Archive for the ‘Conta outra’ Category

Fábula esquizopolitica

Janeiro 30, 2014

Era uma vez um príncipe triste e ressentido que chorava pela perda do trono. Ele e sua corte de desocupados tinha grande inveja de um sapo barbudo que vivia a cantar feliz ao povo e também da nova corte de quem este povo gostava mais. Mas o sapinho em sua sapiência animal, não estava nem um pouco preocupado com os que falavam mal sobre a vida no palácio por que a proba e bela rainha sabia como os sapos andar com facilidade sobre as marolinhas e dar grande saltos junto com o povo que a adorava. Com raiva da rainha, o ressentido príncipe sem trono e sua corja de invejosos, que incluía alguns grandes comerciantes, os desencefalados oradores dos mercados e parte da aristocracia ignara, espalhavam mentiras pelo reino sobre o sapo barbudo e a rainha D. Porém, mesmo com tanto ódio e tanta mentira até os minerais da lagoa, onde morava o sapo barbudo, sabiam que o povo com sua inteligência nunca ia deixar que as mentiras vindas dos afetos tristes afetassem sua liberdade. E assim a rainha D continuou reinando por muito sois enquanto o povo continuou livre em suas escolhas, sem influência das chorumelas e irracionalidade do príncipe e dos sem trono, que cada vez era ouvido menos, até que o dia em que o coaxar dos sapos e a inteligência do povo falavam muito mais alto do que qualquer palavra emitida pelos parentes daquele garoto de nariz grande. Mas esta é outra história. Quem gostou coaxe gostoso e quem quiser que conte outra… Mas sem manipulação

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Minicontos

Março 18, 2012

Passei toda a vida a sentir os cheiros pelas narinas que meu espelho não enxerga. Hoje, sacudo a disformidade que pendura o meu nariz e beijo de frente o temor de me verem atingir com o olhar os rostos de quem passa.

Monólogo do sem rosto

 

Eles eram feitos de açúcar, de tão doces sucumbiam a uma estranhesa invulgar. Ela tinha boca de papel que se desfazia na saliva dele. E ambos, roíam-se como maçãs à luz da lua. Ele não tinha dedos, tinha pequenos ramos que lhe saiam das mãos e no explorar do corpo dela, percebeu finalmente, que ela era o mel que a sua boca processava. E este era o amor daqueles dois.

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Era muda, tinha a cara sardenta e um olhar encharcado de sentimento.Todos os dias sentava-se com o seu cão junto ao mar que contemplava e fantasiava outra vida. Um dia, o mar bateu forte e as sardas ficaram estampadas na areia e o cão uivava e a noite veio e o sol se foi.

Letargia

Três contos internáuticos de Eugênia

Minicontos

Março 11, 2012

 

Na sala de projeção, as unhas malfeitas, o cabelo suado e o cansaço das pernas ansiavam pelo aparecimento de mais um bendito Cisne Negro.

Negativos 

 

 

Lavando a louça, Ester não aguentava mais o bang-bang do faroeste que Waldercy assistia. Os tiros eram dissonantes com os pratos e copos sujos e com o classificado intacto sobre a mesa. Um copo quebra, ela enxuga a mão, pega o jornal e diz “Cadê o cowboy dos velhos tempos?”.

 

Bravura Indômita

Contos internáuticos de Sir Don Corleone

 

 

Minicontos

Fevereiro 26, 2012


Gostava de ler os minicontos com acento lusitano daquela moça, cujo nome era um pouco vaidoso, e a alma era dada a profundezas.

 O Acento Lusitano


– Sabia que eu tenho um irmãozinho?
– Ah, é? E onde ele está?
– Na barriga da minha mãe.

Ao Que Vai Chegar

– Você não acha que eu me pareço com a Grace Kelly?
Não achava. Mas como se livrar daquele enrosco? Pensou depressa e respondeu com toda a delicadeza:
– Parece, parece sim, quase irmãs. Mas é que eu prefiro a Judy Garland.

 

Parecenças

Contos internáuticos de Pami

Ofendido…

Fevereiro 14, 2012

… com minha perfídia, o garoto fechou a cara pra mim. Mas dali a dias, voltei a atacar. De novo, o acaso voltou a nos favorecer, ouvi que o pai roncava, e comecei a implorar ao garoto que fizesse as pazes comigo, vale dizer, me deixasse voltar às delícias de antes. Gastei, nisso, toda a lábia que o desejo costuma ditar.

Ele, no entanto, furioso, só sabia dizer:

— Volte a dormir, senão eu conto pro meu pai.

Nada é tão difícil que a teimosia não consiga atingir. Ele dizia “vou acordar meu pai“, e eu já estava em cima dele, agarrando-o à força e satisfazendo meu tesão. Não resistiu muito. Não parecia aborrecido com minha violência. Disse que tinha sido objeto da zombaria dos colegas da escola, por causa da minha avareza.

— Mas eu não sou avarento com você. Pode me comer de novo, se quiser.

Eu, feitas as pazes, fiz com o garoto o que o meu desejo queria, e caí no sono. Mas o garoto, com toda sua disposição juvenil, queria levar mais.

Me despertou de repente:

— Não quer mais?

Eu ainda tinha um restinho de tesão, fiz o melhor que pude, e, suando e resfolegando, consegui satisfazê-lo mais uma vez. Exausto, voltei a dormir, cansado de tanto gozar. Dormi só um pouquinho, ele me cutucou:

— Vamos transar de novo.

Acordando furioso, devolvi sua ameaça:

— Ou você dorme, ou eu conto tudo pro seu pai.

Petronio, do Satyricon

(Tradução de Paulo Leminski)

Minicontos

Fevereiro 5, 2012

Leituras

Se ele a conhece tão bem foi por já ter lido e relido sua alma. Em braile. E ela, passiva, anseia por outra leitura. Se ela o conhece tão bem, foi por ele ter-lhe escancarado a alma. E ela leu tudo. Ao contrário. E ele pensa que a enganou.

 

Botânica

 

Viu-se sozinho, quando lhe disse que ela cheirava a camélia. Até hoje, não sabe onde errou.

 

Remorso

 

Esmagou-lhe as palavras sem pensar. Ignoraram-na pela prepotência. E ela, arrependida, submetia-se.

 

Remorso II

Por conta da estética, perdeu a classe. Agora, revira-se em letras mal resolvidas.

Contos internáuticos de Lu Stocker

A refeição do imperador

Janeiro 21, 2012

Que prefere o Imperador à mesa? Em seu desconjuntado castelo entre as montanhas, o conde Beroquin Prenez se preocupava. Passando pelo vale com o bando dos seus paladinos, Carlos Magno dignar-se-á comer em sua casa. Assim mandou dizer.

O conde Beroquin é pobre, mas faz questão da velha honra. Preparar um banquete digno de Nero. Mas que prefere o imperador? Lá em cima, entre os despenhadeiros, estas coisas não se sabem.

Despacha alguns fiéis à cidade para se informar. Partem, voam a golope, à sua passagem tamanho é o turbilhão, que balançam as lanternas nas portas das hospedarias. Chegam, perguntam, logo estão de volta. Um deles diz ao conde: “O imperador tem paixão por enguias”.

“E você, o que soube?” E o segundo: ” Enguias”, diz. O terceiro, o quarto, o quinto confirmam.

Mas lá em cima nunca alguém viu enguias. O conde, que já é velho chama o filho: “Baldovino, você iria a toda velocidade até Chioggia?”

O filho se inclina, nunca foram vistas cavalgaduras passar com tamanha rapidez por bosques e barrancos. Os pássaros que querem segui-lo bem cedo estão cansados. Dois dias e Baldovino está de volta. Traz doze enguias adultas, parecem as serpentes de Laocoonte.

Como no fundo do vale vê-se passar a grande nuvem de poeira levantada pelo cortejo de Carlos Magno, o conde chama o padre para que as enguias sejam abençoadas.  Contudo, há tempo ainda. O imperador se deterá em outros três castelos situados mais abaixo para comer e descançar, antes de chegar a Prenez.

Até que chega o dia. Carlos Magno acorda contrariado, na noite anterior, à mesa, comera um pouco demais. Agora, senta na cama, com a boca torcida, e dá um arroto: “Enguias”, exclama, “sempre enguias, que vão para o inferno… se hoje à noite me servirem mais enguias, juro… fá-los-ei decapitar.”

Aproxima-se da janela, escancara os vidros, olha para baixo o imenso vale. Contra o sol, sobre um penhasco, surge o castelo de Prenez. Das chaminés sai uma fumaça branca.

-Enguia- murmura ainda, com desgosto- maldito bicho. Se me oferecerem enguias, mandarei matar a família inteira… pai, filhos e empregados… E antes, um belo suplício.

Conto do jornalista, escritor de contos, romances e livros infantis, o italiano Dino Buzzati

Minicontos

Janeiro 15, 2012

Falsas identidades em noites intensas entre longos prazeres em terra de césares em ruínas,recolhendo sonhos na festa do teu olhar fazendo dos nossos corpos o duble de nossa almas onde o seu corpo é extensão do meu e tu bailando como uma bailarina em meu corpo no refúgio do prazer,entre o duelo entre estranhos no limite diante a dor e prazer recriando o coliseu em nossa cama e incendiando cidades,petrificando imagens ecoando vozes e evocando fantasmas no espetáculo da vida em busca de vestígios de um novo renascimento.

Hiro Yoshikawa- Quantas madrugas tem a noite

Ninguém ama sem querer, o amor é uma espécie de astro rei mas sem luz própria, somos nós quem o ilumina e foi aí que Zupan percebeu o seu erro. Ele teve toda uma vida à procura do que nunca existira, um ser que o encobrisse de si mesmo. “- Que tolo fui. Uma vida em busca de outras vidas sem sequer abraçar a mim mesmo.” E de repente, solta-se um grito e Zupan cai feito um pedaço de madeira e balbucia os últimos disparates que havia desejado falar. “- Merda para tanta estupidez!”

Conto internauticos de Eugênia

Mini-contos

Janeiro 8, 2012

Ele a convidara para ver a tão esperada estreia no cinema. Ela aceitou, pois a melancolia já lhe doía o peito. No findar do filme, ele percebeu as lágrimas escorrendo dos olhos de sua amada. Pensou ele: “a película lhe foi emocionante”! Mal sabia, o pobre, que as lágrimas que caíam, eram de dores de amor.

Engano

O oceano que nos separa não é mais profundo do que o fado que nos une.

O Que Eu Disse A Ela No Dia Do Seu Aniversário

(Para a Eugenia)

Contos Inter-náuticos de Travis Bickle

Minicontos

Dezembro 4, 2011

Desavisado

Amores e aventuras, muito distantes ou tão perto quanto o desconhecido ao seu lado, na frente da tela sonhava animado com a vida que, coitado, não imaginava que poderia ter.

Marginal

Voava pelo asfalto fugindo das tristezas que lhe freavam a vida quando um carro o fez aterrissar em outra tragédia.

Miniconto do náutico Grykaz