Archive for Maio, 2017

Mafalda aprende a falar em guarani

Maio 31, 2017

Depois de mais de cinquenta anos de seu lançamento, a astuta garotinha argentina Mafalda vai “aprender a falar” em guarani. O idioma é oficial no Paraguai, junto ao espanhol, e pela primeira vez as tirinhas de Quino serão traduzidas para uma língua indígena.

O projeto desenvolvido por linguistas paraguaios vai traduzir, aos poucos, a obra que traz as aventuras de Mafalda, Manolito, Felipe, Susanita e os demais personagens argentinos. O autor, Joaquín Salvador Lavado, o Quino, se emocionou ao tomar conhecimento da expansão de sua história.

Em junho deste ano será apresentado o primeiro, dos dez livros a serem traduzidos, durante a Feira Internacional do Livro de Assunção, capital paraguaia.

Para a tradutora Maria Gloria Pereira, a adaptação da obra de Quino servirá para fortalecer o idioma indígena e pode ser o começo de uma série de traduções de quadrinhos para popularizar e impulsionar o interesse infantil pela cultura guarani.

“Falta mais pessoas se animarem a investir em histórias em guarani, seja traduzindo já existentes ou criando personagens próprios, creio que isso seria um grande êxito”, afirmou a tradutora.


“Vejam este é um palito para amassar ideologias”, diz o quadrinho
Segundo Maria Glória, um dos grandes desafios deste projeto é manter um “guarani funcional”. Explica também que em alguns momentos será necessário “pegar emprestadas” palavras em espanhol para manter a riqueza e a sutiliza do idioma indígena. “O pior que poderíamos fazer é colocar Mafalda falando um guarani que não se entende”.

O projeto foi possível graças a um convênio do mercado editorial paraguaio com o Ministério de Relações Exteriores da Argentina através do Programa Sul, que busca a tradução de autores argentinos em outros idiomas. Todo o humor de Quino será mantido e Maria Gloria garante: Mafalda vai dizer muitos “nahániri” (“não”, em guarani), quando o assunto for tomar sopa!

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São João, a festa completa

Maio 31, 2017

A festa de São João é , na minha opinião, a comemoração mais completa que temos no nosso calendário. O Carnaval é o momento mais celebrado, porém a “farra da carne” fica restrita às fantasias e aos ritmos. Já o São João vai muito além….

As festas juninas envolvem ritmos e danças como forró, coco, ciranda e tantos outros, que geralmente exaltam temas alegres e festivos. As quadrilhas juninas enaltecem as cores, os tecidos, as rendas e realizam grandiosas apresentações numa espécie de desfile de escolas de samba onde todos os componentes atuam , cantam e dançam como uma grande comissão de frente.

Há até quem ache o forró meio brega, mas não dispensa uma pamonha ou canjica. A culinária das festas juninas é de uma riqueza irresistível com seus mais variados bolos , comidas de milho e um quentão ou uma boa cachacinha para acompanhar. Sem falar no queijo ou aquela linguiça assada na fogueira, onde a fuligem da brasa dá aquele sabor especial.

Por falar em fuligem, como não falar da fumaça? O São João tem um cheiro próprio, aquele “perfume” de fumaça em toda parte, seja das fogueiras ou dos fogos que colorem o céu celebrando a vida.

E há ainda as brincadeiras, adivinhas e simpatias, que vão do desafio do pau de sebo à conquista da pessoa amada.

Seja numa grande cidade ou naquele interior mais longínquo, o São João faz-se presente como a festa mais completa que celebramos.

*Diego Santos é produtor cultural, coordenador do Coletivo de Cultura de Pernambuco e membro da Direção do PCdoB Recife.

Paul Singer terá filme dirigido por Ugo Giorgetti, com financiamento coletivo

Maio 30, 2017

Campanha começou nesta segunda e vai até 5 de julho.

São Paulo – Começou nesta segunda-feira (29) a campanha de financiamento coletivo para a filmagem de Paul Singer – uma história do Brasil, que será dirigido por Ugo Giorgetti, autor de, entre outros, Uma Noite em Sampa (2016), Cara ou Coroa (2012), O Príncipe (2002) e Boleiros – Era uma Vez o Futebol (1998). A campanha vai até 5 de julho. Nesses 40 dias, o objetivo é arrecadar R$ 130 mil.

Com 85 anos, completados em março, Paul Singer permaneceu 13 anos à frente da Secretaria Nacional de Economia Solidária, desde que foi criada, em 2003, no primeiro ano do governo Lula. Saiu há um ano, depois do impeachment. Militante de um novo modelo de consumo e de distribuição da riqueza, o economista defende os empreendimentos coletivos, vendo na modalidade uma volta às origens do socialismo. Na primeira edição da Revista do Brasil, em maio de 2006, ele falou sobre o tema, informando que a secretaria havia conseguido identificar 15 mil empreendimentos no país.

Austríaco de nascimento, Paul Singer veio com a família para o Brasil em 1940 – obteve a cidadania em 1954. Formou-se em eletrotécnica, foi trabalhador metalúrgico, filiado ao sindicato da categoria em São Paulo, e um dos líderes da chamada greve dos 300 mil, em 1953. Estudou Economia na Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em 1959. Foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Militante do PSB, em 1980 ele ajudou a criar o PT, um projeto que sempre defendeu, mas sem perder o senso crítico em relação a posturas internas. “Houve deslumbre, desbunde e descontrole”, disse, por exemplo, na entrevista de 2006, ao comentar sobre contribuições eleitorais.

Há um mês, Paul Singer participou do 4º Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Solidário, em Brasília. E no começo deste mês esteve na 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo. Ele foi um dos signatários do Projeto Brasil Nação, organizado por Luiz Carlos Bresser-Pereira, que propõe novo modelo de desenvolvimento para o país.

Interessados em participar do projeto  podem acessar o link https://www.catarse.me/paulsinger. Serão aceitas contribuições a partir de R$ 10.

O paulistano Ugo Giorgetti, 75 anos, assume  um projeto, como diz o material de divulgação, “de registrar essa forma de pensar autônoma e livre”, referindo-se a Paul Singer. ” O resultado é uma trajetória de um personagem que nos leva a refletir sobre o presente, o passado e o futuro do Brasil e do mundo. O filme é também, inevitavelmente, um retrato intelectual da própria cidade de São Paulo em anos particularmente conturbados.”

Documentário amplifica a voz das ocupações contra o impeachment

Maio 29, 2017

Resistência

Filme ‘Resistência’, de Eliza Capai, acompanha movimentos de ocupação e manifestações de luta por direitos constitucionais como igualdade de gênero, educação, cultura e pela democratização da mída.

por Xandra Stefanel

São Paulo – Cinquenta e cinco minutos. É este o tempo que a documentarista Eliza Capai (Severinas e Tão Longe é Aqui) leva para dizer – por meio de imagens, de discursos, entrevistas e de muita luta – que, por mais que a situação seja ou esteja difícil, é possível (e é preciso) ter esperança. Seu documentário Resistência, lançado na semana em que o afastamento de Dilma Rousseff completou um ano, apresenta a energia mobilizadora e obstinada de milhares de jovens e militantes que ocuparam edifícios públicos para reivindicar que suas vozes e suas demandas fossem ouvidas. Já na semana de pré-lançamento, o filme foi exibido em mais de 70 sessões em todas as regiões do Brasil, e também na Europa e Estados Unidos.

Tudo começou com uma série que Eliza estava fazendo sobre democracia em que um dos temas era educação. Em meio às ocupações estudantis na Assembleia de São Paulo pela instalação da CPI da Merenda, em maio de 2016, ela entrou em contato com os estudantes, que prontamente abriram a porta para sua entrada. Surpresa com a maneira com que aqueles jovens se organizavam, Eliza decidiu ficar e registrar aquilo que ressoava como uma nova forma de fazer política.

É assim que nasce o documentário Resistência: da percepção de que os estudantes que instigaram outras ocupações em escolas em vários cantos do país faziam parte de uma geração que se articula de maneira diferente e que alinha suas demandas políticas e sociais com questionamentos de gênero e de papéis em prol da construção de um futuro melhor para todos.

Eliza registrou como aquele grupo relativamente pequeno de adolescentes dividia as funções dentro do movimento, como se organizavam para atingir seus objetivos, como pautaram a mídia alternativa e a tradicional e se fizeram ouvir por políticos, artistas e pela sociedade como um todo. Ao constatar a grandiosidade daquele movimento, Eliza decidiu que só sairia de lá quando o prédio fosse desocupado. E foi o que fez.

A semente de Resistência estava plantada. Entre maio e agosto de 2016, o Poder Legislativo votou o afastamento da primeira mulher eleita presidenta do Brasil, Dilma Rousseff e, como resposta, outras dezenas de edifícios públicos foram ocupados e surgiram dentro e fora deles manifestações que exigiam direitos constitucionais como cultura, educação, igualdade de gênero e democratização da mídia.

Entre abril e agosto do ano passado, Eliza Capai acompanhou de perto as ocupações no prédio do Ministério da Cultura do Rio de Janeiro, da Funarte de São Paulo, a Marcha das Vadias na capital carioca e a Parada LGBTT de São Paulo.

A forma como ela costura a grave situação política no Brasil e todas essas manifestações de resistência são de uma força e delicadeza raras. As legítimas demandas desses movimentos são apresentadas sob diversos pontos de vista: do protagonismo feminino e negro, da quebra de estereótipos de gênero e da ocupação de espaços de poder por setores até pouco tempo completamente excluídos das tomadas de decisão. A mensagem que fica é que a luta só está começando.

Impossível não chegar ao final do filme triste por ver na tela a triste situação política do país. Mas ao mesmo tempo, o espectador é invadido por uma onda de esperança em uma geração que está reiventando a todo tempo as formas de lutar por um país melhor. A associação com a música E Vamos À Luta, de Gonzaguinha, é inevitável, apesar de ela não fazer parte do filme: “Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão/ Eu ponho fé é na fé da moçada/ Que não foge da fera e enfrenta o leão/ Eu vou à luta com essa juventude/ Que não corre da raia a troco de nada/ Eu vou no bloco dessa mocidade/ Que não tá na saudade e constrói/ A manhã desejada”.

Onde ver

Nem adianta procurar o documentário Resistência nos cinemas. Segundo Eliza Capai, ele foi feito para ser um filme compartilhado, para servir como um instrumento de reflexão sobre tudo o que está acontecendo no país. Portanto, a equipe do filme incentiva que qualquer cidadão organize sessões gratuitas para sua exibição. Para saber onde serão as próximas sessões e como organizar uma exibição de Resistência, visite o link www.videocamp.com/pt/movies/resistencia.

Belchior, pequeno perfil de um cidadão incomum

Maio 28, 2017

Belchior

Lembranças e anotações sobre o compositor que morreu em 30 de abril, aos 70 anos. Ele é tema de biografia escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros, a ser lançada no segundo semestre.

por Vitor Nuzz

São Paulo – “Aí um analista amigo meu/ Disse que desse jeito não vou viver satisfeito” são alguns dos versos da Divina Comédia Humana, de Belchior. Esse analista existe, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará junto com o futuro compositor – que trocaria o curso pelo de Filosofia – e foi localizado pelo jornalista Jotabê Medeiros, que prepara uma biografia a ser lançada no segundo semestre.

Reticente, o analista amigo dele acabou concordando em conversar, no horário de uma sessão, um dia depois do sepultamento de Belchior, que ocorreu na manhã de 2 de maio, em Fortaleza. Dois dias antes, o músico havia sido encontrado morto na pequena Santa Cruz do Sul (RS, 130 mil habitantes), última parada de um desaparecimento de anos.

“A história de Antonio Carlos Belchior é a história de uma criança, saudável e feliz, que cresceu ouvindo música em casa e nas ruas cantadores repentistas. É a história de uma criança que apaixonou-se pela cultura do povo e para o povo cantou a vida toda”, escreveu em seu blog o jornalista paraibano Assis Ângelo, que várias vezes recebeu o artista em sua casa, já em São Paulo, servindo bons pratos de bacalhau. Assis desembarcou em terras paulistanas praticamente ao mesmo tempo em que Belchior começava a experimentar o sucesso, com o disco Alucinação (1976), depois que Elis Regina lançou Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, as duas primeiras faixas do disco Falso Brilhante, do mesmo ano.

Veloso, o sol não é tão bonito
Pra quem vem do Norte e vai viver na rua
(Fotografia 3 x 4)
Mas trago de cabeça um canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino, tudo é maravilhoso
(Apenas um Rapaz Latino-americano)

 

“Suas canções não são das que morrem. Ele prefigurou os anos 80 em termos globais e se instalou na memória profunda da história da criação de música popular no Brasil”, escreveu Caetano Veloso em artigo no jornal O Estado de S. Paulo. Caetano e os tropicalistas em geral foram implícita ou explicitamente citados em composições de Belchior, e o baiano, em seu texto-tributo, comentou as referências. “Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante.”

Caetano também interpretou na chegada do chamado Pessoal do Ceará (Belchior, Fagner, Ednardo e outros), no início dos anos 1970, a intenção de “exibir confronto com os tropicalistas”. “Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. (…) No estilo de Belchior, soava justo”, comentou Caetano, lembrando que o Tropicalismo se opôs à Bossa Nova ainda que “louvando” João Gilberto, Tom Jobim e Carlos Lyra. E que a Bossa Nova se opôs à “velha”, mas louvando Dorival Caymmi, Ary Barroso e Bide&Marçal (dupla de compositores cariocas).  “O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior.”

Caetano contou ter encontrado Belchior pela última vez pouco antes do desaparecimento do artista. “Ele me procurou e conversamos bastante. Me trouxe de presente dois retratos de Drummond desenhados por ele, muito sugestivos e profundamente sentidos.”

Agora ficou fácil
Todo mundo compreende
Aquele toque Beatle
I wanna hold your hand
(Medo de Avião)
João, o tempo 
Andou mexendo com a gente, sim
John, eu não esqueço
Oh no, oh no, oh no
A felicidade é uma arma
Quente, quente, quente
(Comentários a respeito de John)

 

A presença constante de referências – musicais e literárias, basicamente – no cancioneiro de Belchior chamou a atenção também do mundo acadêmico. Foi tema, por exemplo, de tese de doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2014, apresentada por Josely Teixeira Carlos (Fosse um Chico, um Gil, um Caetano: uma análise retórico-discursiva das relações polêmicas na construção da identidade do cancionista Belchior).

 

Ali, a pesquisadora lembra do início da relação entre Belchior e os Beatles, sempre lembrados em canções. Em entrevista de 1990, o compositor conta que, assim que saiu do mosteiro, viu em uma banca de jornal um texto criticando o grupo inglês, pelo aspecto “sujo e repugnante” das roupas e dos cabelos. Em seguida, ouviu no rádio Love me Do e outras canções.

O que chamou inicialmente a atenção de Belchior foi o fato de que aquelas músicas teriam um viés religioso, como “Eleanor Rigby” do LP Revolver de 1966, que tem arranjos exclusivamente de cordas e à moda gregoriana; uma música muito próxima àquela com a qual o futuro artista estava habituado na Igreja. Então, a experiência do seminário serviu como ponte para o ingresso na música. Como Belchior na época não sabia inglês, o que chamou a sua atenção inicialmente foram as músicas traduzidas; mas também o comoveram as canções originais em inglês, dentre as quais Belchior lembra “Penny Lane”. Logo depois dessa experiência, Belchior conta que comprou um violão e já começou a tocar. 

ACERVO DO FUTURO LIVRO DE JOTABÊ MEDEIROSAcervo do futuro livro de Jotabê Medeiros
Belchior foi frei Francisco Antônio de Sobral no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga, região serrana do Ceará

Belchior foi o frei Francisco Antônio de Sobral no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga, na região serrana do Ceará, conforme conta Jotabê Medeiros no início de sua ainda inédita biografia, que teve um trecho publicado na revista Piauí. Entrou lá em fevereiro de 1964, pouco antes do golpe. Uma das pérolas escavadas pelo escritor mostra um grupo de capuchinhos, entre eles Belchior, 17 anos, recebendo o primeiro presidente do ciclo militar, marechal Castelo Branco.

A bagagem que trouxe, em uma mala de mascate, era mínima como a dos demais noviços: dois lençóis, duas toalhas e três mudas de roupa, além de escova, pasta, saboneteira e sabonete. Espelho, pente e qualquer perfume eram proibidos. Uma hora após adentrar o mosteiro, seu cabelo foi raspado e o noviço foi enfiado num hábito rude, que a ele pareceu subitamente confortável. (…)

Logo descobririam: aquele jovem de Sobral trazia outras coisas para Guaramiranga além da bagagem exígua. Era capaz de improvisar repentes e emboladas durante até duas horas, para alegria de sua turma. A escolha do nome Sobral foi de um bairrismo orgulhoso, mas essa seria uma das raras concessões de Antonio à cidade natal ao longo de toda a vida.

Além de bem-humorado, Frei Sobral era atento, disciplinado, fraterno e cortês. Recitava capítulos inteiros da Regra de Vida (espécie de Constituição dos capuchinhos), todo o Testamento de São Francisco, longas passagens de Os Lusíadas, de Camões. Mostrava controlada tendência para o rigorismo (as penitências e os jejuns impostos pela ordem). Encarava o cilício quase com indiferença.

Um dos mais de 100 entrevistados por Jotabê para o livro, Hermínio Bezerra, lembra de alguns motes de improvisações feitas por Belchior, o que sugere que uma de suas principais canções, Galos, Noites e Quintais, tenha sido gestada ainda no convento. A música só foi gravada em 1977, no LP Coração Selvagem.

Jotabê Medeiros considera Belchior o artista mais outsider, mais “fora dos trilhos” que já apareceu no Brasil. “Ele nunca integrou nenhum tipo de panelinha. A produção dele era interiorizada, ele tinha uma atitude de filósofo”, diz o biógrafo, que define o compositor como “cavaleiro solitário”.

O jornalista havia conseguido a pista do paradeiro de Belchior, em Santa Cruz do Sul, mas não teve tempo de ir procurá-lo. Se, por um lado, a morte do compositor põe um ponto final na história (“Antes, era um livro aberto, existiam milhares de possibilidades”), por outro facilitou o acesso a fontes. “Por lealdade e até por laços de amizade, as pessoas falavam com restrições. Era mais difícil o acesso a certos personagens. Consegui personagens novos, que vão enriquecer o livro. Foi como se o livro abrisse de novo.”

O sumiço de Belchior parece ter galvanizado a idolatria em torno do artista. Jotabê observa que não é possível medir o quanto isso alimentou a chama, mas lembra que a maior parte dos seguidores mais fiéis é bastante jovem, como uma tatuadora de 25 anos que sabe tudo sobre o compositor. “A música dele também veio à tona para muita gente que não conhecia”, diz, o jornalista, para quem isso só demonstra a “profundidade e solidez” da obra, ainda mais considerando que o último disco de inéditas, o independente Bahiuno, é de 1993, e ele não tocava ou fazia shows havia pelo menos 11 anos. “Que tipo de artista permaneceria tão forte?”

Hora do Almoço, homenagem a Belchior em fevereiro de 2016

 

Rick Ferreira, guitarrista, participou de gravações de cinco LPs de Belchior – Alucinação, Coração Selvagem, Todos os Sentidos, Era uma vez o homem e seu tempo (que ele chama de Medo de Avião, como a obra também ficou conhecida) e Objeto Direto –, de 1976 a 1980. “Posso dizer que os dois melhores artistas (com quem trabalhou), em termos de alto-astral, foram o Raul (Seixas) e o Belchior. Era um cara extremamente educado, sabia como pedir as coisas. Na parte musical, o Raul até dava mais pitaco. O Belchior comprava mais as ideias”, lembra.

Ele considera “inevitável” a comparação com Bob Dylan, tanto pelo tamanho (das letras) como pela parte musical. “Vejo ele como um músico folk”, diz Rick, que considera Medo de Avião o melhor trabalho de Belchior. “Foi um disco que eu deitei e rolei, com um pezinho na country music mesmo”, conta o músico, que tocou banjo e steel guitar, um instrumento que ele introduziu no Brasil.

O guitarrista lembra de um show em 2005, em Divinópolis (MG), baseado no álbum Baú do Raul, em que Belchior cantou Maluco Beleza e As Minas do Rei Salomão. “Embora sejam estilos diferentes – para os fãs, obviamente, o Raul tem um apelo inigualável, é um fenômeno”, diz Rick, referindo-se a Belchior. Para ele, os três grandes letristas brasileiros são, nessa ordem, Raul Seixas, Belchior e Zé Ramalho.

O músico levou um susto quando, durante a gravação de Objeto Direto (1980), recebeu uma letra de Belchior para pôr melodia. “Nunca fui de compor muito. Peguei essa letra e nada de fazer uma música, nada que eu gostasse, até que lembrei de uma música que eu fiz com uns 17 anos”, lembra Rick. A parceria, de 1981, com roupagem bem country, chama-se Meu Nome é Cem, inédita em discos.

Meu nome é legião
Não sou só um
Sou um cidadão comum
Meu nome é cem
(…)
O amigo que saiu pra ver a lua
Jaz anônimo na rua
(…)
A lei dos homens nos obriga
A ser normal
E como vivo comovido
Dizem que sou um bandido marginal

 

Jotabê estima em pelo menos 600 as composições de Belchior, muitas inéditas. Só Jorge Mello, um de seus parceiros mais constantes, tem pelo menos uma dezena. Dias depois da morte do artista, em um tributo realizado em Fortaleza durante o festival Maloca Dragão, o ator, diretor e dramaturgo Ricardo Guilherme declamou uma dessas inéditas, Madalena, feita para a peça O Morro do Ouro. Com 14 anos, Ricardo trabalhou com Belchior no programa Porque Hoje é Sábado, da TV Ceará. “Ele era de uma geração que tinha o sonho de liberdade e de democracia. O seu desejo de transgressão e superação é permanente. Sua obra fala sobre o rejuvenescimento permanente que o sonho deve ter”, declarou ao jornal cearense O Povo.

Graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o professor da Federal de Pelotas César Augusto Ferrari Martinez falou sobre sua convivência com Belchior já durante o período de “sumiço” do artista para o grande público. Conheceram-se no final de 2012, quando Martinez ofereceu abrigo ao artista e sua companheira, Edna, com direito a “blindagem” contra jornalistas.

“Ele me chamava de Professor. Eu lhe dizia Mestre. Ele arrumava meus livros, eu lhe contava meus planos. Nós compartíamos vinhos. Ele caligrafava, tocava, sorria. Fazia tudo, menos cantar. Não cantava mais.”

Não cantava, mas dedilhou Galos, Noites e Quintais, aquela mesma concebida nos tempos de mosteiro..

Talvez o último registro conhecido de Belchior cantando tenha sido feito em 7 de setembro de 2011, no Centro Cultural do Consulado do Brasil em Artigas, no Uruguai, como parte de um projeto chamado Ondas Sonoras – Primeiro Movimento, que não foi adiante. Mas ali o artista canta, entre outras canções, Velha Roupa Colorida, acompanhado ao piano por João Tavares Filho, que conheceu o compositor cearense naquele ano, após um concerto em Quaraí (RS), terra natal do músico, que hoje mora em Roma. “Muito me marcou a sabedoria, cultura e simplicidade desse grande artista que hoje partiu”, escreveu João no dia da morte de Belchior, em 30 de abril, aos 70 anos.

Em várias etapas da vida, o artista fala na tradução de A Divina Comédia Humana, de Dante Alighieri, um projeto no qual parecia permanentemente empenhado. Até ao mosteiro dos capuchinhos ele retornou, contando sobre seu trabalho. Em 30 de abril, o jornalista Thales de Menezes, em texto na Folha de S.Paulo, recordou uma entrevista feita com Belchior em 1987, em que ele contava sobre sua proposta de criar 3 mil desenhos inspirados na obra épica, escrita no século 14. “Uma paixão quase juvenil foi tomando conta de seu discurso. Dante era, sem dúvida, a maior influência comportamental, filosófica e artística assumida por Belchior.”

“Tenho a impressão de que ele pode ter feito anotações, mas era um trabalho para não concluir”, comenta Jotabê Medeiros, sobre A Divina Comédia.

Se concluísse, talvez perdesse o sentido.

Ora, direis,
Ouvir estrelas,
Certo perdeste o senso
Eu vos direi, no entanto
Enquanto houver espaço, corpo e tempo
E algum modo de dizer não
Eu canto

‘Vamos sem Temer’: clipe de Márcio Lugó faz crítica ao governo golpista

Maio 27, 2017

Vídeo de “O Sobrevivente” traz animação que escancara abuso de poder, desigualdade social, violência policial, superlotação do metrô e os muros cinzas de João Doria. “Agora é esperança de revolução’.

O cantor paulistano Márcio Lugó acaba de lançar no YouTube e nas redes sociais o terceiro clipe do álbum Pêndulo. O vídeo feito completamente em animação faz uma crítica literal à atual conjuntura política e social brasileira. Apesar de a letra ter sido escrita há seis anos, a produção escancara mensagens que atingem diretamente o presidente Michel Temer (PMDB), o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado de São Paulo e o do prefeito paulistano, João Doria (PSDB).

A música trata sobre um homem que foi preso por pegar “dinheiro como solução” e que mudou de lado dentro da prisão, “se fez comportado, um tanto humilde e sem distrair cumpriu a pena na certeza que não voltaria pra cela abafada depois de sair”. Acontece, que quando saiu da cadeia, ele viu que o cinza tomava conta da situação – e, de forma literal, a animação mostra as brigadas anti-pichação do atual prefeito de São Paulo.

Videoclipe de 'O Sobrevivente' foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal

Depois de enfrentar as filas e a desesperança nos serviços públicos de empregabilidade, só lhe resta voltar pra casa em metrô abarrotado (“Reverência bovina de todas as noites, onde será que vai essa nação?”). Quando ajuda alguém em situação de rua e com fome, o homem se revolta aparentemente com os lucros exorbitantes dos bancos, com a desigualdade social e conclama o povo a agir. Com mais pessoas, a luta tem mais força contra esta máquina opressora, a mídia e a violência policial: “Agora é esperança de revolução” e é aí que o povo unido carrega a faixa “Vamos sem Temer”.

Em seu site, Márcio Lugó declara a importância da arte na transformação social: “De alguns anos pra cá, percebi que a importância do artista é muito maior do que só o aspecto musical. A arte é a essência. É a desculpa que a gente tem para chegar ao próximo. Para fazer as pessoas refletirem e pensarem um pouco diferente. Nosso papel é estar em contato com essa sociedade que nos cerca, fazendo parte dela, tentando ajudá-la e tentando aprimorá-la”.

O videoclipe foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal.

Ficha técnica O Sobrevivente
Música
Voz e guitarra: Márcio Lugó
Guitarra, baixo synth e programações: Rafa Moraes
Percuteria, congas, bells e efeitos: Raphael Coelho
Mixagem: Gustavo Lenza
Masterização: Carlos Freitas
Videoclipe
Direção, animação e finalização: Dan Leal

Caetano, Mano Brown, Criolo e outros artistas se apresentam em ato no Rio por diretas já

Maio 26, 2017

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Grandes nomes da música brasileira marcam presença neste domingo (28), na praia de Copacabana, para pedir a saída de Temer e “o direito do povo votar”

“Vamos para as ruas em um evento gigantesco, com grandes artistas, pelas diretas já. Pelo direito do povo votar. Nossa crise é de legitimidade”, afirma em vídeo o ator Wagner Moura, sobre o evento “O Rio pelas Diretas Já“, que será realizado na praia de Copacabana, a partir das 11h, no próximo domingo (28). Além de pedir a saída do presidente Michel Temer (PMDB) e a realização de eleições diretas, os presentes poderão assistir a shows de grandes nomes da música nacional.

“Isso não é um movimento de esquerda nem de direita. Isso é pela democracia. Vamos pressionar para tirar esse Temer de onde ele nunca deveria ter chegado. Temos o direito de escolher o próximo presidente”, completa o ator. O ato conta com a organização das frentes Povo sem Medo e Brasil Popular. “É um fato: Temer não se sustenta mais na presidência. Agora é hora de escolhermos o nosso caminho”, afirmam os organizadores.

Caetano Veloso, Mano Brown, Criolo, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mart´nália, Mosquito, Cordão da Bola Preta e BNegão são alguns dos nomes que estarão presentes. “Esse movimento é super importante e necessário para o país”, afirma a cantora e atriz Emanuelle Araújo. “Vamos para a rua lutar por nosso direito de mudar essa bagunça em que foi transformado o governo do nosso país. Serão vários artistas maravilhosos e você não pode perder”, completa.

A organização do evento remete ao movimento das Diretas Já, que defendia o direito de a população votar para presidente, em 1984. “Mais de 30 anos se passaram desde o histórico movimento das Diretas Já. Não há saída que não seja a democracia (…) Não podemos abrir mão dessa escolha e deixar que a Câmara formada por parlamentares tão corruptos quanto Temer e seus aliados decidam por nós”, diz o texto da convocação no Facebook.

O ator Vladimir Brichta gravou um vídeo em seu perfil no Facebook convocando para o ato. “Vamos todos para as ruas pedir nosso direito de escolher o novo presidente. Não vamos deixar nas mão do Congresso. Novo presidente porque todos sabem que Temer vai cair, isso não se discute mais. Mas não se engane, esse Congresso não representa a gente. São mais de 200 pessoas sendo investigadas”, afirma.

‘VAMOS SEM TEMER’: CLIP DE MÁRCIO LUGÓ FAZ CRÍTICA AO GOVERNO GOLPISTA

Maio 25, 2017

O cantor paulistano Márcio Lugó acaba de lançar no YouTube e nas redes sociais o terceiro clipe do álbum Pêndulo. O vídeo feito completamente em animação faz uma crítica literal à atual conjuntura política e social brasileira. Apesar de a letra ter sido escrita há seis anos, a produção escancara mensagens que atingem diretamente o presidente Michel Temer (PMDB), o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado de São Paulo e o do prefeito paulistano, João Doria (PSDB).

A música trata sobre um homem que foi preso por pegar “dinheiro como solução” e que mudou de lado dentro da prisão, “se fez comportado, um tanto humilde e sem distrair cumpriu a pena na certeza que não voltaria pra cela abafada depois de sair”. Acontece, que quando saiu da cadeia, ele viu que o cinza tomava conta da situação – e, de forma literal, a animação mostra as brigadas anti-pichação do atual prefeito de São Paulo.

Videoclipe de 'O Sobrevivente' foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal

Depois de enfrentar as filas e a desesperança nos serviços públicos de empregabilidade, só lhe resta voltar pra casa em metrô abarrotado (“Reverência bovina de todas as noites, onde será que vai essa nação?”). Quando ajuda alguém em situação de rua e com fome, o homem se revolta aparentemente com os lucros exorbitantes dos bancos, com a desigualdade social e conclama o povo a agir. Com mais pessoas, a luta tem mais força contra esta máquina opressora, a mídia e a violência policial: “Agora é esperança de revolução” e é aí que o povo unido carrega a faixa “Vamos sem Temer”.

Em seu site, Márcio Lugó declara a importância da arte na transformação social: “De alguns anos pra cá, percebi que a importância do artista é muito maior do que só o aspecto musical. A arte é a essência. É a desculpa que a gente tem para chegar ao próximo. Para fazer as pessoas refletirem e pensarem um pouco diferente. Nosso papel é estar em contato com essa sociedade que nos cerca, fazendo parte dela, tentando ajudá-la e tentando aprimorá-la”.

O videoclipe foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal.

Ficha técnica O Sobrevivente
Música
Voz e guitarra: Márcio Lugó
Guitarra, baixo synth e programações: Rafa Moraes
Percuteria, congas, bells e efeitos: Raphael Coelho
Mixagem: Gustavo Lenza
Masterização: Carlos Freitas
Videoclipe
Direção, animação e finalização: Dan Leal

Com lei de fomento, coletivo de São Paulo inaugura centro cultural na periferia

Maio 24, 2017

Preta Rara

O Coletivo Perifatividade oferecerá cursos gratuitos de dança étnica, inglês, espanhol e produção audiovisual. Centro conta ainda com biblioteca comunitária.

por Sarah Fernandes

São Paulo – O Coletivo Perifatividade, que reúne artistas e militantes da cultura na periferia, irá inaugurar, no próximo sábado (27), um centro cultural no Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, que oferecerá aulas de inglês e espanhol, dança e produção audiovisual. As atividades terão início em julho e serão gratuitas.

O projeto foi um dos beneficiados pela Lei de Fomento à Cultura da Periferia, sancionada no ano passado pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), a partir de um projeto de lei de iniciativa popular redigido por coletivos culturais das periferias. Após a sanção foi lançado o primeiro edital, que financia projetos culturais nas periferias da cidade por até dois anos, executados por grupos com pelo menos três anos de atividade. A lei prevê que os editais sejam publicados uma vez por ano.

“Vai ser um espaço de encontros de moradores, vizinhos e movimentos populares, principalmente os ligados à habitação, que são históricos no bairro, desde os mutirões e ocupações”, conta um dos integrantes do coletivo, Ruivo Lopes. “Queremos que haja mais iniciativas como essa no centro e nas cinco regiões da cidade.”

Em junho começarão as inscrições para participar dos cursos e oficinas, que serão todos gratuitos. As aulas começam efetivamente em julho. Entre os cursos oferecidos estão o de dança étnica, com foco em danças indígenas e afro-brasileiras; o de inglês, que usará como pano de fundo das aulas poemas de escritores afroamericanos; e o de espanhol, que trabalhará literatura latinoamericana para o ensino da língua.

Na programação também estão previstas oficinas de capacitação em produção audiovisual independente, que terá como um dos objetivos produzir materiais que contem a história do bairro, marcadas por diversas mobilizações de lutas por direitos, a partir de entrevistas com moradores mais antigos.

O centro comunitário também conta com uma biblioteca comunitária, aberta a todos os interessados, e com espaço para realização do Sarau Perifatividade, que terá periodicidade mensal. No segundo semestre, serão promovidos debates do Círculo de Cultura, Educação e Direitos Humanos, que por três meses terão como tema com a comunidade. “Os três assuntos estão entrelaçados: lutar pelo fazer cultural é um processo de ensinamento que promove direitos”, diz Lopes.

Inauguração

O evento oficial de inauguração do espaço deve começar às 14h, quando o local será apresentado para os moradores do Parque Bristol. Às 17h, será lançada a coletânea de livros de poesias e discos chamada Antologia Poética.

A programação conta ainda com um show da rapper Preta Rara e uma apresentação da escola de samba Acadêmicos do Parque Bristol. O coordenador da Central de Movimentos Populares, Benedito Barbosa, o Dito, estará presente, além de um representante do coletivo Mães de Maio e da escritora Dinha, expoente importante do movimento de literatura da periferia.

Leia também:

perifatividade.jpg

Inauguração do Espaço Cultural Perifatividade
Quando? Sábado (27), a partir das 14h
Onde? R. Dr. Benedito Tolosa, 729 – Parque Bristol, São Paulo
Quanto? Grátis

Roger Waters questiona presidência de Michel Temer

Maio 22, 2017

O ex-vocalista da banda Pink Floyd, Roger Waters, postou uma foto em sua página oficial no Facebook com a foto de Michel Temer (PMDB), acompanhada da frase: “Brasil, é essa vida que vocês realmente querem?”.
A postagem já passa de oito mil compartilhamentos.

Waters é conhecido como ativista em todo mundo, encampando importantes campanhas políticas. Em 1990, meses depois da queda do muro de Berlim, ele realizou um show na capital alemã, tocando o álbum The Wall, ressonando a mensagem do Pink Floyd de onze anos antes. Em fevereiro deste ano, ele anunciou que pretendia fazer o mesmo para protestar contra o muro na fronteira entre Estados Unidos e México, propostos pelo novo presidente estadunidense, Donald Trump.

Durante seu show na Cidade do México, em janeiro, poucos dias depois da posse de Trump, o músico usou o palco e a música Pigs como protesto.

Em 2015, Waters escreveu uma carta pública a Caetano Veloso e Gilberto Gil pedindo que os dois reconsiderassem sua decisão de fazer show em Israel. O britânico lembrou as referências de Gil ao bispo Desmond Tutu em uma de suas letras e da resistência de Tutu contra o apartheid na África do Sul. O boicote de artistas internacionais ao país foi um mecanismo forte de pressão à época.

“Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha e nós (…) vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa”, escreveu Waters. Os músicos brasileiros fizeram a visita ainda assim.

Is this the life we really want? – traduzindo É essa a vida que realmente queremos? – é o novo álbum do músico britânico.