Archive for Outubro, 2017

COLUNA | OS TONS E OS BATONS DAS NYMPHAS

Outubro 31, 2017

MULHERES

O trabalho mais recente do grupo é o disco “Brejeiro”, lançado em 2016

Ricardo Prestes Pazello

Brasil de Fato | Curitiba (PR).

O grupo de mulheres enfrentou outros temas sociais em suas músicas, além da questão feminina - Créditos: Divulgação
O grupo de mulheres enfrentou outros temas sociais em suas músicas, além da questão feminina / Divulgação

Mulheres. Mulheres jovens. Há cerca de quarenta anos um grupo de mulheres jovens floresce no cenário musical de Curitiba. Era a década de 1970, a ditadura ainda vigia, as mulheres tinham de lutar ainda mais por sua liberdade e nossa Curitiba não era menos conservadora do que é hoje.

Elas tinham entre 13 e 20 anos. Mesmo sem estrutura profissional para as orientar, lotaram o Teatro Universitário de Curitiba (TUC) em 1978 e, inusitadamente, a fama se espalhou. Curitiba tinha, a partir de então, um grupo vocal feminino.

Seus primeiros discos foram gravados entre 1980 e 1984. Primavam pela gravação de músicas autorais e de compositores paranaenses – uma raridade, digna de nota, para a 5º Comarca de São Paulo.

No terceiro LP, de 1984, intitulado “Tons e batons”, uma temática sai das entrelinhas: a poética feminina. Na canção “Tchau mesmo”, Mara Fontoura – a principal compositora do grupo – fez o que era pressuposto se tornar exposto: “Eu já cansei de fritar bife, passar roupa/ Varrer casa e viver presa nessa escravidão/ Pra você vir de noite reclamando, me xingando/ E inda por cima me fazer de colchão/ Eu não!” Na história, a mulher vai embora, arranja emprego e ainda vai trabalhar de cantora numa boate. E tchau!

Por essa, a tradicional Curitiba não esperava. A única coisa tradicional da música foi emendá-la com um chorinho como “Tico-tico no fubá” acompanhado pelo histórico cavaquinista da cidade, Janguito do Rosário.

Carmen, Cristina, Juliana, Mara, Miram, Rosa Lídia, Rosa Maria e Soraya (última formação do grupo) enfrentaram outros temas sociais em suas músicas, além da questão feminina. Inevitável em um contexto de tantas desigualdades como o nosso.

Como elas dizem, artistas são instrumentos da verdade. Às vezes, um instrumento usado com mais intuição; outras, com mais intencionalidade. Mas, via de regra, desvalorizado (à exceção, é óbvio, dos que caem nos braços da megaindústria cultural).

Hoje, em tempos de conservadorismo exacerbado, ataque às árduas conquistas das mulheres e incompreensão do papel da arte, lembrar do Grupo Nymphas é mais que um alento, é uma necessidade.

Para ficar por dentro:

Livro “Grupo Nymphas, 30 anos: cantologia”, de Mara Fontoura (2006).

Edição: Ednubia Ghisi

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‘É A PRIMEIRA VEZ QUE SOU IMPEDIDO DE CANTAR NO PERÍODO DEMOCRÁTICO”, DISSE CAETANO

Outubro 30, 2017
 
SHOW CENSURADO
Caetano afirmou se sentir mal com a proibição de show na ocupação do MTST, em São Bernardo do Campo. “Dá a impressão que não é um ambiente propriamente democrático”. Guilherme Boulos diz que Constituição foi rasgada
por Vitor Nuzzi, da RBA.
 
                                                       ROBERTO PARIZOTTI / CUT
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Caetano: mal-estar com a proibição e a impressão de que não vivemos em um país democrático

São Bernardo do Campo – O cantor e compositor Caetano Veloso deixou a ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo às 20h45, sem conseguir realizar o show anunciado pelos Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), por conta de decisão da juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo do Campo.

Dizendo não conhecer as questões legais, Caetano afirmou se sentir mal com a proibição. “Dá a impressão de que não é um ambiente propriamente democrático”, declarou o compositor ao sair da ocupação. “É a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático”, disse ainda.

Para o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, a Justiça deveria se preocupar em “pegar a quadrilha que está no poder no Brasil”, em vez de proibir um apresentação musical.

“Hoje aqui em São Bernardo do Campo mais uma vez a Constituição brasileira foi rasgada. É um absurdo, é censura, é ilegal. Para muita gente dentro do Judiciário o preconceito vale mais do que a lei. Se eles queriam nos provocar para uma ação violenta não conseguiram. Isso nos dá energia, nos dá ânimo”.

Boulos também criticou o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), que segundo o coordenador do MTST apostou no conflito. “Eu não sei o que ele tem na cabeça. Ele age com ranço, com preconceito”.

PORATAL FORUM: GUARDA MUNICIPAL AMARRA BAILARINO POR 8 HORAS AO CONFUNDIR PERFORMANCE COM SURTO

Outubro 30, 2017

Abordado e amarrado durante uma performance ao ar livre em Caxias do Sul na manhã de sábado, o bailarino Igor Cavalcante Medina ainda não entende o que aconteceu

                                             Da Redação*

A apresentação do bailarino Igor Cavalcante Medina se chamava “Fim.” Ela fazia parte do 8º Caxias em Movimento, em Caxias do Sul (RS) e possuía uma autorização por escrito da prefeitura para ser realizada. No entanto, três guardas municipais e dois socorristas do Samu a confundiram com um surto psicótico e amarraram o artista por 8 horas.

“Tentei explicar, mas eles repetiam que eu estava em surto psicótico e que tinha de ser levado para atendimento. Diziam que estavam me ajudando. Eu falava da autorização que tinha (no calção), mas não me ouviam. Me deram uma injeção de calmante, porque diziam que eu estava alterado. Quem estava alterado eram exatamente eles”, relata Medina.

O bailarino foi abordado por volta das 11h30min de sábado e levado para o Pronto-Atendimento 24 Horas (Postão), onde ficou amarrado em uma maca até as 19h, quando uma psiquiatra lhe atendeu e assinou um laudo confirmando que Medina estava lúcido e consciente.

“Ainda estou em choque. Como não temos controle sobre as coisas? Como o outro pode ser um objeto de repressão em nossa vida? Uma simples ação de declamar um poema em praça pública. Ser amarrado, internado por surto psicótico, sem falar com ninguém, sem ninguém ouvir o que você está dizendo”, desabafou.

A polêmica teria iniciado pelo figurino utilizado, que estava envolvido em arame farpado. Medina esclarece que a roupa era segura e a performance não envolvia qualquer tipo de autoflagelação. O traje foi destruído e perdido durante a abordagem.

“Estava trazendo assuntos à tona, como o extermínio de pobres no Brasil e de negros pelo mundo. Estava levantando discussões necessárias. Queremos expor o que está acontecendo e buscar uma forma de diálogo, mas eles estavam em estado de vibração e não queriam me ouvir. Só se interessavam em dizer que eu estava surtado”, lamenta o bailarino.

Medina é natural do Rio de Janeiro e mora em Caxias do Sul há um ano e meio. Ele veio para cidade em busca de novas oportunidades profissionais. O convite veio de sua companheira, que é da Serra. O bailarino integra a Companhia Municipal de Dança desde março.

Release divulgado pelo 8º Caxias em Movimento para promover a apresentação:

Fim.
O trabalho aborda a violência e põe o corpo em evidência para trazer à tona as diversas formas de brutalidade do cotidiano, sejam elas físicas ou psicológicas. Os corpos vão sendo envenenados até a total desumanização. Será que já não somos nada mais além de um mero pedaço de carne incapaz de sentir, incapaz de resistir, incapaz de se rebelar?

Confira a nota oficial da prefeitura sobre o ocorrido:

A prefeitura de Caxias do Sul informa que está apurando as informações sobre a abordagem ao bailarino da Cia. Municipal de Dança, realizada pela Guarda Municipal neste sábado (28/10). A partir desta segunda-feira (30/10), a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Proteção Social (SMSPPS) começará a ouvir os relatos dos envolvidos para esclarecer a situação e dar os encaminhamentos necessários. Logo os fatos sejam esclarecidos, a prefeitura voltará a se manifestar oficialmente sobre o caso.

CAETANO VELOSO FAZ SHOW GRATUITO EM OCUPAÇÃO DO MTST EM SÃO BERNARDO

Outubro 30, 2017

Redação da Rede Brasil Atual.

caetano

São Paulo – O cantor e compositor Caetano Veloso vai fazer um show gratuito hoje (30), às 19h, na ocupação Povo sem Medo, no Jardim Planalto, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O evento, que contará com a participação de outros artistas, será em apoio às 8 mil famílias que vivem no local há quase dois meses, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na maior ocupação da América Latina atualmente. O palco será montado na Rua João Augusto de Souza, próximo ao portão 5 da fábrica da Scania. Caetano já participou de um vídeo de apoio ao movimento no início da ocupação.

O movimento prepara também uma grande manifestação para amanhã, a partir das 6h. Os moradores vão marchar da ocupação até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, no Morumbi, zona sul da capital paulista. A ideia é pressionar o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) por uma solução negociada para a reivindicação de moradia das famílias. Às 13h, o movimento vai encontrar apoiadores, que estão sendo convidados a se juntar à marcha a partir da estação Morumbi, da linha 9-Esmeralda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

“Faremos uma mobilização que vai marcar a história em São Paulo e no Brasil. Vai ser a grande marcha dos sem teto. São mais de 20 quilômetros, horas e horas de marcha, com milhares de trabalhadores que vão buscar o seu direito à moradia”, disse Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST, em vídeo convocando os apoiadores. O objetivo é cobrar do governador Alckmin a desapropriação do terreno para construção de moradias populares.

O movimento também quer a imediata construção de moradias em terrenos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano já destinados, assim como a manutenção do programa Casa Paulista. Outros atos já foram realizados na prefeitura de São Bernardo e na sede da construtora MZM, dona do terreno. A empresa tem uma dívida de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de cerca de R$ 500 mil, relativa à área ocupada, segundo o movimento.

No último dia 2, a 20ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) decidiu suspender a reintegração de posse da área abandonada há mais de 30 anos. Os magistrados determinaram que o Grupo de Apoio às Ordens Judiciais de Reintegração de Posse (Gaorp) do TJ-SP organizasse reuniões entre os sem teto, o governo de São Paulo, o governo federal, a prefeitura de São Bernardo e a construtora MZM para tentar chegar a um acordo sobre a área e a reivindicação das famílias.

O MTST também articula apoio à ocupação por meio de uma página na internet, buscando arrecadar alimentos, colchões, produtos de higiene e equipamentos de uso geral. “Ocupar não é uma escolha, é uma falta de escolha. Ninguém leva seus filhos para ficar no barraco de lona, pra ficar pisando no barro, porque gosta. Quem está hoje na ocupação é porque não tem outra alternativa para morar. Estão desempregadas, ou o aluguel toma grande parte do salário e não conseguem se sustentar. A crise bateu para todo mundo, mas você pode colaborar”, diz o manifesto de apoio. 

registrado em:      

ANELIS ASSUMPÇÃO REGRAVA O PAI, ITAMAR, EM SINGLE ‘RECEITA RÁPIDA’

Outubro 30, 2017
CULTURA-MÚSICA
É o primeiro single de seu terceiro álbum, “Taurina”, a ser lançado em 2018
por Redação RBA.
 
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Anelis conta que a canção – nunca foi gravada por seu pai – chegou ao seu ouvido quando pequena, através da voz de Alzira E

São Paulo – A cantora Anelis Assumpção divulgou, no último dia 20, a música Receita Rápida, primeiro single de seu terceiro álbum, “Taurina“, a ser lançado em 2018. A faixa foi composta por Itamar Assumpção, seu pai, em parceria com Vera Lúcia Motta.

Em entrevista a Fabiana Ferraz, da Rádio Brasil Atual, Anelis conta que a canção – nunca foi gravada por seu pai – chegou ao seu ouvido quando pequena, pela voz de Alzira E, no disco “Peça-me“(1996), produzido por Itamar. “Ela sempre me emocionou. Agora, na metade do processo do disco, comecei a considerar a possibilidade de gravar essa música, pela necessidade de ter essa leveza poética, costurando o disco”, conta.

Receita Rápida de Anelis foi produzida por Beto Villares, músico d’Os Amigos Imaginários, banda que toca com a cantora paulistana. Ela conta que a sua parceria com o grupo trará uma fluidez diferente no novo disco. “A minha sensação é que relação de intimidade que eu tenho com a banda é fundamental, onde a gente consegue criar com mais agilidade, se entendo muito bem musicalmente”, diz. A banda é formada por Bruno Buarque, Cris Scabello, Edy Trombone, Mau e Mauricio Fleury.

Ela também adiantou que o Taurina terá participações de Céu, Thalma de Freitas, Russo Passapusso, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Saulo Duarte, Liniker, Tulipa Ruiz, além de outras que ainda serão confirmadas.

O álbum está sendo produzido desde 2014. Anelis conta que parte da construção é feita na sua casa, especificamente, na cozinha, onde compõe seus versos. “É um lugar da casa onde eu criei uma relação. Comecei a pensar o que aquele cômodo representa no meu corpo: é meu coração ou minha cabeça? Então, entrei na viagem de uma cozinha mental”, conta.

Ouça a entrevista:

ENCONTRO “DELAS”: GRAFITEIRAS DE BH E CONTAGEM SE REÚNEM NESTE DOMINGO (29)

Outubro 29, 2017

ARTE

Objetivo é dar visibilidade aos trabalhos artísticos feitos por mulheres e aproximar público feminino

Redação

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Toda a programação do encontro é gratuita  - Créditos: Anna Rocha / Raka Digital
Toda a programação do encontro é gratuita / Anna Rocha / Raka Digital

Mulheres do grafite promovem em Contagem o 2º Encontro “DELAS – Mulheres do graffiti”, com a presença de grafiteiras da região metropolitana de Belo Horizonte e inúmeras apoiadoras. A intenção, segundo as organizadoras, é dar mais visibilidade às artistas, assim como aos seus estilos de arte e protesto contra o racismo, o machismo, a violência doméstica e outras opressões. No mesmo local, será montada uma tenda de beleza e oficinas infantis. 

“Queremos mostrar que estamos todas juntas e que precisamos nos reconhecer como artistas para fortalecer a cena da cidade”, explica Carolina Jaued, uma das integrantes do grupo. “A presença dessas artistas é uma afirmação de que existem diversas mulheres na cidade que têm buscado espaço para expressar a arte e se colocarem como sujeitos transformadoras e donas de suas histórias”, diz.

Para o 2º encontro foram convidadas 24 artistas, que ficarão responsáveis por determinadas pinturas. “Painel Coletivo” com as artistas, Samis, Tina, Clara Valente, Zi Reis, Kku, Okay, Fenix, Pime, Wannata, Fabiana Santana, Bolinho e Susue. “Sopa de Letras” com Tefa, Syra, Jeh, Lora, Lari, Tita, Angel, Gal, Siang, Isa, Biga e Diva. 

Programação: tenda de beleza, oficinas infantis e samba!

Outras apoiadoras participam do encontro, mas de forma diferente. A Tenda Beleza DELAS, montada no mesmo local, irá oferecer serviços gratuitos para a comunidade, como corte de cabelo, feitos por Liza Mendes (do salão A Liza Que Fez), tranças com as profissionais do Beleza Rara Afro, Fernanda Daisla e Adriele, sobrancelha com Mikaelle Marinho, massagem com Gabriela Ottati e Ana Macedo, e maquiagem com Renata Cassia. Serão distribuídas senhas para acesso do público.

Acontecem também duas oficinas de artes voltadas a crianças e estudantes da escola local, com oferta de 30 vagas, e a apresentação do grupo de samba Teresa, composto por quatro mulheres.

Toda a programação é gratuita e conta com o apoio do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura de Contagem, com organização da crew Minas de Minas. No próximo domingo (29), a partir das 9h, na Escola Municipal Carlos Drummond de Andrade, no bairro Riacho das Pedras, Contagem.

Edição: Larissa Costa

LONGA ‘DESERTO’, DE JONÁS CUARÓN, EXPÕE A XENO FOBIA LEVADA AO EXTREMO

Outubro 28, 2017

CINEMA

Ficção com Gael García Bernal acompanha uma caça aos imigrantes na fronteira entre Estados Unidos é México: “É o que acontece quando alguém valida o discurso de ódio”
por Xandra Stefanel, especial para RBA.
 
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Imigração

No filme, um grupo de imigrantes luta para sobreviver durante a travessia da fronteira entre o México e os EUA

Um grupo de imigrantes luta para sobreviver durante a travessia da fronteira entre o México e os Estados Unidos. No caminho, eles encontram um lunático xenófobo que faz, por conta própria, a patrulha da divisa entre os países e caça todos os que são – sob o seu ponto de vista – “invasores”. A trama de Deserto, segundo longa-metragem do diretor mexicano Jonás Cuarón, traz uma mistura explosiva de ação, drama e suspense. Tensão do início ao fim.

O filme estreou nos Estados Unidos em outubro de 2016 quando, ainda candidato à presidência, Donald Trump anunciava sua proposta para construir um muro afim de fechar a fronteira entre os dois países. Pouco mais de ano depois (e já com Trump à frente do governo americano), o longa chega aos cinemas brasileiros na véspera do feria de quinta-feira (2). E propõe uma reflexão sobre a questão da imigração, que vem tomando cada vez mais amplitude de crise humanitária em todo o mundo.

Gael: 'Jonás colocou nas telas o que acontece quando alguém valida o discurso de ódio'

Assustadoramente violento, Deserto acompanha Moisés (Gael García Bernal) durante sua tentativa de reencontrar a família. Junto de outros homens e mulheres que contrataram “guias” para poder atravessar a fronteira ilegalmente, no caminho, o protagonista depara com Sam (Jeffrey Dean Morgan, o Negan, da série The Walking Dead), figura solitária que, munido de metralhadora e de um feroz cão de caça, persegue e mata os imigrantes que encontra pela frente.

Sam, o vigilante: 'Bem-vindos à terra da liberdade'O personagem do patrulheiro não foi inventado ao acaso. Ele foi inspirado no Minutemen Project, uma espécie de milícia armada que se autoproclama vigia da fronteira americana, acertando com armas de longo alcance os imigrantes que tentam cruzá-la. Depois dos discursos anti-imigrantes proferidos por Donald Trump, a voz desses grupos extremistas vem encontrando cada vez mais ressonância. “Jonás colocou nas telas o que acontece quando alguém valida o discurso de ódio”, declarou o ator Gael García Bernal ao jornal espanhol El País, lembrando que os norte-americanos tiveram dificuldades em digerir seu personagem. “Os Estados Unidos não estão acostumados com o papel de bandido do filme.”

Retórica de ódio

A paisagem árida e vazia do deserto ajuda a dar a amplitude da pequenês daqueles imigrantes sob o olhar de pessoas como Sam. “Meu desejo foi criar um filme que envolvesse o público de uma forma visceral, que fosse uma experiência catártica, e que ao mesmo tempo permitisse refletir sobre um tema tão complicado como a imigração”, declarou o diretor que foi indicado ao Oscar pelo roteiro de Gravidade, dirigido pelo seu pai, Alfonso Cuarón.

“O deserto não conhece nacionalidades, países nem fronteiras. Ali, todos são iguais, e são tantos os perigos que não conseguia tirar essa história da cabeça, precisava contá-la”, afirmou Jonás, que afirma ter tido a ideia para o filme durante uma viagem pelo Arizona, quando tinha 24 anos. Foi lá que ele ouviu pela primeira vez a retórica de ódio contra os imigrantes. Ao falar com Alfonso sobre o conceito do filme que gostaria de fazer, o pai se interessou especialmente pela narrativa que transforma o imigrante em herói.

Em entrevista ao semanário francês Télérama, Alfonso, que é um dos produtores de Deserto,mencionou a principal metáfora do filme: “Este deserto, que fique bem claro, é uma metáfora do que sentem essas pessoas que decidem deixar suas cidades e suas famílias. O sentimento que nasce dessa paisagem desoladora é a tradução de suas angústias. Faz tempo que a imigração é tratada como um problema. Não é um problema, é um fenômeno. Além do mais, nós todos somos imigrantes ou descendentes de imigrantes. Se um dia não tivéssemos imigrado, toda a espécie humana estaria ainda em alguma parte do sul da África, de onde todos viemos. A Europa, vocês sabem, também vive neste momento um período difícil ligado à esses fenômenos”, afirma Alfonso.

Com uma fotografia tão intensa quanto o roteiro, o longa de Jonás é um verdadeiro soco no estômago para quem tem o mínimo de compaixão pelo ser humano. Talvez Deserto seja uma espécie de filme de terror dos novos tempos, desta época em que a total falta de empatia pelo próximo não precisa mais nem de disfarce. Ao contrário: ela pode até ser premiada com um dos cargos políticos de maior poder no mundo.

Trailer

posterDeserto
Título original: Desierto
Diretor: Jonas Cuarón
Produtor: Jonás Cuarón, Alfonso Cuarón, Carlos Cuarón, Alex García, Charles, Gillibert.
Productores executivos: David Linde, Gael García Bernal, Nicolás Celis, Santiago García Galván.
Fotografia: Damián García
Música: Woodkid
Elenco: Gael García Bernal, Jeffrey Dean Morgan, Alondra Hidalgo
Gênero: Ação, drama, thriller
Ano: 2015
Duração: 88 minutos
Países: México e França

 
 
 

AGENDA CULTURAL | OBRA CHIQUINHA GONZAGA ESTÁ NO FESTIVAL DE ÓPERA NO PARANÁ

Outubro 28, 2017

Confira este e mais destaques culturais da semana em Curitiba

Redação

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

Espetáculo em homenagem à artista será sábado (28), às 20h, no Guairinha - Créditos: Kraw Penas
Espetáculo em homenagem à artista será sábado (28), às 20h, no Guairinha / Kraw Penas

A da opereta de Chiquinha Gonzaga, “Festa de São João”, de 1879, é destaque o 3º Festival de Ópera do Paraná, de começou no dia 20 e vai até sábado (29). É a estreia mundial da apresentação. “Uma mulher, transgressora, valente e criativa não teria o devido espaço para levar ao palco suas obras em pleno século 19. Esta opereta é uma jóia da música histórica brasileira que estamos ainda descobrindo”, disse Gehad Hajar, responsável pelo restauro da obra e também diretor-geral do festival.  

A terceira edição do Festival é com programação totalmente gratuita, com apresentação no Guairão, Guairinha, Miniauditório, Capela Santa Maria e Paço da Liberdade. São mais de 20 espetáculos e sete cursos, realizados em Curitiba e Ponta Grossa. Mais de 400 artistas e técnicos estão envolvidos no evento. 

Para ficar por dentro

Ópera Festa de São João, de Chiquinha Gonzaga, com Coro Lírico de Curitiba, Orquestra Rabecônica do Brasil, Coro Infantil da Escola Padre Pedro Fuss, Escola de Dança Teatro Guaíra e Grande Elenco. 

Quando: Dia 28, sábado, às 20h, no Guairinha  

Quanto: Entrada gratuita. Os locais de apresentação abrem suas portas 25 minutos antes de cada espetáculo.  

Programação completa neste link.  

AGENDA CULTURAL

[ CINEDEBATE ]  Primavera Secundarista e República do Caos 

O quê: No aniversário de um ano da ocupação do Setor de Artes da UFPR, o gruo e estudantes que integrou o movimento contra a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio fará um cinedebate com dois documentários: ‘Primavera Secundarista’ e ‘República do Caos’. Ambos apresentam a onda de ocupações no Paraná em 2016.  

Quando: Dia 27, sexta-feira, das 18h às 20h30.  

Onde: DeArtes – UFPR, rua Coronel Dulcídio, 638, Batel, em Curitiba.  

Quanto: Entrada gratuita. 

[ TEATRO DE BONECOS ]  Era um, eram dois, eram três 

O quê: O que podemos encontrar na tenda de um contador de histórias? Livros, caixas, baús, malas, ratos. O que, ratos? Sim, três simpáticos ratinhos, brincando de esconder. E eles dão a partida para uma grande aventura. Cada ratinho protagoniza uma história. A peça “Era um, eram dois, eram três” é da Companhia Di Trento Produções.  

Quando: Dia 29, domingo, às 11h. 

Onde: Teatro do Piá, Praça Garibaldi, 7, Palacete Wolf, no São Francisco, em Curitiba.  

Quanto: Entrada gratuita.  

[ ARTES VISUAIS ]  O museu é feminista 

O quê: Obras do coletivo Guerrilla Girls estão na exposição “O museu é feminista e outras esperanças sobre o futuro”, que integra a Bienal de Curitiba 2017. O grupo usa máscaras de gorila em público e utilizam fatos e humor para apresentar questões de gênero no mundo da arte.  

Quando: Até 25 de fevereiro de 2018, de terça a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 18h, e aos sábados e domingos, das 12h às 18h.  

Onde: Museu da Fotografia Cidade de Curitiba, Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533, Solar do Barão, Centro de Curitiba.  

Quanto: Entrada gratuita. 

 

Foto: Divulgação

[ POESIA ]  Slam Contrataque: a grande final! 

O quê: Poetas e poetizas de Curitiba e Região Metropolitana estão convidados para participar da final – que vale uma vaga para o Slam- BR. Podem participar da disputa candidatos tiveram poesias entre as mais bem avaliadas nas últimas cinco edições do evento. 

Quando: Dia 28, sábado, das 18:30 às 22:30.  

Onde: Cavalo Babão, São Francisco, em Curitiba 

Quanto: Participação gratuita.  

[ ANIMAÇÃO ] Dia Internacional da Animação (DIA)  

O quê: É uma mostra de curtas-metragens de desenhos animados nacionais e internacionais, que ocorre em centenas de cidades do Brasil para comemorar o Dia Internacional da Animação.  

Quando: Dia 28, sábado, das 19h30 às 21h30.  

Onde: Cini Guarani, Portão Cultural, Av. Rep. Argentina, 3430, Portão, em Curitiba. 

Quanto: Entrada gratuita.  

 

Foto: Divulgação

[CINEMA] Carrossel da Esperança  

O quê: François (Jacques Tati) é um carteiro francês distraído e às vezes interrompe suas tarefas para conversar com os habitantes da pequena cidade onde vive. Após assistir em um filme os métodos mais rápidos dos correios dos Estados Unidos, François inicia uma nova jornada em sua bicicleta. A sessão faz parte do Cineclube da Aliança Francesa e está entre os clássicos do cinema francês, produzido em 1947.  

Quando: Dia 28, sábado, às 16h.  

Onde: Cini Guarani, Portão Cultural, Av. Rep. Argentina, 3430, Portão, em Curitiba. 

Quanto: Entrada gratuita. 

Edição: Ednubia Ghisi

O QUE TU INDICA? | O JOVEM MARX

Outubro 27, 2017

Longa-metragem teve estreia mundial em março deste ano, mas foi boicotado no Brasil.

Vanessa Gonzaga*

Brasil de Fato | Recife (PE)

Filme tem como diretor o haitiano Raoul Peck, que também dirigiu "I am not Your Negro", indicado ao Oscar. - Créditos: Divulgação
Filme tem como diretor o haitiano Raoul Peck, que também dirigiu “I am not Your Negro”, indicado ao Oscar. / Divulgação

Boicotado pelos cinemas no Brasil, O Jovem Karl Marx teve estréia mundial em março deste ano. Dirigido pelo haitiano Raoul Peck, que também participou do indicado ao Oscar “I Am Not Your Negro”, o filme traz uma parte da história de Karl Marx (August Diehl) e Friederich Engels (Stefan Konarske). Ambientado em Paris, Londres e Bruxelas, o longa mostra com outros olhos a história dos principais pensadores da história até hoje.

O filme desmistifica a imagem de Marx, que no início da sua trajetória como escritor da Gazeta Renana foi perseguido e acumulava pouco prestígio entre os filósofos europeus. Já Engels, filho de burgueses da indústria têxtil, vive a contradição de estudar a formação da classe trabalhadora da Inglaterra ao mesmo tempo que vê seu pai subjugar homens, mulheres e crianças que cumpriam longas jornadas de trabalho em sua fábrica.

Ao se conhecerem, passam a escrever juntos. Jenny von Westphalen , lembrada na história apenas como esposa de Marx é uma das surpresas do filme. Rompendo os paradigmas da época, Jenny não é um acessório de Marx. De origem rica, ela casa e passa a participar da vida política com seu companheiro. Participa de reuniões, revisa e analisa seus textos e o incentiva a continuar com a produção de artigos e textos volantes. 

Outro eixo central do filme são os embates da dupla com filósofos como Proudhon e Weitiling. Os estudos combinados de Marx e Engels entravam em choque com as teorias que conciliavam os trabalhadores e seus patrões. Em uma das reuniões da “Liga dos Justos”, Engels discursa contra essas teorias e renomeiam a liga como “Liga Comunista”. Depois da façanha, os dois se exilam para escrever a primeira das obras que marca o início das lutas da classe trabalhadora na época, “O manifesto do Partido Comunista”. 

O filme, ainda que ambientado no final do século XIX traz reflexões atuais sobre o papel dos trabalhadores na luta em defesa da dignidade e das suas próprias vidas. O desfecho deixa um gosto de quero mais e atiça a curiosidade dos espectadores em saber mais sobre a vida dos personagens. Estrategicamente, o filme encerra no início da vida política da dupla, deixando em aberto a continuidade para outro longa.

*Vanessa Gonzaga é estudante de jornalismo e estagiária do Brasil de Fato Pernambuco.

Edição: Monyse Ravena

FILÓSOFO GEORGES DIDI-HUBERMAN CURADOR DA EXPOSIÇÃO “LEVANTES”

Outubro 27, 2017