Archive for Janeiro, 2018

CARTA CAPITAL – CAETANO VELOSO: “O BRASIL TEM MEDO DE BRILHAR”

Janeiro 31, 2018

Entrevista

por Anderson Gomes

O compositor acredita que o País precisa ser forte e diferente, reafirma o apoio a Ciro Gomes e critica o preconceito contra o evangelismo autêntico.

Caetano Veloso já foi alvo da ira armada, absolutista, mas não calou. Símbolo de resistência e ruptura em época de tirania, forjou seu nome na poesia entre os mártires da ditadura que se apossou da liberdade de expressão no Brasil. Com sua arte, virou verbo.

Na Quadrinstrevista especial, a primeira em um ano fundamental para o País, o cantor e compositor, verbete obrigatório na música brasileira, desnudou sua alma inquieta e ideologia avessa a rótulos: “Não sei se tenho uma identidade partidária. Ou racial. Ou sexual. Ou de gênero. Devo ser um ser muito anacrônico”.

Crítico do impeachment de Dilma Rousseff, que segundo ele fez sombra à Operação Lava Jato, e simpático à candidatura de Ciro Gomes ao Planalto (“é um quadro que não deve se desperdiçar”), o músico filosofa sobre a condição social histórica nacional.

“O Brasil tem medo de brilhar. Sempre desconfiei que isso é porque teme ter potencial excessivo”, salientou. Caetano, que realiza encontros frequentes para debater a política e o Brasil em seu apartamento no Rio de Janeiro, questiona as motivações do impeachment e o papel de seus atores coadjuvantes nas ruas.

“São jovens. Podem estar de modo ingênuo contribuindo para organizações poderosas que os usam como peões”, alertou. Agora, pelas próximas linhas, caetane-se.

Quadrinsta: O socialista do exílio nos anos 1960/1970 ainda carrega os mesmos sonhos? Quais são?

Caetano Veloso: Nem sei se posso dizer que sou ou era socialista. O socialismo me interessa e tendo a estar mais próximo de quem põe esperanças neles do que daqueles que o rejeitam com demasiada facilidade. Meus sonhos são de grandeza para o Brasil, justiça social e luz interna para cada indivíduo. O abandono de alguns aspectos do liberalismo (mesmo o econômico) pode levar a autocracias totalitárias.

Podem confirmar a profecia de Nietzsche que diz que os operários tornados socialistas seriam, se ganhassem poder, autoritários. Sou artista. Canhestro músico popular, mas com temperamento de artista. As complexidades de tons, harmonias, rimas, ritmos – vejo sempre isso em tudo.

Q: Como brilhar e não morrer de fome neste caos social que vive o País?

CV: O Brasil tem medo de brilhar. Sempre desconfiei que isso é porque teme ter potencial excessivo. Quanto a deixar seus filhos morrerem de fome, isso não tem explicação. Nem perdão.

Q: Recentemente você anunciou apoio a Ciro Gomes nas próximas eleições presidenciais, mas cantou em evento comemorativo aos 20 anos do MTST, movimento liderado por Guilherme Boulos, virtual candidato do PSOL ao Planalto e simpático a Lula. Qual é a sua identidade partidária?

CV: Não sei se tenho uma identidade partidária. Ou racial. Ou sexual. Ou de gênero. Devo ser um ser muito anacrônico. Ciro, que continua a ser meu candidato, elogiou Boulos, nos termos que eu próprio elogiaria. Na eleição passada, votei em Marina. Depois que ela foi destruída pela campanha de meu amigo João Santana, votei em Dilma. Fui e sou contra o impeachment. Aquilo pôs a Lava Jato num lugar de alarme amarelo em minha cabeça.

Gosto de Ciro desde que ele foi prefeito de Fortaleza. Claro que não gostei da famosa resposta dele sobre minha adorada contraparente com quem era casado. A ameaça de receber a bala emissários da força-tarefa também soou nada republicana, como se diz, embora expressasse um dos aspectos dos sentimentos que a Lava Jato pode acender em alguns corações. E mesmo em alguns julgamentos técnicos de juristas.Caetano Veloso

Acho Ciro um quadro que o Brasil não deve desperdiçar. Nem pensava em sua possível candidatura quando recebi um email de James Martins, um amigo meu, baiano, mulato e inteligente, dizendo que parecia ser a hora de Ciro. Respondi que ficava animado.

Pouco depois vi o vídeo de Mangabeira [Unger], pensador que me interessa por ter uma posição de esquerda sem perder a coragem para a complexidade e para a inovação, nunca sendo superficial. Admirador (e amante do estilo) de Marina, me vi, como sempre, com um candidato escolhido. E ele, em princípio, contrasta com as posições de Marina.

O show com o MTST nasceu da aproximação com Boulos, via Mídia Ninja e Paulinha Lavigne. Gostei muito de Boulos, sobre quem meu amigo Duda, baiano que mora no Rio, já me falava faz tempo. [Marcelo] Freixo é sempre meu candidato a tudo desde que o conheci. Simplesmente ele me transmite confiança. E gosto de esquerdistas que se detêm sobre a questão dos direitos humanos. 

Q: Esse show, aliás, aconteceu apenas em dezembro, após uma decisão judicial cancelar o evento inicialmente marcado para outubro, em São Bernardo do Campo, São Paulo, por influência do prefeito Orlando Morando, do PSDB. A atual relação entre política e justiça tem o dom de iludir?

CV:  Tem. Mas não a todos nem para sempre.

Q: Chegamos ao ponto de os haitianos mudarem a letra da música e passarem a cantar “O Brasil não é aqui”?

CV: Estamos nos esforçando para atingir esse estágio. 

Q: É possível ter alegria, alegria com a política do “sem livros e COM fuzil” fomentada por Jair Bolsonaro?

CV : Nenhuma alegria é possível com políticas que sejam ao mesmo tempo conservadoras e malucas. O que, infelizmente, parece ser uma das modas atuais.

Q : Você move um processo contra o MBL e o Alexandre Frota por ter sido acusado de pedofilia em sua relação com Paula Lavigne. O trecho de um vídeo viral seu onde diz “como você é burro” é suficiente para definir essas figuras?

CV: Aquilo era uma resposta ao então crítico de música da Veja que tinha desancado o disco “Muito” – onde estão “Terra” e “Sampa”, entre outras – com a acusação de que minha capacidade de escrever letras tinha desaparecido. Para isso ele citava justamente citações, dentro de letras minhas, de versos de Humberto Teixeira e Ary Barroso, crendo que fossem meus. A frase pode ser usada (e tem sido) em outros contextos. Mas não sei se burrice é o único problema desses manifestantes da reação.

Q: Caetano, em quê Lobão tem razão?

CV: Em dizer, na letra da bela canção que fez sobre mim, a frase “Chega de verdade”. Mas Lobão não tem apenas razão. Ele tem também talento, estilo próprio, verve. Compôs e gravou algumas das canções mais interessantes da nossa música nas últimas décadas. Infelizmente a ansiedade dele a respeito do prestígio que merece (e também a angústia da defesa de sua originalidade) podem tê-lo levado a fazer coisas bobas na área da auto-exposição midiática.

Suas tomadas de posição política são coisa pelo que ele tem de responder e que trato com respeito. Muito têm a ver com o sentido histórico do rock, do amor ao rock. Não é uma mera maluquice.

Q: Como podemos reverter a nova ordem mundial?

CV: Isso não sei. Mas há uma ordem mundial? Quando escrevi “Fora da Ordem”, havia a Nova Ordem Mundial de Bush pai.

Q: Quem pode derrotar essa força estranha da grana que destrói coisas belas no período de exceção que o Brasil atravessa?

Caetano VelosoCV: A força da grana tem mostrado capacidade de erguer coisas belas. E mesmo de diminuir a fome geral. Mas a lógica de crescimento da acumulação de riqueza e de desigualdade social em todos os lugares do mundo (o Brasil entre os campeões) precisa encontrar resistência consistente.

Desculpe estar respondendo em tom que parece desprovido de humor. Estou na Bahia e o prédio onde estavam as caixas de grana de Geddel fica muito perto daqui de casa. Quase que só dá mesmo pra pensar na capacidade destruidora da força da grana.

Q: O fundamentalismo e o comércio da fé de parte da América evangélica superaram a incompetência da América católica?

CV: Uma das coisas que o evangelismo pode trazer aos latino-americanos é tornar-se uma das ferramentas para a tentativa dessa superação. Pior do que a onda evangélica é a onda de preconceito contra as conversões autênticas e sinceras que se dão pelo continente adentro, o Brasil com grande proeminência. Vocês deviam ouvir o pastor Henrique Vieira.

Q: Aqueles jovens que caminhavam contra o vento, sem lenço e sem documento, nos tempos da ditadura alimentavam-se de um desejo incontrolável por democracia. O que você acha que move essa juventude atual que veste verde e amarelo e empunha panelas nas mãos?

CV: São jovens. Não são tão diferentes. Podem estar de modo ingênuo contribuindo para organizações poderosas que os usam como peões. Quando vi aquela gente nas ruas de São Paulo no dia em que o grampo da conversa de Dilma com Lula saiu no Jornal Nacional, pensei: o golpe está dado. Mas as motivações que movem as muitas pessoas em tantas direções são complicadas e merecem atenção cuidadosa.

Q : Com um governo certo como dois e dois são cinco e todos esses escândalos de corrupção, que saída você vislumbra para a política no Brasil?

CV: Que colhamos com orgulho a jabuticaba madura e suculenta que pudermos produzir. Comecemos por deixar de chamar de “jabuticaba” tudo o que há de errado nas sociedades humanas e que acontece aqui. E vira-lata é a expressão que Ann Douglas usa (mongrel) para orgulhar-se dos Estados Unidos. Temos de ser fortes, corajosos e diferentes.

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O QUE OS BLOCOS DE BELO HORIZONTE FAZEM ENQUANTO NÃO CHEGA O CARNAVAL?

Janeiro 30, 2018

Foliões usaram 2017 para participar de melhorias nos seus bairros e também para se divertir

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Os fãs dos filmes Star Wars organizaram um bloco caricato em terras mineiras - Créditos: Divulgação
Os fãs dos filmes Star Wars organizaram um bloco caricato em terras mineiras / Divulgação

“Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…” Você deve achar que esse é o mantra dos blocos de carnaval, que ficam esperando a festa chegar, não é? Mas parece que não é bem assim. Fomos pesquisar o que os blocos andaram fazendo em 2017 e descobrimos ensaios, ações solidárias e protestos.

A praça (tem que ser) nossa!

No bairro São Salvador, na região Noroeste da capital, a comunidade espera a construção de uma área de lazer e cultura, prometida pela Prefeitura desde 2008, mas que teve apenas a estrutura de base construída até o momento. O Bloco da Língua se envolve na causa desde o início e neste ano contribuiu com ânimo para os moradores se manifestarem.

Foram organizados ensaios abertos, “cadeiraço” (cada um leva sua cadeira e ocupa calçadas do bairro) e participação em audiência pública para cobrar pela praça e disseminar a importância dos espaços de cultura nos bairros de BH. “Estimular um coletivo com consciência política é um dos nossos objetivos”, explica Rafael Gregório Malaquias, um dos organizadores do Bloco da Língua. Além do envolvimento com a praça, o bloco organizou atividades de brincadeiras e apresentações durante o ano.

Nerds e foliões

O nome “Estrela da Morte” te lembra alguma coisa? Pois sim, os fãs dos filmes Star Wars organizaram um bloco caricato em terras mineiras. O Bloco Unidos da Estrela da Morte desfila há 3 anos no bairro Floresta, na região Leste, e, durante o ano, fez ações solidárias como doação de sangue ao Hemominas BH. Porém, o lado forte do grupo foi organizar periódicos encontros de fãs, seja em shoppings ou em outras cidades.

Solidariedade no Céu Azul

Já em Venda Nova, o Bloco Anjos do Céu se movimenta há dois anos. Um bloco “no estilo anos 90”, como diz o presidente Marco Antônio de Oliveira Silva, que em 2017 se aliou a organizações com o objetivo de melhorar o bairro. A ação que mais marcou foi a Caminhada Solidária nas margens da Pampulha. A atividade junto com a Associação do Bairro Céu Azul (UMCA) fez medição de pressão, coleta de sangue e atividades físicas, além – é claro – de muito batuque.

“O nosso bloco não quer ser somente um bloco de rua, ele quer ser um movimento de resgate à cultura do bairro Céu Azul. A gente une esporte com outras atividades culturais e tenta encaixar na agenda. Para 2018, já estamos firmando parceria com outros blocos”, diz Marco Antônio. Um dos grandes objetivos do Anjos do Céu é organizar para este e para os próximos anos um desfile no sábado de aleluia, que era tradição no bairro e que não mais estava sendo feito.

Vá atrás deles também no carnaval:

O Bloco da Língua leva cerca de mil pessoas para assistir sua apresentação, às 14h, no dia 10 de fevereiro (sábado), saindo da Rua Ibituruna, 142, São Salvador. O Bloco Céu Azul sai dias 10 e 11 de fevereiro (sábado e domingo) às 16h, na Pracinha da Madona, Venda Nova. O Bloco Unidos da Estrela da Morte sai nos dias dia 10 e 12 de fevereiro (sábado e segunda), às 12h, na Rua José Pedro 

Drummond, 100, Floresta.

 Edição: Joana Tavares

POR QUE AS SÉRIES DE TV MATAM TANTOS PERSONAGENS LGBTS?

Janeiro 29, 2018

Televisão

por Tory Oliveira 

Fim de personagem gay em série da Netflix reacende debate sobre a banalização das mortes de LGBTs em seriados
Divulgação
As personagens Lexa e Clarke

Em 2016, a fúria dos fãs após a morte da personagem Lexa (esq.) motivou pedido de desculpas do criador da série ‘The 100’

Star Trek: Discovery, nova série da franquia sci-fi disponibilizada pela Neflix, preparou uma surpresa desagradável para os fãs LGBTs na volta da segunda parte da primeira temporada no início de 2018. 

Um dos personagens mais queridos, o Dr. Hugh Culber (Wilson Cruz), aparentemente encontrou seu fim de maneira súbita, ironicamente, poucos minutos após protagonizar um beijo com o seu companheiro, o Tenente Paul Stamets (Anthony Rapp). A cena foi ao ar no episódio 11 em 8 de janeiro.

O falecimento do personagem, gay assumido e casado na trama, é mais um exemplo de uma longa e triste tendência de matar sem rodeios gays, lésbicas e transexuais em séries televisivas. 

 O lugar-comum tem até nome em inglês: “Bury Your Gays” (“Enterrem seus Gays”, em inglês). E, nos últimos anos, o uso frequente e sem cuidado do recurso tem gerado críticas de fãs e ativistas. 

“Entendo que as pessoas estejam chateadas”, disse o ator Wilson Cruz, de Star Trek: Discovery, que também é gay, em entrevista ao Buzzfeed. “Tenho familiaridade com a problemática tendência dos programas televisivos de acabar com seus personagens LGBTs, especialmente quando se trata de pessoas não-brancas”, afirmou Cruz, que tem ascendência latina e um histórico de militância pelos direitos LGBTs. 

Os personagens Hugh Culber e Paul Stamets
O casal Culter e Stamets em Star Trek:Discovery

Talvez o maior exemplo recente seja a revolta após a morte da personagem Lexa (Alycia Debnam-Carey) na série distópica The 100, também poucos episódios após estrelar aguardadas cenas românticas com a protagonista Clarke (Eliza Taylor).

Pior: Lexa morreu subitamente, ao ser alvejada por um tiro direcionado para outro personagem. A situação ecoou a morte de outra personagem lésbica marcante, Tara, namorada da bruxa Willow em Buffy: a Caça Vampiros, que desapareceu da trama de uma forma muito similar nos idos de 2002. 

De volta para 2016, a fúria dos fãs chateados com a morte de Lexa fez com que o criador da série, Jason Rothenberg, escrevesse uma carta de desculpas poucas semanas após o episódio ir ao ar. 

“Apesar das minhas razões, ainda escrevo e produzo televisão para o mundo real, onde esse tipo de lugar-comum triste e negativo existe. Sinto muito por não reconhecer isso tão bem quanto deveria. Sabendo tudo o que sei agora, a morte da Lexa teria sido feita de uma forma bem diferente”, desculpou-se

Uma das coisas que se sabe é que, de maneira geral, mulheres, negros, LGBTs e outros grupos minorizados seguem sub-representados (ou mesmo deturpados) nas séries de televisão. Além disso, poucos recebem finais felizes. 

Um levantamento do site VOX revelou que 10% de todas as mortes nas séries em 2015-2016 foi de mulheres lésbicas e 3% de homens gays. Apesar da proporção de mortes de héteros ser bem maior, é preciso levar em conta a baixa quantidade de personagens lésbicas e gays. Afinal, é raro que o número de LGBTs em uma produção exceda uma ou duas participações.

Ainda em 2016, em apenas 30 dias, quatro personagens lésbicas/bissexuais morreram, incluindo Lexa. Rose (Bridget Regan) foi assassinada em Jane, a Virgem. Kira, de The Magicians, morreu poucos episódios após ser apresentada ao público. Por fim, Denise (Merritt Wever) também encontrou seu fim em The Walking Dead.

É do encontro da pouca representatividade com a grande mortalidade, como sintetizou este artigo da Hollywood Reporter, que nasce o ressentimento de fãs e ativistas pelos direitos LGBTs diante dessas situações. 

É um fato que a televisão nunca esteve tão mortal. Séries como Lost, The Walking Dead e, principalmente, Game of Thrones celebrizaram-se pela máxima “ninguém está seguro”, o que significa que mesmo personagens adorados ou importantes não estão livres de serem ceifados da trama. 

Ainda assim, como admitiu Rothenberg no caso do The 100, nada existe no vácuo. E, quando plasmado ao lado da informação de que, apesar dos avanços, o mundo continua um local hostil e mortal para grupos minorizados, o impacto da morte de LGBTs nas telas fica ainda mais grave. 

Curiosamente, Star Trek, em sua série original e na subsequente franquia, foi responsável por quebrar tabus importantes como colocar uma mulher negra (a Tenente Uhura) em uma posição não-subalterna na década de 1960 e defender valores humanistas em sua filosofia. No recente filme Star Trek: Beyond, dirigido por J.J.Abrams, o personagem Hikari Sulu foi apresentado abertamente (e naturalmente) como homossexual. 

Após a polêmica, os responsáveis por Discovery reforçaram que este caso não cairá na vala comum, prometendo, sem dar detalhes de como isso se dará, novas participações do personagem ao longo da história. Também foi dito que essa parte do roteiro passou pelo crivo da organização Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação). A ver. 

MOSTRA CELEBRA 90 ANOS DO MAESTRO E COMPOSITOR ENNIO MORRICONE

Janeiro 28, 2018
CINEMA E MÚSICA
Reponsável pela trilha sonora de mais de 500 filmes, o italiano é homenageado na ‘Mostra Sonora: Ennio Morricone’, que exibe mais de 20 longas-metragens de vários diretores no CCBB, em São Paulo
por Redação RBA.
 
                                                                    DIVULGAÇÃO

Morricone

Com o filme ‘Os Oito Odiados’, de Quentin Tarantino, Morricone ganhou o Oscar de Melhor Trilha Original

Até dia 19 de fevereiro, o Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro de São Paulo, sedia a Mostra Sonora: Ennio Morricone, uma homenagem aos 90 anos do maestro e compositor italiano. Ao todo, 22 longas-metragens de vários gêneros, diretores e países serão exibidos na sala do CCBB-SP, todos eles com trilha sonora assinada por Morricone. Seus arranjos compõem a trilha de mais de 500 filmes, entre eles os célebres Por Um Punhado de Dólares, de Sergio Leone; A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo; Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore; Ata-me, de Pedro Almodóvar, além de vários do diretor norte-americano Quentin Tarantino.

Cena de 'A Batalha de Argel', de Gillo Pontecorvo, que tem trilha do maestroA mostra, que tem curadoria de Rafael Bezerra, traz filmes de faroeste, policiais, de terror, de época, dramas românticos e suspenses feitos desde a década de 1960 até 2015, quando foi lançado Os Oito Odiados, de Tarantino, que rendeu ao maestro o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. “É incrível como Morricone tem uma das assinaturas mais inconfundíveis da história do cinema (a força visual, a carga afetiva, ideias simples em arranjos complexos, instrumentação incomum, sons concretos, uso da voz humana como parte da orquestra, longos silêncios, gags musicais e notas únicas sustentadas por um bom tempo), e, ainda assim, suas músicas, nos melhores casos, conseguem ser absolutamente absorvidas pelos filmes dos quais emergem”, afirma o curador.

Fazem parte da programação os longas-metragens Lolita (Adrian Lyne), 1900 (Bernardo Bertolucci), Os Intocáveis (Brian de Palma), a “trilogia dos dólares” (Por Um Punhado de DólaresPor Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito), feitos com seu parceiro mais famoso, o diretor italiano Sergio Leone, entre outros. Neste domingo (28), estarão em cartaz Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri, às 15h30, e Os Intocáveis, às 18h.

A mostra também será exibida no CCBB Brasília, de 30 de janeiro a 25 de fevereiro.

As programações completas estão disponíveis no site do Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo e Brasília.

CartazMostra Sonora: Ennio Morricone
Quando: até 19 de fevereiro de 2018
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 5
Mais informações: (11) 3113-3651, (11) 3113-3652 ewww.bb.com.br/cultura

GRUPOS DE MATRIZ AFRICANA FAZEM “AFOXÉ DA PAZ” NO PRÉ-CARNAVAL

Janeiro 28, 2018

CULTURA

Chamada de Afoxé, que acontece de sexta a sábado (26 a 28), leva tradições de matriz africana para a rua

Rafaella Dotta

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

Evento tem início às 19h desta sexta (26) - Créditos: Chico Rocha
Evento tem início às 19h desta sexta (26) / Chico Rocha

A festa dos orixás vai desfilar nas ruas de BH neste fim de semana. Acontece no Centro de Referência da Juventude (CRJ), dos dias 26 a 28 de janeiro, a VII Chamada de Afoxé. O afoxé é a junção de dança, instrumentos de percussão (atabaque, agogô, xequerê) e músicas em português e também em Iorubá, uma das línguas faladas na África.

A integrante do grupo de capoeira Lenço de Seda (CECAB), Ana Maria Maia, que participa da organização, explica que o afoxé literalmente significa “a fala que faz acontecer”. Belo Horizonte teve um grupo de Afoxé de 1980 a 1988, o Ilê Odara, mas fundou após a morte de Mãe Gigi. O evento “Chamada de Afoxé” nasce em 2011 e traz novamente a tradição para a capital mineira.

O evento tem como mentor o Mestre Moa do Katendê. Ele é um dos fundadores do Ilê Odara e também fundador do Badauê e do Amigos do Katendê, afoxés de Salvador. O mestre é compositor, dançarino, capoeirista, artesão, ogã (chefe) percussionista e educador, natural de Salvador. Hoje faz oficinas de afoxé em diversos estados do país e na Europa.

Quem pode participar?

Segundo Rômulo Marcio, da Companhia de dança Motumbá, que também organiza o evento, a Chamada é aberta a todas as pessoas que estão buscando “um novo caminho de comunhão com as pessoas da própria cidade. É o afoxé da paz”. Para pagar os custos, os organizadores fazem uma rifa no valor de R$10 de um berimbau e um atabaque, e contam com a doação voluntária de apoiadores.

Programe-se

Na sexta (26) acontece a abertura, às 19h, com o “Círculo de Saberes – Entre a Fé e o Direito. Debate das políticas públicas e as práticas religiosas de matrizes africanas”. No sábado (27) é realizada a Oficina de Ritmo, Canto e Dança com Mestre Mao do Katendê, das 9h às 18h. E no domingo (28), os participantes saem em cortejo, junto ao Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB), contra a intolerância religiosa e pela Democracia. A concentração é às 13h em frente ao CRJ e cortejo às 15h, rumo à Praça da Liberdade. “Participe, venha de branco”, convoca a chamada. Todo o evento é gratuito.

Edição: Joana Tavares

‘VOU E VOLTO’, AVISA NICANOR, IRMÃO DE VIOLETA PARRA, MORTO AOS 103 ANOS

Janeiro 27, 2018
LITERATURA
Irmão mais velho da compositora e ativista, o poeta chileno, ou anti-poeta, era reconhecido em todo o mundo, mas pouco lido no Brasil
por Redação RBA.
 
                                                   MUSEU VIOLETA PARRA

nicanor

O escritor em sua casa no litoral chileno: transgressão na literatura de seu país e reconhecimento internacional

São Paulo – Ao som de Gracias a la Vida, de sua irmã Violeta, com uma manta bordada pela mãe e um recado singelo deixado sobre o caixão (“Voy & Vuelvo”,vou e volto, um de seus poemas visuais). Assim foi a despedida, ontem (25), do escritor chileno, o poeta ou “anti-poeta” Nicanor Parra, que morreu na última terça-feira (23), aos 103 anos. “Um dos protagonistas das letras chilenas”, como definiu, em nota, o Museu Violeta Parra. Alguém que rompeu com a estética da poesia de seu país com sua “montanha-russa”, conforme sua própria definição.

O autor de Poemas y Antipoemas (1954), entre outras obras, ganhou o Prêmio Nacional de Literatura em 1969, o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda em 2012 e o Cervantes em 2011. Irmão mais velho de Violeta (1917-1967), veio de uma família numerosa e de origem camponesa – ele completaria 104 anos em setembro. Até hoje inédito no Brasil, deverá ter uma antologia publicada no segundo semestre.

“Apesar do reconhecimento internacional (sobretudo na América Latina, na Espanha e nos Estados Unidos), a obra de Parra, e a literatura chilena em geral, com raras mas significativas exceções, permanece virtualmente desconhecida no Brasil, tanto no meio acadêmico quanto do público”, escreveu há alguns anos o escritor e pesquisador João-Gabriel Mostazo Lopes. “Não seria exagero afirmar que, se o Chile provocou na literatura brasileira qualquer impacto permanente durante o século passado, foi aquele Chile o país de Neruda.”

“Poeta formado em matemática, cosmopolita radicado num vilarejo, pensador anárquico que repudiava toda ideologia (inclusive o anarquismo), Nicanor Parra causava um misto de espanto e admiração a quem quer que tentasse decifrá-lo”, definiu o jornalista e professor Guilherme Freitas, que o entrevistou em 2014, em Las Cruces, litoral do Chile, a 120 quilômetros de Santiago, “onde ele vivia há mais de uma década, numa casa com a palavra “antipoesia” pichada na porta”, descreve. “Às vésperas de completar 100 anos, conservava a memória prodigiosa e a lucidez irreverente.”

Em entrevista ao jornal El País, em 2011, Nicanor disse que nunca foi autor de nada, “porque sempre pesquei coisas que estavam no ar”. 

registrado em:        

CHICO 54 ANOS CÉSAR

Janeiro 26, 2018

A imagem pode conter: texto

POEMA DE CHICO CESAR AOS GOLPISTAS LIXO DA HISTÓRIA

Janeiro 25, 2018

 

“Aos idiotas
Antipatriotas
Vendilhões do templo-nação
Digo não
Aos canalhas
E à toda tralha
Que odeia quem trabalha
Digo: Vês, chegará vossa vez
E a vocês restará o lixo da história
Ao juiz
Magistrado pau-mandado
Atolado na toga alugado
Te digo: infeliz meretriz algoz voraz
Tua alma sem paz
Tua casa sem calma
Tua palma à palmatória
Tua fala fina alegrando a escória
Teus dias de triste glória
Tudo finda e ainda tua gala espúria
Aos donos das tvs e dos jornais aliás não digo
Grito: inimigo!
Teu castigo com vigor virá e vigorará
A falência
A concordata
O preço da cocaína
A fuga de anunciantes
E as empresas claudicantes mediante e mendicantes à ruim ruína
Ao construtor do novo e seu motor
Digo amor amante avatar avante
Irrradia radiante a ira que doravante empinarás pelas ruas
Que todo pelego em desassossego se torne assustado
Para dormir um olho aberto e outro fechado
Para comer temer o veneno
Para trepar temer o punhal
Em todo pipoco esperar a bomba a bala o terror
Que a cruviana do tempo sopre e alopre até arrancar os telhados de vidro”

KAFKA E A SENTENÇA DE MORO: DO DESASTRE INSTITUCIONAL AO RENASCIMENTO DA BARBÁRIE

Janeiro 24, 2018

LITERATURA E REALIDADE

Referências ao escritor Franz Kafka são destaque no livro que reúne artigos de juristas sobre a sentença do juiz de Curitiba
por Redação RBA.
 
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Moro e Kafka: construção de narrativa que coloca em xeque os direitos fundamentais

São Paulo – As referências ao escritor Franz Kafka (1883-1924) no livro Comentários a uma sentença anunciada – o processo Lula, que reúne artigos de juristas sobre a sentença que terá apelação analisada amanhã (24) no TRF4, em Porto Alegre, mostram que a narrativa que o juiz Sergio Moro, de Curitiba, tenta impor no caso do tríplex do Guarujá tem traços perversos e chegam até a marcar “o renascimento da barbárie”. É assim que define o jurista Sérgio Sérvulo, que adotou o nome do escritor tcheco no título de seu artigo “Kafka é fichinha”.

“Por que estou dizendo essas coisas? Porque, de algum tempo para cá, muitos juízes deixaram de fundamentar as suas decisões (como determina a Constituição, sob pena de nulidade), e passaram a aplicar, às partes, sanções arbitrárias, desproporcionadas e absurdas, não previstas em lei. Isso – que pode equivaler à antiga “morte civil” – significa, isto sim, a morte do Direito, um retorno à moralidade como único processo normativo, e o renascimento da barbárie”, afirma Sérvulo.

Já Juliana Neuenschwander e Marcus Giraldes bebem na própria fonte, o romance O Processo (L&PM, 2013), para exaltar as semelhanças nos episódios de Dilma, quando do impeachment, e agora de Lula: “(Dilma) Foi julgada culpada porque inocente, preferimos dizer. Com Lula acontece algo semelhante, mas aqui estamos mais além de Kleist e Kohlhaas, nos deparamos com Kafka e Joseph. K, no Processo. A certo ponto de suas desventuras, perdido no labirinto do tribunal, na arquitetura do qual Kafka representou magistralmente os meandros da lei e suas infinitas dobraduras, K. afirma: – Minha inocência não simplifica o caso (…) Tudo depende de muitas coisas sutis, nas quais o tribunal se perde. Mas ao final surge, de alguma parte onde não havia nada, uma grande culpa”.

José Carlos Moreira da Silva Filho lembra o escritor, e remete sua análise à questão lógica da construção da sentença: “O juiz tem por “comprovada” a “propriedade de fato” do triplex, mesmo sem a titularidade ou a posse, e pune o ex-presidente porque ao não ter a titularidade nem a posse, ou não admitir a tal “propriedade de fato” ele estaria ocultando uma vantagem indevida. Então como se não bastasse ser condenado por corrupção é também condenado por lavagem de dinheiro. Só nos resta perguntar: como ele pode ter lavado um dinheiro que nunca teve através da titularidade de um apartamento que nunca foi seu ou do qual nunca teve a posse? Se Franz Kafka estivesse vivo talvez ele pudesse explicar”.

Do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão: “Ao final, temos que Lula foi condenado PORQUE não havia provas contra ele. Mais kafkiano impossível. Supôs o juiz que o réu é um caráter deformado, capaz de ocultar a propriedade de um imóvel, sem deixar qualquer vestígio dessa propriedade. Só rindo mesmo, se esse modo de agir não fosse tão desastroso para a credibilidade das instituições do país”.

FIÓTI LANÇA REMIX DE “DÁ PRA FAZER’ COM O RAPPER AMERICANO TWELVE’LEN

Janeiro 23, 2018
Música e clipe que foram ao ar na última sexta-feira apresentam os bastidores do encontro entre os dois rappers
por Redação RBA.
 
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rappers

A versão remix de ‘Dá Pra Fazer’ foi gravada por Fióti e Twelve’len em Miami

No início de dezembro, o paulistano Evandro Fióti embarcou para Miami para se apresentar ao lado do rapper norte-americano Twelve’len. O resultado do encontro acaba de ser lançado na rede pelo coletivo Lab Fantasma: um remix do single Dá Pra Fazer e seu respectivo videoclipe.

A composição, uma parceria de Fióti com seu irmão, o rapper Emicida, e uma marca de calçados, foi originalmente lançada no segundo semestre do ano passado e inspirou a realização do festival de música Dá Pra Fazer. A visibilidade foi tanta que o artista foi convidado para se apresentar no Festival Art Basel, na Flórida, ao lado do rapper Twelve’len em uma espécie de intercâmbio.

A letra diz muito sobre o trabalho de Fióti e Emicida, já que faz um manifesto de incentivo aos que fazem a cena independente e acreditam no poder de fazer algo relevante e inspirador para mudar a cidade e situações em que vivem. “Eu tenho meu jeito, minhas ‘coisinha’/ Pra levar a vida sem trava/ Um improviso aqui, um remendo ali/ Assim eu tive o que eu precisava/ É tão impossível que pra ficar crível/ Eu tive que juntar várias ‘fita’/ Tipo as ‘história’ de lá / O que tem de sofrida, tem de bonita/ Inspirei em gente da gente/ Que tá no sol quente num batente cedinho/ Um busão bem lotado, no passo apertado/ Correndo atrás de um caminho/ Um sonho no peito, o mundo imperfeito/ Seguindo direito a estrada/ É por esses que eu torço, talento e esforço/ As ‘mina’ e os ‘moço’, a quebrada”, canta.

A diferença entre a versão original e o remix é que Twelve’len também traz versos com sua própria trajetória, ou seja, sobre alguém que, assim como Fióti e Emicida, também nasceu no subúrbio e teve de ter “pé no chão e cabeça no céu” para superar as adversidades e chegar onde está. “É verdade que nós podemos ganhar/ É verdade, não conto de fadas, eu prometo/ (…) Eu nado em piscinas de sonhos, realizações/ Nós temos de vencer/ Nós temos de vencer/ Aprender como tratar seu vizinho/ Porque um dia ele poder ter de te salvar”, canta em inglês.

Em entrevista no site do Laboratório Fantasma, o rapper norte-americano afirma que o encontro com Fióti será uma ponto rumo algo maior: “Eu quero com esse encontro construir uma ponte que permita à América do Sul e à América do Norte circularem livremente. Eu quero mostrar ao mundo que as culturas têm semelhanças e diferenças mas o interesse é sempre o mesmo. Eu estou esperando fazer uma música bonita com o Fióti e outros brasileiros no futuro para mostrar a todos o que é o amor”.