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A arte como militância: MST cria escola itinerante para acampados e assentados

Julho 13, 2017

A ideia é que os trabalhadores tenham acesso às produções culturais e também dominem as técnicas para realizá-las - Créditos: Divulgação / MST

O objetivo do projeto é promover o acesso a produções culturais e o ensino de técnicas artísticas para os trabalhadores.

Raíssa Lopes

Até o dia 15 de julho, Belo Horizonte recebe a Escola Itinerante de Arte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A iniciativa nasceu do Festival Nacional de Arte e Cultura da Reforma Agrária, realizado em 2016, e consiste em uma série de oficinas, das mais diversas linguagens artísticas, ministradas para assentados e acampados da reforma agrária.

A ideia é que os trabalhadores tenham acesso às produções culturais e também dominem as técnicas para realizá-las, como explica Guê Oliveira, do setor de cultura do MST. “Queremos colocar a classe trabalhadora como protagonista em todas as dimensões da vida, e também usar a arte para dialogar com a sociedade. Mas, para isso, a gente precisa se apropriar dela, ocupar esse espaço que nos foi expropriado, assim como foi a comunicação, a educação”, explica a militante.

Durante os dias de imersão, acontecem espaços de artes cênicas com João das Neves, literatura com Lirinha, canto com Titane e cultura popular com Pereira da Viola. Também vai ter percussão, expressão corporal, oficina de viola e debates sobre filmes. Todos os artistas participam de forma voluntária.

Oficinas

Para Pereira da Viola, as oficinas são melhor descritas como momentos de “vivência e convivência”. Ele vai apresentar um pouco de sua formação como artista, seus ritmos e experiências. “Ninguém consegue criar a cultura popular dentro de um escritório. A Escola Itinerante é tão importante por isso, porque faz o movimento ocupar-se daquilo de que é dono, de que o povo é dono”, afirma o violeiro.

A perspectiva é que a Escola Itinerante viaje o país para chegar a assentados de toda parte do Brasil e também prepare pessoas para um circuito de festivais que irá acontecer em oito cidades de Minas Gerais, ainda neste ano.

Edição: Joana Tavares

Documentário retrata cena punk feminista dos anos 1990

Julho 11, 2017

A história do movimento punk feminista no Brasil dos anos 1990 será contada em documentário produzido somente por mulheres. O projeto, que no momento conta com financiamento coletivo no Catarse, se chama Faça Você Mesma e tem direção de Letícia Marques e produção de Patricia Saltara.

Riot Grrrl é o nome do movimento na época e surgiu quando garotas da cena punk underground começaram a formar bandas só de mulheres. O projeto do filme traz representatividade tanto na produção, com uma equipe formada somente pelo sexo feminino, quanto no conteúdo, que trata deste momento praticamente não lembrado da cena musical do rock no Brasil. A equipe também vivenciou a cena punk feminista: continuam tocando em bandas até hoje.

Letícia conta como surgiu a ideia do longa: “A Patricia Saltara, que faz o documentário comigo, me chamou e falou ‘cadê a Letícia pra fazer o filme sobre a cena?’. E isso vinha das conversas de que não estava tendo representatividade feminina nos documentários da cena brasileira musical”.

O nome Riot Grrl tem origem no inglês e faz referência à rebeldia. Em uma cena musical dominada por homens, o movimento abordava temas feministas, fazendo com que o público fosse em sua maioria composto por mulheres, que viam nos encontros uma forma de se fortalecerem. A quantidade de bandas que surgiram nos anos 1990 foi grande, podendo se citar nomes como Dominatrix, TPM, Lamina, Kolica, Kaos Klitoriano, Anti-Corpos, entre outras.

O intuito do projeto, segundo Letícia, é resgatar as histórias das protagonistas do movimento, seus desdobramentos o que ele significou na vida destas mulheres: “A intenção é que ele possa trazer essa identificação pra outras mulheres e pra outras pessoas. Lá no início do projeto, eu bati na tecla de dar esse reconhecimento a essa história. Esse é um registro inédito de fato, essa história nunca foi contada, como muitas histórias das mulheres nunca foram contadas e não estão escritas na história”.

Ainda em fase de produção, o documentário Faça Você Mesma está com campanha de financiamento coletivo no Catarse, para dar continuidade às entrevistas, cobrir despesas e finalizar as gravações. “A gente tá num momento que tem que ter cada vez mais diversidade pra gente ter sociedades mais justas, tolerantes e igualitárias.”

Homenageado da Flip, Lima Barreto escreveu crônica contra o feminicídio em 1915

Junho 26, 2017

O texto “Não as matem” é parte da obra Vida Urbana, uma coletânea do autor publicada em 1953.

São Paulo – “Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes”. Esse trecho é de uma crônica de 1915 escrita por Lima Barreto, o homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, provando que feminicídio não é um problema dos nossos tempos.

O texto “Não as matem” é parte da publicação “Vida Urbana”, uma coletânea de crônicas e artigos do autor publicada em 1953.

Confira a íntegra:

Não as matem

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.

O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.

O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.

Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.

Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

(Vida urbana, 27-1-1915)

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Não nasci rodeada de livros, mas de palavras, conta Conceição Evaristo

Junho 6, 2017

Uma escritora negra de 70 anos, Conceição Evaristo, autora de livros de crítica social e com forte apelo à ancestralidade como: “Becos da Memória”, “Ponciá Vicêncio” e “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”. Apesar da qualidade da obra, a mineira só ganhou reconhecimento depois dos 44 anos.

Por Norma Odara

Conceição relembra que cresceu num espaço de “miserabilidade”, onde é uma grande coisa. Ela conta com uma infância penosa não é tratada de apologia à pobreza, mas sim relembrar seus tantos anos como duros. E acrescenta que sempre esteve rodeada do imaginário, do lúdico e do fantástico, da “conceiversidade”.

“Era uma carência material muito grande. Mas por outro lado a vivência, uma riqueza cultural que a gente vivia, com contação de histórias, meu tio, muito próximo a mim era da congada, então eu tenho toda uma lembrança da organização. As línguas que fazem como iguarias, fazendo flores para enfeitar a capela. Das conversas que se davam depois das festas, nos encontros familiares, dos visitantes e servidores muito relacionados com a sobrevivência. Ir ao córrego lavar roupa, ir no mato buscar lenha. Esses O que é que é um problema de aprendizagem, mas a pobreza pode ser um lugar de aprendizagem. “Muito que eu aprendi vem da condição social que eu vivi”, conta Conceição.

A oralidade é marca presente de Conceição Evaristo. Ela rebate fortemente uma cultura vigente de que é necessário para o texto e o crescimento em um ambiente rodeado por intelectualidade para produzir literatura. “Eu não nasci rodeada de livros, nasci rodeada de palavras e também no sentido de ensaio que é uma cultura da oralidade e parte do nosso patrimônio”, lembra.

Por fim, Conceição fala sobre a felicidade que sente ao ver cada vez mais mulheres negras escrevendo e expandindo a literatura. “Eu vejo como meninas que estão produzindo agora, elas são mais explícitas com determinadas temáticas que a gente não era, falamos nos nossos desejos, dúvidas, carinhos, hoje eu vejo essa escrita mais nova trazendo esses temas com muita competência, com uma ousadia que nós não tivemos”.

Em 2015, Conceição foi vencedora do prêmio Jabuti, na categoria contos, com a obra “Olhos d’água”. Em 2017 foi convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Quem mora em São Paulo pode conferir até o dia 18 de junho uma exposição que revela sua obra e carreira na 34ª edição da Ocupação do Itaú Cultural.

“O socialismo é uma doutrina triunfante”, diz Antonio Candido

Maio 13, 2017

Em entrevista concedida à jornalista Joana Tavares, do Brasil de Fato, em 2011 o sociólogo e crítico literário Antonio Candido falou sobre sua percepção a respeito do socialismo, e outras questões políticas.

Trazemos a entrevista na íntegra nesta sexta-feira (12), dia que Antonio Candido morreu, aos 98 anos.

Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Aos 83 anos, João das Neves novamente no palco

Março 13, 2017

A peça já está sendo apresentada nas sextas, sábados e domingos até 19 de março no Teatro Francisco Nunes, em BH - Créditos: Guto Muniz / Divulgação

Renomado nacionalmente, ator apresenta nova peça teatral “Lazarillo de Tormes” em BH.

Rafaella Dotta

Antigo ofício, novas práticas. O ator João das Neves está novamente no palco aos 83 anos de idade e experimenta novidades para a produção. Através do site Benfeitoria, a montagem da peça está sendo financiada por doações. A meta é atingir R$ 15 mil, mas “Lazarillo de Tormes” já está em cartaz.

“Por questões burocráticas da Secretaria Municipal de Cultura acabamos não conseguindo a liberação do patrocínio. Mas não íamos parar a peça por isso”, comenta o ator, que também é diretor e roteirista da peça. A campanha de doação está aberta até 30 de março. A peça já está sendo apresentada nas sextas, sábados e domingos até 19 de março no Teatro Francisco Nunes, em BH.

Um quase herói

“Lazarillo de Tormes” foi escrito entre 1500 e 1600 na Espanha e é um dos primeiros textos a ter como personagem principal um “anti-herói”, ou seja, um herói sem virtudes clássicas de herói. “Os personagens são engraçados e ao mesmo tempo dolorosos”, explica João das Neves. A peça fala sobre as desventuras de um menino miserável que precisa sobreviver e se mete em variadas confusões.

O roteiro nasceu de um texto encontrado no ano 2000 por dois operários que derrubaram acidentalmente a parede de uma velha mansão na Espanha, descobrindo ali uma biblioteca escondida há 400 anos. O texto provavelmente foi escondido para ser salvo das fogueiras da Inquisição da Igreja católica, que proibia livros que não tivessem aval do reino.

João das Neves adaptou a obra ao terreno brasileiro. A peça ganhou trejeitos de circo e um texto em cordel, poesia típica do Nordeste. “É assustador em como a peça se parece com o Brasil atualmente. A situação do Lazarillo se repete muito com os meninos de rua daqui, que tem que se virar para morar na rua e acabam reféns do tráfico ou de pequenos roubos”, conta o ator.

A quem for assistir à peça, a promessa é de risadas e de reflexão. Apesar das situações engraçadas de Lazarillo, o espectador é levado a ver a tragédia por detrás delas. “A peça te coloca naquela situação de riso, mas que depois dá até uma dor no coração de estar rindo da miséria”, comenta. João divide o palco com Glicério do Rosário, Rodrigo Cohen e bonecos de Paulo Emílio e a direção musical é de Titane e André Siqueira.

Quem é João das Neves?

O ator nascido no Rio de Janeiro (RJ) foi um dos mais importantes nomes do teatro chamado de protesto brasileiro e um dos fundadores do Grupo Opinião, em 1964. Na primeira montagem da companhia, João das Neves e Augusto Boal dirigiram a peça “Opininiando”, com a participação de Zé Keti, João do Vale, Nara Leão e Maria Bethânia, em plena ditadura militar.

João das Neves é diretor, ator e escritor, e já levou ao palco peças como Besouro, Cordão de Ouro e Galanga Chico Rei, em parceria com Paulo César Pinheiro; Zumbi, de Augusto Boal; A Farsa da Boa Preguiça, com texto de Ariano Suassuna; e mais recentemente a peça Madame Satã, em parceria com Rodrigo Jerônimo, na versão adaptada para o Oficinão do Galpão, em Belo Horizonte.

Confira entrevista com João das Neves, sobre a “Lazarillo de Tormes”, em cartaz em BH:

“É assustador ver como o texto se parece com o Brasil de atualmente”

Brasil de Fato MG – Pode falar um pouco da peça?

João das Neves – A peça é baseada num clássico espanhol de mesmo nome, do século XVI, portanto precedeu Dom Quixote e romances da Idade Média para cá. Trata de um momento de miséria muito grande na Europa, quando as pessoas miseráveis eram perseguidas. O Lazarillo inaugura a série dos chamados anti-heróis, aqueles personagens que têm que se virar na vida. São engraçados e ao mesmo tempo dolorosos. A peça te coloca naquela situação de riso, mas que depois dá até uma dor no coração de estar rindo da miséria.

Qual a atualidade dessa peça?

É assustador em como isso se parece com o Brasil atualmente. A situação do Lazarillo se repete muito com a dos meninos de rua daqui, que têm que se virar para morar na rua e acabam reféns do tráfico ou de pequenos roubos. É admirável como a miséria acaba se perpetuando por tantos séculos. Bem aqui em nosso país, estávamos tendo algumas melhorias justamente para essas pessoas e lá vem um golpe.

Vai ser através de financiamento coletivo, certo?

Por questões burocráticas da Secretaria Municipal de Cultura acabamos não conseguindo a liberação do patrocínio. Mas não íamos parar a peça por isso. Vamos fazer no peito e pedimos que amigos e apoiadores nos ajudem a bancar o mínimo. Espero também que ganhemos alguma coisa, para não ficar como o Lazarillo (risos). Mas a falta de verba não ia impedir e não nos impediu.

Aos 60 anos de atuação no teatro, você ainda tem frio na barriga quando sobe no palco?

Frio na barriga propriamente não, eu tenho é calor (risos). Tenho muita experiência, mas a estreia dá sempre uma adrenalina. É inevitável que a gente fique nervoso quanto à recepção do público, coisas que não estão bem testadas. Eu escrevi, dirigi e atuo na peça. É tanta coisa na cabeça que o frio na barriga passa até despercebido.

Você faz teatro político?

Teatro político não, eu faço teatro. Vivo num país chamado Brasil e é impossível não se preocupar com as coisas que acontecem. E isso é matéria prima do teatro. Obviamente é um teatro profundamente preocupado com o caminho que seguimos e a nossa cultura. É político sim, na sua essência, como tudo que se faz voltado ao interesse coletivo. Mas não estou dentro de uma determinada vertente.

Você participou muito, em 2016, da ocupação da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em BH, que aconteceu logo depois da extinção do Ministério da Cultura pelo governo não eleito de Michel Temer. Como avalia essa experiência?

Tem uma série de coisas positivas e negativas. A ocupação da Funarte foi a primeira resposta a esse governo ilegal, que tomou posse através de um golpe, e começa imediatamente a agir contra direitos adquiridos. A resposta imediata das pessoas da cultura foi importante para dizer que estamos alertas. A própria ocupação em si foi uma experiência boa, se vivia uma horizontalidade de decisões. Tudo era decidido com todo mundo. Problemas domésticos eram tão importante quanto problemas políticos. Parece que era um microcosmo do Brasil. Todos os problemas que existiam fora passaram a existir dentro também, o que acabou trazendo algumas dificuldades graves. Não impedíamos ninguém de entrar na ocupação, e ela está em um lugar que tem tráfico, prostituição, moradores de rua e pessoas que tinham interesse em tumultuar a existência da ocupação. Lidar com essas contradições foi difícil e rico. Ao mesmo tempo, conseguimos apresentar mais trabalhos lá do que a Funarte fez o ano todo. Tudo de graça. Mas um “de graça” que valeria a pena e renderia frutos posteriores.

Qual sua opinião sobre o MINC de hoje?

Existe? (risos) Esse governo é ilegítimo, tanto governo quanto o ministério. Não pode haver boa gestão de governo que nasce de um ninho de cobras.

Edição: Joana Tavares

Semana de Arte Moderna completa 95 anos

Fevereiro 18, 2017

"Abaporu", pintura a óleo da artista Tarsila do Amaral, obra icônica do movimento antropofágico brasileiro - Créditos: Reprodução

O movimento foi responsável pela consolidação do Modernismo Brasileiro.

Lilian Campelo
Brasil de Fato | Belém

A Semana de Arte Moderna de 1922 completa nesta semana 95 anos. O movimento, que ocorreu entre os dias 11 e 18 de fevereiro, rompia com os paradigmas culturais de um país que ainda vivia sob as estruturas quase feudais da monocultura do café.

Um grupo de artistas plásticos e intelectuais desejavam a ruptura com a tradição acadêmica e influências da cultura europeia, principalmente a francesa. A proposta era revolucionar as expressões artísticas, e encontraram na cultural brasileira inspiração para seus processos criativos.

Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de 22 teve apresentações de recitais de músicas e poesia, palestras, danças e exposições de pintura, escultura e arquitetura. Apesar das vaias do público que não reagiu muito bem as inovações artísticas apresentadas, o movimento contribuiu com importantes mudanças no cenário da arte brasileira.

A abertura do evento no dia 13 foi feita por Graça Aranha com a conferência A Emoção Estética na Arte Moderna, que criticava o conservadorismo e o academicismo da arte brasileira. Manuel Bandeira leu o seu ensaio A Escrava que não Era Isaura na escadaria do teatro.

O evento contou ainda com a apresentação da pianista Guiomar Novaes e o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos, que subiu ao palco de casaca e descalço para reger a orquestra, sendo vaiado pelo público que ainda respirava os ares europeus.

Villa Lobos apresentou uma série de três espetáculos durante o evento. Com as composições Amazonas e Uirapuru, ambos de 1917, o maestro consolidou seu estilo. Em Uirapuru o maestro buscou inspiração em uma lenda indígena.

Participaram do evento os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, Agenor Barbosa, Guilherme de Almeida, Plínio Salgado e Sérgio Milliet; os artistas plásticos Brecheret, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Vicente do Rêgo Monteiro; entre outros.

A Semana de Arte Moderna, significou o marco inicial do modernismo no Brasil. Embora influenciado pelas vanguardas europeias, o movimento estimulou escritores e artistas a produzirem cultura com características nacionais, valorizando as manifestações populares brasileiras.

Mário de Andrade foi um desses artistas. Pesquisador e folclorista, ele percorreu os estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Maranhão e Pará em 1938 em uma expedição chamada Missão de Pesquisas Folclóricas. O escritor registrou o som de cantigas de rodas, entoadas de Bumba meu boi, cânticos de matriz africana e outras manifestações populares. O resultado gerou o registro de 1299 fonogramas.

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Mosaico Cultural

Locução: Norma Odara

Produção: Lilian Campelo

Sonoplastia: Mauro Ramos

Edição: Mauro Ramos

Pensador alemão Karl Marx será tema de filme

Dezembro 30, 2016

O Jovem Marx

Vida do sociólogo revolucionário é enredo do filme “O Jovem Marx”, já em fase de pós-produção.

A vida do sociólogo alemão protagonista de alguns dos mais importantes estudos e críticas ao sistema capitalista, Karl Marx, é tema do filme “O Jovem Marx”, do diretor Raoul Peck. A película já está em processo de pós-produção e a estréia tem data prevista para 15 de junho de 2017.

O enredo se passa na época em que Marx conheceu o também teórico Friedrich Engels, ao lado do qual escreveria “O Manifesto Comunista” e seria precursor do socialismo científico, dando as primeiras bases concretas — e não só teóricas — para o caminho da luta dos trabalhadores. Engels era filho de um industrial e autor de um estudo sobre as péssimas condições de trabalho dos operários britânicos.

A produção, enredada no ano de 1844, aborda como os dois começaram uma parceria não só intelectual, mas também política, que incluiu manifestações populares e repressão policial ao longo dos anos.

O filme é protagonizado por Auguste Diehl no papel de Marx, Stefan Konarske como Engels e Vicky Krieps como Jenny, a esposa de Marx. Além deles, há vários personagens da época e localidade, como Moses Hess, ideólogo do movimento conhecido como sionismo trabalhista, e o socialista alemão Karl Grun.

Documentário “Raízes” faz busca pela ancestralidade negra brasileira

Novembro 24, 2016

Cena em que aparece Kelton, personagem que busca seus ancestrais  - Créditos: Reprodução

Filme que tem lançamento previsto para 2017 denuncia o apagamento da história dos negros no Brasil

Livro “A hora do teatro épico do Brasil” é relançado após 20 anos

Outubro 28, 2016

Da esquerda para direita, Helena Albergaria, Iná Camargo Costa e Sérgio de Carvalho - Créditos: Nadine Nascimento/Brasil de Fato

Iná Camargo Costa traz nova edição da obra em debate sobre arte e resistência em São Paulo (SP).

Nadine Nascimento
 
O teatro político foi tema do debate de relançamento do livro A hora do teatro épico do Brasil, de Iná Camargo Costa, realizado nesta quarta-feira (26), no estúdio Latão, zona oeste de São Paulo (SP). Reunindo atores, dramaturgos, pesquisadores acadêmicos e militantes, o encontro comemorava os 20 anos da primeira edição da obra.
O ciclo de debates A hora do teatro épico no Brasil e o trabalho crítico de Iná Camargo Costa teve em sua mesa de abertura, além da própria autora, os intelectuais Rafael Villas Boas, professor da Universidade de Brasília (UNB), e Sérgio de Carvalho, da Companhia Latão e professor da Universidade de São Paulo (USP). A mediação ficou sob a responsabilidade de Helena Albergaria, também da Companhia Latão.

Os debatedores relembraram a trajetória de vida e de militância política de Iná até chegar ao seu objeto de estudo do doutorado, o teatro épico. A pesquisadora foi vítima da perseguição política aos grupos de teatro durante a ditadura militar.

“A minha pergunta era: o que tem de tão grave que a ditadura precisa perseguir estudantes fazendo teatro? Isso foi o que me levou a integrar de forma muito empenhada um grupo de pesquisa, criado no fim dos anos de 1970 na USP, que se dedicou a fazer o levantamento mais exaustivo possível de materiais relativos à produção da arte política dos anos 1960”, lembrou Iná.

A autora foi influenciada, principalmente, pelas ideias do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, um dos maiores nomes do teatro épico. Segundo ela, esse tipo de teatro deve “partir de um problema e não de um tema”; portanto, deve fazer uma análise crítica da sociedade, levando o espectador a reagir e a tomar posição.

20 anos depois

O livro, que tem sua reedição publicada pela Expressão Popular, foi disponibilizado originalmente em 1996. Questionada por Carvalho sobre a recepção da obra na época, Iná lembrou sobre a grande procura por grupos de teatro.

“Quando o livro foi publicado veio a pergunta: ‘Estamos no início dos anos 1990. Quem se interessa por esse tipo de livro? Para minha surpresa, o primeiro sinal de recepção foi de um grupo de teatro gaúcho. E, assim, eu descobri que o que eu escrevi como uma tese de doutorado era legível para grupos de teatro. Eles sofriam aquela mesma repressão que eu sofria na ditadura. O livro gerava uma interlocução que eu sonhava sem saber”, afirmou.

Para ela, essa reedição “é um aviso aos novos grupos sobre a importância de não desistir da luta”.

Teatro e resistência

A certa altura, o debate relacionou o relançamento do livro com a atual situação política do Brasil e os ataques aos direitos dos trabalhadores. Para Iná, a política de conciliação de classes dos últimos anos é um dos principais motivos da crise.

“Hoje no Brasil podemos dizer que a política de reformas ‘pavimenta avenidas’ para o fascismo. A política da social-democracia de alianças, que paralisa a luta dos trabalhadores, também caminha para o fascismo. Assim que Temer assumiu, passamos a ter um governo oficialmente fascista. Eles mobilizaram a classe média, que é a grande massa fascista. A gente viu isso desde 2013 até agora. E é o capital financeiro que patrocina tudo isso”, analisa Iná.

Segundo ela, o teatro e a cultura têm importância “secundária” em relação à intervenção política. Iná acredita que o mais importante é “a formação política e teórica, bem como a organização da militância para a a luta propriamente dita”. Quando estas questões estiverem devidamente contempladas, o próximo passo seria “cuidar da cultura em geral e da cultura específica da luta”.

Edição: Camila Rodrigues da Silva