Archive for the ‘Portal Do Vermelho’ Category

NA REDE GLOBO A BAHIA BRANCA

Junho 2, 2018

Leci Brandão critica a produção mas afirma que a população não está mais se calando. Até pareceu que desde sua origem a Rede Globo não elegeu representar brasileiros negros como protagonistas apenas quando produz novelas e séries sobre escravizados ou presidiários.

Por Pedro Alexandre Sanches

Nas semanas que antecederam a estreia de Segundo Sol, a nova novela principal da casa, por algum despertar ainda inexplicado, o Movimento Negro conseguiu articular uma reação rumorosa à ausência quase completa de personagens e atores negros numa história sobre axé music ambientada na Bahia.

É o mesmo que já aconteceu em dezenas de novelas com sotaque baiano ou nordestino, mas desta vez não passou batido.

Chefões globais tiveram de se explicar, e se embananaram. O diretor-geral da casa, Carlos Henrique Schroeder, afirmou em entrevista que a Globo investe, sim, em elencos negros, e citou como exemplo a novela Lado a Lado (2012) – justamente uma história sobre o final da era de escravização oficial no País, como gostariam de demonstrar os antirracistas.

“Isso tem que vir naturalmente”, socorreu-o o diretor-geral da nova novela, Dennis Carvalho, o mesmo que em 2015 escalou para a novela Babilônia um elenco com forte presença negra. Babilônia foi amplamente rejeitada pelo público, e o fracasso foi atribuído a um romance com beijo na boca entre as personagens vividas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg.

Agora, a axé music embranquecida de Segundo Sol rendeu à Globo a melhor primeira semana de uma novela desde 2014. A história que a antecedeu, O Outro Lado do Paraíso, também contou com altos índices de audiência e de branquitude. Na semana final, uma vilã pálida e loira teve como punição definitiva o encarceramento numa cela em que todas as demais presas eram negras e carrancudas. 

Na quarta-feira 16, já com Segundo Sol no ar, a militante negra, cantora e compositora carioca e deputada estadual por São Paulo Leci Brandão promoveu, na Assembleia Legislativa, um debate sobre o voto negro em 2018, e o assunto do racismo global veio à tona.“Há muitos anos escrevi um negócio chamado Eu Quero uma Novela Negra no Ar, mas nunca consegui concluir essa música”, contou Leci.

“Não quero mais viver carregando bandeja na televisão, isso é um samba lá de trás, gente negra, gente negra, de se acomodar acho que já chega. A gente só vivia carregando bandeja, o homem abrindo porta de carro. E piorou, porque os escritores de novelas começaram a botar as nossas companheiras fazendo personagem de novela entregando copo d’água e levando bronca de patroa, ‘não fica olhando para a minha cara!, sai daqui!’ Eles querem cada vez mais rebaixar a gente.

Dá vontade de dar um murro na tevê. Fiz papel de escrava, lá na Xica da Silva (1996). Mas eu era a líder do quilombo, fazia uma confusão danada e morria no tiro. Mas a gente cansou. Desta vez os próprios atores da Globo fizeram uma reunião, parece que Lázaro Ramos participou, está uma confusão danada.”

Durante o encontro promovido por Leci, a socióloga negra Mariana Anto-niazzi apresenta os resultados da pesquisa Afrodescendentes & Política, realizada pelo Painel BAP. Ela cita que 54% dos brasileiros se autodeclaram pretos ou pardos e que 77% afirmam não se sentir representados pelas marcas e propagandas.

Num recorte de 1.067 eleitores afrodescendentes paulistanos, 35% declararam trabalhar com carteira assinada e 30% disseram não se identificar com nenhum presidenciável. “Essa pesquisa é tão importante que tinha que ser noticiada no horário nobre de uma tevê que tivesse coragem, qualquer uma do quinteto da mídia que manda no País e não tem nada a ver com a gente”, provoca Leci.

“A boa notícia é que estão acontecendo mudanças. A população não está mais se calando. Como uma novela feita na Bahia, onde 75% da população se declara negra ou parda, não tem nem pelo menos um núcleo negro?”, indaga Mariana. 

A controvérsia em torno de Segundo Sol coincidiu com o impacto do lançamento mundial de This Is America, videoclipe (foto)explosivo do rapper estadunidense Childish Gambino (codinome musical do também ator e roteirista Donald Glover), que emprega cenas explícitas de assassinatos para criticar a violência institucional dos Estados Unidos contra seus afrodescendentes.

Com uma dança desengonçada, ele parece ironizar o papel dos negros como entretenedores numa sociedade dominada por brancos – entre um rebolado e outro, Gambino interrompe a diversão para disparar tiros contra outros afrodescendentes.

O caso brasileiro demonstra uma população que tenta reagir timidamente e uma rede hegemônica anos-luz atrás de qualquer reflexão racial. Também presente no debate de Leci, o mestre em jornalismo (e afrodescendente) Juarez Tadeu de Paula Xavier compara as experiências dos dois países no enfrentamento ao racismo institucional e institucionalizado.

“Nos Estados Unidos eles sabem que O Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, teve papel importante na construção da imagem do homem negro como predador e estuprador e da mulher negra como lasciva e preguiçosa”, afirma.

“Aqui, a ideia das novelas é fazer a representação do lugar do negro na sociedade, num processo extremamente articulado de negação absoluta da população negra. É uma longa narrativa de persuasão que justifica a brutal repressão contra a população negra por um Estado que é genocida em relação a essa população. 

No Brasil ainda precisamos construir essa narrativa: qual é o papel que os meios de comunicação têm na legitimação da violência contra o negro?”, pergunta. A resposta, irmãs e irmãos, sopra com os ventos globais.

Anúncios

BELCHIOR E NIETZSCHE MUITO ALÉM DO BIGODE

Maio 19, 2018

O cantor e compositor morreu há um ano, no dia 30 de abril de 2017

Leitura das letras do compositor mostra aproximação surpreendente com as ideias do filósofo. “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava em “Alucinação” (1976).

Por Elstor Hanzen

A semelhança entre o compositor brasileiro Antônio Carlos Belchior e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche vai muito além do bigode. Sem ostentar e sequer se manifestar diretamente sobre esta influência, Belchior bebia nos conceitos nietzschianos, como a moral do rebanho, vontade de poder, eterno retorno e a crítica ao mundo idealizado pela própria filosofia, pela religião e pela ciência. A relação fica evidente quando se faz um passeio pelas letras do cearense.

Nietzsche só viveu 56 anos. Contudo, bastou para ele ser considerado um dos maiores marcos do pensamento contemporâneo. Embora não muito valorizado pelo establishment, o autor é uma referência para organização da história desde o século 19 e se tornou pop entre o público jovem. Desconstruiu a moral e os valores estabelecidos pela filosofia grega, chegando ao desmantelamento da cultura dos ídolos e da religião. Nietzsche, portanto, foi o primeiro a interromper a órbita de compreensão do mundo criado por Sócrates, Platão e Aristóteles.

Os gregos inauguraram a filosofia ocidental, separando a natureza humana e toda sua relação instintiva/sensível da parte racional e objetiva da vida, a fim de criar um mundo ideal – o metafísico –, resultado de um imaginário: o homem projeta nas coisas aquilo que ele gostaria de ser. Essa mesma lógica, posteriormente, foi popularizada pelo cristianismo, já que o povo em geral não tinha acesso nem compreensão da filosofia.

Por isso, para o alemão, o juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem. Ou seja, no entendimento dele, assim se criou o mundo ideal para negar o real.

Realista e vitalista tal como na linha das ideias afirmadas pelo filósofo alemão, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano. Como em A Palo Seco: “Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava”.

Essa leitura pode ser percebida explicitamente em vários fragmentos das letras do compositor e, de modo geral, permeia toda a obra do músico. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava no disco Alucinação, em 1976.

O cantor via a arte com finalidade útil para o homem se emancipar, um instrumento para libertar os sentidos e a certeza de viver coisas novas, não como algo meramente ornamental e ideal. Na mesma perspectiva, Nietzsche tinha a arte como estimulante da vida, afirmava que ela só era possível com a embriaguez de todo o ser, com a manifestação da vontade de potência dos sentidos fisiológicos. O filósofo comparava a verdadeira arte ao grego Dionísio, deus da festa, do sexo, da alegria, da liberdade, enfim, dos sentidos do corpo e dos afetos. Ao contrário, portanto, à lógica da razão e da verdade, representado pelo deus Apolo.

O embate de Belchior também se dava em torno das travas morais da culpa e das coisas idealizadas por certo pensamento filosófico. Para se firmar poeta de sua geração, o compositor atravessou territórios entre a alma e o corpo para forjar sua obra, buscando elementos na crueza da realidade e na sinceridade das coisas, até mesmo empregar certa violência na construção de suas letras, em que a dor ensina aproveitar melhor os momentos alegres. Ou nas palavras dele, “a felicidade é uma arma quente”.

Ademais, traziam à tona as frustrações ideológicas, filosóficas e políticas. Para este mundo cruel e caótico, Belchior procurava despertar uma lucidez e luminosidade com o conteúdo do seu discurso. Ele sabia que nada era divino e maravilhoso, e a vida real era bem pior que a letra de uma canção.

Viver é melhor que sonhar

Esta leitura mostra que a arte e a vida não podem ser separadas da realidade, em nome de um mundo idealizado, seja filosófico ou religioso. Conforme o pensamento nietzschiano, o homem forte e verdadeiro aceita e vive a vida como ela se apresenta. Já o sujeito que busca a certeza e o paraíso é um fraco e decadente, porque não sabe conviver com a pluralidade do mundo e com a incerteza do devir – as mudanças.

De forma simples e em bom português, o cearense também deixava claro sua preferência pelo mundo real. “Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia fazendo tudo de novo. E dizendo sim à paixão, morando na filosofia”, diz a letra da Divina Comédia Humana.

Por isso, quem vive só na razão e na verdade está separado dos sentimentos humanos – aquilo que Platão fazia, por exemplo: corpo x espírito, pensamento x sentimento – com o objetivo de criar o mundo da luz e da razão. Para Nietzsche e Belchior, pelo contrário, a verdadeira experiência vem da realidade e do pensamento vivo que só pode ser coletado na prática humana mais visceral, como aquela que se experimenta na aspereza das ruas.

Em Apenas Um Rapaz Latino Americano, o cearense afirma essa visão. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção: a vida realmente é diferente. A vida é muito pior”.

À proporção que se passeia pela obra do músico e se recolhem algumas amostras, tanto mais se evidencia o pensamento do alemão. Na faixa Como Nossos Pais, Belchior usa as expressões “viver é melhor que sonhar” e “mas sei também que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, construções que valorizam o sujeito em detrimento de uma projeção metafísica.

Mais adiante na mesma música, deixa transparecer certa frustração com a eterna repetição das coisas, geração após geração. “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos, como nossos pais”. Sugerindo, portanto, que é preciso alterar a ordem social e instaurar uma nova forma de vida para as coisas mudarem, assim como Nietzsche fez ao romper com a órbita do pensamento grego e cristão.

Moral de rebanho

A postura de sempre desobedecer, nunca reverenciar também é comum entre os dois autores. Essa atitude é assumida pelo homem forte e predador como uma ave de rapina, que encara a vida com altivez e anda solitário; não como um carneiro, que anda sempre em bando porque e fraco e submisso. Num artigo acadêmico publicado em 2017, sob título – Nietzsche e Belchior: muito além do bigode -, já foi discutida essa comparação.

Escreveram as autoras, Regina Rossetti e Paula Cristina: “A construção do conceito de Ave de Rapina, defendido pelo filósofo alemão, ganha voz na poesia de Belchior. Segundo Nietzsche, a ética cristã é uma moral de escravos, de indivíduos fracos e que havia – em função da construção religiosa – desvirtuado o espírito senhorial e dominante do homem”.

Para Nietzsche, os valores foram invertidos, pois tudo aquilo que é débil, humilde, sofrido ou mediano passou a ser encarado como “bom”. Por outro lado, valores como austeridade, vivacidade e ímpetos foram taxados como “mal” pelo homem fraco. Graças a essa inversão, a região, a ciência e o própria conceito de verdade ganharam tantos seguidores e submissos, porque não conseguem viver a vida como ela é e aceitar a falta de controle do futuro.

No mesmo sentido, Belchior instiga o homem a se desvincular do animal de rebanho, seguir a vida num ‘andar com os próprios pés’. “Não quero regra nem nada. Tudo tá como o diabo gosta, tá. Já tenho esse peso que me fere as costas, e não vou eu mesmo atar minha mão. O que transforma o velho no novo, Bendito fruto do povo será. E a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”, afirma em Não Leve Flores.

Espíritos livres

No livro Humano, demasiado humano, Nietzsche afirma o destino do espírito verdadeiramente livre: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem”.

Belchior, nos últimos anos de vida, aplicou radicalmente as palavras do alemão e levou uma vida de andarilho, errante. Enfrentou dias e noites incertas, encontrou muitas portas fechadas e em alguns lugares conseguiu repouso. A tudo está sujeito quem vive livremente, mas só assim é possível “o equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos”, escreveu Nietzsche.

Os pensamentos e as evidências em comuns entre as obras dos dois autores mostram que o cearense de Sobral se guiou e aplicou muitas ideias do filósofo alemão na música brasileira. O próprio Nietzsche declarava que a música era a linguagem que mais se aproximava da genuína comunicação humana. De modo que, além da ligação direta do gosto pela música, os principais conceitos do alemão aparecem nas letras de Belchior, semelhança bem mais profunda que os bigodes.

MÚSICA QUENTE: UM OLHAR SOBRE A PLURALIDADE SONORA DO BRASIL

Dezembro 9, 2017

A proposta desse espaço é falar de música, mas deslocar o olhar para além dos sucessos e dos nomes já estabelecidos, extrapolar o tradicional eixo de interesse da MPB ao rock e buscar compreender como os hits populares emergem nas periferias, sem se perder em ideias preconcebidas e análises superficiais.

“Seria impossível entender a música sem falar de shows, performances, erros e acertos, canções e discos ou sem falar das cenas culturais em que essa música está inserida. É improvável perceber a revolução de um hit sem compreender a origem dos estilos que o compõem, ou mesmo sem falar da forte influência estrangeira na pluralidade sonora do Brasil, quer seja nas raízes tradicionais ou na opressão colonizadora anglo-americana”, diz Patricktor4.

É a partir de muitas destas questões que ele escreve, em busca de aproximar o público de um outro jeito de consumir a música feita e divulgada na contemporaneidade.

Patricktor4 entende do assunto. Já se apresentou em praticamente todo o país, na Europa, na Ásia, na África e nas Américas do Norte e do Sul. O diferencial do DJ tem sido sempre promover as novas sonoridades brasileiras em seus sets, do tecnobrega ao bahia bass, passando por inúmeras novas possibilidades dessa música tão rica e diversificada, desconstruindo a pluralidade étnica que forma a musicalidade do Brasil e conectando estas batidas e melodias a seus equivalentes pelo mundo.

Como radialista, atualmente é coordenador de Programação da Frei Caneca FM, emissora pública do Recife. Já esteve na diretoria da Associação das Rádios Públicas do Brasil (ARPUB) e à frente da Aperipê FM, de Sergipe, e da programação da Cultura FM, do Pará. Nestas rádios, a marca do seu trabalho é a promoção da diversidade de conteúdo musical, dando protagonismo à cultura local e fortalecendo os cenários culturais. 

URUGUAI REDESCOBRE SEU PASSADO INDIGENA

Novembro 19, 2017

Dados oficiais dizem que eles não existem, mas os Charrua estão organizados e lutam pelo reconhecimento

Por Laura Ely

Depois da Argentina passar por uma situação de embate na luta pela terra dos mapuches, com grande mobilização nacional e internacional pelo desaparecimento e morte do ambientalista Santiago Maldonato, agora é a vez dos indígenas uruguaios cobrarem a sua conta. Sistematicamente atacada e dizimada ao longo de séculos, a etnia oriunda da banda Oriental do Uruguai, pampas argentino e sul rio-grandense soma duas mil pessoas, embora não seja reconhecida pelo país. De acordo com a história oficial, os índios tornaram-se extintos em 1831.

Para além das evidências culturais e tradições atribuídas aos gaúchos que derivariam dos indígenas, como o churrasco de carne na grelha e o chá de erva-mate, estudos genéticos realizados desafiam a crença popular de que o Uruguai foi exclusivamente povoado pelos “descendentes dos navios”, principalmente vindos da Espanha e da Itália, comprovando a existência de índios. Além do Uruguai, estão presentes no Rio Grande do Sul e na província argentina de Entre Rios.

Embora o país se considere o único da América Latina sem população indígena, grupos de ativistas reivindicam que os povos originais nunca se extinguiram. O principal deles é o Conselho da Nação Charrúa do Uruguai – Conacha, atualmente composto por 10 organizações e comunidades de diferentes partes do Uruguai.

Entre os seus principais objetivos está o reconhecimento da atual população indígena, a ratificação da Convenção 169 da OIT (que compreende especificamente os direitos dos povos indígenas e tribais) e aumentar a visibilidade da questão indígena, alcançando o aumento de auto identificação indígena no Uruguai.

Segundo o censo oficial de 2011, cerca de 160 mil uruguaios declararam ter ascendência indígena. Isso representa quase 5% da população do país, de 3,395 milhões de habitantes. Por sua vez, 255 mil uruguaios se identificaram como afrodescendentes, 15 mil como asiáticos, e quase três milhões declararam ter ascendência branca, em sua maioria procedente de imigrantes europeus vindos da Espanha ou Itália.

Filme mostra o silenciamento dos Charruas

No documentário O País Sem índios, os diretores Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez escolheram dois personagens para retratar a situação da população indígena do Uruguai a partir da história de Roberto, um trabalhador rural, e Mônica, uma professora de matemática. Descendentes charruas, eles vivem cada qual a sua maneira. Ao mesmo tempo, acadêmicos fornecem dados que permitem entender o cenário atual de uma perspectiva renovada e questionar o Uruguai que ainda se vê como “um país sem índios”.

Do seu lugar na terra, Roberto vive com base em seus valores com naturalidade e discrição. Respeitando a natureza e com um relacionamento especial com os cavalos, ele não sente a necessidade de uma luta política para reivindicar sua identidade. Mônica, por sua vez, tem um papel de liderança no movimento indígena: leva sua luta aos espaços jurídicos e acadêmicos dentro e fora das fronteiras, para obter o reconhecimento da existência do povo uruguaio e fazer justiça pelos crimes da história.

Assista ao trailer:

https://player.vimeo.com/video/212158881TEASER El país sin indios from El país sin indios on Vimeo.

QUILOMBO DOS PALMARES É RECONHECIDO PATRIMÔNIO CULTURAL DO MERCOSUL

Novembro 12, 2017

A região da Serra da Barriga, em Alagoas, acolhia o Quilombo dos Palmares, o mais conhecido da história brasileira

A região que acolhia o núcleo do quilombo, Serra da Barriga, em Alagoas, ganhou reconhecimento internacional. Neste sábado (11), será oficializada a certificação da área como patrimônio cultural do Mercosul. O título só foi conferido até agora a dois bens no país: a Ponte Internacional Barão de Mauá, ligação entre as cidades de Jaguarão, no Brasil, e Rio Branco, no Uruguai; e a região das Missões, que abrange cinco países (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia).

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares Divulgação Fundação Cultural Palmares

A Serra da Barriga foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985. Em 2007, foi aberto o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, próximo à cidade de União dos Palmares, a cerca de 80 quilômetros da capital do estado, Maceió. O projeto envolveu a construção de instalações em referência a Palmares, como a casa de farinha (Onjó de farinha), casa do campo santo (Onjó Cruzambê ) e terreiro de ervas (Oxile das ervas). O espaço ainda é o único parque temático voltado à cultura negra no Brasil e recebe anualmente cerca de 8 mil visitantes.

Visibilidade

Para Marcelo Britto, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o título de patrimônio cultural do Mercosul significa um reconhecimento internacional importante e também pode estimular a visibilidade da área por brasileiros que ainda a desconhecem.

“Um aspecto importante é a dinamização econômica, uma vez que o bem cultural ganha uma visibilidade para uma projeção de caráter nacional e internacional. Isso favorece iniciativas que tendem a promover o turismo cultural, a geração de empregos que podem ocorrer relacionadas a isso”, afirma.

Referência histórica

O Quilombo dos Palmares surgiu no século 16. Residiam nele escravos fugidos das capitanias da Bahia e de Pernambuco. O local chegou a reunir até 30 mil pessoas no seu auge, no século 17, e era organizado em pequenos povoados, chamados de mocambos. Os principais eram Cerca Real do Macaco, Subupira, Zumbi e Dandara. O maior deles chegou a ter 6 mil pessoas, quase a mesma população do Rio de Janeiro à época.

Esses mocambos constituíam uma espécie de república. As decisões políticas eram tomadas pela reunião da liderança de cada um deles em conjunto com o chefe supremo. Essa posição de comando foi ocupada por Acotirene, sucedida por Ganga Zumba e, depois, por Zumbi. No tocante às relações afetivas, Palmares era uma sociedade poliândrica, em que mulheres podem ter relação com diversos homens.

Segundo Zezito de Araújo, professor de história e supervisor de Diversidade da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas, Palmares ainda é lembrado muito pela dimensão do conflito, mas deveria ser conhecido por ter sido o primeiro grande movimento de resistência das Américas no período colonial e pela sua organização política.

“A Revolução Francesa é tida como o símbolo da liberdade, mas a luta de Zumbi aconteceu antes. Enquanto em Palmares tínhamos propriedade coletiva, produção para subsistência e para troca, na colônia tínhamos atividade agrícola para exportação e escravidão como base do trabalho. São sociedades opostas”, analisa.

Melhorias no espaço

Na opinião do presidente do Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas, Elcias Pereira, o título de patrimônio cultural será uma oportunidade importante de qualificar o espaço no momento em que o parque memorial completa 10 anos. “Recebendo esse título pode haver a melhoria dos equipamentos. Nestes últimos 10 anos, os investimentos não foram feitos como deviam. O acesso precisa ser arrumado, pois durante boa parte do ano há problema para chegar em razão das chuvas”, aponta Pereira.

Segundo Carolina Nascimento, diretora de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, responsável pelo parque nacional, ajustes e melhorias no espaço serão feitas a partir de um conjunto de iniciativas que já começaram a ser debatidas em uma oficina realizada neste ano em Maceió.

Entre as ações previstas estão a instituir um comitê gestor da Serra da Barriga, analisar a capacidade de recebimento de pessoas, reassentar algumas famílias ainda resistentes na área, implantar unidades de conservação ambiental, elaborar um plano de conservação e criar um centro internacional de referência da cultura negra.

“Neste momento em que casos de racismo estão se acirrando, o reconhecimento deste bem cultural é uma forma de combater a discriminação racial e valorizarmos a cultura afro-brasileira”, diz a diretora da fundação. 

Duas vezes Judith Butler no Brasil divulgação

Novembro 5, 2017

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social

Por Carla Rodrigues*

São títulos de momentos distintos da sua obra: o primeiro livro data de 2012 nos EUA e discute questões ligadas à violência de Estado; o segundo tem publicação original em 1997 e é parte dos desdobramentos teóricos exigidos pelas questões abertas desde o final dos anos 1980, quando da publicação de Problemas de Gênero (1989 nos EUA, 2003 no Brasil).

Engana-se, no entanto, quem pretender estabelecer uma separação teórica a partir da distância temporal existente entre o livro de 1997 e o de 2012. Em A vida psíquica do poder, Butler está animada pela leitura da filosofia de Michel Foucault, no qual o tema do poder é central na formação dos sujeitos, na subjetividade, no assujeitamento – termo estabelecido como tradução brasileira para assujettissement. Butler parte deste aparente paradoxo do termo sujeito, que ao mesmo tempo quer dizer se constituir como “eu” e estar submetido a uma estrutura de poder, para revisitar diferentes pensadores – como Hegel, Althusser, Nietzsche e Freud –, e dar continuidade a um tema inaugural da sua obra, o estatuto do sujeito na filosofia contemporânea.

A partir de 2001, para ser mais exata, a partir do 11 de setembro de 2001, Butler coloca em debate o poder do Estado sobre os sujeitos. Emerge então o tema de Caminhos divergentes e do seminário que o acompanha, Os fins da democracia, no qual Butler estará debatendo acompanhada de sua companheira, Wendy Brown, ela também uma pensadora crítica do modelo democrático norte-americano, seja pelo fracasso do multiculturalismo e de suas políticas de consenso e tolerância, seja por sua expansão neocolonial em uma política internacional pautada por violência, guerras e invasões.

Caminhos divergentes tem assim grande contribuição a dar no debate sobre o que pode um Estado. Inspirada nas suas críticas à violência do Estado de Israel, já criticadas como anti-semitas, Butler encara o desafio de recolher fontes judaicas para criticar a política israelense e afirmar que a crítica ao sionismo não equivale a antisemitismo. São mobilizados pensadores como Hannah Arendt, Primo Levi e Walter Benjamin. Dele, Butler recupera o importante Por uma crítica da violência, de 1921, no qual o alemão percebe como a violência de Estado se sustenta no tripé militarismo, polícia e pena de morte. É ali também que Benjamin pensa a violência constitutiva do ordenamento jurídico dos estados modernos.

É verdade que, como Butler observa, a crítica de Benjamin foi sendo desacreditada ao longo do século 20 por uma corrente de pensadores que pretendeu afirmar o direito como o mecanismo pelo qual se poderia enfrentar a ascensão do fascismo. Mas é verdade também que, para outros autores, entre os quais eu localizaria Giorgio Agamben, o direito não fornece instrumentos suficientes para combater o estado de exceção que participa, como paradigma de governo, das democracias modernas.

É aqui talvez que os caminhos divergentes de Butler mais se aproximem dos descaminhos tomados pela política brasileira contemporânea e tornem sua presença no Brasil tão mais importante. Não porque nos seja tão útil discutir a política externa norte-americana, embora esta sem dúvida nos afete cada vez mais na sua expansão neocolonial. Escárnio, no entanto, parece o ponto que mais nos toca no diagnóstico de Butler: “o escárnio tanto do direito constitucional quanto do internacional que caracteriza a política externa dos Estados Unidos em suas práticas de guerra, tortura e detenção ilegal”. Interessa ao momento brasileiro sobretudo pela primeira parte da frase – o escárnio ao direito constitucional –, que tem significado o desprezo das liberdades individuais e de todo aparato político-democrático que o Brasil parecia ter construído nas última décadas. É deste diagnóstico que ela mesma tem sido alvo, nos inúmeros protestos contra a sua vinda ao país, que ignoram a liberdade como direito fundamental.

Por fim, da primeira vez em que esteve no Brasil, em 2015, de Butler foram lançados Quadros de guerra (Civilização Brasileira) e Relatar a si mesmo (Autêntica), o primeiro editado nos EUA em 2009 e o segundo em 2005. Suas palestras em Salvador, na UFBA, e em São Paulo, no Sesc Mariana em grande medida surpreenderam plateias que ainda esperavam a autora de Problemas de gênero, mas encontraram uma filósofa propondo paradoxos que ainda desafiam tanto os teóricos quanto os militantes: como continuar mobilizando vulnerabilidades a fim de pedir proteção estatal ao mesmo Estado que é violento justamente com os sujeitos mais vulneráveis? Para boa parte da militância que esperava a mera adesão de uma filósofa queer, foi um susto ouvir Repensando vulnerabilidade e resistência.

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social. Na ambigüidade do título do seminário (Os fins da democracia) está uma resposta possível aos seus ruidosos e mal informados opositores: estamos diante dos fins da democracia, seja porque é preciso repensar seus objetivos e métodos políticos, seja porque é urgente encontrar formas de substituir a democracia representativa como modelo de governo que fracassou, tanto a ponto de destruir o valor que lhe seria mais caro, a liberdade.

*Carla Rodrigues é professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ. Fez especialização, mestrado e doutorado em Filosofia na PUC-Rio e pós-doutorado no IEL/Unicamp. É coordenadora do laboratório de pesquisa Escritas – filosofia, gênero e psicanálise

O Caranguejo de Gabriela Sobral resgata a ancestralidade feminina

Outubro 15, 2017

Gabriela Sobral é jornalista, autora do livro Caranguejo

Por Mariana Serafini

“Eu sempre tive essa coisa com a volta, com a memória. E sempre voltei muito, sou afeita às minhas memórias e o livro é o resultado dessa busca, eu consigo visualizar algo novo, algo para o futuro, a partir disso’’. É assim que Gabriela apresenta sua primeira obra, um livro de poesias que foi nascendo, nascendo aos pouquinhos, e vem à luz na próxima sexta-feira (20).

Gabriela é jornalista, mestra em Patrimônio Cultural e “agora escritora”. Com seu Caranguejo se joga no mundo das palavras com ganas de quem busca um mergulho na história para fazer do presente tempo e espaço aberto a acolher as mulheres. “Eu não acho que exista uma ‘escrita feminina’, somos apenas escritoras que passam por um processo de provação porque as questões femininas são sempre muito invisibilizadas. É como se nossos sentimentos tivessem que ser mantidos sempre no âmbito do privado”.

Com este livro, Gabriela dá visibilidade ao universo feminino. “Minhas referências são muito minhas memórias e o livro fala muito das mulheres que passaram pela minha vida. Minha família tem muitas mulheres e elas sempre falaram muito, cresci cercada de histórias orais e isso me fez perceber que talvez as mulheres ‘falem muito’ porque têm muito a dizer”.

Inspirada em escritoras, poetas e mulheres fortes, Gabriela pretende que seu Caranguejo possa também determinar um espaço, “dizer que há produção feminina e que as mulheres estão num momento de se organizar, de pensar sobre si próprias porque nós vemos o mundo de uma forma muito completa e por isso quando agimos, vamos do afeto à política com muita intensidade”.

Nascida, criada e formada no Pará, as palavras dela podem causar estranhamento em quem tem pouca, ou nenhuma ligação com a cultura local. Justamente por isso, ela fez questão de usar este vocabulário. “Minha mãe, que revisou meu livro, mandou eu tirar a palavra ‘rebujo’, que se usa muito no Marajó. Eu falei que ia tirar, mas não tirei. Eu acho que essas palavras querem dizer alguma coisa”.

Gabriela em entrevista ao Vermelho | Foto: Clécio Almeida 

Sem a pretensão de lançar um livro, as poesias de Gabriela nasceram quando ela começou a ler outras mulheres. Este foi o ponto de virada. “Eu passei a produzir muito mais, e a perceber a escrita de outra forma”. E não são poucas as mulheres que a inspiram: Ana Cristina César, Elena Ferrante, Maria Lúcia Medeiros, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Matilde Campillo, entre muitas outras. Além de ler, se inspirar e buscar referências em mulheres, a “recém escritora” também ministrou uma oficina, junto a outras amigas, para disseminar a literatura feminina. O clube literário Leia Mulheres começou em São Paulo, foi para Belém e serviu para despertar o interesse de jovens a este segmento menos “difundido” no mercado editorial.

Além destas escritoras, o livro de Gabriela também traz as referências que ela adquiriu ao longo da vida, e claro, as leituras mais recentes que de alguma forma contribuíram para a consolidação desta obra. “Tem livros e escritores que me fizeram amar o mundo, me apaixonar. O Jorge Amado é um deles porque foi um dos meus primeiros contatos com a literatura. O Milton Hatoum também é incrível. A Clarice Lispector é um nome que vem desde o tempo da escola”.

Resultado de memórias, história e espírito de coletividade, Caranguejo tem prefácio do amigo Felipe Cruz, professor de literatura e crítico literário, e posfácio da amiga Maíra Valério, editora do blog Vulva Revolução. “Nascer é presencial, esse livro me ensinou, e o que é presencial fere, sangra. Desse lugar Gabriela Sobral observa, ampla. Infla com suas palavras articuladas, em infinito desdobramento, as lembranças que inundam o presente e o tornam solo fértil para semearmos o amanhã”, diz a apresentação do livro.

O lançamento acontece na próxima sexta-feira (20), na livraria Patuscada, na capital paulista, a partir das 19 horas – Rua Luís Murat, 40, Pinheiros. 

Corpo elétrico, manifesto contra a repressão moral

Outubro 1, 2017

 

A trama tem por eixo central os caminhos da subjetividade de Elias, um jovem da Paraíba que rompeu com a família ao assumir-se gay e que veio a São Paulo realizar o sonho de tornar-se um estilista.

De fato, ele conseguiu uma colocação em uma confecção de roupas no bairro do Bom Retiro. No entanto, seu cotidiano no trabalho tem menos glamour do que o mundo da moda lhe poderia prometer, ao menos em suas fantasias. Ele trabalha como assistente pessoal da estilista Bia que administra, ao lado de seu irmão, um negócio familiar com rotinas monótonas e extenuantes para seus empregados.

O ambiente de trabalho é frio e marcado pela superexploração. Trabalhadoras adoecem frequentemente em meio ao ritmo intenso da costura. Apesar das distâncias entre empregadores e empregados, estes forjam, no dia-a-dia, redes de cumplicidade e solidariedade que despertam certa consciência de classe, algo aparentemente tão raro nestes dias.

Em meio à dura e melancólica rotina profissional, duas são as válvulas de escape de Elias na cidade. A primeira delas são as festas e confraternizações feitas com colegas de trabalho, que acabam constituindo uma espécie de família afetiva em contraponto à família de sangue com quem o jovem teve que romper. Já a segunda são os frequentes encontros sexuais casuais com outros homens, nos quais Elias vai se descobrindo e se revelando.

Assim, seu movimento na vida e no filme oscila e conecta, insistentemente, dois mundos aparentemente apartados entre si: o do trabalho que busca desumanizá-lo e o das camas nas quais ele resgata algo da humanidade que lhe é subtraída diariamente. Suas relações sexuais, em geral mais casuais e fluídas, transitam livremente entre o ato e a palavra, entre intimidade do desejo e a proximidade da conversa.

Uma das maiores belezas do filme é justamente retratar, com leveza, como Elias constrói sua existência a partir das brechas escavadas por seu próprio corpo neste mundo. Apesar de todas estruturas sociais adversas com as quais se depara, ele não se prende ao passado do abandono pela família e tampouco projeta-se a um futuro rendido aos seus sonhos profissionais. Sua vida vai se tecendo das relações e encontros do próprio presente.

Esse cenário presente é marcado por corpos diversos que atravessam, a todo momento, os longos planos do filme. Pode-se afirmar que, pela primeira vez, no cinema brasileiro recente, um tributo à diversidade dos corpos e desejos que constituíram a nação emerge de modo tão sensível e representativo.

Com efeito, o filme desafia os padrões estritos de beleza que governam, de forma particularmente acentuada, o mundo gay masculino paulistano. São corpos considerados abjetos, de negros, morenos, não sarados, trans, migrantes africanos ou nordestinos, caras mais velhos. São corpos com suas próprias histórias.

De certo modo, Corpo elétrico consegue retratar as mudanças recentes de uma sociedade a partir de uma perspectiva interseccional bastante peculiar. Os laços que atravessam e vinculam ordem social e ordem sexual no Brasil de hoje são o pano de fundo do filme.

A convivência entre relações de trabalho essencialmente arcaicas (a despeito da aparência de modernas) e uma diversidade sexual e de gênero pulsante é o retrato perfeito do país hoje. Mas essa acomodação forçada entre tradição e novidade, característica da modernidade periférica brasileira, acaba escondendo algumas mecanismos da reprodução das violências.

Nesse sentido, o filme poderia ter dado maior densidade psicológica e profundidade em alguns dos conflitos que acabam sempre reconciliados e acomodados. A reação conservadora aos avanços do reconhecimento LGBT, que hoje é tão visível, parece esquecida no filme.

Trata-se, portanto, de uma representação algo romantizada do momento em que vivemos, sem deixar, contudo, de ser bastante real. O filme revela tanto quanto oculta a realidade atual. Isso porque é permeado por uma representação bem antiga de um Brasil cordial, em que a intimidade prevalece sobre o distanciamento e a acomodação sobre o conflito.

De qualquer modo, Corpo elétrico é necessário nos tempos em que vivemos. O filme vai de encontro ao coro da “moral e dos bons costumes”, que já está se convertendo em censura às artes e em governo de nossos desejos. Por isso mesmo, pode-se dizer que o filme assume, na atual conjuntura, o caráter de um manifesto contra a repressão moral.

Confira o trailer de Corpo Elétrico:

As personagens de animações da minha infância eram queer

Agosto 27, 2017

Elas mexeram com a minha cabeça.

Por Kari Paul

Traduzido por Marina Schnoor

Quando eu tinha oito anos e morava num subúrbio de Michigan, nos EUA, assisti Lindsay Lohan em Operação Cupido pular pelada num lago. Naquele momento, eu tive o que agora reconheço como um despertar sexual primordial. Quando a personagem dela, Annie, tem que nadar pelada depois de perder uma aposta, isso me escandalizou, despertando sentimentos queer que eu não conseguia entender na época. Não lembro o momento exato em que soube que não era hétero, mas lembro cada personagem da minha infância que me fez questionar isso.

Crescendo no final dos anos 90 e começo dos 2000, eu sabia que todas as personagens por quem eu tinha um crush na verdade eram gays — na ficção e na vida real. Na verdade, não lembro de nenhuma representação de mulher abertamente queer quando eu era criança, e só fui conhecer uma lésbica pessoalmente quando tinha 18 anos. Isso provavelmente contribuiu para muitas fanfics secretas que escrevi, além de vários anos desnecessários no armário.

A idade média na qual crianças percebem que são algo diferente de heterossexuais é de 12 anos, segundo o Pew Research Center, e a idade média para se assumir agora é de 16. Uma melhora considerável dos anos 80, quando a idade média para sair do armário era de 21 anos. Hoje, crianças têm mais chance de ver pessoas queer na televisão, com relacionamentos gays presentes em sitcoms mainstream como Modern Family e desenhos animados como Loud House da Nickelodeon.

Segundo um relatório de 2016-2017 do GLAAD, 4,8% dos personagens regulares de séries em exibição no horário nobre nos últimos anos se identificam como gay, lésbica, bissexual, trans e queer — a maior porcentagem da história. A aprovação da comunidade LGBTQ também está em ascensão: a porcentagem de pessoas que apoiam igualdade de casamento era de 30% em 2000, quando desenvolvi meu crush secreto pela Lindsay Lohan. Em 2017, é de 62.

Então sim, as coisas melhoram. Mas ainda assim, entre o Babadook se tornar um ícone queer na Parada Gay dos EUA este ano, e o primeiro “personagem gay” da Disney emergindo na forma do ajudante sexualmente confuso do Gaston em A Bela e a Fera, fica claro que ainda estamos desenvolvendo a representação queer na mídia. Aqui vão algumas personagens que eu tinha certeza que eram queer (na minha cabeça, pelo menos) assim que as assisti quando era menina.

Meu primeiro e mais longo crush da infância nasceu na primeira vez em que assisti Pocahontas da Disney. Meus sentimentos românticos pela Pocahontas não começaram quando a princesa nativa norte-americana beija John Smith, mas quando ela mergulha na cachoeira com sua amiga maravilhosa Nakoma. Na minha versão de fantasia do filme, elas despacham o John Smith de volta para a Europa e vivem felizes para sempre com sua conselheira lésbica sábia, a Vovó Willow.

Kim Possible e Shego, de Kim Possible 

É impossível que Kim Possible e sua nêmesis Shego não estivessem secretamente se pegando. Em toda a série, a tensão sexual entre a combatente do crime adolescente e sua principal inimiga é palpável. Além disso, Shego ganhou seus poderes depois de ser atingida por um COMETA ARCO-ÍRIS. Preciso dizer mais alguma coisa?

Debbie Thornberry, de A Família Thornberry

Com aquela camisa de flanela, atitude apática e calça cargo, Debbie, da Família Thornberry, é a hipster queer original. Essa sapatão provavelmente seria vista no bar lésbico da vizinhança tomando cerveja artesanal e revirando os olhos pra “cena queer”, mesmo participando dela.

Macie Lightfoot, de As Told By Ginger 

O cabelo verde e óculos quadradão da Macie não mentem. Adulta, a Macie se matricularia em design gráfico na Pratt e vocês sempre dariam match no Tinder, mas nunca sairiam pra valer.

LaCienega Boulevardez, de A Família Radical

Sempre tive essa sensação de que a LaCienega não era exatamente hétero. Quando dei um Google pra saber se era a única recebendo vibes gays, topei com uma quantidade alarmante de fanfics e artes retratando o relacionamento de LaCienega e Penny Proud (que não vou linkar aqui porque elas têm 14 anos naquela séria – pelamor, né, gente). Mas vou dizer que meu coraçãozinho de 9 anos batia mais rápido sempre que ela aparecia na tela.

Spinelli, de A Hora do Recreio 

A Spinelli adulta pegaria meu telefone num evento queer mas nunca ligaria.

Reggie Rocket, de Rocket Power

E por últimos, temos Reggie Rocket: uma skatista fodona que parece bizarramente com uma ex minha — provando que não mudei tanto assim desde que era criança.

Venezuela para além dos conflitos políticos, um país que pulsa cultura

Agosto 13, 2017

Nos últimos dias a Venezuela toma conta dos noticiários em todo o Brasil. Porém, o foco é apenas um: crise política. É impossível que um país desta dimensão não tenha nada a oferecer além de um conflito entre governo e oposição. Foi assim que a redação do Portal Vermelho decidiu ir a fundo para saber um pouco mais sobre a cultura do país vizinho.

Por Alessandra Monterastelli e Mariana Serafini

Sem saber nada além da existência do músico Ali Primera e do filme Pelo Malo, começamos a pesquisa, com um pouco de pânico, é verdade. Mas “pasito a pasito” fomos descobrindo uma Venezuela surpreendente, que pulsa cultura em todas as esferas. A busca acabou sendo muito mais rápida e rica do que imaginávamos.

Para apresentar a literatura venezuelana aos amantes dos livros brasileiros selecionamos dez obras fundamentais do país vizinho. Fizemos uma viagem no tempo, desde os contos e poesias clássicas da década de 20 até uma cena considerada “Beatnik” no final do século 20.

Nas telas, o país impressiona: Pelo Malo está entre diversos outros filmes vencedores de prêmios no mundo todo. Passando pela sua criação no final do século 19, por um dos ápices nos anos 70, até um período de baixa nos anos 80 e 90, o cinema venezuelano nunca se deixou vencer: produziu e batalhou pela sua visibilidade, gerando inúmeras grandes obras. Abordando desde temas sociais e políticos até filmes sensíveis e intimistas, passando pela comédia romântica e pelo terror, aproximou-se da população, sua grande mantenedora. Lutou e conquistou leis de incentivo e políticas públicas que viabilizam a sua produção, passado o período mais crítico, alçou o sucesso. Agora, esse cinema busca cada vez mais aprimorar sua identidade para buscar reconhecimento não só pelo seu povo, mas além do território nacional.

Com relação à música, como nos demais países da América Latina, o que domina as paradas de sucesso e as pistas nas baladas é o reggaeton porto-riquenho. Então destacamos a união deste ritmo com a Orquestra Sinfônica Simón Bolívarem 2011, quando o Calle 13 convidou os 220 jovens dirigidos por Gustato Dudamel para uma apresentação no Grammy Latino.

Nas artes plásticas destacamos o “pintor da luz”. Armando Reverón é o grande artista homenageado no país, no dia de seu aniversário, 10 de maio, é comemorado o “Dia Nacional do Artista Plástico”. Sua obra flerta com a loucura e a genialidade e inspira os jovens artistas contemporâneos.

Esta pesquisa nos mostrou uma Venezuela diversa, contemporânea e urbana. Um país movido a política, que na cultura se volta para os conflitos humanos, as questões do cidadão comum. Enfim, uma arte para o povo.