diretor, ator e escritor, e já levou ao palco peças como Besouro, Cordão de Ouro e Galanga Chico Rei, em parceria com Paulo César Pinheiro; Zumbi, de Augusto Boal; A Farsa da Boa Preguiça, com texto de Ariano Suassuna; e mais recentemente a peça Madame Satã, em parceria com Rodrigo Jerônimo, na versão adaptada para o Oficinão do Galpão, em Belo Horizonte.

Confira entrevista com João das Neves, sobre a “Lazarillo de Tormes”, em cartaz em BH:

“É assustador ver como o texto se parece com o Brasil de atualmente”

Brasil de Fato MG – Pode falar um pouco da peça?

João das Neves – A peça é baseada num clássico espanhol de mesmo nome, do século XVI, portanto precedeu Dom Quixote e romances da Idade Média para cá. Trata de um momento de miséria muito grande na Europa, quando as pessoas miseráveis eram perseguidas. O Lazarillo inaugura a série dos chamados anti-heróis, aqueles personagens que têm que se virar na vida. São engraçados e ao mesmo tempo dolorosos. A peça te coloca naquela situação de riso, mas que depois dá até uma dor no coração de estar rindo da miséria.

Qual a atualidade dessa peça?

É assustador em como isso se parece com o Brasil atualmente. A situação do Lazarillo se repete muito com a dos meninos de rua daqui, que têm que se virar para morar na rua e acabam reféns do tráfico ou de pequenos roubos. É admirável como a miséria acaba se perpetuando por tantos séculos. Bem aqui em nosso país, estávamos tendo algumas melhorias justamente para essas pessoas e lá vem um golpe.

Vai ser através de financiamento coletivo, certo?

Por questões burocráticas da Secretaria Municipal de Cultura acabamos não conseguindo a liberação do patrocínio. Mas não íamos parar a peça por isso. Vamos fazer no peito e pedimos que amigos e apoiadores nos ajudem a bancar o mínimo. Espero também que ganhemos alguma coisa, para não ficar como o Lazarillo (risos). Mas a falta de verba não ia impedir e não nos impediu.

Aos 60 anos de atuação no teatro, você ainda tem frio na barriga quando sobe no palco?

Frio na barriga propriamente não, eu tenho é calor (risos). Tenho muita experiência, mas a estreia dá sempre uma adrenalina. É inevitável que a gente fique nervoso quanto à recepção do público, coisas que não estão bem testadas. Eu escrevi, dirigi e atuo na peça. É tanta coisa na cabeça que o frio na barriga passa até despercebido.

Você faz teatro político?

Teatro político não, eu faço teatro. Vivo num país chamado Brasil e é impossível não se preocupar com as coisas que acontecem. E isso é matéria prima do teatro. Obviamente é um teatro profundamente preocupado com o caminho que seguimos e a nossa cultura. É político sim, na sua essência, como tudo que se faz voltado ao interesse coletivo. Mas não estou dentro de uma determinada vertente.

Você participou muito, em 2016, da ocupação da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em BH, que aconteceu logo depois da extinção do Ministério da Cultura pelo governo não eleito de Michel Temer. Como avalia essa experiência?

Tem uma série de coisas positivas e negativas. A ocupação da Funarte foi a primeira resposta a esse governo ilegal, que tomou posse através de um golpe, e começa imediatamente a agir contra direitos adquiridos. A resposta imediata das pessoas da cultura foi importante para dizer que estamos alertas. A própria ocupação em si foi uma experiência boa, se vivia uma horizontalidade de decisões. Tudo era decidido com todo mundo. Problemas domésticos eram tão importante quanto problemas políticos. Parece que era um microcosmo do Brasil. Todos os problemas que existiam fora passaram a existir dentro também, o que acabou trazendo algumas dificuldades graves. Não impedíamos ninguém de entrar na ocupação, e ela está em um lugar que tem tráfico, prostituição, moradores de rua e pessoas que tinham interesse em tumultuar a existência da ocupação. Lidar com essas contradições foi difícil e rico. Ao mesmo tempo, conseguimos apresentar mais trabalhos lá do que a Funarte fez o ano todo. Tudo de graça. Mas um “de graça” que valeria a pena e renderia frutos posteriores.

Qual sua opinião sobre o MINC de hoje?

Existe? (risos) Esse governo é ilegítimo, tanto governo quanto o ministério. Não pode haver boa gestão de governo que nasce de um ninho de cobras.

Edição: Joana Tavares