Archive for Junho, 2017

Xangai ‘conversa’ no palco com mestres do coco e da embolada

Junho 30, 2017

Quatro dias de apresentação gratuita na Caixa Cultural, em São Paulo, incluem bate-papo com o público no sábado.

São Paulo – Ele se chama Eugênio Avelino, e talvez pouca gente o conheça pelo nome. Mas basta ouvir Xangai que o cantador aparece. Próximo dos 70 anos, que completará em março de 2018, o baiano nascido às margens do Córrego do Jundiá estará a partir desta quinta (29) até domingo (2), em São Paulo, tocando e cantando obras dos mestres Jackson do Pandeiro e Jacinto da Silva.

O paraibano Jackson (1919-1982) é mais conhecido do público do Sudeste. Basta lembrar de obras como Sebastiana (gravada em 1953 – o autor é Rosil Cavalcanti, um “pernambucano aparaibanado”, como diz o pesquisador Assis Ângelo), O Canto da Ema e Chiclete com Banana, entre outras de seu vasto repertório. O alagoano Jacinto (1933-2001) é tipo como “discípulo” de Jackson, mas tem vasto repertório desde que começou, ainda criança, nos anos 1940.

Xangai: afiando a língua com os reis do ritmo é o nome do show. O cantor é acompanhado pelo violonista Ricardo Vieira e o flautista e saxofonista Marcelo Bernardes. Depois do show de sábado, 1º de junho, haverá um bate-papo do artista com o público, sobre a cultura popular que ele tão bem representa.

As apresentações, sempre às 19h15, são gratuitas, na Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111) na região central da capital. Os ingressos, limitados a um par por pessoa, são distribuídos a partir das 9h do dia de cada espetáculo. O local tem capacidade para 80 pessoas.

Xangai canta nas várias línguas de sua terra. É amigo de outro baiano famoso, Elomar. Em entrevista no ano passado ao Correio Braziliense, quando lhe perguntaram sobre a obra de Elomar, disse que vinha à mente o escritor Guimarães Rosa, grande “brasilerança”, como ele se refere à herança brasileira, desde o primeiro habitante deste país.

Anúncios

Florestan Fernandes:Reedição de livro debate democracia racial

Junho 28, 2017

Florestan Fernandes pensou na abolição da escravidão inconclusa. Ele questionava, criticava. Sua obra nos convida a pensar o mito da democracia racial”, afirma Weber Lopes, doutorando que estuda o movimento negro na Universidade Federal do ABC (UFABC). O acadêmico esteve presente no debate de lançamento da reedição do livro Significado do Protesto Negro, de Florestan Fernandes, sociólogo e político brasileiro falecido em 1995.

“Conheci Florestan quando me aproximava do movimento negro, em 1977, em plena ditadura militar. Os primeiros textos que li foram xerox distribuídas pelo pessoal da Universidade de São Paulo (USP). Ele tinha uma grande relação com o movimento negro e era considerado subversivo pela ditadura, pela mesma direita conservadora que agora mostra novamente sua cara”, afirmou Flávio Jorge Rodrigues da Silva, membro do Conselho Curador da FPA e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen).

Também esteve presente o jornalista Florestan Fernandes Júnior, filho do pensador, e a coordenadora do Núcleo de Consciência Negra da USP, Maria José Menezes, a Zezé. Com mais de 50 obras publicadas, Florestan construiu vasta carreira na academia das Ciências Sociais, lecionando em instituições como a Universidade de Toronto, no Canadá, em Colúmbia, nos Estados Unidos e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Como político, Florestan foi deputado federal pelo PT e participou da Constituinte, sendo um dos signatários da Carta de 1988.

“Florestan era um lutador, socialista, intelectual e militante. Ele não foi um parceiro da luta contra o racismo, e sim um militante. Sempre digo que a Constituição de 1988, que hoje está sendo destruída pelos golpistas, tem o pensamento, o dedo e a voz dele. Neste livro, que está sendo lançado, tem uma emenda que ele mandou para a Constituinte, chamada Dos Negros. Se vocês lerem, existe um projeto de reparação da população negra”, afirmou Flávio.

Segundo ele, estão presentes neste livro “dois textos publicados na primeira vez que o PT discutiu a questão. São eles: O Negro e a Democracia e Luta de Raça e de Classe. Também tem um outro texto chamado A Classe Média e os Mulatos, onde trata de negros que não pensam como negros, uma leitura do ponto de vista do conservadorismo”.

Por fim, o ativista exaltou a relevância do trabalho de Florestan. “Esses textos são atualíssimos, especialmente no debate que a esquerda está deixando de lado, que é a relação de raça e classe em um projeto de transformação para a sociedade. Isso é real, a ênfase atual é muito focada na questão de classe, mas em um país com 54% da população descendente de escravos e onde existe um forte racismo, não existe projeto nenhum sem levar isso em consideração.”

A acadêmica da USP Zezé reafirmou a importância do debate dentro da sociedade contemporânea brasileira. “O Estado brasileiro sempre foi racista e repressor. E a obra de Florestan é muito atual porque ele questiona a ausência dos negros em estruturas de poder. Ele coloca o dedo na ferida e mostra que a manutenção dos privilégios das elites depende de barrar a democracia racial. Isso funciona até hoje”, disse.

Para Zezé, o cenário político atual reforça a importância da obra. “Avançamos em alguns aspectos, mas tudo que construímos está sendo destruído”, disse em relação à agenda tocada pelo presidente Michel Temer (PMDB), que inclui as reformas trabalhista e da Previdência. “Estamos perdendo a possibilidade de nos aposentar, visto que a expectativa de vida do negro é inferior em dez anos. Isso, porque temos os piores indicadores sociais na área da saúde. Temos as piores escolas nas periferias. Em São Paulo, veja, o governo do PSDB tira recursos da educação para investir em prisões. O governo do PSDB mata e aprisiona os negros e negras”, completou.

Já Florestan Fernandes Júnior apresentou uma expectativa de enfrentamento entre elites e as camadas populares, como inevitável para mudar o cenário problemático que persiste ao longo dos anos. “Não estou pessimista, porque acho que a liberdade nem sempre se faz na paz… Precisaremos de muita luta e organização. O golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff (PT) veio porque eles perceberam que o poder estava fugindo da mão deles”, disse.

Por fim, ele leu um trecho do livro, de autoria de seu pai. “Como socialista, como militante de movimento social, como sociólogo e professor, coloquei-me na vanguarda dos que combatiam na questão do negro, que não é apenas social, é racial, a pior herança da sociedade de castas. Ela trouxe para o presente todas as formas de repressão neste país. Enquanto não houver liberdade com igualdade para o negro, a ideia da democracia racial é um mito. Por isso devemos repelir esse racismo que indica que vivemos em uma sociedade hipócrita e autocrática. Tenho vergonha e vou lutar com vigor. Prefiro participar da fraternidade dos irmãos negros e lutar por igualdade como objetivo universal.”

Homenageado da Flip, Lima Barreto escreveu crônica contra o feminicídio em 1915

Junho 26, 2017

O texto “Não as matem” é parte da obra Vida Urbana, uma coletânea do autor publicada em 1953.

São Paulo – “Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes”. Esse trecho é de uma crônica de 1915 escrita por Lima Barreto, o homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, provando que feminicídio não é um problema dos nossos tempos.

O texto “Não as matem” é parte da publicação “Vida Urbana”, uma coletânea de crônicas e artigos do autor publicada em 1953.

Confira a íntegra:

Não as matem

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.

O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.

O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.

Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.

Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

(Vida urbana, 27-1-1915)

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Como surgiram as festas juninas?

Junho 24, 2017

A origem dos festejos juninos no Brasil une jesuítas portugueses, costumes indígenas e caipiras, celebrando santos católicos e pratos com alimentos nativos.

Por Cíntia Cristina da Silva

As festas juninas homenageiam três santos católicos: Santo Antônio (no dia 13 de junho), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29). No entanto, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações pagãs aconteciam durante o solstício de verão. Essa importante data astronômica marca o dia mais longo e a noite mais curta do ano, o que ocorre nos dias 21 ou 22 de junho no hemisfério norte. Diversos povos da Antiguidade, como os celtas e os egípcios, aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas. “Na Europa, os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até por volta do século 10. Como a igreja não conseguia combatê-los, decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês”, diz a antropóloga Lucia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O curioso é que os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses também faziam importantes rituais durante o mês de junho. Apesar de essa época marcar o início do inverno por aqui, eles tinham várias celebrações ligadas à agricultura, com cantos, danças e muita comida. Com a chegada dos jesuítas portugueses, os costumes indígenas e o caráter religioso dos festejos juninos se fundiram. É por isso que as festas tanto celebram santos católicos como oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos. Já a valorização da vida caipira nessas comemorações reflete a organização da sociedade brasileira até meados do século 20, quando 70% da população vivia no campo. Hoje, as grandes festas juninas se concentram no Nordeste, com destaque para as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB).

Tradições européias e indígenas se misturam nessas divertidas comemorações

Dança à francesa

A quadrilha tem origem francesa, nas contradanças de salão do século 17. Em pares, os dançarinos faziam uma sequência coreografada de movimentos alegres. O estilo chegou ao Brasil no século 19, trazido pelos nobres portugueses, e foi sendo adaptado até fazer sucesso nas festas juninas

Recado pela fogueira

A fogueira já estava presente nas celebrações juninas feitas por pagãos e indígenas, mas também ganhou uma explicação cristã: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida.

Sons regionais

As músicas juninas variam de uma região para outra. No Nordeste, as composições do sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga são as mais famosas. Já no Sudeste, compositores como João de Barro e Adalberto Ribeiro (“Capelinha de Melão”) e Lamartine Babo (“Isto é lá com Santo Antônio”) fazem sucesso em volta da fogueira.

Abençoadas simpatias

Os três santos homenageados em junho – Santo Antônio, São João Batista e São Pedro – inspiram não só novenas e rezas, como também várias simpatias. Acredita-se, por exemplo, que os balões levam pedidos para São João. Mas Santo Antônio é o mais requisitado, por seu “poder” de casar moças solteiras.

Comilança nativa

A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio ideal tem milho verde, bolo de fubá, pé-de-moleque, quentão, pipoca e outras gostosuras.

Assista a um documentário da TV Itararé sobre a origem das festas juninas:

Leandra Leal retrata primeira geração de divas travestis brasileiras

Junho 23, 2017

Marquesa

Documentário ‘Divinas Divas’ resgata a memória afetiva da atriz que cresceu entre mulheres que esbanjam talento e (ainda) desafiam com sua arte os costumes de uma sociedade homofóbica.

por Xandra Stefanel, para a RBA

São Paulo – “As divas fazem parte do meu mundo e eu do delas. Elas nunca foram estranhas para mim. Meu avô tinha um teatro, minha mãe é atriz e eu também sou atriz. Nós herdamos esse teatro Rival, onde vivi as memórias mais fortes da minha infância, nos bastidores, na beira do palco”. É assim que a atriz Leandra Leal começa o filme Divinas Divas, seu primeiro longa-metragem como diretora, que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas.

Enquanto Nelson Gonçalves canta Escultura, sobre o sonho de uma mulher perfeita, fotos de homens vão se transmutando em glamurosas mulheres – “Cansado de tanto amar/ eu quis um dia criar/ na minha imaginação/ uma mulher diferente/ de olhar e voz envolvente/ que atingisse a perfeição”. Surgem na tela elas que que compõem a primeira geração de artistas transformistas brasileiras: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios.

DARYAN DORNELLES/DIVULGAÇÃOLeandra
Leandra: ‘Estreei neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas’

O fio condutor do filme é a memória afetiva da diretora, neta do dono do Teatro Rival, que foi um dos primeiros palcos no Brasil a apresentar homens vestidos de mulher, ainda em plena ditadura militar. Leandra cresceu nas coxias, entre plumas, paetês, brilho, roupas e maquiagens deslumbrantes. “Esse tema fala sobre o que me constitui, sobre a minha história, sobre a minha família. E, ao mesmo tempo, pela relação que tinha com elas, sempre acreditei que só eu poderia fazer esse filme”, afirma.

“Quando eu tinha apenas um mês, uma peça escrita pela minha mãe estava em cartaz. A atriz teve problemas de saúde e ela foi convocada às pressas para o papel. Eu ia bebezinho no colo dela para o teatro toda noite e ficava na coxia, com a camareira, quando ela entrava em cena. Fizeram uma roupa de mini-vedete para mim e no final do espetáculo, minha mãe me levava ao palco. Foi aqui que eu estreiei, neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas”, declara a diretora durante o filme.

Mas não se trata de um filme sobre Leandra Leal. Ao contrário. Sua voz pontua apenas algumas passagens do longa-metragem, com pouquíssimas e efêmeras aparições. As estrelas do documentário são estas outras mulheres, artistas que representam a história da arte performática no país.

Além contar a trajetória das divas oito divas, Leandra acompanha o processo de construção de um espetáculo homônimo que celebra os 50 anos de carreira do grupo: os ensaios, as discussões, as memórias de dias gloriosos mas também das enormes dificuldades que enfrentaram (e ainda enfrentam) por seus corpos e sua arte serem uma espécie de ato político que revolucionou o comportamento sexual da sociedade brasileira.

No palco, divas

Humor e drama se alternam de maneira natural e equilibrada durante todo o longa-metragem. Há também uma ode ao feminino em seu sentido mais amplo: sobre a força necessária para ser mulher quando não se nasce mulher, os preconceitos de gênero ainda mais acentuados quando se trata de mulheres trans, as vaidades, o medo de envelhecer, os amores e as dores. Tudo vem à tona com força e graça. Rogéria, por exemplo, provocadora e engraçada, se diz “a travesti da família brasileira”.

Modesta, Fujika de Halliday reflete sobre a palavra que dá nome ao filme: “Diva é uma coisa muito séria, né, gente? Diva é diva! Eu sou diva? Será? Oh, meu Deus… Divas são essas mulheres maravilhosas, Maria Callas e essas mulheres divinas, divas. Ser artista é bom, eu gosto”, afirma, sorrindo.

DIVULGAÇÃOJane di Castro
Jane di Castro

Apesar de toda censura e opressão que elas sofreram durante a ditadura, Jane di Castro acredita que é ainda mais difícil ser travesti nos dias de hoje. “Ninguém se transformou para se prostituir. Eu não tenho nada contra a prostituição. Pra mim, prostituição é uma coisa normal, é uma profissão que deveria ser legalizada. Principalmente para as travestis, que não têm espaço. Se travesti não se prostituir, vai morrer de fome mesmo, porque não tem emprego. Travesti, hoje em dia, piorou. Porque elas não são artistas, porque também não têm espaço. Naquela época, tinha espaço e nós trabalhávamos de terça a domingo, com duas sessões na quinta, três no sábado e três no domingo, com casa lotada. Hoje em dia, elas não têm espaço para trabalhar, não têm teatro, não têm nada pra trabalhar. Então, o que têm que fazer? Se prostituir, ganhar o dinheiro delas, senão elas vão morrer de fome. Eu sou totalmente à favor da prostituição. Cada um faz do seu corpo o que quer. Tem de ganhar dinheiro, meu amor, tem de comer, beber, vestir… Sem ser marginal, eu admito tudo. Eu não gosto de marginalidade”, declara Jane.

Divinas Divas apresenta as artistas glamurosas, vestidas para o show biz, mas mostra também as pessoas que existem debaixo da maquiagem pesada e das roupas deslumbrantes. Traz à tona, por exemplo, a história de Marquesa, que foi internada em um sanatório pela família e decidiu que iria se travestir apenas nos palcos para não afrontar a mãe. A única das oito artistas a usar roupas masculinas no dia a dia tem uma saúde frágil que contrasta com suas performances intensas. Marquesa morreu aos 71 anos, em 2015, antes de ver o filme finalizado.

Aliás, este é o maior trunfo do filme: eternizar estrelas cujas existências cintilaram tanto nos palcos quanto nesta sociedade que ainda hoje se bate contra a homofobia, a transfobia e todos os preconceitos de gênero. Divinas Divas, assim como as artistas nele retratadas, personifica a resistência de ser quem se é na arte e na vida. Como elas cantam em uma das apresentações: “Je suis comme je suis“, do francês, eu sou como sou. E é preciso ter muita força, coragem e resiliência para se assumir travesti no Brasil de ontem e de hoje.

O longa ganhou o Prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular e foi eleito Melhor Documentário pelo Prêmio Felix, de produções com temáticas relativas à diversidade de gênero, no Festival do Rio 2016, o Prêmio do Público da Mostra Global do Festival South by Southwest, em Austin, no Texas e Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Direção no 11º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa.

CartazDivinas Divas
Direção: Leandra Leal
Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo, Natara Ney
Produção executiva: Carol Benjamin
Montagem: Natara Ney, edt
Fotografia: David Pacheco
Produtoras: Leandra Leal, Carol Benjamin, Natara Ney e Rita Toledo
Produtores associados: Bianca Villar, Fernando Fraiha e Karen Castanho
Realização e produção: Daza Filmes
Coprodução: Biônica Filmes e Canal Brasil
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras

Companhia de teatro invoca a palavra como forma de resistência social

Junho 21, 2017

Montagem sinfônica “Roda das Vozes em Estado de Sítio” mistura linguagem teatral com samba de breque para refletir sobre o modelo de sociedade que temos e queremos.

por Xandra Stefanel

Estreia nesta quinta-feira (22), no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), a peça sinfônica Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro. A montagem propõe um debate sobre o papel da palavra na nossa sociedade e sobre a mecanização da língua em tempos em que o povo é estraçalhado pelo capital corporativo. “A voz e a palavra podem emergir como resistência a toda forma de controle e violência”, invoca a companhia.

Permeada por canções e falas do cantor e compositor Itamar Assumpção, a peça aborda a saturação da palavra, a produção massiva de uma língua sem ninguém dentro, sem densidade nem mistério. Na obra, se fundem o jogo entre o samba de breque, as canções de Bertolt Brecht e dos compositores alemães Hanns Eisler e Kurt Weill.

“A mecanização da língua se articula à mecanização do corpo promovida pelo capitalismo. Sua principal consequência é a objetivação da palavra e dos discursos, cuja prova cabal é a utilização crescente das estatísticas como dados incontestáveis da realidade. Nossos corpos e vozes estão sitiados, não falamos: somos falados. Estamos perdendo o sabor de língua, como diz o filósofo espanhol José Luis Pardo, para quem há um movimento em marcha para livrar a linguagem de sua incômoda espessura, uma tentativa de que a linguagem seja lisa, sem risco”, diz o dramaturgo Zebba Dal Farra.

O espetáculo aborda essas questões de forma poética, contrapondo fala a canto, e crítica, evocando de diversas maneiras o caráter religioso do capitalismo contemporâneo. Além disso, há uma ideia recorrente de que ao capital não interessa nem o que seja o arroz, o algodão, o homem e a mulher: só lhe interessa seu preço”, completa o dramaturgo, integrante do elenco, junto com Maria Simões, Carolina Martins, Beto Siqueira, Luan Braga, Macalé, Pedro Teixeira e Renan Abreu.

JOÃO GOLD/DIVULGAÇÃOMaria SimõesMaria Simões, da companhia Ausgang de Teatro

Roda das Vozes em Estado de Sítio é uma espécie de híbrido entre teatro e roda de samba. Segundo Dal Farra, o formato surgiu em 2001 em uma ocupação do Teatro Alfredo Mesquita.

“Nas rodas de samba tradicionais há uma mesa no centro, onde se colocam letras de músicas, cerveja, e salgadinhos para os músicos. Nossa roda de samba aparece quando retiramos essa mesa e nela surge a arena, propícia à manifestação teatral. Então, a roda mistura improvisação musical e teatral, guiada por um roteiro como um fio condutor”, descreve Dal Farra. Ele cita Paulinho da Viola: “É o ‘rio de murmúrios da memória, que quando aflora serve antes de tudo pra aliviar o peso das palavras, que ninguém é de pedra’. A roda bebe desse jogo entre memória, tradição e presença. É um lugar de passagem, entre formal e informal, entre acaso e composição”.

Para o dramaturgo, no futuro o teatro talvez seja um dos poucos lugares em que a saturação da palavra pode dar lugar a ações transformadoras. “Diz Noca da Portela, em Peregrino: ‘Ninguém vive feliz se não puder falar, e a palavra mais linda é a que faz cantar’. A saturação da palavra cotidiana pode ser superada talvez pela palavra poética no contexto das relações éticas e políticas. O teatro no futuro será, talvez, o único lugar do encontro presencial das pessoas, em que corpos e vozes se confrontam e se enfrentam em tempo real. Nesta perspectiva, o teatro pode impulsionar ações críticas e transformadoras”, define.

A peça fica em cartaz no Tusp até 9 de julho, de quinta a domingo, com uma apresentação especial na segunda-feira, 10 de julho.

Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro
Estreia nesta quinta-feira, dia 22 de junho, às 21h
Temporada: de 23 de junho a 9 de julho
Quintas, sextas e sábados às 21h, e domingos às 19h.
Sessão especial: segunda, dia 10 de julho, às 21h
Onde: Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp)
Rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo
Quanto: R$ 30 e R$ 15. Ingressos à venda no local duas horas antes das apresentações
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Informações: (11) 3123-5223/ (11) 3123-5233 e rapsodiausgang@gmail.com

Chico Buarque aos 73 anos.

Junho 20, 2017

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas sentadas, bebida, tabela, barba e área interna

Livro reúne reflexões de intelectuais sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo

Junho 19, 2017

Um dos organizadores da obra “A crise das esquerdas”, que chega às livrarias em junho, Aldo Fornazieri diz que é preciso superar a “síndrome de Caim e Abel” e trabalhar pela unidade.

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Chega às livrarias em junho, pela editora Civilização Brasileira, A crise das esquerdas, livro que reúne textos e entrevistas de diversos intelectuais sobre a esquerda no mundo contemporâneo. Segundo Aldo Fornazieri, professor de filosofia política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) e um dos organizadores da obra, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, por exemplo, aborda a questão da necessidade de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

De acordo com Fornazieri, os militantes da nova geração não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. “Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda”, diz Fornazieri, em entrevista à RBA.

Para ele, os fatores que levam a esquerda atualmente a passar por dificuldades são múltiplos e complexos. “As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro.” Porém, há aspectos em comum.

Para o outro organizador do livro, o sociólogo Carlos Muanis, “há um abismo perigoso e crescente entre a sociedade e o mundo político”. Segundo ele, existe uma paralisia provocada “pela desconfiança da capacidade de os Estados cumprirem suas promessas básicas de serviços públicos”.

A crise das esquerdas reúne textos e entrevistas de Aldo Fornazieri, Tarso Genro, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Carlos Muanis,  Cícero Araújo, Moisés Marques, Rodrigo Estramanho de Almeida, Ruy Fausto e Sérgio Fausto.

Leia a seguir a entrevista do professor Aldo Fornazieri:

Como se poderia caracterizar a crise da esquerda?

As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro. Não dá para fazer uma caracterização geral. Mas se pode dizer que existe uma crise acerca do lugar onde a esquerda se coloca, na medida em que ela se aproximou muito dos liberais e do neoliberalismo.

Os partidos de esquerda vieram para o centro. Tem uma crise da ação política e programática. A esquerda ficava historicamente com a ideia da utopia, e nos últimos tempos ficou naquilo que o professor Renato Janine chama de redução de danos.

Uma atuação pragmática…

Pragmática, mas faz políticas orientadas para a redução dos danos causados pelo capitalismo. A esquerda teria se tornado uma espécie da cereja no bolo do capitalismo, na medida em que não existe mais um conflito sistêmico. Estamos dentro de um único sistema, que é o sistema capitalista, e não existiria mais uma alternativa socialista hoje no mundo, uma alternativa comunista.

O outro aspecto da crise é o que se chama da crise de pressupostos, que eu abordo. Os principais pressupostos: qual o significado da luta de classes hoje, na medida em que o proletariado clássico quase que desapareceu? Faz ainda sentido falar na ideia de um proletariado revolucionário? Parece que não.

O outro elemento dessa crise de pressupostos é que, historicamente, o marxismo entendeu a política subordinada à economia e com isso perdeu a capacidade de perceber a política na sua autonomia.

E uma terceira crise de pressupostos diz respeito aos próprios partidos, que hoje são estruturas verticalizadas, burocratizadas, e não conseguem absorver uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas etc. Eles não querem saber dessas estruturas organizadas verticalmente. Querem praticar uma política mais horizontal. No livro, Guilherme Boulos aborda isso. Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda.

Poderia traduzir isso, no Brasil, para algo como o PT voltar às bases ou ter abandonado as bases?

Em parte é um pouco isso. Antes de chegar ao poder o partido era de uma militância mais participativa, mais vinculada aos movimentos sociais. Hoje, de modo geral, tanto o PT como os demais partidos de esquerda não têm uma pedagogia capaz de atrair as novas formações militantes em torno de novas bandeiras e questões, e menos ainda a periferia, que cansou de ser massa de manobra dos partidos de esquerda.

Então hoje você vê uma forte influência das igrejas evangélicas na periferia, que adotam um tipo de prática que de certa forma tirou as esquerdas do trabalho de base, principalmente na periferia.

Quando o senhor fala da crise dos pressupostos, aborda mais a esquerda mundial?

Esses pressupostos, mesmo a questão das periferias, não é um problema só aqui no Brasil. Por exemplo, na França, o Partido Socialista, de centro-esquerda, foi reduzido drasticamente. Lá surgiu uma nova esquerda, mas se você for ver, tanto na França, quanto nos EUA, os operários tradicionais votaram na direita.

No mundo, uma crise da esquerda poderia se caracterizar pelo seguinte: em vários países a polarização é entre a direita e o centro, e a esquerda está fora dessa polarização.

No Brasil, depois do golpe que tirou Dilma do poder, a esquerda não ficou um pouco sem rumo, como alguns analistas observaram?

Em todo o processo do impeachment a esquerda ficou muito paralisada, com pouca capacidade de mobilização. Você percebe que agora mesmo, com um governo quase se decompondo no ar, a esquerda tem pouca capacidade de mobilização nas ruas para pôr um fim a esse governo.

Por que isso acontece?

Exatamente porque ela perdeu o trabalho de base. Isso por um lado. E por outro lado tem todo o desgaste que aqui no Brasil a ideia de esquerda sofreu por conta do fracasso do governo Dilma e por conta do fato de que o PT é visto como um partido que se corrompeu também. Isso provocou um enorme desgaste, não só no PT como na esquerda em geral.

Alguns analistas, como Roberto Amaral, defendem que a saída é a união das esquerdas. O senhor concorda?

Eu entendo que é correta essa proposição. Quanto mais a esquerda se divide, mais favorece a direita e o centro. Ela precisa olhar para a formações mais próximas da gente, que são mais exitosas, como a Frente Ampla do Uruguai. Entendo que talvez a esquerda latino-americana mais exitosa no momento seja a esquerda uruguaia, tanto nos resultados que produziu quanto como referência moral, que é o Pepe Mujica.

É viável essa união das esquerdas no Brasil?

Acho que ela é difícil, pelo tipo de cultura divisionista da esquerda. Embora a proposição seja correta, entendo que é difícil porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos.

É preciso superar essa cultura da divisão. As pessoas mais sensatas e que têm uma visão mais ampla do processo político em curso precisam trabalhar para a superação dessa síndrome histórica da divisão entre as esquerdas.

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

Junho 16, 2017

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai, estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas.

Não só a temática do filme traz uma questão sobre o feminino e a condição da mulher, como o próprio processo de produção do longa também levanta pontos importantes. Rodado em municípios do interior do Rio Grande do Sul, onde a cultura do gado é muito forte, consequentemente, com menos atuação das mulheres no mercado de trabalho, o filme deu a oportunidade para muitas delas terem seu primeiro emprego remunerado.

O filme já arrebatou oito prêmios em festivais, entre eles o de melhor Direção e melhor fotografia no Festival do Rio e o Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ambos em 2016. Também foi exibido em importantes festivais internacionais, como o de Berlim, Guadalajara e o do Uruguai – onde ganhou o prêmio da Fipresci na competição Ibero-americana.

O longa conta com a participação do ator paulista Marat Descartes (conhecido por sua participação em filmes como Trabalhar Cansa e em novelas da Globo como Totalmente Demais) e da atriz uruguaia Verónica Perrotta, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme no Festival do Rio, além de apresentar a jovem gaúcha Maria Galant.

A exibição no Brasil, no dia 22, acontece na rua Conselheiro Ramalho, 495, na capital paulista. A entrada é gratuita, mas contribuições voluntárias são bem-vindas.

Assista ao trailer: 

Ubu Rei: o usurpador real como metáfora de Temer

Junho 15, 2017

Teatro Ubu Rei

Peça com Marco Nanini e Josi Campos serve de exemplo para o país que tem um governante cruel no poder.

por Eduardo Nunomura

Um rei cruel, ganancioso e covarde que conquista brutalmente o poder e não tem escrúpulos para governar o povo de maneira totalitária. Pode-se dizer que em todas as épocas há um rei Ubu, e o Brasil de hoje parece a síntese perfeita desse enredo. Na história, Pai Ubu, interpretado por Marco Nanini, assume o trono ao assassinar o rei Venceslau da Polônia e passa a matar e roubar a população para se perpetuar no poder.

Em seguida, o usurpador envolve-se numa guerra com a Rússia. Enquanto isso, sua mulher, Mãe Ubu, interpretada por Josi Campos, igualmente sórdida e vil, tenta roubar o tesouro da Polônia, mas enfrenta a resistência do príncipe herdeiro, Bugrelau, que lidera uma revolta popular.

A realidade cênica implícita pode passar despercebida pelo público mais desatento, desavisado ou desinteressado do espetáculo Ubu Rei, em cartaz até 25 de junho no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Como, por sinal, reagem muitos brasileiros diante do golpe orquestrado por Pai Temer, digo, Pai Ubu. E novamente a montagem de Daniel Herz ajuda a refletir sobre a permanência de um reinado tirânico.

O personagem de Nanini, um déspota mentiroso, despudorado e assassino, é a clássica figura do anti-herói. Faltam a Pai Ubu os atributos morais de um líder nato. Mas, mesmo assim, não é de todo impossível que parte dos súditos o queira nesse posto justamente pela ausência dessas qualidades.

Ubu Rei, com seus personagens desbocados e despudorados, escandalizou a Paris do fim do século XIX. O texto de Alfred Jarry, na época com 23 anos, foi mal recebido por um público até então acostumado a montagens clássicas e com personagens mais previsíveis. A peça tragicômica serviu de inspiração para diferentes movimentos da dramaturgia moderna, como o surrealismo, o dadaísmo e o Teatro do Absurdo.

 Foi encenada por diversas companhias do mundo todo, como tentativa de dar uma resposta às crescentes ondas de brutalidade e turbulência social dos séculos XX e XXI. A atual montagem brasileira é favorecida pela rica execução da trilha sonora ao vivo pelos integrantes da Cia Atores de Laura, que dão uma vivacidade extra à narrativa de Jarry.