Archive for the ‘Portal Do Vermelho’ Category

UM MILHÃO POR UM TOSTÃO

Agosto 5, 2018

 Nem moeda antiga, muito menos o magistral camisa 8 do Cruzeiro, o tostão das minhas memórias de criança era uma versão daquele muitas vezes aplicado em partidas de futebol, quando um jogador atinge a coxa de um adversário com o seu joelho. 

Por Daniel Costa Lima*

Acho que qualquer pessoa com algumas peladas no currículo já tomou ao menos um desses na vida e posso disser com quase certeza que nenhuma recorda o episódio de forma afetuosa ou saudosa. Pois bem, como o tostão da minha infância não era esse do futebol, a minha experiência é bem diferente. 

Eu não sei dizer quando o primeiro deles aconteceu, mas acho que eu devia ter por volta de oito anos. Também não consigo descrever a cena em pormenores, mas é muito provável que eu estivesse deitado no sofá ou no chão da sala enquanto assistia televisão, quem sabe vendo um episódio de Armação Ilimitada ou uma corrida de Formula 1… O cenário do ato sempre era esse, eu ali, olhos vidrados na TV e de repente… “Ufff!”, num movimento ágil e sorrateiro um calcanhar tinha atingido a minha coxa. Claro, não com muita força, apenas suficiente para dar aquela dorzinha rápida e aguda. 

As cenas seguintes também sempre se repetiam, eu me contorcia fingindo uma dor tão real que mataria Neymar de inveja, dizia “Tostão não é brincadeira!” e logo depois caia na gargalhada. Ao meu lado e igualmente se contorcendo, só que de tanto rir, estava o meu algoz, o mestre dos tostões, meu pai. 

Repetir esse momento virou uma meta e rapidamente aprendi a desferir os tostões e o meu pai a seguir o script da vítima, rolando de dor e dizendo “Tostão não é brincadeira!”. Nessa busca, lembro que às vezes deitava ao seu lado, deixava a perna estrategicamente numa posição vulnerável e fingia desatenção. Pensando bem, acho que ele fazia o mesmo.

Tudo isso durava no máximo um minuto, mas na minha cabeça, a felicidade escancarada no rosto do meu pai dura até hoje. O mundo parava naquele minuto e volta a parar agora enquanto (re)escrevo essa memória.

Mas os anos foram passando e os tostões ficaram cada vez mais raros, até que num dia assim, como outro qualquer, o último aconteceu. 

Eu devia estar com uns 15 anos, no meio de uma fase bastante retraída. O mundo basicamente se resumia a uma bola de basquete e a Nirvana, Pearl Jam, Metallica, Cypress Hill e House of Pain tocando no volume mais alto do meu discman (1993!). Meu pai, que nunca foi das pessoas mais falantes do mundo, seguramente se viu mais perdido ainda ao ter que lidar com aquele adolescente eternamente acabrunhado.

A vida seguia e mesmo morando embaixo do mesmo teto, o silêncio e a distancia entre a gente só crescia. Sem animosidade, sem briga – se em algum momento da minha infância ou adolescência tive raiva do meu pai, eu não lembro – “apenas” silêncio. Ele seguia a sua vida de homem devotado ao trabalho e à manutenção da família e eu tentava entender se havia algo na vida que me instigasse a mover. 

Nessa pegada, por um bom tempo eu esqueci por completo dos tostões. 

Aos 21 anos sai de casa e da cidade dos meus pais. Aos 26 me formei e aos 28 peguei um vôo sem passagem de volta pro sul do pais, longe do calor do nordeste e do conforto abafado da família. Casei, estudei mais, trabalhei, depois separei e fui fisgado durante uns bons anos pelo Rio… 

E eis que chegamos a 2011, o ano em que o tostão voltou, me pegando mais de surpresa do que aquele primeiro da infância. Foi então que escrevi esse texto, produto de um processo de análise em que redescobri o meu pai e assim finalmente me descobri. Esse encontro tardio e por vezes bem doloroso – pois olhar à fundo pro espelho dói mesmo – me presenteou com a lembrança do largo sorriso em seu rosto, o que, por sua vez, me permitiu buscar o meu sorriso. O menino-homem acabrunhado (que ainda faz parte de mim) descobria que queria ser feliz.

Se o derradeiro tostão aconteceu mesmo em 1993 então já se vão 25 anos. Eu adoraria dizer que hoje a nossa relação está mais próxima do que nunca mas a vida segue o seu próprio roteiro e nele, quase sempre, seguimos demasiadamente apegados aos nossos papéis. Felizmente, conseguimos meter um improviso aqui e ali, quando rompemos o nosso silêncio e nos mostramos um pro outro. 

Eu nunca havia alterado o texto que escrevi em 2011. Todo ano, no dia dos pais, eu o postava em uma rede social com essa foto da gente na praia de Maria Farinha, em Olinda. Eu o encerrava dizendo que diversas vezes, já adulto, me vi ao lado do meu pai, sentado ou deitado em algum sofá, os dois engolidos por um espesso silêncio e que nesses instantes eu lembrava da meta de Danielzinho e pensava “Eu daria um milhão por um tostão”.

Mas a vida deu uma bundacanastra e mudou o seu roteiro e, por tabela, também este texto, sendo a terceira e provavelmente a ultima vez em que serei pego desprevenido pelo tostão. Sem aviso, o texto pediu para ser reescrito no dia 31 de julho, aniversário de um ano do meu filho Francisco. Sem alarde, a imagem do meu pai brincando com Francisco me veio vivamente no dia seguinte. E lá estava ele. Aquele sorriso. Os olhos quase sumidos de tão apertados. 

Pai, eu acabei de ter uma conversa com Danielzinho e ele concordou que não precisamos mais dar nem levar tostões. Ele me falou coisas lindas sobre tu e lembrou até do cheiro marcante da tua toalha molhada, que eu já tinha esquecido. Eu contei pra ele sobre Carol e Francisco, sobre o menino fantástico e gaiato que ele é, e disse que vamos nos mudar pra um apartamento que tem uma boxer chamada Flora, que é muito parecida com a nossa amada Dora. Ele riu e ficou muito feliz e foi quando sem nada dizer, compreendemos que queremos apenas que Francisco curta o máximo possível o lindo sorriso do seu avô e que o seu lindo avô, por sua vez, seja cada vez mais feliz, pois ele merece isso. 

Com amor, Dani, Danielzinho e Cisco.

*Daniel Costa Lima é pai de Francisco, psicólogo, mestre em saúde pública, consultor independente no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado e violência baseada em gênero e colunista do Portal Vermelho.

PROJETO LEVA LITERATURA E COCO DE RODA A ESCOLAS DE PERNAMBUCO

Junho 24, 2018

Dona Glorinha do Coco não deixou ninguém ficar parado e Adalberto Monteiro também caiu na dançaNa última terça-feira (19), a Escola Técnica Estadual Professor Lucilo Ávila Pessoa, no Recife (Pernambuco), foi palco de literatura e coco de roda com a presença do escritor Adalberto Monteiro e da mestra da cultura popular Dona Glorinha do Coco. 

s adolescentes tiveram uma tarde fora da sala de aula, porém, cheia de aprendizado na prática. Eles puderam conversar com Adalberto sobre literatura e poesia, e na companha de Dona Glorinha do Coco, descobriram a magia do coco de roda. Trata-se do projeto Outras Palavras, fruto da parceria entre a Secult-PE e a Fundarpe. 

Adalberto Monteiro compartilhou sua experiência como jornalista, poeta, escritor e militante com os jovens que estavam ávidos para tirar dúvidas e amenizar as “aflições literárias”. Logo que começou a falar sobre sua obra, ouviu-se sussurros da jovem plateia, eles “denunciavam” a presença de um colega que se arrisca no mundo dos versos: “vai Álvaro, vai Álvaro”. 

Meio tímido, mas corajoso, Álvaro se apresentou e falou sobre sua percepção enquanto jovem poeta. Em seguida, foi presenteado por Adalberto com seu último lançamento, Pé de Ferro, que ele autografou “de poeta para poeta”.

Antes de qualquer coisa sou piauiense, nascido e criado em Goiás e agora moro em São Paulo. Sou também um militante político (ao dizer isso, um grito de “gostei disso” saiu da plateia). O que quero dizer é que sou meio dividido, apesar de toda minha história e meu trabalho estarem intrinsecamente ligados. Quando recebi esse convite, por exemplo, eu decidi que iria deixar o poeta encarnar”, explicou Adalberto. 

Porém, a turma não quis saber só de literatura e poesia, também questionaram sobre o cenário político e a vida militante de Adalberto, que ao final do evento foi “cercado” pelos que ainda tinham dúvidas. 

“Toda essa reflexão está inserida também nos meus livros de poesia. Você verá alguns que falam diretamente da questão do povo brasileiro. Vivemos um ciclo de avanços de 2003 a 2015, que foram interrompidos pela deposição de uma liderança eleita pelo povo, a Dilma Rousseff. Mas hoje, depois da onda de retrocessos, percebo que o povo brasileiro retoma a esperança. Dizem que os poetas são cegos e que enxergam na escuridão. Talvez seja isso. Mas acredito sim que há uma resistência popular que está crescendo aos poucos, e que em breve encontraremos o caminho”, afirmou Adalberto. 

Depois do encontro literário, os estudantes mergulharam no coco de roda com a mestre no assunto, Dona Glorinha. Ela é um dos principais nomes da cultura popular pernambucana. Habilitada a receber o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, Glorinha recebeu, em 2017, o 2º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia na categoria Mestra – premiação que veio celebrar seus 84 anos dedicados ao coco praieiro do Amaro Branco, uma tradição herdada de sua mãe, Dona Maria Belém.


Dona Glorinha dividiu o “palco” com os estudantes que se animaram a entrar na apresentação / Foto: Fundarpe

O mediador da atividade, Marcos Henrique, foi quem explicou aos alunos sobre as várias vertentes do coco. “Dona Glorinha é um dos principais nomes daquele que é feito em Amaro Branco, em Olinda, mais praieiro. Mas também temos Beth de Oxum, também de Olinda, responsável pelo Coco de Umbigada, no Guadalupe, e outras referências como Zé Negão, de Camaragibe, que conquistou recentemente a 3ª edição do Prêmio Ariano Suassuna, além do Samba do Véio, de Petrolina, e do Coco Raízes de Arcoverde”. 

Passada a “teoria” ninguém ficou parado assim que soaram as primeiras batidas da alfaia. Todos, sem exceção, se deixaram contagiar pela energia da música e rapidamente entraram no ritmo. 

Do Portal Vermelho, com Secretaria da Cultura de Pernambuco

LIVRO O MARXISMO OCIDENTAL, DE LOSURDO, CHEGA AO BRASIL

Junho 23, 2018

A mais recente obra de Losurdo chega ao Brasil

Nascido no coração do Ocidente, o marxismo se disseminou, com a Revolução de Outubro, por todos os cantos do mundo, desenvolvendo-se de maneiras diferentes e contrastantes, de acordo com o contexto histórico, social e econômico. À diferença do oriental, o marxismo ocidental perdeu o vínculo com a revolução anticolonialista mundial – ponto de virada decisivo do século 20 – e acabou sofrendo um colapso.

Em seu novo livro, Domenico Losurdo conta a parábola do marxismo ocidental: seu nascimento, sua evolução e sua queda. Uma obra polêmica e combativa, que pode ser considerada uma espécie de acerto de contas com o percurso do marxismo ocidental, repassando toda a sua trajetória até suas figuras atuais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Alain Badiou, Giorgio Agamben e Antonio Negri, sem deixar de visitar pensadores já clássicos como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, György Lukács, Herbert Marcuse, Louis Althusser, Ernst Bloch e Jean-Paul Sartre. 

Nesta obra, Losurdo diagnostica a “morte” do marxismo ocidental, retraça sua gênese e coloca questões decisivas: seu renascimento seria possível nos dias atuais? Sob quais condições?
Para o professor da Unicamp, João Quartim de Moraes, trata-se de uma obra fundamental para este tempo. “Domenico Losurdo põe em evidência, entre outros, os efeitos politicamente esterilizantes do radicalismo retórico dos pensadores eurocêntricos. Mas a crítica, para ele, não se exaure em seu momento negativo; ela se inscreve na construção histórica da ideia de uma humanidade efetivamente universal. É indispensável, para a reativação do marxismo nos países ocidentais, uma nova síntese programática que ultrapasse a separação entre as lutas diretamente anticapitalistas e as lutas anti-imperialistas e incorpore, em escala internacional, todas as grandes lutas de nosso tempo contra as diferentes modalidades de opressão étnica, racial e sexual.” 

Trecho da obra

“A história que me proponho reconstruir começa a se delinear entre agosto de 1914 e outubro de 1917, entre a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a vitória da Revolução de Outubro. Na esteira desses dois acontecimentos históricos, o marxismo conhece uma difusão planetária que o projeta para além das fronteiras do Ocidente em que permanecera confinado na época da Segunda Internacional. No entanto, há o outro lado da moeda desse triunfo: o encontro com culturas, situações geopolíticas e condições econômico-sociais tão distintas entre si estimula um processo interno de diferenciação, com o surgimento de contradições e conflitos antes desconhecidos. Para compreendê-los, somos obrigados a nos questionar sobre as motivações de fundo que levam à adesão ao movimento comunista e marxista que toma forma naqueles anos.”

O lançamento da obra no Brsil é fruto de uma parceria entre a editora Boitempo e a Fundação Maurício Grabois. 

Sobre o autor

Domenico Losurdo nasceu em 1941, na Itália. Professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino, doutorou-se com uma tese sobre Karl Rosenkranz. Tem diversas obras publicadas no Brasil, entre elas: Contra-história do liberalismo (Ideias & Letras, 2006), Liberalismo: entre civilização e barbárie(Anita Garibaldi, 2006), Nietzsche, o rebelde aristocrata(Revan, 2009), A linguagem do império: léxico da ideologia estadunidense (Boitempo, 2010), A luta de classes: uma história política e filosófica (Boitempo, 2015) e Guerra e revolução: um século após Outubro de 1917 (Boitempo, 2017). 

Do Portal Vermelho, com Fundação Maurício Grabois

NA REDE GLOBO A BAHIA BRANCA

Junho 2, 2018

Leci Brandão critica a produção mas afirma que a população não está mais se calando. Até pareceu que desde sua origem a Rede Globo não elegeu representar brasileiros negros como protagonistas apenas quando produz novelas e séries sobre escravizados ou presidiários.

Por Pedro Alexandre Sanches

Nas semanas que antecederam a estreia de Segundo Sol, a nova novela principal da casa, por algum despertar ainda inexplicado, o Movimento Negro conseguiu articular uma reação rumorosa à ausência quase completa de personagens e atores negros numa história sobre axé music ambientada na Bahia.

É o mesmo que já aconteceu em dezenas de novelas com sotaque baiano ou nordestino, mas desta vez não passou batido.

Chefões globais tiveram de se explicar, e se embananaram. O diretor-geral da casa, Carlos Henrique Schroeder, afirmou em entrevista que a Globo investe, sim, em elencos negros, e citou como exemplo a novela Lado a Lado (2012) – justamente uma história sobre o final da era de escravização oficial no País, como gostariam de demonstrar os antirracistas.

“Isso tem que vir naturalmente”, socorreu-o o diretor-geral da nova novela, Dennis Carvalho, o mesmo que em 2015 escalou para a novela Babilônia um elenco com forte presença negra. Babilônia foi amplamente rejeitada pelo público, e o fracasso foi atribuído a um romance com beijo na boca entre as personagens vividas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg.

Agora, a axé music embranquecida de Segundo Sol rendeu à Globo a melhor primeira semana de uma novela desde 2014. A história que a antecedeu, O Outro Lado do Paraíso, também contou com altos índices de audiência e de branquitude. Na semana final, uma vilã pálida e loira teve como punição definitiva o encarceramento numa cela em que todas as demais presas eram negras e carrancudas. 

Na quarta-feira 16, já com Segundo Sol no ar, a militante negra, cantora e compositora carioca e deputada estadual por São Paulo Leci Brandão promoveu, na Assembleia Legislativa, um debate sobre o voto negro em 2018, e o assunto do racismo global veio à tona.“Há muitos anos escrevi um negócio chamado Eu Quero uma Novela Negra no Ar, mas nunca consegui concluir essa música”, contou Leci.

“Não quero mais viver carregando bandeja na televisão, isso é um samba lá de trás, gente negra, gente negra, de se acomodar acho que já chega. A gente só vivia carregando bandeja, o homem abrindo porta de carro. E piorou, porque os escritores de novelas começaram a botar as nossas companheiras fazendo personagem de novela entregando copo d’água e levando bronca de patroa, ‘não fica olhando para a minha cara!, sai daqui!’ Eles querem cada vez mais rebaixar a gente.

Dá vontade de dar um murro na tevê. Fiz papel de escrava, lá na Xica da Silva (1996). Mas eu era a líder do quilombo, fazia uma confusão danada e morria no tiro. Mas a gente cansou. Desta vez os próprios atores da Globo fizeram uma reunião, parece que Lázaro Ramos participou, está uma confusão danada.”

Durante o encontro promovido por Leci, a socióloga negra Mariana Anto-niazzi apresenta os resultados da pesquisa Afrodescendentes & Política, realizada pelo Painel BAP. Ela cita que 54% dos brasileiros se autodeclaram pretos ou pardos e que 77% afirmam não se sentir representados pelas marcas e propagandas.

Num recorte de 1.067 eleitores afrodescendentes paulistanos, 35% declararam trabalhar com carteira assinada e 30% disseram não se identificar com nenhum presidenciável. “Essa pesquisa é tão importante que tinha que ser noticiada no horário nobre de uma tevê que tivesse coragem, qualquer uma do quinteto da mídia que manda no País e não tem nada a ver com a gente”, provoca Leci.

“A boa notícia é que estão acontecendo mudanças. A população não está mais se calando. Como uma novela feita na Bahia, onde 75% da população se declara negra ou parda, não tem nem pelo menos um núcleo negro?”, indaga Mariana. 

A controvérsia em torno de Segundo Sol coincidiu com o impacto do lançamento mundial de This Is America, videoclipe (foto)explosivo do rapper estadunidense Childish Gambino (codinome musical do também ator e roteirista Donald Glover), que emprega cenas explícitas de assassinatos para criticar a violência institucional dos Estados Unidos contra seus afrodescendentes.

Com uma dança desengonçada, ele parece ironizar o papel dos negros como entretenedores numa sociedade dominada por brancos – entre um rebolado e outro, Gambino interrompe a diversão para disparar tiros contra outros afrodescendentes.

O caso brasileiro demonstra uma população que tenta reagir timidamente e uma rede hegemônica anos-luz atrás de qualquer reflexão racial. Também presente no debate de Leci, o mestre em jornalismo (e afrodescendente) Juarez Tadeu de Paula Xavier compara as experiências dos dois países no enfrentamento ao racismo institucional e institucionalizado.

“Nos Estados Unidos eles sabem que O Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, teve papel importante na construção da imagem do homem negro como predador e estuprador e da mulher negra como lasciva e preguiçosa”, afirma.

“Aqui, a ideia das novelas é fazer a representação do lugar do negro na sociedade, num processo extremamente articulado de negação absoluta da população negra. É uma longa narrativa de persuasão que justifica a brutal repressão contra a população negra por um Estado que é genocida em relação a essa população. 

No Brasil ainda precisamos construir essa narrativa: qual é o papel que os meios de comunicação têm na legitimação da violência contra o negro?”, pergunta. A resposta, irmãs e irmãos, sopra com os ventos globais.

BELCHIOR E NIETZSCHE MUITO ALÉM DO BIGODE

Maio 19, 2018

O cantor e compositor morreu há um ano, no dia 30 de abril de 2017

Leitura das letras do compositor mostra aproximação surpreendente com as ideias do filósofo. “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava em “Alucinação” (1976).

Por Elstor Hanzen

A semelhança entre o compositor brasileiro Antônio Carlos Belchior e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche vai muito além do bigode. Sem ostentar e sequer se manifestar diretamente sobre esta influência, Belchior bebia nos conceitos nietzschianos, como a moral do rebanho, vontade de poder, eterno retorno e a crítica ao mundo idealizado pela própria filosofia, pela religião e pela ciência. A relação fica evidente quando se faz um passeio pelas letras do cearense.

Nietzsche só viveu 56 anos. Contudo, bastou para ele ser considerado um dos maiores marcos do pensamento contemporâneo. Embora não muito valorizado pelo establishment, o autor é uma referência para organização da história desde o século 19 e se tornou pop entre o público jovem. Desconstruiu a moral e os valores estabelecidos pela filosofia grega, chegando ao desmantelamento da cultura dos ídolos e da religião. Nietzsche, portanto, foi o primeiro a interromper a órbita de compreensão do mundo criado por Sócrates, Platão e Aristóteles.

Os gregos inauguraram a filosofia ocidental, separando a natureza humana e toda sua relação instintiva/sensível da parte racional e objetiva da vida, a fim de criar um mundo ideal – o metafísico –, resultado de um imaginário: o homem projeta nas coisas aquilo que ele gostaria de ser. Essa mesma lógica, posteriormente, foi popularizada pelo cristianismo, já que o povo em geral não tinha acesso nem compreensão da filosofia.

Por isso, para o alemão, o juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem. Ou seja, no entendimento dele, assim se criou o mundo ideal para negar o real.

Realista e vitalista tal como na linha das ideias afirmadas pelo filósofo alemão, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano. Como em A Palo Seco: “Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava”.

Essa leitura pode ser percebida explicitamente em vários fragmentos das letras do compositor e, de modo geral, permeia toda a obra do músico. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava no disco Alucinação, em 1976.

O cantor via a arte com finalidade útil para o homem se emancipar, um instrumento para libertar os sentidos e a certeza de viver coisas novas, não como algo meramente ornamental e ideal. Na mesma perspectiva, Nietzsche tinha a arte como estimulante da vida, afirmava que ela só era possível com a embriaguez de todo o ser, com a manifestação da vontade de potência dos sentidos fisiológicos. O filósofo comparava a verdadeira arte ao grego Dionísio, deus da festa, do sexo, da alegria, da liberdade, enfim, dos sentidos do corpo e dos afetos. Ao contrário, portanto, à lógica da razão e da verdade, representado pelo deus Apolo.

O embate de Belchior também se dava em torno das travas morais da culpa e das coisas idealizadas por certo pensamento filosófico. Para se firmar poeta de sua geração, o compositor atravessou territórios entre a alma e o corpo para forjar sua obra, buscando elementos na crueza da realidade e na sinceridade das coisas, até mesmo empregar certa violência na construção de suas letras, em que a dor ensina aproveitar melhor os momentos alegres. Ou nas palavras dele, “a felicidade é uma arma quente”.

Ademais, traziam à tona as frustrações ideológicas, filosóficas e políticas. Para este mundo cruel e caótico, Belchior procurava despertar uma lucidez e luminosidade com o conteúdo do seu discurso. Ele sabia que nada era divino e maravilhoso, e a vida real era bem pior que a letra de uma canção.

Viver é melhor que sonhar

Esta leitura mostra que a arte e a vida não podem ser separadas da realidade, em nome de um mundo idealizado, seja filosófico ou religioso. Conforme o pensamento nietzschiano, o homem forte e verdadeiro aceita e vive a vida como ela se apresenta. Já o sujeito que busca a certeza e o paraíso é um fraco e decadente, porque não sabe conviver com a pluralidade do mundo e com a incerteza do devir – as mudanças.

De forma simples e em bom português, o cearense também deixava claro sua preferência pelo mundo real. “Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia fazendo tudo de novo. E dizendo sim à paixão, morando na filosofia”, diz a letra da Divina Comédia Humana.

Por isso, quem vive só na razão e na verdade está separado dos sentimentos humanos – aquilo que Platão fazia, por exemplo: corpo x espírito, pensamento x sentimento – com o objetivo de criar o mundo da luz e da razão. Para Nietzsche e Belchior, pelo contrário, a verdadeira experiência vem da realidade e do pensamento vivo que só pode ser coletado na prática humana mais visceral, como aquela que se experimenta na aspereza das ruas.

Em Apenas Um Rapaz Latino Americano, o cearense afirma essa visão. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção: a vida realmente é diferente. A vida é muito pior”.

À proporção que se passeia pela obra do músico e se recolhem algumas amostras, tanto mais se evidencia o pensamento do alemão. Na faixa Como Nossos Pais, Belchior usa as expressões “viver é melhor que sonhar” e “mas sei também que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, construções que valorizam o sujeito em detrimento de uma projeção metafísica.

Mais adiante na mesma música, deixa transparecer certa frustração com a eterna repetição das coisas, geração após geração. “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos, como nossos pais”. Sugerindo, portanto, que é preciso alterar a ordem social e instaurar uma nova forma de vida para as coisas mudarem, assim como Nietzsche fez ao romper com a órbita do pensamento grego e cristão.

Moral de rebanho

A postura de sempre desobedecer, nunca reverenciar também é comum entre os dois autores. Essa atitude é assumida pelo homem forte e predador como uma ave de rapina, que encara a vida com altivez e anda solitário; não como um carneiro, que anda sempre em bando porque e fraco e submisso. Num artigo acadêmico publicado em 2017, sob título – Nietzsche e Belchior: muito além do bigode -, já foi discutida essa comparação.

Escreveram as autoras, Regina Rossetti e Paula Cristina: “A construção do conceito de Ave de Rapina, defendido pelo filósofo alemão, ganha voz na poesia de Belchior. Segundo Nietzsche, a ética cristã é uma moral de escravos, de indivíduos fracos e que havia – em função da construção religiosa – desvirtuado o espírito senhorial e dominante do homem”.

Para Nietzsche, os valores foram invertidos, pois tudo aquilo que é débil, humilde, sofrido ou mediano passou a ser encarado como “bom”. Por outro lado, valores como austeridade, vivacidade e ímpetos foram taxados como “mal” pelo homem fraco. Graças a essa inversão, a região, a ciência e o própria conceito de verdade ganharam tantos seguidores e submissos, porque não conseguem viver a vida como ela é e aceitar a falta de controle do futuro.

No mesmo sentido, Belchior instiga o homem a se desvincular do animal de rebanho, seguir a vida num ‘andar com os próprios pés’. “Não quero regra nem nada. Tudo tá como o diabo gosta, tá. Já tenho esse peso que me fere as costas, e não vou eu mesmo atar minha mão. O que transforma o velho no novo, Bendito fruto do povo será. E a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”, afirma em Não Leve Flores.

Espíritos livres

No livro Humano, demasiado humano, Nietzsche afirma o destino do espírito verdadeiramente livre: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem”.

Belchior, nos últimos anos de vida, aplicou radicalmente as palavras do alemão e levou uma vida de andarilho, errante. Enfrentou dias e noites incertas, encontrou muitas portas fechadas e em alguns lugares conseguiu repouso. A tudo está sujeito quem vive livremente, mas só assim é possível “o equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos”, escreveu Nietzsche.

Os pensamentos e as evidências em comuns entre as obras dos dois autores mostram que o cearense de Sobral se guiou e aplicou muitas ideias do filósofo alemão na música brasileira. O próprio Nietzsche declarava que a música era a linguagem que mais se aproximava da genuína comunicação humana. De modo que, além da ligação direta do gosto pela música, os principais conceitos do alemão aparecem nas letras de Belchior, semelhança bem mais profunda que os bigodes.

MÚSICA QUENTE: UM OLHAR SOBRE A PLURALIDADE SONORA DO BRASIL

Dezembro 9, 2017

A proposta desse espaço é falar de música, mas deslocar o olhar para além dos sucessos e dos nomes já estabelecidos, extrapolar o tradicional eixo de interesse da MPB ao rock e buscar compreender como os hits populares emergem nas periferias, sem se perder em ideias preconcebidas e análises superficiais.

“Seria impossível entender a música sem falar de shows, performances, erros e acertos, canções e discos ou sem falar das cenas culturais em que essa música está inserida. É improvável perceber a revolução de um hit sem compreender a origem dos estilos que o compõem, ou mesmo sem falar da forte influência estrangeira na pluralidade sonora do Brasil, quer seja nas raízes tradicionais ou na opressão colonizadora anglo-americana”, diz Patricktor4.

É a partir de muitas destas questões que ele escreve, em busca de aproximar o público de um outro jeito de consumir a música feita e divulgada na contemporaneidade.

Patricktor4 entende do assunto. Já se apresentou em praticamente todo o país, na Europa, na Ásia, na África e nas Américas do Norte e do Sul. O diferencial do DJ tem sido sempre promover as novas sonoridades brasileiras em seus sets, do tecnobrega ao bahia bass, passando por inúmeras novas possibilidades dessa música tão rica e diversificada, desconstruindo a pluralidade étnica que forma a musicalidade do Brasil e conectando estas batidas e melodias a seus equivalentes pelo mundo.

Como radialista, atualmente é coordenador de Programação da Frei Caneca FM, emissora pública do Recife. Já esteve na diretoria da Associação das Rádios Públicas do Brasil (ARPUB) e à frente da Aperipê FM, de Sergipe, e da programação da Cultura FM, do Pará. Nestas rádios, a marca do seu trabalho é a promoção da diversidade de conteúdo musical, dando protagonismo à cultura local e fortalecendo os cenários culturais. 

URUGUAI REDESCOBRE SEU PASSADO INDIGENA

Novembro 19, 2017

Dados oficiais dizem que eles não existem, mas os Charrua estão organizados e lutam pelo reconhecimento

Por Laura Ely

Depois da Argentina passar por uma situação de embate na luta pela terra dos mapuches, com grande mobilização nacional e internacional pelo desaparecimento e morte do ambientalista Santiago Maldonato, agora é a vez dos indígenas uruguaios cobrarem a sua conta. Sistematicamente atacada e dizimada ao longo de séculos, a etnia oriunda da banda Oriental do Uruguai, pampas argentino e sul rio-grandense soma duas mil pessoas, embora não seja reconhecida pelo país. De acordo com a história oficial, os índios tornaram-se extintos em 1831.

Para além das evidências culturais e tradições atribuídas aos gaúchos que derivariam dos indígenas, como o churrasco de carne na grelha e o chá de erva-mate, estudos genéticos realizados desafiam a crença popular de que o Uruguai foi exclusivamente povoado pelos “descendentes dos navios”, principalmente vindos da Espanha e da Itália, comprovando a existência de índios. Além do Uruguai, estão presentes no Rio Grande do Sul e na província argentina de Entre Rios.

Embora o país se considere o único da América Latina sem população indígena, grupos de ativistas reivindicam que os povos originais nunca se extinguiram. O principal deles é o Conselho da Nação Charrúa do Uruguai – Conacha, atualmente composto por 10 organizações e comunidades de diferentes partes do Uruguai.

Entre os seus principais objetivos está o reconhecimento da atual população indígena, a ratificação da Convenção 169 da OIT (que compreende especificamente os direitos dos povos indígenas e tribais) e aumentar a visibilidade da questão indígena, alcançando o aumento de auto identificação indígena no Uruguai.

Segundo o censo oficial de 2011, cerca de 160 mil uruguaios declararam ter ascendência indígena. Isso representa quase 5% da população do país, de 3,395 milhões de habitantes. Por sua vez, 255 mil uruguaios se identificaram como afrodescendentes, 15 mil como asiáticos, e quase três milhões declararam ter ascendência branca, em sua maioria procedente de imigrantes europeus vindos da Espanha ou Itália.

Filme mostra o silenciamento dos Charruas

No documentário O País Sem índios, os diretores Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez escolheram dois personagens para retratar a situação da população indígena do Uruguai a partir da história de Roberto, um trabalhador rural, e Mônica, uma professora de matemática. Descendentes charruas, eles vivem cada qual a sua maneira. Ao mesmo tempo, acadêmicos fornecem dados que permitem entender o cenário atual de uma perspectiva renovada e questionar o Uruguai que ainda se vê como “um país sem índios”.

Do seu lugar na terra, Roberto vive com base em seus valores com naturalidade e discrição. Respeitando a natureza e com um relacionamento especial com os cavalos, ele não sente a necessidade de uma luta política para reivindicar sua identidade. Mônica, por sua vez, tem um papel de liderança no movimento indígena: leva sua luta aos espaços jurídicos e acadêmicos dentro e fora das fronteiras, para obter o reconhecimento da existência do povo uruguaio e fazer justiça pelos crimes da história.

Assista ao trailer:

https://player.vimeo.com/video/212158881TEASER El país sin indios from El país sin indios on Vimeo.

QUILOMBO DOS PALMARES É RECONHECIDO PATRIMÔNIO CULTURAL DO MERCOSUL

Novembro 12, 2017

A região da Serra da Barriga, em Alagoas, acolhia o Quilombo dos Palmares, o mais conhecido da história brasileira

A região que acolhia o núcleo do quilombo, Serra da Barriga, em Alagoas, ganhou reconhecimento internacional. Neste sábado (11), será oficializada a certificação da área como patrimônio cultural do Mercosul. O título só foi conferido até agora a dois bens no país: a Ponte Internacional Barão de Mauá, ligação entre as cidades de Jaguarão, no Brasil, e Rio Branco, no Uruguai; e a região das Missões, que abrange cinco países (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia).

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares Divulgação Fundação Cultural Palmares

A Serra da Barriga foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985. Em 2007, foi aberto o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, próximo à cidade de União dos Palmares, a cerca de 80 quilômetros da capital do estado, Maceió. O projeto envolveu a construção de instalações em referência a Palmares, como a casa de farinha (Onjó de farinha), casa do campo santo (Onjó Cruzambê ) e terreiro de ervas (Oxile das ervas). O espaço ainda é o único parque temático voltado à cultura negra no Brasil e recebe anualmente cerca de 8 mil visitantes.

Visibilidade

Para Marcelo Britto, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o título de patrimônio cultural do Mercosul significa um reconhecimento internacional importante e também pode estimular a visibilidade da área por brasileiros que ainda a desconhecem.

“Um aspecto importante é a dinamização econômica, uma vez que o bem cultural ganha uma visibilidade para uma projeção de caráter nacional e internacional. Isso favorece iniciativas que tendem a promover o turismo cultural, a geração de empregos que podem ocorrer relacionadas a isso”, afirma.

Referência histórica

O Quilombo dos Palmares surgiu no século 16. Residiam nele escravos fugidos das capitanias da Bahia e de Pernambuco. O local chegou a reunir até 30 mil pessoas no seu auge, no século 17, e era organizado em pequenos povoados, chamados de mocambos. Os principais eram Cerca Real do Macaco, Subupira, Zumbi e Dandara. O maior deles chegou a ter 6 mil pessoas, quase a mesma população do Rio de Janeiro à época.

Esses mocambos constituíam uma espécie de república. As decisões políticas eram tomadas pela reunião da liderança de cada um deles em conjunto com o chefe supremo. Essa posição de comando foi ocupada por Acotirene, sucedida por Ganga Zumba e, depois, por Zumbi. No tocante às relações afetivas, Palmares era uma sociedade poliândrica, em que mulheres podem ter relação com diversos homens.

Segundo Zezito de Araújo, professor de história e supervisor de Diversidade da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas, Palmares ainda é lembrado muito pela dimensão do conflito, mas deveria ser conhecido por ter sido o primeiro grande movimento de resistência das Américas no período colonial e pela sua organização política.

“A Revolução Francesa é tida como o símbolo da liberdade, mas a luta de Zumbi aconteceu antes. Enquanto em Palmares tínhamos propriedade coletiva, produção para subsistência e para troca, na colônia tínhamos atividade agrícola para exportação e escravidão como base do trabalho. São sociedades opostas”, analisa.

Melhorias no espaço

Na opinião do presidente do Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas, Elcias Pereira, o título de patrimônio cultural será uma oportunidade importante de qualificar o espaço no momento em que o parque memorial completa 10 anos. “Recebendo esse título pode haver a melhoria dos equipamentos. Nestes últimos 10 anos, os investimentos não foram feitos como deviam. O acesso precisa ser arrumado, pois durante boa parte do ano há problema para chegar em razão das chuvas”, aponta Pereira.

Segundo Carolina Nascimento, diretora de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, responsável pelo parque nacional, ajustes e melhorias no espaço serão feitas a partir de um conjunto de iniciativas que já começaram a ser debatidas em uma oficina realizada neste ano em Maceió.

Entre as ações previstas estão a instituir um comitê gestor da Serra da Barriga, analisar a capacidade de recebimento de pessoas, reassentar algumas famílias ainda resistentes na área, implantar unidades de conservação ambiental, elaborar um plano de conservação e criar um centro internacional de referência da cultura negra.

“Neste momento em que casos de racismo estão se acirrando, o reconhecimento deste bem cultural é uma forma de combater a discriminação racial e valorizarmos a cultura afro-brasileira”, diz a diretora da fundação. 

Duas vezes Judith Butler no Brasil divulgação

Novembro 5, 2017

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social

Por Carla Rodrigues*

São títulos de momentos distintos da sua obra: o primeiro livro data de 2012 nos EUA e discute questões ligadas à violência de Estado; o segundo tem publicação original em 1997 e é parte dos desdobramentos teóricos exigidos pelas questões abertas desde o final dos anos 1980, quando da publicação de Problemas de Gênero (1989 nos EUA, 2003 no Brasil).

Engana-se, no entanto, quem pretender estabelecer uma separação teórica a partir da distância temporal existente entre o livro de 1997 e o de 2012. Em A vida psíquica do poder, Butler está animada pela leitura da filosofia de Michel Foucault, no qual o tema do poder é central na formação dos sujeitos, na subjetividade, no assujeitamento – termo estabelecido como tradução brasileira para assujettissement. Butler parte deste aparente paradoxo do termo sujeito, que ao mesmo tempo quer dizer se constituir como “eu” e estar submetido a uma estrutura de poder, para revisitar diferentes pensadores – como Hegel, Althusser, Nietzsche e Freud –, e dar continuidade a um tema inaugural da sua obra, o estatuto do sujeito na filosofia contemporânea.

A partir de 2001, para ser mais exata, a partir do 11 de setembro de 2001, Butler coloca em debate o poder do Estado sobre os sujeitos. Emerge então o tema de Caminhos divergentes e do seminário que o acompanha, Os fins da democracia, no qual Butler estará debatendo acompanhada de sua companheira, Wendy Brown, ela também uma pensadora crítica do modelo democrático norte-americano, seja pelo fracasso do multiculturalismo e de suas políticas de consenso e tolerância, seja por sua expansão neocolonial em uma política internacional pautada por violência, guerras e invasões.

Caminhos divergentes tem assim grande contribuição a dar no debate sobre o que pode um Estado. Inspirada nas suas críticas à violência do Estado de Israel, já criticadas como anti-semitas, Butler encara o desafio de recolher fontes judaicas para criticar a política israelense e afirmar que a crítica ao sionismo não equivale a antisemitismo. São mobilizados pensadores como Hannah Arendt, Primo Levi e Walter Benjamin. Dele, Butler recupera o importante Por uma crítica da violência, de 1921, no qual o alemão percebe como a violência de Estado se sustenta no tripé militarismo, polícia e pena de morte. É ali também que Benjamin pensa a violência constitutiva do ordenamento jurídico dos estados modernos.

É verdade que, como Butler observa, a crítica de Benjamin foi sendo desacreditada ao longo do século 20 por uma corrente de pensadores que pretendeu afirmar o direito como o mecanismo pelo qual se poderia enfrentar a ascensão do fascismo. Mas é verdade também que, para outros autores, entre os quais eu localizaria Giorgio Agamben, o direito não fornece instrumentos suficientes para combater o estado de exceção que participa, como paradigma de governo, das democracias modernas.

É aqui talvez que os caminhos divergentes de Butler mais se aproximem dos descaminhos tomados pela política brasileira contemporânea e tornem sua presença no Brasil tão mais importante. Não porque nos seja tão útil discutir a política externa norte-americana, embora esta sem dúvida nos afete cada vez mais na sua expansão neocolonial. Escárnio, no entanto, parece o ponto que mais nos toca no diagnóstico de Butler: “o escárnio tanto do direito constitucional quanto do internacional que caracteriza a política externa dos Estados Unidos em suas práticas de guerra, tortura e detenção ilegal”. Interessa ao momento brasileiro sobretudo pela primeira parte da frase – o escárnio ao direito constitucional –, que tem significado o desprezo das liberdades individuais e de todo aparato político-democrático que o Brasil parecia ter construído nas última décadas. É deste diagnóstico que ela mesma tem sido alvo, nos inúmeros protestos contra a sua vinda ao país, que ignoram a liberdade como direito fundamental.

Por fim, da primeira vez em que esteve no Brasil, em 2015, de Butler foram lançados Quadros de guerra (Civilização Brasileira) e Relatar a si mesmo (Autêntica), o primeiro editado nos EUA em 2009 e o segundo em 2005. Suas palestras em Salvador, na UFBA, e em São Paulo, no Sesc Mariana em grande medida surpreenderam plateias que ainda esperavam a autora de Problemas de gênero, mas encontraram uma filósofa propondo paradoxos que ainda desafiam tanto os teóricos quanto os militantes: como continuar mobilizando vulnerabilidades a fim de pedir proteção estatal ao mesmo Estado que é violento justamente com os sujeitos mais vulneráveis? Para boa parte da militância que esperava a mera adesão de uma filósofa queer, foi um susto ouvir Repensando vulnerabilidade e resistência.

Agora, grupos radicais de direita insistem em encontrar em Butler aquilo que ela não é: nem a primeira e principal formuladora da teoria queer nem a inventora do gênero como construção social. Na ambigüidade do título do seminário (Os fins da democracia) está uma resposta possível aos seus ruidosos e mal informados opositores: estamos diante dos fins da democracia, seja porque é preciso repensar seus objetivos e métodos políticos, seja porque é urgente encontrar formas de substituir a democracia representativa como modelo de governo que fracassou, tanto a ponto de destruir o valor que lhe seria mais caro, a liberdade.

*Carla Rodrigues é professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ. Fez especialização, mestrado e doutorado em Filosofia na PUC-Rio e pós-doutorado no IEL/Unicamp. É coordenadora do laboratório de pesquisa Escritas – filosofia, gênero e psicanálise

O Caranguejo de Gabriela Sobral resgata a ancestralidade feminina

Outubro 15, 2017

Gabriela Sobral é jornalista, autora do livro Caranguejo

Por Mariana Serafini

“Eu sempre tive essa coisa com a volta, com a memória. E sempre voltei muito, sou afeita às minhas memórias e o livro é o resultado dessa busca, eu consigo visualizar algo novo, algo para o futuro, a partir disso’’. É assim que Gabriela apresenta sua primeira obra, um livro de poesias que foi nascendo, nascendo aos pouquinhos, e vem à luz na próxima sexta-feira (20).

Gabriela é jornalista, mestra em Patrimônio Cultural e “agora escritora”. Com seu Caranguejo se joga no mundo das palavras com ganas de quem busca um mergulho na história para fazer do presente tempo e espaço aberto a acolher as mulheres. “Eu não acho que exista uma ‘escrita feminina’, somos apenas escritoras que passam por um processo de provação porque as questões femininas são sempre muito invisibilizadas. É como se nossos sentimentos tivessem que ser mantidos sempre no âmbito do privado”.

Com este livro, Gabriela dá visibilidade ao universo feminino. “Minhas referências são muito minhas memórias e o livro fala muito das mulheres que passaram pela minha vida. Minha família tem muitas mulheres e elas sempre falaram muito, cresci cercada de histórias orais e isso me fez perceber que talvez as mulheres ‘falem muito’ porque têm muito a dizer”.

Inspirada em escritoras, poetas e mulheres fortes, Gabriela pretende que seu Caranguejo possa também determinar um espaço, “dizer que há produção feminina e que as mulheres estão num momento de se organizar, de pensar sobre si próprias porque nós vemos o mundo de uma forma muito completa e por isso quando agimos, vamos do afeto à política com muita intensidade”.

Nascida, criada e formada no Pará, as palavras dela podem causar estranhamento em quem tem pouca, ou nenhuma ligação com a cultura local. Justamente por isso, ela fez questão de usar este vocabulário. “Minha mãe, que revisou meu livro, mandou eu tirar a palavra ‘rebujo’, que se usa muito no Marajó. Eu falei que ia tirar, mas não tirei. Eu acho que essas palavras querem dizer alguma coisa”.

Gabriela em entrevista ao Vermelho | Foto: Clécio Almeida 

Sem a pretensão de lançar um livro, as poesias de Gabriela nasceram quando ela começou a ler outras mulheres. Este foi o ponto de virada. “Eu passei a produzir muito mais, e a perceber a escrita de outra forma”. E não são poucas as mulheres que a inspiram: Ana Cristina César, Elena Ferrante, Maria Lúcia Medeiros, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Matilde Campillo, entre muitas outras. Além de ler, se inspirar e buscar referências em mulheres, a “recém escritora” também ministrou uma oficina, junto a outras amigas, para disseminar a literatura feminina. O clube literário Leia Mulheres começou em São Paulo, foi para Belém e serviu para despertar o interesse de jovens a este segmento menos “difundido” no mercado editorial.

Além destas escritoras, o livro de Gabriela também traz as referências que ela adquiriu ao longo da vida, e claro, as leituras mais recentes que de alguma forma contribuíram para a consolidação desta obra. “Tem livros e escritores que me fizeram amar o mundo, me apaixonar. O Jorge Amado é um deles porque foi um dos meus primeiros contatos com a literatura. O Milton Hatoum também é incrível. A Clarice Lispector é um nome que vem desde o tempo da escola”.

Resultado de memórias, história e espírito de coletividade, Caranguejo tem prefácio do amigo Felipe Cruz, professor de literatura e crítico literário, e posfácio da amiga Maíra Valério, editora do blog Vulva Revolução. “Nascer é presencial, esse livro me ensinou, e o que é presencial fere, sangra. Desse lugar Gabriela Sobral observa, ampla. Infla com suas palavras articuladas, em infinito desdobramento, as lembranças que inundam o presente e o tornam solo fértil para semearmos o amanhã”, diz a apresentação do livro.

O lançamento acontece na próxima sexta-feira (20), na livraria Patuscada, na capital paulista, a partir das 19 horas – Rua Luís Murat, 40, Pinheiros.