Archive for Fevereiro, 2017

BANDINHA DO OUTRO LADO FAZ FESTA MOSTRANDO QUE É NETA SINGULAR-ORIGINAL DE DIONÍSIO

Fevereiro 28, 2017

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Entre os vários vetores fluxos mutantes e quantas desterritorializantes da Associação Filosofia Itinerante (Afin) que agenciam há mais de 14 anos em Manaus produções-moventes como corpos de novas formas de existir, sentir, ver, ouvir e pensar, a Bandinha do Outro Lado é festa singular e original da potência dionisíaca.

p1090569p1090574p1090576p1090577p1090581p1090584p1090589p1090590p1090599p1090600A Bandinha do Outro Lado se imbricou como corpo dionisíaco há nove anos na Rua Jaú do Bairro Novo Aleixo, zona Leste de Manaus. Uma das muitas regiões populacionais desassistidas pelos governos reacionários que se apossaram do estado do Amazonas e da capital Manaus. Na linguagem politicofastra (linguagem do falso político, o tagarela do Legislativo, Executivo e Judiciário, corpos alienados da democracia), é um curral eleitoral onde esses personagens exploradores da miséria do povo, que eles mesmos fomentam, conseguem suas eleições, reeleições constantes.

Desde sua inicial apresentação nas ruas do bairro que a Bandinha do Outro Lado se atualiza como real através das próprias criações das crianças. Suas fantasias são concebidas e elaboradas por elas. Certo que com o auxilio de alguns moradores. Como Dona Antônia, por exemplo.

p1090602p1090604p1090609p1090622p1090627p1090640p1090652Como a Afin é um corpo comunalidade e sua atuação é sempre um processual coletivo, não seria coerente a Bandinha do Outro Lado, como expressão do personagem que forneceu corpos para a emergência do Teatro Grego, a Filosofia e a Política, que os moradores ficassem fora da composição festeira de seus netos.

p1090653p1090663p1090665p1090678Nesse carnaval, que apesar de Temer e seus cúmplices golpistas, a Bandinha do Outro Lado fez sua festa em outra zona abandonada pelos exploradores governantes: Bairro Nova Cidade, que de novo só tem o nome: segue a antiga violência administrativa de outras zonas que não têm seus direitos urbanos garantidos. Fica no extremo de Manaus. Agora, a Bandinha do Outro Lado se apresenta na última rua, número 72, do bairro no limiar da mata, fronteira com um cemitério indígena. Porém, a potência dionisíaca-contínua segue a movimentação intensiva da poieses.

p1090686p1090690p1090691p1090697p1090702p1090723p1090742p1090749p1090757p1090761Aqui a letra desse ano do carnaval da Bandinha do Outro Lado. Carnaval que vibrou por todo Brasil em um uníssimo Fora Temer! Para o bem da Democracia!

     A Bandinha do Outro Lado está na Nova Cidade Ô, Ô,Ô

     Veio lá do Novo Aleixo com sua festa vontade Ô,Ô

     Para fazer o carnaval Dionísio da criança

     Por isso, ninguém vai ficar fora da dança.

     “Corre, corre lambretinha”,” se a canoa não virar”,

     “Eu vou pra Maracangalha” “abre alas que eu quero passar”

     “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval,

      Viva o Zé Pereira que a ninguém faz mal”.

     Vejam algumas imagens dionisíacas.

  Vejam um breve vídeo. 

Tom Zé entra no ritmo do carnaval e lança marchinha Fora Temer

Fevereiro 28, 2017

De marchinhas a funk, carnaval no Rio de Janeiro é na rua

Fevereiro 25, 2017

Carnaval RJ

Foliões encontram vasta programação e os mais diversos estilosem todas as regiões da cidade Confira horários e locais.

São Paulo – Em um dos palcos mais tradicionais do carnaval brasileiro, de hoje (24) até terça-feira (28), cerca de 450 blocos realizam mais de 570 desfiles pelas ruas de todas as regiões do Rio de Janeiro, com programação que vai desde a manhã, em especial para os blocos infantis, até as 22h.

No centro do capital fluminense, os destaques são os blocos tradicionais, como o Carmelitas e o Cordão do Bola Preta. Na zona sul, blocos como Simpatia é Quase Amor, Bangalafumenga e Banda de Ipanema estão entre os que devem atrair multidões.

Nas demais regiões, além do samba e das marchinhas tradicionais, funk, rock e ritmos nordestinos também embalam os foliões. A programação se estende ainda até o próximo domingo (5).

Confira abaixo os horários e locais de concentração dos blocos nos quatro dias de carnaval no Rio:

Ilú Obá de Min abre carnaval paulista na 6ª na Praça da República

Fevereiro 23, 2017

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Bloco de resistência afro-brasileira formado por 400 mulheres faz retrospectiva de seus 12 anos com reverência a Xangô, orixá da Justiça, algo que o Brasil e o mundo precisam, diz a fundadora Beth Beli.

São Paulo – As 400 mulheres que compõem o bloco de carnaval afro Ilú Obá de Min abrem o carnaval de São Paulo na sexta-feira (24), com concentração na Praça da República, na região central, a partir de 19h. Às 20h, o cortejo sairá em desfile em direção ao Largo do Paissandu. O bloco, que tradicionalmente homenageia uma mulher ou mito negro que represente a luta das mulheres por igualdade, inclusão e tolerância, este ano faz um balanço de seus 12 anos e executa composições que marcaram essa trajetória. Nesse período, entre as homenageadas estiveram a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Nega Duda, Leci Brandão e Elza Soares.

O Ilú Obá de Min é expressão na cidade da resistência cultural afro-brasileira, e da valorização da identidade das mulheres que buscam preservar a memória das raízes que formaram o povo brasileiro. Este ano, o tema do desfile será “Alaafin de Oyó”, que simboliza o número 12, número de Xangô “que rege todo esse trabalho e é também o orixá da Justiça”, afirmou Beth Beli, regente do bloco, em entrevista à TV Brasil, ao destacar que este ano o carnaval será de celebração.

“Estamos precisando de Justiça no mundo, não só no Brasil”, diz ainda a regente do bloco para fundamentar necessidade de reverência a Xangô no carnaval deste ano. Os instrumentos do bloco são agogô, xequerê, djembé e alfaia, todos em harmonia para exaltar a voz das mulheres.

“O Ilú Obá de Min protege a expressão que reúne a diversidade do Brasil e a pluralidade do continente africano. Instrumentos, cânticos, toques, corporeidade. Candomblé, jongo, maracatu, afoxé, boi, ciranda, samba. Fazem a Terra tremer há 12 anos. Ancestralidade ecoa no bloco que reúne axé. O carnaval de São Paulo recebe a resistência cultural afro-brasileira”, escreveu a militante das causas negras e do feminismo preto e periférico Amanda Sthephanie, no blog Todos Negros do Mundo.

Visite a página do Ilú Obá de Min no Facebook.

 

Livro ‘A Outra Face de Sérgio Moro’ é lançado no Rio de Janeiro

Fevereiro 22, 2017

Obra reúne crônicas de Emanuel Cancella, autor que está sendo processado pelo juiz. No livro, ele defende que a Lava Jato está a serviço dos interesses das gigantes petrolíferas norte-americanas.

São Paulo – Escrito por Emanuel Cancella, o livro A Outra Face de Sérgio Moro será lançado nesta terça-feira (21), a partir das 18 horas, na tradicional Livraria Folha Seca, no centro do Rio de Janeiro.

“É uma alegria poder anunciar essa parceria com a livraria Folha Seca, tão identificada com a cultura do Rio de Janeiro. Todos sabem que é um espaço que reúne formadores de opinião, pesquisadores e produtores culturais. Acredito que isso vai proporcionar uma maior divulgação do meu livro, e fazer com que as pessoas saibam de fato o que está por trás dessas investigações que no fundo têm o objetivo de destruir a Petrobras e o patrimônio brasileiro”, afirma Emanuel Cancella, coordenador da Secretaria Geral do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).

RBAA outra face de Sérgio Moro
Livro de Emanuel Cancella denuncia os interesses do juiz Moro

O autor está sendo processado pelo juiz Sérgio Moro, por meio do Ministério Público Federal (MPF), acusado de crime contra a honra do servidor público federal.

As crônicas de Emanuel Cancella, produzidas entre 2014 e 2016, revelam o que o autor define como a “outra face de Sérgio Moro”, juiz que ele acredita ser peça-chave no golpe judiciário e midiático que depôs a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Segundo Cancella, a Petrobras começou a ter sua imagem destruída em março de 2014, ainda no começo da Operação Lava Jato. Para o autor, Sérgio Moro foi erguido à condição de “herói nacional” e cumpre papel central num esquema que envolve os interesses das gigantes petrolíferas americanas Shell, Chevron e Exxon, “que construíram sua história e riqueza corrompendo, poluindo e matando, na África e Oriente Médio” e colocaram os olhos no pré-sal do Brasil.

Um ano sem Umberto Eco, o último renascentista

Fevereiro 20, 2017

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A erudição e o diálogo entre as disciplinas humanas parecem hoje derrotados pelos “especialistas” e a cegueira neoliberal. Porém, resistimos: nada está consumado

Por Fran Alavina

Neste fevereiro completa-se um ano da morte do pensador italiano Umberto Eco (1932-2016). Conhecido pelo público não acadêmico a partir do sucesso do romance O nome da Rosa, depois convertido em filme, hoje é possível afirmar que o profundo significado da morte de Eco no plano da cultura ficou velado pela repercussão midiatizada de sua partida. Não morria, em 19 de fevereiro de 2016, um simples intelectual acadêmico que, vez ou outra, falara ao grande público. Tratava-se de alguém que sabia se movimentar com desenvoltura entre os meios universitários e os espaços midiáticos, sem se deixar contaminar pela artificialização de uns, ou pelo isolacionismo de outros.

Quase todos os jornais italianos apegaram-se aos elementos midiáticos da profícua carreira intelectual e literária de Eco. Celebraram seu fim como fazem com a morte de algum astro pop: com um rápido jogo de imagens rememorativas que não passam da superficialidade da retina, acompanhadas por uma falação ininterrupta que retira qualquer reverência ante o silêncio da morte. Nas mãos da velha mídia, quem morre se transforma em um ente cinicamente celebrado, pois não se morre, vira-se notícia. Repetiram, com exaustão, que Eco era um homem de cultura extensa, um erudito reconhecido internacionalmente, por isso um italiano memorável. Ressaltou-se, por fim, que seu velório seria um sóbrio ato laico. Na Itália cabisbaixa pela crise, Eco era um dos poucos motivos de orgulho. Sua obra relacionava saber e vida civil: algo que outrora era uma construção tipicamente italiana, hoje um liame corroído pela ideologia daespecialização e pela negação das ciências humanas.

Parece quase uma trama tecida pela fortuna com os fios da ousadia, que a última obra de Eco fosse justamente um romance sobre o jornalismo faccioso e sensacionalista, o romance Número Zero. Uma visão sobre a manipulação jornalística e suas mazelas. A mentira, que uma vez tornada notícia, acaba por se apresentar como se verdade fosse. Era como se antes de sua morte, Umberto Eco, por meio de sua erudição aguda e crítica, já tomasse parte na querela sobre a pós-verdade, que no ano mesmo de sua partida, se tornou o mote explicativo de todos os nossos problemas. Ironia que o autor de Apocalípticos e Integrados, uma das mais lúcidas análises sobre os mass media, perde a posição de “meio-termo” que defendera para tornar-se integrado. Uma integração proporcionada por sua morte e que lançou sombras sobre o liame que unia a diversidade de sua produção. Talvez a mais perversa expressão dessa integração tenha sido a definição simplória de Umberto Eco como sendo o erudito pop.

É nesse quadro – mesmo repercutindo e ressaltando o significado de um velório laico no país de um catolicismo que oscila entre o apelo turístico-museológico e o fortuito carisma de seus papas – que os jornais e a TV fechavam os olhos para a relação essencial entre toda a vasta produção de Eco e a tradição da cultura das letras e humanidades. Ora, esta longa tradição perpassa a própria formação da identidade nacional italiana na medida em que lá se iniciou e se fundamentou aquilo que posteriormente se convencionaria denominar de saberes humanísticos, (os studia humanitatis). Tradição das humanidades que tem perdurado na longa tradição da história italiana, mesmo sofrendo ininterruptos ataques. Dificilmente nos esquecemos, após um primeiro contato, que Dante, Maquiavel ou Michelangelo eram italianos; porém, raramente, por exemplo, relacionamos os dramas de Shakespeare com a sua Londres elisabetana.

A morte de Umberto Eco não foi, para os italianos, apenas a despedida de um compatriota reconhecido internacionalmente, mas também a perda simbólica de um dos liames de identidade nacional. Já para todos nós, sua partida significou a morte do último dos renascentistas, talvez o fim de uma cultura educacional na qual certo ideal de erudição e diálogo entre as disciplinas humanas reconhece sua derrota ante a apologia da especialização e o simulacro do homem multimídia. Aqui, certamente o leitor mais atento indaga-se: como um notório medievalista pode ser denominado de renascentista?

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Denominá-lo de renascentista, ainda que ele fosse um grande medievalista, não é anacronismo ou ironia. Podemos caracterizar Umberto Eco como o último dos renascentistas justamente em função do ideal de erudição crítica que animou toda sua produção intelectual: das obras de estética filosófica e semiótica aos seus romances e crônicas. O ideal de sujeito erudito, capaz de criar e se expressar nas mais diferentes disciplinas e saberes humanísticos era o próprio fundamento da cultura renascentista.

O literato deveria ser tão capaz de filosofar, quanto o filósofo deveria ser capaz de criar poemas e construir narrativas ficcionais; o historiador deveria ser tão desenvolto em criar a beleza pictórica, quanto o pintor deveria ser em compreender o passado e narrar o presente. Ademais, cumpria nunca perder de vista a relação entre o saber e suas determinações históricas. Jamais contentar-se com a mediocridade: esta era a norma para se criar o novo. O exemplo mais popular e lendário desse modelo é Leonardo Da Vinci – o homem universal. Porém ele não era a exceção genial, mas a regra comum de um modelo de orientação dos saberes. Galileu foi capaz de apresentar suas descobertas astronômicas através de um diálogo ficcional. Maquiavel, sempre mais difamado que compreendido, escreveu uma história de Florença e três peças teatrais; Lorenzo, il magnifico, ao mesmo tempo que exercia o poder dos médicis sobre os florentinos, foi poeta admirado.

Não se tratava de mero ecletismo, mas de reconhecer o vínculo comum que une todos os saberes dos círculos humanísticos. Vínculo este, que hoje, após a orientação das universidades para as especializações minimalistas, é enfraquecido cada vez mais. Bem antes que a interdisciplinaridade fosse apresentada como grande novidade, a regra era nunca contentar-se com uma só forma de saber. Já nos alertavam os renascentistas que todo saber em si mesmo, por mais que aspire à universalidade, é sempre uma visão fragmentada do mundo – portanto incapaz de falar sobre o todo, mas apenas sobre a parte em que se debruça. E aquele que conhece bem, mas apenas a parte, ao tentar compreender o funcionamento do todo, não fará mais que falseá-lo, e, assim, ainda que conhecendo estará preso ao erro. O bom saber é aquele capaz de ir sempre além de si, jamais fazendo uma apologia cínica de suas próprias parcialidades. Qualquer distância quilométrica entre este ideal formatado na Renascença e a nossa atualidade, que é presa fácil de um uso tecnicista do saber, não é mera coincidência. Por isso, a importância de Eco; Sua produção ousou ao não submeter-se às especializações minimalistas que nos acostumam à parcialidade e mediocridade; ao ficcionar, mas sem deixar de compreender o presente histórico; ao demonstrar que erudir-se não é o exercício fútil de colecionar informações díspares e exóticas; ao testemunhar que as humanidades não são saberes menores e inúteis, mas que sem o seu fortalecimento estamos fadados a nunca compreendemos as contradições de nosso tempo.

Umberto Eco reconhecia o vínculo das humanidades, e se inseria na tradição humanista renascentista que perdurou na vida cultural italiana: passando por Leopardi e chegando a Pasolini. Vinculando-se, portanto, àqueles que foram capazes de estender sua vontade de saber para além de uma só forma de conhecimento e de criação. Eco não foi apenas o excelente ficcionista de O pêndulo de Foucault e a Ilha do Dia Anterior. Também era um teórico da literatura e da linguagem; não apenas refletiu filosoficamente sobre a estética medieval, como também teorizou sobre o “fascismo eterno” e as anomalias e vulgarizações criadas pelo poder midiático. Seu talento como escritor ficcional não era menor que sua capacidade de pensar criticamente a realidade — ou melhor, conforme uma de suas expressões, de viajar na irrealidade cotidiana. O quanto teríamos perdido se Eco houvesse se contentado em ser apenas um especialista em estética e filosofia medieval, lugar de sua primeira formação acadêmica?

Há um ano se foi o último dos renascentistas, e não sabemos se, em breve, veremos surgir um outro como ele. Não em virtude da uma genialidade, que embora singular, supõe-se inalcançável, mas porque o âmbito dos saberes humanísticos é cada vez mais ferido de morte: a grande mídia faz crer que informar-se é o mesmo que conhecer e a cegueira neoliberal nos guia para um mundo no qual as ciências humanas seriam apenas diletantismos de alguns. Assim, talvez o próximo continuador da trilha feita por tantos outros antes de Eco, e continuada por ele, tenha sido tirado arbitrariamente do caminho por ações como a reforma-desmache do ensino médio que vemos hoje no Brasil: um genocídio educacional que fere as disciplinas humanas e mata os talentos antes que eles possam nascer.

Semana de Arte Moderna completa 95 anos

Fevereiro 18, 2017

"Abaporu", pintura a óleo da artista Tarsila do Amaral, obra icônica do movimento antropofágico brasileiro - Créditos: Reprodução

O movimento foi responsável pela consolidação do Modernismo Brasileiro.

Lilian Campelo
Brasil de Fato | Belém

A Semana de Arte Moderna de 1922 completa nesta semana 95 anos. O movimento, que ocorreu entre os dias 11 e 18 de fevereiro, rompia com os paradigmas culturais de um país que ainda vivia sob as estruturas quase feudais da monocultura do café.

Um grupo de artistas plásticos e intelectuais desejavam a ruptura com a tradição acadêmica e influências da cultura europeia, principalmente a francesa. A proposta era revolucionar as expressões artísticas, e encontraram na cultural brasileira inspiração para seus processos criativos.

Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de 22 teve apresentações de recitais de músicas e poesia, palestras, danças e exposições de pintura, escultura e arquitetura. Apesar das vaias do público que não reagiu muito bem as inovações artísticas apresentadas, o movimento contribuiu com importantes mudanças no cenário da arte brasileira.

A abertura do evento no dia 13 foi feita por Graça Aranha com a conferência A Emoção Estética na Arte Moderna, que criticava o conservadorismo e o academicismo da arte brasileira. Manuel Bandeira leu o seu ensaio A Escrava que não Era Isaura na escadaria do teatro.

O evento contou ainda com a apresentação da pianista Guiomar Novaes e o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos, que subiu ao palco de casaca e descalço para reger a orquestra, sendo vaiado pelo público que ainda respirava os ares europeus.

Villa Lobos apresentou uma série de três espetáculos durante o evento. Com as composições Amazonas e Uirapuru, ambos de 1917, o maestro consolidou seu estilo. Em Uirapuru o maestro buscou inspiração em uma lenda indígena.

Participaram do evento os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, Agenor Barbosa, Guilherme de Almeida, Plínio Salgado e Sérgio Milliet; os artistas plásticos Brecheret, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Vicente do Rêgo Monteiro; entre outros.

A Semana de Arte Moderna, significou o marco inicial do modernismo no Brasil. Embora influenciado pelas vanguardas europeias, o movimento estimulou escritores e artistas a produzirem cultura com características nacionais, valorizando as manifestações populares brasileiras.

Mário de Andrade foi um desses artistas. Pesquisador e folclorista, ele percorreu os estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Maranhão e Pará em 1938 em uma expedição chamada Missão de Pesquisas Folclóricas. O escritor registrou o som de cantigas de rodas, entoadas de Bumba meu boi, cânticos de matriz africana e outras manifestações populares. O resultado gerou o registro de 1299 fonogramas.

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Mosaico Cultural

Locução: Norma Odara

Produção: Lilian Campelo

Sonoplastia: Mauro Ramos

Edição: Mauro Ramos

Filme conta a história real da última mulher executada na Tchecoslováquia

Fevereiro 17, 2017

‘Eu, Olga Hepnarová’, de Tomás Weinreb e Petr Kazda, faz um denso retrato psicológico de uma assassina em massa. Longa tece crítica à sociedade que tiraniza e exclui as pessoas diferentes.

por Xandra Stefanel

“Considerem esta carta um documento oficial. Durante 13 anos, fui prisioneira de uma família tirana. Eu era um brinquedo para os adultos e uma vítima das crianças. Tinha vários apelidos: Dragão, Múmia, Anjo Caído e Virgem Adormecida. Meus torturadores eram cruéis. Sempre fui vista como a diferente da família. Nunca tive amigos, nunca vou ter. Fugi da escola, da minha casa e da minha vida. O Instituto Psiquiátrico me mostrou o quanto a psiquiatria é inútil.” Este é um trecho da carta que Olga Hepnarová escreveu aos 22 anos, pouco antes de atropelar com um caminhão várias pessoas em uma rua de Praga, na antiga Tchecoslováquia, em 1973.

Esta história real é reconstituída no longa-metragem Eu, Olga Hepnarová, que chega aos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador nesta quinta-feira (16). O longa-metragem de Tomás Weinreb e Petr Kazda faz uma espécie de perfil psicológico da última mulher executada na Tchecoslováquia: uma jovem lésbica e solitária que cresceu em uma família emocionalmente desconectada e que nunca foi capaz de responder ao que a sociedade esperava dela.

Na cabeça de Olga, havia apenas duas saídas: se matar ou matar as outras pessoas. No início do filme, ela tenta suicídio sem sucesso. Sua mãe, dura como todos os personagens do longa, apenas diz que para se suicidar era preciso ter muita coragem, o que não era o caso da garota. “Vou me vingar desses cretinos. Não adianta nada eu virar uma suicida anônima. A sociedade é arrogante demais para condenar a si mesma. E quem tenta fazer isso individualmente é castigado. Então, este é o meu veredicto: ‘Eu, Olga Hepnarová, vítima da sua violência, condeno vocês a morrer esmagados’”.

O fio-condutor do longa-metragem são as cartas escritas por Olga, a partir das quais é possível acompanhar o agravamento da solidão e do sofrimento da jovem. Mas não há no filme julgamento nem desculpas pelo assassinato. O que os diretores fazem é mostrar o ser humano em vez de tratá-la apenas como assassina em massa. Não fica claro se Olga Hepnarová foi um produto de seu meio (vítima de bullying e de abusos) ou se era uma psicopata tentando justificar seus atos. A dúvida torna possível fazer uma atual crítica à sociedade que (desde sempre) exclui e maltrata quem não se encaixa nos papeis pré-determinados.

Durante seu julgamento, Olga disse: “Eu poderia ter me suicidado. Isso ajudaria vocês a se livrar de uma vítima tiranizada.” Ela não queria ser absolvida e pediu para seu advogado não defendê-la usando a loucura como desculpa. Hepnarová queria mostrar para todos que a tirania social tinha condenado à morte uma jovem saudável e queria que isso servisse de alerta para que fatos terríveis como este não acontecessem novamente.

Doença individual versus social

“Qual é a diferença entre um jovem que atira em metade de sua escola em algum lugar da América ou Europa, e Olga Hepnarová, uma jovem tcheca de 22 anos que dirigiu um caminhão sobre um grupo de pessoas? Eles não experimentaram a mesma frustração, indiferença no seus ambientes sociais e sentimentos de alienação? Eles não são os mesmos com seus repetidos gritos por ajuda? O destino de cada um não está mais perto do que se pode esperar? As suas motivações não são realmente as mesmas? Essa semelhança não prova que o caso ‘daquela garota com o caminhão’, como era dito na época, possui um significado alterado pelo tempo e aplicável em qualquer lugar, permanecendo como o pão diário dos criminologistas? Como é possível que tais casos ainda aconteçam hoje e todas as instituições, organizações, igrejas, ciência médica avançada e psicologia, todos mecanismos criados para prevenir acidentes falhem repetidamente?”, questionam Tomás Weinreb e Petr Kazda.

“Não esqueçamos que os crimes do indivíduo são sempre muito mais aparentes do que os crimes cometidos pela sociedade de que todos somos parte. Nós nos escondemos na multidão com mais frequência do que defendemos os direitos do indivíduo. Isto é tão verdadeiro hoje como era anos atrás”, afirmam.

Segundo os diretores, o longa tenta encontrar as causas desta tragédia, “aquelas que podemos evitar hoje (mais psicologia empática, aumento da tolerância das minorias sexuais, a codependência emocional de crianças e pais…) e aquelas que não podemos mudar (o mal é parte integrante dos seres humanos). Na história de Olga gostaríamos de enfatizar acima de tudo a frieza e crueldade na sociedade como um todo. As pessoas se tratam com indiferença, sem empatia e compreensão, interessadas apenas em si mesmas. Por isso, o que queremos salientar é que, em relação ao ato de Olga Hepnarová, a culpa e responsabilidade são compartilhados por todos os que entram em sua história”.

Filmado em branco e preto, Eu, Olga Hepnarová tem um ritmo lento e denso. Ele deixa claro desde o início que a jovem cometeu assassinato em massa, o que não tira de forma alguma a tensão da obra. Ao contrário: faz com que seja ainda mais forte e perturbador, já que não precisa se dedicar exaustivamente ao assassinato em si, apenas à construção psicológica da protagonista, interpretada com maestria pela atriz polonesa Michalina Olszanska.

Eu, Olga Hepnarová
Direção e roteiro: Tomás Weinreb e Petr Kazda
Argumento: Roman Cílek
Produtores: Tomás Weinreb, Petr Kazda, Vojtech Fric, Marcin Kurek, Sylwester Banaszkiewicz, Marian Urban
Direção de fotografia: Adam Sikora
Elenco: Michalina Olszanska, Martin Pechlát, Klára Melíšková, Marika Šoposká, Juraj Nvota, Marta Mazurek, Zuzana Stavná
Montagem: Vojtech Fric
Direção de arte: Alexander Kozák
Distribuição nacional: Supo Mungam Films

Sem preconceitos, fotógrafos revelam o lado invisível das periferias de São Paulo

Fevereiro 16, 2017

Bloco do Beco

Coletivo DiCampana reúne profissionais que se cansaram de ver apenas as cenas de violência e pobreza retratarem o cotidiano dos bairros periféricos na mídia.

São Paulo – Incomodados por sempre verem os estereótipos de pobreza e violência retratarem a periferia na mídia, cinco jovens fotógrafos decidiram criar, em novembro de 2016, o coletivo DiCampana, com a missão de revelar o cotidiano da periferia paulistana por meio de um outro olhar. “A partir do momento em que a gente vê que pode mostrar outro ponto de vista, mais introspectivo, começamos a questionar isso que está sendo exposto há tempos”, explicou José Cícero da Silva, um dos fundadores do coletivo, em entrevista recente para a TVT, ressaltando que todos os fotógrafos são profissionais, autodidatas e moradores da periferia.

Segundo ele, a ideia é fotografar o cotidiano das periferias, a rotina do trabalhador, “a juventude saudável” brincando, pessoas que não costumam aparecer. Para José Cícero, o estereótipo de pobreza e violência causa um prejuízo “incalculável” na imagem dos moradores desses bairros.

Em pouco tempo de existência, o coletivo DiCampana já registrou o dia a dia de oito bairros da capital paulista: Jardim Ângela, Monte Azul, Jardim São Luís, Capão Redondo, Campo Limpo, Jardim Maria Sampaio, Jardim Piracuama e Brasilândia.

Surpreendidos pelo interesse que o projeto despertou em alguns veículos de mídia alternativa, os fotógrafos decidiram compor um banco de imagem e oferecer as fotos produzidas no Flickr e na página do grupo no Facebook. “Pra gente é um privilégio. Não sabíamos que havia uma demanda tão grande dessas imagens.”

Por ser um projeto independente e muito recente, explica o fundador do coletivo, os fotógrafos ainda não obtêm nenhum ganho financeiro com ele, situação que não os impede de já almejar levar suas lentes para retratar o cotidiano de periferias de outros estados do país.

“À medida que a produção vai aumentando e vamos conhecendo outras pessoas, queremos muito cobrir outros lugares, como no Rio de Janeiro, mas também fora do eixo Rio-São Paulo”, disse José Cícero, citando, como exemplo, a cidade de Natal, foco da mídia nesse começo de ano em função da crise carcerária.

COLETIVO DICAMPANABloco Afro Di Santo
É tempo de festa no Bloco Afro Di Santo, no M’Boi Mirim, zona sul de São Paulo

 

LÉU BRITTO/COLETIVO DICAMPANAJardim Celeste
A molecada também brinca nos becos do Jardim Celeste
JOSÉ CÍCERO DA SILVA/COLETIVO DICAMPANAJardim São Luís
Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, em uma noite de novembro de 2016

Leci Brandão: ‘País deve produzir alimento sem atacar quem defende povos indígenas’

Fevereiro 14, 2017

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Evitando polêmicas, ela diz acreditar que a escola de samba que homenageia o Xingu e critica os agrotóxicos não será prejudicada pela emissora afinada com os interesses dos ruralistas.

por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Cantora e compositora, com 23 álbuns gravados, primeira mulher a participar da ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro. Ativista em prol da igualdade racial, foi conselheira da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sepir) entre 2004 e 2008, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Comentarista de carnaval da Rede Globo no período entre 1984 e 2010 e deputada estadual em São Paulo pelo PCdoB, em seu segundo mandato, Leci Brandão não quer polêmicas com a Globo e nem com os ruralistas.

Colocada em saia justa pela reportagem, que a questionou sobre um possível boicote à escola de samba Imperatriz Leopoldinense pela emissora alinhada aos interesses dos ruralistas, ela foi diplomática. “Eu espero que isso não aconteça porque nós vivemos em uma democracia. Outra coisa é que há uma ‘licença’, uma liberdade, para os artistas explorarem determinados assuntos. É uma prerrogativa que a escola de samba tem, como os artistas, de escolher o tema que ela quiser”, destaca Leci.

“O samba-enredo não está defendendo o nazismo, o racismo. Está falando de coisas verdadeiras; esta falando de pautas brasileiras.”

Em 2016, entretanto, a Unidos de Vila Isabel, que homenageou Miguel Arraes, foi prejudicada pela transmissão da emissora. Com o argumento de não interferir em sua grade, a Globo começou a transmissão mais tarde, mas a escola ainda estava na avenida. Um áudio vazado deixou claro que havia orientação para Fátima Bernardes não fizesse comentários sobre a escola, ao qual ela respondeu com um “nossa, se o compacto ficar sem esse final, vai ficar muito estranho.”

Seja como for, Leci sai em defesa da Imperatriz, que tem sido alvo de críticas dos ruralistas desde o começo de janeiro, quando divulgou seu samba-enredo Xingu, o Clamor que vem da Floresta. Como o tema aborda a luta dos povos indígenas contra a cobiça de seus territórios pelo agronegócio e enaltece sua relação ancestral com  a preservação da natureza, lideranças ruralistas se sentiram afrontadas e empreenderam uma campanha difamatória contra a agremiação.

Além do aspecto da disputa pela terra, eles se sentiram afrontados também pelo debate que a escola de samba levanta quanto ao modelo produtivo do agronegócio. Baseado principalmente na monocultura em grandes latifúndios, com uso de agrotóxicos, tem contaminado o solo, a água, lavouras vizinhas e causado diversos tipos de doenças nos agricultores e nos consumidores dessa produção, no campo e na cidade.

Selo do samba-enredo 2017 da Imperatriz

Na quinta-feira (9), o senador Cidinho Santos (PR-MT), usou a tribuna da casa para enfatizar a contrariedade ao enredo da escola, “que coloca o agronegócio como vilão das questões ambientais”. Dizendo-se totalmente a favor da homenagem aos povos indígenas do Xingu, “que são irmãos nossos e merecem  homenagem”. “Mas também sou contrário que para se fazer homenagem aos povos indígenas se faça uma ofensa à agricultura e à pecuária justamente num momento como esse, em que nosso ministro Blairo Maggi viaja o mundo fazendo novas relações comerciais, muitas das quais estão sendo tratadas pelo presidente americano (Donald Trump)”, afirmou.

“Temos de aproveitar para divulgar que nosso país é totalmente sustentável. É isso que temos de vender para os outros países”, concluiu.

Posicionamento

“Não quero entrar em polêmica com a rede Globo. Já tive muitos problemas por causa dos comentários que eu fazia; tem toda essa história aí. E pelo fato de eu ser parlamentar, eu não posso nem participar de programas. O que eu quero é mostrar o meu posicionamento em defesa dos povos indígenas e desse povo maravilhoso, que nos ensinou muitas coisas”, destacou a sambista.

Realçando a tradição da concorrente Imperatriz Leopoldinense, a mangueirense Leci recitou versos do samba-enredo que enfureceu o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) a ponto de prometer a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar irregularidades da escola. “Na aldeia com flautas e maracás, kuarup é festa, louvor em rituais, na floresta… harmonia, a vida a brotar, sinfonia de cores e cantos no ar, o paraíso fez aqui o seu lugar, jardim sagrado o caraíba descobriu, sangra o coração do meu Brasil…. Chegar aonde ninguém chegou, lembrar a coragem e o amor dos irmãos, e outros heróis guardiões, aventuras de fé e paixão, o sonho de integrar uma nação”.

E foi além: “A imperatriz tem o direito de defender o Xingu; não está fazendo nada de anormal, nada contra o Brasil”, diz, lembrando em que nos anos 1980 gravou o LP Essa Tal Criatura. Em uma das faixas, Nas Águas do Rio Negro, ela canta sua pequenez diante da grandeza da Amazônia. “Amazônia que naquela época já estavam querendo vender, vender a mata, fazer genocídio dos povos indígenas.”

Com a vida transformada pelas orientações espirituais da uma entidade chamada Caboclo Rei das Ervas, “um caboclo, índio”, conforme contou, disse  adorar os povos indígenas. “Adoro essa coisa da preservação da natureza, como eles lidam e defendem a natureza. Claro que o Brasil tem de ter desenvolvimento, produzir alimento. Mas não podemos sacrificar uma escola de samba que defende os povos indígenas. Sou a favor do enredo da escola.”

E num recado a Caiado, alfinetou, com elegência: “Se as pessoas vão fazer CPI? Acho tudo muito espetáculo para uma coisa tão justa que é você querer defender os povos indígenas.”

Essa defesa, conforme destacou, é importante sobretudo no momento atual.  “Um momento difícil o que vivemos, com manifestação de ódio, como foi mais recentemente com a ex-primeira dama Marisa Letícia, que sempre me tratou com distinção. As pessoas estão misturando tudo. A cultura do ódio está me incomodando muito. Temos de falar da importância do diálogo, debater, mas com educação, bom senso, equilíbrio, porque as pessoas estão querendo se matar por causa de sigla partidária. Eu não suporto isso. As pessoas querem fazer CPI de tudo, é lava jato de tudo. Daqui a pouco vão querer dizer que o carnaval da imperatriz tem alguma coisa de corrupção.”