Archive for the ‘Cego Sebastião’ Category

CEGO SEBASTIÃO: “A cumbuca de ouro e os marimbondos”

Abril 20, 2010

…………………………………………………………………….Jabuti 2010 – AFIN®

“Quandu em passagi por um feira em Pernambuco
Fui desafiadu por outru violero
Para quem venceria a purfia de um dia inteiro
Até deixar a cumbuca cheia de dinheiro
E com eli aprendi a historia
di riqueza e pubreza
qui carrega o imagináriu du brasileiru
Ela foi cantada assim…

Havia dois homens, um rico e outro pobre, que gostavam de fazer peças um ao outro. Foi o compadre pobre a casa do rico pedir um pedaço de terra para fazer uma roça. O rico, para fazer peça no outro, lhe deu a pior terra que tinha. Logo que o pobre teve o sim, foi para casa dizer à mulher, e foram ambos ver o terreno. Chegando lá nas matas, o marido viu uma cumbuca de ouro, e, como eram em terras do compadre rico, o pobre não quis levar para a casa, e foi dizer ao outro que em suas matas havia riqueza. O rico ficou logo todo agitado, e não quis que o compadre trabalhasse mais nas suas terras. Quando o pobre se retirou, o outro largou-se com a mulher para as matas a ver a grande riqueza. Chegando lá, o que achou foi uma grande casa de marimbondos: meteu-a numa mochila e tomou o caminho do mocambo do pobre, e logo que o avistou foi gritando:
— Ó compadre, fecha as porta, e deixa somente uma banda da janela aberta!
O compadre assim fez, e o rico chegando perto da janela, atirou a casa de marimbondos dentro da casa do amigo, e gritou:
— Fecha a janela, compadre!
Mas os marimbondos bateram no chão, transformaram-se em moedas de ouro, e o pobre chamou a mulher e os filhos para as juntar. O ricaço gritava então:
— Ó compadre, abra a porta!
Ao que o outro respondia:
— Deixa-me, que os marimbondos estão me matando!

E assim ficou o pobre rico, e o rico ridículo.
…Não ganheia a pufia du dia inteiro
Não levei a cumbuca cheia di dinheiru
Mas ganhei a sabeduria dessi amigu violero
Vai viola encantandu i cantandu a sabeduria do violero”

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CEGO SEBASTIÃO: “A Reza do Matuto”

Março 31, 2010

Vô contá um contu
Qui si chama
“A reza do Matuto”
Di caráter religioso
Qui vai valorizá
A ingenuidadi
A fé,
A sinceridadi
As convicçãos
Dêsse povo simples
In contraposição ao fardo pesado
Da Igreja
I os insinamentos do padri,
na ripitição de oraçãos ‘sim’ convicção, ‘sim’ fé”.
Cantá viola! Como reza a fé desse povo!

Um matuto reza assim:
— Vinde a mim, meu Pai! Meu Pai, vinde a mim!
E avoava o chapéu na parede e o chapéu na parede ficava.
Então ele foi para a igreja e rezou:
— Vinde a mim, meu Pai! Meu Pai, vinde a mim!
E jogou o chapéu na parede e o chapéu ficou.
O padre viu isso e quando terminou a missa chamou o matuto, perguntou por que era que ele fazia aquilo. Ele respondeu que era porque confiava em Deus.
Aí o padre chegou e disse a ele:
— Venha cá que eu quero lhe ensinar a fazer orações.
Aí ele foi. Com uns dias o matuto voltou e disse:
— Senhor padre, não continuo com as suas orações porque não estão servindo de nada. Todas as vezes que eu rezo e sacudo o chapéu na parede o chapéu cai no chão.
E então rezou a dele e avoou o chapéu e o chapéu ficou lá grudado, na parede em frente.

CEGO SEBASTIÃO: “Mulher Dengosa”

Março 17, 2010

Jabuti 2010 – AFIN®

Sou Cego Sebastião
Na minha sina
De errante violeiro
Passando pelo sertão
Pernambucano
Aprendi uma história
De uma Mulher Dengosa…

Era uma vez um homem casado com uma mulher muito dengosa, que fingia não querer comer nada diante do marido. O marido foi reparando naquelas afetações da mulher, e quando num dia ele lhe disse que ia fazer uma viagem de muitos dias, ela se tornou sorridente. Ele saiu, e em vez de partir para longe, escondeu-se por detrás da cozinha, num coxo.

A mulher, quando se viu sozinha, disse para a negra: “Ó negra, faz aí uma tapioca bem grossa, que eu quero almoçar.”

A negra fez e a mulher bateu tudo, que nem deixou farelo. Mais tarde ela disse à negra: “Ó negra, me mata um capão e me ensopa bem ensopado para eu jantar.”

A negra preparou o capão, e a mulher devorou todo ele e nem deixou farelo. Mais tarde a mulher mandou fazer uns beijus muito fininhos para merendar. A negra os aprontou e ela os comeu.

Depois, já de noite, ela disse à negra:

Ó negra, prepara-me aí umas macaxeiras bem enxutas para eu cear.”

A negra preparou as macaxeiras e a mulher ceou com café. Nisto, caiu um pé d’água muito forte. A negra estava tirando os pratos da mesa, quando o dono da casa foi entrando pela porta à dentro.

A mulher foi vendo o marido e dizendo: “Oh! Marido, com esta chuva tão grossa você veio tão enxuto?!”

Ao que ele lhe respondeu: “Se a chuva fosse tão grossa como a tapioca que vós almoçastes, eu viria tão ensopado como o capão que vós jantastes, mas como ela foi fina como os beijus que vós merendastes, eu vim tão enxuto como a macaxeira que vós ceastes.”

A mulher teve uma grande vergonha e deixou-se de dengos. Então…

Na minha viola
Vou cantando
Canta, minha viola
O que ensina
Esse povo brasileiro.