Archive for the ‘Portal Do Vermelho’ Category

O Caranguejo de Gabriela Sobral resgata a ancestralidade feminina

Outubro 15, 2017

Gabriela Sobral é jornalista, autora do livro Caranguejo

Por Mariana Serafini

“Eu sempre tive essa coisa com a volta, com a memória. E sempre voltei muito, sou afeita às minhas memórias e o livro é o resultado dessa busca, eu consigo visualizar algo novo, algo para o futuro, a partir disso’’. É assim que Gabriela apresenta sua primeira obra, um livro de poesias que foi nascendo, nascendo aos pouquinhos, e vem à luz na próxima sexta-feira (20).

Gabriela é jornalista, mestra em Patrimônio Cultural e “agora escritora”. Com seu Caranguejo se joga no mundo das palavras com ganas de quem busca um mergulho na história para fazer do presente tempo e espaço aberto a acolher as mulheres. “Eu não acho que exista uma ‘escrita feminina’, somos apenas escritoras que passam por um processo de provação porque as questões femininas são sempre muito invisibilizadas. É como se nossos sentimentos tivessem que ser mantidos sempre no âmbito do privado”.

Com este livro, Gabriela dá visibilidade ao universo feminino. “Minhas referências são muito minhas memórias e o livro fala muito das mulheres que passaram pela minha vida. Minha família tem muitas mulheres e elas sempre falaram muito, cresci cercada de histórias orais e isso me fez perceber que talvez as mulheres ‘falem muito’ porque têm muito a dizer”.

Inspirada em escritoras, poetas e mulheres fortes, Gabriela pretende que seu Caranguejo possa também determinar um espaço, “dizer que há produção feminina e que as mulheres estão num momento de se organizar, de pensar sobre si próprias porque nós vemos o mundo de uma forma muito completa e por isso quando agimos, vamos do afeto à política com muita intensidade”.

Nascida, criada e formada no Pará, as palavras dela podem causar estranhamento em quem tem pouca, ou nenhuma ligação com a cultura local. Justamente por isso, ela fez questão de usar este vocabulário. “Minha mãe, que revisou meu livro, mandou eu tirar a palavra ‘rebujo’, que se usa muito no Marajó. Eu falei que ia tirar, mas não tirei. Eu acho que essas palavras querem dizer alguma coisa”.

Gabriela em entrevista ao Vermelho | Foto: Clécio Almeida 

Sem a pretensão de lançar um livro, as poesias de Gabriela nasceram quando ela começou a ler outras mulheres. Este foi o ponto de virada. “Eu passei a produzir muito mais, e a perceber a escrita de outra forma”. E não são poucas as mulheres que a inspiram: Ana Cristina César, Elena Ferrante, Maria Lúcia Medeiros, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Matilde Campillo, entre muitas outras. Além de ler, se inspirar e buscar referências em mulheres, a “recém escritora” também ministrou uma oficina, junto a outras amigas, para disseminar a literatura feminina. O clube literário Leia Mulheres começou em São Paulo, foi para Belém e serviu para despertar o interesse de jovens a este segmento menos “difundido” no mercado editorial.

Além destas escritoras, o livro de Gabriela também traz as referências que ela adquiriu ao longo da vida, e claro, as leituras mais recentes que de alguma forma contribuíram para a consolidação desta obra. “Tem livros e escritores que me fizeram amar o mundo, me apaixonar. O Jorge Amado é um deles porque foi um dos meus primeiros contatos com a literatura. O Milton Hatoum também é incrível. A Clarice Lispector é um nome que vem desde o tempo da escola”.

Resultado de memórias, história e espírito de coletividade, Caranguejo tem prefácio do amigo Felipe Cruz, professor de literatura e crítico literário, e posfácio da amiga Maíra Valério, editora do blog Vulva Revolução. “Nascer é presencial, esse livro me ensinou, e o que é presencial fere, sangra. Desse lugar Gabriela Sobral observa, ampla. Infla com suas palavras articuladas, em infinito desdobramento, as lembranças que inundam o presente e o tornam solo fértil para semearmos o amanhã”, diz a apresentação do livro.

O lançamento acontece na próxima sexta-feira (20), na livraria Patuscada, na capital paulista, a partir das 19 horas – Rua Luís Murat, 40, Pinheiros. 

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Corpo elétrico, manifesto contra a repressão moral

Outubro 1, 2017

 

A trama tem por eixo central os caminhos da subjetividade de Elias, um jovem da Paraíba que rompeu com a família ao assumir-se gay e que veio a São Paulo realizar o sonho de tornar-se um estilista.

De fato, ele conseguiu uma colocação em uma confecção de roupas no bairro do Bom Retiro. No entanto, seu cotidiano no trabalho tem menos glamour do que o mundo da moda lhe poderia prometer, ao menos em suas fantasias. Ele trabalha como assistente pessoal da estilista Bia que administra, ao lado de seu irmão, um negócio familiar com rotinas monótonas e extenuantes para seus empregados.

O ambiente de trabalho é frio e marcado pela superexploração. Trabalhadoras adoecem frequentemente em meio ao ritmo intenso da costura. Apesar das distâncias entre empregadores e empregados, estes forjam, no dia-a-dia, redes de cumplicidade e solidariedade que despertam certa consciência de classe, algo aparentemente tão raro nestes dias.

Em meio à dura e melancólica rotina profissional, duas são as válvulas de escape de Elias na cidade. A primeira delas são as festas e confraternizações feitas com colegas de trabalho, que acabam constituindo uma espécie de família afetiva em contraponto à família de sangue com quem o jovem teve que romper. Já a segunda são os frequentes encontros sexuais casuais com outros homens, nos quais Elias vai se descobrindo e se revelando.

Assim, seu movimento na vida e no filme oscila e conecta, insistentemente, dois mundos aparentemente apartados entre si: o do trabalho que busca desumanizá-lo e o das camas nas quais ele resgata algo da humanidade que lhe é subtraída diariamente. Suas relações sexuais, em geral mais casuais e fluídas, transitam livremente entre o ato e a palavra, entre intimidade do desejo e a proximidade da conversa.

Uma das maiores belezas do filme é justamente retratar, com leveza, como Elias constrói sua existência a partir das brechas escavadas por seu próprio corpo neste mundo. Apesar de todas estruturas sociais adversas com as quais se depara, ele não se prende ao passado do abandono pela família e tampouco projeta-se a um futuro rendido aos seus sonhos profissionais. Sua vida vai se tecendo das relações e encontros do próprio presente.

Esse cenário presente é marcado por corpos diversos que atravessam, a todo momento, os longos planos do filme. Pode-se afirmar que, pela primeira vez, no cinema brasileiro recente, um tributo à diversidade dos corpos e desejos que constituíram a nação emerge de modo tão sensível e representativo.

Com efeito, o filme desafia os padrões estritos de beleza que governam, de forma particularmente acentuada, o mundo gay masculino paulistano. São corpos considerados abjetos, de negros, morenos, não sarados, trans, migrantes africanos ou nordestinos, caras mais velhos. São corpos com suas próprias histórias.

De certo modo, Corpo elétrico consegue retratar as mudanças recentes de uma sociedade a partir de uma perspectiva interseccional bastante peculiar. Os laços que atravessam e vinculam ordem social e ordem sexual no Brasil de hoje são o pano de fundo do filme.

A convivência entre relações de trabalho essencialmente arcaicas (a despeito da aparência de modernas) e uma diversidade sexual e de gênero pulsante é o retrato perfeito do país hoje. Mas essa acomodação forçada entre tradição e novidade, característica da modernidade periférica brasileira, acaba escondendo algumas mecanismos da reprodução das violências.

Nesse sentido, o filme poderia ter dado maior densidade psicológica e profundidade em alguns dos conflitos que acabam sempre reconciliados e acomodados. A reação conservadora aos avanços do reconhecimento LGBT, que hoje é tão visível, parece esquecida no filme.

Trata-se, portanto, de uma representação algo romantizada do momento em que vivemos, sem deixar, contudo, de ser bastante real. O filme revela tanto quanto oculta a realidade atual. Isso porque é permeado por uma representação bem antiga de um Brasil cordial, em que a intimidade prevalece sobre o distanciamento e a acomodação sobre o conflito.

De qualquer modo, Corpo elétrico é necessário nos tempos em que vivemos. O filme vai de encontro ao coro da “moral e dos bons costumes”, que já está se convertendo em censura às artes e em governo de nossos desejos. Por isso mesmo, pode-se dizer que o filme assume, na atual conjuntura, o caráter de um manifesto contra a repressão moral.

Confira o trailer de Corpo Elétrico:

As personagens de animações da minha infância eram queer

Agosto 27, 2017

Elas mexeram com a minha cabeça.

Por Kari Paul

Traduzido por Marina Schnoor

Quando eu tinha oito anos e morava num subúrbio de Michigan, nos EUA, assisti Lindsay Lohan em Operação Cupido pular pelada num lago. Naquele momento, eu tive o que agora reconheço como um despertar sexual primordial. Quando a personagem dela, Annie, tem que nadar pelada depois de perder uma aposta, isso me escandalizou, despertando sentimentos queer que eu não conseguia entender na época. Não lembro o momento exato em que soube que não era hétero, mas lembro cada personagem da minha infância que me fez questionar isso.

Crescendo no final dos anos 90 e começo dos 2000, eu sabia que todas as personagens por quem eu tinha um crush na verdade eram gays — na ficção e na vida real. Na verdade, não lembro de nenhuma representação de mulher abertamente queer quando eu era criança, e só fui conhecer uma lésbica pessoalmente quando tinha 18 anos. Isso provavelmente contribuiu para muitas fanfics secretas que escrevi, além de vários anos desnecessários no armário.

A idade média na qual crianças percebem que são algo diferente de heterossexuais é de 12 anos, segundo o Pew Research Center, e a idade média para se assumir agora é de 16. Uma melhora considerável dos anos 80, quando a idade média para sair do armário era de 21 anos. Hoje, crianças têm mais chance de ver pessoas queer na televisão, com relacionamentos gays presentes em sitcoms mainstream como Modern Family e desenhos animados como Loud House da Nickelodeon.

Segundo um relatório de 2016-2017 do GLAAD, 4,8% dos personagens regulares de séries em exibição no horário nobre nos últimos anos se identificam como gay, lésbica, bissexual, trans e queer — a maior porcentagem da história. A aprovação da comunidade LGBTQ também está em ascensão: a porcentagem de pessoas que apoiam igualdade de casamento era de 30% em 2000, quando desenvolvi meu crush secreto pela Lindsay Lohan. Em 2017, é de 62.

Então sim, as coisas melhoram. Mas ainda assim, entre o Babadook se tornar um ícone queer na Parada Gay dos EUA este ano, e o primeiro “personagem gay” da Disney emergindo na forma do ajudante sexualmente confuso do Gaston em A Bela e a Fera, fica claro que ainda estamos desenvolvendo a representação queer na mídia. Aqui vão algumas personagens que eu tinha certeza que eram queer (na minha cabeça, pelo menos) assim que as assisti quando era menina.

Meu primeiro e mais longo crush da infância nasceu na primeira vez em que assisti Pocahontas da Disney. Meus sentimentos românticos pela Pocahontas não começaram quando a princesa nativa norte-americana beija John Smith, mas quando ela mergulha na cachoeira com sua amiga maravilhosa Nakoma. Na minha versão de fantasia do filme, elas despacham o John Smith de volta para a Europa e vivem felizes para sempre com sua conselheira lésbica sábia, a Vovó Willow.

Kim Possible e Shego, de Kim Possible 

É impossível que Kim Possible e sua nêmesis Shego não estivessem secretamente se pegando. Em toda a série, a tensão sexual entre a combatente do crime adolescente e sua principal inimiga é palpável. Além disso, Shego ganhou seus poderes depois de ser atingida por um COMETA ARCO-ÍRIS. Preciso dizer mais alguma coisa?

Debbie Thornberry, de A Família Thornberry

Com aquela camisa de flanela, atitude apática e calça cargo, Debbie, da Família Thornberry, é a hipster queer original. Essa sapatão provavelmente seria vista no bar lésbico da vizinhança tomando cerveja artesanal e revirando os olhos pra “cena queer”, mesmo participando dela.

Macie Lightfoot, de As Told By Ginger 

O cabelo verde e óculos quadradão da Macie não mentem. Adulta, a Macie se matricularia em design gráfico na Pratt e vocês sempre dariam match no Tinder, mas nunca sairiam pra valer.

LaCienega Boulevardez, de A Família Radical

Sempre tive essa sensação de que a LaCienega não era exatamente hétero. Quando dei um Google pra saber se era a única recebendo vibes gays, topei com uma quantidade alarmante de fanfics e artes retratando o relacionamento de LaCienega e Penny Proud (que não vou linkar aqui porque elas têm 14 anos naquela séria – pelamor, né, gente). Mas vou dizer que meu coraçãozinho de 9 anos batia mais rápido sempre que ela aparecia na tela.

Spinelli, de A Hora do Recreio 

A Spinelli adulta pegaria meu telefone num evento queer mas nunca ligaria.

Reggie Rocket, de Rocket Power

E por últimos, temos Reggie Rocket: uma skatista fodona que parece bizarramente com uma ex minha — provando que não mudei tanto assim desde que era criança.

Venezuela para além dos conflitos políticos, um país que pulsa cultura

Agosto 13, 2017

Nos últimos dias a Venezuela toma conta dos noticiários em todo o Brasil. Porém, o foco é apenas um: crise política. É impossível que um país desta dimensão não tenha nada a oferecer além de um conflito entre governo e oposição. Foi assim que a redação do Portal Vermelho decidiu ir a fundo para saber um pouco mais sobre a cultura do país vizinho.

Por Alessandra Monterastelli e Mariana Serafini

Sem saber nada além da existência do músico Ali Primera e do filme Pelo Malo, começamos a pesquisa, com um pouco de pânico, é verdade. Mas “pasito a pasito” fomos descobrindo uma Venezuela surpreendente, que pulsa cultura em todas as esferas. A busca acabou sendo muito mais rápida e rica do que imaginávamos.

Para apresentar a literatura venezuelana aos amantes dos livros brasileiros selecionamos dez obras fundamentais do país vizinho. Fizemos uma viagem no tempo, desde os contos e poesias clássicas da década de 20 até uma cena considerada “Beatnik” no final do século 20.

Nas telas, o país impressiona: Pelo Malo está entre diversos outros filmes vencedores de prêmios no mundo todo. Passando pela sua criação no final do século 19, por um dos ápices nos anos 70, até um período de baixa nos anos 80 e 90, o cinema venezuelano nunca se deixou vencer: produziu e batalhou pela sua visibilidade, gerando inúmeras grandes obras. Abordando desde temas sociais e políticos até filmes sensíveis e intimistas, passando pela comédia romântica e pelo terror, aproximou-se da população, sua grande mantenedora. Lutou e conquistou leis de incentivo e políticas públicas que viabilizam a sua produção, passado o período mais crítico, alçou o sucesso. Agora, esse cinema busca cada vez mais aprimorar sua identidade para buscar reconhecimento não só pelo seu povo, mas além do território nacional.

Com relação à música, como nos demais países da América Latina, o que domina as paradas de sucesso e as pistas nas baladas é o reggaeton porto-riquenho. Então destacamos a união deste ritmo com a Orquestra Sinfônica Simón Bolívarem 2011, quando o Calle 13 convidou os 220 jovens dirigidos por Gustato Dudamel para uma apresentação no Grammy Latino.

Nas artes plásticas destacamos o “pintor da luz”. Armando Reverón é o grande artista homenageado no país, no dia de seu aniversário, 10 de maio, é comemorado o “Dia Nacional do Artista Plástico”. Sua obra flerta com a loucura e a genialidade e inspira os jovens artistas contemporâneos.

Esta pesquisa nos mostrou uma Venezuela diversa, contemporânea e urbana. Um país movido a política, que na cultura se volta para os conflitos humanos, as questões do cidadão comum. Enfim, uma arte para o povo.

A dramaturga negra que representa a periferia

Julho 21, 2017

Por Jéssica Moreira

Eu conversava sobre teatro com uma amiga, quando aquela moça de sorriso doce e olhar e voz firmes se aproximou com seus livros nas mãos. Naquela época, ela estava no primeiro semestre do curso de dramaturgia da SP Escola de Teatro e, mesmo sem saber, reacendeu em mim a esperança de um dia também ser dramaturga, já que eu não havia passado no processo seletivo.

Hoje, após sete anos desse encontro, tenho o prazer de divulgar que, daqui a alguns dias, a obra “Epifania”, escrita por Shu em 2016, irá também criar voo e pousar no país africano de Cabo Verde, no 3º Festival Nacional de Teatro do Mindelo, que acontece de 23 a 29 de julho.

O texto, inspirado no romance “A Hora da Estrela”, faz um diálogo entre a personagem principal, Macabéa, e a autora Clarice Lispector, trazendo como pano de fundo diversas questões do universo feminino. A dramaturgia irá ganhar vida na interpretação da atriz Lilian Prado, do Grupo de Teatro Onironautas.

Essa, porém, não é a primeira vez que um texto de Shu, hoje com 40 anos, é encenado fora do país. Com este, a dramaturga já soma quatro trabalhos. Giz (2011/2013) foi o primeiro, que ganhou leitura dramática de Lavinía Pannuzio e, mais tarde, foi dirigida por Marcelo Valle. “Giz me possibilitou perceber que eu havia encontrado a minha singularidade, meu estilo dramatúrgico de escrever: uma verve poética, metafórica, híbrida de linguagens e referências”.

A partir de um processo colaborativo com a Cia Os Satyros, Shu colocou na rua Cabaret Stravaganza (2011), espetáculo que ficou quase dois anos em cartaz em São Paulo e, depois, foi levado para a Suécia. Ainda em 2017, a peça Epifania ficará em cartaz no Viga Espaço Cênico e, em setembro, a peça Ar rarefeito (2013) – 1º lugar no Prêmio Heleny Guariba de dramaturgia em 2014 – irá ganhar uma leitura dramática em Portugal.

“A minha filha Heloísa é minha maior inspiração”

A dramaturga conta que a filha, Heloísa, de dez anos, é sua maior inspiração. “Quero ser uma mulher forte para ela. Ela sonha como eu, com uma carreira artística. Ela desenha todos os dias, desde que eu lhe apresentei ao giz de cera, antes dos dois de idade. Quero que a minha filha saiba que ela pode ser o que quiser e que resistiremos e existiremos por meio da nossa arte: a minha, cênica; a dela, provavelmente, a plástica”.

Dentre as referências literárias, Shu destaca a admiração que possui pelo trabalho da mineira Grace Passô, uma mulher negra, que vem ganhando destaque com as letras. ” Por eu me identificar com o tipo de dramaturgia que ela cria, que espanca;por ela ser uma artista negra da palavra, premiada e com grande reconhecimento, por Grace se permitir permear dentro de projetos artísticos coletivos”. Além dela, alguns autores nacionais e também internacionais atravessaram a trajetória literária de Shu, como Silvia Gomez, Luciano Mazza, Newton Moreno e entre os estrangeiros Sarah Kane, Koltès, Visniec edetsaca-se Grace Passô.

A dramaturgia como cura

A chegada até aqui, porém, não foi um percurso simples. Foi aos 30 anos que a então professora de Português decidiu deixar a sala de aula para se arriscar nos palcos. Matriculou-se em um escola de artes cênicas, mas no decorrer das aulas não conseguia se enxergar atuando. “Eu não me enxergava talentosa, não me encaixava mais como professora. Entrei em depressão”. Foi quando o companheiro de Shu viu uma chamada na tevê sobre a inauguração da SP Escola de Teatro e a incentivou a se inscrever no processo seletivo.

“Agarrei a dramaturgia como uma tábua de salvação. Eu escrevia contos, crônicas, haicais, mas a dramaturgia foi a soma das minhas paixões. É minha maneira de estar no palco, de me sacudir, de me questionar o tempo todo junto com o espectador. É como se eu atravessasse de novo aquela avenida perigosa , saísse ilesa e, de quebra, renovasse completamente meu olhar cada vez que uma peça minha entra em cartaz, recebe uma leitura dramática.

“Eu gostava de brincar com palavras”

Chegar até aqui e ver seu trabalho ganhando o mundo faz Shu remontar aos sonhos que nutre desde a infância vivida nas proximidades da Rodovia Anhanguera, local onde foi acolhida por sua família adotiva, ainda bebê recém-chegada da Bahia. Das coisas que mais gostava naquele tempo, brincar com as palavras era uma de suas preferidas.

O movimento local, no entanto, impedia que a meninada saísse pelas ruas. “Lembro-me de uma vez em que eu e um dos afilhados da minha mãe atravessamos a rua. Ganhamos do outro lado da calçada, onde só havia uma faixa de grama antes da rodovia, mas chegar a outra margem ampliou nossa perspectiva; era como se olhássemos o mundo por outro viés e fôssemos os donos dos nossos horizontes, porque a partir daquele momento, nosso olhar não era mais dirigido por nenhum adulto. Decidimos voltar. Assim que Jean pôs o pé na rua foi atropelado. Inacreditavelmente, ele só quebrou um braço. Eu recuei a tempo e me salvei. Tínhamos uns seis anos”. Na maioria das vezes, a fantasia se dava dentro dos limites do pequeno quintal, onde as crianças da vizinhança se encontravam para inventar de tudo um pouco. Um dia, os adultos tiveram uma briga tão feia, que a casa cheia de felicidade de repente se esvaziou, fazendo a menina se refugiar no universo das palavras.

“Foi quando eu me entreguei à leitura e à escrita de diários, poemas, passei a frequentar assiduamente a biblioteca da escola, que promovia encontros com escritores. Lembro-me perfeitamente do Marcos Rey e do Pedro Bandeira cercado pelo olhar curioso das crianças num piso de assoalho lustroso, se desdobrando para responder perguntas ingênuas e elaboradas. Foi aí, mais ou menos com oito anos de idade que comecei a sonhar com uma carreira literária”.

Na escola, não havia dúvida, sua disciplina favorita era Português, prelúdio da primeira formação, que alguns anos mais tarde seria em Letras. Durante as aulas, era a professora Roseli, que a acompanhou do 5º ao 8º ano, que dava o incentivo para a então futura escritora ler para toda a turma as longas redações que costumava escrever. Foi em uma dessas leituras que a menina viu, pela primeira vez, um estilo diferente no livro didático.

Era uma conversa entre uma avó e sua neta, que Shu rapidamente decorou e, na aula seguinte, se caracterizou a partir do que imaginava ser a personagem idosa. Nesse dia, encenou o texto com a ajuda de uma colega. “Sempre que possível, eu encenava um texto do livro didático em sala de aula. Assim, sem saber, nasceu minha paixão pelo teatro. Em datas comemorativas na escola, eu apresentava peças que eu escrevia, dirigia, criava o cenário: devo ter sido a primeira menina negra a interpretar o herói grego Hércules“.

Mesmo apaixonada pelo teatro, foi na Pedagogia que Shu buscou curar algumas das feridas que ressoavam ainda do período escolar. Uma das poucas negras em uma escola de brancos na região oeste, Shu saiu do ensino fundamental e foi direto para uma escola de ensino médio técnica (na época, chamada de magistério), para fugir do racismo e do bullying que sofria por conta do tamanho de suas mamas.

“Beirava o insuportável e eu imaginei que eu só teria um pouco de paz se fosse pra uma escola majoritariamente de meninas: a saída foi o magistério e me apaixonei pelo ofício. Concluí os quatro anos e migrei para o curso de Letras, para amalgamar o magistério e minha paixão pelas palavras”.

Agora, já faz mais de sete anos que Shu tem na dramaturgia sua profissão. Seus últimos textos, ainda inéditos, tratam essencialmente da questão racial, já que a escritora sentiu a necessidade de entender suas subjetividades e o contexto de preconceitos que viveu e ainda enxerga também no meio artístico. “Tem artista branco lidando com o racismo como uma simples questão comercial”.

No mundo pós-Trump, a revolução feminista se tingiu de vermelho

Julho 19, 2017

A cor está na nova série ‘The Handmaid’s Tale’, do serviço de streaming Hulu, e em protestos feministas

Por Clara Ferrero

Se você viu The Handmaid’s Tale, o best-seller de Margaret Atwood que se transformou na série da temporada através das mãos do serviço de streaming Hulu, certamente se perguntou por que as donzelas sempre se vestem de vermelho. A explicação é tão simples quanto inquietante: o vermelho indica que são mulheres férteis associando a cor ao sangue menstrual. Elisabeth Moss e o resto das escravas sexuais que passeiam pelas ruas cinzentas da república de Gilead deixam um impactante rastro vermelho que contrasta com o azul das respeitáveis esposas, associado à Virgem Maria.

“O vermelho é a cor da regra, do útero, das mulheres desenfreadas e pecadoras”, explicou Ane Crabtree, figurinista da série, à edição norte-americana da revista Vanity Fair. “Historicamente, o vermelho é visto como símbolo de poder, usado por reis e líderes religiosos, mas o único poder que as criadas têm é a capacidade de dar descendência. O vermelho também é associado às mulheres que cometem pecados sexuais, como a personagem de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne”, explicam no mesmo artigo. No terrível mundo dessas mulheres reduzidas a objetos reprodutores tudo é vermelho. Inclusive o apelido da protagonista, Offred, deriva do nome do seu comandante e inclui a palavra ‘vermelho’ (red) em inglês. Casualidade?

O uniforme das criadas foi tomado nos últimos meses por vários grupos de mulheres como um símbolo de protesto. No final de junho, em Washington, várias mulheres vestidas como as donzelas de Atwood protestaram diante do Capitólio enquanto o Senado norte-americano debatia a reforma do sistema de saúde que pretende suspender o financiamento da Planned Parenthood, que oferece um sistema de saúde semelhante ao do planejamento familiar europeu. Não era a primeira vez que acontecia. Em março, um grupo de ativistas tingidas de escarlate irrompeu no plenário do Senado do Texas para protestar contra uma lei que dificultaria o aborto no Estado. Outro exemplo é o das cem mulheres de vermelho que enfrentaram há alguns dias o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, quando se dirigia para fazer um discurso para a Focus on the Family, uma organização cristã dedicada a promover valores ultraconservadores. The Handmaid’s Tale também ganhou vida no Parque do Retiro (Madri) na última edição da Feira do Livro. A Biblioteca de Mulheres encenou uma performance em que um grupo de voluntárias caminhava, com capa vermelha e touca branca, passando caixas de livros de umas a outras para simbolizar o peso da herança literária feminina e reivindicar visibilidade às autoras.

Mas, para além do uniforme das criadas, o vermelho tornou-se um símbolo feminista e cor anti-Trump. Em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, enquanto que na Espanha as mulheres foram chamados a se vestir de preto e se juntar à greve mundial, nos Estados Unidos o vermelho tornou-se o tom do movimento de protesto. A partir das redes sociais da Women’s March, que, aliás, faz toda a sua comunicação visual em vermelho, foi lançado um apelo a todas as mulheres para que durante esse dia se vestissem com essa cor em solidariedade. As ruas de cidades como Nova York foram inundadas por uma maré vermelha que se levantou contra Trump.

Como explica o The Guardian, essa cor também se tornou o uniforme das políticas em momentos-chave. Um novo símbolo do power dressing. Theresa May escolheu uma jaqueta vermelha para fazer sua primeira reunião com o presidente Trump em janeiro e Hillary Clinton usou uma roupa da mesma cor, assinada por Nina McLemore, durante sua campanha à presidência. “Para as mulheres, o vermelho transcende as ideologias políticas. Trata-se de ser uma mulher em um mundo de homens”, escreve a jornalista Morwenna Ferrier. Nos Estados Unidos, além disso, usar essa cor no movimento feminista é uma provocação contra a direita e o Partido Republicano. Melania Trump, assim como fizera Nancy Reagan, adotou-a e, por alguma razão, os bonés de Make América Great Again que tanto popularizaram Trump são da mesma cor.

Symone Sanders, que foi secretária de Bernie Sanders, deu visibilidade às mulheres negras na política com seus indefectíveis lábios pintados de vermelho. Lena Dunham lembra isso em Why Red Lipstick is Feminism’s New Calling Card (Por que o Batom Vermelho é a Nova Chamada à Ação do Feminismo), onde a diretora, atriz e ativista destrincha para a edição norte-americana da Vogue as bondades do batom carmim no movimento pela igualdade de direitos. “A revolução pintará os lábios de vermelho”, escreve Dunham enquanto lembra como sua mãe, a conhecida artista Laurie Simmons, que não tinha um estilo especialmente feminino e trabalhava em um setor dominado por homens no fim da década de 70, sempre pintava os lábios dessa cor. “À medida que o mundo balançava depois do circo surrealista da época de eleições nos Estados Unidos, era difícil não ver a conexão entre a gama completa de carmins e escarlates do Pantone e a sensação de que muitas mulheres insatisfeitas exigiam coletivamente mais direitos”, afirma a criadora de Girls.

O vermelho se junta ao espectro do onipresente violeta e do recém-chegado rosa do pussy-hat, tonalidades dominantes nas últimas manifestações feministas. A primeira é a cor internacional do movimento pela igualdade de direitos, que as sufragistas norte-americanas adotaram como uniforme na manifestação em Washington a favor da Emenda pela Igualdade de Direitos, em 1978. O rosa, segundo a criadora do boné anti-Trump, foi escolhido porque “é considerado uma cor feminina, associada com o cuidado, a compaixão e o amor. São qualidades que muitos considerariam como frágeis, mas na realidade são fortes. Se todos – pessoas de qualquer gênero – usarmos o rosa, juntos enviaremos uma poderosa mensagem em que não pedimos perdão pelo feminino e nem por exigir os direitos das mulheres”.

Agora o vermelho também ganha adeptos fora das manifestações e é visto em outros domínios relacionados com o empoderamento das mulheres. Está presente nos cartazes dos protestos – a Women’s March escolheu-o como cor de comunicação –, nas capas dos livros feministas (See Red Women’s Workshop: Feminist Posters 1974-1990; El Día Antes de la Revolución, de Ursula K. Le Guin, ou Mamá Quiero Ser Feminista, de Carmen G. de la Cueva) e até mesmo nas performances de artistas tão reivindicativos como Solange. A cantora tingiu de vermelho o show de Jimmy Fallon no fim do ano e continua apostando nessa cor na cenografia e nos figurinos de suas apresentações.

Talvez o rosa lidere as apostas como cor do capitalismo que quer seduzir as consumidoras, mas o vermelho se fortalece como símbolo do ativismo feminino em 2017. Uma nova era que deixa para trás os uniformes pretos associado às reivindicações e aos protestos (dos Panteras Negras na década de 70 às mulheres que protestam contra os feminicídios, ou os encapuzados das manifestações contra as conferências de cúpula do G-20). A sempre polêmica Camille Paglia disse recentemente que os bonés rosa anti-Trump lhe pareciam “a maior vergonha do feminismo contemporâneo” porque, em sua opinião, a cor não trazia “dignidade nem autoridade” à mulher. Não sabemos o que confabulará com o novo tom favorito do ativismo.

Ao nosso cinema, as migalhas!

Julho 13, 2017

No começo de julho, a temporada de lançamentos nos cinemas do Brasil foi marcada pela a estreia de “Homem Aranha de volta ao lar”, “Meu Malvado Favorito 3”, “Mulher Maravilha” e “A múmia”. Somados, estes quatro títulos ocupam quase 75% das salas de cinema.

Por Vandré Fernandes*

Independente da qualidade dos filmes, o que chama a atenção é a força do lançamento. Quase ¼ das salas estão ocupadas pela a história do jovem aracnídeo. Como disputar a venda de ingresso se as estreias brasileiras ganham apenas um horário em alguma sala e muitas vezes fora do horário nobre? Para o cinema brasileiro alcançar voos mais altos não só basta vontade, é preciso decisão política de mudar o status-quo.

Foi tentando resolver tal distorção que a Ancine, no período em que o Brasil gozava de auto-estima, distribuição de renda e desenvolvimento, elaborou um projeto para ampliar o número de salas de cinema para dar vazão à nossa produção cinematográfica. Já que, em tese, quanto mais salas, mais distribuição, mais exibição, mais democracia nas telas.

Porém, isso não é fácil. Os grandes distribuidores e exibidores sempre deram preferência aos blockbusters americanos. Por isso, os grandes complexos localizados nos Shoppings nunca incluíram filmes nacionais, exceto as comédias globais, e mesmo essas em total desequilíbrio. Ou seja, a luta da Ancine de dar alternativa de exibição além dos grandes complexos de exibição é a mesma do pequenino Davi contra o gigante Golias.

A recente SPCine também fez um projeto para distribuir filmes nacionais em circuitos alternativos, como CEU’s, Cinemas de Rua, Associações, entre outros. O motivo é sempre o mesmo, despertar no espectador brasileiro a vontade de assistir filmes com outra linguagem, independentes, e alimentar o (sonho) de ampliar o gosto do público para as nossas produções.

Mas não é fácil competir com uma indústria. Os americanos pensam num filme como calça jeans, celular, computador… Um filme é uma mercadoria.

Se procurarmos na história do Brasil, vamos encontrar inúmeras vezes que o governo americano pressionou o país para inibir qualquer política que valorizava as produções brasileiras em nossas salas de exibição. Teve até um episódio em que um representante norte-americano disse que não mais importaria as nossas laranjas se não aumentássemos as exibições dos filmes americanos.

Ocupação cultural é uma forma inteligente de se colonizar um povo.

Por outro lado, no Brasil temos uma semi-industria, que avançou muito no último período. Nos 14 anos de governo popular, criamos uma produção robusta, mas ainda sem uma visão estratégica de ocupação, ficando muito sobre os ombros da própria Ancine.

E o que acontecerá agora, com um governo sem legitimidade, com um Ministério da Cultura à deriva e uma Ancine que, nesse contexto, está fragilizadas e provavelmente não mais vai poder atuar de forma autônoma?

Bem, como dizia um ancora de tv: as imagens são dramáticas.

Mesmo assim, o cinema brasileiro vive. No mesmo começo de julho estreiou – em pouquíssimas salas – “Os pobres diabos”, de Rosemberg Cariri; “SoudTrack”, da 300 ml; “As aventuras do pequeno Colombo”, de Rodrigo Gava. Além de outras estreias pelo Brasil. E se tudo der certo, eles ficarão em cartaz por míseras duas semanas.

Fazendo uma conta simples, os “primos pobres das salas de cinema no Brasil” – se for mantida a media de 20 expectadores por sessão, em uma sala, por duas semanas – terão levado 280 pessoas aos cinemas. Já o Homem Aranha com 660 salas, 4 horários diferentes, com os mesmos números de pessoas levaria quase 1 milhão. Se ainda contarmos com a forte publicidade para a divulgação do filme, a política americana no cinema, e a dominação cultural que vem de quase um século, esse número passará de 3 milhões.

Ou seja, ou a gente toma uma atitude contra a picada do Aranha, mantendo as políticas e projetos desenvolvidas pela Ancine ou I like American bullshit.

 *Vandré Fernandes é cineasta.

Como surgiram as festas juninas?

Junho 24, 2017

A origem dos festejos juninos no Brasil une jesuítas portugueses, costumes indígenas e caipiras, celebrando santos católicos e pratos com alimentos nativos.

Por Cíntia Cristina da Silva

As festas juninas homenageiam três santos católicos: Santo Antônio (no dia 13 de junho), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29). No entanto, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações pagãs aconteciam durante o solstício de verão. Essa importante data astronômica marca o dia mais longo e a noite mais curta do ano, o que ocorre nos dias 21 ou 22 de junho no hemisfério norte. Diversos povos da Antiguidade, como os celtas e os egípcios, aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas. “Na Europa, os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até por volta do século 10. Como a igreja não conseguia combatê-los, decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês”, diz a antropóloga Lucia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O curioso é que os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses também faziam importantes rituais durante o mês de junho. Apesar de essa época marcar o início do inverno por aqui, eles tinham várias celebrações ligadas à agricultura, com cantos, danças e muita comida. Com a chegada dos jesuítas portugueses, os costumes indígenas e o caráter religioso dos festejos juninos se fundiram. É por isso que as festas tanto celebram santos católicos como oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos. Já a valorização da vida caipira nessas comemorações reflete a organização da sociedade brasileira até meados do século 20, quando 70% da população vivia no campo. Hoje, as grandes festas juninas se concentram no Nordeste, com destaque para as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB).

Tradições européias e indígenas se misturam nessas divertidas comemorações

Dança à francesa

A quadrilha tem origem francesa, nas contradanças de salão do século 17. Em pares, os dançarinos faziam uma sequência coreografada de movimentos alegres. O estilo chegou ao Brasil no século 19, trazido pelos nobres portugueses, e foi sendo adaptado até fazer sucesso nas festas juninas

Recado pela fogueira

A fogueira já estava presente nas celebrações juninas feitas por pagãos e indígenas, mas também ganhou uma explicação cristã: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida.

Sons regionais

As músicas juninas variam de uma região para outra. No Nordeste, as composições do sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga são as mais famosas. Já no Sudeste, compositores como João de Barro e Adalberto Ribeiro (“Capelinha de Melão”) e Lamartine Babo (“Isto é lá com Santo Antônio”) fazem sucesso em volta da fogueira.

Abençoadas simpatias

Os três santos homenageados em junho – Santo Antônio, São João Batista e São Pedro – inspiram não só novenas e rezas, como também várias simpatias. Acredita-se, por exemplo, que os balões levam pedidos para São João. Mas Santo Antônio é o mais requisitado, por seu “poder” de casar moças solteiras.

Comilança nativa

A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio ideal tem milho verde, bolo de fubá, pé-de-moleque, quentão, pipoca e outras gostosuras.

Assista a um documentário da TV Itararé sobre a origem das festas juninas:

Debate sobre O Capital celebra atualidade e força da obra de Marx

Junho 9, 2017

Entre os anos 1956 e 1964, um grupo de jovens professores universitários se reuniu para estudar a obra de Karl Marx, estes encontros ficaram conhecidos à época como Seminários Marx. Agora, mais de 50 anos depois, três destes já não tão jovens professores, se reuniram novamente, durante a 3º edição do Salão do Livro Político, em São Paulo, para celebrar a obra do filósofo alemão e debater a atualidade do Capital.

Por Mariana Serafini

A noite desta terça-feira (6), foi de celebração à obra de Marx durante o Salão do Livro Poítico, realizado na PUC-SP, na capital paulista. O painel “Nós que amávamos tanto O Capital” reuniu os professores José Arthur Giannotti, João Quartim de Moraes e Roberto Schwarz, com a mediação de Lidiane Rodrigues Soares, para debater a atualidade da máxima obra do filósofo alemão, O Capital.

O filósofo e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), João Quartim, destacou a permanência do marxismo como movimento de ideias que se mantém atual graças ao caráter duplo da obra: por um lado se propõe a emancipar a humanidade, e por outro pretende ser fundamento na lógica objetiva da evolução social.

“A força do marxismo não é apenas este movimento de emancipação adotado desde a origem por uma fração importante do movimento operário internacional, mas também o fato de remeter a um projeto político de emancipação universal da humanidade”, afirmou.

Arthur Giannotti, por sua vez, fez questão de relembrar o período em que o grupo se reuniu pela primeira vez e esclareceu os motivos que levaram estes jovens intelectuais a buscar respostas para o Brasil no marxismo. “Quando nós começamos a estudar Marx era basicamente para estudar um autor que nos desse ferramentas para entender a atualidade. Era um grupo basicamente universitário tentando entender a modernidade brasileira [no final da década de 50]”.

Passados mais de 50 anos da dispersão do grupo, Giannotti ressaltou que a leitura de O Capital é crítica. O intelectual acredita que sempre que houve supressão forçada da propriedade privada, característica que fundamentaria o capitalismo, criaram-se problemas sérios.

Já o crítico literário e professor de teoria literária Roberto Schwartz, falou sobre a configuração e a importância dos Seminários Marx para a consolidação do marxismo na academia brasileira, bem como as rupturas que ele implicou. Segundo ele, à época, os professores da USP reunidos no seminário entenderam que a realidade brasileira não cabia no marxismo, mas obrigava a teoria a se reformular, rompendo sua crosta dogmática.

O nome do painel é inspirado na obra homônima lançada recentemente pela editora Boitempo. Trata-se de uma coletânea de artigos dos três participantes da mesa, além do cientista político Emir Sader, cujo objetivo é retomar os estudos de meio século e refletir sobre a atualidade do tema.

O Salão do Livro Político começou na segunda-feira (5) e segue até a quinta-feira (8) com palestras, debates e exposições sobre diversos temas, entre eles o marxismo, a Revolução Russa, feminismo e a questão dos refugiados e dos povos indígenas. A programação completa pode ser conferida no site oficial do evento.

Mafalda aprende a falar em guarani

Maio 31, 2017

Depois de mais de cinquenta anos de seu lançamento, a astuta garotinha argentina Mafalda vai “aprender a falar” em guarani. O idioma é oficial no Paraguai, junto ao espanhol, e pela primeira vez as tirinhas de Quino serão traduzidas para uma língua indígena.

O projeto desenvolvido por linguistas paraguaios vai traduzir, aos poucos, a obra que traz as aventuras de Mafalda, Manolito, Felipe, Susanita e os demais personagens argentinos. O autor, Joaquín Salvador Lavado, o Quino, se emocionou ao tomar conhecimento da expansão de sua história.

Em junho deste ano será apresentado o primeiro, dos dez livros a serem traduzidos, durante a Feira Internacional do Livro de Assunção, capital paraguaia.

Para a tradutora Maria Gloria Pereira, a adaptação da obra de Quino servirá para fortalecer o idioma indígena e pode ser o começo de uma série de traduções de quadrinhos para popularizar e impulsionar o interesse infantil pela cultura guarani.

“Falta mais pessoas se animarem a investir em histórias em guarani, seja traduzindo já existentes ou criando personagens próprios, creio que isso seria um grande êxito”, afirmou a tradutora.


“Vejam este é um palito para amassar ideologias”, diz o quadrinho
Segundo Maria Glória, um dos grandes desafios deste projeto é manter um “guarani funcional”. Explica também que em alguns momentos será necessário “pegar emprestadas” palavras em espanhol para manter a riqueza e a sutiliza do idioma indígena. “O pior que poderíamos fazer é colocar Mafalda falando um guarani que não se entende”.

O projeto foi possível graças a um convênio do mercado editorial paraguaio com o Ministério de Relações Exteriores da Argentina através do Programa Sul, que busca a tradução de autores argentinos em outros idiomas. Todo o humor de Quino será mantido e Maria Gloria garante: Mafalda vai dizer muitos “nahániri” (“não”, em guarani), quando o assunto for tomar sopa!