Archive for the ‘Portal Do Vermelho’ Category

Debate sobre O Capital celebra atualidade e força da obra de Marx

Junho 9, 2017

Entre os anos 1956 e 1964, um grupo de jovens professores universitários se reuniu para estudar a obra de Karl Marx, estes encontros ficaram conhecidos à época como Seminários Marx. Agora, mais de 50 anos depois, três destes já não tão jovens professores, se reuniram novamente, durante a 3º edição do Salão do Livro Político, em São Paulo, para celebrar a obra do filósofo alemão e debater a atualidade do Capital.

Por Mariana Serafini

A noite desta terça-feira (6), foi de celebração à obra de Marx durante o Salão do Livro Poítico, realizado na PUC-SP, na capital paulista. O painel “Nós que amávamos tanto O Capital” reuniu os professores José Arthur Giannotti, João Quartim de Moraes e Roberto Schwarz, com a mediação de Lidiane Rodrigues Soares, para debater a atualidade da máxima obra do filósofo alemão, O Capital.

O filósofo e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), João Quartim, destacou a permanência do marxismo como movimento de ideias que se mantém atual graças ao caráter duplo da obra: por um lado se propõe a emancipar a humanidade, e por outro pretende ser fundamento na lógica objetiva da evolução social.

“A força do marxismo não é apenas este movimento de emancipação adotado desde a origem por uma fração importante do movimento operário internacional, mas também o fato de remeter a um projeto político de emancipação universal da humanidade”, afirmou.

Arthur Giannotti, por sua vez, fez questão de relembrar o período em que o grupo se reuniu pela primeira vez e esclareceu os motivos que levaram estes jovens intelectuais a buscar respostas para o Brasil no marxismo. “Quando nós começamos a estudar Marx era basicamente para estudar um autor que nos desse ferramentas para entender a atualidade. Era um grupo basicamente universitário tentando entender a modernidade brasileira [no final da década de 50]”.

Passados mais de 50 anos da dispersão do grupo, Giannotti ressaltou que a leitura de O Capital é crítica. O intelectual acredita que sempre que houve supressão forçada da propriedade privada, característica que fundamentaria o capitalismo, criaram-se problemas sérios.

Já o crítico literário e professor de teoria literária Roberto Schwartz, falou sobre a configuração e a importância dos Seminários Marx para a consolidação do marxismo na academia brasileira, bem como as rupturas que ele implicou. Segundo ele, à época, os professores da USP reunidos no seminário entenderam que a realidade brasileira não cabia no marxismo, mas obrigava a teoria a se reformular, rompendo sua crosta dogmática.

O nome do painel é inspirado na obra homônima lançada recentemente pela editora Boitempo. Trata-se de uma coletânea de artigos dos três participantes da mesa, além do cientista político Emir Sader, cujo objetivo é retomar os estudos de meio século e refletir sobre a atualidade do tema.

O Salão do Livro Político começou na segunda-feira (5) e segue até a quinta-feira (8) com palestras, debates e exposições sobre diversos temas, entre eles o marxismo, a Revolução Russa, feminismo e a questão dos refugiados e dos povos indígenas. A programação completa pode ser conferida no site oficial do evento.

Mafalda aprende a falar em guarani

Maio 31, 2017

Depois de mais de cinquenta anos de seu lançamento, a astuta garotinha argentina Mafalda vai “aprender a falar” em guarani. O idioma é oficial no Paraguai, junto ao espanhol, e pela primeira vez as tirinhas de Quino serão traduzidas para uma língua indígena.

O projeto desenvolvido por linguistas paraguaios vai traduzir, aos poucos, a obra que traz as aventuras de Mafalda, Manolito, Felipe, Susanita e os demais personagens argentinos. O autor, Joaquín Salvador Lavado, o Quino, se emocionou ao tomar conhecimento da expansão de sua história.

Em junho deste ano será apresentado o primeiro, dos dez livros a serem traduzidos, durante a Feira Internacional do Livro de Assunção, capital paraguaia.

Para a tradutora Maria Gloria Pereira, a adaptação da obra de Quino servirá para fortalecer o idioma indígena e pode ser o começo de uma série de traduções de quadrinhos para popularizar e impulsionar o interesse infantil pela cultura guarani.

“Falta mais pessoas se animarem a investir em histórias em guarani, seja traduzindo já existentes ou criando personagens próprios, creio que isso seria um grande êxito”, afirmou a tradutora.


“Vejam este é um palito para amassar ideologias”, diz o quadrinho
Segundo Maria Glória, um dos grandes desafios deste projeto é manter um “guarani funcional”. Explica também que em alguns momentos será necessário “pegar emprestadas” palavras em espanhol para manter a riqueza e a sutiliza do idioma indígena. “O pior que poderíamos fazer é colocar Mafalda falando um guarani que não se entende”.

O projeto foi possível graças a um convênio do mercado editorial paraguaio com o Ministério de Relações Exteriores da Argentina através do Programa Sul, que busca a tradução de autores argentinos em outros idiomas. Todo o humor de Quino será mantido e Maria Gloria garante: Mafalda vai dizer muitos “nahániri” (“não”, em guarani), quando o assunto for tomar sopa!

Roger Waters questiona presidência de Michel Temer

Maio 22, 2017

O ex-vocalista da banda Pink Floyd, Roger Waters, postou uma foto em sua página oficial no Facebook com a foto de Michel Temer (PMDB), acompanhada da frase: “Brasil, é essa vida que vocês realmente querem?”.
A postagem já passa de oito mil compartilhamentos.

Waters é conhecido como ativista em todo mundo, encampando importantes campanhas políticas. Em 1990, meses depois da queda do muro de Berlim, ele realizou um show na capital alemã, tocando o álbum The Wall, ressonando a mensagem do Pink Floyd de onze anos antes. Em fevereiro deste ano, ele anunciou que pretendia fazer o mesmo para protestar contra o muro na fronteira entre Estados Unidos e México, propostos pelo novo presidente estadunidense, Donald Trump.

Durante seu show na Cidade do México, em janeiro, poucos dias depois da posse de Trump, o músico usou o palco e a música Pigs como protesto.

Em 2015, Waters escreveu uma carta pública a Caetano Veloso e Gilberto Gil pedindo que os dois reconsiderassem sua decisão de fazer show em Israel. O britânico lembrou as referências de Gil ao bispo Desmond Tutu em uma de suas letras e da resistência de Tutu contra o apartheid na África do Sul. O boicote de artistas internacionais ao país foi um mecanismo forte de pressão à época.

“Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha e nós (…) vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar adiante, a favor de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa”, escreveu Waters. Os músicos brasileiros fizeram a visita ainda assim.

Is this the life we really want? – traduzindo É essa a vida que realmente queremos? – é o novo álbum do músico britânico.

Chega ao Brasil terceira parte da obra O Capital, de Karl Marx

Maio 19, 2017

A editora Boitempo acaba de completar, com o lançamento do livro III d´O Capital, de Karl Marx, a publicação da obra magna do fundador do socialismo moderno.

Por José Carlos Ruy

São os três volumes que saíram sob supervisão do próprio Marx (Livro 1, em 1867, cujo subtítulo é O processo de produção do capital) e de seu companheiro e colaborador Friedrich Engels (Livro II, em 1885, com o subtítulo Processo de circulação do capital, e Livro III, Processo global da produção capitalista, 1894).

Alguns temas do livro III são de grande importância para se compreender o funcionamento do sistema capitalista. Trata de temas como lucro e taxa de lucro, capital comercial, juros e crédito, renda da terra. Infelizmente o capitulo final ficou incompleto – ele trata das classes sociais e resume-se à apresentação do começo da sistematização que Marx faria sobre a questão. Mas não teve tempo para desenvolver as notas que ficaram em seus cadernos de anotações, e o texto ficou reduzido apenas a uns poucos parágrafos sobre este problema crucial. Depois dele há a frase final escrita por Engels: “Aqui se interrompe o manuscrito”.

Esta tradução foi feita a partir do original alemão e é a primeira feita no Brasil cotejada com os documentos da MEGA-2 (Marx-Engels-Gesamtausgabe), que reúne os manuscritos, notas e resumos feitos por Marx, e também as notas que Engels elaborou para sua edição de O Capital, da qual se encarregou após a morte de Marx, em1883.

A edição da Boitempo é enriquecida ainda por uma apresentação de Marcelo Dias Carcanholo (“Sobre o caráter necessário do livro III d´ O Capital”) e por um texto de Rosa Luxemburgo (“O segundo e o terceiro volumes d´O Capital”).

Este ano se comemora os 150 anos do início da publicação d´O Capital, em 1867. O livro demorou a ser traduzido no Brasil, embora muitos trechos e resumos tenham sido publicados desde a década de 1930.

A primeira tradução integral, para o português, surgiu na década de 1960. A tarefa coube a Reginaldo Sant´Anna (que também trabalhou a partir do original alemão), sendo publicado pela Editora Civilização Brasileira. Em 1983, surgiu uma nova tradução, publicada na coleção Os Economistas, da Abril Cultural.

A importância da leitura e estudo do livro III d´O Capital é fundamental para a compreensão da análise do capitalismo feita por Marx. E para a compreensão da lógica capitalista que predomina, e o combate a ela. É no livro III que Marx conclui análises e raciocínios iniciados nos livros I e II. nos quais, seguindo com rigor seu método de exposição, de não adiantar conclusões mas apresentá-las depois de análises exaustivas, mas partindo de premissas que conclui mais à frente, como mostrou por exemplo Roman Rosdolski em seu monumental estudo, Gênese e estrutura de ‘O Capital’ de Karl Marx (Rio de Janeiro, Contraponto, 2001).

A publicação enriquece o catálogo da Boitempo, cuja Coleção Marx e Engels chega a 23 títulos já publicados.

Desnecessário dizer que O Capital foi um dos livros que alcançou maior influência no mundo. Inspirou, ao lado de outras obras de Marx e Engels, a revolução proletária no século 20 e o início da construção do socialismo. E hoje, quando o predomínio do pensamento neoliberal parece acachapante, O Capital volta a ser visto como uma obra fundamental paraque se possa entender as contradições do capitalismo, que se acentuam, e a perspectiva de construção de uma alternativa política e social que supere as injustiças e as mazelas que estão na base deste sistema.

A história para crianças que Jorge Luis Borges nunca escreveu

Abril 21, 2017

Jorge Luis Borges inventou uma história infantil. Nunca a escreveu, mas a história sobreviveu ao esquecimento graças à memória de uma das crianças que há 36 anos o ouviu com atenção infantil no apartamento do escritor no centro de Buenos Aires. Essa criança é hoje o adulto Matías Alinovi. Estudou física e também é escritor. Por isso foi a pluma por trás do livro O Segredo de Borges, que a Pequeño Editor lançará no fim de abril, durante a Feira do Livro de Buenos Aires.

Por Federico Rivas Molina
Diante de uma bandeja de “balas importadas”, Alinovi e seus colegas da 4ª série da escola religiosa San Marón ouviram o segredo da longevidade de Borges, uma história que improvisou na hora para um auditório pouco comum a sua rotina de estrela das letras argentinas. O livro de Alinovi recupera aquele relato oral a partir do olhar de um menino de nove anos, mas é muito mais do que isso.

A primeira coisa que Borges revelou às crianças foi que antes da chegada delas tinha dois medos. “O primeiro era que fôssemos, porque não sabia sobre o que falar com as crianças da 4ª série. Mas o segundo medo, que era mais forte do que o primeiro, era que não fôssemos. Não se entendia bem o que dizia”, escreve Alinovi. A partir daí começou o feitiço.

“Vou contar a vocês como pude viver tantos anos”, disse Borges às crianças que o ouviam sentadas no chão em semicírculo, enquanto “olhava para cima, mas não via, e a cortina atrás da poltrona verde era muito branca e muito bonita por causa da luz do sol”. E o escritor revelou-lhes o segredo das tartarugas que viviam no poço de onde tirava a água que bebia na casa de sua infância, no bairro de Palermo. “Disse que ele, um dia, se pusera a pensar e percebera uma coisa: a água que havia tomado quando era criança não era água, mas água de tartaruga. E como as tartarugas viviam muito, ele tinha vivido muito”, escreve Alinovi no livro, ilustrado em tons negros e verdes por Diego Alterleib. O texto é simples e recupera os bastidores daquele encontro, com detalhes tão ricos quanto a própria história.

Porque a rota que leva as crianças ao apartamento de Borges merece um livro por si só, e assim o entendeu Alinovi, que conta a história que guardou na memória por quase quatro décadas como uma história infantil. “Lembro-me bem daquele dia, mas não sei se me lembro porque me lembro ou porque revisitei muitas vezes a cena”, diz Alinovi. “Estava com o meu amigo José Manuel na saída da escola, um dia de tarde, e me lembro bem o momento em que ele me disse ‘hoje eu vou à praça, mas vou com Borges’. A sensação que quis transmitir é que esse Borges, o Borges que ouço de José Manuel, era um dado completamente neutro. Digo isso com os termos de [Ernesto] Laclau, era um significante vazio. Ali operou uma coisa muito bonita, porque era um significante vazio no qual eu coloquei algo, e o que coloquei nesse significante foi o rosto de José Manuel, que me disse ‘que chatice, não vai ser tão bom ir à praça”, diz. A partir daí, as crianças brincam com a história desse Borges “sem significado” e com a pressão dos adultos, conscientes de que estavam diante de algo que merecia atenção.

O que carrega o significante vazio do Alinovi criança? “O primeiro passo foi minha mãe. Quando eu contei a ela que José Manuel ia com Borges à praça ela disse, e eu lembro o tom maternal que usou, ‘não Matías, olha, Borges é um escritor muito famoso. José Manuel deve ter ouvido o nome por aí e te disse isso’. Mas José Manuel não estava mentindo. O menino era neto de Fanny, a governanta de Borges por mais de 40 anos e naquela época morava na casa de Borges. Na qualidade de inquilino tinha algumas obrigações, como acompanhar Borges à praça se sua avó pedisse.

O passo seguinte foi na escola. “A segunda coisa que me surpreendeu como criança foi a atenção em relação a José Manuel, que era um garoto menosprezado pela professora, uma freira. No dia seguinte ela se ocupou particularmente dele dizendo-lhe ‘mas como pode ser isso, menino?’ José Manuel respondeu, ‘é que eu moro com Borges’, e isso foi uma mudança impressionante na forma como a professora o tratava. Lembro que ela disse, ‘bom, você poderia perguntar a ele se as crianças da 4ª série poderiam ir à sua casa?’. No dia seguinte, José Manuel trouxe uma mensagem: “disse que sim’”.

Então foi preciso organizar a visita, especialmente porque tinha de estar sob o controle da escola. A professora pediu que as crianças preparassem as perguntas que quisessem, mas logo teve de “discipliná-las”. “Maximiliano queria perguntar quantas vezes tinha ganhado o prêmio Nobel. E Liliana, outra colega, queria perguntar quantas vezes havia se casado. As perguntas eram geniais. Crianças que não sabem nada apontaram e acertaram dois tiros no eixo de flutuação de Borges: o Nobel e as mulheres”, diz Alinovi.

Borges morreu em 1986, cinco anos depois daquele encontro com os estudantes da escola do bairro. Alinovi não voltou a vê-lo, mas guardou o registro da história que ouviu no apartamento da rua Maipú graças a um pequeno gravador que sua mãe lhe deu para a ocasião. O áudio original foi perdido sob alguma gravação descuidada, mas permitiu que Alinovi rememorasse várias vezes a conversa com Borges. Durante anos, a história deu voltas na cabeça do autor, até que ele encontrou a forma mais adequada de contá-la. “A única justificativa dessa história é recuperar a extraordinária capacidade de Borges para improvisar uma história diante de crianças da 4ª série. Porque ele improvisou. Tenho a sensação de que a tarde caiu em cima dele, Fanny deve ter dito ‘lembre-se que hoje vêm as crianças’, o sentaram e ele inventou uma história”, conta. A única história infantil do autor de Ficções não está no papel, mas sobreviveu na memória, onde venceu o esquecimento. Uma batalha digna de Borges.

Pitanga e o país que poderia ter sido

Abril 13, 2017

Documentário sobre o ator notável provoca ao dar ao personagem a condução da narrativa. E também por sugerir, em tempos sombrios, outro Brasil: dionisíaco, erótico, miscigenado e justo.

Antonio Pitanga é um ator intuitivo, vigoroso, desses aos quais se costuma conferir o epíteto de “força da natureza”. No caso dele, o clichê se justifica. Em mais de cem filmes, telenovelas e minisséries, ele encarnou, sempre com notável energia, escravos rebeldes, sambistas, bandidos, pescadores, feirantes, macumbeiros – e muito mais raramente profissionais liberais e cidadãos de classe média, o que não é de estranhar num país ainda tão dilacerado pela desigualdade racial.

Como retratar, num documentário, as várias dimensões desse singular artista baiano, que despontou no cinema novo e marcou presença em terrenos tão díspares como o teatro de vanguarda paulista, as escolas de samba cariocas, a militância política, as relações afro-brasileiras e as novelas de televisão?

Sujeito e objeto

O caminho escolhido pelos diretores Beto Brant e Camila Pitanga foi fazer um filme com Antonio Pitanga, mais do que sobre Antonio Pitanga. Em Pitanga, é o próprio ator que conduz a narrativa, revisitando os lugares onde viveu, reencontrando as pessoas com quem se relacionou profissional ou intimamente, rememorando passagens conhecidas ou obscuras de sua trajetória. Em vez de entrevistado, ele é entrevistador. Em vez de objeto, sujeito.

O resultado é um filme vívido, pulsante, que evita a frieza do registro documental, museológico, e também o tom de homenagem, quando não de hagiografia, que costuma permear os documentários alicerçados em depoimentos de “cabeças falantes” sobre o personagem retratado.

Entremeando as memórias evocadas por Pitanga e seus interlocutores, vemos cenas de seus filmes, peças de teatro, telenovelas, intervenções públicas, num tecido audiovisual tão envolvente que nem percebemos de imediato que essa exposição está organizada em blocos temáticos nem um pouco rígidos, antes novelos que se interpenetram do que propriamente blocos.

Amor e luta

Há, portanto, uma construção orgânica, que potencializa as várias facetas do protagonista em vez de aprisioná-las em compartimentos estanques. Da juventude em Salvador, com suas feiras, terreiros de candomblé e aulas de teatro, passamos sem perceber ao caudaloso capítulo das namoradas, companheiras e amantes, que vão de uma surpreendente Maria Bethânia até a militante comunitária e ex-governadora do Rio Benedita da Silva, passando pela atriz e modelo Vera Manhães, mãe de seus filhos Camila e Rocco.

Outro “novelo” dos mais densos é o da presença negra no cinema e na televisão, com Pitanga trocando ideias e relatos com seus colegas negros de várias gerações (Lea Garcia, Milton Gonçalves, Zezé Motta, Lázaro Ramos). Sem ressentimentos, mas também sem condescendência, essas conversas amenas acabam por traçar uma história de luta constante contra a discriminação.

Com a mesma simpatia irresistível, o mesmo afeto e o mesmo humor, Pitanga conversa com grandes nomes da arte e da cultura (Zé Celso, Caetano Veloso, Paulinho da Viola etc.) e com anônimos feirantes, pescadores, mães de santo. É a encarnação viva de um sonho feliz de país, um país solar e dionisíaco, erótico e miscigenado, livre e justo. Assistir a Pitanga é viajar durante uma hora e meia por esse território imaginário que poderia ter sido – e quem sabe um dia ainda venha a ser – o Brasil.

Melhores do ano

Está em cartaz até 19 de abril no CineSesc, em São Paulo, o tradicional Festival Sesc Melhores Filmes, que exibe dezenas de produções que se destacaram no ano anterior, com base numa ampla votação da crítica e do público.

Nesta sua 43ª edição (é o festival mais antigo de São Paulo), o grande premiado nacional foi Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, o mais votado tanto pelos críticos como pelos espectadores nas categorias filme, direção, roteiro e atriz (Sonia Braga). Na seara internacional, houve uma fragmentação maior. A crítica escolheu O filho de Saul, do húngaro László Nemes, e o público optou por A garota dinamarquesa, do britânico Tom Hooper. O melhor diretor, segundo o público, foi Alejandro Iñárritu, por O regresso; para a crítica, foi Denis Villeneuve, por A chegada.

Mais importante do que a premiação, porém, é a nova oportunidade de ver, numa das melhores salas de exibição paulistanas, filmes notáveis que muita gente deixou de ver por um motivo ou por outro, como O cavalo de Turim, de Béla Tarr, O botão de pérola, de Patricio Guzmán, e Ela volta na quinta, de André Novais, entre muitos outros, ou rever clássicos absolutos como Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, O poderoso chefão, de Francis Coppola, e Lawrence da Arábia, de David Lean. São duas semanas de uma festa ininterrupta do cinema.

Fonte: blog do IMS

Cem anos de solidão de Aracataca-Macondo

Março 23, 2017
Calle 2

Fachada de uma residência em Aracata

Fachada de uma residência em Aracata

Quando cheguei a Aracataca − depois de cinco horas de jornada rumo ao interior da Colômbia, saindo de Cartagena, balançando em um ônibus velho e sem ar-condicionado, parando por entre ambulantes em Barranquilha, tendo que pegar um taxi até a rodovia e balançando outra vez em um ônibus velho e sem ar-condicionado −, comecei a entender a solidão. Não a interna, que nos assola vez por outra nas noites insones e nos momentos sofridos. Mas a geográfica, de um povoado-ilha, rodeado por nada, a horas de distância de qualquer cidade grande. Aracataca vive no esquecimento.

Nesta aldeia ilhada, vi o asfalto vibrar com o calor constante de 40 graus, cachorros serelepes puxarem meu vestido, vi um moço triste de chapéu de palha sobre uma carroça vazia e senhoras passeando debaixo da sombrinha por entre ruas empoeiradas. Vi tendas de açougue com nacos de carne dependuradas como mochilas, incontáveis bares com bilhar, água potável sendo vendida em sacos plásticos, crianças uniformizadas com saia plissê e meia até o joelho e uma infinidade de motos atrapalharem o silêncio de um povoado onde não acontece nada.

Foi ali, naquele povoado onde o tempo dá voltas em círculos que nasceu, em 6 de março de 1927, o escritor que viria a ser o terceiro latino-americano a ganhar o prêmio Nobel de literatura. E era da mente mágica deste célebre escritor que o povoado perdido e solitário seria imortalizado como Macondo, a cidade dos Buendía em Cem Anos de Solidão.

Macondo é Aracataca e Aracataca é Macondo. Ali existe um rio com pedras polidas como ovos pré-históricos, borboletas amarelas e miúdas como as que giravam em torno de Remédios, um calor infernal que faz do gelo um dos melhores inventos da humanidade e existem as chuvas e inundações do rio Aracataca (que provavelmente inspiraram Gabo a colocar quatro anos de dilúvio ininterrupto em Macondo, onde, no dia seguinte, era possível contemplar peixes voando pelos ares devido à grande umidade).

Aracataca é tão Macondo que em 2006 houve um referendo para mudar o nome da cidade para ‘Aracataca-Macondo’. Porém, não houve votantes suficientes. Dos 22 mil eleitores do povoado, era necessário que 7.380 pessoas comparecessem às urnas, mas apenas 3.592 se deram ao trabalho. (Apesar da anulação do referendo, a mudança de nome era favorita: apenas 250 moradores queriam manter a tradição do batismo).

O povoado, antes de ser uma aldeia, era uma fazenda, e, lentamente, como Macondo, foi sendo construída às margens do rio por refugiados da guerra civil colombiana, em 1851.

Um livro do jornalista Rafael Giménez, que conta a história da cidade, destaca o caráter amigável entre seus fundadores. “Como refugiados, iniciaram seus trabalhos com harmonia, consolidando uma homogeneidade social e atitude de tolerância com os vizinhos. Aracataca se cimentou como um povoado de grande diversidade de origem, onde predominou a exploração primária da agricultura e da madeira”.

Em 1894, a aldeia tinha apenas uma rua, que ia do rio até o antigo cemitério, onde hoje está a praça Bolívar. Parecia erguida pelas próprias mãos de José Arcadio Buendía, “que era o homem mais empreendedor que se poderia ver na aldeia, determinara de tal modo a posição das casas que a partir de cada uma se podia chegar ao rio e se abastecer de água com o mesmo esforço; e traçara as ruas com tanta habilidade que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. Dentro de poucos anos, Macondo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa que qualquer das conhecidas até então pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém ainda havia morrido.”

Se hoje está imersa no ostracismo e na solidão – interrompidos apenas por turistas desavisados que vão à cidade por causa do escritor –, Aracataca já teve teus tempos de glória, quando atraía gente do mundo inteiro atrás de emprego e prosperidade.

Em 1906 chegou à cidade a linha férrea, em 1908 a região recebeu a visita do então presidente General Rafael Reyes e, em 1912, com a inauguração da empresa estadounidense United Fruit Company, Aracataca ganhou sua independência como município e começou a viver tempos de prosperidade. A multinacional bananeira trouxe consigo trabalhadores de diversas nacionalidades – franceses, árabes, espanhóis e venezuelanos.

No início da década de 20, o povoado tinha um clima cosmopolita – por suas ruas, escutavam-se diversos idiomas, enquanto os homens ‘da sociedade’ caminhavam pelas calçadas com chapéus de feltro e frequentavam o Carnaval ou as cumbiamabas (festas para dançar a cumbia, dança folclórica cubana que mistura ritmos indígenas e africanos), regados a rum Cataca.

Hoje, um observador detalhista consegue ver o então esplendor de Aracataca. Suas casas na região central têm uma sutil imponência e, até hoje, há ruas com nomes de estrangeiros, como a calle de los Turcos e a calle de los Italianos.

Foi nesta época que o pai de Gabo, Gabriel Eligio García, então telegrafista, se apaixonou por Luiza Santiaga Márquez. O pai de Luiza era contrário ao casamento dos dois, e, depois de muitas serenatas, cartas de amor e insistência, conseguiram se casar em Santa Marta em 1926, numa história que posteriormente inspiraria García Márquez a escrever O Amor nos Tempos do Cólera.

Após o nascimento de Gabo, seus pais mudaram-se para Barranquilha, e Gabito ficou com seus avós maternos em Aracataca. Daí viriam importantes influências à escrita de Gabo. A avó, Tranquilina Iguarán Cotes, era uma mulher “imaginativa e supersticiosa”, que teria inspirado a personagem Úrsula Iguarán.

O avô, Coronel Márquez, era um exímio contador de histórias e muito do que apresentou a Gabito está imortalizado em seus livros. Como a história do gelo, que está na primeira frase de Cem Anos de Solidão (quando criança, o avô de Gabo o levava à loja da United Fruit, a única com energia elétrica naquela época, para o neto colocar a mãos nos cristais resfriados, que pareciam que ‘ferviam’). E como a história do massacre das bananas.

No livro, José Arcadio Segundo é sindicalista e lidera a greve dos trabalhadores de Macondo. Numa noite, reunidos na praça da estação férrea, eles são alvo do exército, que atira na multidão.

O episódio da matança realmente aconteceu, em dezembro de 1928, quando Gabo tinha um ano de idade. Os trabalhadores da United Fruit, em greve, se encontram na estação de trem de Ciénaga, a 50 km de Aracataca. Trezentos soldados do exército fuzilam os manifestantes (em um tiroteio que durou 15 minutos), e o número de mortos é até hoje um mistério. O general responsável pela matança falou que foram 47. O então embaixador dos Estados Unidos estimou cerca de mil assassinados. E há quem diga que foram cinco mil mortos.

O avô de Gabo não se conformava com o silêncio em torno do massacre, apesar de o exército ter deixado, na estação, nove cadáveres. E, no livro, García Márquez ironiza, brilhantemente, o episódio.
Arcadio Segundo, depois do tiroteio, desmaia e acorda em um vagão de trem, com milhares de cadáveres. Ele salta, foge, e, ao voltar para sua casa, em Macondo, se surpreende com o fato de que ninguém sabia da matança. Os coronéis enterram o assunto dizendo que “Em Macondo não acontece nada, nunca aconteceu nada e nunca acontecerá. É um povoado feliz”.

Depois da matança real, como numa revolta dos céus, a United Fruit e toda a região bananeira entram em decadência com o crack da Bolsa de 1929, e Aracataca entra no ostracismo. O próprio Gabo saiu de lá para Barranquilha com 8 anos de idade e só voltaria em 1983, um ano depois de ganhar o Nobel.

A United Fruit permaneceu na cidade até 1966, mas já não atraía trabalhadores estrangeiros. Os carnavais e as cumbiamabas desapareceram na década de 40. A cidade ganhou então esse clima nostálgico, solitário e melancólico. Aracata começa a viver problemas similares aos atuais: desemprego, falta de oportunidade, falta de saneamento e altas taxas de analfabetismo.
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Rafael Darío tem a pele cor de madeira, olhos puxados e cabelo preto abaixo da orelha. Parece mais jovem que seus 57 anos. Ele é jornalista e escritor e me conta que, na década de 60, plantações de maconha invadiram La Guajira (Estado da Colômbia, na divisa com a Venezuela) e a Serra Nevada, perto da cidade. A bonança do narcotráfico teria durado até finais da década de 80, quando a cocaína começa a ganhar projeção nacional e, principalmente, a atenção dos narcotraficantes.

“Nas dedécadas de 70 e 80, às vezes acabava a luz da cidade, e todos sabíamos que era a hora de passar caminhões lotados de maconha rumo ao porto de Santa Marta.” Nesta mesma época, o silêncio dos céus da cidade era interrompido pelo roncar de aviões bimotores – também destinados ao transporte da erva.

Hoje, nem banana nem maconha. Segundo Darío, o principal cultivo da região é palma africana, cuja semente produz um óleo, conhecido no Brasil como azeite de dendê.
O problema da palma é que ela empobrece o solo.

“Em Aracataca não acontece nada, nunca aconteceu e não acontecerá. É um povoado feliz”. Escuto a frase da boca de Tim Aan´t Goor, que se autodenomina Tim Buendía, 31, um holandês de 1,98 metro de altura, que viajou o mundo, especialmente a América Latina, e terminou decidindo ficar em Aracataca. Abriu uma pousada com três quartos para os hóspedes – a única da cidade. (Uma reportagem em um jornal colombiano me contou que a pousada de Tim foi recentemente fechada, e que ele retomou suas andanças pelo mundo.)

A frase foi adotada pelos ‘cataqueros’ como um lema – não metafórico – da cidade. Cheguei a vê-la impressa num folheto da prefeitura. Aliás, frases de Cem Anos de Solidão e referências à Gabo são constantes na cidade.


Pelas ruas de Aracata

No portal de entrada de Aracataca, um mural de cimento com um desenho de Gabo e rodeado por borboletas amarelas tem uma frase: “Me sinto latino-americano de qualquer país. Mas sem renunciar nunca à saudade da minha terra, Aracataca, onde regressei um dia e descobri que entre a realidade e a nostalgia, estava a obra prima da minha obra”.

Há ainda a escultura de um livro, com borboletas amarelas esvoaçantes e a estátua de Remédios seminua. Há bilhares chamados Macondo, e há vários trechos de Cem Anos de Solidão na fachada de casas e de insistuições públicas.

Além da possibilidade mágica de voltar no tempo e e entender o ritmo de vida do século passado, não há muito o que fazer em Aracataca. A casa onde Gabo passou a infância é hoje um museu. Na casa do telegrafista, onde trabalhava o pai de Gabo, há fotos da família, uma máquina velha de escrever, um telégrafo e pouco mais.

Apesar da solidão e da sensação de que não há muito o que fazer, minha ida à Aracataca-Macondo foi marcante. Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de voltar um século no tempo e conhecer a inspiração de um gênio da literatura.

Fonte: Calle 2

Morre Chuck Berry, um dos pais do rock and roll

Março 20, 2017

O compositor, guitarrista e cantor norte-americano Chuck Berry, um dos pais do rock and roll, faleceu neste sábado aos 90 anos, em Saint Charles, no estado de Missouri, Estados Unidos.

“O Departamento Policial do condado de Saint Charles tristemente confirma a morte de Charles Edward Anderson Berry, mais conhecido como o lendário músico Chuck Berry”, assinala um comunicado da polícia local. Os agentes receberam um alerta de emergência às 12h40, hora local (às 14h40, horário de Brasília) na rua Buckner. Na casa, os trabalhadores dos serviços de emergência acharam um homem inconsciente e, apesar de ter tentado reanimá-lo, não puderam fazer nada por sua vida. O óbito foi certificado às 13h26, hora local (15h26, horário de Brasília).

Mais de 60 anos na estrada do rock

Desde o primeiro hit, “Maybellene”, em 1955, Berry compôs uma coleção de músicas que se tornaram partes essenciais dos primórdios do rock: “Roll Over, Beethoven”, “Rock & Roll Music” e especialmente “Johnny B. Goode” eram odes à nova forma de arte que surgia – músicas tão importantes que tinham que ser dominadas por qualquer banda ou guitarrista novatos que viessem depois de Berry. Na adolescência, Keith Richards e Mick Jagger se aproximaram graças à paixão em comum pela música de Berry, e nas últimas cinco décadas as canções dele foram reinterpretadas por uma impressionante quantidade de artistas: desde os Rolling Stones, Beach Boys, The Kinks, The Doors e Grateful Dead até James Taylor, Peter Tosh, Judas Priest, Dwight Yoakam, Phish e os Sex Pistols.

Misturando blues e country, Berry também inventou um próprio estilo de guitarra que foi imitado por bandas desde os Stones e os Beach Boys até os grupos de punk rock. As letras dele – a maioria sobre sexo, carros, músicas e problemas – introduziram um novo vocabulário à música popular dos anos 1950. Nas canções, Berry captava a nova prosperidade pós-guerra dos Estados Unidos – um mundo, como ele cantou em “Back in the U.S.A.”, no qual “hambúrgueres chiam em uma grelha aberta dia e noite”. “Eu fiz discos para as pessoas que os comprariam”, Berry disse uma vez. “Sem cor, sem etnia, sem política – eu não quero isso, nunca quis.”

Nos anos recentes, Berry recebeu o Lifetime Achievement Award (prêmio pelas conquistas de toda a carreira) no Grammy de 1986 e entrou para o Hall da Fama do Rock.

Nascido em St. Louis no dia 18 de outubro de 1926, Charles Edward Anderson Berry aprendeu a tocar blues na guitarra enquanto era adolescente e se apresentou pela primeira vez no show de talentos da escola. Música foi seu primeiro amor, mas não necessariamente a primeira escolha de carreira. Filho de um carpinteiro, Berry trabalhou na linha de produção da General Motors e estudou para ser cabeleireiro. Com o pianista Johnnie Johnson (presença constante da banda ele nos anos seguintes), Berry formou um grupo em 1952. Depois de conhecer a lenda do blues Muddy Waters, Berry foi apresentado ao fundador da Chess Records, Leonard Chess, em 1955. Ele levou com ele uma música baseada no som country “Ida Red”. Com um novo título e letra, a música foi transformada em “Maybellene”. Depois, quando voltou lá, Berry levou a gravação dele da música e assinou imediatamente com a gravadora. “[a Chess] não conseguia acreditar que um som de country podia ser escrito e cantado por um cara negro”, Berry escreveu mais tarde, em 1987, no livro de memórias Chuck Berry: The Autobiography.

Chuck interpreta “Maybellene”, em 1958

“Maybellene” chegou ao topo das paradas em 1955 e firmou a carreira e som de Berry. No fim dos anos 1950, ele tinha outros sete grandes sucessos: “Roll Over Beethoven”, “School Day”, “Rock & Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”, “Johnny B. Goode”, “Carol” e “Back in the U.S.A.” Cada música tinha as marcas registradas de Berry: aquela mistura de batida propulsora, charme pesaroso e guitarra vibrante.

Em 1966, Berry saiu da Chess, a gravadora de longa data dele, e foi para a Mercury, mas o resultado foi uma série de discos abaixo do padrão e regravações fracas dos hits dele (uma notável exceção é uma jam com a Steve Miller Band no disco de 1967 Live at the Fillmore Auditorium). Em 1969, ele retornou à Chess e voltou a criar canções mais impactantes, como “Tulane”. Em 1972, emplacou um sucesso novamente com “My Ding-a-Ling”. O último disco de inéditas dele, Rock It, foi lançado em 1979.

Até a morte, Berry (que deixa para trás a esposa Themetta “Toddy” Suggs, com quem ele se casou em 1948, e quatro filhos) continuou a se apresentar em boates e cassinos. Ele morava em St. Louis mas costumava passar algum tempo em Berry Park, uma propriedade nos arredores de Wentzville, no Missouri. Como ele disse à Rolling Stone EUA em 2010, ele até ainda cortava a grama de lá. Questionado pela RS EUA em 1969 sobre o papel do rock, Berry disse: “Como qualquer tipo de música, ela une todo mundo, porque se duas pessoas gostam da mesma música, elas podem ficar lado a lado balançando e vão acabar dançando, e é uma questão de comunicação… então eu digo que é um meio de comunicação, mais do que outros tipos de música, para os jovens”.

Chuck Berry e John Lennon interpretam “Johnny B Goode”:

Libertadoras da América: 6 mulheres que lutaram pela independência

Março 15, 2017

Elas não só estiveram nas frentes de batalha como participaram assumindo outros tantos papeis para a formação das novas pátrias na América Latina. Nos livros de História, no entanto, há pouca ou nenhuma menção às mulheres que participaram das lutas pela independência no século 19 na região.

Por Marcelle Souza

Para Natividad Gutiérrez Chong, pesquisadora da Unam (Universidad Nacional Autónoma de México), não há muitas fontes históricas que tenham registrado a participação de mulheres nessa época, de modo que “aquelas de quem sabemos algo é porque estiveram vinculadas sentimentalmente com homens ligados à causa”, diz.

Além disso, a pesquisadora e autora de livros sobre o tema diz que outros problemas causaram a invisibilidade histórica dessas personagens: “O analfabetismo de mulheres era altíssimo, inclusive entre mulheres de maior nível socioeconômico ou político, situação que é notória até o fim do século 19”.

No livro “América Latina no século 19: tramas, telas e textos”, a professora e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Maria Ligia Coelho Prado diz que a participação política das mulheres durante as lutas pela independência “precisa ser levada em consideração, pois sua presença e comportamento não têm sido suficientemente notados e valorizados”.

“Entre os nomes mais conhecidos atualmente, estão a baiana Maria Quitéria, que chegou a se vestir de homem para lutar no exército insurgente, e Josefa Ortiz de Domínguez, mexicana que ficou conhecida por dar o ‘grito da Independência’”, diz.

Há outras tantas desconhecidas, que exerceram distintos papéis e contribuíram nos movimentos de libertação. “Quando se fala em exército, nesse período, imaginamos sempre homens marchando a pé ou a cavalo, lutando. Esquecemo-nos de que as mulheres, muitas vezes com filhos, acompanhavam seus maridos-soldados; além disso, como não havia abastecimento regular das tropas, muitas trabalhavam – cozinhando, lavando ou costurando – em troca de algum dinheiro”, escreveu Prado.‎

Conheça seis heroínas da Independência:‎

1 – Maria Quitéria de Jesus

A jovem baiana de família simples vestiu-se de homem para lutar contra as forças do general Madeira. Em sua imagem mais conhecida, adaptou um saiote do modelo escocês, que tinha visto em algumas pinturas, sobre o uniforme de batalha.

“Não sabia ler ou escrever, mas ouviu histórias na pequena propriedade de seu pai, no interior da Bahia, sobre a opressão de Portugal, fazendo seu coração ‘arder de amor à pátria’. Fugiu para a casa da irmã casada, que a ajudou a vestir-se de homem para, assim, poder entrar para o exército patriótico. Participou de algumas batalhas, distinguiu-se em ação e finalmente foi recebida pelo imperador, em agosto de 1823, que a condecorou com a ordem do Cruzeiro e a promoveu a alferes”, conta Maria Ligia Prado.

‎2 – Manuela Eras y Gandarillas

Era de Cochabamba, que mais tarde se transformaria na Bolívia, e teria participado de várias ações armadas, entre elas de um ataque ao quartel dos veteranos realistas em 1815.


Estátua em homenagem a Manuela Gandarillas

Segundo a professora Maria Ligia Padro, conta-se que Manuela, ao ver aproximar-se um ataque à cidade, notando certa vacilação por parte do pequeno grupo de soldados, teria afirmado: “Se não há mais homens, aqui estamos nós, para enfrentar o inimigo e morrer pela pátria”.

Manuela era da aristocracia e liderou o grupo que ficou conhecido como “Las Heroínas de la Coronilla”.‎

3 – Juana Azurduy de Padilha

Nasceu em Sucre, Bolívia, em 1780 e junto com o marido, Manuel Ascencio Padilla, que era fazendeiro, liderou um grupo de guerrilheiros. Participou de 23 ações armadas pela Independência. Chegou a perder todos os seus bens nessas lutas.

“Ganhou fama por sua coragem e habilidade, chegando a obter a patente de tenente-coronel. Havia um grupo de mulheres, chamado ‘las amazonas’, que a acompanhava nos combates”, diz Prado. Em uma dessas batalhas, seu marido foi morto, mas Juana conseguiu escapar e continuou na luta guerrilheira.

Após a Independência, chegou a receber uma pensão do governo pelos serviços prestados à luta pela independência, mas o benefício foi logo interrompido. Morreu pobre aos 80 anos. Atualmente o aeroporto de Sucre leva o seu nome.‎

4 – Manuela Sáez

Filha de uma mestiça e um espanhol, Manuela Sáez passou para a história como amante de Simón Bolívar – ele sim ficou para a história como um dos heróis do século 19 na América Latina. Manuela foi casada com um médico inglês, de quem se separou para acompanhar Bolívar, que conheceu em 1822 em Lima, no Peru.

“Muito se escreveu sobre sua independência, inteligência, sagacidade e iniciativa. Cuidou dos arquivos de Bolívar em sua estada no Peru, escreveu cartas que ele ditava e salvou-o, segundo testemunhos diversos, de duas tentativas de assassinato. Depois da morte do líder, teve que se sustentar com seu trabalho, não aceitando voltar para o marido, que segundo consta ainda a queria” diz Prado.‎

5 – Josefa Ortíz de Dominguez

Aos 23 anos, a mexicana Josefa Ortíz se casa com o advogado Miguel Dominguez, que logo é nomeado corregedor de Querétaro. “La Corregidora”, como ficou conhecida, ela e o marido eram ligados ao grupo que pretendia iniciar a luta pela independência. Ao saber que a rebelião havia sido denunciada e que os conspiradores seriam presos, dona Josefa decide comunicá-los.

“Ela enviou uma mensagem para que a tropa popular declarasse o fim do Império Espanhol. Esse momento ficou conhecido como o grito da independência e é a maior festa dos mexicanos, comemorada em 15 de setembro”, afirma Gutiérrez Chong.

Foi a partir desta mensagem que o padre Miguel Hidalgo deu início à luta de independência. Josefa foi denunciada por conspiração e, mesmo grávida, cumpriu pena de três anos presa em conventos. Após a independência, manteve envolvimento em atividades políticas. Morreu em 1829, aos 61 anos, na Cidade do México, onde hoje existe uma estátua em sua homenagem.

‎6 – Policarpa Salavarrieta

“La Pola”, como era conhecida, costumava levar informações aos rebeldes em Nova Granada, atual Colômbia. Por conta do seu trabalho como costureira, costumava frequentar casas de famílias de posses, onde colhia informações sobre as tropas do rei.

Há relatos de que um dos rebeldes, Alejo Sabaraín era seu grande amor. Quando ele foi preso, havia documentos que a comprometiam diretamente. “Presa e julgada, foi condenada à morte, juntamente com outros oito homens, entre eles seu noivo. O fuzilamento ocorreu na praça principal de Bogotá, no dia 14 de novembro de 1817, causando grande impacto sobre a população”, escreveu Maria Ligia Prado.

Fonte: Calle 2

Carnaval sem cordas, com “respeita as mina” e “fora Temer”

Março 2, 2017

O carnaval das multidões é uma festa monumental. Grandiosa, evoca tantos temas, tantas expressões culturais, tanta gente, músicas, danças, cores, luzes e sons, exibe tanta animação, irreverência e criatividade que é difícil, e até sem sentido, dizer qual a característica que marcou os folguedos em um ano determinado. Se isto é difícil para um especialista, é impossível para um mero expectador, que aliás não deve nem se aventurar no tema.

Haroldo Lima*

Entretanto, como entusiasta das manifestações populares que desbravam veredas, derrubam tabus, criam formas novas e afrontam preconceitos, permito-me registrar, para ressaltar, fatos que empolgaram multidões e que chamaram a atenção nesse carnaval de 2017.

Começo pela Bahia, por onde o próprio Brasil começou. A terra que criou o afoxé Filhos de Ghandi, em 1949, criou também o trio elétrico, com Dodô e Osmar, em 1950, e talvez tenha sido pioneira em levar grandes massas para o carnaval de rua. Viu aparecer em 1974 o primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, que abriu o caminho para o Olodum e o Malê Debalê, em 1979, o Muzenza, em 1981, o Timbalada em 1991, o Cortejo Afro, em 1998 e outros. Todos estes passaram a encantar a Bahia, o Brasil e até o exterior com plasticidade e sonoridade esfuziantes, servindo também para a afirmação étnica negra.

Essa mesma Bahia misturou o frevo e o maracatu, pernambucanos, com o reggae jamaicano de Bob Marley e outros ritmos afro-brasileiros e criou o axé music, aí na década de 1980.

No desdobramento de tudo isso veio uma profusão de grandes blocos com seus trios elétricos, como Chiclete com Banana, Coruja, Camaleão, Eva, Crocodilo, Harém, Pirraça, Traz a Massa, Harmonia do Samba etc. etc. com seus animadores famosos Bel Marques, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Carla Perez etc., etc.

Mas, uma coisa surgiu nesse meio de caminho – a corda – que veio acentuar a separação de classes no carnaval. Os que “podiam” pulavam dentro da área circunscrita pela corda, os que “não podiam” ficavam de fora, eram os “pipocas”. E alguns, os mais pobres, geralmente negros, passavam o carnaval segurando as cordas, para uns brincarem e outros não entrarem.

Os carnavais de outras cidades e estados também tiveram suas evoluções, seguramente com destaque para o Rio e São Paulo. Essa evolução teve o sentido de uma democratização da brincadeira.

No Rio, o que era, principalmente, grandes noitadas nos “sambódromos”, com desfiles espetaculares de escolas de samba, acentuou a festa de rua, com o crescimento excepcional dos blocos de bairros. E o carnaval ganhou a cidade maravilhosa.

Em São Paulo o carnaval também era basicamente o do “sambódromo”. Mas, na gestão passada, quando o prefeito era o Fernando Haddad, a vice era Nádia Campeão e o secretário de Cultura foi Juca Ferreira, um baiano, esse grupo liderou um processo de formatação do carnaval de São Paulo, onde o sambódromo continuaria com seu papel anterior, mas o carnaval se espalharia pelos bairros e ruas da megalópole. Não levaria, entretanto, a separação estruturada de classes, ou seja, a corda não iria.

A vice-prefeita da época Nádia Campeão explicou que “os numerosos blocos cadastrados foram orientados para buscar as formas de arcar com seus custos e não poderiam restringir, de nenhuma forma, o acesso de pessoas, nem com cordas, nem com demarcação de qualquer espaço”, ou seja, o Poder público assegurou a democratização da brincadeira. E os resultados não se fizeram esperar: 169 blocos em 2014, 323 em 2015, 384 em 2016 e agora, provavelmente, mais de 500. É coisa dos últimos quatro anos. E é uma explosão.

Voltemos a Salvador. A capital baiana não contou, como São Paulo, com uma prefeitura que organizasse a democratização da brincadeira. Mas contou com o governador Rui Costa que definiu como prioritária a diretriz de tirar as cordas da rua. E o que se viu foram os “pipocas”, atrás dos trios elétricos, encherem de alegria os circuitos mais tradicionais do carnaval de Salvador, o Barra-Ondina, o Campo Grande, o Castro Alves, o Mestre Bimba e o Batatinha. Foi uma grande vitória que precisa ser consolidada, porque há quem se considere no prejuízo.

Nesse carnaval, o povo pode ver, entre muitas outras atrações, a comemoração dos cinqüenta anos do Tropicália, com a presença no Pelourinho de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Capinam, três expoentes baianos do tropicalismo, que levaram o povo ao delírio. Mas o carnaval de Salvador teve mais.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, com a secretária Julieta Palmeira à frente, lançou, com extrema felicidade, a campanha “Respeita as Mina”, em uma ofensiva que levantava a necessidade de se respeitar as mulheres no curso do carnaval. A campanha que, segundo Julieta Palmeiras, não se restringirá ao carnaval, passando a ser permanente de sua secretaria, a SPM, teve enorme receptividade. Talvez tenha sido a marca mais original do carnaval de 2017 em Salvador.

O “Respeita as Mina” repercutiu em todo o estado e levou ao circuito Osmar, do Campo Grande, o mais tradicional de Salvador, o trio sem cordas “Respeita as Mina”, comandado por Larissa Luz, Tassa Reis e MC Carol e que contou com a presença da secretária de Políticas para as Mulheres Julieta Palmeiras, da secretaria de Promoção da Igualdade Racial Fábya Reis e da secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, a Negona, Olívia Santana. Coroando tudo, veio o apoio e incentivo da representante da ONU Nadine Gasman, que se manifestou “impressionada” com a campanha.

O último desses registros vai para uma ocorrência que se deu em diferentes capitais e cidades, entre as quais Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife. Cantores, blocos e massa, em diferentes momentos, vocalizavam a palavra de ordem “Fora Temer”, demonstrando extensa rejeição ao atual governo ilegítimo do Brasil. Como consta da coluna Ancelmo de O Globo de 27 de fevereiro de 2017, “o Fora Temer deve ter sido o maior grito de guerra do carnaval de 2017”. Viva o carnaval de 2017.