PORATAL FÓRUM: CHÃO DE FÁBRICA, NOVO DOCUMENTÁRIO DE RENATO TAPAJÓS

Setembro 20, 2018

“Chão de Fábrica”, novo documentário dirigido por Renato Tapajós, o diretor de “Linha de Montagem”, e Hidalgo Romero, tem seu lançamento marcado para o dia 21 de setembro, às 18:00, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Cartaz do Filme “Chão de Fábrica”, de Renato Tapajós. Foto: Divulgação

Narrado pelo ator José de Abreu, o documentário é baseado na série de mesmo nome, feita para televisão em 13 episódios sobre a história do chamado Novo Sindicalismo brasileiro. A partir de uma linguagem clara e objetiva, o filme apresenta um panorama histórico sobre as lutas sindicais e políticas dos trabalhadores, fazendo uma ponte com o contexto histórico que o Brasil enfrenta nos dias atuais.

Cena do filme “Chão de Fábrica”, de Renato Tapajós

Tendo em vista o ano de eleições, o intuito dos diretores é instrumentalizar as trabalhadoras e os trabalhadores com uma visão crítica sobre a história do Novo Sindicalismo, e as reverberações que ele causou na política da época, e que se estendem até os dias de hoje.  Para isso, “Chão de Fábrica” será disponibilizado gratuitamente na web, e poderá ser exibido na data do lançamento nacional. O foco da equipe de produção do filme é a exibição em sindicatos, escolas, universidades e fábricas.

O cineasta e escritor Renato Tapajós é uma das maiores referências do cinema documental do Brasil. Com sua obra, fez uma extensa cobertura sobre as ações da ditadura militar, os movimentos sociais, a luta armada e o sindicalismo nacionais, tendo recebido prêmios em festivais da Alemanha e Cuba. Em “Chão de Fábrica”, Tapajós aplica toda sua experiência de vida e apuro de linguagem para criar um documentário que é um instrumento de politização dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

Cena do Filme “Chão de Fábrica”, de Renato Tapajós

SINOPSE

O filme Chão de Fábrica conta a história da luta dos trabalhadores brasileiros desde 1978 até os dias atuais, com enfoque no movimento sindical, naquilo que ficou conhecido como o Novo Sindicalismo.

Realiza um voo sobre a história do país, observando as políticas econômicas dos diferentes governos do período de forma crítica, clara e bem-humorada, criando sempre uma relação com a luta sindical.

Chão de Fábrica é um filme sobre o trabalho e os trabalhadores do Brasil e um balanço sobre as alternativas atuais do movimento sindical.

SERVIÇO DO LANÇAMENTO

FILME “CHÃO DE FÁBRICA”

Direção: Renato Tapajós / Hidalgo Romero

Produção: Laboratório Cisco

Documentário, longa metragem, 1h 30 min

Data: 21 de setembro de 2018.

Local: 3º andar do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (R. João Basso, 231 – Centro, São Bernardo do Campo – SP, 09721-100 /  (11) 4128-4200)

Horário: 18:00

Gratuito

 

FICHA TÉCNICA

Produção:

Laboratório Cisco

Direção:

Renato Tapajós

Hidalgo Romero

Narração:

Zé de Abreu

Roteiro:

Hidalgo Romero

Produção Executiva:

Hidalgo Romero

Julio Matos

Produção de base:

Marcelo Felix

Bruna Schroder

Produção de campo:

Alexandre Machado

Direção de Fotografia:

Coraci Ruiz

Som direto:

Julio Matos

Montagem:

André Francioli

com a colaboração de:

Hidalgo Romero

Renato Tapajós

Pesquisa:

Isabela Moura

Consultoria:

Samuel Souza

Trilha sonora:

João Arruda

Marcelo Falleiros

Desenho de som e mixagem:

Guilherme Fiorentini

Colorização:

Tobias Rezende

Assessoria de comunicação:

Lucas Sequinato

Estagiárias:

Marília Dutra

Jéssica Isidoro

Arte Gráfica:

Arthur Amaral

Personagens:

Antônio Carlos Spis

Djalma de Souza Bom

Jair Antonio Meneguelli

Luiz Antonio Medeiros

Olívio Dutra

Vicente Paulo da Silva

Vagner Freitas de Moraes

Andréia Galvão

Armando Boito

Fausto Augusto Jr

Marcio Pochmann

Ricardo Antunes

Wagner Santana

João Felício

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SITE NOTÍCIAS DA PERIFERIA: MOSTRA CULTURAL VALORIZA PRODUÇÃO ARTÍSTICA DAS PERIFERIAS EM ERMELINO MATARAZZO, ZONA LESTE DE SP

Setembro 19, 2018

do Notícias da Periferia

A partir de intervenções de coletivos e shows de artistas independentes, a programação do Festivarte Ermelino contempla atrações de teatro, saraus, slams, hip hop, forró e uma feira de economia solidária. Além disso, a mostra fomenta um espaço de formação profissional na zona leste de São Paulo, por meio do Criando Criadores, curso técnico de gestão cultural.

Com entrada gratuita e aberto ao público em geral, o Festivarte Ermelino acontece no próximo domingo (23) das 13h às 20h na Praça Benedito Ramos Rodrigues, localizada no distrito de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. A iniciativa contempla a ocupação do espaço público como forma de garantir acesso à cultura produzida pelos artistas, coletivos e agentes culturais atuantes nas periferias.

A Mostra Cultural Festivarte Ermelino faz parte do projeto Criando Criadores, curso de formação técnica em produção cultural, que formou cerca de 40 produtores culturais na zona leste de São Paulo. “Essa proposta de oferecer uma qualificação técnica só potencializa o que essas pessoas já produzem no território”, Amanda Ferreira Gomes, produtora executiva do evento.

A produtora executiva conta que as formações são a base para a construção da mostra. “Os participantes do curso já possuem uma atuação importante na produção cultural da periferia. A partir da participação no curso Criando Criadores, eles têm a oportunidade de colocar em prática esse aprendizado num evento real e aberto aos moradores do território, fator que aumenta a responsabilidade deles, além de valorizar o seu conhecimento adquirido ao longo do curso.”

Cerca de 60 mil reais foram investidos na Mostra Cultural. O aporte financeiro para realização do evento surgiu por meio de uma parceria entre a Cingulado, consultoria com foco em investimento social, o Movimento Cultural Ermelino Matarazzo e a ArcelorMittal, que patrocina o projeto por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

Eduardo Diniz, diretor da unidade da ArcelorMittal, que fica no bairro do Jardim Keralux, localizado no distrito de Ermelino Matarazzo ressalta que o projeto Criando Criadores está alinhado com os valores de desenvolvimento social e cultural da organização. “O programa ArcelorMittal Forma e Transforma fomenta iniciativas que promovem o desenvolvimento local por meio da arte e da cultura, por isso o Criando Criadores tem o nosso apoio, para suprir parte dessa demanda social.”

Valorização de artistas das periferias

Além de passar pela formação do Criando Criadores, um grupo de alunos do curso também desempenharam o importante papel de realizar a curadoria para escolha de artistas. A diversidade cultural, bem como o desenvolvimento da economia local foram fatores importantes para colocar essa atividade em prática.

“A mostra cultural é uma ação importante do Criando Criadores, porque conseguimos impactar alunos, moradores, artistas e coletivos. Na prática, isso significa que estamos alcançando onosso objetivo de usar a cultura como elemento transformador de territórios e pessoas”, conta Daniel Prata, coordenador de comunicação da Cingulado.Esses valores citados por Prata estão impressos na Mostra Cultural Festivarte Ermelino em toda a programação, que envolve atividades voltadas para a família e a população jovem da zona leste da cidade.

A abertura do Festivarte, prevista para às 13h, conta com atividades de contação de histórias, programação voltada para as famílias do território. Logo em seguida, às 14h, haverá uma apresentação do Forró das Minas, com o show “Arrumadinhas”. No decorrer da tarde, uma série de DJ´s do território de Ermelino farão apresentações intercaladas no palco principal do evento.

O público presente também poderá conferir diversas ações voltadas para a literatura, como o Sarau do coletivo Alcova e o lançamento da antologia poética do “Ponta de lança”, do Slam da Ponta. O hip hop afro-centrando também estará representado no evento pela cantora Drik Barbosa, e a banda Mental  Abstrato que sobre ao palco com a participação do rapper Sombra, ex-integrante do SNJ, um dos principais grupos do rap nacional nos anos 90.

Confira aqui a programação completa do Festivarte Ermelino.

Agenda da 2ºMostra Cultura Festivarte Ermelino

Data: 23 de setembro

Horário:13h às 20h

Local:Praça Benedito Ramos Rodrigues

Endereço:Av. Milene Elías, 1398 – Jardim Belem, São Paulo – SP, 03809-170

Entrada: Gratuita

CINEGNOSE: POR QUE TELEDRAMATURGIA DA GLOBO ESTÁ ASSOMBRADA COM O TEMPO E A HISTÓRIA, POR WILSON FERREIRA

Setembro 18, 2018

 Wilson Roberto Vieira Ferreira

Dois temas parecem assombrar a atual teledramaturgia da Globo: o Tempo (viagem no tempo, déjà vus, vidas passadas, reencarnações etc.) e a História (pastiches da Idade Média, releituras do Brasil do Império etc.). Algo que se distingue das tradicionais “novelas de época” que marcaram a história do gênero na TV brasileira. Nunca se verificou essa recorrência temática em tantas telenovelas, apresentadas simultaneamente ou em sequência nos diferentes horários. Sabe-se que em ano eleitoral o laboratório de feitiçarias semióticas da emissora funciona em tempo integral. O que essa recorrência pode significar dentro desse contexto? Nova bomba semiótica? Ou o sintoma do temor de uma emissora hegemônica que sabe da importância do atual cenário eleitoral? – é matar ou morrer. É o momento de entendermos a célebre afirmação de George Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.

Do laboratório de feitiçarias semióticas das organizações Globo podemos esperar qualquer coisa. Principalmente em ano eleitoral. Especialmente nesse ano, já que para o grupo hegemônico de comunicação é vida ou morte – principalmente após a velada ameaça do candidato petista Fernando Haddad em plena arena do JN, disparando que, investigado por investigado, a Globo também é, e pela Receita Federal.

Além das tradicionais manipulações no jornalismo e criações de “balas de prata” sempre após o último debate que antecede em questão de horas as eleições (uma coisa tão previsível quanto o “Roberto Carlos Especial” de final de ano), chama também a atenção a teledramaturgia.

Desde o ano eleitoral que levou à vitória Fernando Collor em 1989, a Globo prima por produção de novelas ou minisséries que procuram através da ficção dar apoio à pauta do candidato que naquele momento seja a “esperança branca” da poderosa emissora.

Por exemplo, no cenário da primeira eleição após o regime militar em 1989, as novelas “O Salvador da Pátria” e “Que Rei Sou Eu?” foram nítidos produtos ficcionais cujos temas no mínimo pretendiam pegar uma carona na atmosfera política do momento. No primeiro caso, o título acabou virando um bordão político que alimentou um imaginário sebastianista ou messiânico em torno da figura de Fernando Collor – do “caçador de marajás” à “única bala que tenho na agulha” para justificar o sequestro da liquidez do Plano Collor.

 

“Que Rei Sou Eu?”: a História a serviço dos propósitos eleitorais da Globo

Na complicada eleição de 2014, no logo da telenovela “Geração Brasil” havia uma nítida sugestão do número 45 (do então candidato Aécio Neves, do PSDB) em “internetês” (ou “Leet”): “G3R4Ç4O BR4S1L” – sobre isso clique aqui.Já a novela “Que Rei Sou Eu?” tínhamos um jovem revolucionário lutando contra uma monarquia corrupta (Edson Celulari). Foi a preparação imaginária da chegada de um jovem político desconhecido (aos poucos turbinado em aparições rápidas como em programas como o do Chacrinha) chamado Collor de Mello. O bordão “povo de Avilã” passou a ser usado por ele em palanques.

Em 2012 na telenovela de cunho político “O Brado Retumbante” o protagonista era muito parecido com o candidato à presidência Aécio Neves. Enquanto a série “Questão de Família” do canal GNT, no ano eleitoral de 2014, mostrava um juiz justiceiro (Eduardo Moscovis), reforçando o imaginário alimentado diariamente pela pauta midiática da Lava Jato e pela imagem justiceira de Sérgio Moro e juízes congêneres.

Variações do tema Tempo

Se a recorrência (busca repetições, padrões que por serem recorrentes vão além da mera coincidência, tornando-se um fato linguístico de significação, um sentido) é um dos métodos da linguística ou da semiologia, temos que ficar atentos a mais uma recorrência que marca a teledramaturgia: a repetição tema do tempo em diversas variações – História, viagem no tempo, personagens do século XIX que aparecem no século XXI, déjà vu, vidas passadas etc.

Elementos de ficção científica e do fantástico explorados de forma incomum na teledramaturgia da Globo. Na história do gênero televisivo, são esparsos os exemplos de abordagem desses elementos: “Saramandaia” (1976, realismo fantástico), “Fera Ferida” (1993, Alquimia, Pedra Filosofal e misticismo), “O Fim do Mundo” (1996, apocalipse bíblico), “O Clone” (2001, esparsos elementos sci-fi sobre um clone humano que não conhece sua origem como experimento científico) entre outros poucos exemplos.

Porém, esse ano experimentamos um ponto fora da curva. Se não, vejamos…

Depois de doze anos numa sequência de novelas ambientas na atualidade, “Deus Salve o Rei” é lançada no início desse ano como alguma coisa entre as séries de sucesso Games of Thrones e Vikings. Imediatamente comparada com “Que Rei Sou Eu?”, que também possuía tema medieval e tramas políticas em pleno ano eleitoral – aqui, a disputa pelo trono por dois reis. Uma Idade Média com todos os clichês ficcionais, com pitadas de magia e feitiçaria.

Para depois ser substituída pela telenovela “O Tempo Não Para” – uma família inteira do século XIX é encontrada em um grande bloco de gelo que se aproxima de uma praia de Guarujá/SP. Um empresário engajado em causas sociais e que surfa (empresário, causas sociais, surf… o que o imaginário do empreendedorismo não consegue juntar…) é o primeiro que avista o bloco. A família dos tempos do Império é de um poderoso proprietário de terras que explorava ouro e minério.

“O Tempo Não Para” – o Brasil do Império vem para a atualidade

A nova telenovela do horário das 18h é “Espelho da Vida”, com temática mista de presente e futuro:  um espelho permite viajar a 1930 para a protagonista descobrir que é a reencarnação de uma vítima de crime passional.

E no horário das 21h, temos “Segundo Sol”, ambientada na Bahia (marco inicial da história brasileira) cuja narrativa se inicia em 1999 para depois voltar para a atualidade.

Telenovelas “de época”?

Essa recorrência de variações em torno do tema Tempo não pode ser confundida com “novela de época”, tradicional na teledramaturgia brasileira. Mas mesmo se considerarmos essa recorrência nada mais do que o subgênero “de época”, ainda assim encontraríamos uma outra recorrência – revisitar o período do Império da História brasileira. As novelas “Novo Mundo” (com uma continuação prevista para 2019, dessa vez em torno da figura de D. Pedro II) e “O Tempo Não Para”, cuja família congelada veio diretamente de 1886.

 Mas a essa “nostalgia” global soma-se à iniciativa no ano passado de criar remakes com sósias de Os Trapalhões e da Escolinha do Professor Raimundo no canal fechado da Globo “Viva”. Na oportunidade, o mote do humor com bordões e gags eram idênticos dos programas originais de até 30 anos atrás: a eterna crise brasileira com carestia, inflação, desemprego etc. – sobre isso clique aqui.

Em postagem passada sobre esses remakes, este humilde blogueiro considerou uma espécie de wishfull thinking da TV Globo, uma espécie de sintoma do desejo de que tudo no País permanece como sempre esteve. Afinal, quanto maior a crise econômica, desemprego, desesperança e baixo astral, melhor para a poderosa emissora – mantém os telespectadores presos nas suas casas e cativos da TV pela limitação financeira. Além de manter a necessidade por fantasias escapistas, especialidade do modelo de entretenimento global.

Poderíamos considerar essa recorrência de variações em torno do tema “Tempo” na teledramaturgia como outro sintoma desse desejo pelo eterno retorno, principalmente num ano eleitoral? O temor de que não se consolide um novo golpe dentro do Golpe de 2016 e o País não consolide o retrocesso planejado?

“Os Flintstones” – o passado é uma projeção do presente

Quem controla o passado…

Mas há um evento sincrônico (para não dizer irônico) paralelo a essa teledramaturgia tão interessada sobre o Tempo: o incêndio e destruição do Museu Nacional no Rio de Janeiro, junto com o seu patrimônio histórico e científico.

A insistente repetição de cenas da produção “Novo Mundo” nos telejornais da emissora carioca para ilustrar que naquele prédio histórico fora assinada a Independência do Brasil pode representar mais do que um esforço didático.   

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”, escreveu George Orwell em seu livro “1984”. Ao lado da aliança jurídico-policial-midiática, a Globo possui um outro projeto que, afinal, não é propriamente dela – mas da própria indústria cultural desde o pós-guerra com a ascensão da sociedade do espetáculo: fundir a própria História com a narrativa ficcional. A Hiper-história.

 É mais do que coincidência a História nacional ter sido reduzido a cinzas enquanto a Globo turbina o tema do Tempo (História e viagens no tempo). O objetivo simbólico é projetar o presente no passado, para que o presente se estenda incólume até o futuro.

Por exemplo, durante a Guerra Fria, a necessidade ideológica dos EUA irradiar o chamado american way of life para todo o planeta com a comercialização dos “enlatados” (pacotes de desenhos animados, minisséries e filmes americanos) para a indústria do entretenimento mundial.

Além de Walt Disney, as animações da Hanna-Barbera desempenharam esse papel imaginário de perpetuar o presente tanto no passado quanto no futuro. Produções como Os Flintstones, Os Mussarelas ou Os Jetsons projetavam o estilo de vida de uma família nuclear na moderna sociedade de consumo na Idade da Pedra, na Roma da Antiguidade ou em algum lugar no futuro. Para subliminarmente reforçar a eternidade do presente, como se os princípios políticos e econômicos que o regem fosse naturais e indiscutíveis. 

Hiper-história: fundir a História brasileira com a cenografia do Projac

Assim como os EUA hiper-realizaram sua própria História com os filmes hollywoodianos de faroeste e parques temáticos como Disneylândia e Epcot Center.

Só que em países (ex)emergentes como o Brasil, esse processo é mais dramático e trágico – enquanto a pesquisa científica da História é destruída brutalmente, uma rede monopolista de comunicação impõe sua própria releitura da História.

Por isso é também sintomático que um museu que lidava com fontes primárias da História tenha desaparecido, enquanto um museu midiatizado (o “Museu do Amanhã” – realizado em conjunto com a Fundação Roberto Marinho, no RJ) esteja presente nas telas da TV: um museu que não faz Ciência, mas apenas espetacularizaefeitos de Ciência, como uma espécie de parque temático de entretenimento para aqueles que querem respirar uma “atmosfera de Ciência e Conhecimento”.

Mas em um ano eleitoral decisivo para a sobrevivência política e financeira das Organizações Globo, essa recorrência do Tempo e da História na teledramaturgia pode ser sintomática: o desejo de que tudo permaneça onde sempre esteve.

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BRASIL DE FATO: RAQUEL, FILHA DE RUBEM ALVES, CONTA COMO A PATERNIDADE INFLUENCIOU O ESCRITOR A CRIAR

Setembro 17, 2018

Teólogo, filósofo e educador completaria 85 anos em setembro e deixou um legado de simplicidade através dos livros

Camila Salmazio

Brasil de Fato | São Paulo – SP

Ouça a matéria:

Rubem Alves faria 85 anos em setembro de 2018. / Wikipédia

Era dia 19 de julho de 2014 quando Rubem Alves deixou esse mundo. Mas porque começar falando da morte de alguém que foi tão cheio de vida? Por que Rubem, o homem que gostava tanto dos ipês amarelos, não morreu, encantou-se. Através da escrita deixou sementes, como ele mesmo gostava de definir em suas palestras e apresentações. 

“O mundo é tão bonito! Gostaria de ficar por aqui. Escrever é meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam Ipês amarelos.”

Filósofo, teólogo, psicanalista, educador, escritor, poeta… São várias as facetas desse homem que apesar de tantos títulos deixou como grande herança a simplicidade de viver e capturar ‘instantinhos’ de felicidade. 

De todos os papéis de Rubens Alves possíveis de serem retratados, escolhemos o de pai, sua versão mais íntima, mas que em muitos momentos se misturou com a carreira profissional. E ninguém melhor que Raquel Noper Alves, filha caçula dos três irmãos, para nos contar um pouco desse pai encantado:

“Ele era uma pessoa muito carinhosa e ao mesmo tempo paí, uma pessoa que colocava limite na questão de educação. O que eu acredito que foi um grande diferencial dele como pai é que ele sempre soube que a vida educa. Ele deixava, a despeito da dor que um pai sente de querer proteger um filho, ele deixava.”

Raquel ao lado do pai. A filha mais nova de Rubem teve oportunidade de viver experiências marcantes através das histórias dele. Foto: Arquivo pessoal.

Da relação com a caçula veio a inspiração de Rubem para escrever histórias infantis. Raquel teve o pai presente em situações marcantes da vida dela. Momentos de medo e insegurança, por exemplo, se transformaram em histórias curativas. 

“Quando ele escreveu A Menina e o Pássaro Encantado, que é a história mais famosa dele, eu estava chorando, tinha aproximadamente seis, sete anos. Meu pai era convidado a dar aula nos Estados Unidos e ficava dois, três meses fora. Então, eu ficava com muita saudade, não tinha promessa de brinquedo, de boneca, nada que resolvesse o problema e aí essa história surgiu”, conta Raquel. 

“Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais, era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades”

“E ele me ensinou a lidar com a saudade sendo eu a menina e ele o pássaro. Ele disse que toda vez que eu sentisse saudade ele ia ficar mais especial na figura do pássaro encantado. E toda vez que ele sentisse saudade de mim, eu ia ficar mais especial. Com isso, ele fez a saudade do intervalo que a gente ficava longe virar um momento de brincadeira”, relembra.

O mineiro, nascido em Dores da Boa Esperança completaria 85 anos em 2018, no dia 15 de setembro. Viveu a maior parte da vida em Campinas (SP) e tinha um jeito todo peculiar de enxergar e traduzir as experiências.

“A vida pra ele em si já era um exemplo fascinante. Então ele estava sempre com um caderno na mão, ou com um bloquinho que ele carregava no bolso e teve uma época que ele carregava um gravador. Aparecia uma ideia na cabeça ele anotava ou gravava. Daí quando ele sentava para escrever ele pegava aquela ideia e pronto, ele só destrinchava. Então não era uma coisa que ele reservava uma tarde para fazer isso ou dois dias por semana, era o tempo todo misturado com a vida”, relata Raquel.

A fama, os prêmios e títulos, como o de honoris causa pela Universidade Federal do Espirito Santo foram um acaso em meio a simplicidade com que levava a vida. Um jeito todo Rubem Alves de ser e nos conduzir pelo seu universo encantado. 

“Eu quero desaprender para aprender de novo.

Raspar as tintas com que me pintaram.

Desencaixotar emoções, recuperar sentidos.”

Edição: Julia Rohden

ANNA NETREBKO, RAINHA DO BEL-CANTO, POR WALNICE NOGUEIRA GALVÃO

Setembro 16, 2018

por Walnice Nogueira Galvão

Veio pela primeira vez a nosso país a cantora russa que hoje ocupa o trono de maior soprano lírica do mundo, no qual Maria Callas era indisputada. Precedida pela fama e por vasta expectativa lotou, deixando gente de fora, os 1.600 lugares do auditório da Sala São Paulo. O preço era salgadíssimo, de R$600,00 por um assento na plateia.

Mas compensou. O programa do recital incluía números dela em dueto com o marido, ou solos de cada um, com interlúdios da orquestra do Mozarteum tocando trechos de óperas.

A cantora é mesmo extraordinária e faz jus à fama que a precede. A voz é límpida, forte, de belo timbre e bom volume, afinadíssima, e não faz feio ante os desafios de altura ou de extensão, a notar nos vocalises.

Quem a acompanha é o marido, Yusif Eyvazov, tenor nascido na Argélia mas com origens e criação no Azerbaijão, como seu nome indica. Tem voz tonitruante, de que abusa um pouco. Mas quanto mais trovejava e fazia piruetas vocais, mais era aplaudido.

Quanto à diva, afora a voz impecável, tem outras qualidades que a fazem estimada do público. É simpática, bem-humorada e atenciosa: dirigiu o olhar para a plateia mas também alternadamente para os camarotes e frisas, requebrou algumas vezes conforme a música, dançou um pouco com o marido …

Mais que tudo, a cortesia se notava no fato de que também atendia à parte de trás:  a sala  traz fileiras de arquibancadas nos fundos, depois da orquestra, e quem ali se senta é condenado a só ver as costas de músicos e cantores. Ela teve a gentileza de ficar de lado ou virar-se de todo enquanto cantava, ou então ao agradecer os aplausos que dali provinham.

Parece bobagem, mas houve problema no show de despedida aos 80 anos da grande cantora francesa Juliette Gréco na Philarmonie de Berlim, sala que tem a mesma disposição que a Sala São Paulo.  Quem se sentou nessa parte de trás teve o desprazer de ter por visual as costas da elegantíssima toalete negra usada pela cantora, que nem uma só vez se virou para tomar conhecimento dos fãs que lhe ficavam atrás – nem sequer para uma reverência de agradecimento. Talvez ela não soubesse, porque não é comum que um artista popular se apresente numa das mais grandiosas salas de concerto que existem, ainda mais o lar daquela que detem o título de melhor conjunto musical do mundo, a Orquestra Filarmônica de Berlim. Mesmo assim, alguém poderia ter-lhe soprado ao ouvido.

Esse erro La Netrebko não cometeu. Ademais, sorria com espontaneidade e acenava jubilosa.

O público exigiu bis e não queria deixá-los ir embora. No bis, cantaram  “Nessun dorma” (ele) e “Il mio babino caro” (ela), culminando por “O sole mio” em dueto. Foram ovacionados por um público em delírio. Anna Netrebko tirou de letra e conquistou a plateia, sem nenhuma discussão.

Quanto ao repertório, bem… Era dos mais surrados e calculado para agradar a mediania do público. Ausente qualquer ária mais difícil ou que exigisse mais da intérprete, ou do casal de intérpretes. O fã sai insatisfeito e desejando ouvi-la em peças mais exigentes ou numa ópera completa, para medir seus talentos com metro rigoroso. No programa (e olha que não foi bis!) o marido cantou até “Granada”, que, como se sabe, dá margem a usar e abusar da pirotecnia – no que não se fez de rogado.

De elegância, nem se fala. Em cada uma das duas partes do concerto Anna exibiu um vestido diferente. O primeiro era incomparável: um preto tomara-que-caia em pregas de seda pesada, tendo uma nesga frontal forrada de branco que ia de cima a baixo. O segundo era mais “celebridade pop”, rosa iridescente, todo em lantejoulas e paetês. Mas o primeiro era digno de alta costura, de um Christian Dior por exemplo. O penteado era um simples rabo de cavalo e não havia joias a se fazerem notar.

Fica a impressão de que os interlúdios orquestrais são uma perda de tempo, além de banais, e não foi para isso que o público pagou ingressos tão exorbitantes. Resta o anseio generalizado de assistir um recital dessa maravilhosa Anna Netrebko sem a orquestra, mas também sem o marido.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

FILME MOSTRA A TRANSFORMAÇÃO DE TERRA DEGRADADA EM AGROFLORESTA NO PARANÁ

Setembro 15, 2018

Acampamento ganhou o prêmio do Instituto Socioambiental (ISA) de conservação e ampliação da agrobiodiversidade

Ednubia Ghisi

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

Na plateia, agricultores integrantes do MST assistiram à sua própria experiência ser projetada na tela - Créditos: Luciana Santos
Na plateia, agricultores integrantes do MST assistiram à sua própria experiência ser projetada na tela / Luciana Santos

Em meio à Mata Atlântica do litoral paranaense, uma área degradada pela produção extensiva de búfalos se transformou em uma experiência premiada por recuperar o meio ambiente pela produção agroflorestal. Em cerca de 30 minutos, o documentário “Agrofloresta é mais” conta esta metamorfose protagonizada por 24 famílias integrantes do acampamento José Lutzenberg, localizado no município de Antonina.

O filme foi lançado oficialmente nesta quinta-feira (13), em Curitiba, no Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR) com um dos realizadores do documentário, feito em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Associação Paranaense das Vítimas Expostas ao Amianto e aos Agrotóxicos (APREAA).

Na plateia, agricultores integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) assistiram à sua própria experiência ser projetada na tela. Jonas Souza, coordenador do acampamento José Lutzenberg e membro do MST, relata que a área foi ocupada em 2004 e, desde então, é cultivada para a recuperação da mata nativa e produção de alimentos para consumo e comercialização. “Hoje nós estamos em um processo que já dá autonomia para os camponeses de produzir para se alimentar de forma saudável e ainda fornecer este alimento para a sociedade”, relata. Atualmente essas famílias vivem sob ameaça de despejo. Assim, o documentário integra a campanha “Agrofloresta é a nossa casa”, organizada por dezenas de entidades contrárias à retirada das famílias do território.

O professor da UFRJ e diretor do filme, Beto Novaes, enfatizou a necessidade de utilizar o documentário como instrumento de divulgação do projeto agroflorestal bem-sucedido. “Nós não podemos ficar falando para os mesmo parceiros, nós temos que abrir para o mundo”. Para romper as fronteiras brasileiras, o material foi traduzido para o espanhol, o inglês e o francês, e está sendo distribuído para diversas organizações nacionais e internacionais.

Um grupo de trabalho nacional do Ministério Público sobre agrotóxicos acompanha a experiência da área como um exemplo a ser seguido: “Temos apoiado e incentivado a permanência das famílias naquele espaço por considerar uma iniciativa exitosa no que diz respeito à produção agroecológica, que é mais do que orgânica, e principalmente pela preservação da floresta”, relata Margaret Matos Carvalho, procuradora regional do trabalho, que acompanha de perto o desenvolvimento da área.

A procuradora reforça a importância da permanência das famílias na área e da difusão das metodologias de trabalho e de produção utilizadas: “Hoje, quando a gente fala de futuro, a ideia é sempre negativa. Mas nós temos esperança e queremos que essas esperança se concretize e através desses exemplos. Espero que as famílias que hoje ocupam aquele espaço, que elas permaneçam naquele lugar, porque preservar e trazer de volta uma floresta demanda muito tempo, e eles já conseguiram isso e ainda tem muita coisa a ser feita. Não podemos perder aquilo que já foi construído e queremos mais, porque agrofloresta é mais”, conclui.

Saint-Claire Honorato Santos, procurador de justiça do Ministério Público do Paraná, conheceu a área antes da ocupação pelas famílias sem-terra. “Conhecia a área quando era uma fazenda de búfalos. Ver hoje aquele local recuperado, regenerado, ver que essas famílias estão trabalhando aquela terra e conseguindo demonstrar que é possível produzir, permanecer e viver harmoniosamente naquele espaço me deixa muito contente”. Para o procurador, a experiência “mostra a todos nós que podemos recuperar o meio ambiente com qualidade e ter também o respeito a todas essas famílias que lá se encontram”.

O filme também será lançado na Vigília Lula Livre, em Curitiba, nesta sexta-feira (14), às 19h30. 

Agroindústria

Uma agroindústria para o beneficiamento dos alimentos será o próximo passo para o desenvolvimento da produção agroflorestal. O projeto está sendo desenvolvido em parceria com a Associação Paranaense das Vítimas Expostas ao Amianto e aos Agrotóxicos (APREAA) e o Ministério Público do Trabalho.

A estrutura terá 219 metros quadrados, com atendimento dos critérios de Vigilância Sanitária. Será feito reaproveitamento de energia fotovoltaica e de água. “Nós vamos ter uma agroindústria e vamos produzir a nossa própria energia para tocar a unidade. Vai ser tornar uma referência”, garante Jonas Souza.

Veja aqui o filme completo.

FICHA TÉCNICA DO FILME 

Direção e Roteiro: Beto Novaes

Argumento: Jonas Aparecido de Souza 

Edição e Finalização: Gislaine Lima

Câmeras: Fernando Mamari e Deborah S. R. de Rezende

Trilha Sonora e Finalização de áudio: Bernardo Gebara

 

Edição: Laís Melo

RBA: VIRADA DA CONSCIÊNCIA: EVENTO HOMENAGEARÁ CONCEIÇÃO EVARISTO E MANO BROWN

Setembro 14, 2018
CIDADANIA-PRIMEIRA EDIÇÃO
Entre os dias 18 e 21 de novembro, festival paulista terá programação repleta de atividades artísticas e esportivas organizadas pelo movimento negro, pela conscientização contra a discriminação racial
por Redação RBA.
WALTER CRAVEIRO-FLIP / RACIONAIS MC’- DIVULGAÇÃO
Consciencia Mano Brown Conceicao

Conceição Evaristo e Mano Brown. Cidadania, política e arte em evento organizado pelo movimento negro que vai homenagear

São Paulo – Uma série de atividades programadas para o período entre os dias 18 e 21 de novembro pretende mostrar que é possível e necessário lutar contra a desigualdade racial no Brasil. A 1ª Virada da Consciência, organizada pela Faculdade Zumbi dos Palmares e ONG Afrobras, quer transformar São Paulo em uma capital negra.

A programação prevê música, dança, teatro, moda, cinema, além de mostras de artes visuais e competições esportivas. “Vai ser longo e extremamente rico, as pessoas vão poder interagir e participar do conjunto de atividades da Virada, que vão do esporte à cultura”, afirma José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, à repórter Michelle Gomes, da TVT.

Além disso, o evento incluirá atividades como a Flink Sampa, Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra, que neste ano vai homenagear a escritora Conceição Evaristo. “Ela é uma representação importantíssima na história da literatura brasileira, aos 71 anos, e com seis livros publicados. Não marca só uma presença como escritora, mas também como mulher negra que resgata todo um passado de invisibilidade”, explica o curador Tom Farias.

REPRODUÇÃO/TVTVirada da Consciência
Programação prevê música, dança, teatro, moda, cinema, além de mostras de artes visuais e competições esportivas

Conceição, uma das maiores referências da literatura negra brasileira, destacou a emoção de ser homenageada e patrona da sexta edição do evento. “Nós, negros, sabemos muito bem que nós não temos um preconceito velado, mas bastante explícito, que nos ataca no dia-a-dia. Então, ser homenageada nesses espaços de resistência quilombola é uma alegria para toda escritora negra.”

Também será incorporado à programação o Troféu Raça Negra, que há 18 anos homenageia personalidades que contribuem no combate à discriminação racial. Neste ano, o homenageado será o rapper Mano Brown, do Racionais MC’s.

Assista à reportagem do Seu Jornal, da TVT

O FALSO MORALISTA, POR CARLOS MOTTA

Setembro 13, 2018

Nelson Sargento, 94 anos de vida, dezenas deles em prol da arte e cultura, é o autor, entre outras maravilhas, de uma música que reflete com exatidão a luta incessante do Brasil real contra o oficial, “Agoniza Mas Não morre”, regravado por inúmeros intérpretes e sempre atual:

Samba

Agoniza mas não morre

Alguém sempre te socorre

Antes do suspiro derradeiro

Samba

Negro, forte, destemido

Foi duramente perseguido

Na esquina, no botequim, no terreiro

Samba

Inocente, pé-no-chão

A fidalguia do salão

Te abraçou, te envolveu

Mudaram toda a sua estrutura

Te impuseram outra cultura

E você nem percebeu

Mudaram toda a sua estrutura

Te impuseram outra cultura

E você nem percebeu

Sargento tem uma obra de extrema qualidade, de fina ironia e inteligência. É um dos craques da nossa música popular. 

Quem tiver alguma dúvida sobre isso deve ouvir “Falso Moralista”, samba que parece que foi feito sob medida para retratar um dos mais comuns tipos brasileiro, o homem de bem, esse que aponta o dedo, indignado, para a corrupção dos outros, enquanto vai praticando, no dia a dia, toda sorte de falcatruas, indignidades e patranhas.

Esse tipo que, para muitos, é o modelo a seguir.

 

Você condena o que a moçada anda fazendo

e não aceita o teatro de revista

arte moderna pra você não vale nada

e até vedete você diz não ser artista

Você se julga um tanto bom e até perfeito

Por qualquer coisa deita logo falação

Mas eu conheço bem o seu defeito

e não vou fazer segredo não

Você é visto toda sexta no Joá

e não é só no carnaval que vai pros bailes se acabar

Fim de semana você deixa a companheira

e no bar com os amigos bebe bem a noite inteira

Segunda-feira chega na repartição

pede dispensa para ir ao oculista

e vai curar sua ressaca simplesmente

Você não passa de um falso moralista

Imagens

BRASIL DE FATO: PEÇA QUE RETRATA CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DURANTE SECA NO CEARÁ SE APRESENTA EM RECIFE

Setembro 12, 2018

TEATRO

A montagem, composta por oito cenas independentes, faz curta temporada na cidade

Da Redação

Brasil de Fato | Recife (PE)

A encenação se utiliza de ares das décadas passadas, do cinema mudo e da radionovela, elemento de forte presença na década de 1930 - Créditos: Marília Cabral
A encenação se utiliza de ares das décadas passadas, do cinema mudo e da radionovela, elemento de forte presença na década de 1930 / Marília Cabral

Tem início nesta quinta-feira (13), na Caixa Cultural Recife, o espetáculo teatral Curral Grande, do Coletivo Ponto Zero. Dirigida por Eduardo Machado, a montagem é baseada na obra do pesquisador e dramaturgo Marcos Barbosa e circula pelo país desde 2014, tendo conquistado vários prêmios. A peça mostra a graça e a miséria de um povo que sofreu e vem sofrendo com os processos de higienização social presentes na história do Brasil. A montagem segue em cartaz até dia 22 de setembro, com ingressos a R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). Os horários nas nas quintas e sextas são às 20h; e nos sábados às 18h e às 20h.

A encenação se utiliza de ares das décadas passadas, do cinema mudo e da radionovela, elemento de forte presença na década de 1930, permeando divertidamente a história dos “Currais do Governo”, campos de concentração durante a seca no Ceará. O espetáculo é composto por oito cenas independentes, porém correlacionadas, que apresentam diversas facetas da história – através de personagens que moram em uma casa simples no meio do sertão, também uma família abastada da capital Fortaleza, assim como a cúpula do governo, até chegar, de fato, aos campos de concentração.

Os quatro atores – Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Carlos Darzé e Lucas Lacerda – se revezam em mais de 40 personagens, estabelecendo um “jogo” com formas estéticas diferentes: da construção realista à caricatura, do teatro épico narrativo à contação de história.

“Há histórias que precisam ser lembradas. Não tenho a pretensão de dizer que precisamos lembrar delas para não repeti-las. É preciso lembrar delas, justamente, para atentarmos ao fato de que as temos repetido”, explica Marcos Barbosa, autor da obra. “É uma peça sobre viver. Sobreviver é preciso. No meio de tantas contradições, o Ponto Zero foi o (re)encontro com nossa história, que parece que só se repete”, complementa o diretor Eduardo Machado.

Quem assistir ao espetáculo nas sextas-feiras terá ainda a oportunidade de, após a apresentação, participar de um bate-papo com os atores sobre o processo de criação da peça. O Coletivo Ponto Zero falará também a respeito da experiência singular que tiveram de conversar com Dona Lina – avó do autor – que aos 98 anos, ainda dá o seu vívido testemunho sobre os campos de concentração de 1932, no Ceará.

 
Edição: Catarina de Angola

O CANTO DE ANDREA DOS SANTOS EM “AINDÊ – CANTOS DE CAMINHOS”

Setembro 10, 2018

Andrea dos Santos é daquelas artistas com presença cênica tamanha que, quando vamos ao seu disco, há sempre o temor de que não corresponda. Qual nada. A cantora, compositora e fundadora da lendária banda brasiliense, Casa de Farinha, se lançou em 2015 à carreira solo e, de lá pra cá, tudo o que tem gravado é digno da sua majestade no palco.

Conforme o seu próprio material conta, ela é filha de pai pernambucano, do sertão de Xucuru, e mãe capixaba do litoral. Por conta de tantos caminhos, acabou se apaixonando pela cultura popular e tradicional brasileira, visitou aldeias, vilarejos e festas populares em vários estados do país.

O resultado é um som vigoroso, brasileiro, contemporâneo, moderno e repleto de surpresas e sensações de pertencimento, reconhecimento e autoconhecimento. Sua nova aventura é um EP que atende pelo nome de “Aindê – Cantos de Caminhos” e traz seis canções, todas de sua autoria, sendo quatro em parceria com André Abujamra, que também é o produtor do álbum.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

Abujamra acerta duas vezes na maneira como “vestiu” a música e a voz de Andrea. A primeira delas é em preservar tudo o que a cantora já traz em si. Consegue uma tradução perfeita de sua música. A segunda, e mais importante, é conseguir – e isso também veio de certa forma com a cantora – unir ancestralidade e modernidade, tambores e sons processados, simplicidade e arrojo.

As canções de Andrea são bonitas, claras, diretas. A sua voz é forte, afinada, bonita. Os sons envolvem o ouvinte logo de cara. “Canto I”, baseada em refrão de domínio público, traz o canto de Andrea multiplicado em diversas vozes e o tambor do Ogan. Um canto de anunciação.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

Logo em seguida, em um dos momentos mais significativos e belos do álbum, a canção “Marejô” dá o tom da sua sonoridade. Um pequeno canto em duas partes ganha, à medida em que se repete, contracantos de um coral infantil. O instrumental, com efeitos, tambores e teclado, tem frases de saxofone e uma rica e inesperada linha de contrabaixo. Andréia domina a condução quase como um canto de trabalho.

Logo a seguir, a canção título “Aindê”, outra em parceria com Abujamra, ganha a mesma expressão e formação instrumental da anterior. A melodia, quase um refrão sobre uma bela letra, provoca a sensação de movimento circular. Mais uma vez a cantora salta à frente de tudo sem deixar pra trás a noção do todo.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

“Hora Certa” é a mais contemporânea de todas. Quase destoante, a levada caribenha brinca com a passagem do tempo e se repete em versos até desembocar em um refrão ponteado por guitarras. Excelente canção.

O giro de Andréia persiste e parece ir parar no Pará, em “Persiste”: “O tempo do amor é curto, mas é o mais longo que existe”. O parceiro e produtor André Abujamra participa na faixa que mais carrega nas suas cores, ou seja, que tem mais a sua cara.

Curtinho, o disco encerra com a reflexiva “Canto Lxi – Lamba”, onde apenas voz e piano apresentam melodia e letra. Também baseada em domínio público, a bela parceria com Abujamra conecta todos os pontos e faz a gente querer voltar pro começo.

“Aindê – Cantos de Caminhos” é impecável do começo ao fim.