Archive for the ‘Carta Capital’ Category

Ubu Rei: o usurpador real como metáfora de Temer

Junho 15, 2017

Teatro Ubu Rei

Peça com Marco Nanini e Josi Campos serve de exemplo para o país que tem um governante cruel no poder.

por Eduardo Nunomura

Um rei cruel, ganancioso e covarde que conquista brutalmente o poder e não tem escrúpulos para governar o povo de maneira totalitária. Pode-se dizer que em todas as épocas há um rei Ubu, e o Brasil de hoje parece a síntese perfeita desse enredo. Na história, Pai Ubu, interpretado por Marco Nanini, assume o trono ao assassinar o rei Venceslau da Polônia e passa a matar e roubar a população para se perpetuar no poder.

Em seguida, o usurpador envolve-se numa guerra com a Rússia. Enquanto isso, sua mulher, Mãe Ubu, interpretada por Josi Campos, igualmente sórdida e vil, tenta roubar o tesouro da Polônia, mas enfrenta a resistência do príncipe herdeiro, Bugrelau, que lidera uma revolta popular.

A realidade cênica implícita pode passar despercebida pelo público mais desatento, desavisado ou desinteressado do espetáculo Ubu Rei, em cartaz até 25 de junho no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Como, por sinal, reagem muitos brasileiros diante do golpe orquestrado por Pai Temer, digo, Pai Ubu. E novamente a montagem de Daniel Herz ajuda a refletir sobre a permanência de um reinado tirânico.

O personagem de Nanini, um déspota mentiroso, despudorado e assassino, é a clássica figura do anti-herói. Faltam a Pai Ubu os atributos morais de um líder nato. Mas, mesmo assim, não é de todo impossível que parte dos súditos o queira nesse posto justamente pela ausência dessas qualidades.

Ubu Rei, com seus personagens desbocados e despudorados, escandalizou a Paris do fim do século XIX. O texto de Alfred Jarry, na época com 23 anos, foi mal recebido por um público até então acostumado a montagens clássicas e com personagens mais previsíveis. A peça tragicômica serviu de inspiração para diferentes movimentos da dramaturgia moderna, como o surrealismo, o dadaísmo e o Teatro do Absurdo.

 Foi encenada por diversas companhias do mundo todo, como tentativa de dar uma resposta às crescentes ondas de brutalidade e turbulência social dos séculos XX e XXI. A atual montagem brasileira é favorecida pela rica execução da trilha sonora ao vivo pelos integrantes da Cia Atores de Laura, que dão uma vivacidade extra à narrativa de Jarry.

O existencial de Memórias de Adriano e o teatrão de Tudo no seu Tempo

Fevereiro 13, 2016

Memórias-de-Adriano

O existencialismo em ‘Memórias de Adriano’ e o “teatrão” dos anos 1960 em ‘Tudo no seu Tempo’

por Alvaro Machado

Desde a publicação, 1951, o romanceMemórias de Adriano  conheceu várias safras de popularidade. A autora belga Marguerite Yourcenar (1903-87) foi a primeira mulher alçada à Academia Francesa.

Assim como na narrativa da decadência do imperador romano após a morte do amado, o catamita Antínoo para o qual conseguiu aura de semideus, Yourcenar abordou com frequência a homossexualidade masculina.

Diz-se que viveu à larga, com paixões por homens e mulheres e boêmia entre Paris, Atenas e Nova York, onde também ensinou. Legou fundação para a preservação de vida selvagem.

O existencialismo inspirado de Adrianomereceu boa adaptação de Thereza Falcão e interpretação em profundidade de Luciano Chirolli, 54 anos, talvez o mais memorável ator de sua geração.

Suas escolhas desenham leque de coerência, com pontos altos em Büchner, Lorca, Dürrenmatt, Fassbinder e parcerias com Maria Alice Vergueiro, entre elas As Velhas, pela qual Chiurolli recebeu prêmio Shell de melhor ator, e Why the Horse?, ainda a ser apresentada em cidades de todo o País.

Memórias de Adriano. Direção: Inez Viana. Teatro Jardel Filho (CCSP), até 28 fev. No Teatro Sesc Copacabana a partir de 14 de março.

A débâcle de Adriano parece perturbar o intérprete a ponto de causar tropeços de fala, que conferem, porém, ainda mais pungência ao monólogo. O texto perturbam também as plateias, pois Yourcenar conferiu universalidade incontestável ao drama de maturidade do poderoso romano, a ultrapassar fronteiras de classe e de gênero sexual.

O monólogo ganhou, ainda, uma espécie de resposta musical contínua, nos instrumentos eletrônicos tocados ao vivo pelo músico Marcello H. Já a moldura cenográfica contemporânea simples e eficaz, com centenas de  radiografias médicas a compor painel de luz, tem concepção de Aurora dos Campos.

Asas à imaginação

Tudo no seu tempo_GustavoTrestini_e_CynthiaFalabella_foto Ligia Jardim.jpg“E se pudéssemos revisar e mudar nossas vidas?” (Ligia Jardim)

O dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, 76 anos, é fenômeno de produção teatral, com 78 peças montadas até hoje, e por isso campeão mundial de encenações, uma vez que a maneira como trata seus temas é apreciada do Japão à Patagônia. Ao deixar-nos, o cineasta francês Alain Resnais (1922-2014) preparava o quarto filme baseado em peça do xará londrino.

Herdeiro do teatro de boulevard da mais sofisticada escrita, com a chamada carpintaria teatral em habilidade máxima, Ayckbourn imaginou, em 1993, quiproquó a envolver inesperado túnel do tempo e um sexteto urbano transportado entre os anos 1986 e 2036 pela mágica de uma passagem oculta entre quartos de um hotel.

Comunicating Doors compreende anacronismos também em nível de produção, um “teatrão” como os dos anos 1960, a incluir intervalo e o pacto em que o espectador deve aceitar previamente convenções e ilusões do palco italiano, burguês, e tornar-se cúmplice dos intérpretes.

Tudo no seu tempo. Direção: Eduardo Muniz. Teatro Jaraguá (SP), até 20 de março.

Evolui do inseguro ao tocante o registro dado a Cynthia Falabella para a prostituta ingênua, centro da questão embutida neste tablado: “E se pudéssemos revisar e mudar nossas vidas?”.

Na direção, o também ator carioca Eduardo Muniz, 32 anos, revela desenvoltura com a troca alucinada de quadros de quartos de hotel e épocas diversas, mesmo com o budgetclaramente limitado de produção.

Ao estagiar ao lado de sir Ayckbourn, em Scarborough, no litoral da Inglaterra, Muniz tornou-se aluno amigo do autor e foi convidado, em 2013, para hospedagem em sua casa e a estreia local de Chegadas e Partidas, a peça que Resnais iria filmar. Muniz traduziu vinte textos do dramaturgo e atuou ou dirigiu em quatro deles.

A terra acolhe o enraizado com a luta humana Pete Seeger

Janeiro 29, 2014

http://www.cartacapital.com.br/cultura/lidera-a-gente-ai-pete-4630.html/pete/image_preview

Da Carta Capital

“Lidera a gente aí, Pete.” Foi assim que Bruce Springsteen pediu a Pete Seeger, na véspera da posse de Barack Obama, em uma Washington D.C. gélida, para iniciar a rendição, nas escadarias do monumento dedicado a Abraham Lincoln, de This Land is Your Land, o clássico do amigo, mentor e parceiro de aventuras Woody Guthrie, padrinho honorário da folk music do lado de cá do Atlântico. Guthrie tinha 88 anos e aquele momento foi, ironicamente, o pináculo e a derradeira celebração da combalida esquerda norte-americana. Desta vez, o artista marcado na lista negra do McCarthismo, namorado assumido do comunismo na primeira metade do século passado, estava dentro da Casa Branca. Em 1969, trinta anos antes, ele gritara, depois de entoar Give Peace a Chance com uma multidão de ativistas, “O senhor está nos ouvindo, presidente Nixon?”

Esta terra é sua/esta terra é minha, anunciava Guthrie em 1945. E seguia: De um lado daquela placa/está escrito: propriedade privada/ mas do outro/ não há nada escrito/ esta terra é minha e sua. Seeger e Springsteen entendiam o valor simbólico do encerramento da celebração oficial da eleição do primeiro presidente negro com a letra subversiva. Seeger gostava de contar a história de que a música fora composta em 1940, mas somente gravada em 1945, quando, com melodia de hino batista, já estava na cabeça e no gogó de milhares de norte-americanos. Ele, como Guthrie, jamais dependeu da indústria da música para encontrar seu público.

Apesar de ter gravado uma centena de discos, de todos os formatos imagináveis, era partidário do download de músicas gratuitas, dos shows sem custo para quem não podia pagar por suas apresentações e da crença, quiçá ingênua, desenvolvida ainda quando tocada ukulelê em Harvard e militava na Juventude Comunista, de que a música podia sim mudar a vida das pessoas, das comunidades, das nações, do planeta.

A apresentação com Springsteen, que o homenageara três anos antes com o belíssimo álbum We Shall Overcome: The Seeger Sessions, era a afirmação tardia da chegada da esquerda ao poder nos EUA. E a passagem, mais ou menos oficial, do bastão do violão, ou, vá lá, guitarra do povo, de Guthrie para Seeger para Dylan para Springsteen. No show tributo aos 90 anos de Seeger, em um Madison Square Garden apinhado de gente, Springesteen assim apresentou seu amigo mais velho: “Pete Seeger, um arquivo vivo da música popular americana, mas também de nossas consciências, um testamento do poder da música, das canções e da cultura de empurrar a História adiante”.

Três anos depois, chapéu vermelho à cabeça a fim de se proteger como podia do frio antecipado de uma noite gélida de outubro em Nova York, decepcionado com a quebra da promessa do governo democrata de fechamento da base militar de Guantánamo, inconformado com a contínua ocupação do Afeganistão, enojado por ter de pagar de seu bolso pelo resgate do viciado sistema financeiro, o avô menestrel avançava novamente o cordão da História e se unia aos jovens do Ocupem Wall Street na praça Zuccotti. Apesar da preocupação da (des)organização do movimento, com os líderes propositadamente não ungidos, incluindo seu neto Tao, temerosos com a vontade do nonagenário de marchar por 30 blocos ao som de We Shall Overcome, de Symphony Space, nas imediações da rua 95, até o limite sul do Central Park, em Columbus Circle. Pois não só o senhor de 92 anos andou uma vez mais pelas ruas de Manhattan com uma multidão repetindo seus versos, como deu uma bengalada – uma das duas que carregou, com orgulho, pela caminhada – com gosto em uma escultura de um elefante, símbolo do Partido Republicano, como repetiu palavras de ordem como “Ninguém vai nos parar/um outro mundo é possível” e “Nós somos os 99%”.

Seeger sempre esteve com a maioria, orgulhoso em viver como um dos 99%. Sua encarnação mais recente, a de defensor e promotor incansável da despoluição do rio Hudson, transformou a economia de Nova York de forma decisiva, abrindo toda uma nova área de turismo para o estado, com a possibilidade do uso das praias fluviais triplicando o valor de mercado das – impossível não registrar a trapaça do destino – propriedades privadas em cidades como Hudson e Beacon.

Em seu discurso para os meninos do Ocupem, Seeger foi direto e extremamente generoso, rompendo com a velha esquerda e abraçando a novidade das ruas, seu palco predileto: “Desconfiem sempre dos líderes absolutos. Minha esperança é a de que este movimento signifique o nascimento de centenas, de milhares de pequenas lideranças”. Esta era, além da oposição à ocupação civil-militar do Iraque, a posição política que mais admirava em Barack Obama: o líder comunitário que mostrava querer, honestamente, tocar em problemas jogados para debaixo do tapete no século ianque, como o aumento da desigualdade social, o descaso pelos alijados do sonho americano, o direito civil das minorias, o ataque desumano aos imigrantes não-documentados.

É possível falar do Seeger antinazista dos anos 30. Do parceiro de Guthrie, Lead Belly e Alan Lomax na redescoberta das raízes da música americana e de seu povo nos anos 40. Do simpatizante destacado do Partido Comunista e articulador da cena folk do Village nova-iorquino na década de 50. Do ativista ferrenho contrário à guerra do Vietnã, condenado a um ano de prisão por “atividades antiamericanas” em 1961, banido pelos canais de TV e criador da música-símbolo da luta pelo direito civil dos negros nos EUA, We Shall Overcome (nós marcharemos/de mãos dadas/ e um dia/sinto no fundo de meu coração/ iremos superar estes tempos), nos 60 e 70. Do compositor que viu na Bíblia a resposta para as injustiças sociais de seu tempo, dando aos Byrds o hit Turn! Turn! Turn! profetizando que as mudanças sociais viriam, independentemente da vontade dos poderosos. Do artista denúncia da revolução conservadora de Reagan e de sua aproximação, na época, com um Springsteen irado pela apropriação insidiosa de seu Born in the USA, uma canção inspirada pelas músicas de protesto progressistas e antiguerra (aqui eles colocam um rifle em minhas mãos/me enviam para um terra estrangeira/para matar asiáticos) do repertório de Seeger, pela campanha de Ronald Reagan. Do homem que enxergou na defesa do meio ambiente, em conjunção com a criação de postos de emprego e de proteção para o pequeno agricultor, nos idos dos 90, uma escapatória ao sufoco neoliberal, e forçou a General Electric a limpar toda a porção americana do Hudson.

Mas, especialmente, para milhares de americanos e admiradores dos quatro cantos do planeta, de cinco gerações diferentes, além das muitas composições e recuperações de cantigas populares poderosas como If I Had a Hammer, Where Have All the Flowers Gone?, Jacob’s Ladder e Oh, Mary, Don’t You Weep em sua inigualável voz de tenor, reverbera, hoje, nestes tempos bicudos, mais do que nunca, a deixa de Springsteen: “Lidera a gente aí, Pete”.

Funarte e Juca Ferreira buscam “descriminalizar” hip-hop em São Paulo

Abril 12, 2013

Da redação de Carta Capital

O promotor de vendas Bruno de Andrade, 18 anos, mora no bairro de Heliópolis, zona sul de São Paulo. Fã de rap, reclama que precisa ir até o centro da cidade para ver os shows que deseja, mesmo quando os grupos têm origem na periferia. “O cara tem que vir da favela para o centro ouvir um rap, e não o contrário, como deveria ser”, diz. Andrade foi uma das pessoas que participaram de um encontro entre o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, com grupos e artistas ligados ao hip-hop na noite de quarta-feira 10, no Centro Cultural São Paulo. O encontro uniu artistas famosos, como os rappers Rappin Hood e Emicida, além de produtores culturais, professores da rede pública, MCs, DJs e dançarinos. No evento, eles escancaram os problemas deste movimento cultural na cidade.

O gênero vem sendo escanteado pelo poder público desde o conflito no show do Racionais MC`s na Praça da Sé em 2007. Naquele dia, diversas pessoas ficaram feridas em uma ação da polícia durante o show na Virada Cultural. Desde então, o rap tem ficado relegado ao segundo plano nos eventos culturais da cidade.

Juca Ferreira recebe artistas ligados ao hip-hop nesta terça. Foto:

 

No inicio do evento, o secretário disse que existe uma “dificuldade” na relação entre o poder público e o hip-hop em São Paulo. Segundo ele, há uma “quase criminalização” do movimento na cidade. Ferreira prometeu mudanças e a descriminalização do movimento, dizendo que a inclusão de artistas de hip-hop no aniversário da cidade neste ano foi um primeiro passo neste sentido.

No debate de quarta-feira, diversos problemas foram apresentados: a falta de equipamentos culturais na periferia, a concentração de dinheiro na mão de poucos artistas, a baixa qualidade dos professores na rede pública ligados ao gênero, a falta de políticas de gênero envolvendo o hip-hop e diversos outros pontos. “A gente não tem que viver de política pública. O que a gente tinha era que poder fazer tudo de maneira privada, mas a gente ainda não tem como”, disse Rappin Hood no evento.

O encontro foi o segundo da série “Existe diálogo em São Paulo”. O primeiro, realizado em fevereiro, não teve um tema específico e contou com a participação de mais de mil pessoas.

Reivindicações

No evento, o MH2O (Movimento Hip-Hop organizado) entregou uma série de reivindicações à secretaria municipal. Elas foram levantadas em uma reunião convocada pelo produtor Milton Sales no último sábado 6 na Favela do Moinho, no centro da cidade.

Entre as demandas, está a criação de cinco casas de hip-hop, o fomento a estúdios públicos de gravação, a criação de um VAI (Programa de Valorização de Iniciativas Culturais) específico para a área e a formação de um “conselho da favela”, nos moldes do conselho da cidade. A íntegra do documento pode ser acessado clicando aqui. Rodrigo Savazoni, chefe de gabinete de Juca Ferreira, se comprometeu a criar um grupo de trabalho para discutir as demandas apresentadas na reunião.

Juca Ferreira se comprometeu com outras reivindicações apresentadas. Ele concordou com a crítica de que as casas de cultura não aceitam o hip-hop e defendeu que elas deixem de ser administradas pelas subprefeituras e passem a ser centralizadas na secretaria. O secretário municipal também disse que levantará a proposta de criar conselhos locais nessas casas de cultura para aumentar o diálogo com a população.

O promotor de vendas Bruno de Andrade espera que a reunião ajude a ampliar as oportunidades de lazer na periferia e a diminuir a exclusão da música. “Ano passado, não teve vinte shows de rap onde eu moro. E nenhum teve ajuda da prefeitura. Antes o rap era mais criminalizado, mas era mais forte na favela”, diz.