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Os contrastes de Caravaggio: quatro séculos do pintor

Julho 19, 2017

Caravaggio foi um pintor barroco, o melhor exemplar da pintura naturalista do início do século 17; morreu em 1610 aos 38 anos

Por Max Altman

Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, pintor italiano, morre em 18 de julho de 1610, aos 38 anos em Porto Ercole. Sua obra poderosa e inovadora revolucionou a pintura do século 17 pelo caráter naturalista, realismo por vezes brutal, erotismo perturbador e o emprego da técnica claro-escuro que influenciou numerosos pintores cujo talento foi revelado depois de sua época.

Caravaggio foi um pintor barroco, o melhor exemplar da pintura naturalista do início do século 17. Utilizou modelos da classe mais baixa da sociedade em seus primeiros trabalhos e posteriormente nas composições religiosas em que apela ao gosto da Contra Reforma pelo realismo, simplicidade e compaixão na arte. Igualmente importante foi a introdução dos efeitos dramáticos do claro-escuro.

Ele levou uma vida dissoluta, rica em escândalos provocados por sua índole violenta de desordeiro – chegando até a matar durante uma briga –, a frequência habitual ao bas fond e às tavernas, bem como por sua sexualidade escandalosa para a época, o que lhe acarretou inúmeros problemas com a justiça, a Igreja e o poder. Encontrou em sua arte, uma espécie de “redenção de todas as torpezas”. No entanto foi necessário esperar o começo do século 20 para que seu gênio fosse plenamente reconhecido, independente da reputação corrosiva.

O pintor nasceu em 28 de setembro de 1573, na montanhosa cidade da Lombardia, Caravaggio. Levou quatro anos como aprendiz no ateliê de Simone Peterzano em Milão, antes de ir a Roma em 1593, onde passou a auxiliar o pintor Giuseppe Cesari, para quem pintou quadros de frutas e flores. Entre os seus trabalhos iniciais mais conhecidos estão cenas da vida cotidiana, por exemplo, Os Músicos (1591?-1592, Metropolitan Museum, Nova York) ou A Vidente (1594, versões no Louvre, Paris, e no Museo Capitolino, Roma) quadros de grande apelo aos seguidores do artista.

O estilo da maturidade de Caravaggio começou por volta de 1600 com a encomenda para decorar a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi em Roma com três cenas da vida de São Mateus. O Chamado de São Mateus (1599? -1600) é notável por seu dramático uso da “luz de sótão”, que emana de uma fonte acima da ação a fim de iluminar o gesto de mão de Cristo (baseado no Adão de Michelangelo na Capela Sistina) e outras figuras, a maioria das quais com roupas contemporâneas. Por volta de 1601, Caravaggio recebeu seu segundo grande encargo da igreja Santa Maria del Popolo em Roma para a Conversão de São Paulo e A Crucificação de São Pedro.

Acusado de assassinato, Caravaggio fugiu para Nápoles em 1606. Ali passou vários meses executando obras como O Flagelo de Cristo (San Domenico Maggiore, Nápoles), cruciais para o desenvolvimento do naturtalismo. Nesse mesmo ano viajou para Malta, foi feito cavaliere, da Ordem Maltesa, tendo executado um de seus poucos retratos, o do cavaliere Alof de Wignacourt (1608, Museu do Louvre). Em outubro de 1608, foi novamente preso. Escapando da prisão, viajou para Siracusa na Sicília, onde pintou diversas telas monumentais, inclusive O Enterro de Santa Lúcia (1608, Santa Lucia, Siracusa) e A Ressurreição de Lázaro (1609, Museo Nazionale, Messina). Eram composições com múltiplas figuras envoltas em um grande drama, produzidas com tonalidades escuras e uso seletivo de luz.

A despeito de declarações que a natureza era sua única mestra, é evidente que Caravaggio estudou e assimilou os estilos de mestres da Alta Renascença, em especial o de Michelangelo.

O impacto de Caravaggio na arte de seu século foi considerável. O impressionante é que quatro séculos após sua morte, em 2010, a Galeria Palatina dentro do Palácio Pitti, Florença, apresentou uma exposição excepcional de suas obras. O pintor que fascinou os Médicis, incluiu personagens do bas-fond à nobreza, imortalizando-os em suas telas sobre um fundo neutro, cor lisa, sem exagero nas luzes, nada de decoração, de ação, um culto e uma extrema precisão nos detalhes.

Florestan Fernandes:Reedição de livro debate democracia racial

Junho 28, 2017

Florestan Fernandes pensou na abolição da escravidão inconclusa. Ele questionava, criticava. Sua obra nos convida a pensar o mito da democracia racial”, afirma Weber Lopes, doutorando que estuda o movimento negro na Universidade Federal do ABC (UFABC). O acadêmico esteve presente no debate de lançamento da reedição do livro Significado do Protesto Negro, de Florestan Fernandes, sociólogo e político brasileiro falecido em 1995.

“Conheci Florestan quando me aproximava do movimento negro, em 1977, em plena ditadura militar. Os primeiros textos que li foram xerox distribuídas pelo pessoal da Universidade de São Paulo (USP). Ele tinha uma grande relação com o movimento negro e era considerado subversivo pela ditadura, pela mesma direita conservadora que agora mostra novamente sua cara”, afirmou Flávio Jorge Rodrigues da Silva, membro do Conselho Curador da FPA e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen).

Também esteve presente o jornalista Florestan Fernandes Júnior, filho do pensador, e a coordenadora do Núcleo de Consciência Negra da USP, Maria José Menezes, a Zezé. Com mais de 50 obras publicadas, Florestan construiu vasta carreira na academia das Ciências Sociais, lecionando em instituições como a Universidade de Toronto, no Canadá, em Colúmbia, nos Estados Unidos e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Como político, Florestan foi deputado federal pelo PT e participou da Constituinte, sendo um dos signatários da Carta de 1988.

“Florestan era um lutador, socialista, intelectual e militante. Ele não foi um parceiro da luta contra o racismo, e sim um militante. Sempre digo que a Constituição de 1988, que hoje está sendo destruída pelos golpistas, tem o pensamento, o dedo e a voz dele. Neste livro, que está sendo lançado, tem uma emenda que ele mandou para a Constituinte, chamada Dos Negros. Se vocês lerem, existe um projeto de reparação da população negra”, afirmou Flávio.

Segundo ele, estão presentes neste livro “dois textos publicados na primeira vez que o PT discutiu a questão. São eles: O Negro e a Democracia e Luta de Raça e de Classe. Também tem um outro texto chamado A Classe Média e os Mulatos, onde trata de negros que não pensam como negros, uma leitura do ponto de vista do conservadorismo”.

Por fim, o ativista exaltou a relevância do trabalho de Florestan. “Esses textos são atualíssimos, especialmente no debate que a esquerda está deixando de lado, que é a relação de raça e classe em um projeto de transformação para a sociedade. Isso é real, a ênfase atual é muito focada na questão de classe, mas em um país com 54% da população descendente de escravos e onde existe um forte racismo, não existe projeto nenhum sem levar isso em consideração.”

A acadêmica da USP Zezé reafirmou a importância do debate dentro da sociedade contemporânea brasileira. “O Estado brasileiro sempre foi racista e repressor. E a obra de Florestan é muito atual porque ele questiona a ausência dos negros em estruturas de poder. Ele coloca o dedo na ferida e mostra que a manutenção dos privilégios das elites depende de barrar a democracia racial. Isso funciona até hoje”, disse.

Para Zezé, o cenário político atual reforça a importância da obra. “Avançamos em alguns aspectos, mas tudo que construímos está sendo destruído”, disse em relação à agenda tocada pelo presidente Michel Temer (PMDB), que inclui as reformas trabalhista e da Previdência. “Estamos perdendo a possibilidade de nos aposentar, visto que a expectativa de vida do negro é inferior em dez anos. Isso, porque temos os piores indicadores sociais na área da saúde. Temos as piores escolas nas periferias. Em São Paulo, veja, o governo do PSDB tira recursos da educação para investir em prisões. O governo do PSDB mata e aprisiona os negros e negras”, completou.

Já Florestan Fernandes Júnior apresentou uma expectativa de enfrentamento entre elites e as camadas populares, como inevitável para mudar o cenário problemático que persiste ao longo dos anos. “Não estou pessimista, porque acho que a liberdade nem sempre se faz na paz… Precisaremos de muita luta e organização. O golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff (PT) veio porque eles perceberam que o poder estava fugindo da mão deles”, disse.

Por fim, ele leu um trecho do livro, de autoria de seu pai. “Como socialista, como militante de movimento social, como sociólogo e professor, coloquei-me na vanguarda dos que combatiam na questão do negro, que não é apenas social, é racial, a pior herança da sociedade de castas. Ela trouxe para o presente todas as formas de repressão neste país. Enquanto não houver liberdade com igualdade para o negro, a ideia da democracia racial é um mito. Por isso devemos repelir esse racismo que indica que vivemos em uma sociedade hipócrita e autocrática. Tenho vergonha e vou lutar com vigor. Prefiro participar da fraternidade dos irmãos negros e lutar por igualdade como objetivo universal.”

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

Junho 16, 2017

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai, estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas.

Não só a temática do filme traz uma questão sobre o feminino e a condição da mulher, como o próprio processo de produção do longa também levanta pontos importantes. Rodado em municípios do interior do Rio Grande do Sul, onde a cultura do gado é muito forte, consequentemente, com menos atuação das mulheres no mercado de trabalho, o filme deu a oportunidade para muitas delas terem seu primeiro emprego remunerado.

O filme já arrebatou oito prêmios em festivais, entre eles o de melhor Direção e melhor fotografia no Festival do Rio e o Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ambos em 2016. Também foi exibido em importantes festivais internacionais, como o de Berlim, Guadalajara e o do Uruguai – onde ganhou o prêmio da Fipresci na competição Ibero-americana.

O longa conta com a participação do ator paulista Marat Descartes (conhecido por sua participação em filmes como Trabalhar Cansa e em novelas da Globo como Totalmente Demais) e da atriz uruguaia Verónica Perrotta, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme no Festival do Rio, além de apresentar a jovem gaúcha Maria Galant.

A exibição no Brasil, no dia 22, acontece na rua Conselheiro Ramalho, 495, na capital paulista. A entrada é gratuita, mas contribuições voluntárias são bem-vindas.

Assista ao trailer: 

Há 200 anos, era inventada a bicicleta

Junho 13, 2017

Em 12 de junho de 1817, o funcionário público e inventor Karl von Drais se sentou no selim de sua máquina de correr de madeira e foi embora. O test-drive foi bem-sucedido: nascia a precursora da bicicleta moderna.

O momento não poderia ser melhor: a região era fustigada por um desastre climático, desencadeado por uma enorme nuvem de cinzas que uma erupção vulcânica na Indonésia tinha jogado no mundo inteiro. O resultado: frio, seca, perda de colheitas, fome. A situação também vitimou muitos cavalos – que foram simplesmente para a panela.

Drais vinha pensando há tempos sobre uma alternativa sensata para o cavalo – e assim foi inventada a chamada “draisiana”. Provavelmente, ao experimentar sua invenção pela primeira vez, ele não chegou a pensar que, com ela, alteraria para sempre a mobilidade da humanidade. Na verdade, ele só queria ganhar dinheiro.

A viagem inaugural começou na cidade de Mannheim e seguiu por cerca de 14 quilômetros em direção ao sul, rumo a Schwetzingen. A imprensa em toda a Europa comentou a invenção vinda da Alemanha. O aspecto financeiro foi o mais celebrado: o custo de uma draisiana era de 20 libras, enquanto o de um cavalo, 1.900 libras. Imbatível também foi considerado o fato de que o dispositivo não tinha custos adicionais – afinal, não precisava receber ração.

Mas, para decepção de Drais, o novo meio de transporte não entusiasmou a todos. Afinal, não era todo mundo que gostava de se movimentar caso não fosse necessário. As pessoas comuns do campo costumavam permanecer por toda a vida no mesmo lugar onde nasceram e achavam estranha a ideia de se afastar voluntariamente de suas casas. Foi então que essa nova máquina se tornou mais um brinquedo de alguns esportistas ricos.

Mas o invento não passou sem ser notado por outros inventores. Drais patenteou sua máquina, mas a patente só tinha validade na sua região, Baden. Além das fronteiras daquela área, seu veículo foi copiado e aperfeiçoado.

Até aparecer a bicicleta em sua forma atual, se passaram muitas décadas. Inventores na França e na Inglaterra melhoraram o projeto de duas rodas continuamente, indo desde o primeiro velocípede movido a pedal até o modelo com a roda dianteira aumentada, que apresentava risco de vida aos ciclistas. Então, no final do século 19, a bicicleta clássica apareceu, com os elementos conhecidos até hoje: duas rodas de tamanho igual, com dois pneus e uma corrente entre os pedais e roda traseira.

A tecnologia da bicicleta foi, aliás, também aproveitada na indústria automobilística, como, por exemplo, no caso dos pneus. Muitas formas foram criadas em 200 anos – e muito foi modificado até que o veículo se tornasse um meio prático de transporte para todos. A bicicleta foi ridicularizada, considerada imprópria por associações conservadoras de mulheres e mais tarde foi considerada um brinquedo exclusivo para ricos. Então, chegaram a motocicleta e o carro como concorrentes.

Hoje, a bicicleta é objeto de consumo, de culto, meio para esporte e diversão, usado por bilhões de pessoas ao redor do mundo. Tornou-se símbolo da mobilidade sustentável. Quem deixa o carro em casa e vai para o trabalho de bicicleta não faz algo de bom só para o meio ambiente, mas também para si mesmo. Pois quem pedala muito permanece mais tempo saudável.

Passado e presente de mãos dadas no filme Cinema Novo, de Eryk Rocha

Junho 11, 2017

Vencedor do prêmio Olho de Ouro em 2016, em Cannes, o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha, resgata a história de um dos mais importantes movimentos cinematográficos latino-americanos, a paixão dos diretores pelo cinema e seus sonhos de transformação do Brasil em um país mais justo e igualitário.

Por Xandra Stefanel

Chamado pelo próprio diretor de “ensaio poético”, o documentário mergulha na criação do cinema novo e na visão de mundo e de cinema de seus diretores: seu pai, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e Paulo César Saraceni. Não se trata, porém, um filme histórico e didático, mas sim uma reconstrução sensorial do movimento.

Foram usadas imagens de arquivo e cenas de 130 filmes do Cinema Novo, entre os quais o clássico de Glauber Rocha Terra Em Transe, Vidas Secas e Rio 40 Graus, ambos de Nelson Pereira. Com uma montagem espetacular de Renato Vallone, o resultado é um mosaico harmônico tanto na forma quanto no conteúdo. As entrevistas de bastidores filmadas na época exalam as aventuras e as lutas de uma geração de cineastas que acreditava na arte como um potencial de transformação social.

Pelas mãos destes cineastas, o cinema nacional deixava antigos moldes e renascia como uma nova forma que tinha como lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Era um cinema que tomava as ruas e registrava o verdadeiro povo brasileiro, a vida nos subúrbios e nas fábricas, nossas manifestações culturais, nossas mazelas e contradições mais profundas.

Por isso tudo, o filme resgata o passado sem desconectá-lo dos dias atuais, como afirmou recentemente Eryk Rocha: “É muito emocionante estrear este filme em Brasília neste momento histórico do país. Eu acho que este filme é fruto de um diálogo entre gerações, desse entendimento da memória não como uma coisa do passado, hermética, ou cristalizada, ou idealizada, mas a memória como uma construção de futuro… Eu acho que essa geração do cinema novo tinha uma grande paixão pelo Brasil e pelo cinema. Mas é uma geração, também, que vivenciou um golpe militar e todos os desdobramentos trágicos de uma ditadura militar no Brasil. E a gente, infelizmente, tragicamente, está vivendo esse momento no Brasil, um novo golpe. Eu, como cidadão, fico indignado com isso. Acho que o filme dialoga nesse sentido, visceralmente, com o Brasil contemporâneo”, critica Eryk.

Assista ao trailer: 

Clássico do Cinema Novo, Terra em Transe completa 50 anos

Junho 10, 2017

O primeiro plano-sequência de Terra em Transe, de Glauber Rocha, depois dos créditos sobre a tela negra, mostra a superfície ondulante do mar, na direção das ondas. Logo, o oceano encontra terra firme: um continente sombrio, no qual se vê primeiro um promontório, depois uma praia e, em seguida, uma massa escura e contínua. Ao fundo, tambores e cantos afro indicam que se está em algum ponto do Atlântico.

Por Luiz Antônio Araujo

O cenário confirma Capistrano de Abreu: “Nem o mar invade, nem a terra avança; faltam mediterrâneos, penínsulas, golfos, ilhas consideráveis; os dois elementos coexistem quase sem transições e sem penetração; com recursos próprios o homem não pôde ir além da pescaria em jangadas”. O cearense fala do Brasil, e o baiano nos mostra Eldorado. As aparências enganavam naquele longínquo maio de 1967, um mês antes de os Beatles lançarem Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e cinco antes de Ernesto Che Guevara tombar em La Higuera, na selva boliviana.

Exibido pela primeira vez há 50 anos, Terra em Transe trazia as marcas de seu tempo e de seu lugar. Eldorado é idílica somente no nome. Quando a ação começa, ao som de uma batucada ensandecida, o governador Felipe Vieira (José Lewgoy), da província periférica de Alecrim, está recebendo um ultimato: renunciar em cinco horas ou ser deposto por tropas a mando do líder populista Porfírio Diaz (Paulo Autran).

O poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) incentiva Vieira a rejeitar a chantagem e resistir. Vieira repele-o.

– Agora temos de ir até o fim – diz Paulo.

– Já disse, o sangue das massas é sagrado – responde Vieira.

Frustrado pelo líder em quem depositara esperanças de redenção, Paulo se retira com Sara (Glauce Rocha), a quem tenta convencer a abraçar a luta armada. O vulto de Paulo na praia, trôpego, com a metralhadora erguida, numa imagem que se funde com a de sua escrita (“Defunto, mas intacto”), é a síntese das quimeras de uma geração. Como muitos contemporâneos, o jovem Glauber fora derrotado em 1964 pela recusa daquele em quem mais confiara, o presidente João Goulart, em ordenar a resistência às tropas do general Olympio Mourão Filho. Envergonhada, a ditadura militar firmara-se e, a cada gesto de rebelião, endurecia-se. Encorajada por Fidel Castro e Che, desconfiada da passividade das massas desmoralizadas por seus chefes, a esquerda latino-americana e brasileira buscava atalhos para a redenção.

“Eu detestava todas as coisas apresentadas em Terra em Transe, filmei com certa repulsão. Lembro-me do que dizia ao montador: estou enojado porque não acho que haja um único plano bonito nesse filme. Todos os planos são feios porque se trata de pessoas prejudiciais, de uma paisagem podre, de um falso barroco. O roteiro me impedia de chegar à espécie de fascinação plástica que se encontra em Deus e o Diabo na Terra do Sol”, escreveu Glauber em Revolução do Cinema Novo (1981).

Alegórico, Terra em Transe foi recebido por parte significativa do público como realista. Anti-herói por excelência, Paulo-Glauber foi saudado como exemplo. Almejando ser programático, Glauber-Paulo foi profético. Como em poucas ocasiões na história da arte brasileira e nenhuma na do cinema, a saga de Paulo, Vieira e outros deflagrou um efeito dominó de espelhos em que, ao final, criador, criaturas e espectadores pareceram ter trocado de identidade para sempre.

No dia 17 de maio de 1967, um debate no Museu da Imagem e do Som, no Rio, dissecou o filme e a época. Participaram Luiz Carlos Barreto (“É mais um marco na história do cinema”), Fernando Gabeira (“Foi realizado para uma minoria intelectualizada e que se supunha capaz de entender e interpretar suas alegorias”), Hélio Pellegrino (“A melhor coisa que se fez em cinema”) e Joaquim Pedro de Andrade (“Não é possível viver quando não se está disposto a morrer por uma ideia, por um amor, por um povo, por um amigo”). Em poucos meses, todos estariam encenando suas próprias versões do filme na vida real, nem sempre em consonância com os pontos de vista expressos no debate.

Fora do Brasil, Terra em Transe estava destinado a afrontar preconceitos. Os públicos europeu e norte-americano estavam acostumados a ver nas telas o Brasil rural e irredentista do Cinema Novo. Em vez disso, eram confrontados com uma tragédia neoplatônica em que os personagens desfiam longos manifestos, sem ouvir uns aos outros e em meio a uma barafunda visual e sonora. “E a Terra entrou em transe e / No sertão de Ipanema / Em transe e / No mar de Monte Santo”, lembrou Caetano Veloso em Cinema Novo.

O impacto foi profundo, mesmo para quem não tinha a menor ideia do contexto brasileiro ou das elucubrações de Glauber. O cineasta americano Martin Scorsese tinha quase 30 anos quando assistiu a Terra em Transe, rebatizado de Land in Anguish na versão em inglês, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ficou extasiado com “a humanidade e a paixão poderosas” do filme. O crítico francês Jean-Louis Bory saudou o filme no Le Nouvel Observateur como uma “ópera-metralhadora”. Outra francesa, a romancista Marguerite Yourcenar, definiu a obra como “ópera cinematográfica”. Premiado em Cannes, Havana e Locarno, o filme acabou proibido pela censura da ditadura militar.

Fonte: Zero Hora

Diretas Já em SP terá Mano Brown, Criolo, Tulipa Ruiz e outros

Junho 2, 2017

Artistas, ativistas e blocos de carnaval realizam manifestação em forma de show no próximo domingo (4) em São Paulo para exigir a saída do presidente Michel Temer (PMDB-SP) e a realização de eleições diretas como saídas para a atual crise política que atinge o país.

Estão previstas as presenças dos cantores Mano Brown, Criolo, Péricles, Emicida, Tulipa Ruiz, Simoninha, Otto, Maria Gadú, dentre outros, e a participação de cerca de 30 grupos que promovem o carnaval de rua em São Paulo, como o já tradicional bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e o bloco Tarado Ni Você, que executa músicas de Caetano Veloso em ritmo de marchinha. O ato SP pelas Diretas Já será realizado no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste da capital paulista, a partir das 11 horas.

O evento ocorre uma semana depois que mais de 100 mil pessoas foram até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no último domingo (28), e puderam acompanhar apresentações do próprio Caetano Veloso, além de Milton Nascimento, Mano Brown, Rappin Hood, Mart’nália, BNegão e outros, que cantaram pelas Diretas Já e entoaram coros pelo “Fora, Temer”.

“Vamos ocupar o Largo da Batata com nossa música e nossos estandartes para defender o direito do povo eleger o próximo presidente da república”, afirmam os organizadores em chamado pelas redes sociais.

Eles refutam as articulações de bastidores de parte da classe política que propõe a realização de eleição indireta para eleger o sucessor de Michel Temer, pois ressaltam que o Congresso Nacional, com inúmeros parlamentares envolvidos em casos de corrupção “não tem condições morais de determinar como será o futuro do país.”

“Convidamos a todas e todos que compartilham desse pensamento a se vestirem de Diretas Já conosco para fazermos um ato histórico, digno do espírito democrático e inovador da nossa querida cidade”, convocam os artistas.

São João, a festa completa

Maio 31, 2017

A festa de São João é , na minha opinião, a comemoração mais completa que temos no nosso calendário. O Carnaval é o momento mais celebrado, porém a “farra da carne” fica restrita às fantasias e aos ritmos. Já o São João vai muito além….

As festas juninas envolvem ritmos e danças como forró, coco, ciranda e tantos outros, que geralmente exaltam temas alegres e festivos. As quadrilhas juninas enaltecem as cores, os tecidos, as rendas e realizam grandiosas apresentações numa espécie de desfile de escolas de samba onde todos os componentes atuam , cantam e dançam como uma grande comissão de frente.

Há até quem ache o forró meio brega, mas não dispensa uma pamonha ou canjica. A culinária das festas juninas é de uma riqueza irresistível com seus mais variados bolos , comidas de milho e um quentão ou uma boa cachacinha para acompanhar. Sem falar no queijo ou aquela linguiça assada na fogueira, onde a fuligem da brasa dá aquele sabor especial.

Por falar em fuligem, como não falar da fumaça? O São João tem um cheiro próprio, aquele “perfume” de fumaça em toda parte, seja das fogueiras ou dos fogos que colorem o céu celebrando a vida.

E há ainda as brincadeiras, adivinhas e simpatias, que vão do desafio do pau de sebo à conquista da pessoa amada.

Seja numa grande cidade ou naquele interior mais longínquo, o São João faz-se presente como a festa mais completa que celebramos.

*Diego Santos é produtor cultural, coordenador do Coletivo de Cultura de Pernambuco e membro da Direção do PCdoB Recife.

“O socialismo é uma doutrina triunfante”, diz Antonio Candido

Maio 13, 2017

Em entrevista concedida à jornalista Joana Tavares, do Brasil de Fato, em 2011 o sociólogo e crítico literário Antonio Candido falou sobre sua percepção a respeito do socialismo, e outras questões políticas.

Trazemos a entrevista na íntegra nesta sexta-feira (12), dia que Antonio Candido morreu, aos 98 anos.

Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Prestes e Neruda: o desencontro histórico

Maio 11, 2017

Eles combinaram um almoço para uma terça-feira. Entretanto, a diferença entre os nomes dos dias da semana em espanhol e português, uma idiossincrasia linguística que separa radicalmente os hispânicos dos luso-falantes, impediu este encontro histórico. Neruda, por causa da ilógica falta da “Primeira-Feira”, confundiu o dia agendado com a quarta-feira, e faltou ao almoço.

Por Marcos Napolitano

Em 15 de julho de 1945, no Estádio do Pacaembu, diante de 130 mil pessoas, o poeta e senador chileno Pablo Neruda leu uma longa poesia a Luís Carlos Prestes. Recém-libertado da prisão, depois de quase 10 anos de cárcere, Prestes era uma lenda no movimento comunista, “encarnação viva dos heróis antigos”, nas palavras do poeta chileno. Depois do comício, os dois se encontraram na casa de um correligionário. Neruda deixou registradas suas impressões, com um aparente toque de ironia, sobre este primeiro encontro: “Dentro de sua reserva, foi muito cordial comigo. Creio que me dispensou este tratamento carinhoso que, nós poetas, frequentemente recebemos, uma condescendência entre terna e evasiva, muito parecida com aquela que os adultos adotam ao falar com uma criança”.

Depois deste breve encontro mais protocolar, combinaram um almoço para terça-feira da semana seguinte. Entretanto, a diferença entre os nomes dos dias da semana em espanhol e português, uma idiossincrasia linguística que separa radicalmente os hispânicos dos luso-falantes, impediu este encontro histórico. Neruda, por causa da ilógica falta da “Primeira-Feira”, confundiu o dia agendado com a quarta-feira, e faltou ao almoço. “Eu me enredo nestas ‘feiras’, sem saber de que dia se trata (…) eu pude aprender tudo em minha vida, menos os nomes dos dias da semana em português”.

O fato é que Neruda passou o dia na praia, “com uma bela amiga brasileira”, e deixou Prestes esperando com a mesa posta, incluindo um vinho de alta qualidade para agradar o gosto refinado do poeta. O leitor mais matreiro já deve estar desconfiado da desculpa linguística para justificar o desencontro. Quem sabe, Neruda simplesmente tenha se esquecido do compromisso com el capitan del pueblo, embriagado pela beleza de sua amiga e pelo bucolismo sensual da Ipanema dos anos 1940, e não ousou confessá-lo em suas memórias. Quem sabe, Prestes não tenha se abalado tanto com o “bolo”, pois havia tarefas partidárias mais urgentes a cumprir.

Os caminhos destes dois homens até aquele desencontro de julho de 1945, no meio da Era dos Extremos, foram bem diversos, mas ao mesmo tempo semelhantes. Neruda, poeta, diplomata. Prestes, militar, engenheiro. Neruda, amante e dionisíaco. Prestes, casto e apolíneo. Neruda, filho de José del Carmen, ferroviário forjado nas intempéries da Araucania. Prestes, filho de dona Leocádia, “anjo de pedra” esculpido pela viuvez e pela crueldade das ditaduras. Neruda, que conheceu o mundo como diplomata. Prestes, que conheceu o mundo como soldado. Neruda, dos salões, saraus e teatros pelo mundo afora. Prestes, dos acampamentos, reuniões de comando e prisões pelo Brasil adentro. Ambos, filhos do sangrento e maravilhoso século 20, das guerras, da grande revolução de 1917. Ambos, projetando um mundo ideal que nunca chegaria.

Como teria sido o encontro a dois destas duas lendas do comunismo sul-americano e mundial? O encontro do século ou uma conversa trivial? Conversariam sobre política, sobre o Partido? Sobre mulheres, sobre viagens? Diante de tantas dúvidas e lacunas, só nos resta a imaginação histórica, artigo raro entre os historiadores atuais, incluindo eu mesmo.

Teriam muito a conversar sobre as esperanças do futuro e as agruras do passado? Ou fariam pausas e silêncios pelos mortos? Prestes choraria a morte de Olga Benário, confirmada alguns dias antes do almoço desencontrado? Neruda declamaria novamente o poema para Dona Leocádia, lido no seu funeral no México? Beberiam o vinho até ficarem bêbados e gargalharem, ou, como na sequência clássica do filme de Wajda, Prestes-Robespierre apenas tocaria os lábios levemente na taça repleta, enquanto Neruda-Danton sorveria o vinho todo de uma só vez?

Poderiam rememorar a vitória épica do Exército Vermelho sobre os nazistas, poderiam saudar Stalin, “o guia genial dos povos”, poderiam falar mal de Trotsky ou até falar bem de Vargas. Prestes poderia explicar porque o ditador verdugo e protofascista de ontem tinha virado o Pai dos Pobres e amigo dos comunistas de hoje. Poderiam, mais provavelmente, discutir a conjuntura política dos seus países e vislumbrar como seria o futuro paraíso socialista nas Américas. Socialismo de carências ou de farturas? Socialismo de reuniões políticas intermináveis ou de saraus literários imprevisíveis? Socialismo de soldados, de poetas ou de soldados-poetas?

Nunca saberemos.

Mas é um exercício fascinante, ao menos para os apaixonados pela história, imaginar todas as possibilidades e impossibilidades deste encontro-desencontro privado de duas personas públicas, grandes personagens do século 20. Manteriam seus protocolos e máscaras? Nasceria uma grande e improvável amizade, para além do Partido, ou uma profunda antipatia, apesar do Partido?

Em grande parte, o encontro que não aconteceu representa o desencontro de dois tipos de comunismos e comunistas, de duas utopias em uma só ideologia, imersa em suas contradições como todas as coisas do mundo. Mas também representa a indignação compartilhada por dois homens pelas misérias de nuestra América que encontraram no comunismo uma forma de expressão.
Ambos morreram com o século 20. Neruda, dias depois do colapso da última utopia americana, a experiência socialista da Unidade Popular chilena. Prestes, meses depois da icônica queda do muro de Berlim.

De todo modo, se por algum milagre, ambos sobrevivessem, chegassem lúcidos ao século 21, e pudessem finalmente almoçar a dois com décadas de atraso, acho que teriam pouco assunto para conversar sobre este mundo sem utopias em que vivemos.

Fonte: Revista Brasileiros