Archive for the ‘Portal Do Vermelho’ Category

MÚSICA QUENTE: UM OLHAR SOBRE A PLURALIDADE SONORA DO BRASIL

Dezembro 9, 2017

A proposta desse espaço é falar de música, mas deslocar o olhar para além dos sucessos e dos nomes já estabelecidos, extrapolar o tradicional eixo de interesse da MPB ao rock e buscar compreender como os hits populares emergem nas periferias, sem se perder em ideias preconcebidas e análises superficiais.

“Seria impossível entender a música sem falar de shows, performances, erros e acertos, canções e discos ou sem falar das cenas culturais em que essa música está inserida. É improvável perceber a revolução de um hit sem compreender a origem dos estilos que o compõem, ou mesmo sem falar da forte influência estrangeira na pluralidade sonora do Brasil, quer seja nas raízes tradicionais ou na opressão colonizadora anglo-americana”, diz Patricktor4.

É a partir de muitas destas questões que ele escreve, em busca de aproximar o público de um outro jeito de consumir a música feita e divulgada na contemporaneidade.

Patricktor4 entende do assunto. Já se apresentou em praticamente todo o país, na Europa, na Ásia, na África e nas Américas do Norte e do Sul. O diferencial do DJ tem sido sempre promover as novas sonoridades brasileiras em seus sets, do tecnobrega ao bahia bass, passando por inúmeras novas possibilidades dessa música tão rica e diversificada, desconstruindo a pluralidade étnica que forma a musicalidade do Brasil e conectando estas batidas e melodias a seus equivalentes pelo mundo.

Como radialista, atualmente é coordenador de Programação da Frei Caneca FM, emissora pública do Recife. Já esteve na diretoria da Associação das Rádios Públicas do Brasil (ARPUB) e à frente da Aperipê FM, de Sergipe, e da programação da Cultura FM, do Pará. Nestas rádios, a marca do seu trabalho é a promoção da diversidade de conteúdo musical, dando protagonismo à cultura local e fortalecendo os cenários culturais. 

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URUGUAI REDESCOBRE SEU PASSADO INDIGENA

Novembro 19, 2017

Dados oficiais dizem que eles não existem, mas os Charrua estão organizados e lutam pelo reconhecimento

Por Laura Ely

Depois da Argentina passar por uma situação de embate na luta pela terra dos mapuches, com grande mobilização nacional e internacional pelo desaparecimento e morte do ambientalista Santiago Maldonato, agora é a vez dos indígenas uruguaios cobrarem a sua conta. Sistematicamente atacada e dizimada ao longo de séculos, a etnia oriunda da banda Oriental do Uruguai, pampas argentino e sul rio-grandense soma duas mil pessoas, embora não seja reconhecida pelo país. De acordo com a história oficial, os índios tornaram-se extintos em 1831.

Para além das evidências culturais e tradições atribuídas aos gaúchos que derivariam dos indígenas, como o churrasco de carne na grelha e o chá de erva-mate, estudos genéticos realizados desafiam a crença popular de que o Uruguai foi exclusivamente povoado pelos “descendentes dos navios”, principalmente vindos da Espanha e da Itália, comprovando a existência de índios. Além do Uruguai, estão presentes no Rio Grande do Sul e na província argentina de Entre Rios.

Embora o país se considere o único da América Latina sem população indígena, grupos de ativistas reivindicam que os povos originais nunca se extinguiram. O principal deles é o Conselho da Nação Charrúa do Uruguai – Conacha, atualmente composto por 10 organizações e comunidades de diferentes partes do Uruguai.

Entre os seus principais objetivos está o reconhecimento da atual população indígena, a ratificação da Convenção 169 da OIT (que compreende especificamente os direitos dos povos indígenas e tribais) e aumentar a visibilidade da questão indígena, alcançando o aumento de auto identificação indígena no Uruguai.

Segundo o censo oficial de 2011, cerca de 160 mil uruguaios declararam ter ascendência indígena. Isso representa quase 5% da população do país, de 3,395 milhões de habitantes. Por sua vez, 255 mil uruguaios se identificaram como afrodescendentes, 15 mil como asiáticos, e quase três milhões declararam ter ascendência branca, em sua maioria procedente de imigrantes europeus vindos da Espanha ou Itália.

Filme mostra o silenciamento dos Charruas

No documentário O País Sem índios, os diretores Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez escolheram dois personagens para retratar a situação da população indígena do Uruguai a partir da história de Roberto, um trabalhador rural, e Mônica, uma professora de matemática. Descendentes charruas, eles vivem cada qual a sua maneira. Ao mesmo tempo, acadêmicos fornecem dados que permitem entender o cenário atual de uma perspectiva renovada e questionar o Uruguai que ainda se vê como “um país sem índios”.

Do seu lugar na terra, Roberto vive com base em seus valores com naturalidade e discrição. Respeitando a natureza e com um relacionamento especial com os cavalos, ele não sente a necessidade de uma luta política para reivindicar sua identidade. Mônica, por sua vez, tem um papel de liderança no movimento indígena: leva sua luta aos espaços jurídicos e acadêmicos dentro e fora das fronteiras, para obter o reconhecimento da existência do povo uruguaio e fazer justiça pelos crimes da história.

Assista ao trailer:

https://player.vimeo.com/video/212158881TEASER El país sin indios from El país sin indios on Vimeo.

QUILOMBO DOS PALMARES É RECONHECIDO PATRIMÔNIO CULTURAL DO MERCOSUL

Novembro 12, 2017

A região da Serra da Barriga, em Alagoas, acolhia o Quilombo dos Palmares, o mais conhecido da história brasileira

A região que acolhia o núcleo do quilombo, Serra da Barriga, em Alagoas, ganhou reconhecimento internacional. Neste sábado (11), será oficializada a certificação da área como patrimônio cultural do Mercosul. O título só foi conferido até agora a dois bens no país: a Ponte Internacional Barão de Mauá, ligação entre as cidades de Jaguarão, no Brasil, e Rio Branco, no Uruguai; e a região das Missões, que abrange cinco países (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia).

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares Divulgação Fundação Cultural Palmares

A Serra da Barriga foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985. Em 2007, foi aberto o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, próximo à cidade de União dos Palmares, a cerca de 80 quilômetros da capital do estado, Maceió. O projeto envolveu a construção de instalações em referência a Palmares, como a casa de farinha (Onjó de farinha), casa do campo santo (Onjó Cruzambê ) e terreiro de ervas (Oxile das ervas). O espaço ainda é o único parque temático voltado à cultura negra no Brasil e recebe anualmente cerca de 8 mil visitantes.

Visibilidade

Para Marcelo Britto, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o título de patrimônio cultural do Mercosul significa um reconhecimento internacional importante e também pode estimular a visibilidade da área por brasileiros que ainda a desconhecem.

“Um aspecto importante é a dinamização econômica, uma vez que o bem cultural ganha uma visibilidade para uma projeção de caráter nacional e internacional. Isso favorece iniciativas que tendem a promover o turismo cultural, a geração de empregos que podem ocorrer relacionadas a isso”, afirma.

Referência histórica

O Quilombo dos Palmares surgiu no século 16. Residiam nele escravos fugidos das capitanias da Bahia e de Pernambuco. O local chegou a reunir até 30 mil pessoas no seu auge, no século 17, e era organizado em pequenos povoados, chamados de mocambos. Os principais eram Cerca Real do Macaco, Subupira, Zumbi e Dandara. O maior deles chegou a ter 6 mil pessoas, quase a mesma população do Rio de Janeiro à época.

Esses mocambos constituíam uma espécie de república. As decisões políticas eram tomadas pela reunião da liderança de cada um deles em conjunto com o chefe supremo. Essa posição de comando foi ocupada por Acotirene, sucedida por Ganga Zumba e, depois, por Zumbi. No tocante às relações afetivas, Palmares era uma sociedade poliândrica, em que mulheres podem ter relação com diversos homens.

Segundo Zezito de Araújo, professor de história e supervisor de Diversidade da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas, Palmares ainda é lembrado muito pela dimensão do conflito, mas deveria ser conhecido por ter sido o primeiro grande movimento de resistência das Américas no período colonial e pela sua organização política.

“A Revolução Francesa é tida como o símbolo da liberdade, mas a luta de Zumbi aconteceu antes. Enquanto em Palmares tínhamos propriedade coletiva, produção para subsistência e para troca, na colônia tínhamos atividade agrícola para exportação e escravidão como base do trabalho. São sociedades opostas”, analisa.

Melhorias no espaço

Na opinião do presidente do Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas, Elcias Pereira, o título de patrimônio cultural será uma oportunidade importante de qualificar o espaço no momento em que o parque memorial completa 10 anos. “Recebendo esse título pode haver a melhoria dos equipamentos. Nestes últimos 10 anos, os investimentos não foram feitos como deviam. O acesso precisa ser arrumado, pois durante boa parte do ano há problema para chegar em razão das chuvas”, aponta Pereira.

Segundo Carolina Nascimento, diretora de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, responsável pelo parque nacional, ajustes e melhorias no espaço serão feitas a partir de um conjunto de iniciativas que já começaram a ser debatidas em uma oficina realizada neste ano em Maceió.

Entre as ações previstas estão a instituir um comitê gestor da Serra da Barriga, analisar a capacidade de recebimento de pessoas, reassentar algumas famílias ainda resistentes na área, implantar unidades de conservação ambiental, elaborar um plano de conservação e criar um centro internacional de referência da cultura negra.

“Neste momento em que casos de racismo estão se acirrando, o reconhecimento deste bem cultural é uma forma de combater a discriminação racial e valorizarmos a cultura afro-brasileira”, diz a diretora da fundação. 

Duas vezes Judith Butler no Brasil divulgação

Novembro 5, 2017

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social

Por Carla Rodrigues*

São títulos de momentos distintos da sua obra: o primeiro livro data de 2012 nos EUA e discute questões ligadas à violência de Estado; o segundo tem publicação original em 1997 e é parte dos desdobramentos teóricos exigidos pelas questões abertas desde o final dos anos 1980, quando da publicação de Problemas de Gênero (1989 nos EUA, 2003 no Brasil).

Engana-se, no entanto, quem pretender estabelecer uma separação teórica a partir da distância temporal existente entre o livro de 1997 e o de 2012. Em A vida psíquica do poder, Butler está animada pela leitura da filosofia de Michel Foucault, no qual o tema do poder é central na formação dos sujeitos, na subjetividade, no assujeitamento – termo estabelecido como tradução brasileira para assujettissement. Butler parte deste aparente paradoxo do termo sujeito, que ao mesmo tempo quer dizer se constituir como “eu” e estar submetido a uma estrutura de poder, para revisitar diferentes pensadores – como Hegel, Althusser, Nietzsche e Freud –, e dar continuidade a um tema inaugural da sua obra, o estatuto do sujeito na filosofia contemporânea.

A partir de 2001, para ser mais exata, a partir do 11 de setembro de 2001, Butler coloca em debate o poder do Estado sobre os sujeitos. Emerge então o tema de Caminhos divergentes e do seminário que o acompanha, Os fins da democracia, no qual Butler estará debatendo acompanhada de sua companheira, Wendy Brown, ela também uma pensadora crítica do modelo democrático norte-americano, seja pelo fracasso do multiculturalismo e de suas políticas de consenso e tolerância, seja por sua expansão neocolonial em uma política internacional pautada por violência, guerras e invasões.

Caminhos divergentes tem assim grande contribuição a dar no debate sobre o que pode um Estado. Inspirada nas suas críticas à violência do Estado de Israel, já criticadas como anti-semitas, Butler encara o desafio de recolher fontes judaicas para criticar a política israelense e afirmar que a crítica ao sionismo não equivale a antisemitismo. São mobilizados pensadores como Hannah Arendt, Primo Levi e Walter Benjamin. Dele, Butler recupera o importante Por uma crítica da violência, de 1921, no qual o alemão percebe como a violência de Estado se sustenta no tripé militarismo, polícia e pena de morte. É ali também que Benjamin pensa a violência constitutiva do ordenamento jurídico dos estados modernos.

É verdade que, como Butler observa, a crítica de Benjamin foi sendo desacreditada ao longo do século 20 por uma corrente de pensadores que pretendeu afirmar o direito como o mecanismo pelo qual se poderia enfrentar a ascensão do fascismo. Mas é verdade também que, para outros autores, entre os quais eu localizaria Giorgio Agamben, o direito não fornece instrumentos suficientes para combater o estado de exceção que participa, como paradigma de governo, das democracias modernas.

É aqui talvez que os caminhos divergentes de Butler mais se aproximem dos descaminhos tomados pela política brasileira contemporânea e tornem sua presença no Brasil tão mais importante. Não porque nos seja tão útil discutir a política externa norte-americana, embora esta sem dúvida nos afete cada vez mais na sua expansão neocolonial. Escárnio, no entanto, parece o ponto que mais nos toca no diagnóstico de Butler: “o escárnio tanto do direito constitucional quanto do internacional que caracteriza a política externa dos Estados Unidos em suas práticas de guerra, tortura e detenção ilegal”. Interessa ao momento brasileiro sobretudo pela primeira parte da frase – o escárnio ao direito constitucional –, que tem significado o desprezo das liberdades individuais e de todo aparato político-democrático que o Brasil parecia ter construído nas última décadas. É deste diagnóstico que ela mesma tem sido alvo, nos inúmeros protestos contra a sua vinda ao país, que ignoram a liberdade como direito fundamental.

Por fim, da primeira vez em que esteve no Brasil, em 2015, de Butler foram lançados Quadros de guerra (Civilização Brasileira) e Relatar a si mesmo (Autêntica), o primeiro editado nos EUA em 2009 e o segundo em 2005. Suas palestras em Salvador, na UFBA, e em São Paulo, no Sesc Mariana em grande medida surpreenderam plateias que ainda esperavam a autora de Problemas de gênero, mas encontraram uma filósofa propondo paradoxos que ainda desafiam tanto os teóricos quanto os militantes: como continuar mobilizando vulnerabilidades a fim de pedir proteção estatal ao mesmo Estado que é violento justamente com os sujeitos mais vulneráveis? Para boa parte da militância que esperava a mera adesão de uma filósofa queer, foi um susto ouvir Repensando vulnerabilidade e resistência.

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social. Na ambigüidade do título do seminário (Os fins da democracia) está uma resposta possível aos seus ruidosos e mal informados opositores: estamos diante dos fins da democracia, seja porque é preciso repensar seus objetivos e métodos políticos, seja porque é urgente encontrar formas de substituir a democracia representativa como modelo de governo que fracassou, tanto a ponto de destruir o valor que lhe seria mais caro, a liberdade.

*Carla Rodrigues é professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ. Fez especialização, mestrado e doutorado em Filosofia na PUC-Rio e pós-doutorado no IEL/Unicamp. É coordenadora do laboratório de pesquisa Escritas – filosofia, gênero e psicanálise

O Caranguejo de Gabriela Sobral resgata a ancestralidade feminina

Outubro 15, 2017

Gabriela Sobral é jornalista, autora do livro Caranguejo

Por Mariana Serafini

“Eu sempre tive essa coisa com a volta, com a memória. E sempre voltei muito, sou afeita às minhas memórias e o livro é o resultado dessa busca, eu consigo visualizar algo novo, algo para o futuro, a partir disso’’. É assim que Gabriela apresenta sua primeira obra, um livro de poesias que foi nascendo, nascendo aos pouquinhos, e vem à luz na próxima sexta-feira (20).

Gabriela é jornalista, mestra em Patrimônio Cultural e “agora escritora”. Com seu Caranguejo se joga no mundo das palavras com ganas de quem busca um mergulho na história para fazer do presente tempo e espaço aberto a acolher as mulheres. “Eu não acho que exista uma ‘escrita feminina’, somos apenas escritoras que passam por um processo de provação porque as questões femininas são sempre muito invisibilizadas. É como se nossos sentimentos tivessem que ser mantidos sempre no âmbito do privado”.

Com este livro, Gabriela dá visibilidade ao universo feminino. “Minhas referências são muito minhas memórias e o livro fala muito das mulheres que passaram pela minha vida. Minha família tem muitas mulheres e elas sempre falaram muito, cresci cercada de histórias orais e isso me fez perceber que talvez as mulheres ‘falem muito’ porque têm muito a dizer”.

Inspirada em escritoras, poetas e mulheres fortes, Gabriela pretende que seu Caranguejo possa também determinar um espaço, “dizer que há produção feminina e que as mulheres estão num momento de se organizar, de pensar sobre si próprias porque nós vemos o mundo de uma forma muito completa e por isso quando agimos, vamos do afeto à política com muita intensidade”.

Nascida, criada e formada no Pará, as palavras dela podem causar estranhamento em quem tem pouca, ou nenhuma ligação com a cultura local. Justamente por isso, ela fez questão de usar este vocabulário. “Minha mãe, que revisou meu livro, mandou eu tirar a palavra ‘rebujo’, que se usa muito no Marajó. Eu falei que ia tirar, mas não tirei. Eu acho que essas palavras querem dizer alguma coisa”.

Gabriela em entrevista ao Vermelho | Foto: Clécio Almeida 

Sem a pretensão de lançar um livro, as poesias de Gabriela nasceram quando ela começou a ler outras mulheres. Este foi o ponto de virada. “Eu passei a produzir muito mais, e a perceber a escrita de outra forma”. E não são poucas as mulheres que a inspiram: Ana Cristina César, Elena Ferrante, Maria Lúcia Medeiros, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Matilde Campillo, entre muitas outras. Além de ler, se inspirar e buscar referências em mulheres, a “recém escritora” também ministrou uma oficina, junto a outras amigas, para disseminar a literatura feminina. O clube literário Leia Mulheres começou em São Paulo, foi para Belém e serviu para despertar o interesse de jovens a este segmento menos “difundido” no mercado editorial.

Além destas escritoras, o livro de Gabriela também traz as referências que ela adquiriu ao longo da vida, e claro, as leituras mais recentes que de alguma forma contribuíram para a consolidação desta obra. “Tem livros e escritores que me fizeram amar o mundo, me apaixonar. O Jorge Amado é um deles porque foi um dos meus primeiros contatos com a literatura. O Milton Hatoum também é incrível. A Clarice Lispector é um nome que vem desde o tempo da escola”.

Resultado de memórias, história e espírito de coletividade, Caranguejo tem prefácio do amigo Felipe Cruz, professor de literatura e crítico literário, e posfácio da amiga Maíra Valério, editora do blog Vulva Revolução. “Nascer é presencial, esse livro me ensinou, e o que é presencial fere, sangra. Desse lugar Gabriela Sobral observa, ampla. Infla com suas palavras articuladas, em infinito desdobramento, as lembranças que inundam o presente e o tornam solo fértil para semearmos o amanhã”, diz a apresentação do livro.

O lançamento acontece na próxima sexta-feira (20), na livraria Patuscada, na capital paulista, a partir das 19 horas – Rua Luís Murat, 40, Pinheiros. 

Corpo elétrico, manifesto contra a repressão moral

Outubro 1, 2017

 

A trama tem por eixo central os caminhos da subjetividade de Elias, um jovem da Paraíba que rompeu com a família ao assumir-se gay e que veio a São Paulo realizar o sonho de tornar-se um estilista.

De fato, ele conseguiu uma colocação em uma confecção de roupas no bairro do Bom Retiro. No entanto, seu cotidiano no trabalho tem menos glamour do que o mundo da moda lhe poderia prometer, ao menos em suas fantasias. Ele trabalha como assistente pessoal da estilista Bia que administra, ao lado de seu irmão, um negócio familiar com rotinas monótonas e extenuantes para seus empregados.

O ambiente de trabalho é frio e marcado pela superexploração. Trabalhadoras adoecem frequentemente em meio ao ritmo intenso da costura. Apesar das distâncias entre empregadores e empregados, estes forjam, no dia-a-dia, redes de cumplicidade e solidariedade que despertam certa consciência de classe, algo aparentemente tão raro nestes dias.

Em meio à dura e melancólica rotina profissional, duas são as válvulas de escape de Elias na cidade. A primeira delas são as festas e confraternizações feitas com colegas de trabalho, que acabam constituindo uma espécie de família afetiva em contraponto à família de sangue com quem o jovem teve que romper. Já a segunda são os frequentes encontros sexuais casuais com outros homens, nos quais Elias vai se descobrindo e se revelando.

Assim, seu movimento na vida e no filme oscila e conecta, insistentemente, dois mundos aparentemente apartados entre si: o do trabalho que busca desumanizá-lo e o das camas nas quais ele resgata algo da humanidade que lhe é subtraída diariamente. Suas relações sexuais, em geral mais casuais e fluídas, transitam livremente entre o ato e a palavra, entre intimidade do desejo e a proximidade da conversa.

Uma das maiores belezas do filme é justamente retratar, com leveza, como Elias constrói sua existência a partir das brechas escavadas por seu próprio corpo neste mundo. Apesar de todas estruturas sociais adversas com as quais se depara, ele não se prende ao passado do abandono pela família e tampouco projeta-se a um futuro rendido aos seus sonhos profissionais. Sua vida vai se tecendo das relações e encontros do próprio presente.

Esse cenário presente é marcado por corpos diversos que atravessam, a todo momento, os longos planos do filme. Pode-se afirmar que, pela primeira vez, no cinema brasileiro recente, um tributo à diversidade dos corpos e desejos que constituíram a nação emerge de modo tão sensível e representativo.

Com efeito, o filme desafia os padrões estritos de beleza que governam, de forma particularmente acentuada, o mundo gay masculino paulistano. São corpos considerados abjetos, de negros, morenos, não sarados, trans, migrantes africanos ou nordestinos, caras mais velhos. São corpos com suas próprias histórias.

De certo modo, Corpo elétrico consegue retratar as mudanças recentes de uma sociedade a partir de uma perspectiva interseccional bastante peculiar. Os laços que atravessam e vinculam ordem social e ordem sexual no Brasil de hoje são o pano de fundo do filme.

A convivência entre relações de trabalho essencialmente arcaicas (a despeito da aparência de modernas) e uma diversidade sexual e de gênero pulsante é o retrato perfeito do país hoje. Mas essa acomodação forçada entre tradição e novidade, característica da modernidade periférica brasileira, acaba escondendo algumas mecanismos da reprodução das violências.

Nesse sentido, o filme poderia ter dado maior densidade psicológica e profundidade em alguns dos conflitos que acabam sempre reconciliados e acomodados. A reação conservadora aos avanços do reconhecimento LGBT, que hoje é tão visível, parece esquecida no filme.

Trata-se, portanto, de uma representação algo romantizada do momento em que vivemos, sem deixar, contudo, de ser bastante real. O filme revela tanto quanto oculta a realidade atual. Isso porque é permeado por uma representação bem antiga de um Brasil cordial, em que a intimidade prevalece sobre o distanciamento e a acomodação sobre o conflito.

De qualquer modo, Corpo elétrico é necessário nos tempos em que vivemos. O filme vai de encontro ao coro da “moral e dos bons costumes”, que já está se convertendo em censura às artes e em governo de nossos desejos. Por isso mesmo, pode-se dizer que o filme assume, na atual conjuntura, o caráter de um manifesto contra a repressão moral.

Confira o trailer de Corpo Elétrico:

As personagens de animações da minha infância eram queer

Agosto 27, 2017

Elas mexeram com a minha cabeça.

Por Kari Paul

Traduzido por Marina Schnoor

Quando eu tinha oito anos e morava num subúrbio de Michigan, nos EUA, assisti Lindsay Lohan em Operação Cupido pular pelada num lago. Naquele momento, eu tive o que agora reconheço como um despertar sexual primordial. Quando a personagem dela, Annie, tem que nadar pelada depois de perder uma aposta, isso me escandalizou, despertando sentimentos queer que eu não conseguia entender na época. Não lembro o momento exato em que soube que não era hétero, mas lembro cada personagem da minha infância que me fez questionar isso.

Crescendo no final dos anos 90 e começo dos 2000, eu sabia que todas as personagens por quem eu tinha um crush na verdade eram gays — na ficção e na vida real. Na verdade, não lembro de nenhuma representação de mulher abertamente queer quando eu era criança, e só fui conhecer uma lésbica pessoalmente quando tinha 18 anos. Isso provavelmente contribuiu para muitas fanfics secretas que escrevi, além de vários anos desnecessários no armário.

A idade média na qual crianças percebem que são algo diferente de heterossexuais é de 12 anos, segundo o Pew Research Center, e a idade média para se assumir agora é de 16. Uma melhora considerável dos anos 80, quando a idade média para sair do armário era de 21 anos. Hoje, crianças têm mais chance de ver pessoas queer na televisão, com relacionamentos gays presentes em sitcoms mainstream como Modern Family e desenhos animados como Loud House da Nickelodeon.

Segundo um relatório de 2016-2017 do GLAAD, 4,8% dos personagens regulares de séries em exibição no horário nobre nos últimos anos se identificam como gay, lésbica, bissexual, trans e queer — a maior porcentagem da história. A aprovação da comunidade LGBTQ também está em ascensão: a porcentagem de pessoas que apoiam igualdade de casamento era de 30% em 2000, quando desenvolvi meu crush secreto pela Lindsay Lohan. Em 2017, é de 62.

Então sim, as coisas melhoram. Mas ainda assim, entre o Babadook se tornar um ícone queer na Parada Gay dos EUA este ano, e o primeiro “personagem gay” da Disney emergindo na forma do ajudante sexualmente confuso do Gaston em A Bela e a Fera, fica claro que ainda estamos desenvolvendo a representação queer na mídia. Aqui vão algumas personagens que eu tinha certeza que eram queer (na minha cabeça, pelo menos) assim que as assisti quando era menina.

Meu primeiro e mais longo crush da infância nasceu na primeira vez em que assisti Pocahontas da Disney. Meus sentimentos românticos pela Pocahontas não começaram quando a princesa nativa norte-americana beija John Smith, mas quando ela mergulha na cachoeira com sua amiga maravilhosa Nakoma. Na minha versão de fantasia do filme, elas despacham o John Smith de volta para a Europa e vivem felizes para sempre com sua conselheira lésbica sábia, a Vovó Willow.

Kim Possible e Shego, de Kim Possible 

É impossível que Kim Possible e sua nêmesis Shego não estivessem secretamente se pegando. Em toda a série, a tensão sexual entre a combatente do crime adolescente e sua principal inimiga é palpável. Além disso, Shego ganhou seus poderes depois de ser atingida por um COMETA ARCO-ÍRIS. Preciso dizer mais alguma coisa?

Debbie Thornberry, de A Família Thornberry

Com aquela camisa de flanela, atitude apática e calça cargo, Debbie, da Família Thornberry, é a hipster queer original. Essa sapatão provavelmente seria vista no bar lésbico da vizinhança tomando cerveja artesanal e revirando os olhos pra “cena queer”, mesmo participando dela.

Macie Lightfoot, de As Told By Ginger 

O cabelo verde e óculos quadradão da Macie não mentem. Adulta, a Macie se matricularia em design gráfico na Pratt e vocês sempre dariam match no Tinder, mas nunca sairiam pra valer.

LaCienega Boulevardez, de A Família Radical

Sempre tive essa sensação de que a LaCienega não era exatamente hétero. Quando dei um Google pra saber se era a única recebendo vibes gays, topei com uma quantidade alarmante de fanfics e artes retratando o relacionamento de LaCienega e Penny Proud (que não vou linkar aqui porque elas têm 14 anos naquela séria – pelamor, né, gente). Mas vou dizer que meu coraçãozinho de 9 anos batia mais rápido sempre que ela aparecia na tela.

Spinelli, de A Hora do Recreio 

A Spinelli adulta pegaria meu telefone num evento queer mas nunca ligaria.

Reggie Rocket, de Rocket Power

E por últimos, temos Reggie Rocket: uma skatista fodona que parece bizarramente com uma ex minha — provando que não mudei tanto assim desde que era criança.

Venezuela para além dos conflitos políticos, um país que pulsa cultura

Agosto 13, 2017

Nos últimos dias a Venezuela toma conta dos noticiários em todo o Brasil. Porém, o foco é apenas um: crise política. É impossível que um país desta dimensão não tenha nada a oferecer além de um conflito entre governo e oposição. Foi assim que a redação do Portal Vermelho decidiu ir a fundo para saber um pouco mais sobre a cultura do país vizinho.

Por Alessandra Monterastelli e Mariana Serafini

Sem saber nada além da existência do músico Ali Primera e do filme Pelo Malo, começamos a pesquisa, com um pouco de pânico, é verdade. Mas “pasito a pasito” fomos descobrindo uma Venezuela surpreendente, que pulsa cultura em todas as esferas. A busca acabou sendo muito mais rápida e rica do que imaginávamos.

Para apresentar a literatura venezuelana aos amantes dos livros brasileiros selecionamos dez obras fundamentais do país vizinho. Fizemos uma viagem no tempo, desde os contos e poesias clássicas da década de 20 até uma cena considerada “Beatnik” no final do século 20.

Nas telas, o país impressiona: Pelo Malo está entre diversos outros filmes vencedores de prêmios no mundo todo. Passando pela sua criação no final do século 19, por um dos ápices nos anos 70, até um período de baixa nos anos 80 e 90, o cinema venezuelano nunca se deixou vencer: produziu e batalhou pela sua visibilidade, gerando inúmeras grandes obras. Abordando desde temas sociais e políticos até filmes sensíveis e intimistas, passando pela comédia romântica e pelo terror, aproximou-se da população, sua grande mantenedora. Lutou e conquistou leis de incentivo e políticas públicas que viabilizam a sua produção, passado o período mais crítico, alçou o sucesso. Agora, esse cinema busca cada vez mais aprimorar sua identidade para buscar reconhecimento não só pelo seu povo, mas além do território nacional.

Com relação à música, como nos demais países da América Latina, o que domina as paradas de sucesso e as pistas nas baladas é o reggaeton porto-riquenho. Então destacamos a união deste ritmo com a Orquestra Sinfônica Simón Bolívarem 2011, quando o Calle 13 convidou os 220 jovens dirigidos por Gustato Dudamel para uma apresentação no Grammy Latino.

Nas artes plásticas destacamos o “pintor da luz”. Armando Reverón é o grande artista homenageado no país, no dia de seu aniversário, 10 de maio, é comemorado o “Dia Nacional do Artista Plástico”. Sua obra flerta com a loucura e a genialidade e inspira os jovens artistas contemporâneos.

Esta pesquisa nos mostrou uma Venezuela diversa, contemporânea e urbana. Um país movido a política, que na cultura se volta para os conflitos humanos, as questões do cidadão comum. Enfim, uma arte para o povo.

A dramaturga negra que representa a periferia

Julho 21, 2017

Por Jéssica Moreira

Eu conversava sobre teatro com uma amiga, quando aquela moça de sorriso doce e olhar e voz firmes se aproximou com seus livros nas mãos. Naquela época, ela estava no primeiro semestre do curso de dramaturgia da SP Escola de Teatro e, mesmo sem saber, reacendeu em mim a esperança de um dia também ser dramaturga, já que eu não havia passado no processo seletivo.

Hoje, após sete anos desse encontro, tenho o prazer de divulgar que, daqui a alguns dias, a obra “Epifania”, escrita por Shu em 2016, irá também criar voo e pousar no país africano de Cabo Verde, no 3º Festival Nacional de Teatro do Mindelo, que acontece de 23 a 29 de julho.

O texto, inspirado no romance “A Hora da Estrela”, faz um diálogo entre a personagem principal, Macabéa, e a autora Clarice Lispector, trazendo como pano de fundo diversas questões do universo feminino. A dramaturgia irá ganhar vida na interpretação da atriz Lilian Prado, do Grupo de Teatro Onironautas.

Essa, porém, não é a primeira vez que um texto de Shu, hoje com 40 anos, é encenado fora do país. Com este, a dramaturga já soma quatro trabalhos. Giz (2011/2013) foi o primeiro, que ganhou leitura dramática de Lavinía Pannuzio e, mais tarde, foi dirigida por Marcelo Valle. “Giz me possibilitou perceber que eu havia encontrado a minha singularidade, meu estilo dramatúrgico de escrever: uma verve poética, metafórica, híbrida de linguagens e referências”.

A partir de um processo colaborativo com a Cia Os Satyros, Shu colocou na rua Cabaret Stravaganza (2011), espetáculo que ficou quase dois anos em cartaz em São Paulo e, depois, foi levado para a Suécia. Ainda em 2017, a peça Epifania ficará em cartaz no Viga Espaço Cênico e, em setembro, a peça Ar rarefeito (2013) – 1º lugar no Prêmio Heleny Guariba de dramaturgia em 2014 – irá ganhar uma leitura dramática em Portugal.

“A minha filha Heloísa é minha maior inspiração”

A dramaturga conta que a filha, Heloísa, de dez anos, é sua maior inspiração. “Quero ser uma mulher forte para ela. Ela sonha como eu, com uma carreira artística. Ela desenha todos os dias, desde que eu lhe apresentei ao giz de cera, antes dos dois de idade. Quero que a minha filha saiba que ela pode ser o que quiser e que resistiremos e existiremos por meio da nossa arte: a minha, cênica; a dela, provavelmente, a plástica”.

Dentre as referências literárias, Shu destaca a admiração que possui pelo trabalho da mineira Grace Passô, uma mulher negra, que vem ganhando destaque com as letras. ” Por eu me identificar com o tipo de dramaturgia que ela cria, que espanca;por ela ser uma artista negra da palavra, premiada e com grande reconhecimento, por Grace se permitir permear dentro de projetos artísticos coletivos”. Além dela, alguns autores nacionais e também internacionais atravessaram a trajetória literária de Shu, como Silvia Gomez, Luciano Mazza, Newton Moreno e entre os estrangeiros Sarah Kane, Koltès, Visniec edetsaca-se Grace Passô.

A dramaturgia como cura

A chegada até aqui, porém, não foi um percurso simples. Foi aos 30 anos que a então professora de Português decidiu deixar a sala de aula para se arriscar nos palcos. Matriculou-se em um escola de artes cênicas, mas no decorrer das aulas não conseguia se enxergar atuando. “Eu não me enxergava talentosa, não me encaixava mais como professora. Entrei em depressão”. Foi quando o companheiro de Shu viu uma chamada na tevê sobre a inauguração da SP Escola de Teatro e a incentivou a se inscrever no processo seletivo.

“Agarrei a dramaturgia como uma tábua de salvação. Eu escrevia contos, crônicas, haicais, mas a dramaturgia foi a soma das minhas paixões. É minha maneira de estar no palco, de me sacudir, de me questionar o tempo todo junto com o espectador. É como se eu atravessasse de novo aquela avenida perigosa , saísse ilesa e, de quebra, renovasse completamente meu olhar cada vez que uma peça minha entra em cartaz, recebe uma leitura dramática.

“Eu gostava de brincar com palavras”

Chegar até aqui e ver seu trabalho ganhando o mundo faz Shu remontar aos sonhos que nutre desde a infância vivida nas proximidades da Rodovia Anhanguera, local onde foi acolhida por sua família adotiva, ainda bebê recém-chegada da Bahia. Das coisas que mais gostava naquele tempo, brincar com as palavras era uma de suas preferidas.

O movimento local, no entanto, impedia que a meninada saísse pelas ruas. “Lembro-me de uma vez em que eu e um dos afilhados da minha mãe atravessamos a rua. Ganhamos do outro lado da calçada, onde só havia uma faixa de grama antes da rodovia, mas chegar a outra margem ampliou nossa perspectiva; era como se olhássemos o mundo por outro viés e fôssemos os donos dos nossos horizontes, porque a partir daquele momento, nosso olhar não era mais dirigido por nenhum adulto. Decidimos voltar. Assim que Jean pôs o pé na rua foi atropelado. Inacreditavelmente, ele só quebrou um braço. Eu recuei a tempo e me salvei. Tínhamos uns seis anos”. Na maioria das vezes, a fantasia se dava dentro dos limites do pequeno quintal, onde as crianças da vizinhança se encontravam para inventar de tudo um pouco. Um dia, os adultos tiveram uma briga tão feia, que a casa cheia de felicidade de repente se esvaziou, fazendo a menina se refugiar no universo das palavras.

“Foi quando eu me entreguei à leitura e à escrita de diários, poemas, passei a frequentar assiduamente a biblioteca da escola, que promovia encontros com escritores. Lembro-me perfeitamente do Marcos Rey e do Pedro Bandeira cercado pelo olhar curioso das crianças num piso de assoalho lustroso, se desdobrando para responder perguntas ingênuas e elaboradas. Foi aí, mais ou menos com oito anos de idade que comecei a sonhar com uma carreira literária”.

Na escola, não havia dúvida, sua disciplina favorita era Português, prelúdio da primeira formação, que alguns anos mais tarde seria em Letras. Durante as aulas, era a professora Roseli, que a acompanhou do 5º ao 8º ano, que dava o incentivo para a então futura escritora ler para toda a turma as longas redações que costumava escrever. Foi em uma dessas leituras que a menina viu, pela primeira vez, um estilo diferente no livro didático.

Era uma conversa entre uma avó e sua neta, que Shu rapidamente decorou e, na aula seguinte, se caracterizou a partir do que imaginava ser a personagem idosa. Nesse dia, encenou o texto com a ajuda de uma colega. “Sempre que possível, eu encenava um texto do livro didático em sala de aula. Assim, sem saber, nasceu minha paixão pelo teatro. Em datas comemorativas na escola, eu apresentava peças que eu escrevia, dirigia, criava o cenário: devo ter sido a primeira menina negra a interpretar o herói grego Hércules“.

Mesmo apaixonada pelo teatro, foi na Pedagogia que Shu buscou curar algumas das feridas que ressoavam ainda do período escolar. Uma das poucas negras em uma escola de brancos na região oeste, Shu saiu do ensino fundamental e foi direto para uma escola de ensino médio técnica (na época, chamada de magistério), para fugir do racismo e do bullying que sofria por conta do tamanho de suas mamas.

“Beirava o insuportável e eu imaginei que eu só teria um pouco de paz se fosse pra uma escola majoritariamente de meninas: a saída foi o magistério e me apaixonei pelo ofício. Concluí os quatro anos e migrei para o curso de Letras, para amalgamar o magistério e minha paixão pelas palavras”.

Agora, já faz mais de sete anos que Shu tem na dramaturgia sua profissão. Seus últimos textos, ainda inéditos, tratam essencialmente da questão racial, já que a escritora sentiu a necessidade de entender suas subjetividades e o contexto de preconceitos que viveu e ainda enxerga também no meio artístico. “Tem artista branco lidando com o racismo como uma simples questão comercial”.

No mundo pós-Trump, a revolução feminista se tingiu de vermelho

Julho 19, 2017

A cor está na nova série ‘The Handmaid’s Tale’, do serviço de streaming Hulu, e em protestos feministas

Por Clara Ferrero

Se você viu The Handmaid’s Tale, o best-seller de Margaret Atwood que se transformou na série da temporada através das mãos do serviço de streaming Hulu, certamente se perguntou por que as donzelas sempre se vestem de vermelho. A explicação é tão simples quanto inquietante: o vermelho indica que são mulheres férteis associando a cor ao sangue menstrual. Elisabeth Moss e o resto das escravas sexuais que passeiam pelas ruas cinzentas da república de Gilead deixam um impactante rastro vermelho que contrasta com o azul das respeitáveis esposas, associado à Virgem Maria.

“O vermelho é a cor da regra, do útero, das mulheres desenfreadas e pecadoras”, explicou Ane Crabtree, figurinista da série, à edição norte-americana da revista Vanity Fair. “Historicamente, o vermelho é visto como símbolo de poder, usado por reis e líderes religiosos, mas o único poder que as criadas têm é a capacidade de dar descendência. O vermelho também é associado às mulheres que cometem pecados sexuais, como a personagem de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne”, explicam no mesmo artigo. No terrível mundo dessas mulheres reduzidas a objetos reprodutores tudo é vermelho. Inclusive o apelido da protagonista, Offred, deriva do nome do seu comandante e inclui a palavra ‘vermelho’ (red) em inglês. Casualidade?

O uniforme das criadas foi tomado nos últimos meses por vários grupos de mulheres como um símbolo de protesto. No final de junho, em Washington, várias mulheres vestidas como as donzelas de Atwood protestaram diante do Capitólio enquanto o Senado norte-americano debatia a reforma do sistema de saúde que pretende suspender o financiamento da Planned Parenthood, que oferece um sistema de saúde semelhante ao do planejamento familiar europeu. Não era a primeira vez que acontecia. Em março, um grupo de ativistas tingidas de escarlate irrompeu no plenário do Senado do Texas para protestar contra uma lei que dificultaria o aborto no Estado. Outro exemplo é o das cem mulheres de vermelho que enfrentaram há alguns dias o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, quando se dirigia para fazer um discurso para a Focus on the Family, uma organização cristã dedicada a promover valores ultraconservadores. The Handmaid’s Tale também ganhou vida no Parque do Retiro (Madri) na última edição da Feira do Livro. A Biblioteca de Mulheres encenou uma performance em que um grupo de voluntárias caminhava, com capa vermelha e touca branca, passando caixas de livros de umas a outras para simbolizar o peso da herança literária feminina e reivindicar visibilidade às autoras.

Mas, para além do uniforme das criadas, o vermelho tornou-se um símbolo feminista e cor anti-Trump. Em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, enquanto que na Espanha as mulheres foram chamados a se vestir de preto e se juntar à greve mundial, nos Estados Unidos o vermelho tornou-se o tom do movimento de protesto. A partir das redes sociais da Women’s March, que, aliás, faz toda a sua comunicação visual em vermelho, foi lançado um apelo a todas as mulheres para que durante esse dia se vestissem com essa cor em solidariedade. As ruas de cidades como Nova York foram inundadas por uma maré vermelha que se levantou contra Trump.

Como explica o The Guardian, essa cor também se tornou o uniforme das políticas em momentos-chave. Um novo símbolo do power dressing. Theresa May escolheu uma jaqueta vermelha para fazer sua primeira reunião com o presidente Trump em janeiro e Hillary Clinton usou uma roupa da mesma cor, assinada por Nina McLemore, durante sua campanha à presidência. “Para as mulheres, o vermelho transcende as ideologias políticas. Trata-se de ser uma mulher em um mundo de homens”, escreve a jornalista Morwenna Ferrier. Nos Estados Unidos, além disso, usar essa cor no movimento feminista é uma provocação contra a direita e o Partido Republicano. Melania Trump, assim como fizera Nancy Reagan, adotou-a e, por alguma razão, os bonés de Make América Great Again que tanto popularizaram Trump são da mesma cor.

Symone Sanders, que foi secretária de Bernie Sanders, deu visibilidade às mulheres negras na política com seus indefectíveis lábios pintados de vermelho. Lena Dunham lembra isso em Why Red Lipstick is Feminism’s New Calling Card (Por que o Batom Vermelho é a Nova Chamada à Ação do Feminismo), onde a diretora, atriz e ativista destrincha para a edição norte-americana da Vogue as bondades do batom carmim no movimento pela igualdade de direitos. “A revolução pintará os lábios de vermelho”, escreve Dunham enquanto lembra como sua mãe, a conhecida artista Laurie Simmons, que não tinha um estilo especialmente feminino e trabalhava em um setor dominado por homens no fim da década de 70, sempre pintava os lábios dessa cor. “À medida que o mundo balançava depois do circo surrealista da época de eleições nos Estados Unidos, era difícil não ver a conexão entre a gama completa de carmins e escarlates do Pantone e a sensação de que muitas mulheres insatisfeitas exigiam coletivamente mais direitos”, afirma a criadora de Girls.

O vermelho se junta ao espectro do onipresente violeta e do recém-chegado rosa do pussy-hat, tonalidades dominantes nas últimas manifestações feministas. A primeira é a cor internacional do movimento pela igualdade de direitos, que as sufragistas norte-americanas adotaram como uniforme na manifestação em Washington a favor da Emenda pela Igualdade de Direitos, em 1978. O rosa, segundo a criadora do boné anti-Trump, foi escolhido porque “é considerado uma cor feminina, associada com o cuidado, a compaixão e o amor. São qualidades que muitos considerariam como frágeis, mas na realidade são fortes. Se todos – pessoas de qualquer gênero – usarmos o rosa, juntos enviaremos uma poderosa mensagem em que não pedimos perdão pelo feminino e nem por exigir os direitos das mulheres”.

Agora o vermelho também ganha adeptos fora das manifestações e é visto em outros domínios relacionados com o empoderamento das mulheres. Está presente nos cartazes dos protestos – a Women’s March escolheu-o como cor de comunicação –, nas capas dos livros feministas (See Red Women’s Workshop: Feminist Posters 1974-1990; El Día Antes de la Revolución, de Ursula K. Le Guin, ou Mamá Quiero Ser Feminista, de Carmen G. de la Cueva) e até mesmo nas performances de artistas tão reivindicativos como Solange. A cantora tingiu de vermelho o show de Jimmy Fallon no fim do ano e continua apostando nessa cor na cenografia e nos figurinos de suas apresentações.

Talvez o rosa lidere as apostas como cor do capitalismo que quer seduzir as consumidoras, mas o vermelho se fortalece como símbolo do ativismo feminino em 2017. Uma nova era que deixa para trás os uniformes pretos associado às reivindicações e aos protestos (dos Panteras Negras na década de 70 às mulheres que protestam contra os feminicídios, ou os encapuzados das manifestações contra as conferências de cúpula do G-20). A sempre polêmica Camille Paglia disse recentemente que os bonés rosa anti-Trump lhe pareciam “a maior vergonha do feminismo contemporâneo” porque, em sua opinião, a cor não trazia “dignidade nem autoridade” à mulher. Não sabemos o que confabulará com o novo tom favorito do ativismo.