Archive for the ‘Portal Vermelho’ Category

“GRITO MUITO, MAS QUERO ECO”, DIZ ELZA SOARES SOBRE COMBATE AO RACISMO

Fevereiro 11, 2018

 

Parece que o fim do mundo está chegando pela janela do apartamento de Elza Soares, empoleirado sobre a Avenida Atlântica, de tão densa a névoa que cobre a Praia de Copacabana. Nem parece haver mar nem horizonte numa tarde abafada do verão carioca. Fim? Nem pensar. A protagonista de “A Mulher do Fim do Mundo”, álbum de 2015, continua criando, e se reinventando, aos 80 anos. Elza entra em estúdio na próxima segunda feira para começar a gravar o próximo álbum, que agora proclama no título: “Deus É Mulher”.

Elza tem recebido homenagens pelos 80 anos que completou em junho do ano passado, mas já teria 87 anos de acordo com um segundo registro de nascimento. Ela se recusa a falar qual está certo. “Esse negócio de idade… Não tem idade, cara. Sou atemporal.”

O mote do novo disco segue a onda de protestos do trabalho recente da cantora, que levanta bandeiras contra o racismo, violência doméstica, homofobia, e agora foca no “empoderamento todo que as mulheres estão tendo, graças a Deus”.

“Eu vim protestando com “A Mulher do Fim do Mundo” e volto com o mesmo protesto, mas dando mais força às mulheres. Pondo mais a mulher na frente. Nós mulheres sabemos que podemos ficar à frente”, diz. “Mulheres podem liderar e pode haver Deus dentro de cada uma de nós. Por que não? Por que Deus não pode ser mulher? Deus é mulher.”

Elza diz que o “grito” das mulheres já vem de muitos anos, mas está sendo mais ouvido agora.
“O momento é propício para o grito. Esse grito não pode ser silenciando. Tem que continuar gritando, e muito”, afirma.

Com um medalhão dourado de São Jorge no peito, Elza fala sobre as lutas às quais empresta sua voz rouca e potente, reforçadas pela imagem “guerreira” de quem superou a pobreza, o preconceito, a morte de três filhos e a violência do ex-parceiro, o jogador Mané Garrincha.

Quando eram casados, Elza viveu desde os tempos áureos, com os títulos das Copas de 1958 e 1962, à derrocada do jogador para o alcoolismo no fim da carreira, quando começou a bater nela e chegou a quebrar seus dentes em um ataque.

Uma das músicas do último álbum virou um hino denunciando a violência contra mulheres. “Maria da Vila Matilde” conclama mulheres a ligar para o 180 e denunciar seus parceiros em casos de agressão, com as palavras de ordem: “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.

Elza se separou após 17 anos de casamento – e diz gostar de pensar apenas nos bons momentos com Garrincha, sem querer remoer o sofrimento.

Batizada Elza da Conceição, a cantora nasceu em um sítio em Padre Miguel e cresceu em Água Santa em meio à pobreza. Casou-se aos 12 anos. Aos 13 anos, já mãe, perdeu um dos dois filhos para uma pneumonia. Aos 21 tornou-se viúva do primeiro marido, de quem herdou o sobrenome Soares.

A jovem Elza carregou caixa d’água na cabeça e foi doméstica, faxineira, empacotadora – tudo menos cantora. Apesar da inclinação que sentia desde criança, aquele caminho não era uma opção para a família. Quando os dois filhos pegaram uma pneumonia grave e não havia dinheiro para antibióticos, o desespero a levou a se inscrever escondida da família no programa de calouros de Ary Barroso na Rádio Tupi. Vestiu uma roupa larga demais da mãe e enfiou alfinetes onde sobrava pano. O visual ficou tão peculiar que Ary Barroso, ao vê-la, perguntou de que planeta ela vinha. eio à pobreza
A resposta de Elza, que pesava “30 e poucos quilos”, cortou os risos debochados do auditório. “Do planeta fome”, rebateu. Ela saiu do programa com um prêmio em dinheiro, correu para a farmácia e medicou os filhos. Um deles reagiu, mas o outro morreu poucos dias depois.

Neste ano, sua história de vida vai virar uma biografia escrita pelo jornalista Zeca Camargo (Editora Leya) e um musical para o teatro. Um filme também está em fase de planejamento, com a atriz Taís Araújo vivendo a protagonista.

Elza se mostra avessa a perguntas que tematizem o passado e a velhice. Medo da morte? “Nunca conversei com ela não. Deixo ela distante.”

Uma mesa na sala reúne alguns dos muitos prêmios acumulados pela cantora, que ganhou o Grammy Latino na categoria de melhor disco de música popular brasileira por “A Mulher do Fim do Mundo”, em 2016.

“Eu não olho para trás. Eu olho para a frente. Eu olho o hoje. É o que eu digo sempre, my name is now”, afirma, repetindo o bordão (“meu nome é agora”) que deu nome a um documentário sobre sua trajetória, lançado em 2015.

“Deus É Mulher” será lançado ainda neste ano, e a cantora continua em turnê com o show “A Voz e a Máquina” – uma boa metáfora desse corpo que, esteja com 80 anos ou 87, segue enfileirando um projeto atrás do outro. “Meu futuro está aí. Deixa o futuro vir. O passado já foi.”

Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida à BBC Brasil:

BBC Brasil – Elza, existe um conflito sobre a sua data de nascimento. Qual é a verdadeira?

Elza Soares – Não comento. Não se pergunta sobre idade a mulher. Esse negócio de idade… não tem idade, cara. Sou atemporal.

Você teve um ressurgimento surpreendente depois do lançamento de ‘A Mulher do Fim do Mundo’. Como é se tornar um ícone pop na sua idade?

Gente, eu não sei sobre esse negócio de idade, o que que tem idade, idade… Você tem o tempo, a matéria, o espírito, entendeu? Acho que quando você resiste, você está bem, aguentando tudo, é maravilhoso. Eu vejo meninos aí não aguentando nada, meninas não aguentando nada.

Então como você se sente na fase de vida em que está hoje?

Completamente bem, fantástica, maravilhosa, trabalhando, viajando muito. Sucesso absoluto. Feliz.

O que inspirou a escolha do nome “Deus É Mulher” para o novo disco? Em que sentido você quer dizer que Deus é mulher?

Com “A Mulher do Fim do Mundo a gente veio denunciar tudo que não presta. Como os problemas não tiveram fim, aliás, é muito difícil acabarem, a gente volta agora com “Deus É Mulher”. Acho que as mulheres, com o empoderamento todo que têm agora, graças a Deus, elas podem muito bem liderar e pode haver Deus dentro de cada uma de nós. Por que não? Por que Deus não pode ser mulher? Deus é mulher. Eu vim protestando com “A Mulher do Fim do Mundo” e volto com o mesmo protesto, mas dando mais força às mulheres. Pondo mais a mulher na frente. Nós mulheres sabemos que podemos ficar à frente. Acho que é por aí.

Você já passou por muitas dificuldades na vida. Como a sua trajetória influenciou a sua carreira e o seu jeito de cantar?

Garra. Vontade. Entendeu? Acreditar. Tudo isso você tem que ter contigo. Eu acredito. Eu tenho garra. Eu tenho persistência. Eu acho que isso faz acontecer.

Em seu último disco você toca em temas sensíveis, e um deles é violência doméstica, com a música “Maria da Vila Matilde”, que virou uma espécie de hino pela causa. Você sofreu esse problema no passado – o que fez com que, em 2015, você quisesse falar no assunto?

Eu já vinha falando sobre isso há muito tempo. Eu falo de política desde que comecei a cantar. De ser mulher, de ser negra. De ser mulher negra.

A violência doméstica, por mais que você fale e tente combater, ainda é muito presente. É triste que você ainda tenha a necessidade de fazer músicas falando da violência contra a mulher, que é uma coisa horrível. Isso você vai ter que falar a vida toda? É um câncer, né?

A gente fala da negritude, tem que falar da cor de pele, que é uma coisa absurda, né, tem que estar toda hora gritando, “olha!”, “olha!”, como um pregão, sempre.

Como você vê o movimento atual do feminismo, com tantas mulheres quebrando o silêncio sobre violência sexual e gerando um efeito-dominó de denúncias de assédio?

Acho que valeu o passado. Acho que para esse presente de agora, valeu o passado. Porque tudo se copia, né? Eu acho que essa cópia aí é maravilhosa, porque as mulheres estão podendo falar mais, estão podendo gritar mais.

Mas isso já vem de um passado em que as mulheres vinham gritando, queimaram sutiãs, foram queimadas. Então você vê que a mulher já vem com um grito de muitos anos. Talvez sejamos ouvidas agora. Agora. Mas esse grito já vem de longe. Acho que o eco está sendo agora, mas o grito vem de longe.

O que é diferente no momento atual? Acha que é um momento propício para o grito?

O momento é propício para o grito, lógico. Esse grito não pode ser silenciado, tem que continuar gritando, e muito. Gritar mesmo, sem interrupção.

Você costuma dizer em seus shows que o Brasil é negro. O que você acha que falta para a sociedade encarar de frente a desigualdade racial?

Deixa eu te contar. Eu recebi uma homenagem no Memorial (da América Latina) em São Paulo com uma orquestra sinfônica maravilhosa (a Jazz Sinfônica), grande maestro, grandes músicos, uma homenagem belíssima. No momento que eu vi a Sinfônica, senti uma coisa meio estranha. Não vi um negro nessa Sinfônica. Então eu pergunto, onde estão meus negros? O que eles estão fazendo? Por favor, lutem, busquem, porque vocês têm o direito também. Aliás, temos o direito.
Quando eu cantei “a carne mais barata no mercado é a carne negra” – não é a carne negra. Foi a carne negra, entendeu? Cantei (a música “A Carne”) e fui muito aplaudida quando falei que sentia falta de um negro naquela Sinfônica.

Sua história com o Garrincha teve momentos muito difíceis. É deles que você se lembra mais quando pensa nele?

Eu penso nos momentos de amor. Procuro esquecer os momentos de ódio, porque a coisa pior do mundo é o ódio, né? Então penso no momento de amor, que foi lindo.

Você já disse que o futebol brasileiro morreu com ele. Foi isso que causou o 7×1 na Copa de 2014?

Eu acho que morreu mesmo. É falta de Garrincha, né? Garrincha nunca ganhou dólar, nunca ganhou euro, era canela, pé, aquelas pernas tortas maravilhosas. E aquele menino brincando de jogar futebol, né? Brincando sério.

Você viveu a ditadura e chegou a ir para o exílio com o Garrincha. Como você vê o momento político atual do país à luz do que viveu naquela época?

Eu tenho muito medo da palavra ditadura. O Brasil não merece essa palavra. A gente tem que pensar muito antes de falar sobre política, porque está tudo tão conturbado. O momento pede consciência. Saber o que está acontecendo.

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. Quando o povo quer, a coisa acontece. Tem que ter consciência do momento que estamos atravessando. Por favor, a eleição vem aí, povo, por favor. Olha esse Brasil como é que está. Esse país que, lá fora, às vezes vira brincadeira, vira chacota. Você não quer ver teu país sendo falado dessa maneira tão triste.

Eu sou muito otimista. Eu acredito que isso é um momento que nós estamos atravessando, e vai passar. Acredito. Acredito nesse povo brasileiro sofrido, que isso vai passar. É um momento trágico, um momento ruim, mas acho que vai vir um momento bom para gente também. Assim como veio para a Elza Soares, há de vir para o Brasil.

É um momento difícil para o Rio também, com a crise e a onda de violência que o Estado está enfrentando.

Ah, eu vejo esse Rio chorando. O Rio que é um Rio de alegria. A gente tem uma cidade tão maravilhosa. E passar por esses momentos cruéis assim. Eu vejo o Rio pedindo socorro, pedindo misericórdia, “help me”. Assim eu vejo o Rio de Janeiro, pedindo socorro.

Quais são as coisas em que você se agarra para ter fé?

Deus, lógico, primeiramente Deus. Acredito muito em Deus e me agarro nos meus santinhos maravilhosos. Nossa Senhora de Aparecida, São Jorge, sempre pedindo misericórdia. Não peço só para mim, não. Peço misericórdia para a nação.

Com toda essa rotina de shows, como é seu dia a dia, sua de cuidar da saúde?

Eu sou muito tranquila. Cuido muito bem do meu corpo. Três vezes por semana tenho fisioterapia. Cuido da minha saúde, da minha alimentação, eu sei que preciso me cuidar. Por isso que eu digo, cuidem do Brasil porque o Brasil precisa se cuidar.

As pessoas às vezes te associam a cirurgias plásticas, às intervenções que você fez. Como você vê a vaidade feminina e a imagem que você tem?

Adoro um espelho. E para adorar um espalho adoro cirurgia plástica, adoro tudo. Acho que a mulher merece tudo, tem que ser linda, vaidosa. Mulher. Bons vestidos de seda, boas camisolas lindas, maravilhosas. Olhar no espelho e dizer, sou feliz comigo mesma. É muito bom.

Mas a mulher sofre uma objetificação muito forte, a ideia do corpo sarado, das capas de revista com mulheres perfeitas. Você acha que isso tem que ser questionado nesse novo movimento de feminismo?

Não sei. Eu sei que eu gosto de mim, gosto de malhar, gosto de estar bem. Gosto de fazer uma cirurgia plástica se precisar. Eu não vou fazer mais.

Mas faria cirurgia plástica maravilhosamente bem, não sei se precisa; se precisar, também faço. Eu acho que é por aí. Se o espelho me questionar, vou. Eu falo até para o espelho, pode esperar que eu volto amanhã para você.

Você casou com 12 anos. Como foi para você casar tão cedo, e como a sua sexualidade se desenvolveu ao longo da sua vida?

Eu soltava pipa, jogava bola de gude, com filho no colo. Pegava balão, corria muito, brincava com eles. Foi assim que foi a minha vida. Era criança e mãe. Tanto que meus filhos me chamam de Conceição até hoje. Era como se fôssemos amigos.

Com tudo o que você sofreu, o que você diria se pudesse falar com a Elza do passado, ainda menina em Água Santa?

Não sei. É muito gozado, eu não olho para trás. Eu olho para a frente. Eu olho o hoje. Eu digo sempre, my name is now (“meu nome é hoje”). Eu não gosto muito do passado. O passado já foi, já sei. O futuro não sei o que virá. Então, eu vivo hoje.

Como era a sua casa da infância em Água Santa?

Era bem pobrezinha, mas tinha muita riqueza lá dentro. Tinha toda a minha família. Éramos seis irmãos.

Quando você se descobriu cantora? Seus pais eram contra?

Eu sempre soube. Por incrível que pareça. Sempre gostei de cantar, desde pequenininha. Ser cantora na época era uma coisa pejorativa. Meu pai queria que eu estudasse muito, que não falasse em ser cantora, nada disso. Mas ele tocava violão e pedia para eu cantar com ele… Mas ele queria que eu fosse professora. Olha onde ele queria me jogar, professora. Eu não ia conseguir ser uma boa professora porque não iam me pagar, e eu ia brigar muito. Ia ficar essa coisa horrível de sempre ter uma greve.

Quando você era criança adolescente, que música chegava aos seus ouvidos?

Era só rádio, né? Eu me lembro de Orlando Silva, que chegava para a gente, e de Glenn Miller. O Brasil era todo americano. O Brasil não era Brasil, era Brasil americano.

O Brasil não gosta muito do Brasil. Eu não sei o que acontece. Você liga o rádio ainda hoje e escuta muito pouca música brasileira.

O que você acha que você representa como um símbolo musical?

Cara, é porque eu grito muito, entendeu? Talvez seja pela minha luta, pelas minhas guerras, minhas buscas. Mas eu queria eco dos meus gritos. Pela raça, buscando, falando, brigando por eles. Brigando por nós, né?

Você tem medo da morte, Elza?

Nunca conversei com ela não, entendeu? Deixo ela distante. Não tenho muita confiança com ela não. Deixa ela pra lá.

Você não para de fazer planos para o futuro.

Não, lógico, meu futuro está aí. My name is now. E deixa o futuro vir. Como deveria ser. O passado já foi.

O que você diria que é a mulher do fim do mundo?

É uma mulher que tem coragem de dizer, de lutar, de buscar. Uma mulher que luta, sozinha. Mulher.

Anúncios

A Revolução Russa e o revisionismo histórico

Setembro 24, 2017

 

Por Domenico Losurdo*

Duas epidemias assolaram o mundo em 1918. Uma foi a influenza espanhola […] A outra epidemia foi o bolchevismo, que por determinado período pareceu quase tão contagioso quanto e no final das contas se provou tão letal quanto a influenza.”
(Niall Ferguson, The War of the World, pp. 115-5).

Assim nos fala o mais bem sucedido historiador ocidental de nosso tempo, para quem a Revolução de Outubro evidentemente não passa de um capítulo na história de loucura (e de loucura criminosa, diga-se). E no entanto essa mesma revolução pôs fim ao monstruoso “genocídio” [Völkermord] tão memoravelmente denunciado por Rosa Luxemburgo, essa mesma revolução forçou o fim do que Bukharin chamou de uma “sombria fábrica de cadáveres”.

A Primeira Guerra Mundial foi uma carnificina total em que até mesmo pessoas completamente alheias ao conflito foram obrigadas a participar. Conforme observou o respeitado historiador britânico A. J. P. Taylor, “cerca de 50 milhões de africanos e 150 milhões de indianos foram envolvidos, sem consulta, em uma guerra a respeito da qual não compreendiam nada”. Foram simplesmente recolhidos pelo governo londrino e deportados a milhares de quilômetros de distância, para serem conduzidos a uma “sombria fábrica de cadáveres” que agora operava a pleno vapor na Europa. Foram levados lá como membros de uma “raça inferior”, que uma “raça superior” podia em boa consciência sacrificar como bucha de canhão (ver Guerra e revolução: o mundo um século após Outubro de 1917, pp.176-7, 309 e 168).

E, no entanto para Ferguson, e para a ideologia hegemônica hoje, não há dúvida: a dominação colonial e o banho de sangue da guerra mundial são sinônimos de normalidade, ou mesmo de sanidade psicológica, enquanto que a Revolução de Outubro – oposta a tudo isso – representa uma epidemia, a disseminação da loucura.

Quando afinal teria atacado primeiro essa doença revolucionária? De acordo com outro dos mais aclamados historiadores da corte por parte do ocidente liberal e capitalista, Richard Pipes, o Outubro Bolchevique não passou da conclusão do ruinoso ciclo histórico que iniciou na Rússia com a Revolução de 1905. Outros expoentes do revisionismo histórico vão ainda mais longe, afirmando que, no ocidente, o vírus revolucionário e essa epidemia toda começou a encolerizar-se já em meados do século XIX, com a publicação do Manifesto Comunista, ou ainda antes, com a disseminação da filosofia das luzes que deu origem revolução jacobina (prólogo à Revolução Bolchevique).

A essa altura, tudo fica evidente: tanto para os revisionistas históricos quanto para a ideologia dominante, equaciona-se saúde espiritual e mental com estabilidade do ancien régime. No conjunto, esse último foi caracterizado por uma hierarquia social e racial, caracterizado nas colônias pela expropriação, deportação e dizimação dos nativos. Esse é o mundo que a Revolução de Outubro teve o grande mérito de mergulhar em crise. Se o apelo de Lênin aos “escravos coloniais” para que rompessem seus grilhões inspirou e estimulou a revolução anticolonial mundial, outros slogans ainda estão para serem realizados. Talvez eles devessem ser repensados hoje, tendo em vista realizar sua plena efetividade.

* nasceu em 1941, na Itália. Professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino. Pela Boitempo, lançou A linguagem do império: léxico da ideologia estadunidense (2010), A luta de classes: uma história política e filosófica, e o mais recente Guerra e revolução: o mundo um século após Outubro de 1917 (2017)

Fonte: Fundação Maurício Grabois

Os contrastes de Caravaggio: quatro séculos do pintor

Julho 19, 2017

Caravaggio foi um pintor barroco, o melhor exemplar da pintura naturalista do início do século 17; morreu em 1610 aos 38 anos

Por Max Altman

Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, pintor italiano, morre em 18 de julho de 1610, aos 38 anos em Porto Ercole. Sua obra poderosa e inovadora revolucionou a pintura do século 17 pelo caráter naturalista, realismo por vezes brutal, erotismo perturbador e o emprego da técnica claro-escuro que influenciou numerosos pintores cujo talento foi revelado depois de sua época.

Caravaggio foi um pintor barroco, o melhor exemplar da pintura naturalista do início do século 17. Utilizou modelos da classe mais baixa da sociedade em seus primeiros trabalhos e posteriormente nas composições religiosas em que apela ao gosto da Contra Reforma pelo realismo, simplicidade e compaixão na arte. Igualmente importante foi a introdução dos efeitos dramáticos do claro-escuro.

Ele levou uma vida dissoluta, rica em escândalos provocados por sua índole violenta de desordeiro – chegando até a matar durante uma briga –, a frequência habitual ao bas fond e às tavernas, bem como por sua sexualidade escandalosa para a época, o que lhe acarretou inúmeros problemas com a justiça, a Igreja e o poder. Encontrou em sua arte, uma espécie de “redenção de todas as torpezas”. No entanto foi necessário esperar o começo do século 20 para que seu gênio fosse plenamente reconhecido, independente da reputação corrosiva.

O pintor nasceu em 28 de setembro de 1573, na montanhosa cidade da Lombardia, Caravaggio. Levou quatro anos como aprendiz no ateliê de Simone Peterzano em Milão, antes de ir a Roma em 1593, onde passou a auxiliar o pintor Giuseppe Cesari, para quem pintou quadros de frutas e flores. Entre os seus trabalhos iniciais mais conhecidos estão cenas da vida cotidiana, por exemplo, Os Músicos (1591?-1592, Metropolitan Museum, Nova York) ou A Vidente (1594, versões no Louvre, Paris, e no Museo Capitolino, Roma) quadros de grande apelo aos seguidores do artista.

O estilo da maturidade de Caravaggio começou por volta de 1600 com a encomenda para decorar a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi em Roma com três cenas da vida de São Mateus. O Chamado de São Mateus (1599? -1600) é notável por seu dramático uso da “luz de sótão”, que emana de uma fonte acima da ação a fim de iluminar o gesto de mão de Cristo (baseado no Adão de Michelangelo na Capela Sistina) e outras figuras, a maioria das quais com roupas contemporâneas. Por volta de 1601, Caravaggio recebeu seu segundo grande encargo da igreja Santa Maria del Popolo em Roma para a Conversão de São Paulo e A Crucificação de São Pedro.

Acusado de assassinato, Caravaggio fugiu para Nápoles em 1606. Ali passou vários meses executando obras como O Flagelo de Cristo (San Domenico Maggiore, Nápoles), cruciais para o desenvolvimento do naturtalismo. Nesse mesmo ano viajou para Malta, foi feito cavaliere, da Ordem Maltesa, tendo executado um de seus poucos retratos, o do cavaliere Alof de Wignacourt (1608, Museu do Louvre). Em outubro de 1608, foi novamente preso. Escapando da prisão, viajou para Siracusa na Sicília, onde pintou diversas telas monumentais, inclusive O Enterro de Santa Lúcia (1608, Santa Lucia, Siracusa) e A Ressurreição de Lázaro (1609, Museo Nazionale, Messina). Eram composições com múltiplas figuras envoltas em um grande drama, produzidas com tonalidades escuras e uso seletivo de luz.

A despeito de declarações que a natureza era sua única mestra, é evidente que Caravaggio estudou e assimilou os estilos de mestres da Alta Renascença, em especial o de Michelangelo.

O impacto de Caravaggio na arte de seu século foi considerável. O impressionante é que quatro séculos após sua morte, em 2010, a Galeria Palatina dentro do Palácio Pitti, Florença, apresentou uma exposição excepcional de suas obras. O pintor que fascinou os Médicis, incluiu personagens do bas-fond à nobreza, imortalizando-os em suas telas sobre um fundo neutro, cor lisa, sem exagero nas luzes, nada de decoração, de ação, um culto e uma extrema precisão nos detalhes.

Florestan Fernandes:Reedição de livro debate democracia racial

Junho 28, 2017

Florestan Fernandes pensou na abolição da escravidão inconclusa. Ele questionava, criticava. Sua obra nos convida a pensar o mito da democracia racial”, afirma Weber Lopes, doutorando que estuda o movimento negro na Universidade Federal do ABC (UFABC). O acadêmico esteve presente no debate de lançamento da reedição do livro Significado do Protesto Negro, de Florestan Fernandes, sociólogo e político brasileiro falecido em 1995.

“Conheci Florestan quando me aproximava do movimento negro, em 1977, em plena ditadura militar. Os primeiros textos que li foram xerox distribuídas pelo pessoal da Universidade de São Paulo (USP). Ele tinha uma grande relação com o movimento negro e era considerado subversivo pela ditadura, pela mesma direita conservadora que agora mostra novamente sua cara”, afirmou Flávio Jorge Rodrigues da Silva, membro do Conselho Curador da FPA e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen).

Também esteve presente o jornalista Florestan Fernandes Júnior, filho do pensador, e a coordenadora do Núcleo de Consciência Negra da USP, Maria José Menezes, a Zezé. Com mais de 50 obras publicadas, Florestan construiu vasta carreira na academia das Ciências Sociais, lecionando em instituições como a Universidade de Toronto, no Canadá, em Colúmbia, nos Estados Unidos e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Como político, Florestan foi deputado federal pelo PT e participou da Constituinte, sendo um dos signatários da Carta de 1988.

“Florestan era um lutador, socialista, intelectual e militante. Ele não foi um parceiro da luta contra o racismo, e sim um militante. Sempre digo que a Constituição de 1988, que hoje está sendo destruída pelos golpistas, tem o pensamento, o dedo e a voz dele. Neste livro, que está sendo lançado, tem uma emenda que ele mandou para a Constituinte, chamada Dos Negros. Se vocês lerem, existe um projeto de reparação da população negra”, afirmou Flávio.

Segundo ele, estão presentes neste livro “dois textos publicados na primeira vez que o PT discutiu a questão. São eles: O Negro e a Democracia e Luta de Raça e de Classe. Também tem um outro texto chamado A Classe Média e os Mulatos, onde trata de negros que não pensam como negros, uma leitura do ponto de vista do conservadorismo”.

Por fim, o ativista exaltou a relevância do trabalho de Florestan. “Esses textos são atualíssimos, especialmente no debate que a esquerda está deixando de lado, que é a relação de raça e classe em um projeto de transformação para a sociedade. Isso é real, a ênfase atual é muito focada na questão de classe, mas em um país com 54% da população descendente de escravos e onde existe um forte racismo, não existe projeto nenhum sem levar isso em consideração.”

A acadêmica da USP Zezé reafirmou a importância do debate dentro da sociedade contemporânea brasileira. “O Estado brasileiro sempre foi racista e repressor. E a obra de Florestan é muito atual porque ele questiona a ausência dos negros em estruturas de poder. Ele coloca o dedo na ferida e mostra que a manutenção dos privilégios das elites depende de barrar a democracia racial. Isso funciona até hoje”, disse.

Para Zezé, o cenário político atual reforça a importância da obra. “Avançamos em alguns aspectos, mas tudo que construímos está sendo destruído”, disse em relação à agenda tocada pelo presidente Michel Temer (PMDB), que inclui as reformas trabalhista e da Previdência. “Estamos perdendo a possibilidade de nos aposentar, visto que a expectativa de vida do negro é inferior em dez anos. Isso, porque temos os piores indicadores sociais na área da saúde. Temos as piores escolas nas periferias. Em São Paulo, veja, o governo do PSDB tira recursos da educação para investir em prisões. O governo do PSDB mata e aprisiona os negros e negras”, completou.

Já Florestan Fernandes Júnior apresentou uma expectativa de enfrentamento entre elites e as camadas populares, como inevitável para mudar o cenário problemático que persiste ao longo dos anos. “Não estou pessimista, porque acho que a liberdade nem sempre se faz na paz… Precisaremos de muita luta e organização. O golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff (PT) veio porque eles perceberam que o poder estava fugindo da mão deles”, disse.

Por fim, ele leu um trecho do livro, de autoria de seu pai. “Como socialista, como militante de movimento social, como sociólogo e professor, coloquei-me na vanguarda dos que combatiam na questão do negro, que não é apenas social, é racial, a pior herança da sociedade de castas. Ela trouxe para o presente todas as formas de repressão neste país. Enquanto não houver liberdade com igualdade para o negro, a ideia da democracia racial é um mito. Por isso devemos repelir esse racismo que indica que vivemos em uma sociedade hipócrita e autocrática. Tenho vergonha e vou lutar com vigor. Prefiro participar da fraternidade dos irmãos negros e lutar por igualdade como objetivo universal.”

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

Junho 16, 2017

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai, estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas.

Não só a temática do filme traz uma questão sobre o feminino e a condição da mulher, como o próprio processo de produção do longa também levanta pontos importantes. Rodado em municípios do interior do Rio Grande do Sul, onde a cultura do gado é muito forte, consequentemente, com menos atuação das mulheres no mercado de trabalho, o filme deu a oportunidade para muitas delas terem seu primeiro emprego remunerado.

O filme já arrebatou oito prêmios em festivais, entre eles o de melhor Direção e melhor fotografia no Festival do Rio e o Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ambos em 2016. Também foi exibido em importantes festivais internacionais, como o de Berlim, Guadalajara e o do Uruguai – onde ganhou o prêmio da Fipresci na competição Ibero-americana.

O longa conta com a participação do ator paulista Marat Descartes (conhecido por sua participação em filmes como Trabalhar Cansa e em novelas da Globo como Totalmente Demais) e da atriz uruguaia Verónica Perrotta, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme no Festival do Rio, além de apresentar a jovem gaúcha Maria Galant.

A exibição no Brasil, no dia 22, acontece na rua Conselheiro Ramalho, 495, na capital paulista. A entrada é gratuita, mas contribuições voluntárias são bem-vindas.

Assista ao trailer: 

Há 200 anos, era inventada a bicicleta

Junho 13, 2017

Em 12 de junho de 1817, o funcionário público e inventor Karl von Drais se sentou no selim de sua máquina de correr de madeira e foi embora. O test-drive foi bem-sucedido: nascia a precursora da bicicleta moderna.

O momento não poderia ser melhor: a região era fustigada por um desastre climático, desencadeado por uma enorme nuvem de cinzas que uma erupção vulcânica na Indonésia tinha jogado no mundo inteiro. O resultado: frio, seca, perda de colheitas, fome. A situação também vitimou muitos cavalos – que foram simplesmente para a panela.

Drais vinha pensando há tempos sobre uma alternativa sensata para o cavalo – e assim foi inventada a chamada “draisiana”. Provavelmente, ao experimentar sua invenção pela primeira vez, ele não chegou a pensar que, com ela, alteraria para sempre a mobilidade da humanidade. Na verdade, ele só queria ganhar dinheiro.

A viagem inaugural começou na cidade de Mannheim e seguiu por cerca de 14 quilômetros em direção ao sul, rumo a Schwetzingen. A imprensa em toda a Europa comentou a invenção vinda da Alemanha. O aspecto financeiro foi o mais celebrado: o custo de uma draisiana era de 20 libras, enquanto o de um cavalo, 1.900 libras. Imbatível também foi considerado o fato de que o dispositivo não tinha custos adicionais – afinal, não precisava receber ração.

Mas, para decepção de Drais, o novo meio de transporte não entusiasmou a todos. Afinal, não era todo mundo que gostava de se movimentar caso não fosse necessário. As pessoas comuns do campo costumavam permanecer por toda a vida no mesmo lugar onde nasceram e achavam estranha a ideia de se afastar voluntariamente de suas casas. Foi então que essa nova máquina se tornou mais um brinquedo de alguns esportistas ricos.

Mas o invento não passou sem ser notado por outros inventores. Drais patenteou sua máquina, mas a patente só tinha validade na sua região, Baden. Além das fronteiras daquela área, seu veículo foi copiado e aperfeiçoado.

Até aparecer a bicicleta em sua forma atual, se passaram muitas décadas. Inventores na França e na Inglaterra melhoraram o projeto de duas rodas continuamente, indo desde o primeiro velocípede movido a pedal até o modelo com a roda dianteira aumentada, que apresentava risco de vida aos ciclistas. Então, no final do século 19, a bicicleta clássica apareceu, com os elementos conhecidos até hoje: duas rodas de tamanho igual, com dois pneus e uma corrente entre os pedais e roda traseira.

A tecnologia da bicicleta foi, aliás, também aproveitada na indústria automobilística, como, por exemplo, no caso dos pneus. Muitas formas foram criadas em 200 anos – e muito foi modificado até que o veículo se tornasse um meio prático de transporte para todos. A bicicleta foi ridicularizada, considerada imprópria por associações conservadoras de mulheres e mais tarde foi considerada um brinquedo exclusivo para ricos. Então, chegaram a motocicleta e o carro como concorrentes.

Hoje, a bicicleta é objeto de consumo, de culto, meio para esporte e diversão, usado por bilhões de pessoas ao redor do mundo. Tornou-se símbolo da mobilidade sustentável. Quem deixa o carro em casa e vai para o trabalho de bicicleta não faz algo de bom só para o meio ambiente, mas também para si mesmo. Pois quem pedala muito permanece mais tempo saudável.

Passado e presente de mãos dadas no filme Cinema Novo, de Eryk Rocha

Junho 11, 2017

Vencedor do prêmio Olho de Ouro em 2016, em Cannes, o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha, resgata a história de um dos mais importantes movimentos cinematográficos latino-americanos, a paixão dos diretores pelo cinema e seus sonhos de transformação do Brasil em um país mais justo e igualitário.

Por Xandra Stefanel

Chamado pelo próprio diretor de “ensaio poético”, o documentário mergulha na criação do cinema novo e na visão de mundo e de cinema de seus diretores: seu pai, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e Paulo César Saraceni. Não se trata, porém, um filme histórico e didático, mas sim uma reconstrução sensorial do movimento.

Foram usadas imagens de arquivo e cenas de 130 filmes do Cinema Novo, entre os quais o clássico de Glauber Rocha Terra Em Transe, Vidas Secas e Rio 40 Graus, ambos de Nelson Pereira. Com uma montagem espetacular de Renato Vallone, o resultado é um mosaico harmônico tanto na forma quanto no conteúdo. As entrevistas de bastidores filmadas na época exalam as aventuras e as lutas de uma geração de cineastas que acreditava na arte como um potencial de transformação social.

Pelas mãos destes cineastas, o cinema nacional deixava antigos moldes e renascia como uma nova forma que tinha como lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Era um cinema que tomava as ruas e registrava o verdadeiro povo brasileiro, a vida nos subúrbios e nas fábricas, nossas manifestações culturais, nossas mazelas e contradições mais profundas.

Por isso tudo, o filme resgata o passado sem desconectá-lo dos dias atuais, como afirmou recentemente Eryk Rocha: “É muito emocionante estrear este filme em Brasília neste momento histórico do país. Eu acho que este filme é fruto de um diálogo entre gerações, desse entendimento da memória não como uma coisa do passado, hermética, ou cristalizada, ou idealizada, mas a memória como uma construção de futuro… Eu acho que essa geração do cinema novo tinha uma grande paixão pelo Brasil e pelo cinema. Mas é uma geração, também, que vivenciou um golpe militar e todos os desdobramentos trágicos de uma ditadura militar no Brasil. E a gente, infelizmente, tragicamente, está vivendo esse momento no Brasil, um novo golpe. Eu, como cidadão, fico indignado com isso. Acho que o filme dialoga nesse sentido, visceralmente, com o Brasil contemporâneo”, critica Eryk.

Assista ao trailer: 

Clássico do Cinema Novo, Terra em Transe completa 50 anos

Junho 10, 2017

O primeiro plano-sequência de Terra em Transe, de Glauber Rocha, depois dos créditos sobre a tela negra, mostra a superfície ondulante do mar, na direção das ondas. Logo, o oceano encontra terra firme: um continente sombrio, no qual se vê primeiro um promontório, depois uma praia e, em seguida, uma massa escura e contínua. Ao fundo, tambores e cantos afro indicam que se está em algum ponto do Atlântico.

Por Luiz Antônio Araujo

O cenário confirma Capistrano de Abreu: “Nem o mar invade, nem a terra avança; faltam mediterrâneos, penínsulas, golfos, ilhas consideráveis; os dois elementos coexistem quase sem transições e sem penetração; com recursos próprios o homem não pôde ir além da pescaria em jangadas”. O cearense fala do Brasil, e o baiano nos mostra Eldorado. As aparências enganavam naquele longínquo maio de 1967, um mês antes de os Beatles lançarem Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e cinco antes de Ernesto Che Guevara tombar em La Higuera, na selva boliviana.

Exibido pela primeira vez há 50 anos, Terra em Transe trazia as marcas de seu tempo e de seu lugar. Eldorado é idílica somente no nome. Quando a ação começa, ao som de uma batucada ensandecida, o governador Felipe Vieira (José Lewgoy), da província periférica de Alecrim, está recebendo um ultimato: renunciar em cinco horas ou ser deposto por tropas a mando do líder populista Porfírio Diaz (Paulo Autran).

O poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) incentiva Vieira a rejeitar a chantagem e resistir. Vieira repele-o.

– Agora temos de ir até o fim – diz Paulo.

– Já disse, o sangue das massas é sagrado – responde Vieira.

Frustrado pelo líder em quem depositara esperanças de redenção, Paulo se retira com Sara (Glauce Rocha), a quem tenta convencer a abraçar a luta armada. O vulto de Paulo na praia, trôpego, com a metralhadora erguida, numa imagem que se funde com a de sua escrita (“Defunto, mas intacto”), é a síntese das quimeras de uma geração. Como muitos contemporâneos, o jovem Glauber fora derrotado em 1964 pela recusa daquele em quem mais confiara, o presidente João Goulart, em ordenar a resistência às tropas do general Olympio Mourão Filho. Envergonhada, a ditadura militar firmara-se e, a cada gesto de rebelião, endurecia-se. Encorajada por Fidel Castro e Che, desconfiada da passividade das massas desmoralizadas por seus chefes, a esquerda latino-americana e brasileira buscava atalhos para a redenção.

“Eu detestava todas as coisas apresentadas em Terra em Transe, filmei com certa repulsão. Lembro-me do que dizia ao montador: estou enojado porque não acho que haja um único plano bonito nesse filme. Todos os planos são feios porque se trata de pessoas prejudiciais, de uma paisagem podre, de um falso barroco. O roteiro me impedia de chegar à espécie de fascinação plástica que se encontra em Deus e o Diabo na Terra do Sol”, escreveu Glauber em Revolução do Cinema Novo (1981).

Alegórico, Terra em Transe foi recebido por parte significativa do público como realista. Anti-herói por excelência, Paulo-Glauber foi saudado como exemplo. Almejando ser programático, Glauber-Paulo foi profético. Como em poucas ocasiões na história da arte brasileira e nenhuma na do cinema, a saga de Paulo, Vieira e outros deflagrou um efeito dominó de espelhos em que, ao final, criador, criaturas e espectadores pareceram ter trocado de identidade para sempre.

No dia 17 de maio de 1967, um debate no Museu da Imagem e do Som, no Rio, dissecou o filme e a época. Participaram Luiz Carlos Barreto (“É mais um marco na história do cinema”), Fernando Gabeira (“Foi realizado para uma minoria intelectualizada e que se supunha capaz de entender e interpretar suas alegorias”), Hélio Pellegrino (“A melhor coisa que se fez em cinema”) e Joaquim Pedro de Andrade (“Não é possível viver quando não se está disposto a morrer por uma ideia, por um amor, por um povo, por um amigo”). Em poucos meses, todos estariam encenando suas próprias versões do filme na vida real, nem sempre em consonância com os pontos de vista expressos no debate.

Fora do Brasil, Terra em Transe estava destinado a afrontar preconceitos. Os públicos europeu e norte-americano estavam acostumados a ver nas telas o Brasil rural e irredentista do Cinema Novo. Em vez disso, eram confrontados com uma tragédia neoplatônica em que os personagens desfiam longos manifestos, sem ouvir uns aos outros e em meio a uma barafunda visual e sonora. “E a Terra entrou em transe e / No sertão de Ipanema / Em transe e / No mar de Monte Santo”, lembrou Caetano Veloso em Cinema Novo.

O impacto foi profundo, mesmo para quem não tinha a menor ideia do contexto brasileiro ou das elucubrações de Glauber. O cineasta americano Martin Scorsese tinha quase 30 anos quando assistiu a Terra em Transe, rebatizado de Land in Anguish na versão em inglês, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ficou extasiado com “a humanidade e a paixão poderosas” do filme. O crítico francês Jean-Louis Bory saudou o filme no Le Nouvel Observateur como uma “ópera-metralhadora”. Outra francesa, a romancista Marguerite Yourcenar, definiu a obra como “ópera cinematográfica”. Premiado em Cannes, Havana e Locarno, o filme acabou proibido pela censura da ditadura militar.

Fonte: Zero Hora

Diretas Já em SP terá Mano Brown, Criolo, Tulipa Ruiz e outros

Junho 2, 2017

Artistas, ativistas e blocos de carnaval realizam manifestação em forma de show no próximo domingo (4) em São Paulo para exigir a saída do presidente Michel Temer (PMDB-SP) e a realização de eleições diretas como saídas para a atual crise política que atinge o país.

Estão previstas as presenças dos cantores Mano Brown, Criolo, Péricles, Emicida, Tulipa Ruiz, Simoninha, Otto, Maria Gadú, dentre outros, e a participação de cerca de 30 grupos que promovem o carnaval de rua em São Paulo, como o já tradicional bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e o bloco Tarado Ni Você, que executa músicas de Caetano Veloso em ritmo de marchinha. O ato SP pelas Diretas Já será realizado no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste da capital paulista, a partir das 11 horas.

O evento ocorre uma semana depois que mais de 100 mil pessoas foram até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no último domingo (28), e puderam acompanhar apresentações do próprio Caetano Veloso, além de Milton Nascimento, Mano Brown, Rappin Hood, Mart’nália, BNegão e outros, que cantaram pelas Diretas Já e entoaram coros pelo “Fora, Temer”.

“Vamos ocupar o Largo da Batata com nossa música e nossos estandartes para defender o direito do povo eleger o próximo presidente da república”, afirmam os organizadores em chamado pelas redes sociais.

Eles refutam as articulações de bastidores de parte da classe política que propõe a realização de eleição indireta para eleger o sucessor de Michel Temer, pois ressaltam que o Congresso Nacional, com inúmeros parlamentares envolvidos em casos de corrupção “não tem condições morais de determinar como será o futuro do país.”

“Convidamos a todas e todos que compartilham desse pensamento a se vestirem de Diretas Já conosco para fazermos um ato histórico, digno do espírito democrático e inovador da nossa querida cidade”, convocam os artistas.

São João, a festa completa

Maio 31, 2017

A festa de São João é , na minha opinião, a comemoração mais completa que temos no nosso calendário. O Carnaval é o momento mais celebrado, porém a “farra da carne” fica restrita às fantasias e aos ritmos. Já o São João vai muito além….

As festas juninas envolvem ritmos e danças como forró, coco, ciranda e tantos outros, que geralmente exaltam temas alegres e festivos. As quadrilhas juninas enaltecem as cores, os tecidos, as rendas e realizam grandiosas apresentações numa espécie de desfile de escolas de samba onde todos os componentes atuam , cantam e dançam como uma grande comissão de frente.

Há até quem ache o forró meio brega, mas não dispensa uma pamonha ou canjica. A culinária das festas juninas é de uma riqueza irresistível com seus mais variados bolos , comidas de milho e um quentão ou uma boa cachacinha para acompanhar. Sem falar no queijo ou aquela linguiça assada na fogueira, onde a fuligem da brasa dá aquele sabor especial.

Por falar em fuligem, como não falar da fumaça? O São João tem um cheiro próprio, aquele “perfume” de fumaça em toda parte, seja das fogueiras ou dos fogos que colorem o céu celebrando a vida.

E há ainda as brincadeiras, adivinhas e simpatias, que vão do desafio do pau de sebo à conquista da pessoa amada.

Seja numa grande cidade ou naquele interior mais longínquo, o São João faz-se presente como a festa mais completa que celebramos.

*Diego Santos é produtor cultural, coordenador do Coletivo de Cultura de Pernambuco e membro da Direção do PCdoB Recife.