Archive for the ‘Poesia’ Category

TRÊS POEMAS DE MATHEUS BARBOSA

Abril 16, 2017

Publicamos abaixo três criações poéticas de Matheus Barbosa, estudante do segundo ano do ensino Médio da Escola Estadual Engenheiro Artur Soares Amorim.

Lá e cá

“Lá e cá lá e cá,
passam sem parar,
pessoas formigas,
sem deixar pensamentos voar.

Lá e cá lá e cá,
utopia destruída,
pessoas corroídas,
trabalham sem parar.

Sociedade cega,
civilização dominada,
florestas por dinheiro,
E o amor? Não existe mais nada.

Direção infinita,
inimigo a vista,
acorda marinheiro,
trabalhar, trabalhar,
ganhar dinheiro. “

Humor-colia

“Em poemas,
escrevo minha dor,
a dor que o mundo oferece.

Obrigado mundo,
por oferecer essa dor,
que em meus poemas escreves.”

Pátrialogia

“Se for pra morrer queimado,
que queimem meu coração,
pois de coração quente,
as pessoas precisam.

Se for pra morrer baleado,
baleias minha mente,
Para que se exploda de criatividade.

Não morro por vaidade,
não morro por agonia,
morro por minha pátria,
que irá melhorar um dia.”

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CANÇÃO MANAUARA

Março 19, 2017

Em tempos de “escândalo” da carne podre, carne fraca,  publicamos a paródia do afinado Kalyan Iauacanã da Silva Oliveira a buscar no Romantismo de Gonçalves Dias que tematizava a saudade de sua pátria quando lá em Portugal vivia a pensar no Brasil.

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Minha terra tem farinha,

Que não se encontra em qualquer lugar,

Tem a branca e a baguda,

Que fazem nossos dentes rachar.

Nossa mata tem o macaco,

Nosso céu tem urubu,

No lago tem a canoa,

E no rio tem o pacu.

Em pensar que o bodó é bom,

O jaraqui é muito mais,

Em pensar naquela farinha,

Desse jeito emagrecer jamais.

Minha terra tem muitas lendas,

Que tais nos fazem acreditar,

Em cismar com medo à noite,

Mais sombrias elas irão ficar,

Minha terra tem muitas lendas,

Onde no futuro irei participar,

retirando o golpista Temer

para meu Brasil melhorar.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu pare de jantar,

Sem que eu cisme com nossas lendas,

Que não se encontram em todo lugar,

Sem que eu ainda coma a farinha,

Onde no final um açaí irei degustar.

 

 

 

 

“A FARSA DA VERDADE GOLPISTA” CONTINUA SUAS APRESENTAÇÕES PELO TEATRO MAQUÍNICO DA ASSOCIAÇÃO FILOSOFIA ITINERANTE (AFIN)

Outubro 7, 2016

img-20161006-wa0037Vejam as fotos e assistam os vídeos com os depoimentos de estudantes e professores.

O Grupo de Teatro Maquínico, da Associação Filosofia Itinerante (AFIN), continua apresentando a peça A Farsa a Verdade Golpista escrita com o claro objetivo democrático de discutir com o público as tramas antidemocráticas elaboradas e executadas pelas forças-usurpadoras representadas pela mídia degenerada, empresários orais, parte do poder judiciário, e grande parte dos membros do Congresso Nacional.

Sempre tendo como corpo pedagógico-político o método do teatrólogo alemão Bertolt Brecht, o Teatro Maquínico encena A Farsa da Verdade Golpista com quadros divididos por legendas-títulos escritas em placas que são apresentadas pelo próprio público, possibilitando, desta forma, sua participação na trama da peça.

img-20161006-wa0041img-20161006-wa0034img-20161006-wa0030A Procura da Verdade, O Trabalho, A Escola, O Político, Nas Ruas, O Buraco, No Senado são os títulos-placas dos quadros que constituem a encenação e que são apresentados pelo público. O golpista Temer, a golpista Rede Globo, a professora preconceituosa e alienada que tem Moro como seu ídolo e a Rede Globo como sua consciência intelectiva e moral, os deputados federais do Amazonas que votaram em massa pelo golpe, os candidatos ao cargo de prefeito de Manaus todos golpistas, a condição de abandono de Manaus, o voto do senador golpista, são corpos antidemocráticos que A Farsa da Verdade Golpista encena diante do público, e que ele toma como tema para debate após o espetáculo.

img-20161006-wa0032img-20161006-wa0021img-20161006-wa0038img-20161006-wa0029img-20161006-wa0018img-20161006-wa0042Sempre foi essa a pedagogia-política-teatral que o Teatro Maquínico se engajou como forma de discutir com o público os temas que são necessários serem discutidos para que se processem novas formas de percepções e concepções que mudem as perspectivas já determinadas como dominantes para outras perspectivas fluentes como práxis e criação da democracia como potência constituinte.

Desta vez a apresentação foi realizada na Escola Estadual Arthur Amorim, situada no Núcleo 15, do Bairro Cidade Nova, na Zona Norte de Manaus. Uma plateia formada por estudantes, professores, merendeiras, trabalhadores de serviços gerais, entre outros participantes, possibilitaram uma encenação alegre e contagiante como deve ser o teatro popular que não se submete aos humores reativos da burguesia afeita à dramaturgia-gastronômico. O teatro para embalar vaidades e brutalidades de uma classe insensível à estética revolucionária, limitada intelectualmente e eticamente degenerada.

img-20161006-wa0023img-20161006-wa0039img-20161006-wa0020img-20161006-wa0033img-20161006-wa0035img-20161006-wa0036img-20161006-wa0024img-20161006-wa0022img-20161006-wa0031img-20161006-wa0028img-20161006-wa0026img-20161006-wa0025img-20161006-wa0040img-20161006-wa0017img-20161006-wa0014img-20161006-wa0015img-20161006-wa0016img-20161006-wa0019Há mais de 14 anos o Teatro Maquínico se desloca pela cidade de Manaus e outros municípios para, de encontro ao povo, discutir e examinar o que deve ser discutido e examinado. Todas às apresentações são gratuitas, já que a Associação Filosofia Itinerante é uma entidade sem fins lucrativos.

A LITERATURA VARIANTE DO POETA E ESCRITOR JOE MAIA QUE DESLOCA APOLÍNEAS LINHAS PELAS RUAS DE MANAUS

Maio 25, 2016

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Tudo que escapa do estabelecido, determinado, modelado, serializado e registrado, escapa em si mesmo como variante desses estados de coisas que se querem proprietários e dirigentes de tudo para controlá-lo. Toda variante, ao escapar desse estado de coisa, segrega novos devires-signos, que além de abalar o que se encontra estabelecido como valor-verdade, deixa rastros estéticos-inquietantes.

P1010768 P1010766 P1010765 P1010769Essa literatura variante, como outras artes-variantes, é classificada, erradamente, pelo sistema de captura do capitalismo duplamente como marginal. Uma como uma literatura que não pode circular no centro da literatura capitalizada dominada pelas editoras da ‘literatura’ comercial. A ‘literatura’ do escritor de encomenda que impede, como afirma o filósofo Deleuze, de emergir um Kafka, um D. Laurence, visto ser uma ‘literatura’ cuja estrutura linguística encontra-se capturada pela semiótica capitalística sobrecodificadora. Outra como literatura marginal, porque é uma literatura que reflete a classe social do escritor: um marginal. Alguém que não nada tem a oferecer ao sistema dominante. Aí sua marginalidade. Ou: o que se encontra na margem aí se encontra porque foi expurgado. Não serve para ‘enriquecer’ a sociedade da abundância como pede a sociedade de consumo capitalístico.

A literatura do escritor e poeta Joe Maia, se movimenta nesse segundo enunciado excludente do consumo capitalístico. O que é muito bom, já que se trata de uma literatura variante. A literatura que cria variável no muro da literatura cristalizada como mercadoria para uso de deleite-imóvel. Enquanto a literatura variante deleita, mas produz trepidação.

Esse Esquizofia apresenta duas criações de Joe Maia. Relatos de Um Poeta – Crônica e outros Poemas, publicado esse ano, e um zine, Tarrafeando Palavras – Alegoria de Cotidiano…, publicado em 2014. Além de apresentarmos o próprio escrito se auto-apresentando, também mostramos um de seus poemas. O trabalho é uma produção independente editado pela Coleção de Rua com direção de Jeovane Pereira com a revisão do próprio autor e o professor Márcio Santana. E ainda conta com as ilustrações de Klaryson Gurgel e Davidson Mourad.

P1010770 P1010771 P1010772 (2) Em Manaus, a literatura variante é bem expressiva. Pode-se encontrar obras de autores como Márcio Santana, Jeovane, Pereira, Marcos Nei, entre tantos. Ela, em função de sua singularidade, circula através de seus próprios autores que oferecem suas criações em bares, feiras, mercados, em portas de funerárias, supermercados, escolas, universidades, fábricas, todos os lugares onde se encontram o leitor. Agora, como os movimentos ecléticos-políticos, “Fora Temer”, os escritores participam das manifestações e aproveitam para oferecerem sua obras. Uma grande sacada, posto que a literatura é política.      

O POETA DRUMMOND GANHA ÓCULOS NOVOS DEPOIS DE ROUBADOS 9 VEZES

Janeiro 26, 2016

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Em 30 de outubro de 2002, a orla de Copacabana recebeu a estátua do poeta mineiro – brasileiro-mundial – Carlos Drummond de Andrade que fora criada pelo artista plástico Léo Santana. A estátua que tem 150 quilos foi colocada na calçada do bairro da zona sul do Rio, para expressas os passeios de Drummond na cidade que já foi maravilhosa.

Porém, a estátua tinha uns belos óculos, referentes aos óculos que o poeta usava. Só que era duas vezes belo. Uma por ser uma obra de arte, e outra por trata-se de uma referência a significante existência do poeta. Aí, não deu outra: roubaram os óculos da estátua.

Agora, a empresa Essilor, multinacional francesa, que adotou a estátua há sete anos e sua responsável pela manutenção, cogitando a proteção da estátua distribuiu livros homenageando Drummond e tratando da importância de cuidar do patrimônio público. A empresa também financia uma câmara de vigilância que é operada pela CET-Rio que foi instalada em 2009.

Por sua vez, Marcus Belchior, secretário de Conservação da Prefeitura do Rio, disse que também a preocupação com a restauração das obras, em vista do grande gastou do dinheiro público para sua restauração.

“Só em reparo já gastamos R$ 4 milhões. Seja aqui com Drummond, seja na estátua em homenagem a Noel Rosa, em Vila Isabel. Essas campanhas são importantes para despertar o amor do carioca pela cidade e seus monumentos. Vale lembrar também que monitoramos todas essas áreas e as imagens são encaminhadas para o governo do estado tomar as devidas providências”, disse o secretário.

DOIS POEMINHAS DE GARCIA LORCA TOCANDO DE LEVE EM LUIS BUÑUEL

Janeiro 9, 2016

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Garcia Lorca “poeta tombado na guerra civil (Belchior)” espanhola era grande, bom e sincero amigo do outro espanhol cinegrafista revolucionário autor dos clássicos do cinema arte internacional Cão Andaluz e Os esquecidos, Luis Buñuel. Ambos tiveram em suas histórias um momento por demais doloroso: a Guerra Civil Espanhola fomentada pelo ditador fascista generalíssimo Franco. Picasso, também espanhol, retratou as atrocidades em seus quadro revelador Guernica.

Garcia Lorca foi assassinado junto com milhares de espanhóis e estrangeiros que lutaram contra a tirania Franco pela liberdade do povo espanhol, assim, em seus desdobramentos, pelo extermínio do fascismo. A guerra acabou, mas o fascismo permanece até hoje. No Brasil é mantido e expressado pelos golpistas que tentam tirar Dilma do governo. Governo que ele conquistou com os votos democráticos dos eleitores brasileiros.

Como todos os sábados esse Blog Esquizofia publica com carinho-estético e respeito aos seus acessantes três poeminhas de uma poetisa ou poeta tocando de leve em algumas formas sensíveis, cognitivas ou éticas da mulher ou do homem, hoje, especialmente, serão publicadas apenas dois poeminhas. A razão poética ontológica é simples: os dois poeminhas foram dedicados por Garcia Lorca ao seu amigo e camarada Luís Buñuel, em 1924. Em uma dionisíaca noite.

“Guardo uma fotografia onde aparecemos ambos na motocicleta pintada de um fotógrafo, em 1924, na Verbena de San Antonio, a grande feira de Madri. Nas costas dessa fotografia, por volta de três horas da manhã (nós dois bêbados), em menos de três minutos Federico improvisou um poema que me deu. O tempo apaga um pouco o lápis. Recopiei esse poema para não perdê-lo.

Ei-lo”, escreveu Luís Buñuel em sua magnífica obra Meu Último Suspiro, publicado pela Editora Nova Fronteira, no ano de 1982, de onde extraímos os dois poemas.

fglorca_0A primeira feira enviada por Deus

é a de Santo Antônio da Flórida

Luís: no encanto da madrugada

Canta minha amizade sempre em flor

a grande lua brilha e roda

pelas altas nuvens tranquilas

meu coração brilha e roda

na noite verde e amarela

Luís minha amizade apaixonada

faz uma trança com a brisa

O menino toca o realejo

triste, sem sorriso

sob os arcos de papel

aperto tua mão amigo.

                    O outro poema foi oferecido a Luís Buñuel em um livro de Garcia Lorca, de 1929.

lorca_portrait_fullCéu azul

Campo amarelo

Monte azul

Campo amarelo

Pela planície deserta caminhando uma oliveira

Uma só

Oliveira.

VOCÊ QUER FAZER USO DE MACUNAÍMA DE MÁRIO DE ANDRADE SEM TER QUE PAGAR OU AUTORIZAÇÃO? AGORA PODE: É DOMÌNIO PÚBLICO

Janeiro 6, 2016

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Agora, a obra Macunaíma do escritor Mário de Andrade criada no ano de 1928, caiu de vez no domínio público. O que significa que qualquer pessoa que tenha intenção de produzir um trabalho com ela pode produzir sem as restrições normais da lei dos direitos autorais como autorização ou pagamento pelo uso.

Mário de Andrade é um dos mais festejados artistas da literatura brasileira. Ele participou da Semana da Arte Moderna, em 1922, e é conhecido também como uma das grandes expressividades da Arte Moderna Brasileira quando participando do Grupo dos Cinco, composto por ele, Oswaldo de Andrade, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia e Tarsila Amaral. Seu Macunaíma é obra de valor nacional e internacional. Foi transformado em outra arte: o cinema. Nas telas ele foi interpretado por talentosos e respeitados artistas como Grande Otelo e Paulo José cuja adaptação e direção ficou sob a inteligência e o olhar de um dos melhores diretores do Cinema Novo do Brasil: Joaquim Pedro de Andrade.

O fato alvissareiro ocorreu a partir do dia 1°. Copiar, reproduzir, fotocopiar e adaptar encontra-se liberada. É o conceito de domínio público se tornando realidade através de Macunaíma que já foi tachado de “herói sem caráter”. O domínio público significa que a obra escapa do Direito da Propriedade Intelectual, sendo o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação de livre uso comercial e que não submetidas a direitos patrimoniais exclusivo de uma pessoa física ou jurídica, mas que, entretanto, podem ser objeto de direitos morais. Em alguns países, as obras se tornam de domínio público depois de 50 ou 70 anos da morte do autor. No Brasil vigoram os 70 anos. Mário de Andrade nasceu no ano de 1945.

Valeu, domínio público! A cultura-livre brasileira agradece!    

TRÊS POEMINHAS DE NIETZSCHE TOCANDO DE LEVE NA SUPERIORIDADE DA VIDA

Dezembro 19, 2015

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“O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duro e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto chamei dionisíaco, isto entendi como ponte para a psicologia do poeta trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, não para purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente descarga – assim o entendeu mal Aristóteles -, mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir a ser – esse prazer que traz em si também o prazer no destruir…” “Nesse sentido tenho o direito de considerar-me o primeiro filósofo trágico – ou seja, o mais extremo oposto e antípoda de um filósofo pessimista”.

Esse o filósofo da Vontade de Potência, do Eterno Retorno à vida como criativa e distributiva. Aquela que sempre diz Sim a vida e Não ao pessimismo. Aquela que deve proteger os fortes contra os fracos. Os fracos os que foram absorvidos pelo ressentimento, a culpa, a má consciência, o ascetismo. Valores do humano, demasiado humano. Os fortes os que escaparam dessas forças pessimistas impõem o Não à vida.

O texto de abertura foi extraído da obra Ecce Homo que por sua vez Nietzsche extraiu de sua outra obra Crepúsculo dos Deuses. Os três poeminhas foram extraídos da obra Gaia Ciência.

Sejamos, pois, poetantes trágicos. Os que dizem Sim a vida, posto que trágico não é dor ou compaixão, mas comprometimento com vida. Não a vida artificial criada pela cultura capitalista com seus valores humanos, demasiados humanos da sociedade de consumo.

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                                                       3 INTREPIDEZ

“Onde quer que esteja, cave profundamente,

Lá embaixo fica a fonte.

Deixe os homens sombrios gritar:

“Lá embaixo fica sempre o inferno”.

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                                                   24 REMÉDIO PARA O PESSIMISMO

“Queixa-se por não encontrar nada do seu agrado?

São sempre os seus velhos caprichos?

Ouço-lhe praguejar, gritar, escarrar..

Estou esgotado, o meu coração despedaça-me.

Ouça, meu caro: decida-se livremente.

A engolir um sapo bem gordo,

De uma só vez e sem olhar!

É remédio soberano para dispepsia.

FOTOSITE1                                                         27 O VIAJANTE

“Acabou o atalho. O abismo, um silêncio de morte”

Assim o quis! Sua vontade deixou o atalho!

Agora é o momento! Tenha o olhar frio e claro!

Estará perdido se acreditar no perigo.

“Minha forma para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário – mas amá-lo…”.  

TRÊS POEMINHAS DE PROUST TOCANDO DE LEVE EM TRÊS MÚSICOS

Dezembro 12, 2015

em-busca-do-tempo-perdidoNão somos nós deste Esquizofia quem comenta a originalidade e singularidade do romancista, poeta, contista e crítico, autor do revolucionário Em Busca do Tempo Perdido, que afetou filósofos como Sartre, Deleuze, Guattari entre outros, Marcel Proust, mas ninguém menos que outro eminente poeta e escritor André Gide.

Escreve André Gide sobre o “desconcertante” Proust.

“A escrita de Proust é… a mais genial que conheço. Procuro suas qualidades predominantes e não consigo encontra-las; ela não tem esta ou aquela qualidade: tem todas… Tão desconcertante é a sua destreza que todo e qualquer outro estilo perto do seu parece afetado, desbotado, impreciso, sumário, inanimado”.

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                                            MOZART

Italiana de braço com um Príncipe da Baviera

Cujo olhar tristonho e frio se encanta com seu langor

Em seus jardins friorentos aperta ao coração

Os duros seios na sombra, a apalpar a luz.

 

Sua terna alma alemã – suspiro tão profundo! –

Goza enfim a ardente preguiça de ser amada,

Ele confia às mãos frágeis demais para retê-la

A luzente esperança de sua fronte encantada.

 

Querubim, Don Juan! Longe do ouvido que fana,

De pé entre os aromas, tanto pisa as flores

Que o vento dispersou sem lhes secar o pranto

Dos jardins andaluzes às tumbas da Toscana!

 

No parque alemão onde o tédio bruma,

A italiana ainda é rainha da noite.

Seu hálito faz o ar suave e espiritual

E sua Flauta mágica escoa, amorosa,

Na sombra ainda quente dos deuses de um dia,

O frescor dos sorvetes, dos beijos e do céu.

Marcel Proust

                               CHOPIN

Chopin, mar de suspiros, lágrimas, soluços

Que um vôo de borboletas cruza sem pousar

Brincando com a tristeza ou dançando sobre as ondas.

Ama, sonha, sofre, grita, acalma, encanta ou embala,

Fazes sempre escorrer entre cada dor

O olvido vertiginoso e doce do teu capricho

Como as borboletas voam de flor em flor;

E então de tua mágoa é cúmplice a alegria:

O ardor do turbilhão aumenta a sede de prantos.

Pálido, suave companheiro da lua e das águas,

Príncipe do desespero ou fidalgo traído,

Tu te exaltas ainda, mais belo em seres pálidos,

Com o sol que inunda o teu quarto de doente

Que lhe chora a sorrir e sofre de o ver

Sorrir de pena e das lágrimas da Esperança!

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                                 SCHUMANN

Do velho jardim, cuja amizade te embalou,

Ouves rapazes e ninhos que assobiam nas sebes,

Namorados exaustos de tantas chagas e etapas.

Schumann, soldado sonhador que a guerra desiludiu,

 

A brisa feliz, onde passam pombos, impregna

do aroma do jasmim a sombra da grande nogueira,

a criança lê o futuro na chama da lareira,

nuvem ou vento falam-te ao coração das tumbas.

 

Outrora teu pranto corria ao grito de carnaval

Ou sua doçura à vitória amarga se mesclava

Cujo ímpeto louco freme-te ainda na memória;

Podes chorar sem fim: ela pertence a teu rival.

 

Em Colônia o Reno rola as águas sagradas.

Ah! Como te cantavam alegremente os dias

De festa nas margens! – Mas, cheio de mágoa,

                                                        (dormes…

Chovem prantos nas trevas iluminadas.

 

Sonha onde a morte vive, onde a ingrata possui tua fé,

Tuas esperanças florescem, o crime dela é pó…

Depois o clarão pungente do acordar, onde o raio

Te fere de novo pela primeira vez.

Corre, perfuma, desfila com tambores ou bela

Sejas! Schumann, ó confidente de almas e flores,

Rio santo de dores invade o teu cais alegre,

Pensativo jardim amigo, viçoso e fiel

Onde se beijam lírios, lua e andorinha,

Exército em marcha, criança que sonha, mulher em

                                                                      (pranto!

Esses três poeminhas foram extraídos da obra de Marcel Proust Os Prazeres e os Dias, publicada com a novela inédita, O Indiferente, em 1983, pela Editora Nova Fronteira.

TRÊS POEMINHAS DE RIMBAUD TOCANDO DE LEVE NAS INQUITAÇÕES DO AMOR

Dezembro 5, 2015

RimbaudEm 1879 Delahaide perguntou a Rimbaud: “E a literatura?” E ele respondeu: ”Não penso mais nisso”. Analisando o breve diálogo revelador, o poeta Manuela Bandeira disse: “Era um homem de ação, de aventura. A poesia foi um simples momento de ação e aventura em sua vida, enquanto não se atirou à grande aventura da vida”.

Nascido a 20 de outubro de 1854, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, em Charleville, nas Ardenas, ele foi realmente um homem que escapou dos moldes do poeta comportado, mesmo com verve apolínea breve. Criou pouca poesia, comparado com sua prosa. Ateu, traficante de armas, preocupado com as aventuras comerciais, enviscou-se pelos meandros da lírica revolucionário. O seu drive criador do verso livre.

Leitor de Rabelais, Saint-Simon, Badeuf, Rousseau, Helvetius, Vitor Hugo em 1872 lançou a obra Uma Temporada no Inferno para em 1874 produzir, na Inglaterra, os poemas em prosa, Iluminações, ambos publicados juntos agora.

Desta forma, os três poeminhas em prosa aqui publicado são da obra Iluminações.

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                                     UMA RAZÃO

Um toque de teu dedo no tambor desencadeia todos

Os sons e dá início à nova harmonia.

      Um passo teu recruta os novos homens, e os põe em

marcha.

       Tua cabeça avança: o novo amor! Tua cabeça recua,

– o novo amor!

         “Muda nossos destinos, passa ao crivo as calamidades, a começar pelo tempo”, cantam estas crianças,

diante de ti. “Semeia não importa onde a substância de nossas fortunas e desejos, pedem-te”.

            Chegada de sempre, que irás por toda parte.

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                                    PARTIDA

     Visto demais. A visão foi reencontrada em todos os

ares.

      Possuído demais. Rumores das cidades, à noite, e

ao sol, e sempre.

       Conhecido demais. As paradas da vida.

 – Ó Rumore e Visões!

     Partida na afeição e no ruído novos!

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                             DEMOCRACIA

     “A bandeira tremula na paisagem imunda, e nossa

gíria abafa o tambor.

     “Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição.

Massacraremos as revoltas lógicas.

      “Aos países inundados e que cheiram a pimenta!

– a serviço das mais monstruosas explorações industriais

ou militares.

      “Adeus aqui, não importa onde, Recrutas da boa

vontade, teremos a filosofia feroz; ignorantes para com

a ciência, extenuados para o conforto; e que este mundo

rebente! É a verdadeira marcha. Para a frente, a caminho!”

Estes três poeminhas foram extraídos da obra de Rimbaud, Uma Temporada no Inferno e Iluminações; publicado em 1982 pela Editora Francisco Alves que teve a tradução singular do poeta Lêdo Ivo, com direito a orelha escrita pelo não menos magnífico poeta Manuel Bandeira.