Archive for the ‘Long Play’ Category

PARA QUEM ACREDITA QUE PREMIAÇÃO CONFIRMA TALENTO E IMPORTÂNCIA, VEJAM ALGUMAS DAS PREMIAÇÕES DE MARCUS PEREIRA

Agosto 7, 2014

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Como já é notório, Marcus Pereira, é uma personagem de ilustríssima importância na subjetividade criativa da estética musical brasileira. Por tal, ele teve seu trabalho de produtor musical e lançador de inegáveis talentos no Brasil que prescindia de reconhecimento, como premiações por sua obra engajada.capa 003

Entretanto, já que foi reconhecida pela crítica, não há nada de péssimo em aceitá-la. Como diz o dito popular, o popular tão abençoado por ele, os prêmios não tiram pedaços, assim como, também, não põem. Talvez, ponham em alguns que se tomam por críticos sem sê-los e ao avaliar seu trabalho sejam tomados como sensíveis e de inteligência acima da doxa. A opinião comum.capa 004

O certo mesmo, é que esse Viva o Vinil, apresenta algumas das premiações de Marcus Pereira durante alguns anos. A relação dessas bolachas crioulas premiadas foi distribuída, na década de 70, como encartes de alguns discos lançados pela Marcus Pereira. Observem, vinilesquizofílicos, a quantidade, mas não fiquem pasmos, pois trata-se de um trabalho de alguém comprometido politicamente com a cultura brasileira.capa 005

Aproveitem o passeio-esquizo! É joia-raríssima! Relíquia de causar inveja em quem é invejoso. Um paradoxo: quem vibra com o Viva o Vinil, não tem inveja. Aprecia o que os outros gostam e cultuam com amor e ternura. Que é o caso de todo vinilesquizofílico.

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VIVA O VINIL COMPACTO – TORÉM DO CEARÁ

Maio 8, 2014

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Sinal dos tempos. O Ministério da Educação E cultura junto com a Secretaria de Assuntos Culturais, a Fundação Nacional da Arte (Funarte) através da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, lançou uma coleção de vinil em forma compacto, Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro, tratando do tema de caráter eminentemente popular. Uma subversão para a ditadura civil-militar implantada no país entre os anos de 1964 e 1985, porque se tratava da manifestação cultural livre do povo sertanejo do Nordeste. Um tema com jeito de comunismo, imaginariam os repressores.

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Sinal dos tempos, porque a coleção foi lançada no fim da década de 70 quando já havia os primeiros clarões da abertura política. Uma época em que os operários já mostravam sua força, liderados pelo líder sindical que seria presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. A coleção em Defesa do Folclore Brasileiro chegou a mais de 30 exemplares compactos, a arqueologia discovinilgráfica da Associação Filosofia Itinerante (Afin) protege alguns.

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Hoje, o Viva o Vinil!, apresenta aos esquizovinilfílicos a Dança Torém do Ceará. A elucidação educativa-histórica fica por conta do professor Aloysio de Alencar Pinto na contra capa que fez parte da equipe de pesquisa juntamente com outros professores Irany Leme, Zayde Maciel de Castro e José Moreira Prado. Aparecem (quem aparece é alma, dizem) também as Faces A e B da bolachinha crioula, além da Ficha Técnica apresentando os interpretes e os instrumentos.

Vamos nessa bolachinha crioula! É joia rara! É relíquia!

VIVA O VINIL! – TRIBUTO A MARCUS PEREIRA

Maio 6, 2014

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Aí, vinilesquizofílicos! Hoje, o passeio do esquizo é uma bolacha crioula de arrepiar os amantes da música inquietante, exaltar os que respeitam o homem que mudou a estratégia de produção musical no Brasil e satisfazer os colecionadores das joias raras do Viva o Vinil!

Mais uma vez, esse Esquizofia apresenta uma relíquia da arqueologia discográfica da Associação Filosofia Itinerante (Afin) da qual ele é um vetor-virtual. Trata-se da Edição Especial gravada pela Discos Marcus Pereira, em 1982, Tributo a Marcus Pereira. Não podia deixar de ser uma Edição Especial. Disco que traz obras de Josias Silva Sobrinho, Cartola, Paulo Vanzolini, José Maria Giroldo, Carlos Paraná, Adauto Santos, Leci Brandão, adaptação de O Menino feita por Dercio Marques, Chico Maranhão, João do Vale, Helena Gonzaga, Rossini Tavares de Lima, Leo Karan e Gilberto Karan só podia ser uma Edição Especial.

E mais, apresentação do eminente e resistente jornalista, escritor, amicíssimo de Marcus Pereira, e também boêmio, porque socialista não é de ferro, Audálio Dantas. Um homem com uma história política rica nos meandros do Brasil. E mais do mais, em sua apresentação, ele faz um esboço histórico do Jogral. Jogral, criado junto com Carlos Paraná, “bar e assembleia permanente de amigos”. E mais do mais, do mais, traça as linhas da criação da Discos Marcus Pereira.

Deixemos de coisas. Vamos ao Audálio Dantas!

 MANDA VER, AUDÁLIO DANTAS!

“Uma sensação muito clara de enriquecimento de quem conseguiu fazer treze pontos no jogo mais importante da vida, que é o da relação Humana”.

Quem disse isso foi Marcus Pereira, por causa da alegria que sentiu no dia em que ganhou um violão de estimação, presente de Carlos Paraná, seu parceiro de canções e inventor do “Jogral”, bar e assembleia permanente de amigos.

Marcus Pereira foi o co-inventor e sócio do “Jogral”, um bar tão verdadeiro que podia ser equiparado ao mais honesto dos botequins deste país. Na verdade, o “Jogral”, bem comparado, era um botequim que fazia algumas concessões: tinha lé seus uísques e outras bebidas finas. Mas não desprezava a cachaça, da qual alguns fregueses, como Paulo Vanzolini, doutor em bichos e sambas, tomava generosas talagadas. Com gelo. No mais, era assembleia permanente, a roda de amigos, de gente que se queria. E música.

A música, da boa e brasileira, era a presença mais forte no “Jogral”. Tanto, que o nome do bar virou selo de disco e foi parar numa gravação histórica – “Paulo Vanzolini, onze sambas e uma capoeira” – a primeira de uma série que de tão boa, terminou por dar origem a uma empresa hoje incorporada ao patrimônio cultural brasileiro – “Discos Marcus Pereira”. Este primeiro disco, de 1967, trazia a marca “Jogral” e dava a dimensão do próprio bar, que reunia os melhores interpretes da música popular brasileira (a rigor, nenhum dos nosso músicos importantes, de Cartola a Chico Buarque, deixou de passar pelo “Jogral”, a serviço ou em missão de boemia e amizadae).

Outro disco com a marca do “Jogral” sairia em 1968, “Flauta, Cavaquinho e Violão. Um disco de choro, corinho brasileiro, Carinhos, Tico-Tico no Fubá, Brejeiro, André do Sapato Novo, Apanhei-te Cavaquinho. Os interpretes, gente de casa, Manezinho da Flauta, Adauto Santos, Geraldo Cunha, Benedito Costa, Fritz. E desse jeito um barra, um ilustre botequim ia tecendo a sua participação na história de uma produtora de discos.

Marcus Pereira navegava no sonho de produzir muitos discos de música brasileira de qualidade. No “Jogral”, seu barco de rirmos e afetos, ele foi, aos poucos, abrindo o caminho de sua produtora, tarefa repartida com Carlos Paraná, sócio de bar e de sonhos.

Do bar, Marcus Pereira era sócio minoritário. Sua participação, dizia, era “afetiva, artística, boêmia e desse capital nós recebíamos dividendos astronômicos”. O resto era garantido pela “Marcus Pereira Publicidade”, uma agência de sucesso que logo daria lugar a uma produtora de discos. Marcus justificaria mais tarde: “Eu não gostava do que fazia, em sã consciência é muito difícil gostar de ser cúmplice de interesses que vivem a estimular, ao delírio, o consumo numa sociedade onde apenas a minoria tem condições de consumir, inclusive as coisas fundamentais da vida”.

Estas palavras, este modo de ver o mundo definem Marcus Pereira, a quem este disco, com o selo dignificou, presta a devida homenagem. Um disco com música brasileira  da que Marcus mais gostava, interpretada por artistas que ele lançou, relançou ou simplesmente admirou.

Por enquanto, fica esta homenagem. O resto, o devido, virá no dia em que se escrever um novo capítulo da história da música popular brasileira, na qual deverá parecer, iluminado, o nome de Marcus Pereira, pastor da noite, arrebanhador de ritmos brasileiros, norte, sul, leste, oeste. Esse trabalho, o de arrebanhar ritmos, ele fez com tanto amor e competência, que, dizem por aí, pelos bares da vida, nos jograis que resistem, que o Marcus, como já aconteceu com Carlos Paraná, virou música”.

Audálio Dantas

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FICHA TÉCNICA

“Faz um ano, neste fevereiro de 82, que Marcus Pereira nos deixou. Lá se foi ele, convocado, quem sabe, pelo Carlos Paraná, para a fundação do “Jogral” do Céu. Por certo eles estão juntos, curtindo os momentos maravilhosos que passaram aqui deixando um altíssimo saldo positivo em favor da música e do músico brasileiro.

Marcus Pereira se foi e ficou um vazio enorme entre nós que o queríamos tanto. Procuramos, então, reunir as músicas que ele mais gostava e alguns amigos a quem ele deu a mão, gravando o primeiro disco. Saiu esta seleção de vários estágios, de várias épocas de sua gravadora, a Discos Marcus Pereira, muito mais um estado de espírito que uma gravadora convencional”.

VIVA O VINIL! “SERTÃO EM VÁRIOS CANTOS” DE ROSEMBERG OLIVEIRA & ANSELMO SIQUEIRA

Abril 25, 2014

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Supérfluo se torna escrever uma só linha sobre o esquizófico Viva o Vinil: “Sertão em Vários Cantos” de Rosemberg Oliveira e Anselmo Siqueira, gravado revolucionariamente de forma independente, em Vitória da Conquista, na Bahia, no ano de 1989.

 Por que supérfluo? Por quê? Quando se tem cantos como este composto por Rosemberg Oliveira, “O Suor do Catingueiro”?

“E intão o brilho do secante astro

Abaixa aqui no meu margo sertão,

E indurece a varge da verdinha fava,

Marela epidemia assola todo o chão…

Reserva d’água bebe o mandacaru

No mais tudo interra é sequidão…

Que eu vejo no oiá do catingueiro

Ele sê um brasileiro, a percura d’ua mão!”

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Sabe por que esquizovinílicos? Porque a bolacha crioula tem a apresentação de ninguém mais do que o trovador das caatingas diretamente da Casa dos Carneiros, Elomar. E alguém pode apresentar uma bolacha crioula autóctone melhor do que ele? E com assinatura ou rubrica, dependendo do gosto do filólogo. Logicamente que não!

Por esta realidade, essa bolacha crioula é joia rara, relíquia, mano velho! Sabe lá o que é dois talentosíssimos músicos apresentados por Elomar? É o bicho da estética musical, “companheiro que passa pela estrada, seguindo pelo rumo do sertão”, como diz o poeta-musical de Sobral (só para rimar), Belchior. 

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Fala, Elomar! Deixa teu legado para as gerações que não te conhecem, mas te respeitam e adoram!

ODAIR JOSÉ, O CRIADOR DO ROCK PSICODÉLICO E COMCEITUAL, CANTA PARA SEXTA-FEIRA SANTA

Abril 18, 2014

Hoje, dia 18, sexta-feira santa o momento máximo do culto religioso, segundo a ordem da dogmática-sagrada, nada como apresentar um signo-musical sagrado-profano que trata desse tema da hagiografia produzida pelo cristianismo.

E ninguém melhor, no mundo urbano, para exaltar a concepção que os elementos míticos e mitológicos transcreveram historicamente do sagrado do que aquele que é conhecido como o criador do rock psicodélico e conceitual brasileiro, Odair José. Segundo personagens importantes da crítica roqueira Odair José, com seu álbum inicial O Filho de Maria e José, pode ser considerado o criador do rock psicodélico e conceitual do Brasil. Um álbum que já preconizava o que viria depois. Um dos compositores nacionais mais gravados pelos roqueiros vanguardistas.

 Odair José, apesar das opiniões preconceituosas que rondavam os meios de comunicação da década de 70, catalogando-o como “cantor das empregadas domésticas”, como coisa que essas trabalhadoras não tivessem inteligência e sentidos para opinar sobre seus interesses pessoais, foi um dos compositores mais perseguidos pela censura não só a censura do regime militar, mas também a do patrulhamento exercida por alguns ouvintes que o tomavam como cantor de puteiro. Eufemisticamente considerado cantor de lupanar. Em época de análise dos 50 anos da implantação da ditadura no país não se pode deixar de fora um olhar sobre Odair José.

Como Odair José cantava de certa forma o cotidiano, que por si só é uma forma de ditadura já que preserva o modelo comportamental da sociedade capitalística, ele teve obras suas censuradas. Os costumes de uma classe média alienada foram tocados pelo compositor. Principalmente sua falsa moral. Aí sua forma de protesto em plena a ditadura. Mesmo assim, essa classe que vive de caras e bocas, não entendia. O convincente exemplo encontra-se registrado no momento em que ele participava do Festival da Phillip. No momento em cantava “Vou tirar você desse lugar”, os alienados o vaiaram acreditando que era uma ofensa às suas ”sensibilidades”. Entretanto, Caetano Veloso, que também participava do festival promovido pela gravadora, subiu ao palco e começou a cantar junto com ele. Logo, logo os infelizes silenciaram. “Vocês merecem é violão na cara!”. Lembrança do fato que o cantor e compositor, Sérgio Ricardo, em um festival de música MPB, jogou seu violão na plateia que o vaiava.

Daí, que nessa sexta-feira, pega bem, pelo menos, mostrar uma letra que ele cantava na década de 70 e que fora muito bem propagada pelo rádio, território de comunicação verdadeiramente democrático, em virtude do som não se fechar na casa do ouvinte, mas se propagar para as casas vizinhas. Quantos não aprenderam músicas escutando o rádio da vizinha. Aliás, o rádio era o grande companheiro dos cantores antes da ditadura da televisão. E, hoje, a ditadura da internet. Vamos nessa, esquizofílico.

Na sexta-feira santa

Eu lhe procurei

Fui na sua casa

E não lhe encontrei.

Minha mãe dizia:

“Filho pode esperar

Um dia ele volta

E o mundo vai salvar”.

A onde você foi?

Cadê a sua cruz?

Venha me dizer:

Quem é você Jesus.

Inquietante e angustiante pergunta de Odair José: “Quem é você, Jesus?” Poucos sabem, porque não o querem real, mas tão somente mitificado e mistificado. Daí não poderem saber que é esse Homem. Quando Odair José se inquieta, em querer saber, é porque ele já tem uma variável que escapou do sistema que aprisionou esse Homem, Jesus.

Feliz Páscoa, moçada! 

 

VIVA O VINIL! A JOIA RARA “CAIPIRA – RAÍZES E FRUTOS” COM APRESENTAÇÃO DO FILÓSOFO E FILÓLOGO, ANTÔNIO CÂNDIDO

Abril 16, 2014

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Viva o Vinil! É isso aí, companheiros, manos, manas, amigos, amigas! Esse Esquizofia  apresenta a relíquia, a joia rara em forma de ‘bolacha-crioula’ duplicada, o álbum Caipira – Raízes e Frutos, com as presenças de nada menos que as maiores personalidades da música caipira como Mineiro e Manduzinho, Adauto Santos, João Pacífico, Toninho Café, Solange Maria, Pedro Chiquito, Geraldo Filme e Paulinho Nogueira que cantam as obras, além das dos interpretes, as de Zé Carreiro e Carreirinho, Theo Barros, Cornélio Pires, Palmeira, Candeia e Alvarenga, Tião Carreiro entre outros. E para fundamentar mais essa potência Vinil, o álbum trás alguns ‘causos’ conhecidos no meio rural. E por que não, também, no meio urbano que lhes guarda interesse?

Essa joia rara, essa relíquia cobiçada, lançada em agosto de 1980, é uma produção do Estúdio Eldorado, que na mesma linha da Marcos Pereira Produção acreditou que existem muitos possíveis e virtuais para a realização e atualização da música brasileira. Entenderam que apesar de toda paranoia de um sistema de captura e vigilância, sempre uma variável consegue escapar como potência criadora de novos modos de ser.

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O Vinil é tão joia rara, tão relíquia que tem a apresentação do filósofo, filólogo, escritor e engajado socialista, Antônio Cândido. Olhem só a aula que ele profere sobre o mundo caipira. É para aprender e desdobrar comunitariamente. E tem mais. Tem a apresentação do álbum duplo de autoria de ninguém mais do que Aluízio Falcão. Vamos nessa!

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O MUNDO DO CAIPIRA

Antônio Cândido

“Este disco põe o ouvinte no centro de um mundo cultural peculiar, que está se acabando por aí: o mundo caipira.

A gente que vive na cidade procurou sempre adotar modos de ser, pensar e agir que lhe pareciam os mais civilizados, os que permitem ver logo o que uma pessoa está acostumada com o que é prescrito de maneira tirânica pelas modas – moda na roupa, na etiqueta, na escolha dos objetos, na comida, na dança, nos espetáculos, na gíria. A moda logo passa; por isso a gente da cidade deve e pode mudar, trocar de objetos e costumes, estar em dia.

Como consequência, se entra em contato com um grupo ou uma pessoa que não mudaram tanto assim; que usam roupa como a de dez anos atrás e respondem a um cumprimento com certa fórmula desusada; que não sabem qual é o cantor da moda nem o novo jeito de namorar; quando entra em contato com gente assim, o citadino diz que ela é caipira, querendo dizer que é atrasada e portanto meio ridícula. Diz, ou dizia, porque hoje a mudança é tão rápida que o termo está saindo das expressões de todo o dia e serve mais para designar certas sobrevivências teimosas ou alteradas do passado: música caipira, festas caipiras, danças caipiras, por exemplo. Que, aliás, na maioria das vezes, conhecemos, não praticados por caipiras, mas por gente que finge de caipira e usa a realidade do seu mundo como produto comercial pitoresco. 

Nem podia ser de outro modo, porque o mundo em geral está mudando depressa demais neste século, e nada pode ficar parado. Hoje creio que não se pode falar mais de criatividade cultural no universo do caipira porque ele quase acabou. O que há é impulso adquirido, resto, repetição, – ou paródia e imitação deformada, mais ou menos parecida. Este disco é um esforço para fixar o que sobra de autêntico no mundo caipira, devida à influência inevitável da cultura das cidades.

Aliás, a cultura do caipira não é nem nunca foi um reino separado, uma espécie de cultura primitiva independente, como a dos índios. Ela representa a adaptação do colonizador ao Brasil e, portanto, veio na maior parte de fora, sendo sob diversos aspectos sobrevivência do modo de ser, pensar e agir do português antigo. Quando um caipira diz “pregunta”, “a amo’que” “depois”, “vassuncê”, “tchão” (chão), “dgente” (gente) não está estragando por ignorância a língua portuguesa; mas apenas conservando antigos modos de falar que se transformaram na mãe-pátria e aqui. A até o famoso “erre retroflexo”, o “erre de Itur” ou “de Tietêr”, que se pensou devido a influência do índio, viu-se depois que pode ter vindo de certas regiões de Portugal. Como veio o desafio, a fogueira de São João, o compadrio, o jogo do cacete, a dança de São Gonçalo, a Festa do Divino, a maioria das crendices, esconjuros, hábitos e concepções.

Quantas vezes ouvi caipiras “improvisando” na viola quadras bonitas que anos depois encontrei em coleções de folclore português! Lá por 1946, creio que num sítio perto de Rio das Pedras, me senti transfixado pelos versos admiráveis de um deles sobre a pureza de Maria Virgem, recebendo no seio o Espírito Santo sem a mancha do nosso velho pecado. Mais tarde, numa coletânea de poesia popular portuguesa, li quase a mesma coisa, identificando a fonte que o cantador ignorava tanto quanto eu e com a qual se comunicava por participar na sequência de uma longa tradição.

Portanto, é preciso pensar no caipira como um homem que manteve a herança portuguesa nas suas formas antigas. Mas é preciso também, pensar na transformação que ela sofreu aqui, fazendo do velho homem rural brasileiro o que ele é, e não um português na América. “Tabareu”, “matuto”, “capiau”, “caipira” ou o que mais haja, ele é produto e ao mesmo tempo agente muito ativo de um grande processo de diferenciação cultural própria.

No Norte, talvez esteja mais perto do português pela língua e a tradição, apesar da mistura maior com as raças ditas de cor. No Sul está mais afastado, mais transformado pela contribuição do índio. Na extensa gama dos tipos sertanejos brasileiros, poderia ser considerado “caipira” o homem rural tradicional do Sudeste e porções do Centro-Oeste, fruto de uma adaptação da herança portuguesa, fortemente misturada com a indígena, às condições físicas e sociais do Novo-Mundo.

Na verdade, o caipira é de origem paulista. É produto da transformação do aventureiro seminômade em agricultor precário, na onda dos movimentos de penetração bandeirante que acabaram no século XVIII e definiram uma extensa área: São Paulo, parte de Minas Gerais e do Paraná, de Goiás e de Mato Grosso, com a área afim do Rio de Janeiro rural e do Espírito Santo. Foi o que restou daquilo que um historiador grandiloquente, mas expressivo, chamou de “Paulistânia”.

Nessa linha de formação social e cultural, o caipira se define como um homem rústico de evolução muito lenta, tendo por fórmula de equilíbrio a fusão intensa da cultura portuguesa com a aborígene e conservando a fala, os usos, as técnicas, os cantos, as lendas que a cultura da cidade ia destruindo, alterando essencialmente ou caricaturando. Não se trata, portanto, de um ser a parte, mas de um irmão mais lerdo para quem o tempo correu tão devagar que frequentemente não entra como critério de conhecimento, e que em pleno o século XX podia viver, em parte, como homem do século XVIII. Quem esteve em contato com ele sabe, por exemplo, o quanto é impreciso sobre a própria idade e como não consegue pôr datas na lembrança, além de não saber o que se passa na sociedade maior, cujos sinais podem estar ao seu lado sob forma de jornal que ele não lê, de cinema que não vê, de rádio que não escuta, de trem que não toma.

“Como vai o Imperador?” – perguntou-me em 1948 o nonagenário Nhô Samuel Antônio Camargo, nascido no Rio Feio, atual Porangaba. “Vai bem”, respondi. E ele, com uma dúvida: “Mas não é mais aquele veião de barba?” E eu: “Não agora é outro, chamado Dutra”.

Em compensação, no quadro da sua cultura o caipira pode ser extraordinário. É capaz, por exemplo, de sentir e conhecer a fundo o mundo natural, usando-o com uma sabedoria e uma eficácia que nenhum de nós possue. No ano de 1954, na zona rural de Bofete, eu me atrasei para um encontro com Nhô Roque Lameu, marcado para as 10 horas. O meu relógio indicava 10:15 e eu comentei que estava desacertado. “Está pouca coisa, disse ele, porque pelo sol deve ser 9 e meia”. Quando dali a pouco acertei o relógio, vi que estava adiantado 45 minutos, e que o velho caipira não apenas calculara a hora com absoluta exatidão, mas achava que três quartos de hora não era coisa apreciável, além de não me corrigir, com a constante polidez do caboclo, lembrando que ao contrário, eu tinha chegado antes da hora marcada.

Com seu perfil adunco, cor bronzeada e barba rala na face magra, Nhô Roque podia ser um mameluco apurado. Do ancestral português herdara com a língua e a região a maioria dos costumes e das crenças; do ancestral índio herdara a familiaridade com o mato, o faro da caça, a arte das ervas, o ritmo do bate-pé (que noutros lugares se chama cateretê), a caudalosa eloquência no cururu.

O cururu é a dança da Santa Cruz são dois exemplos muito bons do encontro das culturas. Parecem terem sido elaborados sob a influência

Dos jesuítas, que aproveitaram as danças indígenas e o gosto do Índio pelo discurso e o desafio para enxertar a doutrina cristã. Nada mais caipira do que cururu e dança da Santa Cruz, que só existem em áreas de forte impregnação originária dos antigos piratininganos. E nada mais misturado de elementos portugueses e indígenas, como tanta coisa que observamos nas cantigas, nas histórias, nas técnicas do homem rural pobre e isolado de velha origem paulista.

Faz muito tempo que não ando pelos lugares isolados do interior, e nem sei eles ainda existem como tais depois da multiplicação das estradas e ônibus. Quando eu andava, entre 1943 e 1955, o caipira ainda era uma realidade cultural definida, apesar de ser cada vez maior a sua ligação com a cultura urbana, aceleradamente modernizada. Era espoliado e miserável na absoluta maioria dos casos, porque com o passar do tempo e do progresso, quem permaneceu caipira foi a parte velha da população rural sujeita às formas mais drásticas de expropriação econômica, confinada e quase compelida a ser o que fora, quando a lei do mundo a levaria a querer uma vida mais aberta e farta, teoricamente possível.

Foi então que o caipira se tornou cada vez mais espetáculo, assunto de curiosidade e divertimento para o homem da cidade, que, instalado na sua civilização e querendo ressaltar este privilégio, usava aquele irmão miserável para provar como ele tinha prosperado, como era triunfalmente diverso. A vida do caipira ficou sendo então, para ele próprio uma privação terrível, porque comparável a outras situações; e para o citadino, um divertimento que lhe dava a confortável sensação de haver mudado para algo melhor e mais alto.

A partir daí, o canto e a música caipira sofreram, não as influências normais e por assim dizer orgânicas que sempre sofreram das suas congêneres cultas; mas a deformação caricatural e alienante que a desfigura, e que corrompe o gosto médio como vingança involuntária do espoliado contra seus espoliador.

A tarefa, portanto é procurar o que há nele de autêntico. Autêntico, não tanto no sentido impossível do originariamente puro, porque em arte tudo está mudando sempre; mas no sentido de buscar os produtos que representam o modo de ser e a técnica poético-musical do caipira como ele foi e como ainda é; não como querem que ele seja para espetáculo dos outros”. 

AGNALDO TIMÓTEO ENFRENTA A DITADURA COM AS FERAS DA MPB – VIVA O VINIL!

Abril 3, 2014

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“Desde de 15 anos, continuo buscando a fórmula mágica para me identificar com as pessoas românticas e sensíveis.

Neste novo L.P. acredito que tenha dado mais um passo a frente na minha carreira, pois consegui reunir mais alguns ilustres Companheiros”.

O cantor e compositor Agnaldo Timóteo é daqueles artistas em que a crítica estabelecida tem dificuldade de indicar qual é o seu público-particular. Alguns dizem que ele canta para os sentimentais – todos nós somos sentimentais porque temos sentimentos -, outros dizem que ele canta para os românticos – todos nós somos românticos, temos herança romancista -, mais outros dizem que ele canta para os recalcados-nostálgicos – todos nós, segundo Freud, somos recalcados -, e mais, mais outros dizem que ele canta para os desiludidos – todos nós somos desiludidos, exemplo simples, quando o time que torcemos perde -. O certo mesmo é que os críticos estabelecidos são impotentes para indicar seu público-particular.

ÂNGELA SAPOTI E TIMÓTEO

Um dia sua madrinha, Ângela Maria, ele era motorista da Sapoti, disse: “Menino, que voz tu tens! Por que tu não te tornas cantor?” Não deu outra: lá foi Timóteo gravar. Gravou música nacional, versões italianas, francesas, inglesas, o escambau. Se apresentou em shows, em clubes, arraiais, feiras, em TVs, “galeria do amor”, o cacete. Mas durante a década de 70, a década de maior repressão imposta pela ditadura civil-militar, não se teve notícia de qual era a posição de Timóteo. Os ‘patrulhadores’ ficavam putos por não saberem qual era a do crioulo-mineiro. Só sabiam que ele embalava, com suas músicas, como Roberto Carlos, os sonhos e bocejos matinais, vespertinos e noturnos da classe média alienada. Nada mais. Timóteo era um alienado-cantor do frisson-glamouriouso, diziam.

TIMÓTEO E AS FERAS

Mas eis que em 1980, Timóteo, surpreende todos caluniadores com uma guinada de quase 360 graus: enfrenta a ditadura com as feras da MPB e grava pela EMI-ODEON, o L.P. Companheiros. A crítica estabelecida e a dita intelectual não entendeu nada. “Como que um cantor-cafona grava Gonzaguinha, César Camargo Marinho. É o fim do mundo, meu! Ou o fim da ditadura!”. Bradou a crítica recalcada, como diz o teatrólogo Zé Celso. Pode ser o fim de tudo, meu, mas o certo é que Timóteo não gravou só Gonzaguinha, gravou também Taiguara, Carlos Dafé, Abel Silva, Fagner – hoje personagem triste do decadente frenesi da TV GLOBO e um dos amigos dileto do conservador, Aécio Neves – entre outros, acompanhado por nada menos do que os ilustres músicos Pareschi, Paschoal Perrota, Nathércia, José Alves Pissarenko.

Penteado, Maria Léa Ana Maria Stephany, Jaime Araujo, Heraldo, Paulo César, Jamil, Luiz Avellar, Cleudir, Picolé, entre outras feras.

P1000300Hoje, quando se comemora 50 anos de ditadura – Comemorar ditadura? É um horror! Comemoração pelas lutas libertárias que não morreram diante da opressão, seu otário! -, observando o L.P. Companheiros, do cantor com público heterogêneo, pode-se afirmar que essa é uma obra com expressão antiditadura. Depois Timóteo encontrou Brizola, brizolou, foi um dos grandes entusiasta da eleição de Lula, tornou-se vereador. E depois…

Bom, é isso aí, Companheiros! Viva o Vinil!

VIVA O VINIL!

Junho 28, 2013

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Nossa coluna intempestiva Viva o Vinil traz mais uma grande bolacha pretobrástica da nossa música. Trata do LP Bandeira de Aço de Papete e Compositores do Maranhão. Lançado pelos Discos Marcus Pereira este que é o segundo disco de Papete não é um disco de bumba-meu-boi. Porém tocas as músicas traz um pouco dos sotaques (ou estilo) da música presente no folguedo com instrumentos como a zabumba (instrumentos sobresalentes no boi de Zabumba),as matracas que dão o tom ao Boi de Matraca , tambor onça, chocalho, o pandeirões e pandeiros menores (mais comuns no boi de Pindaré) e os metais principalmente usados no Boi de orquestra, como pistons, saxofone, etc.

As músicas do disco conta com os compositores Carlos César, Josias Sobrinho, Ronaldo e Sergio Habibbe e relata um pouco da rica vida cultural do Maranhão com agradecimento ao bumba-meu-boi de Tabaco em Madredeus, a Ubiratan Souza, Chico Maranhão, Mané Onça, Vavá e tantos outros nomes em que “cada um com seus sonhos, seu trabalho, sua vontade de fazer nada, ou de fazer tudo para que o trabalho seja conhecido e entendido”.

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A rica sonoridade de Papete não está apenas em seu talento e longa jornada como percussionista do Jogral e nas pesquisas pelo “Mapa musical do Brasil”. A riqueza é fruto de uma cultura maranhense/nordestina, onde a alegria do negro, índio, negro criou diversas manifestações culturais.

Obviamente com o mérito dos compositores que produziram letras únicas como Engenho de Flores, Eulália, Bandeira de Aço, Boi da Lua, Boi de Catirina, Catirina, Flor do Mal e todas as outras. Catirina, a companheira de nego Chico no folguedo do bumba-meu-boi, é tema de duas das cantorias.

Todas estas músicas afirmadoras da vida cultural dos povos brasileiros são cantadas pela voz serena acompanhada de Carlão no violão de 12, Otacílio no contra-baixo, Sergio Mineiro e Márcio Werneck nas flautas e Rodolpho Grani no coro. O disco contou ainda com a produção de estúdio do próprio Papete.

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O encarte que vem junto com o LP traz esta imagem de bonecos de pano representando os personagens do bumba-meu-boi. Além das letras, o encarte de Bandeira de Aço traz textos importantes assinados por Papete e Marcus Pereira.

E Lá vai, meu boi/ arrastando a barra/ a maré esbarra, no meio do boqueirão/ Levando um recado, pro meu senhor São João/ La na capital, São Luis do Maranhão.

Em tempos de um engessamento da divulgação da música brasileira pela indústria midiática, que se arrasta desde a época de Marcus Pereira, vemos muitos artistas que produzem uma música rica de partículas brasilianas mas que não são percebidos pelos ouvidos engessados da mediana classe de brasileiros tape/ados pelos meios televisivos e radiofônicos.

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Papete traz uma grande força popular em sua música junto aos compositores maranhenses, e por isto é algo que deve ser ouvido e divulgado não simploriamente como uma música regional do Maranhão. Mas como uma música brasileira de alta qualidade. Música esta que saiu dos berros dos vaqueiros e seus galopes, do canto forte dos amos de bois, de lavadeiras, de carregadores, de brincantes; dos casarões históricos de São Luis; dos tambores que ecoam em todos os cantos sejam eles de crioula, de mina, de boi, de índio, da alegria do encontro junino em todo país e que compõe uma riqueza cultural que continua transborando e se refazendando.

Assim o som que Papete entoa junto ao Maranhão e ao Brasil é algo vibrante e envolvente em uma experiência sonoro-cultural-brasileira-transcendental  para além das formas musicais alienantes.  Então Urra meu boi na urrada papetal deste vinil.