Archive for the ‘Contos’ Category

Livro infantil contando a história do Dia da Mulher será lançado em BH

Março 10, 2017

‘Mirela e o Dia Internacional da Mulher’, da cientista política Ana Prestes, surgiu da ausência de livros sobre o tema voltados para crianças.

Será lançado em Belo Horizonte, no próximo sábado (11), o livro “Mirela e o Dia Internacional da Mulher”, que tem o objetivo de conscientizar ainda nos primeiros anos de vida sobre a importância desta data. Escrito pela neta de Luiz Carlos Prestes, a cientista política Ana Prestes, a publicação surgiu diante da inexistência de literatura infantil sobre o tema.

“A ideia veio de um trabalho escolar que minha filha teve que fazer aos 8 anos, sendo que ela teria que contar a história do Dia Internacional. Como não encontramos nenhum livro infantil sobre o assunto, resolvemos fazer um. Inventamos uma personagem, procurei uma editora, arrumamos uma ilustradora e acabou saindo”, lembrou a autora.

Para boa parte da população, a data seria apenas comercial, para promover a venda de flores e doces. A banalização da data estimulou a escritora na criação da obra. “Este tipo de material é importante como recurso de apoio nas escolas, para que estas crianças entendam desde cedo o porquê de existir um Dia da Mulher. É importante que elas saibam que pessoas lutaram e morreram para conquistar os direitos”, defende Ana Prestes.

Nesta quarta-feira (8), viralizou nas redes sociais um vídeo da filha da autora, Helena Prestes, recitando o poema que introduz à obra. “Metade do mundo são homens, a outra metade, mulheres. Dividimos tudo no globo, menos os afazeres. À mulher se dá menos valor, e muito mais obrigação. O 8 de março portanto, seria a data do não. Não aos menores salários, não à exploração, não à violência, não à submissão”, diz a pequena, que inspirou o livro, nas imagens que circulam na internet.

Mãe e filha estarão presentes no lançamento do livro, sendo que Helena recitará a obra na íntegra durante o evento, que é organizado por movimentos sociais. Também haverá a participação de palhaças, além de brinquedos e diversões para crianças.

O lançamento acontecerá às 15h na Casa do Jornalista, localizada na avenida Álvares Cabral, 400, Centro de BH.

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NO DEVIR EDUARDO GALEANO “AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA”

Abril 14, 2015

9891038b-ac20-4449-91ba-44ff187e23c0Ontem foi dia 13 de abril, Eduardo Galeano continua em fluxos mutantes e quantas desterritorializantes. A literatura filosoficamente engajada que leva a América Latina a sua condição de território de produção de libertação. A literatura que não pretende o descritivo, o interpretativo e o figurativo, mas o movimento.

As veias da América Latina se abrem não somente como indignação, mas como produção de liberdade política, cultural, literária, artística, científica, antropológica, econômica como corpo de disjunção da força opressiva imperialista. Veias que pulsão em continua produção de um sempre vir a ser. Devir Eduardo Galeano como processual literário encantador e desbravador de novas potências

divulgacao_lusa3Um filósofo cuja literatura faz vibrar as paredes das artérias cerceadoras dos movimentos. Dos transcursos, dos percursos. Filósofo como condição de observar, examinar e apresentar o novo. Da quadratura do futebol à sua liberdade criativa. Eduardo Galeano tem o jogador como um artífice de seu esporte que não deve se submeter às regras dos cartolas que seguem as regras do mercado. O jogador deve criar fruindo com alegria para criar a alegria do povo. Seu livre futebol é sua dimensão política que escapa das grades cerceadoras.

4dc54bdd-c728-44d7-97ca-73f919e5a9b8Escrever filosofando é se movimentar entre todas as ambiências-histórias tocando de leve ou pesado em seus personagens e suas causas, com a condição de comprometer o presente como excitação-futuro. No caso da literatura nada de superficialidades negadoras da vida. E no caso da América Latina comprometer todas as causas e condições pela singularidade do home latino.

910866-feira do livro_galianiComo um literato-filosofante, Eduardo Galeano carrega o entendimento, o os sentidos no homem alegre, como seu amigo Jose Mujica, o presidente o revolucionário-movente. Os dois acreditam que as veias são corpos do movimento do sangue-vida. Que estejam abertas ou fechadas contanto que se movimentem.

Eduardo Galeano, a grandeza e a sobriedade exaltadoras da vida contra a “ditadura do medo”.

Veja a entrevista que Galeano concedeu ao sociólogo e escritor Emir Sader na TV Brasil.

VISITA DE NATAL*

Dezembro 27, 2014

nevoeiroA família estava sentada ao redor da mesa, pronta para a ceia natalina, exatamente às 24 horas, quando a campainha tocou. A irmã mais nova levantou-se e foi até a porta para atender a visita. De repente um grito de alegria tomou conta da casa. A moça, depois de abraçar e beijar o visitante correu para os familiares avisando que o irmão voltara.

Ele entrou na sala, onde todos estavam reunidos, chegou perto da mesa e pediu que ninguém se levantasse e disse que a visita era curta. Foi até a mãe, que se encontrava sentada a cabeceira da mesa e deu-lhe um terno beijo no rosto e acariciou os seus cabelos grisalhos. Durante alguns minutos ficou com a mão esquerda sobre o ombro da mãe.

A irmã mais nova, maravilhada, contemplou o rapaz belo, com os cabelos negros compridos, a camisa de algodão branca, a velha calça jeans, em um corpo magro, de 22 anos, sobre um par de sapatos grossos que a irmã mais velha dizia ser de andarilho. Lá estava ele, o irmão que todos amavam e que partira há anos e que agora se fazia presença. O tempo passara, mas ele continuava a inconfundível e eterna beleza juvenil capaz de ofuscar Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Pediram que ele sentasse e provasse da comida e da bebida. Ele agradeceu e disse que só voltara para anunciar a boa nova. Todos ficaram em silêncio e ele contagiado de alegria disse, sorrindo, que haviam vencido. A mãe chorando de contentamento lembrou que era o que o pai dele sempre dizia durante o tempo que viveu.

Ele abraçou e beijou todos e se despediu. A irmã mais nova correu e se abraçou com ele pedindo que ficasse. Ele a beijou e cantou um trecho da música Flora, de Ednardo. “Há um tempo de plantar saudade. Há um tempo de colher lembrança. Pra depois com o tempo chorar”. E completou, dizendo que o tempo de chorar havia passado e que agora era tempo de fazer o sertão florir.

A irmã quis lhe acompanhar ate a porta, mas ele pediu que ela ficasse com os outros que ele gostaria dele mesmo fechar a porta às suas costas.

*Conto do livro Contos Sem Dez Contos, em preparação.

“A ESPINGARDA”, CONTO DO ESCRITOR, BERNARDO KUCINSKI, VENCEDOR DO CONCURSO DE CONTOS DE NATAL DE OURINHOS

Dezembro 26, 2014

donc-kucinski1A Associação de Amigos da Biblioteca Pública de Ourinhos realizou um Concurso de Contos de Natal. Participaram vários autores e autoras, muitos já conhecidos no mundo literário. Depois de realizada seleção e escolha, o primeiro lugar ficou para o engajado escritor e jornalista Bernardo Kucinski, com o conto a Espingarda. E o segundo e terceiro lugar ficaram para Maria Cristina Lobo pelo conto Decepção, e Ricardo Carvalho Cenaldo pelo conto O Envelope Vermelho.

Aproveitando, ainda, a quadra natalina, esse Esquizofia publica A Espingarda, de Bernardo Kucinski.

Como dizem as engajadas professoras, vamos à leitura!

A POESIA*

Dezembro 16, 2014

3615_(www.GdeFon.com)A sentença “tudo acabou, eu não te amo mais”, pronunciada por ela latejava como consciência imperiosa que ele não podia se desfazer na madrugada fria. Com as mãos nos bolsos, ele caminhava pelas calçadas sob as luzes lhe emprestando uma atmosfera soturna própria para um fim de romance.

Uma visão crepuscular era, naquele momento, o mundo para ele. Foi assim, que o filósofo Plotino lhe surgiu com seu tratado Do Amor, e em seguida, Lacan, conversando com Sócrates, lhe afirmando que “amar, é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. As palavras iniciaram uma dança de desnudez de suas armaduras sociais e, então, surgiu-lhe a estética poética como frêmito salvador de seu ser.

Absorto, em seu mundo crepuscular, necessária ausência da percepção-imediata, ele foi trazido à objetividade, onde se encontrava seu amor-partido, pela voz de um rapaz  com um revólver em punho afirmando ser um assalto. Ele, calmo, com um sorriso escondido na sombra de um poste onde parara, disse ao rapaz que só tinha vinte cruzeiros e foi entregando o dinheiro. O rapaz pediu o celular, ele respondeu que não usava celular e que não tinha outro objeto para lhe entregar. O rapaz simulou uma revolta, e ele completou dizendo que a única coisa de valor que carregava era uma poesia de amor que acabara de criar.

O rapaz sorriu contente e pediu a poesia dizendo que era para dar de presente a sua namorada. Ele perguntou se o rapaz tinha uma caneta e um papel, o rapaz respondeu que não, então foram até um bar próximo e pediram do garçom uma caneta e um papel. O rapaz demonstrando alegria pediu uma cerveja e dois copos. Enquanto ele escrevia a poesia, iam tomando a cerveja.

Quando terminou de escrever a poesia entregou-a ao rapaz. O rapaz deu um beijo no papel, chamou o garçom e pagou a cerveja com os vinte reais que tinha recebido dele. O rapaz lhe deu um abraço dizendo que com a poesia sua noite estava ganha, e saiu. Depois de andar cinco quarteirões, ao atravessar a rua, foi atropelado tendo morte instantânea.

O corpo no Instituto Médico Legal teve suas vestes tiradas pelo auxiliar do médico de plantão. Um rapaz de uns vinte e cinco anos. Junto com sua carteira de identidade, ele encontrou a poesia. Leu os primeiro versos, gostou, e guardou a poesia para oferecer ao seu namorado.

Quando deixou o plantão, alta madrugada foi a um bar fazer um lanche. No momento de pagar a conta, a poesia caiu de seu bolso e o vento alojou-a em uma cadeira. Um casal de namorados chegou à mesa onde se encontrava a poesia e o namorado pegou a poesia, começou a lê e disse à namorada que havia achado uma joia.

Dois anos depois, em um começo de madrugada, o poeta resolveu ir ao um point-noturno, uma espécie de pub-íntimo, onde ocorriam alguns shows musicais e lançamentos de novos cantores e cantoras. Chegou, sentou em um dos cantos do local, pediu uma bebida e ficou a apreciar um senhor com um bandoneon executar tangos de Piazzola. Em seguida um rapaz cantou músicas de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Quando o rapaz terminou sua apresentação, o gerente do recinto pegou o microfone e, com entusiasmo e satisfação, anunciou a grande atração da noite. Uma cantora revelação que ia lançar na casa o seu primeiro CD.

A cantora apareceu sob os refletores do palco, acompanhada por quatro músicos-instrumentistas, cumprimentou todos e agradeceu às presenças. Na sequência, disse que iria cantar a música que abria o CD, e que, para ela, era a música que mais gostava, principalmente pela letra, obra de um amigo regente e produtor musical do CD.

Ele, que desde que o senhor anunciara a nova atração encontrava-se de cabeça baixa, começou a fazer relação da voz da cantora com a voz de alguém que conhecia. Deixou-se ficar por alguns momentos de cabeça baixa para tentar, por teimosia-lembrança, reconhecer a voz. Foi então que os músicos executaram os acordes iniciais e a cantora pronunciou os primeiros versos da canção. Ele suspirou fundou e levantou a cabeça sorrindo dizendo para si que se não fosse coisa do homem ele acharia aquilo inconcebível. Lembrou Marx, citando Protágoras, “nada do que é humano me é estranho”.

Ficou escutando a voz grave, mas cativante da cantora, dando vida ao poema, que concedera ao rapaz da noite do fim de seu romance. Pensou que tudo que estava acontecendo era coisa do homem. A mulher que lhe disse que não lhe amava, amava um poema seu sem saber. Tomou um drinque, sorriu e Lacan, piscou para ele lembrando, “O sujeito vê o seu ser numa reflexão em relação ao outro, isto é, em relação ao ideal do eu”.

Deixou o point-noturno sob os aplausos da plateia que reconhecia o talento ímpar da cantora.

 *Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos.

AS LEMBRANÇAS*

Dezembro 8, 2014

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Antes, logo depois que se aposentara, ele não saía de casa. Tinha receio. Sua função havia lhe deixado uma marca: a desconfiança do outro. O vizinho, a rua, o mundo. Mas o tempo se encarregou de enfraquecer a desconfiança e lhe permitir recobrar uma parte de seu sentido de segurança.

Pois foi movido por essa parte de segurança que ele passou a frequentar a praça em frente ao prédio que morava e lá observar as pessoas que passavam e condensá-las em sua névoa-imaginária. Mas não eram todas as pessoas que ele permitia se encadearam em sua névoa-imaginaria. Não, ele tinha sua preferência. Uma preferência que se tornou frequente no tempo em trabalhava e era tido como um homem eficiente e dedicado.

Ele gostava de observar os jovens. Precipuamente as jovens. Não por um desejo sexual. Mas pelo o que elas lhe proporcionavam de sublimação de um ódio que ele não conhecia a origem.

Uma tarde, sentado no banco que sempre sentava de costas para o prédio onde morava, ele viu uma moça de uns vinte anos, alta, cabelos longos que em sua altivez lhe perturbou. Ele então permitiu que ela se condensasse com suas lembranças. Lá estava ela, nua, amarrada sobre uma mesa diante dos olhos dele. Dominada, ela não esboçava qualquer sentimento de medo. Ele então iniciou a sessão de tortura. Mas a jovem não gritava. Ele desatinou e intensificou sua perversão obrigando que ela olhasse nos olhos dele. Ela não obedeceu, fechou os olhos, e ele gritou ensandecido para ela abrir os olhos, enquanto aplicava choques elétricos em todo seu corpo.

De repente, a névoa-imaginária se desfez, e ele viu a moça se abraçar com um jovem de cabelos longos carregando um violão. Ele praguejou com ódio. A imagem do jovem se confundiu com a imagem de outro jovem correndo em uma viela e ele atirando em suas costas. Ele se aproximou e disse que esse era o fim de todo comunista.

Eram lembranças de ódio, ressentimento, inveja, impotência. Aposentado com 74 anos, ele se perguntava de que lhe valia o presente onde o passado não se atualizava como real. No fim de uma tarde, ele, sentado em seu banco-comum, viu uma turma de jovens cantando alegres e fazendo patomímicas. Teve impressão que uma jovem muito sorridente havia lhe concedido um olhar. Então, aproveitou a impressão e se viu invadindo uma casa, onde se encontravam alguns estudantes, e ele disparava alguns tiros.

Nesse momento ele ouviu uma freada brusca, uma batida forte, e quando se virou para se certificar o que era, viu um fio de alta tensão caindo sobre. Os jovens correram e de longe, abalados, gritavam que havia um velhinho eletrocutado perto do caminhão que batera no poste.

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Descontos.

BOM ENCONTRO*

Novembro 1, 2014

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A senhora era branca, cabelos claros nos seus 50 anos, e tinha uma banca na praça principal da cidade que além de salgadinhos, doces e bolos, vendia, também, o saboroso tacacá. Iguaria regional feita com goma, tucupi, jambu e camarão. Todas as guloseimas, que eram feitas por ela mesma, lhes causam satisfação, entretanto, era o tacacá que ela se sentia mais satisfeita em sua preparação. Poderia se dizer, que o tacacá era sua menina dos olhos.

Porém, ocorria algo que não agradava à senhora no momento da venda. Ela conseguia vender bem as outras iguarias, mas o tacacá, nada. Às vezes ela conseguia em uma tarde vender no máximo duas cuias. O que significava que ela tinha que voltar com quase todo o tacacá que havia feito com dedicação e desvelo.

Em uma tarde, uma senhora negra, gorda, nos seus, também, 50 anos, chegou até a banca e pediu da senhora um copo com água. A senhora prontamente a atendeu. Como não havia fregueses as duas ficaram proseando. A senhora negra disse que estava com sede porque andara muito. A outra senhora falou sobre sua venda. No meio da conversa chegou um casal de jovens e pediu duas cuias de tacacá. Em seguida três senhoras se aproximaram também pedindo tacacá. Entre uma cuia e outra, elas continuaram conversando. A senhora negra disse que precisava ir, pois morava em bairro longe. Despediu-se e partiu.

No fim da tarde a dona da banca percebeu, com grande alegria, que tinha vendido muitas cuias de tacacá. No outro dia a senhora da banca chegou contente imaginando vender tacacá como havia vendido no dia anterior. Entretanto, o tempo foi passando e ela só vendeu duas cuias. Ela ficou triste, mas logo se sentiu consolada ao lembrar, da venda passada, que para ela significava que seu tacacá tinha agradado outras pessoas.

Na outra tarde, lá apareceu a senhora negra, desta vez não para pedir água, mas para uma prosa. A senhora da banca sorriu contente e começaram a prosear. Logo cinco pessoas pediram cinco cuias de tacacá. O grupo logo começou a elogiar o tacacá, afirmando que ia avisar para os conhecidos que deveriam tomar a gostosa iguaria. Dessa vez não deu para quem quis: acabou todo o tacacá. A senhora negra se despediu, e a vendedora voltou para casa muito contente.

Quando deitou em sua cama para dormir, a dona da banca começou a raciocinar sobre a venda do tacacá. Alguma coisa lhe intrigava. Ela já trabalhava em sua banca alguns tempos, mas jamais experimentou o que ocorrera nos dois dias que vendeu tacacá além do esperado. Ela procurou resposta, mas não encontrou. Veio o sono e dormiu.

Durante os quatro dias da semana seguinte ela pouco vendeu tacacá. Na sexta-feira, que era um bom dia para a venda, a praça estava cheia de gente, ela estava pensativa, e não apareceu ninguém comprar tacacá. Quando ela menos esperava ouviu alguém dizendo que hoje queria água. Era a senhora negra. A dona da banca sorriu afetuosa e deu o copo com água. Nesse momento começaram a surgir pessoas pendido tacacá. De repente, um senhor se dirigiu à senhora negra e disse que nunca havia tomado um tacacá tão bom como o preparado por ela. Outras pessoas que ouviram a consideração, também elogiaram a senhora negra, pelo tacacá.

A dona da banca ao ouvir os elogios ficou maravilhada. A senhora negra disse que já ia embora, mas a dona da venda pediu que ela esperasse. Terminou a venda, a proprietária da banca contente perguntou se a senhora negra queria trabalhar com ela. E foi dizendo que descobrira que a venda do tacacá era porque os fregueses acreditavam que quem preparava é ela. Ela descobriu, porque a venda do tacacá aumentava toda vez que ela estava na banca. E concluiu afirmando que como por tradição cultural foram os índios que começaram o preparo do tacacá, juntamente com os negros, para os fregueses o melhor tacacá é feito pelos negros.

A senhora negra disse que agradecia, mas não sabia fazer tacacá. A dona da banca sorriu e disse que não era problema, ela a ensinaria. Elas se abraçaram, e não deu outra: a senhora negra aprendeu, as duas formaram uma sociedade e hoje quem quiser tomar tacacá das duas senhoras, tem que entrar na fila.

As duas senhoras ficaram tão famosas com o tacacá que entraram na lista turística da cidade que é distribuída nacional e internacionalmente.  

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos. 

BOB DYLAN: “SUA HORA HÁ DE CHEGAR”

Outubro 3, 2014

bob dylan live show concert

Um poema maravilhosamente revolucionário de seus movimentos estéticos. A criação poiética como a potência de atração e expressão do pensamento. Como criar diante da brutalidade e da estupidez constituída como forma de opressão.

Eles estão bem dispostos em suas posições. Bem dispostos por suas regras que defendem com orgulho. Eles estão enlaçados na mesma direção para impedir o pensamento se movimentar, por isso criam inimigos para acusa-los e condená-los. Eles não percebem que a “hora vai chegar”.

Um movimento esquizo de Bob Dylan em seu Ecrits et Dessins, Seghers.

“Sim, sou um ladrão de pensamento

não, por favor, um ladrão de almas

eu construí e reconstruí

sobre o que está à espera

pois a areia nas praias

esculpe muitos castelos

no que foi aberto

antes de meu tempo

uma palavra, uma ária, uma história, uma linha

chaves no vento para que minha mente fuja

e fornecer a meus pensamentos fechados uma corrente de ar fresco

não é coisa minha, sentar e meditar

perdendo e contemplando o tempo

pensando pensamentos que não foram pensados

pensando sonhos que não foram sonhados,

ideias novas ainda não escritas,

palavras novas que seguiriam a rima…

e não ligo para as novas regras

já que elas ainda não foram fabricadas

e grito que soa em minha cabeça

sabendo que sou eu e os de minha espécie

que faremos essas novas regras,

e se as pessoas de amanhã

tiverem realmente necessidade das regras de hoje

então juntem-se todos, procuradores generais

o mundo não passa de um tribunal

sim

mas conheço os acusados melhor que vocês

e enquanto vocês se ocupam em julgá-los

nós nos ocupamos em assobiar

limpamos a sala de audiência

varrendo varrendo

escutando escutando

piscando os olhos entre nós

atenção

               Atenção

sua hora há de chegar”

SEM PERDÃO

Outubro 2, 2014

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Eram nove horas de uma terça-feira quando o homem, com seu 74 anos, entrou na igreja da matriz e sentou-se no meio da última fila de cadeiras. Observou com atenção o interior do templo religioso com sua abóbada composta de anjos que rodeavam Deus envolto em nuvens. Depois sua atenção voltou-se para as colunas, os castiçais e os vitrais. Permaneceu nessa observação por alguns minutos quando foi despertado pela chegada do padre.

O padre entrou no confessionário, orou e ficou a espera do primeiro fiel para o ato da confissão. O homem suspirou fundo, levantou-se lentamente e se dirigiu ao confessionário com seus passos contidos. Ajoelhou-se com o ouvido esquerdo encostado na janelinha perfurada e, entre a respiração ofegante e a angústia, pediu a bênção do padre afirmando que era a primeira vez que se confessava. O padre respondeu que para Deus o importante são as decisões dos homens que os levam a se encontrarem com Ele em qualquer tempo, e convidou-o a contar seus pecados.

O homem começou sua confissão dizendo que desde criança jamais acreditou em Deus, e sempre acreditou que poderia viver muito bem sem essa crença. Quando cresceu essa certeza aumentara ainda mais. Deus uma pausa profunda, e depois continuou afirmando que essa certeza se tornara mais forte quando se tornou agente no tempo da ditadura. Confessou que sua missão como agente era prender, torturar e matar os comunistas inimigos do regime.

Dominado por um intenso calor em seu corpo, confessou que nesse tempo suas maiores alegrias eram matar os comunistas e religiosos. Pediu perdão ao padre pela segunda informação e explicou por que. Tinha alegria em matar comunistas porque eles eram, como ele, ateus e ele disputava a supremacia em ser o principal ateu. E quanto aos religiosos, gostava de sentir sua superioridade no ato da execução porque o preso clamava por Deus e o único deus presente era ele. Dessa forma mostrava que o religioso não acreditava em Deus, visto que Deus não o socorria porque não existia. A crença do religioso era pura ilusão.

Depois de contar mais detalhes de sua vida passada falou que o motivo de sua confissão era conseguir o perdão de Deus, pois entendia que havia se convertido ao catolicismo. Não aguentava mais viver com todos os pecados sem poder contar a ninguém. O perdão para si era o que poderia avivar seus últimos momentos sem culpa na terra. Parou de falar interrompido por um abundante choro entrecortado pelo pedido desesperado de perdão. O padre tentou acalmá-lo e quando o homem parou de chorar pediu que ele rezasse um Padre Nosso, voltasse para casa, meditasse muito sobre sua intenção e depois retornasse na sexta-feira pela parte da tarde que ele receberia sua confissão para o encaminhamento do perdão perante Deus. O homem agradeceu ao padre e partiu.

Na sexta-feira, às 16 horas, o homem entrou na igreja matriz e sentou-se no mesmo lugar que antes havia sentado. Dessa vez não mostrou interesse pelo interior do templo sagrado. Ficou de cabeça baixa. Minutos depois, ouviu passos na sacristia, levantou a cabeça e viu o padre se dirigir ao confessionário. O homem levantou-se com pressa, seguiu ao confessionário, se ajoelhou e foi logo clamando que estava vivendo em desespero. Os dois dias passados foram de intensa luta e dor. Pedira perdão aos ativistas políticos que havia preso, torturado, assassinado. Viu a fúria de Deus expulsando Lúcifer. Passou por Sodoma, Gomorra, Satanistas, todos os inimigos de Deus. Desceu ao inferno, vociferou contra Satanás, lutou contra Judas, Barrabás, beijou a mão de Paulo… Um sofrimento sem fim. Uma angústia sem fim. Um conflito sem fim. Medo e desespero o dilaceravam.

O padre pediu que ele se acalmasse. Foi então que o homem falou baixinho dizendo que a prova de Deus era que Ele continuava não existindo. Que Ele não teve a onipotência de lhe converter e que ele continuava o mesmo ateu que odeia comunista e religioso. Pediu que padre colocasse seu ouvido mais próximo, o padre atendeu seu pedido, ele abriu uma bolsa porsche, que carregava, tirou uma pistola com silenciador e atirou no ouvido do padre.

Guardou a pistola respirando ofegante, levantou-se com pressa, atravessou a igreja com os passos mais velozes do que sua idade permitia, chegou à porta, virou-se para o interior da igreja, fixou o olhar na imagem  de Cristo crucificado e falou baixinho, a sentença: sem perdão!

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos.    

VOCÊ VAI AO ANIVERSÁRIO DE 50 ANOS DA MAFALDA? AQUELA MENININHA QUE GRITOU: “PAREM O MUNDO QUE EU QUERO DESCER!”

Setembro 29, 2014

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No dia 29 de setembro de 1964, em Buenos Ayres, apareceu pela primeira vez nas páginas da revista argentina Primeira Plana, uma menininha que iria afetar o mundo com suas expressões e conteúdos hilários e muito inteligentes movimentados por uma criativa rebeldia. Essa menininha eterna é chamada de Mafalda. Cujo pai não é ninguém menos que o famoso e premiadíssimo desenhista e escritor argentino, Quino.

Hoje, dia 29 de setembro de 2014, no auge de sua continua meninice Mafalda, completa 50 anos. Uma infância cujo devir se mantém em uma variação continua de criatividade. Premiadíssima no mundo inteiro, junto com seu pai, Mafalda, iniciou sua cartografia de desejos humorísticos e protestadores quando enunciou, na década de 60, sua histórica crítica ao mundo conturbado proferindo “Parem o mundo que eu quero descer!” Essa enunciação pessoal, mas com reflexo coletivo já mostrava suas críticas à realidade perversa da economia e da política.

Seu devir/criança possibilitou que fosse traduzida para vinte idiomas e que tivesse, entre suas premiações na França Espanha e países da América Latina, uma estatua esculpida em San Telmo. Mas Mafalda, como socialista-crítica do mundo desumano, não realizou seus atos políticos, sozinha. Contou com a companhia de dois parceiros. Susanita, que gosta de marocagem e tem a ideia fixar de casar com um rico, e Manolito, materialista-capitalista, que sonha em ser o proprietário de uma rede de supermercados.

O talento revolucionário de Malfada chegou a afetar vários intelectuais e artistas. Como foi o caso do semiólogo, sociólogo e escritor Umberto Eco que a chama de “heroína enraivecida”. Pois é assim, amada pelas crianças e adultos que ela completa hoje seu jubiloso 50 anos.

Essa condição existencial de Mafalda foi sintetizada por seu pai Quino que, no auge de seu criativo e saudável 81 anos, falou em uma entrevista concedida no mês de outubro na inauguração da Feira do Livro em Buenos Ayres.

“Fico surpreso quando vejo que temas que abordei há 50 anos permanecem atuais. Até parece que desenhei a tira hoje. Deve ser porque o mundo continua cometendo os mesmos erros”, observou Quino.

Daí nos perguntarmos: Você vai ao aniversário de 50 anos da Mafalda?